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quarta-feira, novembro 08, 2017

CONFÚCIO, ARNALDO TOBIAS, IGNEZ DE ALMEIDA PESSOA, JIM PETERS, MULHERES NO MUNDO & BELÉM DE MARIA

OS QUINZE ANOS DE CLARINHA – Imagem: arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters.- Dois dias antes de debutar, Clarinha gritou por mim. Estacionei o veículo e ela veio às pressas com aquele seu pujante jeito de ser: blusinha de alças segurando os seios quase pulando fora e à mostra num decote acentuado, sainha curtinha cobrindo o estritamente necessário e deixando à mostra um par de coxas para lá de estonteantes e volumosas, uma juventude num rosto de riso nos olhos vivos e lindos de morrer. Depois de amanhã é meu aniversário, não se esqueça! Jamais poderia esquecer, nem que quisesse. Ao chegar à emissora, corri logo pra agenda e com letras garrafais, no dia marcado, inscrevi: aniversário de Clarinha. Envolvi-me nos afazeres e só, no dia seguinte, já de noite, lá vinha Clarinha tão bela quanto nunca, sempre com suas blusinhas de alças decotadas, sainhas minúsculas e recheio apetitoso esborrando das vestes. Para, para! Sim? Ah, me leva pra algum lugar, vai! Disse-me apressada já abrindo a porta e sentando ao meu lado no interior do automóvel. A surpresa de sua invasão não me impediu de uma olhadela na sainha dobrada ao quadril com o movimento das coxas, sem calcinha, e o decote dos seios fartos sem sutiã à mostra nos bicos dos seios empinados estufando na blusinha. Acelerei e engatei primeira pra segunda, segui a esmo rua afora. Seu aniversário é amanhã, né, Clarinha? É. A tácita resposta me deu a impressão de que não estava bem. Algum problema? Não, quero que me leve daqui pra algum lugar, só nós dois. Um restaurante? Não. Um barzinho? Não. Pra onde? Um motel! Não posso, você é menor de idade. Dê seu jeito, quero ir prum motel, me leve. Não posso. Tem de poder, eu quero. Aproveitei a aproximação de um posto de gasolina e estacionei: Não posso levá-la prum motel, você é menor de idade e seus pais são meus amigos. Tem que me levar, eu quero. Não posso. Eu quero o meu presente. Ah, seu presente eu ainda vou comprar amanhã. Quero hoje e agora. Não posso, o comércio já está fechado a esta hora da noite. Não precisa comprar, basta me dar. O que você quer? Quero um filho seu. Não posso, Clarinha, sou casado, você tem quatorze anos, é menor de idade, e seus pais são meus amigos. Eu quero meu presente agora: um filho seu! Não, Clarinha. Você não sente atração por mim? Não. Você não acha que eu mereço uma peiada e embuchar de você? Clarinha, eu tenho trinta e cinco anos, sou casado, tenho filhos. Eu quero um filho seu! Não é assim, Clarinha, sou casado, tenho responsabilidades, seus pais não me perdoarão. Ah, eu quero um filho seu, sou apaixonada por você desde minha infância, sonho com você, tenho sonhos e gozos com você todas as noites, me contorço na cama com você e me toco e gozo diversas vezes sonhando ser possuída por você, me dê esse presente, vá! Não, Clarinha, não é assim. De repente ela me agarrou, lágrimas nas faces e me beijou a boca com seu hálito de rosa dos campos, seu corpo de sedução das mil e uma noites de prazer, seus seios fartos enchendo as minhas mãos, seu sexo túrgido e nu todo se esfregando ao meu que foi retirado à força por suas mãos ágeis enveredando braguilha adentro e enrijecido pelo toque de seus dedos hábeis, apontado pra direção dos seus múltiplos prazeres e eu sufocado por seus beijos em meus lábios, faces, tronco aberto da camisa, até alcançar meu sexo sobejado pela saliva abundante de sua boca gulosa e quente, delirando ávida em me abocanhar até me provocar ereção enlouquecedora, não, Clarinha, não, mais ela felava e me arriava as calças para esfregar sua vagina em minhas pernas, ronronando louca e me apertando forte e me engolindo trêmula e traquina para que eu estertorasse o sacrifício de segurar o gozo enquanto ela atiçava labareda incendiárias com sua língua inquieta na boca faminta, não Clarinha, e me sugou e bebeu todo meu gozo como quem tivesse roubado o manjar escondido. Não, Clarinha. Não, nada, agora tenho você, se não me quer dar um filho, darei pro primeiro que cruzar e você vai ver, vou me vingar de você com o primeiro que me aparecer. Abriu a porta do carro e saiu correndo sem que eu pudesse alcançá-la. Tomou um táxi e sumiu. Segui adiante, fiz o retorno na via e fui direto em direção pra casa dela. Vi quando o táxi estacionou em frente a sua residência. Ela desceu e desapareceu lá pra adentro. Eu estava desconcertado, fui pra casa com ela perseguindo meus pensamentos. Nem consegui ir pra cama, deitei no sofá e logo dormi sonhando com as peripécias de Clarinha. O dia amanheceu e acordei com o telefone, atendi: Hoje é meu aniversário, não falte! Eu me levantei pro ritual de todas as manhãs e fui trabalhar. A cada hora o telefone: Hoje é meu aniversário, não esqueça! O dia pela tarde, noite entrante e o telefone insistente. Fui. Lá chegando, poucas pessoas, festa simples, os pais me recepcionaram alegremente, dei graças ao rever o poeta há anos que não tinha notícia, foi a minha salvação. Logo ela apareceu linda como sempre, deu-me um chauzinho de escárnio e puxou o poeta a um canto, conversaram e muito. Fui surpreendido pelos pais delas, conversamos, mais um pouco anunciei que ia embora. Não me deixaram, havia uma surpresa no ar, aguardei. Foi quando Clarinha anunciou o seu presente: o seu casamento com o poeta. Como? Ele vinte e cinco anos mais velho que ela, como pode? Os pais tão surpresos como eu, nada entendiam. O poeta no meio da saia justa deixou entender que se tratava de um arroubo dela, mas que era do seu agrado e desejo. Formalmente pediu a mão dela em casamento aos pais e me convidou para padrinho. No meio do mal-estar, depois de muito se olharem, não houve outra alternativa: todos aceitaram, não pude recusar. Seis meses depois reencontro Clarinha grávida de mãos dadas com o marido e um convite para que eu fosse o padrinho do bebê. Não deu tempo nem responder, Clarinha abraçou-me sussurrando: Você não me quis, mas esse filho é seu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais s com o compositor alemão Carl Orff e a sua cantata Carmina Burana & Streetsong; a violinista britânica Chloë Hanslip interpretando Mozart, Cinema Paradiso de Ennio Morricone & Fantasy de Franz Waxman; o pianista Nelson Freire interpretando obras de Villa-Lobos & Debussy In Recital; e da pianista e maestro japonesa Mitsuko Uchida interpretando estudo de Debussy & concerto de Beethoven. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Quando se cultiva até o máximo os princípios de sua natureza e assim se procura exercitá-los segundo o princípio de reciprocidade, não se está longe do caminho. Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam. [...]. Trecho do Elogio da vida na dourada mediania: a doutina do meio, extraída da obra O pensamento vivo de Confúcio (Martins, 1967), reunindo os quatro livros clássicos e os cinco livros sagrados do filósofo chinês Confúcio (551 a.C. - 479 a.C). Veja mais aqui e aqui.

