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domingo, agosto 17, 2025

ASTRID ROEMER, AMANDA MONTELL, CRISTINA RIVERA GARZA, CUMADI FULOZINHA & ARTE DA ESCOLA


 Imagem: Acervo ArtLAM.

[...] a questão-chave investigada nesta pesquisa diz respeito a desconstruções estéticas vocais - com foco na movimentação da Vanguarda Paulista - e como isso pode estar associado ao feminino. [...] buscou contribuir para uma extensa gama de pesquisas que relacionam música a questões de gênero, além de apontar a coexistência colaborativa entre diversos métodos para a análise de canção das mídias. [...].

Trechos extraídos da dissertação de mestrado sob a temática Se a obra é a soma das penas: um estudo feminista sobre as cantoras da Vanguarda Paulista (USP, 2018) e ao som do álbum Mulher Bomba (2022), da compositora, pianista, cantora, professora, preparadora vocal e ativista Luísa Toller (Luisa Nemésio Toller), em parceria com a escritora, atriz e slammer Luiza Romão.

 

Heptamerão: até que a morte os separe... - No primeiro dia era janeiro nos olhos estivais de Suzanilza, a sonhar Egipcíaca de Bandeira, como se fosse a rainha de maio da Vita de Sofrônio. Entretida com o que se tornara seu Heptameron de Navarre, mais se embalava com as leituras dos versos adorados da Soror Juana Inés, alentando-se com outras de tantas preces, quando empinava os seios para madurar nas estrelas, no afã de que de lá refletissem aos olhos do bem-amado longínquo, sabia ela não tardaria a chegar. Era o chamado do amor numa espera de séculos e por todas as suas tardes e noites suspirantes. No segundo dia do seu devaneio profundo, o espetáculo do crepúsculo outonal: lá estava ele vencendo as distâncias mais remotas para ancorar seu Pavão Mysterioso na varanda do quarto dela. Iluminada pela recepção, mais se fez bonita lua decotada, pronta pro seu senhor desejado. Ele abraçou-a com suas mãos de Proteu, dela se deixar à mercê de suas investidas por entre saia, a desabotoar seu corpo virginal castiço, com ginga pro rastapé, bate-coxa, um galope à beira-mar. Ele descobria o labirinto da intimidade dela e a cada instante reiniciava e, por azo, fruía do seu inebriante perfume arrebentando o tempo, agitando por dentro para que ela se fizesse dilúvio com seus belos adornos ao seu dispor. E mais se gabava porque o vento trazia a tormenta e tanto lhe foi dado atiçando a lareira dela, para que ela crescesse vultosa e não mais donzela, ocupando-a a instigá-la, de perder as vestes todas e ser só dele, a se queimar com o seu fogo ardente. Ela astuciosa serviu-lhe fagueira, a boca entreaberta e suas águas escorriam. Um talho recíproco em seus polegares selou definitivamente o pacto de sangue. A alvura dela imaculada o fazia claudicar extasiado diante do enlace dos nubentes. E naqueles lábios escarlates ele se lambuzou com o gosto do batom, saboreava nela tantos quantos deliciosos bem-casados. Dali talvez dias mais, ela noivava esponsal de Getulídio, um aplicado bancário de somas e contas, agora dono de seu coração e um calendário repleto de brindes e libações. No terceiro dia de quantos meses a lua de mel se prolongou com a ascensão primaveral no ramalhete diário de bem-aventurados e os dois se engalfinhavam pelos lençóis do tempo e até as horas cúmplices se estiravam pelos colchões de nuvens migratórias, impressionando-o com o Olho de Hórus no trancelim dela. Logo os filhos vieram. O primeiro a nascer foi Ínvio, um primogênito na empáfia de todas as satisfações. Um ano depois, a filha, Maria Lua, coroando o casal. E viviam para si de quase olvidar o crescimento do filho a olhos vistos, enquanto a filha engatinhava sonhos que serviam de folguedos para sua felicidade imorredoura. Definia-se a descendência, de quase não conseguirem segurar o trupé do coração. E um sobressalto repentino, a família e, o que era cor-de-rosa, agora singrava as obrigações e cuidados imprevisíveis com o espelho quase se espatifando inadvertido, trincando o vidro dos festejos. No quarto dia a invernada súbita e a dança dos erros com a morrinha, o grande não, os desacertos, quantos percalços fizeram a barra mais pesada pra eles, a poeira do deserto, puxa vida! Amargurados, sequer notaram os filhos crescidos e tomando o rumo das suas ventas. Um dia ao despertar com a braguilha pelo avesso: um brinco na orelha do filho. Como é? O alarme soava: o rapaz descobriu-se outra que não a sua, era agora Tyrésias. Com o escândalo Maria Lua minguou fazendo coro, não mais aquela porque outro era o seu teimar, João Sol – Maria Joãozinho para íntimas de sua sororidade solidária, luz própria, próprio mando e firmeza de fé. Clamores exacerbados: O que foi que eu fiz, meu Deus? Era o caos nos olhos descabelados em todas as direções: uma heresia nos seus bíblicos poréns, como se não poupasse sua condenação - Maldita androginia! O ridículo, a posteridade, a reputação, tudo revirado aos relâmpagos e trovões. Uma sentença secreta mostrando os dentes na aflição paterna. No quinto dia ensolarado, o verão era enorme como um dia de fome, lágrima alguma evaporava, não havia perdão e era o que mais punia. A notícia da tentativa de suicídio do filho liquidava de vez as forças maternas restantes e não havia como ela resistir. Na sua agonia estertorava com a ameaça de que a filha fugira de casa na madrugada. O pai se vingou: ia enxotá-los de qualquer jeito. Suzanilza estava cônscia que ia morrer, esgotada pelas demandas: era quase uma Fênix deplorada e que se fez cinzas para jamais ressuscitar - uma estrela perdida nas constelações infindas. Quando ele a viu quase uma estátua de pedra, sabia que seria nunca mais: a viuvez, os cravos de cemitérios, os choramingos, nada havia como abrandar a sua dor. O riso preso pela alegria que se fora com o teto que desabou apagando a memória, lugares e palavras. Entre as mãos escondia a face, a morte adiantava a sua parte e não moveu um dedo sequer: ela viva jamais o deixaria morrer. Agora, não mais. Era o sexto dia pluvioso, a desmemória e não podia ignorar o álbum de fotografias. Foi-se a esperança e o que ficou para trás. Naquele momento todos as memórias se esvaíram na escuridão. Tentou reabilitar-se no penúltimo degrau da escada para destruir o sinaxário, como se caçasse quem roubou o segredo de Deus e raptou para si a palavra perdida. Ali sentia e era incapaz de entender seu próprio sentimento. Muitas noites naquela longa travessia soturna com a herança apenas de cada vez contar a sua história e a sensação reiterada de nunca mais. Enfim, no sétimo era dia branco e não sabia. Passou a vida a limpo, lamentou tantas vezes terem se estranhado por coisa de pouca monta, as cenas de ciúmes, ausências punitivas, o descanso, o silêncio valetudinário, esgotava-se. E uma luz nas suas trevas: Quem é ela? Vinha calma, cândida, vestida com seu manto branco reluzente, cocar de penas brancas e, ao peito, a insígnia com um punhal branco afiado e lâmina para baixo. Quem é ela? Vinha carregando o seu bastão celeste feito de pau-brasil banhado pelos raios de Tupã, à cintura o cordão de Iara e o sorriso confortador: Sou Catxuréu: O fim será sempre o início de um novo começo... Não ouvia, nem falava. Sabia apenas que ela viera da primeira morte do mundo para levá-lo pela ponte dos que se perderam, livrando-o de Luison – o deus da morte ruim. E o acompanhou até a sua última gota de vida, era 1º de abril. Até mais ver.

