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terça-feira, janeiro 16, 2018

BORGES, MARTHA MEDEIROS, CHLOË HANSLIP, TOYNBEE, MUMFORD, JEAN-MICHEL JARRE, JO HOWELL, CANAVIEIROS & EDUCAÇÃO AMBIENTAL

SALVE A VIDA! - Imagem: arte da artista visual e fotógrafa britânica Jo Howell. - Era cedo na vida e escurecia pra todo lado. Desde sempre aprendi com a noite. Já de dia quantas portas eu bati no meu desespero, nenhuma abriu. Um ou outro ombro amigo, vez ou outra, quando em vez. A dor era minha, paredões intransponíveis e o mundo uma caixinha de surpresas, repetia o meu nome muitas e mais de mil vezes, premido nas sombras. Era só o início e eu não sabia de nada, segredos inconfessáveis, gestos insuspeitos de degredo, porque a um só tempo ninguém sabia nada, ninguém entendia nada, ô gente mais desligada e a vida e o que der, conversa fora, lorotas, intrigas, opiniões canhestras senão equivocadas, falam de si e do que são, apenas, mais nada vale a pena, outras escuridades que eu nem sabia. Cada um sonhava mais do que podia e ainda sonham o que não podem, arrogando nobreza pra não dizer de patifarias, expunham santidades e se dizem espada da justiça, na verdade só e tão somente enredamentos malévolos pra rirem sem graça e para mostrarem o ideal do que não são, como se ricos mais abastados na soberba ao invés de miseráveis, pobres de espírito, só sabem de suas ladainhas de unhas encravadas na peleja do jogo pra gastar o tempo, a novela da desgraça alheia, o noticiário sanguinário, a dor de cotovelo, carestia na folga do domingo – aprendi a ver o pretume por trás dos agradáveis sorrisos. Pra mim, uma esfinge dita o enigma, uma cena – o blecaute do humano em nome da razão - e toda vida é só o estalar dos dedos ou basta apertar um botão, pronto, como se num toque de mágica da caligem pro céu azul ensolarado. Isso eu sabia e aprendi com a vida na cara e sei da efigie do embusteiro – pra quem vende gato por lebre, golpes na leseira alheia - e, ao menor aperto, ah, já vi muito e em todo momento cai uma e as tantas máscaras do rei ficar nu e o estupor é pra valer. Nem adianta abanar os olhos paralisados da face desmascarada, remorsos de prontidão, sequer podem levantar a vista, só ao rés do chão. Recorre-se a tudo, nada a mitigar o aturdido, o próprio nem sabe o que faz e fez. Como não tenho do que fugir já elegi a vigília dentro do meu desterro e o que virá depois é previsível por tanto golpe como se nada modificasse agora o de antes, nada deu certo, esforços inúteis, como se apenas nascesse pro arrependimento, todos nós. No mundo mesmo se tudo mudou sem medidas, nada mais que hálito de ontens, pretexto de nada. É nesse pé que as coisas estão, ao cabo de não sei quantas horas ou dias, assim o desconforto. Olho pro amanhã e sei quão grave tudo pode ser e será justo pra mim que perdi a minha mãe dentro de mim mesmo, órfão na interminável tortura e não posso me esquivar por não querer e nem ter do quê, apenas vivo e vou adiante pro que der e vier, direto ao assunto. É possível supor ser melhor agir e calar por enquanto – nem adianta falar, melhor não dizer nada pra não empiorar as coisas tão saturadas de carradas de razões e um abismo no meio entre o que é de lá e o de cá e o dali e o daqui, chegando ao ponto em que não posso mais me demorar em contornar desde já o absurdo abissal de ser eu próprio e outro e muitos que de mim emergem ao paradoxo diante de toda e qualquer rede ortodoxa, toda e qualquer insana heterodoxia. Deus salve a vida! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o instrumentista, compositor e produtor musical francês Jean-Michel Jarre Live in Monaco & The Conection Concert; a violinista britânica Chloë Hanslip interpretando Mozart, Cinema Paradiso de Ennio Morricone & Fantasy de Franz Waxman & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - A autocritica e a autocorreção, que são muito raras nos seres humanos e são manifestações de uma maturidade e de uma força espiritual que representam uma garantia de sucesso para o futuro. Pensamento do historiador britânico Arnold Toynbee (1889-1875).

