sábado, agosto 20, 2016

ANDEJO DA NOITE E DO DIA


ANDEJO DA NOITE E DO DIA - Imagem: The walking man (2011), by Shanna Bruschi – Caminheiro voo, andarilho errante. Não tenho onde cair morto, nem onde encostar a cabeça. Não me foi dado o privilégio de ter nas mãos uma das assinaturas do deus de tudo e todas as coisas nas escrituras pros donos da Terra. Quando cheguei já ocupavam tudo, não me sobrou nem areia nas unhas, andejo suspenso no ar: não tenho como pagar pedágio – pago assim mesmo, quer queira ou não, e pago tudo, até à revelia pela vida, pelo oxigênio, pela água, por ter nascido, por estar vivo – é tudo deles e eu sem, só tenho o que é de mim mesmo e que eu não sei, nem tenho nada, remorsos, dissabores. E se tenho vestes nem eram minhas e foram compradas nas feiras e que também são deles, os meus fazem festa comendo vidro de luzes no luxo dos magazines. Só me resta a carne cansada, os ossos doídos, o coração solitário e o olhar para ver o que enxergo no meio do turbilhão dos dias e das noites. Não posso parar, senão serei crucificado pelos credos dos muitos missionários que fazem a curadoria das cidades doentes e se dizem íntimos e portadores de um deus que não é o meu, nem de ninguém, só deles e que me xingam paranóicos sectários de fazer pichação incrédula por onde passo, mesmo quando Deus está comigo e não querem ver, sequer me fitar com suas exaltadas pregações aviltando tudo e todos. Não fujo de nada, pela justiça dos homens fui estornado, marginal condenado ao desterro; pela Justiça de Deus, pagar meus pecados, viandante pelas rodagens de barro batido por longas distâncias, estrangeiro de sempre. Fui tirado do seio da mãe pra aprender a viver conforme as razões de todos. Fui tirado da escola pro trabalho, o meu dever; a escola é pros que podem, os donos de cursinhos também são donos das universidades públicas, como posso me instruir se sou levado a viver atrepado nas árvores e a viajar na brisa quando meu corpo foi condicionado ao ventilador ou aparelho de refrigeração. E se como da fruta colhida no pé, meu corpo foi educado a saborear temperos, sais e açúcares, cozidos, assados, requentados, tudo envenenado e viro enfermo gemendo estrada afora. E se vou caminhante pensamentos suspensos na paisagem do lugar, é que meu corpo acomodado reclama o conforto de automóveis, aeronaves ou mecanismos de pressas, que nem posso ter a não ser tirando fino pra me desviar o caminho e cambaleio engolindo a poeira do asfalto. A tudo vejo e não me vêem: a vida passa, insone voo, a seguir sem adeus. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

O AMOR 
Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico ela também chegará
Ela que também amava os animais entrará sorridente
Assim como está na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita. Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá o coração destroçado já pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro
Ressuscita-me lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida para que não mais existam amores servis
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
Por uma casa, um buraco
Ressuscita-me para que a partir de hoje
A partir de hoje a família se transforme
E o pai seja pelo menos o Universo
E a mãe seja no mínimo a Terra, a Terra, a Terra
(O amor, de Caetano Veloso sobre poema de V. Mayakovsky), no álbum Gal Costa Acústico MTV (BMG, 2001). Veja mais aqui.

PESQUISA 
[...] não há como negar que o impacto das atividades humanas sobre a natureza, sobretudo as urbanas e industriais, mas também, como se acabou compreendendo, as agrícolas, aumentou acentuadamente a partir de meados do século. Isso se deveu em grande parte ao enorme aumento no uso de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural etc.), cujo possível esgotamento vinha preocupando os que pensavam no futuro desde meados do século xix. [...] Os seres humanos só eram essenciais para tal economia num aspecto: como compradores de bens e serviços. Aí estava o seu problema central. [...].
Trecho da obra A era dos extremos: o breve século XX (1914-1991 - Companhia das Letras, 2001), do historiador Eric Hobsbawm, contando em linguagem simples e envolvente, a história da "era das ilusões perdidas". Veja mais aqui.

