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domingo, junho 14, 2026

FRANÇOIS JULLIEN, EILEEN CHONG, STARHAWK & GUEL ARRAES

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Glamorous Life (2017), Very Special (2017), Tea Times (2016), Self Portrait (1997) e Cruisin' (1993), da pianista japonesa Junko Onishi.

 


O sacrifício da heroína & as façanhas acanhadas do mancebo... - Aperturam libra: Zeca Biu já contava com seus 17 castos anos e a mãe dele, dona Adélia, desde que vencida a puerícia dele, se corroía há tempos por preocupações: o alistamento militar e cadê a namoradinha dele? Toda mãe é sagrada, há de se perdoar até as ideias extravagantes dela: Será? O filho até então não se servia pro metier, ou se passasse a desmunhecar e, o pior: a zooerastia, valei-me, afora o risco da peste no pipocar dos furúnculos. Em confidências hesitantes e sucessivas com a Viscondessa, a constatação do pânico: Puxou ao pai? Talqualzinho. O mal-estar angustiante: careciam de providências urgentíssimas. Idas e vindas. Ele lá alheio a tudo: inepto donzelo Príapo, no vice-versa da escola pro oitão da bicharada: seu meio de ganho com estimado gosto, cada dia o seu pão e sequer um sinalzinho dum pé de gente por amizade. Nem se incomodava mais com o desplante dos vizinhos furiosos com o fedor do criatório. A genitora partiu pra cima da vocação hereditária, traquejo da vida, que seja: ou vai ou racha! Inventava todo dia um folguedo pra reunir as amigas e suas filhas, esperançosa de que dali uma que fosse caísse nas graças dele. E inventava pândegas de Príncipe Encantado, levada pela festa do boi do Barão, tudo para destabocar a curiosidade das convidadas, resultando, ao final de cada festejo, num desfile amuado de Zeca Biu, todo sem jeito, só pra que todas vissem a filiação de um bom partido. Não dava cloro. Apelou pro anjo da guarda deles, fez careta com as omissões, a cada batida do coração uma vontade escapulia e quase tudo se perdia, de não desperdiçar outra vez, uma chance, a única, descartada? Nunca. Desenganava: Ele que bote suas astúcias pra fora, lavo as mãos não. O pubescente parecia já ter tirado a catinga do mijo e de tão tabacudo nem aí. Ela fez finca-pé: recorreu à inarredável Viscondessa e lá, na sepultura dela, ajoelhava-se de rezar e orar por horas, pedia permissão e rogava um sinal de seu consentimento. Na hora: uma nuvem larga escureceu e caiu o maior pé d’água, logo o Sol raiou: casamento da raposa. Era o que precisava, saiu efusiva pronta pra deixar tudo nos conformes, louvando seus rogos pro Santoínho. Dissimulada lá e cá, dissuadia: Cadê a paquera? Ele gaguejava retraído, desconversava, tudo vez nada: quão e tão sombra sem voga, pernas e braços cruzados, todo encabulado quanto ao assunto, constrangia-se a qualquer insinuação. Ô meu filho, tá na hora de pensar em casar, num tá não? Casar? Ora, se. O mancebo alesado: Quem? Um espirro, só na babaquice de queijudo. Ô homem sem jeito! Sujeito retraído, abria e fechava os olhos; levantou-se e foi até longe no alto do morro e confidenciou sua indignação: Casar? Foi pra casa dormir que já era breu pra madrugar. Aí ele sonhou com uma cigana jeitosa: Qual a sua missão? Despertou agoniado sem entender patavina. Eis que amanhecera e distraído no quintal, apareceu do nada Dorcelimesia, a Dodô, também afeiçoada a bicho. Ela trouxe pela coleira um gambá de estimação – tipo rato-do-mato. Ele receptivo: Também gosto de cassaco, saruê, mucura, timbu, sariguê, tenho desses não no meu zoo, só uma ticaca perdida por aí. Quer? Pra você eu dou. É macho? Sei lá. Deixe ver: agora temos um casal. E riram-se. É que a mãe dela ralhava: Quero isso aqui não, rouba ovos de galinha. Oxe! E se riam da leseira dela. Assim se viam manhãs, tardes e noites, até foram juntos prum concurso e todo mundo fugiu. Ué! Quem aguentaria a bufa dum da orelha-preta? Nisso a felizarda genetriz benzeu-se, foi ver de perto e um tênue alívio repousara no seu coração: estava ali, naquela menina, a sua redenção. Aproveitou-se achegando-se: aguava o pagode ensinando as manhas pra moça e tudo fez força preles se estreitarem: No dia dos namorados, Almofadinha e Melindrosa, brincava. A menina gostou tanto, da viúva sogra, dela