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domingo, julho 11, 2021

SEI SHÔNAGON, TAMARA KAMENSZAIN, NINA MORAES & ARMANDO LÔBO

 

 

TRÍPTICO DQP –- Mais um dia... – Ao som da música Atrás das máscaras, do álbum Técnicas modernas do êxtase (Delira, 2011), no filme-ópera Último dia (2021), de Armando Lôbo, com Natália Duarte, Virginia Cavalcanti, Surama Ramos, Walmir Chagas e Marcelo Sena (Veja mais abaixo) – Acordei com o movimento do travesseiro e os sons da manhã. Procurei tomar pé da situação e qual não foi a minha surpresa: era O livro do travesseiro (34, 2013). Como assim? Isso mesmo. Estava inscrito na capa: Sei Shônagon - aquela mesma do The Pillow Book de Greenaway. Investiguei, desconfiado, como podia tal transformação. Ultimamente tem me ocorrido cada uma. Pois é, ajeitei-me na cama e comecei a ler. A cada página uma surpresa: ali estava tudo o que vivi e sou - devaneios, quedas, sucessões de idas e vindas. Atento a cada parágrafo, frase por períodos e, pelo volume, vi que era um tanto a vencer. Persegui e era como se estivesse procurando o começo ou o fim de O Livro de Areia de Borges e relesse mais curioso que antes: ... porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim... Se o espaço for infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo... Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta... Refleti. E depois surgiu um trecho de outro conto dele, O espelho e a máscara: ... A guerra é o belo tecido dos homens e a água da espada é o sangue. O mar tem seu deus e as nuvens predizem o futuro... E se misturava com trechos do Evangelho apócrifo da infâmia. O que é isso? Outros labirintos ou será que estou enlouquecendo, o que está acontecendo? Mais desconfiado que antes, esfreguei os olhos e lá estava inscrito o que me tocou profundamente: Quanto a pássaros, embora pertença a terras estrangeiras, é muito enternecedora a cacatua. Dizem que ela imita tudo o que falam as pessoas. O cuco-pequeno. A galinha d’água. A narceja. A gaivota, pássaro-da-capital. O pintassilgo-verde. A papa-moscas... Ah, sim, agora era ela como se me descobrisse um xexéu incorrigível. Cabreiro, além da conta, compreendi o que ela quis dizer: uma sensação inenarrável de quem não estava só ali. E não estava mesmo, logo a sua presença preencheu meu quarto e era ela mesma a me dizer: Um homem que não tem nada em particular para recomendá-lo discute todos os tipos de assuntos ao acaso, como se soubesse de tudo. Na vida, existem duas coisas confiáveis. Os prazeres da carne e os prazeres da literatura... Sim isso eu já tinha lido no outro livro dela. E o que está havendo? Ela sorriu, beijou-me as faces e saiu como nunca mais. E me fez pensar na vida. Era só mais um dia. Sim, mais um dia, agora é só viver.

 


A vida imita a arte... - Imagem da artista visual & grafiteira Nina MoraesA leitura do livro me trouxe outras cenas fora das suas páginas e ao meu redor aconteceram coisas estranhas. Tudo parecia muito real naquela hora e dali eu presenciava um fato ocorrido e tão lamentável como aquela triste situação em que foi detratado o tenente Gustl do Arthur Schnitzler: Deus do céu, tanto faz se outro sabe ou não!... eu sei, e isto é o que importa! Sinto que sou outro, já não sou o que fui há uma hora. – Sei que estou desqualificado e por isso devo estourar os miolos... Que vexame! E me sentia como se eu fosse ele diante daquilo tudo e não conseguia concatenar direito. Não sabia onde por os pés, as mãos, nem para onde ir. Da mesma forma aquela outra deplorável circunstância em que me vi na pele do Marlow da Juventude de Conrad a perorar: Lembro da minha juventude e de um sentimento que nunca mais haverá de voltar – o sentimento que eu poderia durar para sempre, mais do que o mar, do que a terra, do que todos os homens; o ilusório sentimento que nos atrai para alegrias, para perigos, para o amor, para o vão esforço – para a morte... O sentimento da desolação me trazia aqueles versos da Tamara Kamenszain: Quem por palavra fala de seus sonhos / quando a vigília os está vigiando ou / quando na tela do lençol se grafa / o que com esses sonhos vai envolto? Tudo me ocorria ao mesmo tempo, como se em mim outras pessoas trafegassem e ora eu me via na misériade Abel ou nos relampejos da borboleta Dinalva. Tudo me dava conta de que viver é muito difícil. Ou melhor, como repetia Guimarães Rosa: Viver é muito perigoso. Para mim nunca foi possível viver alheio ao horror, como se arrancasse os olhos, perdesse a audição, nenhum tato, paladar ou olfato, vivesse ao vento como se caísse no poço para nadar pelas águas, entre ondas e abismos oceânicos, alcançando grandes alturas atmosféricas, percorrendo distâncias de tudo isso. Não, não é possível, a tentação das contradições do mundo e as minhas instâncias se engalfinhavam, eu sabia, a vida é luta...

