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domingo, junho 21, 2026

JOY HARJO, WALEED AL-HUSSEINI, SUSANA TRIMARCO & BRINCANTES DA MATA SUL

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

É o beija-flor \ E aqui dentro vai guardando o medo \ Mantendo em segredo o que deve mostrar \ Pois já tem medo de se ver sozinho \ Perder o caminho por compartilhar \ E vai voando de flor em flor \ Feito o beija-flor, sem se apaixonar \ E pouco a pouco vai perdendo o medo \ De se ver do avesso, por saber amar \ E voa mais que eu \ Seu beija-flor sou eu \ Além de nós, um eu \ Pra que eu seja todo seu \ E nunca mais seguir sozinho \ Construiu seu ninho, vai acreditar \ Sorrir com o choro do primeiro filho \ E servir de abrigo sem sequer chorar \ Pois foi voando de flor em flor \ Feito beija-flor, até se apaixonar \ E pouco a pouco foi perdendo o medo \ De se ver do avesso por saber amar... Pra que eu seja todo seu (aí, ó!)...

Ao som dos álbuns Dominguinho (Vol. 1 – Olinda, 2025 & Vol. 2 – Salvador, 2026), aclamado projeto acústico que une o compositor cantor de píseiro/forró, João Gomes (João Fernando Gomes Valério), o cantor, compositor e violonista Jota.pê (João Paulo Gomes da Silva) e o sanfoneiro, cantor, compositor e arranjador Mestrinho (Erivaldo Júnior Alves de Oliveira), com a participação do violonista Vanutti e da percussão inventiva de Gilú Amaral, homenageando o legendário sanfoneiro Dominguinhos, com repertório dos três artistas e releituras de clássicos. Veja mais aqui & aqui.

 