correr antecipada pros pais da afeiçoada: Vamos ajeitar o casório! Como? Está mais do que na hora de juntar os dois pombinhos. E virava os olhos sonhando com epitalâmios no ritual do matrimônio e bruguelos saltando pelo himeneu: Vovó! Voltou pra casa e contou logo pra sua agora suposta nora: Pronto, agora vão brincar no quintal com a Paz de Deus. Oxe! Os dois subiam e desciam pelas árvores, buliam com a bicharada, pulavam muro, escorregavam no pó-de-serra, atravessavam o brejo, viravam cambota, bundacanasca. A cunhã viçava, mais atirada, taluda, destemida, determinada, o instinto materno adotivo; ele tão medroso na estase franzina da ingenuidade, achava dela uma coisa tão chochinha, vixe! Passava. E se empolgaram tanto dele contar um segredo. Havia do que se falar: juntando montes e esburacados, deu numa panela cheia, dinheirama. Mesmo? Uma botija por achado, segredou. E aí? Fez pelos avessos: dividiu em caçarolas menores para semear em pequenas covinhas esparsas pela imensidão. Tais rico, então? Só eu e você, chiiiii. Daí ele pegava o chilreio da passarada para guardá-lo atrevido no bolso da blusinha dela: Pra você, todos! Ela sorria dourada quase tarde ensolarada. E roubavam algodão doce das nuvens baixinhas ao alcance das mãos, botando os pedaços um na boca do outro. Se sentiam como na epopeia do camelo & a zebra, era a amizade deles nascendo escondido, tímida, clandestina, embaixo de 7 capas. Não despregava as vistas da titela dela que cochichava cócegas às suas ouças; o riso, respiração profunda. Trocavam azuis por rosas, roxos por amarelos, verdes por vermelhos. Ela gostava de ver o bando dos bichos, até da criatura com o dobro de braços e pernas. Quem? Oxe, apareceu agora. Deu fé até dum ET. Danou-se tudo! Aí ardiloso pras bandas dela: Vê aquele negócio ali! Ela foi, arreou-se conferente e ele, inadvertidamente, viu-lhe o cofrinho robusto no lance da calcinha. Caiu a ficha, zarolho, empertigado: Fazer o quê, meu Deus? Um inadvertido prurido ventral emergiu com a brejeirice dela sem empecilhos, descobria a polução involuntária, aprendia a função onanista. O zerola lambia os beiços, súbito fugitivo. Dodô virou-se: Cadê-lo. Sumira. Caçou-lo pela redondeza e pegou-lo acuado ensandecido numa touceira escondida. Cobra? Foi ajudá-lo e pegou dum jeito que ele sentiu o efeito na hora: maior meladeiro. O que foi isso? Titubeou desajeitado, mas e nãos e sins. Não é venenosa não, né? Não era. Ela apurou direito dos olhos quase pularem fora: Você tem três pernas ou isso é um aleijão? Tartamudeava lívido, acabrunhado. Deixe ver direito? Um abismo. Não! Ele fugou aos desembestos. Ela no encalço. Cansados da correria, se agacharam esbaforidos à sombra do cajueiro. Tomavam fôlego. Cabeça baixa, olhos fechados, ele não sabia o que dizer, língua enrolada, juízo deu nó. Quando ela olhou pra ele ali acocorado, arregalou-se com o bico da piroca pendurada, escapulindo coxa abaixo. Que bicho é esse? Hum? Não se mexa, vou pegar! E, como a maior de todas as heroínas, encarou destemida. Deu-se a lavação da jega, dele bater forte nos possuídos dela, uma peiada macha, de levá-lo à rebordosa: viciado, via-se logo famélico, olhos fundos, desapaziguado, só os ossos. Qualquer gesto dela e sacudia-se, deseganchado da toleima, atirava-se sobre os seus costados deles esquecerem o almoço depois do meio dia, a janta na boquinha da noite e assaltados pela surpresa de que já era tarde da noite, hora de cada um se recolher-se ao seu domicílio. Não era de reprimenda e apartavam-se meio que desastrados até bufarem sono pesado pela noite folgazã, cada qual na sua cama. No outro dia Zeca Biu, todo ancho, procurou Dodô. O canto mais limpo. Cadê-la? Os pais se mudaram. Pra onde? Quem sabe! O seu mundo pipocou esfarelado e, na mais espessa escuridão, piongos, mãe e filho, desconsoláveis: fazer o quê dali pra diante. Dias depois bateram à porta. Duas envelopes por baixo da porta. Inadvertida a mãe as apanhou: É pra você! Escolheu logo a da caligrafia dela estampada no bilhete: Vou fugir de casa praí! Ele alvoroçou-se todo. Contudo, conteve-se: os olhos maternos chorosos: Que foi? Entendeu-lhe o papel: era hora de servir a uma das forças armadas. Acta est fabula. Até mais ver.