ESCRAVIDÃO & ABOLIÇÃO - Grande é o coração, pura e sublime é a alma de um povo humanitário, que se revolta indignado contra a praga maldita chamada escravidão. Ontem, esta palavra horrenda, abominável e ignominiosa, esta degradante e tremenda maldição se ostenta cheia de caprichos sobre as cabeças uns míseros infelizes, que viviam espalhados em todo o Brasul. Hoje, porém, a providencia divina tem protegido a causa destes desgraçados. [...] Tudo caminha e a liberdade não pode estacionar. Por ventura não são os escravos os nossos irmãos, e por que haveremos de consolar as suas aflições, quebrando os ferros tremendos em que se acham agrilhoados? Ah! É duro viverem estes míseros escravos, sem luz, sem amo, sem proteção, submergidos nas trevas profundíssimas da ignorância, chorando amargamente a sua desgraça dos seus filhinhos. Avante democratas e abolicionista. Avante republicanos corajosos. A estrada do processo é muito lnga, caminhai e será completo o vosso triunfo, uma vez que pelejais em prol de uma causa santa, de uma missão honrosa e sublime, que é arrancar das mãos impuras e sanguinolentas dos escravocratas o punhal e o chicote com que retalham as carnes de seus próprios irmãos. Texto da abolicionista Ignez de Almeida Pessoa (Penumbras, 1892), extraído da obra Suaves amazonas: mulheres e abolição da escravatura no Nordeste (UFPE, 1999), organizado por Luzilá Gonçalves Ferreira, Ivia Alves, Nancy Rita Fontes, Luciana Salgues, Iris Vasconcelos e Silvana Vieira de Souza. Veja mais aqui, aqui e aqui.