A CIDADE – [...] devemos fortificar-nos para uma tortura: para gozá-la, devemos ficar de olhos abertos, mas aprender a fechar o nariz ao mau cheiro, os ouvidos aos berros de angústia e terror, a goela às convulsões do nosso estômago.  Acima de tudo, devemos ficar com o coração de gelo e conter qualquer impulso de ternura e piedade, com uma verdadeira rigidez romana. Todas as grandezas serão aumentadas: não menos as grandezas da mesquinhez e do mal. Apenas um símbolo pode fazer justiça ao conteúdo daquela vida: uma fossa aberta. E é pela fossa que iremos começar. [...]. Trecho extraído da obra A cidade na História (Martins Fontes, 2008), do historiador, professor, escritor e crítico literário estadunidense Lewis Mumford (1895-1990), apresentado um retrato arrojado e imaginativo do desenvolvimento humano como ser religioso, político, econômico, cultural e sexual.

DELIA ELENA SAN MARCODespedimo-nos numa das esquinas do Onze. Da outra calçada toprnei a olhar; você se tinha virado e dava-me adeus com a mão. Um rio de veículos e de gente corria entre nós; eram as cinco de uma tarde qualquer; como iria eu saber que aquele rio era o triste Aqueronte, o insuperável. Não nos vimos mais, e um ano depois você tinha morrido. E eu, agora, busco essa recordação, e olho-a e penso que era falsa, e que por trás da despedida trivial estava a infinita separação. Na noite passada não saí depois de jantar e reli, para compreender estas coisas, o último ensinamento que Platão põe na boca de seu mestre. Li que a alma pode fugir quando morre a carne. E agora não sei se a verdade está na aziaga interpretação ulterior ou na despedida inocente. Porque se as almas não morrem, é perfeitamente justo que em suas despedidas não haja ênfase. Dizer-se adeus é negar a separação, é dizer: Hoje bricarmos de nos separar, mas amanhã nos veremos. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, ainda que se julguem contingente e efêmeros. Delia: um dia continuaremos – junto de que rio?  - este diálogo incerto e nos perguntaremos se alguma vez, numa cidade que se perdia numa planície, fomos Borges e Delia. Entraído da obra O fazedor (Bertrand Brasil, 1987), do escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Veja mais aqui.

POEMA 122você pra lá com seus cachorros / sua insônia de madrugada / sua mania de roer as unhas / suas brigas pelo telefone / e seus acessos de fúria e nostalgia / eu pra cá com minhas doses de uísque / meus porta-retratos, meus diários / minha luz acesa até tarde / minha tosse e meus suspiros / meu amor e loucura, minha alergia / você pra lá com seus sonhos de cowboy / com suas entranhas, sua família / eu pra cá com minhas filhas / meus desmaios e suor / você pra lá / eu pra cá / enfim, sós. Poema extraído da Poesia reunida (L&PM, 2011), da poeta gaúcha Martha Medeiros. Veja mais aqui e aqui.