 

Jürgen Habermas: Somente quem assume o controle da própria história de vida pode enxergar nela a realização de si mesmo. A responsabilidade de assumir o controle da própria biografia significa ter clareza sobre quem se quer ser... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Joyce Carol Oates: Somos todos regionalistas em nossas origens, por mais 'universais' que sejam nossos temas e personagens, e sem nossas queridas cidades natais e paisagens infantis para nos nutrir, seríamos como plantas colocadas em solo raso. Nossas almas devem criar raízes - quase literalmente... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Salman Rushdie: Sociedades livres... são sociedades em movimento, e com o movimento vêm a tensão, a dissidência, o atrito. Pessoas livres produzem faíscas, e essas faíscas são a melhor prova da existência da liberdade... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

BÚSSOLA

Imagem: Acervo ArtLAM.

EU - Minha mãe me colocou na água. \ Ela me deitou de costas. Algum instinto \ manteve meu pescoço rígido e minha cabeça erguida. \ A fotografia se perdeu. No álbum \ da minha mente, vejo o pânico nos meus punhos cerrados. \ Ainda sinto o frio da água ao meu redor.

II - Ele disse que iríamos jogar um jogo. \ Todos nós pulamos de susto. Ele segurou minha mão com força. \ No fundo, contamos. Bolhas \ prateadas subiram à superfície. Então, eu saí correndo. \ de ar. Eu não conseguia me soltar. Ao \ subir, ele me chutou. A água: tão pesada.

III - À tarde, eu tinha muita alegria \ em encher a pequena chaleira e levá-la \ para o meu avô na sala de estar. \ Ele colocava a chaleira na chapa quente e deixava \ a água ferver. Folhas de chá na chaleira. \ O aroma de bambu. A infusão amarga.

IV - Meu pai sempre dizia: onde há água, \ há chineses; onde há chineses, \ há hakka. Tenho cinco frases: \ comer, dormir, tomar banho, cagar, não entendo. \ Para contar os inhames: descascamos os inhames. \ Cozinhamos, amassamos, adicionamos farinha e amassamos \ até virar massa. As mulheres em fila, moldando \ as bolinhas com covinhas. Nunca entendi toda essa confusão. \ Óleo cobre meus lábios, meus dentes e minha língua.

