segunda-feira, agosto 08, 2016

TUDO ACONTECE NO ERMO DAS RUAS

TUDO ACONTECE NO ERMO DAS RUAS - Passos a esmo, eu só queria um copo d’água. A cabeça aos muros e a rua não é mais conversas ensolaradas, são sombrias até ao meio dia. Um deserto de pedras, nenhuma alma viva nas esquinas abandonadas. A vida invisível nos prédios imponentes, repartições, embaixo das pontes e viadutos, a chuva esfriando ânimos para mudez. Tudo jogado fora, o que se ergue ou o que desaba. Tudo voltado para si e vivendo a cidade inconscientemente, a memória jogada no lixo com o legado de nada. Nada se sabe, apenas nomes dos lugares dos compromissos, negócios ou lucros com suas grifes pros cifrões na elegância dos trajes. Eu voo olhar aguçado imigrante da vida nas pegadas da areia do tempo, nenhum rastro, menor resquício, as múltiplas faces do vazio. E eu me comovo com os gritos do silêncio: meus desfalques, tudo desabitado, parece cidade fantasma com todas as mudanças desconexas e bruscas: o que se constrói hoje, o que se destrói amanhã. Ninguém por aqui e eu aos saltos mortais pela violência dispersa, o medo religioso secular, as angustiantes tensões: olhos arregalados com as demolições, meu álbum de recordação com tudo desordenado, descolorido, desbotado. Atrevo-me aceno com secura na garganta aos reverentes ou refratários na perecibilidade de tudo, fugacidade de todos. Nada me daria maior apreço que saber-me solidário à rua a todos os acenos miúdos, desconfiados ou esfuziantes. Sozinho, levo a vida no quarador e eu apenas um sorriso para quem de onde vier na minha paisagem inventada, que sou eu quando choro de saudades ou de remorsos. Nunca fui, agora sou. Tentei de tudo e falhei; não fui capaz de ser minha própria luz, esforços em vão. E fiquei sem poder ir a lugar algum, descumprida missão: o preço do fracasso. Não terminei a obra e nem sei por onde recomeçar, muito menos o que fazer. Procuro não sofrer no rol dos erros, inútil me desvencilhar. Pago o pato e valho-me dos solidários fantasmas que rondam meus dias e noites enormes. O que sinto ou falo não tem destinatário, muito menos interlocutor, sou-me patético e beiro a insanidade entre sombras ocultas no que sou de vivo com todos os meus disfarces e solilóquios. Julgo haver incongruências esquisitas nos aterradores contornos dramáticos redutores da vida à minha dicção desolada ao longo de uma vintena de anos enclausurada em meus sonhos entre jogos de espelhos. Nunca tivera mais que o meu riso franco, sou-me do que tenho e nada mais além de mim mesmo na fartura dos acontecimentos momentâneos. Se louvo a vida, apouco a morte que cresce em dimensão. Antes fosse triste o meu olhar à flor do jardim: um salva-vida pro amor longínquo e ansiado. E olho o presente tão próximo e por todo lado, só peço que não seja insensível à dor alheia nesse reino das pedras onde tudo é controlado por uma absurda quantidade de leis inócuas que sequer reconhece cada parte do litígio. Vou pelo ermo das ruas e só queria um copo d’água, uma mão amiga, um olhar alheio no triz de simples momentos da vida, a aventura da ingenuidade em professar amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Curtindo a coleção de CDs e livros - 8 volumes- A Música Brasileira deste século por seus autores e intérpretes (Sesc São Paulo/Fundação Padre Anchieta, 2000), produzida por João Carlos Botteselli com material recolhido dos programas MPB Especial e Ensaio, criados e dirigidos pelo produtor Fernando Faro.

PESQUISA:
A história do mundo e do pensamento ocidental foi comandada por um paradigma de disjunção, de separação. Separou-se o espírito da matéria, a filosofia da ciência; separou-se o conhecimento particular que vem da literatura e da música do conhecimento que vem da pesquisa científica. Separam-se as disciplinas, as ciências, as técnicas. Separou-se o sujeito do conhecimento do objeto do conhecimento. Assim, vivemos num mundo em que é cada vez mais difícil estabelecer ligações [...] nossa educação nos ensinou a separar e a isolar as coisas. Separamos os objetos de seus contextos, separamos a realidade em disciplinas compartimentadas umas das outras. Mas, como a realidade é feita de laços e interações, nosso conhecimento é incapaz de perceber o complexus – o tecido que junta o todo.
Trecho extraído da obra Complexidade e ética da solidariedade (Sulina, 1997), do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA
O Sucesso é mais doce / A quem nunca sucede./ A compreensão do néctar / Requer severa sede. / Ninguém da Hoste ignara / Que hoje desfila em Glória / pode entender a clara / Derrota da Vitória. / Como esse — moribundo — /Em cujo ouvido o escasso / Eco oco do triunfo / Passa como um fracasso!
Poema extraído do livro Alguns poemas (Iluminuras, 2006), da poeta estadunidense Emily Dickinson (1830-1886). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA: FATORES DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
As análises e propostas da problemática ambiental podem ser reduzidas a depredação dos recursos naturais; poluição por causa dos resíduos; população excedente/pobreza [...] quaisquer desses três aspectos estão fora do processo econômico propriamente dito.
Trecho extraído da obra Los limites del desarrollo sustentable (Revista Trabajo y Capital, 1999), do antropólogo uruguaio PhD em Economia, Guillermo Foladori.

IMAGEM DO DIA
Cartaz e cena do filme O sétimo selo (Det sjunde inseglet, 1956), escrito e dirigido pelo dramaturgo e cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre Desnorteio, Pablo Picasso, Mauro Mota, As máscaras de Deus, Robert Siodmak, Orquestra Contempoânea de Olinda, Janos Vaszary, Através do Espelho, Irene Ravache, Ella Raines & La Liseuse de Grundworth aqui.

DESTAQUE
A arte do ilustrador Félix Reiners.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor e artista gráfico húngaro János Vaszary (1867-1939).
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.



A MULHER & BOM PASTOR, JEAN DE LÉRY, BARDAWIL, GALBRAITH, DESIGUALDADE, PICA-PAU & ARRELIQUE DE OZI

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