CULTURA CANAVIEIRA & MEIO AMBIENTE
[...] um resgate histórico sobre as formas de introdução da cana-de-açúcar em território nacional a partir de seus interesses mercadológicos, demarcados por uma colonização orientada pela exploração que, organizada aos moldes do plantation – monocultura, exploração e exportação – e com vistas à geração de lucro, rompeu o equilíbrio natural. A instauração da monocultura comprometeu a qualidade ambiental e humana, as quais, há mais de quinhentos anos, ainda repercutem de maneira consolidada em nossa atualidade, indicando que o passar dos anos não deu início a uma nova história. Esta é a realidade que se reflete na pele, nos corpos e nas mentes dos cortadores de cana. Estes se submetem aos limites de suas forças físicas, agora em concorrência com os caprichos da tecnologia via mecanização no campo, e acabam por recorrer, de maneira inédita ou não, à Educação de Jovens e Adultos, como fonte de alimento para novas perspectivas de vida menos degradantes do que as encontradas nos canaviais. Nesse contexto, tendo em vista a relevância de se tomar a realidade cotidiana como ponto de partida, para o desenvolvimento de percepções mais amplas acerca da problemática socioambiental, pudemos entender que a Educação Ambiental crítica e dialógica emerge como elemento primordial na construção de valores éticos, norteados por olhares políticos capazes de promover uma formação pautada no rompimento de relações exploratórias, tanto no convívio social, referente ao ser humano com o seu semelhante, quanto na apropriação desigual dos recursos ambientais. [...]
Trechos extraídos da dissertação de mestrado Educação ambiental e monocultura canavieira: desvendando a compreensão sobre a interação do ser humano com o meio ambiente em alunos da Educação de Jovens e Adultos, apresentada em 2015, pela pedagoga pós-graduada em Ética Valores e Cidadania na Escola pela USP, Simone Franzi, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência da Unesp. A autora é participante do Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental (Gepea). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Veja mais:
Ainda assim é uma história de amor, a literatura de Henrich Böll, a música de Mário Ficarelli & a arte de João Câmara aqui.
O culto da rosa na Crônica de amor por ela, As mil e uma noites, Ezra Pound, Almeida Prado, Heráclito de Êfeso, Dermeval Saviani, Vittorio Alfrieri, Washington Maguetas, Gilian Armstrong, Cate Blanchett, Alfred Cheney Johnston & Myrna Araujo aqui.
Gilles Deleuze, Susan Sontag, Dian Fossey, Sigourney Weaver, Washington Maguetas, João Pinheiro & Padre Bidião aqui.
Big Shit Bôbras, Cícero & Crônicas Palmarenses aqui.
Educação Cidadã: Educação para vida e para o trabalho aqui.
O sonho de Desidério aqui.
As mil faces do disfarce aqui.
A mulher fenícia & os fenícios aqui.
Sonho real amanhecido aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual e fotógrafa britânica Jo Howell.
Veja mais aqui.
 