O bufo garçom na festa do céu... – Luzantoinho era bandoleiro de nascença. Desde bruguelo pirrototinho, bastava mãos ou braços que fossem e lá pulava, dele sair dando chau, com os dentes de fora. Já rapazote parecia ter tomado jeito de gente no baque das ondas pelas batucadas dos mulungus de Chico de Itá, no Maracatu Porto Rico, então apelidado já de Cutiliquê. Vôte! Foi aí, cheio das loas, o despranaviado: viu-se acometido pela síndrome da Tourette. E agora? Foi sacudido aos empurrões pra fora: Sai pra lá, cururu! Nisso ficou: liso e lesado, a coçar cocuruto. Num estalo deu o pira aos pinotes, montando com uma tocha de fogo no rabo dum porco ronceiro, dele ganhar rumo pra meter uma lança em África. Foi-se. Parecia: era uma vez... Qual nada, rasgou foi a boca. Nada, não. Aí penteou a gaforinha e foi ser aprendiz de feiticeiro com Tó Zeca: descobriu o rato dentro do queijo, o segredo da abelha, o dente de coelho, o elefante branco, o estômago de avestruz, a formiga de asa – tanajura? -, os gansos do Capitólio, as lágrimas do crocodilo, o leão-de-chácara, o leite de pato, as macacas de auditório, os olhos de lince, o asno de Buridan, o carneiro de Panúrgio, o cisne negro e a mula de Tales de Mileto que fez Him e voou sem cabeça por aí. Eita, bagaceira! Viu que a jaboticaba era pouca, nem dava pro gasto. Queixou-se ao bispo, arrumou os mijados e zarpou: Isso num vale um peido! Mandou tudo pras urtigas, ora. Nem acenou, mal-agradecido. Num vupe era o bei de Tunes e tinha de passar pelo sacrifício de Cúrcio, quando o galo cantou fora de hora atrapalhando tudo, de findar na garapa azeda pelo labirinto de Creta e, vexado, botou o ovo de Colombo na justiça de Cambises. Que aperto, meu! Quebrava a cabeça. E enquanto o diabo esfregava o olho, determinou-se agarrando no fio de Ariadne, com a lanterna de Diógenes e as muletas de Xisto. Valeu-se das cebolas do Egito e das cobras que perderam o veneno, dobrou o beiço e o rumo da venta pras galinhas dos ovos de ouro pelos jardins das Hespérides. Foi trupé. Mas, não: teve de encarar o bafo do Cérbero, a espada de Dâmocles no toitiço, a chuvada de canivetes. Que coisa! Nem mel nem cabaça na noite de Walpurgis, outros galos cantarão. Será? Isso se não desse em Lua cheia de saci correr bicho, com os relinchos da mula-sem-cabeça, os assobios da Curupira e agouros de Boitatá. Quem mexeu o angu é que sabe da bronca. Até aí já tinha morrido o burro atrepado no telhado e escapava tirando fino no bafo da onça. Por pouco, hem? Só voltas e revoltas às lonjuras, pertinho de nada, suas aporias. Suava muito a camisa pra tirar o pé do lodo e bote monturo nisso. Até que caiu do céu a sorte vocacional: garçom de ocasião festejado por clientela batucando em seu louvor A conversa de botequim do Noel & Vadico. Arrocha! Foi o que deu na beira de lagoa e ele só: Foi, foi, foi! Aprumou-se dedicado e passou a adivinhar pedidos dos paroquianos, oxe, metido a guardião Le Cordon Bleu, o faz-tudo inventava cardápio como se servisse deliciosa culinária de Cápua, dos fregueses lambuzarem-se de chupar os dedos e lamber os pratos. Eba! Virou casa de Orates. Com o tempo tornou-se confidente de solitários – teve de acalmar Alceste, alcovitar Alfeu e Aretusa, amansou Xatipa, até descobriu o anel de Polícrates e o escambau. Tô feito! Psiu! Tá dando em cima? Saideira. Tirava foto dos corujões e flagrava o anjo da guarda mangando dele, os 10%, folgado, bobão. Ainda apartou brigas de Chimangos e Maragatos, deu paradeiro ao dinheiro de sacristão, exaltou pretensos lotários, guardou a lista negra de sicários, até consolou o doutor da mula ruça chorando a morte da bezerra e escorado na mãe de Pedro, avalie. Com o tempo sabia de tudo: o resultado do bicho, o horóscopo do dia de cada signo, o prêmio da loteria, a manchete de amanhã, todas as fofocas, eventos, até da verdadeira e quilométrica lista dos propineiros do Banco Master e doutras escusas tramoias judiciais. Ora, se. E viu sucumbir os castelos no ar de muito soberbo que foi com muita sede ao pote e findou na Canosia, hem hem, para não dizer de quem pediu penico, abriu da vela e cagou fora do caco, maior meladeiro repugnante. Sacou? Foi nesse ínterim que ele foi escolhido pra servir na festa do céu. Eita! Viva! Maior badalação de soçaites embecados e noticiários retumbantes. O cara ajeitou-se todo na pinta e bancou profissa de responsa. Chegando lá estavam aboletados, entre os convivas, o cachorro Kratin-Qitmir-Al-Raqim dos 7 companheiros da caverna adormecidos em Éfeso, a jumenta falante de Balaão, a camela prenhe de Salé, Naqat Allah, que saiu de dentro duma rocha com bençãos gerais e leite em abundância; a baleia jactante que engoliu o profeta Jonas, a formiga de Salomão, o carneiro do Monte Moriá sacrificado por Abraão, o pássaro de Balgis-Belquisse da rainha Sabá, o bezerro de ouro de Moises, o burro Buraque-Al Borak de Maomé e a pomba do ramo de oliveira da arca de Noé. É mole? Só. Que marmota é essa, hem? Sou mais o criatório de Zeca Biu! Cadê o povo todo? Psiu. Foi empurrado entre bandejas e uma tuia de pratos agigantados, afora terrinas e travessas da muita, tudo fumegante e aos reclamos. Fui engalobado; mas, fiquei famoso. No outro dia, lá estava ele recolhido à Tebaida com cara de quem levou xexo e perdeu a mão na roda da fortuna, piongo de quase invisível. Foi então surpreendido por uma rabiçaca do destino: Era ela. Vixe! Um achado, ruidoso milagre. Jeitoso da gema, tirou da manga do colete toda sagacidade e: A-rá! E partiu pra melindrosa todo fogueteiro. Madame? Tenho esmola agora não. Posso servi-la? Passe outra hora. A bicuda olvidava e ele insistente no encalço, suspirava com os seus redondos seios, a diferente alvura dos seus dentes, a morenice brejeira, o cheiro fresco, seus gestos inéditos, sacudida de beleza vistosa, oooooooh, dele estouvar recreando-se ousada estimação nas pernas bambas, ah, danada, nela daria jeito. Ah, se. Poetou e fez figa: Lá vai a água descendo sem dizer nada. Já vai tarde. Aí arretou-se, pegou no bico da chaleira fervendo, pintou o caneco e pôs as tripas ao Sol: A senhora dá-me a honra desta dança? Ela virou a cara. Ele lá só conjugando: o nariz de Cleópatra, as orelhas de Midas, as joias de Cornélia, não há lindeza maior no mundo. Ela passou um rabo de olho e ele agitou as mãos, sorridente: Há um dia para o caçador e a caça fazerem a festa! Ela achou graça. Ih, deu mole, tô dentro! E não teve papas na língua, mandou ver nas razões chacoalhando aranzel chavecado no juízo dela, num esforço repuxado pelas pataratices, amabilidades aos bocados, até que, lá pras tantas, viu-la perder a paciência e deu o tiro de misericórdia, dela dar-se por vencida: Só uma valsa! E saiu com ele pelo salão dois pra lá e pra cá. Esmerou-se no gingado. No enfim, ela destrancou-se, entressorriram-se. Ele destampou seus segredos exagerando-se no macio como quem folheia abusado o Kama Sutra, venceu-lhe a pirraça, ancho como o homem da capa preta descabaçando a donzela de Orleães, nem se dando conta de tão enredado pela teia de Penélope, tecida e destecida, no de antes emprestado ao depois, nem desconfiava das astúcias dela, a ponto de emplacar sobrenome em agoniado cerimonial. Hoje é de vê-lo todo pabo pula-pula lavando a jega com suco de jurubeba ou gengibre, escanchado na porta de casa. Como vai sua patroa? E ele torando aço: Cala boca, a perereca tá lá dentro virada no créu, deixa quieto. Ih! Até mais ver.

 

Zezé Motta: É preciso ter coragem para viver... Não fico presa nessa ideia de lutar contra o tempo. Faz parte da vida... O palco, a música, o cinema, o carinho das pessoas. Tudo isso me mantém viva, ativa, com brilha no olhar. Trabalhar com o que amo há tantos anos também é combustível... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Efraim Medina Reyes: A vida tem muitas dimensões, mas estamos condenados a escolher uma e ignorar as outras. Estamos condenados a sentir que, por melhor que estejamos, nossa escolha foi errada. Estamos condenados a viver com alguém enquanto desejamos outros dia após dia. Estamos condenados a mentir, a dar beijos frios, a continuar tateando no escuro, fingindo uma paixão que se desvaneceu há anos. Por que fazemos isso? O medo de aceitar o fracasso pode ser uma das razões... Sabe, você me lembra um poema que não consigo recordar, uma canção que nunca existiu, e um lugar onde não tenho certeza já estive... Nada que se move está isento de falhas... Veja mais aqui.

Anna Akhmatova: É insuportavelmente doloroso para a alma amar em silêncio... Você ouvirá trovões e se lembrará de mim, e pensará: ela queria tempestades... Durante os terríveis anos do terror de Yekhov, passei dezessete meses nas filas da prisão em Leningrado. Um dia, alguém me "identificou". Então, uma mulher com os lábios azulados de frio, que estava atrás de mim e, claro, nunca tinha ouvido falar do meu nome, saiu do torpor que nos afetava a todos e sussurrou no meu ouvido (todos falávamos em sussurros): "Você poderia descrever isso?". Eu disse: "Posso!". Então, algo parecido com um sorriso surgiu no que antes era o seu rosto... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

FOGO - Uma mulher não pode sobreviver apenas com a própria respiração; ela precisa conhecer as vozes das montanhas, precisa reconhecer a eternidade do céu azul, precisa fluir com os corpos fugazes dos ventos noturnos que a acolherão em seu interior. Olhe para mim: eu não sou uma mulher separada; sou uma continuação do céu azul; sou a garganta das montanhas, um vento noturno que queima a cada respiração.