LEITURA 
O amor já foi uno, concreto e definido. Mas o século mudou e com ele as variantes do amor, que se multiplicaram. Hoje há diversas formatações para vivenciá-lo, são inúmeros os seus significados e ilimitadas as suas maneiras de encantar e transformar. O amor romântico – “eu e você para sempre” – é apenas uma de suas modalidades. O que é o amor, afinal? Impossível resumir num só conceito. Amor é gratidão por alguém ter nos tornado especial. Amor é a realização de um ideal criado ainda na infância. Amor é a possibilidade de repetir o mais importante feito de nossos pais – aquele sem o qual não teríamos nascido. Amor é projetar no outro aquilo que nos falta. Amor é erotismo. Amor é uma experiência sensorial. Amor é carência. Amor é o gatilho para formar uma família. Amor é aquele troço sem razão que bagunça a nossa vida. Que melhora a nossa vida. Que piora a nossa vida. Que justifica a nossa vida. Amor é uma forma de escapar da vulgaridade. Amor é uma mentira que amamos contar. Amor é um álibi para crimes e casamentos. Amor é a vingança contra a objetividade. Amor é divisão de fardo. Amor é um antídoto contra a solidão. Amor é uma invenção do cinema e da literatura. Amor é paz. Amor é a busca de um tormento que torne a vida mais emocionante. Amor é a vitória do cansaço, já que paixões sequenciais exaurem. Amor é o nome que se dá para uma emoção que nos domina e do qual não queremos ser libertados. Amamos pais, irmãos, amigos. Amamos os namorados que tivemos e os que ainda teremos, amamos nosso marido até o dia em que ele não volta para casa, amamos nossos ídolos até que eles nos decepcionem, amamos nossos filhos mesmo que nos decepcionem, amamos nosso cão e nosso gato quase acima de Deus, amamos Deus acima de tudo pois cremos que ele não nos faltará, amamos a nós mesmos apesar de saber que nem tudo é amável em nós. Amor não é uma desculpa esfarrapada. Ela é muito bem costurada. Amor pode brotar de um olhar, de um beijo, de um desejo. Amor é encasquetar. Se alguém lhe faz perguntas a respeito, você, na falta de argumento melhor, responde que é amor, que sempre foi amor, e ninguém espicha a conversa porque contra o amor não há réplica. Como pode alguém ter amado uma pessoa ontem e hoje amar outra, como pode ter amado uma mulher e hoje um homem, como pode amar duas mulheres ao mesmo tempo, como pode já ter vivido com vários, como pode sentir amor por um salafrário, como pode sentir-se inteiro repartindo-se em dois, como pode ser poli, multi, bissexual, bígamo, hetero, homo, fiel, infiel, amoral? Como, diante deste sentimento, ter alguma certeza?  O amor paira acima das classificações. Tem mil jeitos, mil formas, mil dobras. É a nossa maior proeza.
O amor e tudo que ele é, da escritora poeta gaúcha Martha Medeiros. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Uma nova modernidade nasceu: ela coincide com a "civilização do desejo" que foi construída ao longo da segunda metade do século XX. Essa revolução é inseparável das novas orientações do capitalismo posto no caminho da estimulação perpétua da demanda, da mercantilização e da multiplicação indefinida das necessidades: o capitalismo de consumo tomou o lugar das economias de produção. [...] Daí a condição profundamente paradoxal do hiperconsumidor. De um lado, este se afirma como um "consumator", informado e "livre", que vê seu leque de escolhas ampliar-se, que consulta portais e comparadores de custo, aproveita as pechinchas do low-cost, age procurando otimizar a relação qualidade/preço. Do outro, os modos de vida, os prazeres e os gostos mostram-se cada vez mais sob a dependência do sistema mercantil. Quanto mais o hiperconsumidor detém um poder que lhe era desconhecido até então, mais o mercado estende sua força tentacular; quanto mais o comprador está em situação de auto-administração, mais existe extrodeterminação ligada à ordem comercial. O hiperconsumidor não está mais apenas ávido de bem-estar material, ele aparece como um solicitante exponencial de conforto psíquico, de harmonia interior e de desabrochamento subjetivo, demonstrados pelo florescimento das técnicas derivadas do desenvolvimento pessoal bem como pelo sucesso das sabedorias orientais, das novas espiritualidades, dos guias da felicidade e da sabedoria. O materialismo da primeira sociedade de consumo passou de moda: assistimos à expansão do mercado da alma e de sua transformação, do equilíbrio e da auto-estima, enquanto proliferam as farmácias da felicidade. Numa época em que o sofrimento é desprovido de todo sentido, em que os grandes referenciais tradicionais e históricos estão esgotados, a questão da felicidade interior "volta à tona", tornando-se um segmento comercial, um objeto de marketing que o hiperconsumidor quer poder ter em mãos, sem esforço, imediatamente e por todos os meios. A crença moderna segundo a qual a abundância é a condição necessária e suficiente da felicidade do homem deixou de ser evidente: resta saber se a reabilitação da sabedoria não recompõe por sua vez uma ilusão de outro gênero. Reinvestindo na dimensão do "ser" ou da espiritualidade, o neoconsumidor está mais bem inserido no caminho da felicidade que seus predecessores? A civilização consumista distingue-se pelo lugar central ocupado pelas aspirações de bem-estar e pela busca de uma vida melhor para si mesmo e os seus. [...] O descarte dos artigos já não é provocado pela mediocridade da fabricação, mas pela economia da velocidade, por produtos novos, mais eficientes ou que respondam a outras necessidades. [...].
Trecho extraído da obra A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo (Companhia das Letras, 2007), do filósofo, professor e teórico da Hipermodernidade Gilles Lipovetsky, investigando a a felicidade, o bem-estar, a produção de sentidos, idéias e necessidades em torno da contemporaneidade do hiperconsumo, da hiperindividualização e do hiperdesejo. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 A arte do escultor vietnamita Nguyen Tuan.

Veja mais sobre o projeto de extensão Infância, Imagem e Literatura, Direito & Psicanálise, Décio Pignatari, Cora Coralina, Agostino Carracci, Led Zeppelin, Antunes Filho, Gênero & Sexualidade, Vera Fisher & Mariana Nogueira aqui.

DESTAQUE
A arte da psicóloga, professora de música e diretora do grupo Conto&Cena, Gisele Sant'Ana Lemos, editora dos blogs Biologia do Amor e Diana Balis, e coordenadora da Revista Poesia Legal. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nude, do artista plástico estadunidense Jeremy Lipking.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


ARIANO, LYA LUFT, WALLON, AS VEIAS DE GALEANO, FECAMEPA, JOÃO DE CASTRO, RIVAIL, POLÍTICAS EM DEBATE & MANOCA LEÃO

A VIDA NA JANELA – Imagem: conversando com alunos do Ginásio Municipal dos Palmares - Ainda ontem flores reluziam no jardim ornando muros...