quarta-feira, novembro 08, 2017

CONFÚCIO, ARNALDO TOBIAS, IGNEZ DE ALMEIDA PESSOA, JIM PETERS, MULHERES NO MUNDO & BELÉM DE MARIA

OS QUINZE ANOS DE CLARINHA – Imagem: arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters.- Dois dias antes de debutar, Clarinha gritou por mim. Estacionei o veículo e ela veio às pressas com aquele seu pujante jeito de ser: blusinha de alças segurando os seios quase pulando fora e à mostra num decote acentuado, sainha curtinha cobrindo o estritamente necessário e deixando à mostra um par de coxas para lá de estonteantes e volumosas, uma juventude num rosto de riso nos olhos vivos e lindos de morrer. Depois de amanhã é meu aniversário, não se esqueça! Jamais poderia esquecer, nem que quisesse. Ao chegar à emissora, corri logo pra agenda e com letras garrafais, no dia marcado, inscrevi: aniversário de Clarinha. Envolvi-me nos afazeres e só, no dia seguinte, já de noite, lá vinha Clarinha tão bela quanto nunca, sempre com suas blusinhas de alças decotadas, sainhas minúsculas e recheio apetitoso esborrando das vestes. Para, para! Sim? Ah, me leva pra algum lugar, vai! Disse-me apressada já abrindo a porta e sentando ao meu lado no interior do automóvel. A surpresa de sua invasão não me impediu de uma olhadela na sainha dobrada ao quadril com o movimento das coxas, sem calcinha, e o decote dos seios fartos sem sutiã à mostra nos bicos dos seios empinados estufando na blusinha. Acelerei e engatei primeira pra segunda, segui a esmo rua afora. Seu aniversário é amanhã, né, Clarinha? É. A tácita resposta me deu a impressão de que não estava bem. Algum problema? Não, quero que me leve daqui pra algum lugar, só nós dois. Um restaurante? Não. Um barzinho? Não. Pra onde? Um motel! Não posso, você é menor de idade. Dê seu jeito, quero ir prum motel, me leve. Não posso. Tem de poder, eu quero. Aproveitei a aproximação de um posto de gasolina e estacionei: Não posso levá-la prum motel, você é menor de idade e seus pais são meus amigos. Tem que me levar, eu quero. Não posso. Eu quero o meu presente. Ah, seu presente eu ainda vou comprar amanhã. Quero hoje e agora. Não posso, o comércio já está fechado a esta hora da noite. Não precisa comprar, basta me dar. O que você quer? Quero um filho seu. Não posso, Clarinha, sou casado, você tem quatorze anos, é menor de idade, e seus pais são meus amigos. Eu quero meu presente agora: um filho seu! Não, Clarinha. Você não sente atração por mim? Não. Você não acha que eu mereço uma peiada e embuchar de você? Clarinha, eu tenho trinta e cinco anos, sou casado, tenho filhos. Eu quero um filho seu! Não é assim, Clarinha, sou casado, tenho responsabilidades, seus pais não me perdoarão. Ah, eu quero um filho seu, sou apaixonada por você desde minha infância, sonho com você, tenho sonhos e gozos com você todas as noites, me contorço na cama com você e me toco e gozo diversas vezes sonhando ser possuída por você, me dê esse presente, vá! Não, Clarinha, não é assim. De repente ela me agarrou, lágrimas nas faces e me beijou a boca com seu hálito de rosa dos campos, seu corpo de sedução das mil e uma noites de prazer, seus seios fartos enchendo as minhas mãos, seu sexo túrgido e nu todo se esfregando ao meu que foi retirado à força por suas mãos ágeis enveredando braguilha adentro e enrijecido pelo toque de seus dedos hábeis, apontado pra direção dos seus múltiplos prazeres e eu sufocado por seus beijos em meus lábios, faces, tronco aberto da camisa, até alcançar meu sexo sobejado pela saliva abundante de sua boca gulosa e quente, delirando ávida em me abocanhar até me provocar ereção enlouquecedora, não, Clarinha, não, mais ela felava e me arriava as calças para esfregar sua vagina em minhas pernas, ronronando louca e me apertando forte e me engolindo trêmula e traquina para que eu estertorasse o sacrifício de segurar o gozo enquanto ela atiçava labareda incendiárias com sua língua inquieta na boca faminta, não Clarinha, e me sugou e bebeu todo meu gozo como quem tivesse roubado o manjar escondido. Não, Clarinha. Não, nada, agora tenho você, se não me quer dar um filho, darei pro primeiro que cruzar e você vai ver, vou me vingar de você com o primeiro que me aparecer. Abriu a porta do carro e saiu correndo sem que eu pudesse alcançá-la. Tomou um táxi e sumiu. Segui adiante, fiz o retorno na via e fui direto em direção pra casa dela. Vi quando o táxi estacionou em frente a sua residência. Ela desceu e desapareceu lá pra adentro. Eu estava desconcertado, fui pra casa com ela perseguindo meus pensamentos. Nem consegui ir pra cama, deitei no sofá e logo dormi sonhando com as peripécias de Clarinha. O dia amanheceu e acordei com o telefone, atendi: Hoje é meu aniversário, não falte! Eu me levantei pro ritual de todas as manhãs e fui trabalhar. A cada hora o telefone: Hoje é meu aniversário, não esqueça! O dia pela tarde, noite entrante e o telefone insistente. Fui. Lá chegando, poucas pessoas, festa simples, os pais me recepcionaram alegremente, dei graças ao rever o poeta há anos que não tinha notícia, foi a minha salvação. Logo ela apareceu linda como sempre, deu-me um chauzinho de escárnio e puxou o poeta a um canto, conversaram e muito. Fui surpreendido pelos pais delas, conversamos, mais um pouco anunciei que ia embora. Não me deixaram, havia uma surpresa no ar, aguardei. Foi quando Clarinha anunciou o seu presente: o seu casamento com o poeta. Como? Ele vinte e cinco anos mais velho que ela, como pode? Os pais tão surpresos como eu, nada entendiam. O poeta no meio da saia justa deixou entender que se tratava de um arroubo dela, mas que era do seu agrado e desejo. Formalmente pediu a mão dela em casamento aos pais e me convidou para padrinho. No meio do mal-estar, depois de muito se olharem, não houve outra alternativa: todos aceitaram, não pude recusar. Seis meses depois reencontro Clarinha grávida de mãos dadas com o marido e um convite para que eu fosse o padrinho do bebê. Não deu tempo nem responder, Clarinha abraçou-me sussurrando: Você não me quis, mas esse filho é seu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais s com o compositor alemão Carl Orff e a sua cantata Carmina Burana & Streetsong; a violinista britânica Chloë Hanslip interpretando Mozart, Cinema Paradiso de Ennio Morricone & Fantasy de Franz Waxman; o pianista Nelson Freire interpretando obras de Villa-Lobos & Debussy In Recital; e da pianista e maestro japonesa Mitsuko Uchida interpretando estudo de Debussy & concerto de Beethoven. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Quando se cultiva até o máximo os princípios de sua natureza e assim se procura exercitá-los segundo o princípio de reciprocidade, não se está longe do caminho. Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam. [...]. Trecho do Elogio da vida na dourada mediania: a doutina do meio, extraída da obra O pensamento vivo de Confúcio (Martins, 1967), reunindo os quatro livros clássicos e os cinco livros sagrados do filósofo chinês Confúcio (551 a.C. - 479 a.C). Veja mais aqui e aqui.