 


O último dia... – Não sei onde fui parar, sei que ouvi uma estrofe de Antero de Quental que eu esquecera com o tempo e tudo mudava claroscuramente para que eu visse uma porta e, atrás dela, um palco. Ao atravessá-la, cochichos nas coxias, agucei as ouças: Que nada, meu! Do pescoço pra baixo tudo é canela, deu-se as costas às punhaladas. Quem o otário para levar vantagem, o sabido pronto para a rasteira e a cama-de-gato! Não entendia direito a que se referiam e muito menos me dei conta da morte a rondar dançante com seus tamancos enormes. Êpa! Mais adiante mulheres solfejavam e eu não conseguia atinar. Uma voz irrompeu, era de um morto. O que ele disse era de si e de seus infortúnios. Ao silenciar, percebi os resmungos de uma mulher: o brasileiro só é solidário... Quem? Logo deu pra perceber que não era apenas uma mulher, mais. Sim, mais de uma, porque a morte passou por perto, acompanhei seus passos até um trio cantatriz que carpia - terços, novenas, lamúrias, o que Freud viu na festa dos sacrifícios. O defunto então se mexeu, eu vi, ninguém mais, acho. Depois se levantou e depôs: Todo mundo é bom, apesar do lulixo! Todos ouviram e se entreolharam questionadores. Nem eu, nem ninguém, quem explicasse. Logo a saudação dos que ali estavam era um misto de espanto e asco, razão pela qual comemoraram hesitantes: Ele está vivo, viva! Vivôoooo! Afetos e antipatias se deram, era o último dia e a paráfrase nelsonrodrigueana: o brasileiro só é solidário na desgraça! Tanto já era carnaval desde não sei quando. Assim, todo dia passa, evoé. Até mais ver.

 

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sexta-feira, junho 25, 2021

JULIA KRISTEVA, SHAN SA, JANE SMILEY & EZTER LIU

 

 

TRÍPTICO DQP –- Era manhã e anoitecia... Imagem: arte da artista etíope Julie Mehretu & ao som de show do violonista francês Nicolas Krassik & Cordestinos - Era quem o menino senão eu diante do espelho pela primeira vez: uma esperança voava e pousou em meu peito, a alegria da infância de todas as manhãs. E eu crescia a sorrir. Com o passar dos anos, fizeram dela um gafanhoto predador e tornou o dia na noite do horror eterno, um minuto feito de século de nunca acabar. Nestes últimos de dor, tirei as sandálias e pisei o chão do quintal para a rua, abri o portão e ganhei o mundo peito aberto. Na carreira ouvi a estadunidense escritora, Jane Smiley, a me dizer: Uma criança protegida de todas as idéias controversas é tão vulnerável quanto uma criança protegida de todos os germes. A infecção, quando vier - e virá - pode sobrecarregar o sistema, seja o sistema imunológico ou o sistema de crenças. Se nada entendia, ela insistia na primavera: Todo primeiro rascunho é perfeito, porque tudo o que um primeiro rascunho precisa fazer é existir. E adolescia como o pé de planta que se tornava árvore pronta para frutos brotar. E se seguia errava e nada era melhor que aprender aos escorregões, porque ela insistia: Como a maioria dos educados, nutro uma predileção pelos pecados do meu passado ignorante. Pleno homem feito com o menino no coração, eu sonhava olhos abertos e mais me veria em pleno verão. Só agora sabia o que era a infecção e o que outra vez ela disse: Um romancista tem duas vidas - uma vida de leitura e escrita e uma vida vivida. Ele ou ela não pode ser entendido de forma alguma fora disso. E o que eu lia e vivia das tantas vidas com ela ao outono, previa o inverno de nada escapar: escombros no quintal e toda redondeza. Hoje a esperança voou e piso os destroços do meu país.