V - Sinto muita falta da banheira. \ Nas manhãs de inverno, eu acordava e preparava \um banho quente. Um calor insuportável, escaldante. \ Vapor subindo da água. Sal dissolvendo-se \ instantaneamente. A imersão sublime — \ um retorno ao útero, ou a um caixão.

VI - Às três horas da manhã, \ minha avó resolveu esfregar \ o chão do banheiro. \ Ela escorregou, cortou a testa \ num cano e caiu de cara no chão. \ Sangue e dois olhos roxos. \ Essa mulher lutou a vida inteira. \ À noite, trava uma batalha consigo mesma. \ O suor encharca seus lençóis.

VII - Nunca soube que tinha um gosto doce. \ Como mel da rocha— \ Sermões monótonos ecoavam pelo meu teto \ enquanto eu lia o Cântico em silêncio. \ De cânticos, salmos e provérbios. \ Versículos como as marés. Meu primeiro \ Poema, o oceano da minha ruína.  \ No fundo: uma bússola de lata, \ sua agulha selvagem e inquisitiva.

Poema da poeta singapuriana Eileen Chong (Eileen Chong Pei Shan), radicada na Austrália e autora dos livros Burning Rice (2012), Peony (2014), Painting Red Orchids (2016) e Rainforest (2018).

 

CIDADE DE REFÚGIO - […] Que o vento carregue seu espírito suavemente, que o Fogo liberte sua alma, que a Água a purifique, que a Terra a acolha, que a Deusa a tome em seus braços e a guie para o renascimento. [...] Mesmo uma gota de felicidade poderia colorir um poço inteiro de miséria. [...] Trabalhamos muito, estávamos conseguindo nos manter — aí eles aumentaram as taxas de juros, ou fecharam as escolas, ou mudaram as leis... [...]. Trechos extraídos da obra City of Refuge: The Fifth Sacred Thing (Califia Press, 2016), da escritora e ecofeminista estadunidense Starhawk (Miriam Simos), que no seu livro The Earth Path: Grounding Your Spirit in the Rhythms of Nature (‎HarperCollins, 2004), ela expressou que: […] A energia se move em ciclos, círculos, espirais, vórtices, redemoinhos, pulsações, ondas e ritmos — raramente, ou nunca, em linhas retas simples. [...] Como tudo é interdependente, não existem causas e efeitos simples e isolados. Cada ação cria não apenas uma reação igual e oposta, mas uma teia de consequências que se propagam. [...] Uma relação real com a natureza é vital para o nosso desenvolvimento mágico e espiritual e para a nossa saúde psíquica e espiritual. É também uma base vital para qualquer trabalho que façamos para curar a Terra e transformar os sistemas sociais e políticos que a atacam diariamente. [...] Mas um quebra-vento também é um grande professor, para mim, sobre não-violência. Como respondemos a forças intensas — raiva, fúria, até mesmo ataques físicos — sem nos tornarmos violentos em resposta? Como reagimos a críticas bem-intencionadas, porém duras (sejam elas bem-intencionadas ou intencionalmente ofensivas)? Se nos tornarmos uma muralha, bloqueando as energias que nos atingem, podemos, na verdade, fortalecer a raiva da oposição. Por outro lado, se simplesmente ignorarmos ou rejeitarmos as críticas, a oposição pode expandir suas críticas para incluir nossas reações. Mas há uma terceira alternativa: se aprendermos com as árvores, podemos absorver e transformar a energia que nos atinge. Fazemos isso mantendo a calma, o equilíbrio e o centramento, ouvindo em vez de responder, balançando com o vento e deixando-o dissipar-se. [...] Não acredito que tudo em nossas vidas seja uma questão de escolha. Em círculos da Nova Era, ouço frequentemente pessoas dizerem: "Criamos nossa própria realidade". Essa é uma compreensão simplista e míope de como a realidade funciona. Não escolhemos todas as nossas circunstâncias, nem todas as nossas opções. Os pobres geralmente não escolhem morrer de fome, nem os oprimidos escolhem a opressão, e as vítimas da guerra não escolhem morrer. Mas podemos escolher como reagir às circunstâncias que nos são apresentadas. [...]. Ela também é autora de outros livros como Webs of Power: Notes from the Global Uprising (2002), Walking to Mercury (1997), The Pagan Book of Living and Dying: Practical Rituals, Prayers, Blessings, and Meditations on Crossing Over (1997), The Fifth Sacred Thing (1993), Truth or Dare: Encounters with Power, Authority, and Mystery – Creative Alternatives for Positive Change in Our Lives and World (1987), Dreaming the Dark : Magic, Sex, and Politics (1982) e The Spiral Dance: A Rebirth of the Ancient Religions of the Great Goddess (1979).