 

Nazik Al-Malaika: A noite pergunta quem eu sou. Eu sou sua intimidade insone, profunda e escura. Eu sou sua voz rebelde... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Annie Proulx: Somos todos estranhos por dentro. Aprendemos a disfarçar nossas diferenças à medida que crescemos... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Martha Medeiros: Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo... O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

ESCOTOMAS - Espumante: \ Esta área cega do campo visual \ é uma série de \ flashes de luz em movimento. \ O fato de saber \ coisas \ só porque \ o fato de imaginá-los \ a mente vê \ o que quer ver \ claramente. \ A cama. \ A cicatriz.

REENCARNAR - O luto é uma questão de excesso de ordem. \ Luto é a mesma coisa que tristeza? \ Certamente ela já teria se perguntado isso antes. \ Não sei o que ele poderia ter perguntado a si mesmo. \ Se em vez de irem a uma festa \ tivessem ficado sozinhos em casa, sem dúvida teriam chorado. \ Sem dúvida: essa frase me assusta. \ É possível que o homem e a mulher tenham ficado em silêncio em cômodos diferentes da mesma casa. \ Casas grandes acomodam a solidão de seus habitantes. \ Uma frase completa é como uma sala onde uma mulher ou um homem chora sem perceber. \ O céu nunca esteve tão azul. \ A tristeza é frequentemente expressada através do choro. \ Também é comum que a tristeza seja inexprimível. \ Tristeza é a mesma coisa que pesar?

Poemas da premiada escritora, tradutora e crítica mexicana Cristina Rivera Garza, autora de Autobiografía del algodón (2020), El invencible verano de Liliana (2021) e a sua coletânea completa de poesias, Me llamo cuerpo que no está (2023).

 

BRANCO QUEBRADO - […] E o vento alísio da tarde trouxe o ar do mar. "Como está a cozinha?", ela disse: "Vai demorar um pouco para tudo ficar bem macio." Um aceno da avó e ela correu para a cozinha para colocar tudo em fogo baixo e finalmente começar a lavar roupa. A avó entrou na cozinha, como se fosse direto para o banheiro. Parou quando ouviu a máquina de lavar funcionando e olhou para ela com curiosidade. [...] Ela continuou convencida de que havia nascido na família errada, no país errado, na época errada. E, no entanto, eles conseguiam ficar lado a lado e recuperar o fôlego na foz do Rio Suriname. [...]. Trechos da obra Gebroken wit (Prometheus, 2019), da escritora e professora surinamesa-holandesa Astrid Roemer (Astrid Heligonda Roemer), no qual conta sobre três gerações de surinameses, a avó Bee, sua filha Louise e seus cinco netos, tentando encontrar seu caminho no mundo, no Suriname e na Holanda, enquanto segredos obscuros de família estão em jogo. Em uma entrevista concedida (Center For The Art Of Translation, 2023), ela expressa que: [...] é um romance que te toca profundamente. É um livro físico. Comer e preparar refeições, beber, pensar e se envolver com a sexualidade são atividades físicas. Esse é o paradigma desses romances, que formarão uma trilogia. [...] Fundamentalmente, eu nunca tinha ido embora. Por volta da virada do século, depois da minha trilogia de 1.000 páginas, Impossible Motherland, a então respeitada revista feminista Opzij chegou a me nomear uma das três mulheres mais importantes dos últimos anos. Eu queria dar ao meu trabalho a chance de se conectar com a sociedade holandesa e alcançar uma geração mais jovem. E enquanto minha carreira estava voando alto em público, eu estava lutando com constantes arrombamentos em meu endereço residencial e com telefonemas ameaçadores de estranhos. Eu havia me libertado de certos laços íntimos. Eu estava pronta para escrever romances como Off-White e Dealer's Daughter, junto com novos poemas que expressariam minha visão de mundo cosmológica. Eu sentia um desejo intenso por um habitat de língua inglesa. Eu me estabeleci na Escócia e em Skye, de onde alguns dos meus ancestrais haviam partido para o Suriname. Eu era tão feliz lá, só eu e minha gata Steffi. Agora estou redescobrindo o lado estadunidense dos meus primeiros anos em antigas canções de amor. [...]. É também autora de On a Woman's Madness (1982).