 


Duas noites a mais na escuridão... - Imagem: arte do artista estadunidense Robert Rauschenberg. - Era a tragédia instalada, sim, antevia e a meninice pulava do travesseiro como se ainda houvesse carnaval, festejos juninos e carrosséis de natal. Não mais. Outro o cenário devastado. Procurei do outro e tentei ajudá-lo; indiferente, não me reconhecia – era como se eu fosse estampado algoz. Ao falar não me ouviu ou fez que não. Em mim o eco de Julia Kristeva: Só conhecemos o outro quando o amamos. O amor é o apogeu da subjetividade. Só somos pessoas quando enfrentamos o outro, nunca isolados. O que nos torna pessoas é o vínculo com o outro, a relação de amor. Disso sabia meu coração, careca de saber; o outro que não e eu não era ninguém: um fantoche entre tantos outros e não me deixavam com eles. E me negava excluído, não podia ser, mesmo que aquela escritora chinesa, Shan Sa repetisse aos borbotões: A felicidade é algo que você sitia, é uma batalha como um jogo de bola. Vou segurar toda a dor e apagá-la. A vida tem sua vingança da vida. A morte prematura é o segredo da juventude eterna. E as vi como se fossem Filhas da Dor de um tempo sombrio tão escuro delas e tantas outras torturadas, desfalecidas, esquartejadas dos pedaços em minhas mãos e insepultas na memória de décadas. Só que eu não queria saber da morte porque a criança pulava em meu peito, mesmo que os meus e todos os demais me considerassem tão apenas uma paisagem desbotada.

 


Estava vivo, as fogueiras no coração... - Atravessei quantas noites e a solidão, a minha fogueira no meio de tantas outras e só me diziam de dor e sofrimento. Ficou tão difícil respirar, precisava seguir para viver. Logo, coisa boa: alguém se aproximou e me alegrei repentinamente - como era bom o prazer da companhia. E era Ezter Liu trazendo Breves fogueiras: Tem as que nascem azuis. As que morrem cinzas. Tem as que morrem cedo e as que nascem antes. As que derretem lâminas. E as que mal aquecem. Depois de um certo tempo, toda fogueira entardece. Até as mais intensas com percussão de estalos. As cavadas no terreiro e as pousadas na pedra. As do meio da mata. As da encosta gelada. E ao redor: a roda. E ao redor: bandeiras. Acalentando os frios e defumando as fomes. Quentes. Ardidas. Ligeiras. Aqui dançamos em torno de algumas breves fogueiras. E foi outra a hora porque instalou o aroma da brisa possível, eu vivia e como, ela trouxe o que estava perdido. Como era bom vê-la de perto, sorria eu de graça e a desconhecer o cenário de agora, como se por um momento tudo fosse diferente e pudesse ser feliz ali, ao seu lado. Isso me fez novamente a criança que nunca soprou nem deixou apagar a vela de quem quer que seja das fogueirinhas andantes de Galeano, porque eu queria brincar aos pulos e mãos nas mãos e pés por aí até nunca chegar e a desconhecer do escárnio e das trevas escondidas lá no fundo de cada gente esquecida de viver. Como era bom, eu podia sorrir e estar ao lado dela. Até mais ver.

 

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terça-feira, junho 22, 2021

ANNE MORROW LINDBERGH, NORBERT ELIAS, EMMANUELLE SEIGNER, ZÉ DO CARMO, CÂMARA DE ESPELHOS & CATENDE

 

 

TRÍPTICO DQP –- Uma vez mais vou danado de novo pra Catende... - Ao som de Vou danado pra Catende, no álbum Molhado de suor (Som Livre, 1974), de Alceu Valença - Ao travesseiro, bastou-me deitar a cabeça e lá estava eu nas paradisíacas paragens da Serra da Prata, aquela mesma que me deu a ideia do Bacuna pra me levar de novo danado pra Catende, nos versos de Ascenso pelo açude de Santa Rita, até a bica de Monte Alegre. De lá passar pelo casarão de Curupaiti no Roçadinho, depois a casa grande Tabaiaré, chegar nas águas dos rios Panelas ou Pirangi, timbungar o dia todo e comer uma pituzada na festa de Santana pra poder participar do concurso de Batida, Licores e Doces, ao som da pipocada estrondosa dos bacamarteiros de Miguel do Pirajá, lá na frente do Tiro de Guerra. Não era pouco, se eu caia solto, lá vinha o bumba-meu-boi do Matadouro, enquanto ouvia dos alto-falantes da Voz de Catende a sessão que ia passar no cinema Diamante. Enquanto isso, eu me maravilhava com as talhas de Zé Fernandes, a arte de Nelson José e Gabriel, a pintura de Jether Peixoto, Socó, Adgerton e José Adir; ao som da música de Tarcisio Accioli, Deo do Baião, Marcelo Montenegro e Zé Ripe. Era como se eu vivesse inteirinho nas páginas do romance Outro sol se levanta (Autor, 2007), do escritor Pelópidas Soares: As pessoas pelas calçadas, portas e janelas, achavam graça dos bêbados... A inveja e os delatores estão em toda a parte... E eu escapando ou saindo da estação para frevar no meio dos blocos da Filopança, Ferro e Fogo puxado pela Maria Fumaça, ou na Mulher da Sombrinha do saudoso amigo Marcos Catende, que me foi trazido à memória com os versos do poema recolhido do romance de Carlos Gaiza: Na calçada da igreja / fica ela a esperar / um homem da usina / que por lá vai passar... Eu não era da usina, mas era doido pra me travar com ela no meio dos versos de Bartyra, como quem recitasse nos braços da mulher amada dali, e despertar agoniado porque não passava de sonho e fizesse minhas as palavras do trecho de Mel de engenho, de Luiz Maia, extraído da obra Memória histórica de Catende (Autor, 2014), de Eduardo Menezes: Hoje, distante daqueles faustos e áureos anos sessenta, mais que nunca a saudade daquela cidade e de sua gente me faz morada, deixando-me uma dor no peito por saber que nada daquilo, absolutamente nada, mais existe... Pois é, eu escapulia dos sonhos para mandar ver na vida.