BELÉM DE MARIA – O território do município era encravado ao de Bonito e teve sua divisão administrativa ocorrida no ano de 1933, quando o distrito criado por Lei municipal de 18 de setembro de 1930, passando a ser distrito de Catende, desmembrado de Palmares e Bonito. Belem de Maria foi constituído em município autônomo pela Lei estadual 3340, de 31 de dezembro de 1958, com território desmembrado dos municípios de Catende e São Joaquim do Monte, sendo instalado em 03 de maio de 1962. Administrativamente é formado pelos distritos sede e Batateira, anualmente no dia 31 de zembro comemora a sua emancipação política, em conformidade com a Enciclopedia dos municípios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

MULHERES NO MUNDO - [...] o sujeito ideológico elabora um discurso que evidencia os papeis sociais desempenhos pelo homem e pela mulher, delimitando os valores e os comportamentos de cada um, os quais refletem valores e comportamentos nutridos em nossa sociedade. Apesar de muitas concepções de mundo terem sido modificadas e hoje nos deparamos com novos conceitos veiculados pelos meios de comunicação de um modo geral, ainda é prodominante a ideologia machista que define a mulher como um “ser doméstico”, que vive em prol da casa, dos filhos e do marido, isentando-se de uma vida cultural que é exterior ao domicilio familiar, porque todas as personagens femininas e adultas [...] são donas de casa ou são empregadas domésticas (com uma única exceção – a professora), e se apresentam, na grande maioria das histórias, usando avental, lenço e instrumentos de trabalho; em contrapartida, raramente aparecem se divertindo e nunca exercem qualquer atividade esportiva, cultural ou intelectual. [...]. Trecho do texto No discurso da história em quadrinho: uma revelação do preconceito no estereotipo da figura feminina, de Rosemary Evaristo Barbosa, extraído da obra Mulheres no mundo: etnia, marginalidade e diáspora (Ideia/Universitária, 2005), organizado por Nadilza Martins de Barros Moreira e Liane Schneider. Veja mais aqui.

CLARINHA DE ARNALDO TOBIAS
CAPÍTULO 1 – Acompanhei a sua roupa crescendo no varal. Do meu quintal eu assistia a esse espetáculo sob o sol e ventos. A anágua azul e a calcinha de rendas e flores bordando setembro e a primavera. Do seu quintal ela olhando para mim com a indiferença de ontem. A menina crescendo não sabia que eu escrevia poemas para ela e os guardava dentro de livros com pétalas de rosas vermelhas. CAPÍTULO 2 – A menina se fez moça e a roupa diminuiu no espço do corpo. A blusina curta mostrando o umbigo vertical com a covinha. Não vi mais anáguas azuis no varal. A sainha ou o vestido no meio das coxas róseas. Clarinha já tinha abolido o sutiã e o decote desceu oferecendo pretensamente o vértice dos seios. Um dia a surpresa foi tamanha que me invadiu o peito. Fui convidado de palavra para o seu aniversário de quinze anos. Senti o seu hálito tão perto que me subiu um calor no rosto e ela deve ter notado a minha emoção tímida. Prometi ir à festa e fu comprar uma camisa de cetim e um sapato social. Na festa (sem champanhe e de poucas pessoas). Clarinha confessou sua paixão por mim desde os nove anos. A paixão cegava os sonhos e desejos perturbáveis. O pecado consentido. Disse: Mas Clarinha, eu tenho exatamente quarenta anos. Vinte e cinco mais da sua idade. Disse-lhe: Para mim você é jovem e tão latente como o sol nascente. Respondeu-me com metáfora. CAPÍTULO 3 – Quando nos casamos no mesmo ano (sem véu e grinalda) a festa foi simples como a festa dos seus quinze anos. Clarinha não acompanhou minha idade avançando. Depois de quinze anos, ela ficou a balzaquiana mais bela do mundo e eu sessentão acometido de fortes dores na uretra. Tive de um dia submeter-me a uma inadiável cirurgia (que me impediu de fazer um filho em Clarinha) na impotencialidade sexual. Então o urologista arrancou-me a castanha da próstata deixando lá no fundo um carncer me matando de sofrimentos. Clarinha escusando-se dos meus tratos e asseios. Esquencendo o meu remédio na farmácia. Hoje a acompanho com resignação e tristeza vendo-a ter filhos com o jardinero. Pago muito bem ao rapaz para ele trazer rosas vermelhas e fazer Clarinha feliz. Satisfeita.
Conto do escritor Arnaldo Tobias (1939-2002), extraído da Panorâmica do conto em Pernambuco (Escrituras, 2007), organziado por Antonio Campos e Cyl Gallindo. (Imagem: arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters). Veja mais aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico e visual estadunidense Jim Peters.
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quinta-feira, março 07, 2013