 

A LINGUAGEM DO FANATISMO - [...] as palavras são o meio pelo qual os sistemas de crenças são fabricados, nutridos e reforçados; seu fanatismo fundamentalmente não poderia existir sem elas. [...] a linguagem não funciona para manipular as pessoas a acreditarem em coisas que não querem acreditar; em vez disso, ela lhes dá a liberdade de acreditar em ideias às quais já estão abertas. A linguagem — tanto literal quanto figurada, bem-intencionada e mal-intencionada, politicamente correta e politicamente incorreta — remodela a realidade de uma pessoa somente se ela estiver em um lugar ideológico onde essa remodelação seja bem-vinda. [...]. Trechos extraídos da obra Cultish: The Language of Fanaticism (Harper, 2021), da escritora e linguista estadunidense Amanda Montell, que noutro livro Wordslut: A Feminist Guide to Taking Back the English Language (Harper, 2019), ela expressou que: […] Um dos conselhos menos úteis da nossa cultura é que as mulheres precisam mudar a maneira como falam para soar menos "como mulheres" (ou que pessoas queer precisam soar mais heterossexuais, ou que pessoas de cor precisam soar mais brancas). A maneira como qualquer uma dessas pessoas fala não é inerentemente mais ou menos digna de respeito. Só soa assim porque reflete uma suposição subjacente sobre quem detém mais poder em nossa cultura. [...] Uma das formas mais sorrateiras pelas quais esses preconceitos se manifestam é que, na nossa linguagem, na nossa cultura, a masculinidade é vista como o padrão. [...] Se você quer insultar uma mulher, chame-a de prostituta. Se você quer insultar um homem, chame-o de mulher. [...] Também vivemos numa época em que vemos veículos de comunicação respeitados e figuras públicas circulando críticas à voz feminina – como a de que elas falam com muita fricção vocal, usam palavras como "literalmente" e "literalmente" em excesso e pedem desculpas em excesso. Eles rotulam julgamentos como esses como conselhos pseudofeministas, visando ajudar as mulheres a falar com "mais autoridade" para que possam ser "levadas mais a sério". O que eles parecem não perceber é que, na verdade, estão mantendo as mulheres em um estado constante de autoquestionamento – mantendo-as quietas – sem nenhuma razão objetivamente lógica, a não ser o fato de que elas não soam como homens brancos de meia-idade. [...].

 

MINHA CUMADI FULOZINHA, DE GIVA SILVA

Somos filhos da Mãe da Mata e tivemos com ela, cada qual, as suas experiências. Justamente por isso mesmo: desde a mais tenra idade a Cumadi Fulozinha faz parte das nossas vidas. E há quem, como eu e o autor desta obra, tenha vivenciado muito e tanto, a ponto de, em si, manter sagrada as marcas ancestrais vivas em sua espiritualidade. Afinal, confesso: até hoje ela vive comigo. Além do mais, outras coisas contadas e cantadas: somos causas e consequências de histórias - todas emergentes a cada dia, a cada ano vivido, em cada momento do presente que passou agorinha mesmo. Eita! Foi. Inventamos estórias por vivermos dos porquês, fatos, fantasias, devires. Vivemos do que vem de dentro: o que é e será sempre. Enfim, somos todos hestórias (LAM).

Texto escrito por mim para a publicação do livro Cumadi Fulozinha (2025), do educador, comunicador e militante indígena Giva Silva (Givanildo M. da Silva), que é o idealizador e coordenador da Tv Imbaú. O livro que se encontra em pré-venda é memorialístico e onírico, mergulhando nas lembranças de um menino guiado pelo avô num universo de descobertas infinitas. No centro dessa jornada, como objeto de fascínio e curiosidade, está uma das figuras mais enigmáticas e fundamentais da cultura indígena e popular do Nordeste: a protetora das matas, Cumadi Fulozinha. Com uma narrativa que oscila entre o real e o imaginário, o texto evoca não apenas as memórias afetivas da infância, mas também a força mítica dessa entidade guardiã, cuja presença transcende as histórias sobre ela para se tornar um símbolo de resistência e mistério. O avô, como narrador e guia, conduz o menino (e o leitor) por um mundo, no qual os limites entre a realidade e o sonho se dissolvem, revelando a profunda conexão entre a cultura ancestral e a formação de um imaginário pessoal. Assim, a obra comemora a tradição oral, o afeto familiar e o poder das histórias que moldam quem somos—ou quem desejamos ser. Veja mais aqui, aqui & aqui.

&

ARTE NA ESCOLA

Arte dos alunos da Escola Municipal Ivonete Ferreira Lins & do Ginásio Municipal Fernando Augusto Pinto Ribeiro, de Palmares – PE. Confira aqui e aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Acontecerá entre os dias 18 e 22 de agosto, na Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, em Palmares, a 18ª Semana do Patrimônio Cultural de Pernambuco, com a temática Palmares de todos os saberes: cultura popular na voz do povo. Dentro da programação, no dia 19 de agosto, nos turnos da tarde e noite, realizarei a palestra Cordel, contos & causos de Palmares: Narrativas da Mata Sul pernambucana.

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.


 

quinta-feira, agosto 24, 2023

BLANCA LUZ PULIDO, CASSANDRA CLARE, ELIZABETH GROSZ & REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som das obras Verblendungen (1984), Io (1987), ...à la Fumée (1990), Graal théâtre (1994), Orion (2002), Terra Memoria (2007), Lanterna mágica (2008), Circle Map (2012), Only The Sound Remains (2015) e Innocence (2018), da compositora finlandesa Kaija Saariaho (1952-2023).