 

NÃO HÁ IDENTIDADE CULTURAL – […] tratar a diversidade das culturas em termos de diferença levará a querer isolá-las e fixá-las na sua identidade. [...]. Trecho extraído da obra No hay identidad cultural (Taurus, 2017), do filósofo francês François Jullien, que em sua outra obra The Silent Transformations (Seagull Books, 2009), ele expressa que: [...] O que resta, de fato? O que mais nos resta além da grama que cresce e das montanhas que se erodem, corpos que se tornam pesados e rostos que se emaciam, a vida que fecunda, ou se exaure, ou melhor, que, enquanto fecunda, já começa a se exaurir? E vagas expectativas que se cristalizam em paixão febril, ou então em encontros que se tornam menos frequentes. Ou cumplicidades amorosas que, sem serem confessadas, se transformam em relações de poder? Ou revoluções heroicas que (sem que possamos precisar quando) se transformam em privilégios do Partido? Ou então as feridas de ontem que são deslocadas, enterradas e condensadas, e então se transcrevem em representações criptografadas de sonhos – e obras que amadurecem em silêncio? [...]. No livro La china da que pensar (Anthropos, 2005), ele reflete que: [...] ao que foi aprendido, enquanto se continua aprendendo. [...], acrescentando noutra obra, The Propensity of Things: Toward a History of Efficacy in China (‎Zone Books, 1995), que: […] No estágio mais embrionário, a tendência à plenitude da atualização já está latente. [...]

 


O UNIVERSO DE MACHADO DE ASSIS - Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito... Pensamento do escritor Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis – 1839-1908). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE GUEL ARRAES