ESTA TERRA É UM POEMA - Esta terra é um poema de ocre e areia queimada que eu jamais conseguiria escrever, \ a menos que o papel fosse o sacramento do céu, e a tinta a linha quebrada de \ cavalos selvagens cambaleando no horizonte a quilômetros de distância. Mesmo assim, \ será que algo escrito importa para a terra, o vento e o céu?

Poemas da escritora, musicista, dramaturga e poeta estadunidense Joy Harjo, que se inspira nas histórias e narrativas das Primeiras Nações, bem como nas tradições poéticas feministas e de justiça social, incorporando mitos, símbolos e valores indígenas: Sinto fortemente que tenho uma responsabilidade para com todas as fontes que sou: para com todos os ancestrais passados e futuros, para com minha terra natal, para com todos os lugares que piso e que fazem parte de mim, para com todas as vozes, todas as mulheres, toda a minha tribo, todas as pessoas, toda a Terra e, além disso, para com todos os começos e fins. De uma forma estranha, me liberta para acreditar em mim mesma, para poder falar, para ter voz, porque preciso; é a minha sobrevivência... Entre seus álbuns musicais, o Red Dreams, A Trail Beyond Tears (2010), o espetáculo solo, Wings of Night Sky, Wings of Morning Light (desde 2009) e a peça musical, We Were There When Jazz Was Invented. Também é membro fundadora do conselho da Native Arts and Cultures Foundation.

 

BLASFEMO - […] Aqueles que são chamados de revolucionários e rebeldes, ou seja, aqueles que escaparam desse condicionamento, movidos pela vontade de viver, de refletir, de compreender uns aos outros e de explorar a vida e suas nuances. [...] É um grito de alarme que corro para salvar a inocência de crianças ameaçadas pela loucura e pela raiva. E é na escola e na mesquita que elas são moldadas para se tornarem criminosas! Porque no meu país e em outros, os principais fornecedores de terroristas são as mesquitas. [...]. Trechos extraídos da obra The Blasphemer: The Price I Paid for Rejecting Islam (Arcade, 2017), do escritor palestino Waleed Al-Husseini, que foi preso em 2010 sob a acusação de difamação, fugiu para a França onde obteve asilo. É autor dos ensaios publicados no seu blog Noor al-Aqel (Iluminação da Razão) e em língua inglesa no Proud Atheist (O ateu orgulhoso), descrevendo Alá como "um deus primitivo, beduíno e antropomórfico, e Maomé como um "maníaco sexual", o que lhe valeu antipatias de familiares e conterrâneos, afora ameaças de morte. Para ele todas as religiões são: um amontoado de lendas incríveis e uma pilha de disparates que competem entre si em estupidez. Ele critica o tratamento dado pelo Islã, a supressão da criatividade humana e as alegações de que o Alcorão contém milagres científicos. Fundou em 2013 o Conselho dos Ex-Muçulmanos de França. É também autor de The collaborationists of radical Islam unveiled (2017), Blasphémateur ! Les Prisons d'Allah (2015) e Une trahison française: Les collaborationnistes de l'islam radical dévoilés (2017). Para ele: É verdade que nem todos os muçulmanos são terroristas, mas todos os terroristas são muçulmanos. O problema no Islã está no conteúdo do Alcorão, e isso é absolutamente cristalino. Quem defende o contrário está cego... Não dizer nada é tolerar o intolerável. Não temo aqueles que me chamarão de “islamofóbico” quando denunciar o seu fundamentalismo: a sua chantagem com a islamofobia nunca funcionou comigo... O véu nada mais é do que um símbolo do islamismo político, assim como as braçadeiras eram para os nazistas!...

 

DOR DE MÃE CORAGEM & AS FILHAS DA DOR - [...] O dia 3 de abril de 2002 foi o dia mais triste da minha vida. Nunca me esquecerei desse dia, pois foi quando a vida da minha filha foi destruída [...] Essa é uma dor terrível que carrego permanentemente na minha alma. Quase me acostumei a viver com ela. [...] Quando Marita não voltou naquele dia, meu marido e eu sentimos que algo terrível tinha acontecido. Como pais, a gente simplesmente pressente essas coisas [...] Havia cerca de 60 mulheres, todas com roupas sumárias. Marita não estava entre elas. Eu disse a essas mulheres que quem estivesse ali contra a sua vontade, deveria se apresentar e vir conosco. Imediatamente, uma jovem correu para os meus braços e não me soltou até sairmos daquele lugar [...] Eu não era uma figura pública na época, então isso facilitou as coisas. Nem sequer contei ao meu marido que ia fazer isso. [...] Cada uma tinha um preço. Havia até meninas menores de idade, algumas com apenas 14 anos. Todas pareciam aterrorizadas. Quando você olhava para elas, baixavam o olhar e tentavam cobrir seus corpos quase nus com as mãos [...] A linguagem grosseira dessas meninas demonstrava o terror e a dor que elas estavam passando [...] Foi então que decidi criar uma fundação [...] Também vou continuar lutando na rua, nos meios de comunicação e onde quer que seja contra a exploração sexual, por minha filha Marita e por todas as moças que passam e passaram pela que ela sofreu... [...] Aqui, no meu peito, sinto que ela está viva e meu desejo mais profundo é o de abraçá-la forte... [...] Techos da entrevista Enfrentando os traficantes de pessoas na Argentina (BBC News, 2012), da ativista argentina Susana Trimarco, mãe de Marita Verón e fundadora da Fundación María de los Ángeles. Marita (María de los Ángeles Verón Trimarco) tinha 23 anos, em 2002, quando desapareceu em San Miguel de Tucumán, negociada por uma rede de tráfico de mulheres. A luta da mãe viúva e ex-funcionária pública argentina para encontrar sua filha, levou-a a se vestir de cafetina em prostíbulos, infiltrando-se em quadrilhas de tráfico humano, contando com a participação direta de sua neta, a adolescente Micaela Sol Trimarco. Ela sobreviveu a duas tentativas de assassinato, sua casa foi incendiada, ela recebeu inúmeras ameaças de morte, mas nada a impediu de procurar por sua filha desaparecida. Até hoje ela continua a denunciar fortemente a cumplicidade entre redes de tráfico humano, policiais e o poder político. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE JOÃO GUIMARÃES ROSA - A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada... O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando... Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura...  Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo... Viver é etecetera... Trechos extraídos das obras do escritor, diplomata e médico João Guimarães Rosa (1908-1967). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