ESCRAVIDÃO & ABOLIÇÃO - Grande é o coração, pura e sublime é a alma de um povo humanitário, que se revolta indignado contra a praga maldita chamada escravidão. Ontem, esta palavra horrenda, abominável e ignominiosa, esta degradante e tremenda maldição se ostenta cheia de caprichos sobre as cabeças uns míseros infelizes, que viviam espalhados em todo o Brasul. Hoje, porém, a providencia divina tem protegido a causa destes desgraçados. [...] Tudo caminha e a liberdade não pode estacionar. Por ventura não são os escravos os nossos irmãos, e por que haveremos de consolar as suas aflições, quebrando os ferros tremendos em que se acham agrilhoados? Ah! É duro viverem estes míseros escravos, sem luz, sem amo, sem proteção, submergidos nas trevas profundíssimas da ignorância, chorando amargamente a sua desgraça dos seus filhinhos. Avante democratas e abolicionista. Avante republicanos corajosos. A estrada do processo é muito lnga, caminhai e será completo o vosso triunfo, uma vez que pelejais em prol de uma causa santa, de uma missão honrosa e sublime, que é arrancar das mãos impuras e sanguinolentas dos escravocratas o punhal e o chicote com que retalham as carnes de seus próprios irmãos. Texto da abolicionista Ignez de Almeida Pessoa (Penumbras, 1892), extraído da obra Suaves amazonas: mulheres e abolição da escravatura no Nordeste (UFPE, 1999), organizado por Luzilá Gonçalves Ferreira, Ivia Alves, Nancy Rita Fontes, Luciana Salgues, Iris Vasconcelos e Silvana Vieira de Souza. Veja mais aqui, aqui e aqui.