CAMILLA COLLETT, ROBERT BURNS, DOUGLAS RUSHKOFF, ABRAHAMS &TRABALHO



O TRABALHO: ESCRAVIDÃO, SUBORDINAÇÃO E DESEMPREGO


Luiz Alberto Machado

O trabalho tanto tem promovido a formação e desenvolvimento humano, como também tem mantido o ser humano escravo e subordinado às classes abastadas. Tornou-se, por isso, um universo diversificado e complexo, recheado de transbordantes desafios, tanto pela manutenção hegemônica da classe empresarial como pelas exigências de posicionamento dos trabalhadores no sentido de satisfazer as suas necessidades, as das organizações e as dos empresários.
O trabalho serviu para dominação, submissão, servidão e escravidão. Com a substituição da escravidão veio a subordinação que. etimologicamente é de origem do latim: subordinatio, onis, com o significa sujeição, submissão. É conceituada por Otavio Pinto e Silva como “(...) a ordem estabelecida entre as pessoas e segundo a qual umas dependem das outras, das quais recebem ordens ou incumbências; dependência de uma(s) pessoa(as) em relação a outra(s)", E na visão de Sérgio Pinto Martins como "(...) o aspecto da relação de emprego visto pelo lado do empregado, enquanto poder de direção é a mesma acepção vista pelo ângulo do empregador".
Ao mesmo tempo, o trabalho é levado como dignificante, ou como dizia Gonzaguinha: “(...) pois sem o seu trabalho o homem não tem honra e sem a sua honra se morre e se mata”. Como para Karl Marx: “O trabalho, como criador de valores – de – uso, como trabalho útil, é indispensável à existência do homem – quaisquer que sejam as formas de sociedade – é necessidade natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre o homem e a natureza e, portanto, de manter a vida humana. (...)”.
Por outro lado, para Braverman: “O trabalho é representado pelo valor do produto do trabalho, e a duração do tempo pela magnitude deste valor, fórmulas que pertencem claramente a uma sociedade em que o processo de produção domina o homem e não o homem domina o processo de produção social”. Isto quer dizer que o empregado, ainda hoje, tem hora para entrar no serviço, mas não tem hora para largar. Ali permanece trancado, trancafiado e com dedicação exclusiva, pagando o pato por qualquer erro, assumindo responsabilidades que lhes são conferidas apenas para salvar a empresa de qualquer engodo e contra a vivacidade de qualquer trampolineiro, carregando a bandeira e se matando com a camisa suada até o último round de qualquer pendenga na defesa dos interesses da empresa. Porém, no final das contas, este empregado é exigido a fazer 101% de suas potencialidades em defesa do empreendimento a que está subordinado numa servidão tão perversa que na hora que ele faz 99% é dispensado como uma mercadoria vencida e sem a menor valia, com a saúde debilitada que será sustentada pelo INSS e descartado sem a menor culpa por parte do empregador, detectados por Domenico de Mais, Wanderley Codo, Silvia Lane e Otavio Pinto e Silva. Isso mesmo havendo correntes paradigmáticas contemporâneas organizacionais e até empresas visionárias que prescrevem e até tratam o empregado como parceiro, entendendo que este parceiro precisa ter qualidade de vida dentro e fora do seu emprego.
Observa-se, portanto, que a relação de trabalho, segundo Izabel Gouvêa, “é uma relação jurídica gerada pela prestação de serviços por uma pessoa física em proveito de outrem". E, para a autora mencionada, é a mesma relação de emprego, sendo esta última aplicada ao trabalho subordinado. E é nesta relação que nasce a subordinação.
Assim, tendo em vista que o momento presente tem sido de mudanças constantes e de transformações que são impulsionadas pelas aceleradas e cambiantes estruturas da economia mundial e pelas novas demandas da sociedade, é também um momento de desafios que estão além das novas expectativas empresariais nos mercados globalizados, seja de manutenção do negócio, seja na descoberta de adequadas estratégias, estando entre esses aqueles que são ofertados pelos avanços tecnológicos. Nesse cenário verifica-se que o dinamismo econômico sai do capital físico das empresas, tendo se posicionado pelas habilidades, conhecimentos e experiências dos trabalhadores – o capital intelectual -, exigindo destes qualidade e eficiência na relação com as organizações empresariais. Isso é teoria para a grande maioria dos assalariados e uma ponta de privilégio para alguns poucos que labutam em ambientes empreendedores visionários.