[...] Eu entrei em cinema no começo dos anos 70, bem por acaso. Na época, todo mundo fazia um pouco de Super-8, que corresponde ao vídeo de hoje em dia. Na Universidade de Paris VII, eu fazia um curso de antropologia e havia umas cadeiras de cinema. Como eu já fazia filme em Super-8, optei por cadeiras relacionadas a cinema, etnologia e etnofilmes. Foi quando comecei a ver os filmes de Jean Rouch e fiquei fascinado [...] Eu cheguei no Brasil em dezembro de 79. Cheguei no Rio em abril de 80 e seis meses depois eu estava na televisão, já na Globo, já em novela. Eu comecei como estagiário e uns seis meses depois comecei a dirigir. Minha ida para a Globo também foi por acaso. [...] O que eu faço no cinema é comédia maluca. Gosto do cinema burlesco, da comédia, da farsa mas nesse gênero de filme não se explora a paisagem, planos em contra-luz. Não dá tempo para se ter muitas panorâmicas, por exemplo. O cinema que eu faço não tem a pretensão de ser um cinema de arte. Não precisa ser julgado dentro dessa regras. Há eixos nos meus trabalhos e são eles que precisam ser analisados: há essa mistura de ficção e realidade, há o apelo à metalinguagem, o burlesco, por exemplo. [...] O Auto surgiu quando a gente já estava começando a cansar de novo da TV. [...] Na maioria das histórias, a gente teria que cortar muito para colocar tudo em um único episódio; não haveria como aproveitar mais cenas difíceis e caras de produzir, foi quando então a gente propôs o formato seriado, em capítulos. Foi o que fizemos com o Auto da Compadecida, Luna Cliente e, mais tarde, com Caramuru. [...] Com a transformação do Auto da Compadecida em filme, ficou bem claro que a leitura no cinema é mesmo outra, permite um grau de sofisticação maior. [...] Mas, para muita gente o Auto, no cinema, foi uma coisa inteiramente nova. Isso só mostra que, na televisão, às vezes, a gente “vê e não vê”. Se ficasse só na TV, teria sido só mais um excelente programa; no cinema, virou uma interpretação clássica de um clássico de Ariano Suassuna. No entanto, era a mesma coisa. O cinema cria uma outra relação. [...] Parecia ser possível então educar um público pra ver diferente: se o programa tem equilíbrio, desperta curiosidade, desperta interesse, o espectador começa a sentir que pra ver aquilo ele tem que prestar atenção, e ele começa a prestar atenção porque se ele virar, piscar, pode perder uma piada. Isso eu acho que, de alguma maneira, começou a acontecer com os programas que a gente fez [...].

Trechos recolhidos da entrevista Subvertendo as fórmulas, reiventando os formatos: entrevista com Guel Arraes (Galáxia, 2002), dos jornalistas Alexandre Figueirôa e Yvana Fechine, concedida pelo cineasta, roteirista e diretor Guel Arraes (Miguel Arraes de Alencar Filho), diretor de filmes como Doris para maiores (1991), A comédia da vida privada (1997), O auto da compadecida (2000), Caramuru – a invençãodo Brasil (2001), Lisbela e o prisioneiro (2003), O bem amado (2010), Grande sertão (2024) e Fábrica de sonhos (2024), entre outros. Veja mais aqui.

 

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quarta-feira, junho 09, 2021

LEWIS CARROLL, MARY LOU WILLIAMS, VIRGINIA LEAL & ESPELHO DANÇA.

 

 

TRIPTICO DQP – Do nada e outras... - Ao som do performático show de cabaré da lendária compositora, pianista e arranjadora estadunidense de jazz Mary Lou Williams (1910-1981), no Les Mouches em Nova York, 1978. - Ao deparar com o espelho: nem eu nem nada. Pelo menos, não tive que passar pela experiência de ter que dar de cara com um general obtuso, nem um ladrão sorrateiro, muito menos a morte inexorável. Graças! Ainda me pergunto como é que tudo isso foi acontecer justo comigo, logo comigo! Uma coisa estava certa: ou havia me tornado invisível de vez, ou seria um vampiro das costelas ocas. Só sendo. Essa a constatação. Até brinquei cantarolando: Espelho, espelho meu, afinal de contas, o que serei eu? Um delírio ou uma assombração, hehehehe. Vamos nessa. E ao chegar à sala, esta não era a minha: três vultos sentados num sofá que não era o meu. Fui ver quem. Ah, qual não foi a minha surpresa! O primeiro a se virar para mim foi Machado de Assis que logo me falou: A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito. Hem? O outro logo interveio, era Guimarães Rosa: Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo. Mal ele terminou de me dizer, logo apareceu Sacha Guitry que foi contando a história de um senhor que, ao sair às compras, virou-se da porta e perguntou à esposa o que ela queria que trouxesse: um pente. Este o pedido. No mercado, ele não se lembrava do pedido dela e adquiriu um espelho. Como ela nunca tinha visto aquilo, ao abri-lo, teve uma surpresa: pensou consigo que o marido havia comprado outra mulher. Com esta constatação, levou o objeto para mãe que também nunca tinha visto um troço daquele. Vôte! E ao fitá-lo, olhou, olhou, olhou, virou de ponta à cabeça, fez careta e... como mãe é mãe (né?): é sábia. Coisa mais sem pé nem juízo, ora. Como é? Bem, diante do trio fiquei sem saber o que fazer. O que sei é que aquela não era a minha sala de estar; era, soube por eles depois, a do deão do Christ Church College, que possuía um grande espelho sobre uma enorme chaminé. Teria eu, conforme as instruções que me foram dadas pelos visitantes, que subir o console da lareira, livrando-me dos vasos de flores secas protegidos por redomas vitorianas, e ao alcançá-lo, consequentemente, ultrapassá-lo para saber onde é que ia dar. Como é que pode uma coisa desta, hem? A minha longa jornada pelo espelho.