 

EITA, MANA, TENGO LENGOTENGO - Chuviscava na tarde mormaçada e o país parou porque era domingo na primeira semana de janeiro: horrores à vista numa roleta russa e nenhum semancol! Era 8 de janeiro e tudo muito triste há mais de uns cinco ou seis anos para um franzino à paisana, solfejando A morte do vaqueiro de Gonzaga & Nelson Barbalho – o nome esquecido de quem morreu sem deixar festas, quem não, quem nunca no pântano lúgubre dominical: o sangue humano era o alimento deles tão beligerantes. Quase nem ouvi quem dissera de Buchi Emecheta no meio da treta televisionada, um desaforo em cadeia nacional: O mundo inteiro parecia desigual, tão injusto. Algumas pessoas eram criadas com todas as coisas boas prontinhas à espera delas, outras apenas como enganos. Enganos de Deus... Pareciam mais desalmados oriundos da Planolândia, estúpidos desatinados. Não fosse dela o aceno com um trecho do Genji Monogatari de Murasaki Shikibu, jamais saberia: As coisas reais na escuridão não parecem mais reais do que os sonhos... O mundo não sabe disso; mas você, Outono, eu confesso: seu vento ao cair da noite penetra profundamente em meu coração... Não era outono e nem ainda escurecia. Só um tempo depois percebi que chegara de Earenger ornada pela chuva de quarks, bósons e habróns, no meio de múons que rondavam nas paragens. E se aproximava como quem descia do cometa Nishimura para nosso interlúdio idílico. Sua presença, ah ela, removia as sombras dos mortos de Estige e a barca de Caronte, o óbolo, o Cérbero e a terra da solidão subterrânea de Hades, os campos de Asfódelos, o profundo Tártaro e os Campos Elísios, tudo então revivido, não mais. Ali se parecia Perséfone escapulindo do sequestro e agitando a dopamina na minha festa Heitor dos Prazeres. Enigmática citou Bob Wilson: Se você vê o pôr do sol, isso tem que significar alguma coisa? Se você ouvir os pássaros cantando, tem que ter uma mensagem?... E me propôs jogar mancala no meio da quase noite estrelada. Sabia lá o que era e como. Diante da minha ignorância recitou-me Nazik Al-Malaika: Entenda-me se a noite for compreendida, entenda meus sentimentos. E toque-me, toque-me se as estrelas podem ser tocadas. Noitedias mais que a entendi ao tocá-la: mergulhei nos seus olhos e mais soube de viver sua efêmera estadia. Era a vida pregando das suas, ela se foi como se nem bem dissesse: Lá vai Luiz, coitado, o nosso sangue nos une. E isso eu não sabia. Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

MULHER COM CHUVA: Uma xícara de café começa o dia. \ A lucidez e a paciência \ pendem de seu aroma espesso. \ Começo a sentir a matéria, \ A perceber a luz\ e a separar-me das sombras. \ Costume, rito: \ listar na imaginação \ tarefas planejadas, \ futuros imediatos. \ Olho \ pela janela aberta \ a chuva matutina que molha \ minhas ideias. \ Cores desbotadas \ instalam bandeiras tênues. \ Entre os parênteses \ que abre a chuva e o café \ gostaria de ficar para sempre: \ gota d’água \deslizando na janela.

VISITAÇÃO: Bato na porta da estrofe, \ três golpes discretos, \ suaves, \ tem alguém aí? \ Saem com força \ sílabas agitadas \ que não querem \ organizar-se em versos \ e, rebeldes, negam \ qualquer parentesco distante \ com metáforas ou anáforas ou \ nenhum outro truque retórico, \ dizem; \ e me informam \ que pensam em sair \ para passear ao ar livre. \ Sair da minha cabeça, \ é o que estão procurando \ vagar soltas pela página \ e viver \ à sua vontade. \ E como estou sozinho \ uma figura imaginada por elas \ obedeço e escrevo \ o que ditam \ para que não se esqueçam de mim \ e me façam \ desaparecer.

Poema da escritora, professora e tradutora mexicana Blanca Luz Pulido, autora dos livros Raíz de sombras (Fondo de Cultura Económica, 1988), Reino del sueño (Aldus, 1996); Los días (Colibrí /Secretaría de Cultura de Puebla, 2003), Pájaros (Lunarena, Puebla, 2005); Materia habitada (Casa de Poesía, 2007); La tentación del mar (UAM/La Cabra, 2012), Cerca, lejos (Textofilia, 2013) e Poderes del cuchillo (Parentalia/FES Acatlán, 2016).

 

CIDADE DOS OSSOS - […] Você já se apaixonou pela pessoa errada? Jace disse: "Infelizmente, Senhora do Refúgio, meu único amor verdadeiro continua sendo eu mesmo." ..."Pelo menos," ela disse, "você não precisa se preocupar com a rejeição, Jace Wayland." "Não necessariamente. Eu me recuso ocasionalmente, apenas para mantê-lo interessante [...] Essa é a parte em que você começa a arrancar tiras da sua camisa para curar minhas feridas?" "Se você queria que eu arrancasse minhas roupas, você deveria apenas ter perguntado. [...] O sarcasmo é o último refúgio do imaginativamente falido [...] O menino nunca mais chorou e nunca esqueceu o que aprendeu: que amar é destruir e que ser amado é ser destruído. [...]. Trechos extraídos da obra City of Bones (Margaret K. McElderry, 2007), da escritora estadunidense Cassandra Clare, pseudônimo de Judith Rumelt, autora de frases tais como: Sempre devemos ter cuidado com livros e com o que está dentro deles, pois as palavras têm o poder de nos transformar. Nós vivemos e respiramos palavras.

 

CAOS, TERRITÓRIO, ARTE: DELEUZE E O ENQUADRAMENTO DA TERRA - [...] A arte propriamente dita, em outras palavras, surge quando a sensação pode se desprender e ganhar autonomia de seu criador e de seu observador, quando algo do caos do qual é extraído pode respirar e ter vida própria. [...]. Trecho extraído da obra Chaos, Territory, Art: Deleuze and the Framing of the Earth (Columbia University Press, 2020), da filósofa Australiana e professa Elizabeth Grosz, expressando que: O corpo deve ser considerado como um local de inscrições, produção ou constituição social, política, cultural e geográfica. O corpo não se opõe à cultura, um resistente retrocesso a um passado natural; é em si um produto cultural, o produto cultural.