BRINCANTES DA MATA SUL

[...] Escrever esta obra foi caminhar por um mapa de afetos. A motivação veio do desejo de honrar aqueles que guardam o brilho da nossa cultura no corpo e na voz. [...].

Trecho da apresentação da obra Brincantes da Mata Sul: mapeamento da tradição popular pernambucana (Arranco-PNAB, 2022), da produtora cultural Maria Clara Catende (Maria Clara Mendes) e Flor das Chagas, resultado de uma pesquisa de campo realizada nas cidades de Catende e Palmares, marcadas por uma rica tradição de folguedos populares que atravessa gerações, na Mata Sul de Pernambuco. Durante a pesquisa de campo, a equipe percorreu engenhos, feiras, distritos e comunidades rurais, indo de porta em porta para ouvir, registrar e compreender os brincantes que mantêm vivas as manifestações como a Mazuca, o Guerreiro, o Caboclinho e o Bumba Meu Boi. A obra reúne registros fotográficos, entrevistas e um mapeamento detalhado das expressões culturais dos dois municípios. Veja mais aqui.

 

EDUCAÇÃO PATRIMONIAL, PERNAMBUCANIDADE NA HISTÓRIA:

ENTRE VERSOS, BACAMARTES & FOGUEIRAS – O CICLO JUNINO COMO EXPRESSÃO DA LITERATURA, DAS TRADIÇÕES E IDENTIDADE CULTURAL PERNAMBUCANA

Dia 25 de junho na Biblioteca Fenelon Barreto, Palmares (PE). Veja mais aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui.



 


domingo, julho 11, 2021

SEI SHÔNAGON, TAMARA KAMENSZAIN, NINA MORAES & ARMANDO LÔBO

 

 

TRÍPTICO DQP –- Mais um dia... – Ao som da música Atrás das máscaras, do álbum Técnicas modernas do êxtase (Delira, 2011), no filme-ópera Último dia (2021), de Armando Lôbo, com Natália Duarte, Virginia Cavalcanti, Surama Ramos, Walmir Chagas e Marcelo Sena (Veja mais abaixo) – Acordei com o movimento do travesseiro e os sons da manhã. Procurei tomar pé da situação e qual não foi a minha surpresa: era O livro do travesseiro (34, 2013). Como assim? Isso mesmo. Estava inscrito na capa: Sei Shônagon - aquela mesma do The Pillow Book de Greenaway. Investiguei, desconfiado, como podia tal transformação. Ultimamente tem me ocorrido cada uma. Pois é, ajeitei-me na cama e comecei a ler. A cada página uma surpresa: ali estava tudo o que vivi e sou - devaneios, quedas, sucessões de idas e vindas. Atento a cada parágrafo, frase por períodos e, pelo volume, vi que era um tanto a vencer. Persegui e era como se estivesse procurando o começo ou o fim de O Livro de Areia de Borges e relesse mais curioso que antes: ... porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim... Se o espaço for infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo... Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta... Refleti. E depois surgiu um trecho de outro conto dele, O espelho e a máscara: ... A guerra é o belo tecido dos homens e a água da espada é o sangue. O mar tem seu deus e as nuvens predizem o futuro... E se misturava com trechos do Evangelho apócrifo da infâmia. O que é isso? Outros labirintos ou será que estou enlouquecendo, o que está acontecendo? Mais desconfiado que antes, esfreguei os olhos e lá estava inscrito o que me tocou profundamente: Quanto a pássaros, embora pertença a terras estrangeiras, é muito enternecedora a cacatua. Dizem que ela imita tudo o que falam as pessoas. O cuco-pequeno. A galinha d’água. A narceja. A gaivota, pássaro-da-capital. O pintassilgo-verde. A papa-moscas... Ah, sim, agora era ela como se me descobrisse um xexéu incorrigível. Cabreiro, além da conta, compreendi o que ela quis dizer: uma sensação inenarrável de quem não estava só ali. E não estava mesmo, logo a sua presença preencheu meu quarto e era ela mesma a me dizer: Um homem que não tem nada em particular para recomendá-lo discute todos os tipos de assuntos ao acaso, como se soubesse de tudo. Na vida, existem duas coisas confiáveis. Os prazeres da carne e os prazeres da literatura... Sim isso eu já tinha lido no outro livro dela. E o que está havendo? Ela sorriu, beijou-me as faces e saiu como nunca mais. E me fez pensar na vida. Era só mais um dia. Sim, mais um dia, agora é só viver.