 


Dois sustos no imprevisível... - Ao atravessar o espelho, ele se dissolveu como uma bruma prateada. Estava diante de mim, ninguém mais nem menos que Lewis Carroll que, por recepção, foi logo me saudando amável e enigmaticamente: A única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível. Nem deu para notar direito a ponta de sarcasmo que havia no seu jeito e fui imediatamente acompanhado de uma admoestação para que eu não me espantasse, explicando que ali era a entrada para o país do Espelho (!?!), o qual, quando visto, torna-se impossível descrever o cenário com precisão. Hum? Sim, realmente, impossível ter qualquer noção em um lugar em que foram abolidos tanto o movimento no espaço como a passagem do tempo: a prova tangível da refutação do espaço de Zenão. Eita! Além do mais, ali o tempo de cada um é diferente do tempo de todos: o tempo tanto corre para frente, como para trás. Vôte! Endoidou tudo! Assim, eu podia parar o meu tempo à vontade, independente do tempo do outro e nenhum prejuízo para ninguém. Então o que eu vi e senti não deu para contar, apenas vi e senti sim, nada mais. Coisa de doido, né? Pois é.

 


Três solfejos e nenhuma canção... - Já tive oportunidade de aqui publicar poemas de Virginia Leal: a cada leitura de seus cometimentos poéticos, um prazer indescritível, uma emoção inenarrável: e isso muito me apetece. Tanto é que virei assíduo apreciador de suas postagens e, a cada uma delas, lá estou eu como devotado admirador. Prova disso é que aqui já publiquei de sua autoria o Lascivus – da série Nauta Libidinosos –, afora outros dos seus poemas. Até comecei a musicar um deles e, mal começava a descobrir canções em seus versos, logo outro aparecia e lá ia eu solfejando melodias intermináveis. Cheguei a selecionar uns dez ou doze poemas dela, já definindo a linha melódica para cada um deles e procurando superar minhas limitações musicais para alcançar a grandeza do que expressavam. Fiz, refiz, me enganchei, desenganchando e recomeçando, quem sabe, de repente, eu consiga fazer uma música à altura dos seus poemas, espero, vamos ver. Mas o que quero falar aqui não é a respeito dessas minhas tentativas recorrentes e sim de um conto dela que foi responsável pela potencialização da admiração: o A bailarina, a atriz e a canção, extraído da antologia Contos de oficina – Oficina de Criação Literária (Bagaço, 2004), organizada por Raimundo Carrero, do qual pinço o trecho: [...] O artista esculpiu a sensibilidade da menina, antes enredada pela teia do drama que a fez ameaça, ovelha negra, problema. A menina-atriz ressurgida resgatou as histórias perdidas. Agora, havia interessados em suas verdades. Descobriu que é possível fazer do trabalho diversão. Sentiu-se de volta aos brinquedos infantis, enquanto seu corpo febril descobria outros prazeres. O tempo a lapidar cumplicidade, compreensão. [...]. Pois bem, mesmo que minha teimosia em musicar seus poemas não vingue por minha completa incompetência de alcançar a grandeza de sua arte, pelo menos, vou tentando e mais me deliciando com sua maravilhosa expressão. Até mais ver.