 

REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817

Deixamos Pernambuco com a firme convicção de que pelo menos esta parte do Brasil nunca mais se submeterá ao jugo de Portugal.

Pensamento da pintora, escritora e historiadora britânica Maria Graham (Maria Dundas Graham Callcott – 1785-1842), extraído da obra ABCdário da Revolução Republicana de 1817 (CEPE, 2017), organizada por Maria de Betânia Corrêa de Araújo, design gráfico de Raul Kawamura, pesquisa de Marcus de Carvalho, Mateus Samico e Sandro Vasconcelos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 



sexta-feira, agosto 23, 2019

GAUGUIN, NAZIK AL-MALAIKA, ASCENSO & OSCAR MENDES, DANI ACIOLI, ALOISE BAHIA & INJUSTIÇA


TEHURA DE GAUGUIN – Chega uma hora em que se tem que se valer só de si e o que fazer da vida. Emigrei com Le mariage de Loti, e o meu diário de viagem, Noa Noa. Na busca incessante por criar, saí de casa para ter paz e tranquilidade, me livrar do mundo decadente, abandonado por todos. Atravessei privações, doenças, indigência e incompreensões. Estava sufocado, tudo podre ao redor, enregelante situação. A quem amava, via-me pelas costas, intolerante, esperneio de mimada. Tudo numa degradação física e psicológica, entediado com o mundo das artes, aventurar além-mar era o que podia: havia vida além da contaminada civilização, tinha certeza. Viagens e boêmia mundo afora, o que pude, e nele todas as mulheres do Panamá, Peru, Copenhagen, Bretanha, Martinica, Brasil, Polinésia, até o Taiti, onde encontrei colorido, inspiração e liberdade. Insulado, descurava: a podridão colonial espancava uma prostituta à beira-mar. Indignação de encarar meu arredado exílio voluntário, miserável entre o bucólico exótico e selvagem erótico. Era tudo isso. Permaneci entre as ninfas de Corot, dançando no bosque sagrado de Ville-d'Avray e os infinitos mistérios cambiantes. Não havia como escapar e a vida na pobreza de Papeete, ao lado da doença, falência e miséria. Sem mantimentos, incapaz de pescar no Platô de Taravao, tropecei faminto, exausto, até desmaiar na volta para La Maison du Jouir, minha cabana, meu abrigo solitário com a diabete, a sífilis e um ataque cardiovascular. Ao acordar, a bela jovem Tehura dançava sensualmente à luz do fogo, na ilha vulnerável de Fa’ane, inspirando Manao tupapau - Espírito dos mortos em vigília. Uma menina-moça de Huahine, era ela, na verdade, Teha’amana, a doadora da força, impenetrável, com a flor tiare vermelha no ouvido, uma cicatriz na sobrancelha direita, de uma queda dum pônei na infância. Realçava essa Eva primitiva, nativa vahine, entre mangas maduras, glifos, o mar azul-turquesa, paisagens verdejantes, montanhas sombrias e rostos de pedra divididos por cachoeiras espumantes, um paraíso edênico. Durante a refeição formalizei meu amor por ela, ao dispor de frutas silvestres, sabores de fruta-pão, bananas, peixes, camarões e porcos. Ofereciam comida aos forasteiros, um ato de caridade. Cheio de felicidade, entre beijos e sexo, conversamos sobre as estrelas e me contou histórias de sua gente, para embalar meu coração exilado: O enigma que se esconde no fundo de seus olhos infantis ainda é incomunicável para mim. Ela deslizava por um bosque daquela desabitada beleza num vestido branco sensual, para ir à igreja. Os seus olhos azuis nórdicos agitou-me a rebeldia: essa barbárie me rejuvenesceu. Esculpi seu semblante, o meu terno amor. Dei-lhe colares de miçangas e anéis de latão, e para ela fiz a Merahi metua no Tehamana, o busto Tête tahitienne e uma escultura em madeira. Uma paixão tão dolorosa, circunstâncias terríveis, a vida explodiu. Deu-me o místico pensar: De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? Meus olhos se fechavam e, sem entender, viam o sonho no espaço infinito que se estende, esquivo, diante de mim. A natureza exuberante e indomável, intimamente. Permanentemente empobrecido, me vi numa frustrada tentativa de suicídio com arsênio: sou escravo da sensualidade febril das mulheres polinésias. As minhas feridas sifilíticas fizeram-na me recusar. Conflitos, efeitos da doença, as manchas de pele ao Sol, a barba mal feita, um olhar alucinado, a penúria de uma vida marcada por frustrações. Não era pouco, pior a sua recusa. Passava fome, trabalhava como estivador, a saúde extremamente debilitada. Falo francamente: sou difícil e podem me chamar de hedonista. Fiz para me livrar das convenções e desbravar a vida libertária. Sei das minhas questionáveis escolhas entre o sonho e a loucura, era o meu projeto de vida inteira. Nunca fui fácil nem herói incólume, um vasto abismo: tudo muito delicado. Eu amei, muito. Dei-me o direito de ousar tudo e não neguei meus mestres. Amei com a minha possessividade sexual, a alma invadida por lembranças profundas. Amei demais e nunca me contentei em sonhar: a vida vinga o sonho na poesia. Amei desmedidamente e embora pensem que sou um mito ou algo inventado por todos, sou apenas o amor e a quem amo, mesmo incompreensível. Contudo, sou forte porque nunca sou jogado fora do curso por outras pessoas e porque faço o que há em mim. Tanto sofrimento me fez aprender e me libertar no amor e para me enterrar aqui nas remotas ilhas de Marquesas, a morrer de amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Utilizando a temática que a vida nordestina lhe fornecia, compôs seus poemas, cheios de ternura e de ironia, de romantismo e de malícia, fixando, muitas vezes, num verso, numa frase, um aspecto típico da região, de um personagem, da psicologia de uma sociedade e de um povo. Gostava de, ele próprio, declamar seus versos, numa toada de jeito popular, que dava um sabor e um toque todo especial à sua poesia. [...] em que reevoca a vida nordestina, o seu folclore, os seus costumes, as suas figuras típicas, tudo numa misturada de malícia, de sensualidade, de ironia, de sátira, de sentimentalismo, de romantismo, de alegria e de tristeza, que tornava sua poesia de sabor inesquecível. [...] Escrevia, sim, em muitos dos seus poemas, na linguagem simples do povo, com seus modismos, seus idiotismos, mas não descurava de fazer poemas em linguagem correta e letrada. A sua poesia estava toda impregnada da sua terra, do seu barro, das águas de seus rios, de seus mangues, das suas frutas, da sua viração, das suas noites de luar, do dengue de suas mulheres, de suas alegrias e de suas dores.
Trechos da crônica O grande descanso de Ascenso, extraído da obra Tempo de Pernambuco – ensaios críticos (EdUFPE, 1971), do advogado, crítico literário, tradutor e escritor Oscar Mendes (1902-1983). Veja mais da obra aqui & de Ascenso Ferreira aqui.