 


A vida imita a arte... - Imagem da artista visual & grafiteira Nina MoraesA leitura do livro me trouxe outras cenas fora das suas páginas e ao meu redor aconteceram coisas estranhas. Tudo parecia muito real naquela hora e dali eu presenciava um fato ocorrido e tão lamentável como aquela triste situação em que foi detratado o tenente Gustl do Arthur Schnitzler: Deus do céu, tanto faz se outro sabe ou não!... eu sei, e isto é o que importa! Sinto que sou outro, já não sou o que fui há uma hora. – Sei que estou desqualificado e por isso devo estourar os miolos... Que vexame! E me sentia como se eu fosse ele diante daquilo tudo e não conseguia concatenar direito. Não sabia onde por os pés, as mãos, nem para onde ir. Da mesma forma aquela outra deplorável circunstância em que me vi na pele do Marlow da Juventude de Conrad a perorar: Lembro da minha juventude e de um sentimento que nunca mais haverá de voltar – o sentimento que eu poderia durar para sempre, mais do que o mar, do que a terra, do que todos os homens; o ilusório sentimento que nos atrai para alegrias, para perigos, para o amor, para o vão esforço – para a morte... O sentimento da desolação me trazia aqueles versos da Tamara Kamenszain: Quem por palavra fala de seus sonhos / quando a vigília os está vigiando ou / quando na tela do lençol se grafa / o que com esses sonhos vai envolto? Tudo me ocorria ao mesmo tempo, como se em mim outras pessoas trafegassem e ora eu me via na misériade Abel ou nos relampejos da borboleta Dinalva. Tudo me dava conta de que viver é muito difícil. Ou melhor, como repetia Guimarães Rosa: Viver é muito perigoso. Para mim nunca foi possível viver alheio ao horror, como se arrancasse os olhos, perdesse a audição, nenhum tato, paladar ou olfato, vivesse ao vento como se caísse no poço para nadar pelas águas, entre ondas e abismos oceânicos, alcançando grandes alturas atmosféricas, percorrendo distâncias de tudo isso. Não, não é possível, a tentação das contradições do mundo e as minhas instâncias se engalfinhavam, eu sabia, a vida é luta...

 


O último dia... – Não sei onde fui parar, sei que ouvi uma estrofe de Antero de Quental que eu esquecera com o tempo e tudo mudava claroscuramente para que eu visse uma porta e, atrás dela, um palco. Ao atravessá-la, cochichos nas coxias, agucei as ouças: Que nada, meu! Do pescoço pra baixo tudo é canela, deu-se as costas às punhaladas. Quem o otário para levar vantagem, o sabido pronto para a rasteira e a cama-de-gato! Não entendia direito a que se referiam e muito menos me dei conta da morte a rondar dançante com seus tamancos enormes. Êpa! Mais adiante mulheres solfejavam e eu não conseguia atinar. Uma voz irrompeu, era de um morto. O que ele disse era de si e de seus infortúnios. Ao silenciar, percebi os resmungos de uma mulher: o brasileiro só é solidário... Quem? Logo deu pra perceber que não era apenas uma mulher, mais. Sim, mais de uma, porque a morte passou por perto, acompanhei seus passos até um trio cantatriz que carpia - terços, novenas, lamúrias, o que Freud viu na festa dos sacrifícios. O defunto então se mexeu, eu vi, ninguém mais, acho. Depois se levantou e depôs: Todo mundo é bom, apesar do lulixo! Todos ouviram e se entreolharam questionadores. Nem eu, nem ninguém, quem explicasse. Logo a saudação dos que ali estavam era um misto de espanto e asco, razão pela qual comemoraram hesitantes: Ele está vivo, viva! Vivôoooo! Afetos e antipatias se deram, era o último dia e a paráfrase nelsonrodrigueana: o brasileiro só é solidário na desgraça! Tanto já era carnaval desde não sei quando. Assim, todo dia passa, evoé. Até mais ver.

 

Veja mais aqui e aqui.

 


quarta-feira, junho 09, 2021

LEWIS CARROLL, MARY LOU WILLIAMS, VIRGINIA LEAL & ESPELHO DANÇA.

 

 

TRIPTICO DQP – Do nada e outras... - Ao som do performático show de cabaré da lendária compositora, pianista e arranjadora estadunidense de jazz Mary Lou Williams (1910-1981), no Les Mouches em Nova York, 1978. - Ao deparar com o espelho: nem eu nem nada. Pelo menos, não tive que passar pela experiência de ter que dar de cara com um general obtuso, nem um ladrão sorrateiro, muito menos a morte inexorável. Graças! Ainda me pergunto como é que tudo isso foi acontecer justo comigo, logo comigo! Uma coisa estava certa: ou havia me tornado invisível de vez, ou seria um vampiro das costelas ocas. Só sendo. Essa a constatação. Até brinquei cantarolando: Espelho, espelho meu, afinal de contas, o que serei eu? Um delírio ou uma assombração, hehehehe. Vamos nessa. E ao chegar à sala, esta não era a minha: três vultos sentados num sofá que não era o meu. Fui ver quem. Ah, qual não foi a minha surpresa! O primeiro a se virar para mim foi Machado de Assis que logo me falou: A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito. Hem? O outro logo interveio, era Guimarães Rosa: Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo. Mal ele terminou de me dizer, logo apareceu Sacha Guitry que foi contando a história de um senhor que, ao sair às compras, virou-se da porta e perguntou à esposa o que ela queria que trouxesse: um pente. Este o pedido. No mercado, ele não se lembrava do pedido dela e adquiriu um espelho. Como ela nunca tinha visto aquilo, ao abri-lo, teve uma surpresa: pensou consigo que o marido havia comprado outra mulher. Com esta constatação, levou o objeto para mãe que também nunca tinha visto um troço daquele. Vôte! E ao fitá-lo, olhou, olhou, olhou, virou de ponta à cabeça, fez careta e... como mãe é mãe (né?): é sábia. Coisa mais sem pé nem juízo, ora. Como é? Bem, diante do trio fiquei sem saber o que fazer. O que sei é que aquela não era a minha sala de estar; era, soube por eles depois, a do deão do Christ Church College, que possuía um grande espelho sobre uma enorme chaminé. Teria eu, conforme as instruções que me foram dadas pelos visitantes, que subir o console da lareira, livrando-me dos vasos de flores secas protegidos por redomas vitorianas, e ao alcançá-lo, consequentemente, ultrapassá-lo para saber onde é que ia dar. Como é que pode uma coisa desta, hem? A minha longa jornada pelo espelho.