O TRABALHO ATRAVÉS DOS TEMPOS

Considerando as idéias de Paulo Emilio Martins, o trabalho já foi considerado uma atividade lúdica na pré-história, uma maldição divina ou do vencido e escravizado na antiguidade, uma forma de expiação do pecado original e meio de compaixão nos primórdios do cristianismo, um remédio para as tentações no cristianismo da Idade Média, um direito e um dever ou meio para a salvação para os promotores da reforma luterana, expressão da criatividade humana na revolução industrial, a maior obsessão no início do século XX e uma atividade em questionamento nos dias atuais. Isto porque o trabalho já foi visto como estático e homogêneo, se tornando numa atividade que altera o estado da natureza para melhorar sua utilidade.
Há que se considerar no conceito de trabalho a sua derivação, conforme Wanderley Codo, do latim tardio “tripalium”- tri, três; e palium, pau; derivando o verbo trepaliare, torturar alguém no tripalium - que significa instrumento de tortura romano, ou seja, supliciamento de escravos numa espécie de tripé formado por três estacas cravadas no chão.
Daí o termo trabalho passou da idéia inicial de sofrimento humano para o de esforço, luta, pugna e trabalhar no sentido de ocupar-se com algum mister para exercício de seu oficio.
Autores como Harry Braverman, Christophe Dejours, Domenico de Masi, entre outros estudiosos, têm se debruçado sobre a evolução do trabalho na história da humanidade. Neste inventário encontrou-se que a atividade do trabalho é aliada a uma ideologia com normas, regras e doutrina, sendo exercida pelo ser humano com inteligência para transformação da natureza, buscando meios de subsistência e sustento, tornando-se uma atividade remunerada, consciente e proposital. Serve o trabalho, então, para a subsistência humana desde os séculos passados, na busca por uma vida digna para si e para a sua família.
Antes, porem, no Antigo Testamento encontra-se o trabalho como uma condenação humana. Na civilização grega, especialmente a espartana, o trabalho começava com a educação dos garotos a partir dos 7 anos de idade na carreira do militar controlados pelo governo para a guerra, dos quatorze aos vinte eram escudeiros, dos vinte aos trinta guerreiros, e finalmente aos trinta estavam livres para casar-se. É nesta época que nasce o escravismo, quando os espartanos eram obrigados a partir do 7 anos de idade a começar a vida militar, obrigados a servir. Isto porque no século V e IV ªC o trabalho escravo era considerado natural e necessário, livrando os cidadãos de tarefas servis, para assim desfrutarem de si mesmos e contemplações do espírito, muito embora não lutassem pela liberdade por medo da morte. Tanto é que é encontrado na República do filósofo Platão que a divisão do trabalho era benéfica para a sociedade. Já para Aristóteles ser cidadão exigia muita parte de tempo.
Para o catolicismo o trabalho ainda hoje é considerado como penitencia e redenção. Para o protestantismo é um meio de enriquecer. Daí, com o advento do Renascimento, o trabalho adquiriu o sentido de labuta, ou seja, atividade do exercício profissional, mantendo-se aliado ao seu sentido primitivo de suplicio, tormento, agonia, custoso, cansativo, difícil, o que não é fácil de fazer, redundando nas expressões trabalhão e trabalheira. Contudo, assim como outros teóricos, Braverman deixa clara a distinção entre trabalho e atividade onde esta ao contrário daquela aparece como sinônimo de ação, buscar alguma coisa, etc., além disso, pode e/ou é exercida tanto por homens quanto por animais. Desta maneira, o trabalho pode ser uma atividade, mas nem toda atividade humana é trabalho.
Desde os primórdios da Grécia antiga, dos egípcios, durante toda Idade Média, Moderna e até os dias atuais que a relação de trabalho evidencia uma relação de dominação entre o dominador e o dominado, relação essa que evoluiu durante a introdução e desenvolvimento do capitalismo, o que, segundo Braverman, fica claro porque o modo capitalista de produção cria uma população trabalhadora ajustada às suas necessidades.
Com o surgimento do Capitalismo, o trabalho torna-se a expansão do capital propiciando um lucro e transformando tais formas em trabalho assalariado, voltando-se, assim, para o crescimento econômico e de riquezas, encarando o lucro como um princípio positivo, não se podendo desperdiçar tempo, poupando e se mantendo. É nessa condição que o trabalho passa de uma atividade útil para a expansão do capital propiciando um lucro que usufrui da força e capacidade humana, bem como das atividades naturais das plantas e animais. É quando o homem produz mais do que consome e a existência de inúmeros meios de produção passa para a expansão da força de trabalho. Daí, ocorre no sistema o enriquecimento de países que atingiram desenvolvimento através de lucro com o acumulo de capital, ampliando a expansão do comércio para a potência industrial, surgindo daí o produtivismo que levou a obrigação das pessoas trabalharem por se tratar de uma fonte de riqueza, embora esta fonte riqueza seja pertinente para a classe dominante, nunca para o trabalhador.
Nesse cenário, três idéias se sobressaem, a primeira de Harold J. Lask assinalando que essa idealização econômica foi defendida demais por causa dos interesses da propriedade ao invés a do trabalhador. Em seguida, Adam Smith declarou que a força do trabalho levava um país a ser rico, pois, conquistar riquezas é muito importante. Foi quando Karl Marx passa a criticar a condição degradante em que os trabalhadores estavam, denunciando que, somente pelo trabalho se gerava riqueza, e quem a produzia não tinha o direito a ela.
Manteve-se a escravidão no capitalismo porque este precisa cada vez mais de mão-de-obra, provocando nas indústrias a exigência laboral de crianças, homens e mulheres obrigadas ao trabalho ininterrupto nas fábricas, seguindo normas insuportáveis a alguém. Tanto é que nesse sistema os donos das fábricas acumulavam riquezas, coagindo os operários para que trabalhando eles conseguissem ficar ricos.
Foi quando, anos mais tarde, chegou-se à constatação de que o trabalho escravo já não era tão eficiente, e que o trabalho livre seria melhor e mais lucrativo, surgindo, então, as teorias no capitalismo a favor do livre trabalho. Foi quando se deu o advento do Liberalismo trazendo a idéia contrária da presença do Estado no setor econômico, aceitando as rivalidades do mercado, e valorizando dos direitos dos trabalhadores. É quando emerge a revolução industrial, levando ao fato de que já no século XIX à promoção da felicidade dos trabalhadores por meio de técnicas aplicadas na produção, quando o lado humano do trabalhador era descartado.
Foi exatamente no século XIX, que se desencadeou a luta pela sobrevivência operária, onde haviam salários muito baixos, promiscuidade, falta de higiene, esgotamento físico, acidentes de trabalho – um verdadeiro cenário de escravos com jornada de 12, 14 até 16 horas ao dia, crianças de 3 anos na lavoura, entre outras.
Foi já no século XX, durante a I Guerra Mundial, que o movimento operário adquiriu bases sólidas e atingiu a dimensão de uma força política que iria crescendo gradativamente, em campanhas voltadas para salvar o corpo dos acidentes de trabalho, prevenindo as doenças profissionais e as intoxicações por produtos industriais, cuidados aos trabalhadores no caso de doenças, com tratamento conveniente, antes assegurado só pela classe abastada.