A POESIA DE NAZIK AL-MALAIKA
CALENDÁRIO: Para os nossos passos houve um passado; está morto / Por centenas de anos. / Os anos apagaram sua memória / E eles o colocaram entre os mortos. / Nós procuramos por muito tempo / Suas estrelas desaparecidas / Nós recorremos ao impossível / Para restaurar sua vida. / Nós tentamos, atravessando os séculos, / Traga-o de volta ao seu começo, / Na esperança de recuperar nossos sentimentos, / E nós retornamos de mãos vazias. / Nós passamos pela escuridão / Franked o impassível, imóvel, / Desenterrando ossos empilhados / E nós não encontramos o perdido. / Nós vimos frentes lá / Que eles não viram porque eram cegos, / Olhos auto-absorvidos na vida / Silencioso, porque eles eram mudos. / Nós vimos restos de corações / Embalsamado com a memória. / Em vão tentaram encontrar / O significado... eram restos. / Nós vimos lábios vazios / Eles não fizeram reclamações ou sentem fome / E mãos murchas e dobradas / Cujo infortúnio não causou lágrimas. / Nós nos perguntamos sobre o nosso passado / E nós nos deparamos com um caixão. / Lá, no túmulo, o tempo se desvaneceu. / Voltamos ao calendário: / Você pode enganar os dias? / E ouvimos gritos nos restos / Depois do sarcasmo das figuras. Nós vimos o esperado amanhã / Arrastando sua metade paralisada, / Arrastando sua metade desprezada, / Está meio congelado, inerte. / Lá, um livro fechado / E a velha música acabou. / Amanhã a vida germinará / Nas feridas do tempo doloroso. / A voz de ontem será perdida / No turbilhão profundo do tempo / E nos sentiremos em nossos óculos / A palpitação do sonho que acorda. /
Poemas da obra Faíscas e cinzas (1949), da poeta iraquiana Nazik Al-Malaika (1923-2007). Veja mais aqui & aqui.
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POEMAS DE JOSÉ ALOISE BAHIA
O PAÍS QUE NÃO CONHEÇO DEU-ME UM BISAVÔ: o país que não conheço deu-me um bisavô, / navegante simples em seu barco cheio/ de peixes, que sempre volta à terra firme. / o país que não conheço deu-me um bisavô, / encantador de histórias do céu, fogo e ar. / lá no meio da baía vislumbra um castelo./ lá no meio da baía vislumbra um cardume./ o país que não conheço deu-me um bisavô, / bisavô dourado feito sol em ondas extensas, / bisavô que tarda e não falha a içar às velas, / bisavô que cedo madruga: que faz despertar / o mar que em mim se agita, me embarca / em tamanha travessia e liberta imagens / que chegam num turbilhão de norte a sul...
SONETOS NUM CORPO DILACERADO: Pelas fagulhas cortantes do desejo, de tão quente, queimam o rosto. Bambeiam as pernas. Faz amolecer os braços. Dispara a circulação. Ofega o pulmão. Decepa tudo. O tronco subsiste devido à presença do suco gástrico recheado de 14 linhas apropriadas contra o ataque de qualquer veneno disponível no campo do olhar.
NOVELO NUM CARRETEL: De uma infância distante e radical, onde rolavam cilindros dinâmicos, para um fluxo maduro: a desintegração num encontro explosível em manchas de cores aleatórias. Fundo, forma espaço — embate pessoal nas entranhas. Evidências do impossível no labirinto branco da tela revelam uma ponte: Minotauro palpitante.
Poemas do poeta e jornalista mineiro José Aloise Bahia. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Eu tenho uma produção que surge num repertório. É um repertório de construção do feminino, da mulher no mundo, na história, sobre como a gente sempre foi subjugada na construção de uma identidade cultural feminina. O lugar do feminino nessa relação sempre foi uma construção social de subjugação, de ser colocada no lugar da castidade ou no oposto disso.
A arte da artista visual e jornalista Dani Acioli. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE GAUGUIN
Devo confessar que também sou mulher e que estou sempre preparado para aplaudir uma mulher que é mais ousada do que eu e é igual a um homem na luta pela liberdade de comportamento Eu fecho meus olhos para ver.
A arte inspirada na sua musa Tehura – a vahine, ou seja, a esposa nativa taitiana também nomeada Teha'amana, que é tratada no filme Gauiguin: Voyage to Tahiti (2017), dirigido por Edouard Deluc e inspirado no diário Noa Noa (Poseidon, 1943), quando o pintor Paul Gauguin decidiu por conta próprio exilar-se no Taiti. Lá ele espera reencontrar a pintura livre, selvagem, fora dos códigos morais, políticos e estéticos europeus, enfrentando a solidão, a pobreza e a doença. É quando ele se reúne com Tehura, a quem dedica terno amor e a transforma em tema de suas obras.
Veja a obra do pintor do pós-impressionismo francês Paul Gauguin (1848-1903) aqui, aqui & aqui.
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Dia Internacional de Combate a Injustiça aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, agosto 23, 2018