 


Dois sustos no imprevisível... - Ao atravessar o espelho, ele se dissolveu como uma bruma prateada. Estava diante de mim, ninguém mais nem menos que Lewis Carroll que, por recepção, foi logo me saudando amável e enigmaticamente: A única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível. Nem deu para notar direito a ponta de sarcasmo que havia no seu jeito e fui imediatamente acompanhado de uma admoestação para que eu não me espantasse, explicando que ali era a entrada para o país do Espelho (!?!), o qual, quando visto, torna-se impossível descrever o cenário com precisão. Hum? Sim, realmente, impossível ter qualquer noção em um lugar em que foram abolidos tanto o movimento no espaço como a passagem do tempo: a prova tangível da refutação do espaço de Zenão. Eita! Além do mais, ali o tempo de cada um é diferente do tempo de todos: o tempo tanto corre para frente, como para trás. Vôte! Endoidou tudo! Assim, eu podia parar o meu tempo à vontade, independente do tempo do outro e nenhum prejuízo para ninguém. Então o que eu vi e senti não deu para contar, apenas vi e senti sim, nada mais. Coisa de doido, né? Pois é.

 


Três solfejos e nenhuma canção... - Já tive oportunidade de aqui publicar poemas de Virginia Leal: a cada leitura de seus cometimentos poéticos, um prazer indescritível, uma emoção inenarrável: e isso muito me apetece. Tanto é que virei assíduo apreciador de suas postagens e, a cada uma delas, lá estou eu como devotado admirador. Prova disso é que aqui já publiquei de sua autoria o Lascivus – da série Nauta Libidinosos –, afora outros dos seus poemas. Até comecei a musicar um deles e, mal começava a descobrir canções em seus versos, logo outro aparecia e lá ia eu solfejando melodias intermináveis. Cheguei a selecionar uns dez ou doze poemas dela, já definindo a linha melódica para cada um deles e procurando superar minhas limitações musicais para alcançar a grandeza do que expressavam. Fiz, refiz, me enganchei, desenganchando e recomeçando, quem sabe, de repente, eu consiga fazer uma música à altura dos seus poemas, espero, vamos ver. Mas o que quero falar aqui não é a respeito dessas minhas tentativas recorrentes e sim de um conto dela que foi responsável pela potencialização da admiração: o A bailarina, a atriz e a canção, extraído da antologia Contos de oficina – Oficina de Criação Literária (Bagaço, 2004), organizada por Raimundo Carrero, do qual pinço o trecho: [...] O artista esculpiu a sensibilidade da menina, antes enredada pela teia do drama que a fez ameaça, ovelha negra, problema. A menina-atriz ressurgida resgatou as histórias perdidas. Agora, havia interessados em suas verdades. Descobriu que é possível fazer do trabalho diversão. Sentiu-se de volta aos brinquedos infantis, enquanto seu corpo febril descobria outros prazeres. O tempo a lapidar cumplicidade, compreensão. [...]. Pois bem, mesmo que minha teimosia em musicar seus poemas não vingue por minha completa incompetência de alcançar a grandeza de sua arte, pelo menos, vou tentando e mais me deliciando com sua maravilhosa expressão. Até mais ver.

 

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terça-feira, novembro 19, 2019

GUIMARÃES ROSA, MARIA MALIBRAN, LEANDRO DE BARROS, GILLO PONTECORVO & FRITZ KLIMSCH


CARTA PARA MARIA - Maria não me viu, nem poderia. Do contrário, eu seria seu nome: felicidade de nascença. E a lenda corria: Pampanoso, seu pai aos pileques, a vendeu por moedas algumas ao Garzia do circo. A menina brincava e cantava Agnese de Paër, ameaçada com uma faca em riste, a severidade paterna. As qualidades canoras fizeram-na perfeita amazona e muitas outras dela: a Rosina d’O Barbeiro de Sevilha, a Zerlina do Don Giovanni, a Norma de Bellini, a Maria Stuarda de Donizetti, a Infelice de Mendelssohn e todas as de Rossini. Fascinante poliglota, pintava e desenhava com esmero no meu coração e não me via sonhá-la seminua sob os véus oníricos de seus encantos. Assim não fosse talvez diferente, a busca pela liberdade sem o golpe de François para sucumbir e herdar apenas o sobrenome. Não me viu amanhecer a prima-dona porque seus olhos nadavam como versos de Virgílio: a divina Sonâmbula entre os louros filhos de Álbion. Não me viu entardecer suas quimeras porque consumia a vida entre triunfos e amores: a insólita paixão pelo violinista e os salves no Scala de Milão. Não viu porque morreu Bellini e ninguém tardaria em segui-lo com o baque na equitação, o pé preso ao estribo, arrastada pelo cavalo para que sofresse a magreza insone, dores e enxaquecas, quantos padecimentos nos seus dramas líricos e nas paixões. Não me viu quando verteu uma lágrima dos olhos, o delírio e a queda no palco e o ápice da cena do Andronico de Mercadante. Era só uma armadilha patética, fulminada entre miragens e pesadelos em seus olhos azuis: os pântanos da dor Malibran na infeliz maldição desvelada. Para mim a mulher ao piano de Delacroix, a legendária diva nua e sedutora suicida, Desdêmona de Caisne entre a loucura e a crueldade, e o seu charme mítico e insidioso no meu coração de quem morre quando ama. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Estão contando que um moço militar, de Nhu Verá ou de Horqueta, começou a achar enfado na luta do Ipanê, e preferiu indulgir em peripécias próprias: desertou barulhentamente, chocou-se com as rondas, atravessou depois o território inimigo, sempre riscando de onça, requisitou comeres e bebederes, promoveu-se e condecorou-se a si próprio, e, chegando até a beirada do Brasil, cumprimentou e deu as costas, sem gosto para embrasilar-se, e pois retornando à confusão. Trazia também um violão a tiracolo – acrescentam. E explicam que o violão, para o paraguaio, é arma de combate e ferramenta de lavoura. Se verdadeira, bela é a história, se imaginada, ainda mais. E em Bela Vista só estão internados três ou quatro legalistas, que, por se afoitarem mais em terreno “blanco”. Alguém discorda, reticente: - “Paraguaio, amigo, é bicho letrado. Não tem nenhum paraguaio sonso, não...” [....]. Trecho de Sanga Puytã, extraído da obra Ave, palavra (José Olympio, 1978), do escritor, médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967). Veja mais aqui, aqui & aqui.