 


Dois pinotes diante do espelho... - Agoniado, levantei-me às pressas e nem deu tempo saber que horas seriam ou onde é que eu estava, porque era Déa Ferraz, câmara e luzes e ação, numa rua do Recife, a me perguntar a respeito das mulheres na Câmara de Espelhos. Vôte! Como é que pode, hem? Sabia lá como responder porque fui pego de surpresa. Além do mais, apareceu de repente Emmanuelle Seigner que me sorriu e disse: Tudo na vida, bom ou bom, faz você mudar e crescer - felizmente, porque se não mudasse, seríamos máquinas. Coisas muito piores acontecem às pessoas: câncer, doença, elas perdem um filho. Você pode encontrar uma força inesperada ou pode desmoronar. Eu não sou do tipo que desmorona. Nem eu que perdi meu filho e a vida me levou passarinho até agora sem saber o que fazer de tudo que vivi. Mas a estonteante lindeza dela me dava outro fôlego, aquele que jamais tivera. Estava embevecido, ela ali e mais seria, não fosse a intervenção de Anne Morrow Lindbergh: Se você se render completamente aos momentos que passam, enriquece a sua vida. Pessoas demais, requisitos demais, muito a fazer; pessoas competentes, ocupadas, apressadas - isso não é viver. Só o amor pode ser dividido infinitamente e ainda assim não diminuir. Sim, mas eu nunca caí, ou fiz que não, levei o tombo como se fosse empurrão e assim era porque o tanto era só viver. Aliás, cá comigo: quem me salva do espelho, eu não sei.

 


Três anjos cangaceiros...- Se não estava no céu, era perto: de primeira parecia bonecos de barro. Mas, não. E se eram anjos, não sei o que mais seriam. Na verdae, eram como se fossem. Foi aí que dei de cara com o Mestre Zé do Carmo (José do Carmo Souza – 1933-2019), que mangava de mim por ser mais um a ignorar os seus anjos cangaceiros. Aí ele me contou que Dom Hélder havia encomendado uma imagem do papa e ele prontamente atendeu; contudo, sua arte não foi aparovada pela autoridade eclesiástica: onde já se viu um papa com cara de cangaceiro? Caímos na gaitada, hehehehehe. Enquanto estourávamos de rir, apareceu Norbert Elias apareceu que me deu um toque esclarecedor: O crescente tabu da civilização em relação à expressão de sentimentos espontâneos e fortes trava suas línguas e mãos. E os viventes podem, de maneira semiconsciente, sentir que a morte é contagiosa e ameaçadora; afastam-se involuntariamente dos moribundos. Mas, para os íntimos que se vão, um gesto de afeição é talvez a maior ajuda, ao lado do alívio da dor física, que os que ficam podem proporcionar. Fiquei sério na hora, queria entender. Mas o quê? Ele também se ria e eu fui na dele. Afinal, de sério mesmo quero distância. Até mais ver.

 

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domingo, junho 20, 2021

LESLIE KAPLAN, ROBERT MENASSE, SHIRIN EBADI, SILVIA DE LUCCA & MESTRE SALUSTIANO

 

 