NAZIK AL-MALAIKA, SCHILLER, AGNÈS VARDA, MENOTTI DEL PICCHIA, ANTÔNIO MENESES, READ, KIM SUNG JIM & INJUSTIÇA


O RISO DELA - Imagem do artista coreano Kim Sung Jim. - Quando ela está triste, nada tem a menor graça: chuva na escuridão, destroços no caminho, velas ao vento. Fico todo à deriva nas insossas horas, fel nas palavras, janelas de portas fechadas no ermo das coisas. Quando ela se aparta recôndita, bandeira arriada, olhos no chão, aperto na alma estrangulando o coração. Quando ela vira as costas e sai às pressas, leva mais que a metade de mim não sei para onde e me perco de tudo, sou alma penada sem vez pra viver. Quando ela se tranca cofre lacrado, sou refém aprisionado no que não tem mais saída, escondida das minhas vistas em fuga pros astros a me deixar sem teto nem piso e tímida intimida o afeto e me deixa sozinho ao desencanto, desguarnecido da alheia estima, clarão que se apagou, as mãos minguadas no instante nublado. Mas quando ela sorri, tudo se enaltece e me embriaga, porque o riso dela é alameda pro passeio aprazível pela brisa da tarde e vegetissombras perfumadas pelo natural eflúvio dos frufolhas e rosabores; é a margem de rio porto seguro das manhãs ensolaradas no mormaço estival de todos sonhacordares; é a ponte entre o íntimo e o anímico a reverberar apaziguamento para todas as revelações cósmicas; é alvo que se acerta no afã da pontaria, gesto que desarma a ruindade do coração humano. O riso dela é o Sol que reina no esplendor das manhãs, flor que desabrocha para alegria dos jardins, brilho de estrela radiante iluminando o céu, cachoeira que deságua irrigando o mundo, vulcão eruptivo no espetáculo da Terra, onda que se joga rebentando pro baque nos arrecifes, correnteza que leva o rio pro mar. O riso dela cabe na palma da mão e no oco do mundo, irradiando luz por todos os quadrantes e anima meu coração para labuta de todos os dias e guerras de sobrevivência. O riso dela são fogos de artifícios nas festas que em mim se agigantam como girândolas de todas as comemorações. Não há quem não se renda, lábios entreabertos desnudando a fisionomia, a largada pro bem sentir, a chegada pra se sentir bem. O riso é dela, o prêmio é meu; sou o espelho da alegria folgando acorçoo até os seios de Nut a descobrir quantas galáxias se aninham no seu corpo, porque sou mais que a imensidão mais longínqua. Isso só por ela sorrir e com seu lindo sorriso esqueço de mim pra ser só dela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violoncelista Antônio Meneses: Sonata de Schubert, Concerto para violoncelo de Shostakovich, Concerto para violoncelo de Edward Elgar & Suíte Brasileira de Mehmari & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aquiaqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A natureza essencial da arte não se há de encontrar nem na produção de objetos destinados a satisfazer necessidades práticas, nem na expressão de ideias religiosas ou filosóficas, mas na capacidade do artista para criar um mundo sintético e de existência própria, que não é das necessidades e desejos práticos, nem o dos sonhos e da fantasia, mas um mundo composto por essas contradições: uma representação convincente da totalidade da expressão, ou seja, por conseguinte, um modo de encarar a percepção individual de algum aspecto da verdade universal. [...]. Trecho extraído da obra Arte e alienação: o papel do artista na sociedade (Zahar, 1983), do poeta e crítico de arte britânico Herbert Read (1893-1968). Veja mais aqui.

ARTE & POPULAÇÃO - [...] Nas classes mais baixas e numerosas, são expostos impulsos grosseiros e sem lei, que, pela dissolução do vínculo da ordem civil, se libertam e buscam, com furor indomável, sua satisfação animal. [...] Sua dissolução já é sua justificação. A sociedade desregrada recai no reino elementar em vez de ascender à vida orgânica. Do outro lado, as classes civilizadas dão a visão ainda mais repugnante da languidez e de uma depravação do caráter, tanto mais revoltante porque sua fonte é a própria cultura. [...] E não vemos aqui apenas sujeitos isolados, mas também classes inteiras de pessoas que desenvolvem apenas uma parte de suas potencialidades, enquanto as outras, como órgãos atrofiados, delas mal se vêm esboçar débeis indícios. [...] Eternamente acorrentado a um pequeno fragmento do todo, o homem só pode configurar-se a si mesmo como fragmento; ouvindo eternamente o mesmo ruído monótono da roda que ele aciona, não desenvolve a harmonia de seu ser e, em lugar de imprimir a humanidade em sua natureza, torna-se mera reprodução de sua ocupação, de sua ciência. [...]. Trechos extraídos da obra A educação estética do homem: numa série de cartas (Iluminuras, 1995), do poeta, dramaturgo, filósofo e historiador alemão Friedrich Schiller (1759-1805). Veja mais aqui.