O CINEMA DE GILLO PONTECORVO – Da obra do cineasta italiano Gillo Pontecorvo (1919-2006), destaco o drama histórico A Batalha de Argel (La battaglia di Algeri, 1966), baseado em fatos ocorridos no período de 1954-1962, quando o povo da Argélia lutou contra a ocupação colonialista francesa no país, enfocando os eventos ocorridos durante a "Guerra da Independência Argelina", uma organização de nativos insurretos escondidos na populosa região da cidade de Argel conhecida por Casbah, mantendo um conflito contra as tropas de ocupação colonialista francesas (pied-noirs), as tropas colonialistas praticam tortura, intimidação e assassinatos. A aventura Queimada! (1962), baseado, parcialmente, na história do Haiti, um retrato bastante claro de como é possível produzir um "líder popular nato" e conduzir seus íntimos impulsos para o bem comum do povo na direção dos interesses de um poder estrangeiro qualquer. O drama Giovanna (1956), conta a história de um grupo de trabalhadores que luta para defender o local de trabalho contra os despedimentos desejados pela propriedade e as mulheres ocupam a fábrica. E, por fim, o documentário coletivo Un altro mondo è possibile (2001), descrevendo os dias de preparação e protesto no G8 em gênova. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor alemão Fritz Klimsch (1870- 1960). Veja mais aquiaqui.
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MARIA MALIBRAN
A arte da cantora lírica mezzosoprano Maria Malibran (María Felicia García Sitches – 1808-1836), que se tornou a diva mais famosa do século XIX. Sobre a sua vida e arte, as publicações Maria Malibran (SPME, 1976), de Carmen Reparaz; Maria Malibran: a biography of the singer (Pennsylvania State University Press, 1990), de Howard Bushnell; Memoirs and Letters (2 livros) de Maria Malibran e Maria de las Mercedes Santa Cruz y Montalvo; o filme fantasia comédia A morte de Maria Malibran (1972), de Werner Schroeter; Maria Malibran (1943), de Guido Brignone; La Malibran (1944), de Sacha Guitry; Malibran’s Song (1951) de Luis Escobar Kirkpatrick; e As Malibrans (2000), da compositora Jocy de Oliveira, que é a terceira parte de uma trilogia musical cujo tema é a questão das mulheres, tendo como inspiração a vida e a carreira da cantora soprano Maria Malibran e sua irmã Pauline Viardot-García.

A OBRA DE LEANDRO GOMES DE BARROS NO DIA DO CORDELISTA
A obra do poeta Leandro Gomes de Barros (1865-1918) aqui, aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, junho 27, 2018