BELÉM DE MARIA – O território do município era encravado ao de Bonito e teve sua divisão administrativa ocorrida no ano de 1933, quando o distrito criado por Lei municipal de 18 de setembro de 1930, passando a ser distrito de Catende, desmembrado de Palmares e Bonito. Belem de Maria foi constituído em município autônomo pela Lei estadual 3340, de 31 de dezembro de 1958, com território desmembrado dos municípios de Catende e São Joaquim do Monte, sendo instalado em 03 de maio de 1962. Administrativamente é formado pelos distritos sede e Batateira, anualmente no dia 31 de zembro comemora a sua emancipação política, em conformidade com a Enciclopedia dos municípios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

MULHERES NO MUNDO - [...] o sujeito ideológico elabora um discurso que evidencia os papeis sociais desempenhos pelo homem e pela mulher, delimitando os valores e os comportamentos de cada um, os quais refletem valores e comportamentos nutridos em nossa sociedade. Apesar de muitas concepções de mundo terem sido modificadas e hoje nos deparamos com novos conceitos veiculados pelos meios de comunicação de um modo geral, ainda é prodominante a ideologia machista que define a mulher como um “ser doméstico”, que vive em prol da casa, dos filhos e do marido, isentando-se de uma vida cultural que é exterior ao domicilio familiar, porque todas as personagens femininas e adultas [...] são donas de casa ou são empregadas domésticas (com uma única exceção – a professora), e se apresentam, na grande maioria das histórias, usando avental, lenço e instrumentos de trabalho; em contrapartida, raramente aparecem se divertindo e nunca exercem qualquer atividade esportiva, cultural ou intelectual. [...]. Trecho do texto No discurso da história em quadrinho: uma revelação do preconceito no estereotipo da figura feminina, de Rosemary Evaristo Barbosa, extraído da obra Mulheres no mundo: etnia, marginalidade e diáspora (Ideia/Universitária, 2005), organizado por Nadilza Martins de Barros Moreira e Liane Schneider. Veja mais aqui.

CLARINHA DE ARNALDO TOBIAS
CAPÍTULO 1 – Acompanhei a sua roupa crescendo no varal. Do meu quintal eu assistia a esse espetáculo sob o sol e ventos. A anágua azul e a calcinha de rendas e flores bordando setembro e a primavera. Do seu quintal ela olhando para mim com a indiferença de ontem. A menina crescendo não sabia que eu escrevia poemas para ela e os guardava dentro de livros com pétalas de rosas vermelhas. CAPÍTULO 2 – A menina se fez moça e a roupa diminuiu no espço do corpo. A blusina curta mostrando o umbigo vertical com a covinha. Não vi mais anáguas azuis no varal. A sainha ou o vestido no meio das coxas róseas. Clarinha já tinha abolido o sutiã e o decote desceu oferecendo pretensamente o vértice dos seios. Um dia a surpresa foi tamanha que me invadiu o peito. Fui convidado de palavra para o seu aniversário de quinze anos. Senti o seu hálito tão perto que me subiu um calor no rosto e ela deve ter notado a minha emoção tímida. Prometi ir à festa e fu comprar uma camisa de cetim e um sapato social. Na festa (sem champanhe e de poucas pessoas). Clarinha confessou sua paixão por mim desde os nove anos. A paixão cegava os sonhos e desejos perturbáveis. O pecado consentido. Disse: Mas Clarinha, eu tenho exatamente quarenta anos. Vinte e cinco mais da sua idade. Disse-lhe: Para mim você é jovem e tão latente como o sol nascente. Respondeu-me com metáfora. CAPÍTULO 3 – Quando nos casamos no mesmo ano (sem véu e grinalda) a festa foi simples como a festa dos seus quinze anos. Clarinha não acompanhou minha idade avançando. Depois de quinze anos, ela ficou a balzaquiana mais bela do mundo e eu sessentão acometido de fortes dores na uretra. Tive de um dia submeter-me a uma inadiável cirurgia (que me impediu de fazer um filho em Clarinha) na impotencialidade sexual. Então o urologista arrancou-me a castanha da próstata deixando lá no fundo um carncer me matando de sofrimentos. Clarinha escusando-se dos meus tratos e asseios. Esquencendo o meu remédio na farmácia. Hoje a acompanho com resignação e tristeza vendo-a ter filhos com o jardinero. Pago muito bem ao rapaz para ele trazer rosas vermelhas e fazer Clarinha feliz. Satisfeita.
Conto do escritor Arnaldo Tobias (1939-2002), extraído da Panorâmica do conto em Pernambuco (Escrituras, 2007), organziado por Antonio Campos e Cyl Gallindo. (Imagem: arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters). Veja mais aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters.
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quinta-feira, julho 27, 2017