TRÍPTICO DQP –- Umas e outras tiradas do espelho - Ao som de Um tributo ao contrabaixo (2014), da compositora, pianista e psicóloga Silvia de Lucca, na interpretação do Quinteto Puelli, formado por Karin Fernandes (piano), Adriana Holtz (violoncelo), Luis Amato (violino), Anderson Fernandes (viola), Alexandre Rosa (contrabaixo), no Centro Cultural de São Paulo, 2014. - O que aconteceu? Sei lá! Estava eu enredado com o Espelho cego (Companhia das Letras, 2000), do escritor austríaco Robert Menasse. Como assim? Lá estava eu em Viena, na pele do aspirante a filósofo, Leo Singer, e às voltas com a paixão pela musa, Judith Katz, que sequer se dera conta de mim. Pudera, um sujeito pobre e feio, sobrecarregado de grilos nas ideias um tanto estouvadas, às tentativas até então inúteis de conquistá-la, jogando-me para ela como quem tomou água de chocalho nas inúmeras páginas de livros. A esperança residia no seu riso generoso, decerto que não escondia sua errática condição de existencialista romântica, o que tornava o idílio minado por meus tropeços intelectuais. Tudo fiz, tanto pelejar. Daqui pracolá a minha efigie borrou e queimado o filme, ela arrefeceu e tudo desmoronou: autoestima para a lata do lixo, gargalhadas pelas costas. E eu mergulhado nas circunstâncias de um Brasil golpeado, sem conseguir escapar, maior embotamento: impossível ser feliz debaixo de vacilações e fraquezas, misturando o que vivo e o que penso e dá no mesmo, a mesma coisa: o passado que anima a crueldade do presente. Só que o tempo não espera e eu me valho do que penso, nada deu nem dará certo. Deu-se então de o próprio autor dar as caras assim do nada, a me dizer de uma outra obra sua, A capital (Dom Quixote, 2019):  Haverá arte que seja importante numa época, mas que depois seja, e com razão, esquecida? Não entendi. E como um cético refletindo sobre os fantasmas do seu tempo, em cima da bucha, ele sentenciou: Posso ter uma pátria sem ser nacionalista. Ouvi coisa parecida de Jarauta nalgum lugar, me parece. Ele deu de ombros, virou-se e fiquei a reboque da surpresa. Parecia que voltava, mas não, a chegada repentina da escritora irlandesa Jean Iris Murdoch (1919-1999), como se soubesse de tudo que se passara comigo: O amor é a compreensão extremamente difícil de que algo diferente de si mesmo é real. O amor e a arte e a moral são a descoberta da realidade. Um dos segredos de uma vida feliz é a sucessão de pequenos prazeres. O desejo esmagador de um corpo humano por outro em particular, e sua indiferença aos outros é um dos maiores mistérios da vida. E eu fisguei o seu olhar sem saber o que fazer naquela hora. Ela sorriu percebendo meu embaraço. Só podia transcender: o mergulho no espelho.

 


Duas ou mais coisas do travesseiro - Imagem: arte do quadrinista, artista plástico, escritor e arte-educador Nestor Isejima Lampros, ao som de Songs from my Heart: Morigasaki kaiigan - Melody, opus 279; Haha - Fantasy, opus 273; e. Ningen kakumei no uta/Sekai kofu no uta - Paraphrase, opus 272, do compositor, pianista, musicólogo e pedagogo Amaral Vieira, live performance at Tokyo Metropolitan Art Theater, 2010. - Entre um pulo de susto e o tombo de uma topada, vi Desidério quase se esparramar no chão da calçada. Segurei firme e ele se restabeleceu. Olhou para mim e como um bom cristão que era, sabia-se pecador e, por isso mesmo, corruptível, muito embora fincasse pé e não arredasse um centímetro de nada apalavrado, dito seu era líquido e certo. Ele temia os mortos e se assustava com facilidade aos trovões e relâmpagos, para ele, fúria do de lá de cima com alguma falta inadvertida. Como bom devoto, ele se benzia e batia três vezes na madeira mais próxima, nem faltava à missa domingueira para redimir seus pecados, lavando a alma na hóstia. Era bastante cuidadoso, mas resolvia tudo no sopapo - refletir não era lá o seu forte, pensava como um papa-capim num galho de laranjeira. Mas decidia, nisso era vaidoso, doesse em quem fosse, só ele pagava o pato no final, coitado. Nunca achou pérola em ostra e amealhou algum pé de meia oriundo de seus proventos de exemplar funcionário púbico, nada mais. Posava de probo inarredável: um assombrado que vivia como se usasse eternamente fraque. Vez em quando chato empolado, castigando falsa eloquência nos esses e erres, como se quisesse falar o que nunca conseguia dizer, o juízo atrapalhava. Atrás de um rabo de saia fácil não era lá tão escrupuloso assim. E se dizia e fazia questão de ser elevado em tudo, embutia na face amável o íntimo de papel de enrolar prego, pura tagarelice de só se render diante da exaustão da causa. Encarou na vida as ironias da realidade e teve de podar os desejos, viu-se a sombra de uma sombra. Olhou-me ali segurando o seu tombo na esquina, então, abraçou-me, deitou a cabeça ao meu ombro e chorou. O que houve? Afastou-se, fitou-me fundo aos olhos e saiu. Ao meu lado a jurista e ativista iraniana exilada, Shirin Ebadi compreendeu: A beleza da vida está em lutar contra as situações difíceis. Comparo minha situação com a de uma pessoa a bordo de um navio. Quando ocorre um naufrágio, o passageiro cai no oceano e não tem escolha a não ser continuar nadando. O que aconteceu em nossa sociedade foi que as leis derrubaram todos os direitos das mulheres. Eu não tive escolha. Eu não conseguia me cansar, não conseguia perder as esperanças. Eu não posso me dar ao luxo de fazer isso. Solidário, sabia todos nós exilados: a cabeça desamparada ao travesseiro.