GUIMARÃES ROSA, LEFEBVRE, GERARDO MOURÃO, GOLDMANN, VERA CHAVES, VLADO, ALAGOINHANDUBA, ZEZÉ MOTTA & MAIRA FREITAS


O QUE SERÁ DO QUE SEMPRE FOI – Imagem: arte da pintora, fotógrafa, gravurista e xilogravurista Vera Chaves Barcellos. - Alagoinhanduba não saiu na manchete do jornal! Nunca, nem poderia, a mesma vida besta de sempre. Tirante certa vez as acrobacias dum comboio de OVNIs, capitaneado pelo Padre Bidião e seguido por seus nove clones e beatas mil na maior das farras, e o encerramento ruidoso do Big Shit Bôbras com toda população furiosa no maior linchamento por sobre catabís e pés na bunda, nada mais passou além de boatos e fuxicaria na maior normalidade. Bem que podia, é que uns dias chovem, outros mais e sempre sim, apesar do império do sol que, invariavelmente, é deposto da sua soberania por chuvadas adventícias. Do contrário, como dizem as más línguas, entre uma casa e outra um corno pede penico e tudo termina bem. Ali todos amam a terra e a corroem como britadeiras predatórias e prosperam, falem e se dizem amigos na hora da fartura e da miséria, apesar de falarem mal uns dos outros, bastando virar as costas e logo, então, passar o ausente pra banda dos desafetos com uma punhalada nas costelas – a menos que acertem na titela -, do tipo inimigo público número 1. Não há quem não veja por conta própria atos de caridade festiva aos abraços, perdigotos e flatulências em pleno meio dia, quase todo dia da semana. Tapinhas nas costas, pulhas e risadagens fazem o repertório das saudações diárias, e isso faz aquela do que foi e o que não é, o que há de muvuca e de perdição, é coisa pouca, pois, se tivesse de escolher entre a vida e a morte, por mais não se saberia da lida trôpega, o batalhão de invejosos que mutuamente não se suportam, as intrigas frequentes pelas insuportáveis vaidades e hipocrisias, quanta mesquinharia, meu Deus, entre professores sabichões, bestas quadradas e vilões, tirante uma grande percentagem quase maioria de sem-vergonhas com todas as regras higiênicas e morais, afora as pilantragens e fanfarronices usuais, uma solução para tudo no meio duma gambiarra que não passa de uma leviandade, e nem se atrevem a dizer na cara, porque sequer sabem o que é de João, o que é de Zé, se Maria e Zefinha não se entendem mais, o amor e seus desatinos no peito com o eco das paixões não perdendo por esperar. Todo mundo lá quer o saco do Papai Noel, vez que há um espírito natalino todo final de semana, quando na segunda haja guerra com peido-de-véia pra cima e pra baixo, pé-na-goela, golpe baixo e rasteiras, pra render na sabedoria popular do pé na cova, a abjeção ao parasita de plantão e um monte de aborrecimentos que deles procedem e que afinal são todos que não se reconhecem como tais. Mas, quem não, né, ainda se encontram com seus janeiros, setembros e maios, uma só brecha e o irrenunciável atiça os confins de trilhas opostas, se ofendem, arengam, fazem as pazes, enquanto as facas afiadas do tempo vão pras vésperas das saudades agudas, no meio dos rumores das fontes e cada um arrimo dum e doutro, na maior torcida de araque, até onde se pode ver a visão e as vendas da ignorância, a surdez pelos gritos do compadrio aos pipocos de pistolas, as mordaças das evacuações orais por conta de que ninguém é besta de meter a língua nos dentes e acabar mudo de pai e mãe, o paladar pras bufadas dos maiorais sem poder regurgitar o que está saindo pelo ladrão de tão indigesto, o olfato sem distinguir dos perfumes e catingas porque vale mesmo a ocasião, o tato e a confusão das superfícies e texturas por conta dos cheleleus e suas paparicadas na maior da caboetagem, o raso e as funduras nem aí que está bom demais, as paredes e grades pra quem não tem simancol de respeitar carteirada, as rezas e novenas pros calabouços e grilhões do coração, porque tudo que vai pra lá volta pra cá e amanhã será outra coisa e ninguém está bestando de cuspir pra cima e não sair de baixo, porque o que vem de cima não escolhe vítima e Alagoinhanduba passa noite e passa dia é a mesma de sempre desde sempre, haja o que houver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora e atriz Zezé Motta: Missão & 45 anos na ABL; a pianista e cantora Maira Freitas: Nua & Êta; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Como o valor de uso, a solidariedade consciente e deliberada entre os homens é relegada ao domínio privado das relações de família ou de amizade; nas relações inter-humanas gerais e notadamente nas econômicas, pelo contrário, a função de uma e de outra tornou-se implícita, obscurecida pelos únicos fatores que fazem agir o egoísmo do Homo-oeconomicus, que administra racionalmente um mundo abstrato e puramente quantitativo de valores de troca. [...]. Trecho extraído da obra Dialética e Cultura (Paz e Terra, 1991), do filósofo e sociólogo francês Lucien Goldmann (1913-1970). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A CIDADE & O DIREITO À VIDA – [...] a cidade, obra e ato perpétuos, dá lugar a instituições específicas: municipais. As instituições mais gerais, as que dependem do Estado, da realidade e da ideologia dominante, têm sua sede na cidade política, militar, religiosa. Elas aí coexistem com as instituições propriamente urbanas, administrativas, culturais. [...] O direito à cidade se manifesta como forma superior dos direitos: direito à liberdade, à individualização na socialização, ao habitat e ao habitar. O direito à obra (à atividade participante) e o direito à apropriação (bem distinto à propriedade) estão implicados no direito à cidade. [...]. Trechos extraídos da obra A natureza e o domínio da natureza (Paz e Terra, 1969), do filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre (1901-1991), que em outra obra Uma revolução cultural não pode desenrolar-se fora do campo política (Revista Triunfo – Editorial O Século, 1970), expressou que: [...] Trata-se de problemas urbanos, talvez isso se deva ao fato de ser na cidade – mais do que na indústria, como força econômica – que descobriremos, que revelaremos, as condições desta apropriação, pelo ser humano, da sua própria vida, dos seus próprios desejos, do tempo e do espaço em seu redor. [...].

A TERCEIRA MARGEM DO RIO - [...] Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho. Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa. No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava. [...]. Trecho extraído do conto A terceira margem do rio, recolhido da coleção Ficção Completa (Nova Aguilar, 1994), do escritor, médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967). Veja mais aqui e aqui.

UM POETA - Hás de testemunhar ruínas / antes de existirem ruínas: / engenheiro de troços e destroços / empreitaras demolições — / desmoronaste muros. / Profeta — risca riscaste riscarás / roteiros de pássaros no ar — e riscas / calendários passados e futuros — riscas / a arquitetura dos escombros / antes durante e depois deles / os tempos ouvem ouviram e ouvirão / esses passos de pedra / que pisam pisaram pisarão / rosa, lírio, jasmim e às vezes / ovelhas imoladas. / Maios, janeiros, setembros e os outros meses / meses azuis e meses pluviais / te saúdam à beira das falésias à beira-mar à beira-rio / à beira-abismos à beira séculos: / piloto do naufrágio / governador dos tempos tetrarca dos milênios / arquivista — tabelião das eras / só os dias, poeta, e as noites, te conhecem / sabem teu nome / e nenhum outro nome. Poema do poeta, jornalista, tradutor e biógrafo Gerardo Mello Mourão (1917-2007). Veja mais aqui e aqui.

VLADO 30 ANOS DEPOIS
O documentário Vlado - 30 Anos Depois (2005), dirigido pelo cineasta, roteirista e escritor João Batista de Andrade, oriundo do livro homônimo escrito pelo diretor, conta a história do jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, que foi torturado e assassinado na prisão, em 1975 durante o regime militar brasileiro, com os depoimentos e memória das pessoas que conviveram com ele.


O Seminário de Grupos de Pesquisa sobre Crianças e Infâncias (GRUPECI) & muito mais na Agenda aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, fotógrafa, gravurista e xilogravurista Vera Chaves Barcellos.
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As muitas e tantas de Alagoinhanduba aqui, aqui & aqui.
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Ela acolheu meu desterro, a literatura de Vidiadhar Naipaul, a música de Keith Jarret, Sueli Costa, Eumir Deodato & Rita Lee, a arte de Ewa Ludwiczak & Luciah Lopez aqui.
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O amanhã de ontem pra hoje, a literatura de Guimarães Rosa, o cinema de Krzysztof Kieslowski, a arte de Tarsila do Amaral & a música de Marcus Viana aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...