Assim, entende-se que no século XX, o trabalho estruturou-se em torno da universalização das relações de troca, da transformação do trabalho em força de trabalho e da institucionalização de classes. Isto porque nesse período ocorreram mudanças nas características dos trabalhadores que passaram a ser determinadas pela Revolução Industrial em marcha, quando o mundo passou por outras duas revoluções: a Revolução da Produtividade e a Revolução da Administração.
A partir de 1936, novas mudanças ocorrem e leis passam a ter vigência com melhores condições de trabalho, principalmente depois da II Guerra Mundial, quando nascem programas e institutos de proteção ao trabalhador, como a previdência social em 1945, da medicina do trabalho em 1946, e dos comitês de higiene e de segurança em 1947. Tais ocorrências fazem detectar três etapas no século XX, sendo a primeira aquela etapa que vai até a metade do século, no ínício do pós-segunda Guerra Mundial, quando o comportamento das pessoas, no ambiente profissional e pessoal, foi fortemente influenciado pela segunda Revolução Industrial, aquela da eletricidade, do motor a combustão e pelo início da administração como ciência que surge para atender às necessidades de organização das empresas industriais que precisavam otimizar a produção. Tempos do administrador Frederick Taylor, do francês Henri Fayol e do alemão Max Webwe. É nesta etapa que se compreende que verdadeiramente o trabalho é necessário. Porém, o problema está na forma como este trabalho se dá de forma impositiva como conseqüência das mudanças ocorridas significativamente nos meios de produção do trabalho, a partir da sua divisão social que subdivide a sociedade juntamente com a divisão parcelada do trabalho que subdivide o homem, proposto por Adam Smith e Charles Babbage. Em seguida, a adoção do estudo do tempo e do movimento produzido pelo trabalhador, elaborado por Taylor, denominado de mensuração de tempos e métodos. Foi quando Frederick Winslow Taylor começou a aplicar conhecimento sistemático à execução de tarefas nas fábricas com o objetivo de aumentar a produtividade, surgindo, daí o taylorismo, um movimento de racionalização do trabalho que se inicia no final do século XIX e difundido e implantado em todo o mundo no XX, um método, bastante lógico do ponto de vista técnico, que ignorava os efeitos da fadiga e os aspectos humanos, psicológicos e fisiológicos das condições de trabalho.
Daí, esses três, Smith, Babbage e Taylor, foram os responsáveis pela criação da gerência científica, bem como de seu planejamento e controle até mesmo do próprio trabalhador. Tudo isso mais o conceito de mais valia que propiciou a ampliação realizada por Henry Ford aprimorando este modelo de administração com a criação da sua linha de produção. Com o surgimento das linhas de montagens começou-se a efetuar cortes nos salários e incentivos aos trabalhadores, entrando em vigência o Fordismo e seus meios de produção que se tornaram importantes contribuintes para as demais indústrias automobilísticas, quando a força de trabalho humana é manipulada pelo produto de forças econômicas poderosas, políticas de emprego e barganha, e a atuação e evolução íntimas do próprio sistema capitalista.
A segunda etapa está referenciada no período chamado de Era da Informação que vai da segunda metade do século até o fim dos anos 1980, um período marcado pela divulgação de publicações cientificas e da televisão visando a capacitação do trabalhador.
Por fim, a terceira etapa, compreendendo a década de 1990, marcada por uma experiência nova, novas exigências pessoais e profissionais buscando menos produtividade e mais competitividade, menos informação e mais conhecimento, menos treinamento e mais educação, além da chegada da Internet e do mundo virtual que se tornava a partir de então tão presente na vida das pessoas e é quando todas as profissões passam a depender desse meio de comunicação e de acesso à informação. Com isso surge a Era do Conhecimento, quando ocorreu a democratização da informação exigindo qualidade com flexibilidade, criatividade, informação, comunicação, responsabilidade, empreendedorismo, sociabilização e tecnologia. Foi quando se passou a exigir a capacidade para o trabalho que, por sua vez, exige formação do trabalhador para que este se torne pessoa apta ao desempenho de suas funções. Esta exigência levou o trabalhador a não mais parar de estudar, se desenvolvendo pessoal e tecnicamente, de forma constante e não medindo esforço em seu aprimoramento, estando atento às necessidades de seu trabalho. Mas nisso há um questionamento: o trabalhador de hoje está feliz? Produzir sem ser feliz lembra escravidão dos primeiros séculos do Brasil. È nisso que Christophe Dejours defende que a base do trabalho está na formação de grupos de trabalhadores com o fito de colocarem para fora todo o sofrimento físico e mental que todo trabalhador, seja ele de qualquer área, esteja sentindo. A fadiga, a carga de trabalho e a insatisfação levam ao operário tantos sofrimentos que até em sua vida intima ele sente as conseqüências. São tantos os problemas de ordem física e mental que o trabalhador enfrenta, que o mais simples é talvez recorrer ao estudo da eficácia da ergonomia.
À guisa de conclusão, observou-se, então, que o trabalho serviu de transformação da escravidão para a subordinação jurídica, econômica, social e técnica, quando fica definido que o trabalhador não possui plena liberdade e deve seguir os critérios propostos pela organização a que é submetido como empregado, sendo integrado por um vinculo contratualmente estabelecido ao poder e controle. Com a emergência tecnológica e o processo de mundialização da econômica esta subordinação passou a ser, segundo José Affonso Dallegrave Neto, a parassubordinação, quando passou a ocorrer a subordinação mitigada, própria de empregados altamente qualificados ou controlados à distância, ou, ainda, das figuras contratuais resididas na zona fronteiriça entre o trabalho autônomo e a relação de emprego, como, por exemplo, o representante comercial e o vendedor pracista, ou seja, o trabalho subordinado e a autonomia.
Observa-se, com isso, o processo de evolução ocorrida no ambiente, na força e na relação de trabalho ao longo dos anos. O questionamento persiste: o trabalhador está feliz? A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, prevê em diversos de seus artigos, entre eles os arts. 7º e 193, bem como previsões na Consolidação das Leis do Trabalho protegendo e as inovadoras questões atinentes ao Meio Ambiente do Trabalho.
Entre as exigências legais e o desemprego, onde fica o trabalhador? Espremido na labuta diária, coagido e temeroso de perder seu emprego que é mantido, suportando uma carga na jornada além do potencial com toda pilha? Ou desempregado, se danando na buraqueira da informalidade, suportando a tensão e a vergonha do fracasso na promoção de subempregos e explorações?
Fica então o questionamento em aberto para um debate mais aprofundado acerca do trabalho humano.