 


Três pulos e outras tantas para nada... - Ao som de Lembrança de um beijo, do álbum homônimo (1994), do saudoso cantor e compositor Acioli Neto (1950-2000). - Lá estou eu pelos grafites das ruas assobiando o Recife. Errava sem pressa até que a poeta francesa Leslie Kaplan apareceu e sacou um verso do seu L’Enfer est vert (Luna Parque, 2018): Quem é você, palavra,/ e o que é que você quer dizer... E o inferno, será que se agarra o inferno/ não, não se agarra, se experimenta/ como é que se faz para experimentar sem conhecer? Não sei, mas se quiser eu topo! E veio quando o Sol abriu o dia na Guararapes como se fosse qualquer lugar no mundo, misturando as pernas e braços no meio do maracatu rural Piaba de Ouro, com os folguedos do cavalo marinho pelo Cais de Santa Rita, coco por Afogados, ciranda pela Imbiribeira, brincante pela tarde como dama e eu galante no Boi Matuto e às lorotas do Mamulengo Alegre, se aprontando pro pastoril no Iluminara Zumbi, da noite Tabajara na Casa da Rabeca. Lá pras tantas, ela tonta e risonha: Quem é? Ah, esse o artesão, ator, músico e compositor, Mestre Salustiano (Manoel Salustiano Soares – 1945-2008), rabequeiro que desde menino começou a trilhar os passos do pai, João Salustiano, e hoje se eterniza na arte dos filhos. E ficou maravilhada com a premiada narrativa dos capítulos da jornalista Mariana Mesquita: Família Salustiano – três gerações de artistas populares recriando os folguedos da Zona da Mata (FUNDAJ, 1999). E mais curiosa queria saber de tudo. Já na despedida da noite para outro dia, ela quis saber da minha: A vida entre um instante e outro – simulacros e bifurcações, emulação dos astros. E assim, sim. Até mais ver.

 

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sexta-feira, junho 18, 2021

HELGA SCHNEIDER, SZCZYPIORSKI, OSVALDO SORIANO, SOLEDAD & URANIANO MOTA

 

 

TRÍPTICO DQP –- Uns & tantos caminhos - Ao som do álbum Cartas brasileiras (Maritaca/Tratore, 2007), da compositora, arranjadora e flautista Léa Freire. - Não há apenas caminho de formigas ou fila indiana, muitas, senão todas, direções. E no barulho das ruas e por todos os lugares só ofertam duas opções: ou dos que mandam e ganham sempre – aqueles da mão invisível com seus interesses privados egoísticos sobre o poder e vida de tudo e todos -, ou da esmagadora maioria à beira do precipício e que farão de você um Jesuisis qualquer para ser crucificado pela indiferença ou opróbrio. Ah, reducionista maniqueísmo. Agora mesmo me vejo na pele da escritora italiana de origem alemã, Helga Schneider: Esta noite não preguei os olhos. Agora é quase dia; abri a janela. Um esfumaçado véu de luz vai se tornando claro sobre os telhados de Viena. Este um trecho extraído do seu autobiográfico livro Deixe-me ir, mãe (Berlendis & Vertecchia, 2001), sobre o último encontro depois de 27 anos que passou abandonada pela mãe, uma anciã de 90 anos de idade, saúde debilitada e que só vira uma única vez na vida na segunda guerra mundial porque ela seguiu os passos do nazismo: Hoje volto a vê-la, mãe, mas com que sentimentos? Que pode provar uma filha por uma mãe que se recusou a ser mãe para fazer parte da celerada organização de Heinrich Himmler? A resposta materna: ...eu não tinha nenhum direito de sentir compaixão, meu dever era só o de obedecer. Fidelidade e obediência, nada mais... Porque perdemos a guerra. Se tivéssemos vencido, o mundo inteiro beijaria os pés do Führer, e não só os pés. Ela saiu cabisbaixa, coração apertado, olhos empoçados. Era como se saísse para não mais voltar, nunca mais. E eu guardei seus sentimentos. Fiquei só e depois, como num passe de mágica nenhuma, emergia a dor do jornalista e ficcionista polonês, Andrzej Szczypiorski (1928-2000): Havia nisso algo de uma cruel libertação. O poder corrompe o homem. Uma frase da sua aclamada obra Uma missa para a cidade de Arras (Estação Liberdade, 2001), contando sobre o flagelo da peste, da fome e do surto de perseguições cruéis aos judeus e às bruxas na localidade. E isso para quem resistiu nas fileiras do Solidarity, viu-se só e desencantado. Parece mais que tudo se repete, mas não. Duas situações distintas e outros descaminhos. E há quem seja pelo interesse público além dos extremismos. Uma constatação: de um lado a outro há muito mais que 8 ou 80, há a infinitude de opções - vide o vetusto plano cartesiano, eu aprendi. E mais no espelho de todos, no travesseiro de tudo.