OBJETOS DE BAUDRILLARD, INGEBORG BACHMANN, CARL ORFF, CHLOË HANSLIP, NELSON FREIRE, MITSUKO UCHIDA, DOROTHY IANNONE & NITOLINO!

NITOLINO NO REINO ENCANTADO DE TODAS AS COISAS - A ideia de criação do personagem Nitolino surgiu com o convite feito pela professora e coordenadora pedagógica, Ceiça Mota, da Escola Estadual Josefa Conceição da Costa, bairro de Canaã, Maceió, para recreações com contação de história em turmas de educação infantil. O que era para ser um único momento findou em contínuas apresentações tanto para alunos da educação infantil até as quartas séries do Ensino Fundamental, com as histórias dos meus livros para crianças, como também para estudantes das demais series do Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA), para os quais desenvolvi atividades com literatura de cordel, tudo enquadrado ao meu projeto Brincarte nas Escolas. Assim foi ao longo de todo mês de julho em 2008, finalizando com o lançamento dos meus livros infantis Turma do Brincarte e Frevo Brincarte, e do cordel Tataritaritatá, com exposição dos meus outros livros publicados, palestras, contação e cantação de histórias. Depois disso, como eu estava recebendo inúmeros convites dos mais diversos educandários, tanto da rede pública como da rede privada de Alagoas e de outros estados, o personagem foi tomando corpo e, já no mês de agosto do mesmo ano, o Nitolino já se apresentava em colégios, associações de moradores, centros recreativos e de saúde, bem como nos mais diversos auditórios das mais variadas instituições sociais, fato que levou a criação do evento Natal do Nitolino, com o objetivo de levar livros, contação de história e promover o hábito da leitura entre crianças das áreas periféricas das cidades, bem como da participação em eventos nas Bienais do Livro, Convenções, Congressos, Palestras e em mesas de debates, fato este que levou durante os anos de 2009, 2010 e 2011, à realização de temporadas do espetáculo Nitolino no Reino Encantado de Todas as Coisas, no Teatro Linda Mascarenhas, em Maceió, concomitante ao lançamento do livro homônimo e da segunda edição do livro infantil O lobisomem zonzo, culminando com a gravação do DVD com o resultado dos espetáculos destinados aos alunos da rede pública de ensino e, posteriormente, abertos para o público em geral. Além do mais, Nitolino nada mais é que a minha eterna maneira de ser menino com a perspectiva de que ser criança é pra brincar e ser feliz; com a esperança de que este possa ser um mundo no qual as pessoas possam construir relações saudáveis respeitando uns aos outros, cuidando do planeta e reconhecendo o outro como extensão afetiva de si e de toda irmandade humana; enfim, a minha crença de que o Brasil possa ser um país melhor, mais justo e solidário, porque todo dia é dia de ser criança. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