REFERENCIAS
ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Abril, 1980.
BART, P. Ergonomia e organização do trabalho. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v6, nº21, p 6-11, 1978.
BERGAMINI, C.W. Psicologia aplicada à administração de empresas, São Paulo: Atlas, 1992.
BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.
CHIAVENATO, I. Recursos Humanos na Empresa. São Paulo: Atlas, 1995.
CODO, Wanderley. Sofrimento psíquico nas organizações. Petrópolis: Vozes, 1995.
COSTA, Patrícia. O Trabalho no século XXI. Revista Diga lá. SENAC. Departamento Nacional , Ano 5, nº l6, set./out. 2000.
DAVIES. D.R. e Schackleton, V.J. Psicologia e Trabalho, Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
DALLEGRAVE NETO, José Affonso. Inovações na legislação trabalhista: reforma trabalhista ponto a ponto. São Paulo: Ltr. 2002.
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DITOS & DESDITOS - Os computadores não matam os livros; pessoas, sim. Livros têm alma. Ou então românticos como eu costumo pensar. A terceirização da nossa memória para máquinas expande a quantidade de dados para os quais temos acesso, mas degrada a própria capacidade do cérebro de lembrar as coisas. Infelizmente, para a grande maioria de nós, uma grande maioria do tempo, rendemos nossa verdadeira autonomia a essa ilusão de agência. Eu sou tão culpado quanto qualquer um, e eu escrevo sobre isso em um livro. Eu não estou condenando ninguém. Pensamento do escritor estadunidense Douglas Rushkoff.