 


Duas vezes pela bifurcação dos caminhos… - Imagem: arte de Edith Derdyk, ao som do álbum Nocturne (Universal/Polygram 2001), do contrabaixista estadunidense Charlie Haden (1937-2014). – Assim a vida e os dias... De um ponto a outro, novas possibilidades, bifurcações. Mesmo que eu refaça todo dia o mesmo caminho, nunca será o mesmo: outros virão. E se de mim tantos eus passeiam entre seres e coisas, aonde eu for, será chegada para novo ponto de partida. Assim minutos e horas, dias e semanas, décadas. É sempre como se ouvisse o eco daquele trecho da obra Uma sombra logo serás (Relume Dumará, 2001), do escritor argentino Osvaldo Soriano (1943-1997): Estávamos todos presos naquela teia de aranha, caminhando pelas beiradas como insetos que procuram dar um salto desesperado... Eu sou um velho andarilho… No caminho, quando tudo parece perdido, sempre resta uma última manobra. Um golpe na direção certa, uma reduzida, qualquer coisa, mas o freio, jamais. Você toca no freio e está perdido. Agora mesmo tudo é irrespirável, sem saída nem escapatória, a morte iminente. Já não distingo a vigília, a existência atravessa sonhos, como se fosse aquele trecho de O labirinto da solidão (Cosac Naify, 2014), de Octávio Paz: Ao sair talvez descobriremos que tínhamos sonhado de olhos abertos e que os sonhos da razão são atrozes. Talvez, então, comecemos a sonhar outra vez com os olhos fechados. E sei que há muito mais além do que eu mesmo possa ver e sentir. E se olhos mentem ou se inibem, o coração conjuga.

 


Três sílabas, Soledad (A terra é fogo sob nossos pés). – Ao som do dvd Jubileu de Cordas – 50 anos de violão (2013), do violonista Henrique Annes, no Teatro Boa Vista, Recife - PE. - Lá estava eu, 10 anos de idade, bigodinho ralo abaixo da venta, sonhos que adolesciam antes da hora. A notícia me abalara, muito mais consternado com o dever de recitar A muerte de Soledad de Benedetti e recolher as lágrimas das Filhas da Dor & da Tortura. Passou-se o tempo e de novo me comovi ao dar de cara com Soledad no Recife (Boitempo, 2009), do escritor e jornalista Uraniano Mota, que li por ocasião do lançamento. Naquelas páginas eu me vi aquele menino que queria crescer. Logo na apresentação estava anotado: Naquele tempo o amor era uma alienação. Naquele tempo eu já amava e quase sabia direito o que estava acontecendo. Com a leitura era que crescia o coração, páginas lidas e lá pra diante quase ao final, no quarto capítulo, eu pude ler: [...] Escrevo este livro com minha atenção voltada para o que foi antes. Mas me defendo, ou quero me defender, quando reflito que a narração está sempre voltada para o que foi. Ao que acrescento, para o que foi e continua a ser, porque com a memória reconstruída podemos entrar na história [...]. Ah, Soledad, Soledad, a foto que o menino viu e se encantou ainda reluz estampada nos sentimentos. É como se tudo fosse de novo e agora mais do que nunca, ter de fazer alguma coisa antes que seja tarde demais. Até mais ver.

 

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quinta-feira, junho 17, 2021

JOHN UPDIKE, ARLETE SALLES, THOMAS CAMPBELL & XIRUMBA

 

 

TRÍPTICO DQP –- Uma vez e tantas... - Ao som dos Twelve Preludes for piano (1953), da Galina Ustvolskaya (1919-2006), na interpretação do pianista estadunidense David Arden. – Esta a minha vida, aqui o meu lugar. Das experiências de tenra idade ao quase desespero com o desgoverno do Fecamepa e a inação pandêmica, entre mortos e vivos, o espelho e o travesseiro. Se inusitadas ou inúteis, guardei o que me disse John Updike: São as ideias por trás do meu país, os conceitos de empreendimento e liberdade individual e como isso funciona na atualidade, que me interessam. Além do mais, foi o poeta britânico Thomas Campbell (1777-1844) quem me deu o estalo: Compreender que há outros pontos de vista é o início da sabedoria. Viver nos corações que deixamos para trás é não morrer. Sim, isso mesmo, o plural e o heterogêneo, o que sou e a outra. Certa feita, no íntimo da minha solidão, ouvi Sebastião Salgado: Minha maior esperança é provocar um debate sobre a condição humana do ponto de vista dos povos em êxodo de todo o mundo. Constatamos que o mundo está dividido em duas partes: de um lado a liberdade para aqueles que têm tudo, do outro a privação de tudo para aqueles que não têm nada. Isso me fez repensar tudo que já havia feito e o por fazer. Deparei-me com a minha própria carta de gratidão para quem tem uma história que dá para outra história sobre quase nada ou tudo, o que for. E sempre o meu convite braços apertos, mãos espalmadas: venha, junte-se.