OS OBJETOS DE BAUDRILLARD
[...] hoje os objetos tornaram-se mais complexos que o comportamento do homem a eles relativo [...] Somos continuamente remetidos, por meio do discurso psicológico sobre o objeto, a um nível mais coerente, sem relação com o discurso individual ou coletivo, e que seria aquele de uma língua dos objetos [...] O homem é reduzido à incoerência pela coerência de sua projeção estrutural. Em face do objeto funcional o homem torna-se disfuncional, irracional e subjetivo, uma forma vazia e aberta então aos mitos funcionais, às projeções fantasmagóricas ligadas a esta estupefaciente eficiência do mundo [...] É da frustrada exigência por totalidade residente no fundo do projeto que surge o processo sistemático e indefinido do consumo. Os objetos/signos na sua idealidade equivalem-se e podem se multiplicar ao infinito: devem fazê-lo para preencher a todo instante uma realidade ausente. Finalmente é porque se funda sobre uma ausência que o consumo vem a ser irreprimível.
Trechos extraídos da obra O Sistema dos Objetos (Perspectiva, 2008), do sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007), defendendo que: Sou um dissidente da verdade. Não creio na ideia de discurso de verdade, de uma realidade única e inquestionável. Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses. Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida que acontece no momento, como um fotógrafo. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Veja mais sobre:
O amor de Naipi & Tarobá, Arte e percepção visual de Rudolf Arnheim, Eles eram muitos cavalos de Luiz Ruffato, Improvisação para o teatro de Viola Spolin, a música de Vivaldi & Max Richter, a fotografia de Fernand Fonssagrives, a coreografia de Regina Kotaka, a pintura de Fernand Léger & a arte de Eugénia Silva aqui.

E mais:
Nitolino na Escola Estadual Josefa Conceição da Costa aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Duofel, três por um, A sociedade do consumo de Jean Baudrillard, Histórias extraordinárias de Edgar Allan Poe, Tristão & Isolda de Richard Wagner, a coreografia da arte de Pina Bausch, o cinema de Roger Vadim, a pintura de Alice Kaub-Casalonga & Vicente do Rego Monteiro, a arte de Miles Williams Mathis, Amores impossíveis, Poetas de Palmares & Jayme Griz aqui.
Passando a limpo, O mundo líquido de Zygmunt Bauman & muito mais aqui.
A cidade, a urbanização e as enchentes & a arte de Márcia Spézia aqui.
Reino dos sonhos, a literatura de Osman Lins, a poesia de Denise Levertov, A palavra na democracia e na psicanálise de música de Renato Borghetti, a fotografia de Laszlo Moholy-Nagy, a arte de Mike Todd aqui.
Padre Bidião, extraterrestres & novo messias, a pintura de Gino Severini & Liu Yuanshou aqui.
Aquele torneio de chimbra & a pintura de Almada Negreiros aqui.
Uma lembrança perdida no horizonte, a pintura de Inês Dourado & Mary Qian aqui.
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A PERDA DE INGEBORG BACHMANN
Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.
Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.
De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
Não te perdi a ti,
perdi o mundo
.
Poema Uma espécie de perda, extraído da obra O tempo aprazado (Últimos poemas 1957-1967 - Assírio & Alvim, 1992), da poeta e filósofa austríaca Ingeborg Bachmann (1926-1973).

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especiais com o compositor alemão Carl Orff e a sua cantata Carmina Burana & Streetsong; a violinista britânica Chloë Hanslip interpretando Mozart, Cinema Paradiso de Ennio Morricone & Fantasy de Franz Waxman; o pianista Nelson Freire interpretando obras de Villa-Lobos & Debussy In Recital; e da pianista e maestro japonesa Mitsuko Uchida interpretando estudo de Debussy & concerto de Beethoven. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual alemã Dorothy Iannone.
Veja mais aqui.
 

TATIANA DE ROSNAY, VERONIKA KIVISILLA, NIALL FERGUSON & MARIA LAURA LOPES

  Imagem: Fluxo dos devires , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula porcina na cabeça!... -...