 

ALGUÉM FALOU: E repetidamente ela disse a ele que o amava. E repetidamente ele disse a ela que a amava. E era sempre uma coisa nova que eles contavam um para o outroFrase do escritor sul-africano-jamaicano Peter Abrahams (1919-2017). Veja mais aqui.


AS FILHAS DO XERIFE - [...] Pois quando se trata disso, talvez Adão fosse tão fraco quanto Eva; afinal, ele só foi tentado por sua própria semelhança, enquanto ela tinha o próprio diabo para se proteger contra [...] é ela (a alma da mulher) que torna sua alegria mais gloriosa e sua devoção e resistência na adversidade maiores do que nunca as do homem. Ele fala e age, ela sofre e fica calada. Sim, é lindo, essa vontade de sofrer e calar, esse silêncio de Deus e da natureza nela, se faz vencer em seu poder tranquilo [...]. Trechos extraídos da obra Amtmannens døtre (Rosenkilde, 2013), da escritora norueguesa Camilla Collett (1813-1895). Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS - A RED, RED ROSE - Ó meu amor é como uma rosa vermelha, vermelha \ Que brotou recentemente em junho; \ Ó meu amor é como a melodia \ Que é tocada docemente no tom... A MAN'S A MAN FOR A' THAT '- Existe para a pobreza honesta \ Que balança sua cabeça, e isso; \ O escravo covarde - nós o ignoramos, \ ousamos ser pobres por isso! \ Por um' isso, um' um' aquilo. \ Nossas labutas obscurecem e isso, \ O posto é apenas o selo do guinéu, \ O homem é o ouro para isso… Poemas do poeta e compositor britânico Robert Burns (1759-1796).

 



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