 


Duas de uma (Que dizia: Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o derradeiro; e o que vês, escreve-o num livro...) - Imagens do premiado fotógrafo e poeta Xirumba Amorim. - Mesmo que tudo se parecesse mesmice a cada dia, um sim outro não, algum talvez, quem dera ou sabe-se lá, nunca é a mesma coisa. Já passei por muitas e boas, sempre adiante. Teve uma vez, entre lá e loa, lá estava João, homem comum que saiu das grades depois da queda das drogas e tornou-se asceta pelas ruas, a discernir o duelo entre o bem e o mal. Dele pude perceber a perdição e que o pior não está por vir, já degenerou faz tempo e agora tudo está perdido no meio da loucura, quanto não de sórdido e escatológico, entre ladainhas religiosas e licenciosas risadagens: o grotesco nos espreita, o horror gratuito e ninguém sabe o que fazer da vida nem de nada, apenas mergulha a alma corrompida na lama da vileza escancarada. Ninguém é inocente. E não mais o vi, perdeu-se e me deixou no redemoinho do Apocalipse do Fernando Bonassi que me Sorria: Deposite aqui. Aguarde. Ficha no caixa. Leve três. Aceitamos todos os tíquetes. Só com RG. Não pise na faixa. Pague dois. Por quilo. Facilite o troco. Até o vencimento. Débito automático. Fila única. Não tem chave. Não insista. Crédito obrigatório. Confira. Buzine. Conforme instruções. Relaxe. É lei. Digite a senha. Silêncio. À vista. Visite nossa cozinha. Senha não confere. Obrigado. Atenção. Em jejum. Fale com nossas operadoras. Não desligue. Por favor. Não perfure. Cuidado. Não rasure. Pare. Não amasse. Bloqueado. Deseja salvar? Sorria! Você está sendo filmado. E só me restasse o dia estrada afora.

 


Três das muitas faces de Arlete... - Primeiro a radialista que começou como locutora na Radio Jornal do Comércio, isso depois de ter sido instrumentadora num consultório odontológico. Passou para os Diários Associados, trabalhou nas rádios Tamandaré e Clube de Pernambuco. Depois a atriz consagrada que integrou a companhia teatral de Barreto Júnior, sendo logo premiada como revelação na peça A cegonha se diverte – ou seja, aos 16 anos de idade. Estava dado o pontapé, integrando o elenco da TV Tupi e, daí, para a Manchete e Globo. Transitou pelo cinema, começando com Terra sem deus (1963) até Amigos de sorte (2021), muitos outros. Também pelo teatro, desde o prêmio de revelação em 1958, até a temporada de O que o mordomo viu (2014-2015), tantas mais. E fiquei maravilhado quando pude ver Evangelina no Todo mundo sabe que todo mundo sabe, a Rita em Veneza, a Velma Von Tussle em Hairspray, a Maria Lúcia em A Partilha e Mirta no O que o mordomo viu. Coisa de fã ficar muito mais tiete. Por fim, a mulher que saiu de Paudalho para o hiperestrelato: Eu adoro estar viva. Tenho pavor da velhice e da morte. E deu aquela gaitada nordestina: Tô tinindo! Hehehehehe! Em depoimento na tevê ela se mostrou: Eu até fico meio constrangida de falar, porque eu tenho boas condições pra fazer o isolamento. Eu moro numa casa, uma casa ampla. Tenho espaço pra me deslocar, pra evitar o tédio. Mas há quem mora num lugarzinho quatro por quatro, com seis pessoas – como já vi uma senhora que mora com 16 pessoas – e sequer tem água. A gente fica falando ‘lavem as mãos’, mas tem comunidade que nem tem água. Como é que a gente vai ficar falando ‘lave as mãos’? Espero que as autoridades, depois de tudo isso, prestem atenção nessa desigualdade imensa, esse descaso com a população mais carente, e corrija isso, que é muito cruel. Esta a maravilhosa Arlete. Até mais ver.

 

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NORA NADJARIAN, LAUREN WEISBERGER, CAROLINE DEAN, MAGDALE ALVES & CARMEN CAMUSO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som do álbum The Changing Sky (2025), da violonista e premiada compositora britânica Laura Snowden .   ...