NATAL - Já o burrinho ruma para a manjedoura. A estrela – seria, este ano, aquele enigmático cometa com nome japonês? – fulge no céu.  Bate um pastor na porta da choça do compadre: “Olá Esdras! Acorda, camarada! Vamos para Belém!” As ovelhas balam. Toda a terra é um advento. Até flores estranhas rebentam nos cálices e as corolas atônitas perscrutam na noite um milagre. Os lírios do vale já devassaram o mistério e murmuram com seus lábios imaculados: — Vai nascer Deus! Aí está. Vai nascer Deus. “Fenômeno de rotina” – dirá um político despistando um repórter. “Nada demais, senhor jornalista. Todos os anos nasce Deus”. O repórter, apressado e superficial, registra a declaração numa caderneta e telefona os seus apontamentos para o redator de plantão. “O doutor Chuvisco disse que não há novidade: o nascimento de Deus é fenômeno de rotina”. O redator aceita essa explicação bocejando e gosta da palavra “rotina” aplicada ao mistério do Natal, porque a palavra está na moda. E ninguém dá pela transcendência do prodígio. Meu vizinho, Felisbino de Freitas Trancoso, excelente pai de família, saiu cedo para a fila das castanhas. D. Ordália Lopes, que é sentimental e fidelíssima, mesmo porque pesa perto de seis arrobas, comprou uma gravata de seda italiana e uns suspensórios de matéria plástica para presentear o marido. Tenho uma sensível admiradora que me mandou um cromo – sempre fui louco por cromos! – representando o presepe.  Ali tudo é lindo: Jesus, tenro e sorridente, de cabelo cacheadinho e grandes olhos azuis abertos, como se um pimpolho que nasce, geralmente tão cheio de rugas e tão feio, pudesse ter aquele tamanho e aquela cabeleira de ouro… São José é um carpinteiro alinhado de túnica e talvez tenha saído nesse instante de uma arca. Maria Santíssima é um amor. — No Natal do ano passado – diz-me a D. Celestina – meu marido me deu uma geladeira. Fico pensando dentro da noite mágica: “No Natal do ano passado…” Há perfumes no ar que vêm dos cedrinhos do Jardim América e, por causa das árvores do Natal, a gente liga o cheiro da resina ao oriente místico, à chegada daquela divina mãe grávida, morta de canseira na sua marcha ao lado do velho e santo marido, até a cocheira que serviu de berço à salvação do mundo. A imaginação trabalha. Percebe que nos palácios distantes, acordadas pelo fulgor da estrela, os reis poderosos preparam suas caravanas de mirra, ouro e incenso, para ver a criança estranha que uma vaca aquece com seu hálito e um burrinho manso humaniza com a bondade que irradia dos seus olhos… — “Jornal da noite!” “Jornal da noite!” – berra um garoto sobraçando os últimos vespertinos. Compro uma folha. Não preciso ler pois a manchete metralha os meus olhos: “Dez mil árabes e cinco mil judeus em luta mortal na Palestina. Milhares de mortos e feridos…” Os sinos de Natal bimbalham. “Glória a Deus na altura e paz na terra aos homens de boa vontade.” Nasceu um Deus! Este ano nasceu outra vez um Deus! E me ocorre, fulmineia a interrogação trágica: — mas por que nasce um Deus todos anos? Um arrepio me percorre o corpo.  O calendário salta-me à memória pontilhada de guerras, brigas, roubos, bombas atômicas, crises econômicas, manobras políticas ditadas pela cobiça e ambição. No meio dessas memórias os sinos bimbalham. “Paz!” “Paz!” – brada Cristo, o Cristo que nascendo todos os 25 de dezembro há mil novecentos e quarenta e sete anos! Então, percebo a razão do Natal!  Dada a cruel desmemória dos homens é preciso que todos os anos nasça um Deus! Conto extraído da obra Entardecer (MPM, 1978), do poeta, jornalista, advogado e pintor brasileiro Menotti Del Picchia (1892-1988). Veja mais aqui.

NOTURNO - A noite desliza pelos campos, / As mãos das nuvens passam pelo horizonte / E a escuridão dorme, / Em impressionante calmaria, / Sob as asas do silêncio. / Só se ouve o arrulho das pombas, / O murmúrio gemente dos córregos / E um ruído de passos na escuridão / Que caminham suavemente. / Sento, entregando-me à calma da noite, / Contemplo a cor da triste escuridão, / Lanço meus cantos ao espaço / E choro por todos os corações ingênuos. / Ouço o sussurro das palmeiras, /A chuva que cai na noite, / Os gemidos de uma rola na escuridão / Que canta longe entre os galhos / E a queixa distante de um moinho / Que geme na noite e chora de fadiga. / Seus gritos atravessam meus ouvidos / E vai morrer por trás das colinas. / Escuto... só se ouve as plantas. / Olho... só se vê a escuridão. / Nuvens, silêncio e uma noite triste. / Como não me sentir aflita? / A vida para mim é como esta noite: / Trevas, melancolia, desesperança, / Enquanto os demais sonham com clareza / Numa profunda e impressionante noite. / Choro contínuo da natureza, / Silêncio da escuridão, gemido dos ventos, / Suspiros da brisa noturna, / Lágrimas de orvalho nos olhos da manhã. / Vejo nas ribeiras da desgraça / A multidão dos aflitos, / O cortejo dos famintos / Afugentados pelos uivos do destino, / Sem poder pronunciar palavras de despedida. / Escuto: só os soluços / Mandam seu eco aos meus ouvidos / Por detrás das fortalezas e sobre os campos. / Então, quem pode cantar comigo? / No futuro levarei minha lira, / Chorarei a desgraça do universo / E declamarei minha compaixão pelo seu infortúnio / Aos ouvidos do cruel tempo. Poema da poeta iraquiana Nazik Al-Malaika (1923-2007). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da cineasta, fotógrafa e professora belga, radicada na França, Agnès Varda merece destaque. Desta feita quero apenas destacar dois filmes dela: Cléo from 5 to 7 (1962) e Response de femmes: notre corps, notre sex (1975).
Veja mais aqui.

AGENDA
Festival Internacional de Teatro em Canoas (8º Festia), de 31/08 a 9/09 UTC – Canoas & muito mais na Agenda aqui.
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Dia Internacional de Combate a Injustiça aqui, aqui, aqui & aqui


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...