 

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domingo, junho 06, 2021

COMTE-SPONVILLE, ELENI KARAINDROU, VASCO PRATOLINI, KIM KASHKASHIAN, CLÓVIS PEREIRA, TINA MARIA ELENA & RECIFE


  

TRIPTICO DQP – Um ladrão no espelho... - Ao som performático da violista e professora estadunidense Kim Kashkashian. - De novo, nada refletido. Acho mesmo que não mais existo, falta alguém me avisar, parece. Já saindo: Ei! Quem é você? Sou um ladrão. Pronto, essa é boa! Aí encarei: Por acaso você é Ahmed da Corporação dos Ladrões de Marrakesh saído dos insólitos de Raymond Bernard ou do racxasa do Panchatantra? Não. Então o que está fazendo no meu espelho, hem? E começou uma história bonita, cheia de subterfúgios contando a respeito dum caso lá d’O cocheiro, a mulher e o amante. Muita conversa para boi dormir, imagine. Fiz de ouvinte e lembro haver mencionado que vivia numa região de Klondike, perto do Estreito de Bering, era muito rico, possuía de tudo e que, se eu quisesse ir para lá, era só afanar, requestar, trapacear ou coisa que valha, submeter-se ao monsenhor Dassy de Tharn, e poderia desfrutar do que é controle total e o melhor da vida. Ora, ora. Conheço essa história, mas logo pra cima de mim? Sempre tive naquela do velho Machado de Assis: A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito; e ouvia no pé do ouvido desde menino, meu pai citar Catão: Os ladrões de bens particulares passam a vida na prisão e acorrentados; aqueles de bens públicos, nas riquezas e nas honrarias. E, vigente até hoje principalmente no Brasil, o que dizia Lao-Tsé: Quanto maior o número de leis, tanto maior o número de ladrões; e o impagável Marquês de Maricá sacramentando na boa: O roubo de milhões enobrece os ladrões. Afora a experiência de adolescente presenciar a prisão de um amigo de infância, Roberto Ladrão, hoje trabalhador numa casa lotérica e, ao que dizem, completamente regenerado, queria mais o quê? Pelo visto, nenhuma chance. Calma lá! Nenhum diálogo, pode cair fora do meu espelho. Eu vou roubar sua alma! Vôte! Tenho tudo, mas não tenho vida, preciso da sua alma para poder desfrutar de tudo que acumulei! Agora, deu! E veio pra cima de mim com o papo d’A arte de furtar e saiu sapecando O sermão do bom ladrão e tetei, borogodó, cacacá, pra lá e pra cá. Peraí, meu, vá arrumar uma boa lavagem de roupa que eu tenho mais o que fazer, viu? Não adianta, só vou quando conseguir. Então, fique aí ou vá ver se eu estou lá na esquina, que é melhor, tá? Tichausis. É cada uma que me aparece!

 


Dois baques e nenhuma saída, Terezinha... - Ao som do Concert in Istanbul (2012), da compositora grega Eleni Karaindrou, imagens da artista franco-dinamarquesa Tina Maria Elena – Da primeira vez, éramos estudantes do primário, ela na outra sala, qualquer fresta eu pregava o olhar nela e ao se dar conta da minha fixação ou virava de lado ou olhava pro céu. Assim foram os quatro anos naquela escola infantil, de lá saí pro ginásio de nunca mais vê-la. Da segunda vez, na esquina da faculdade, ela viúva de um amigo meu e eu sequer sabia, que coisa! Rolou um papo longo e, depois, um clima que se prolongou da sexta por todo final de semana. Parecia que ela queria se redimir da rejeição infantil, não sei. E foi só, desaparecera de sequer saber seu paradeiro depois de um tanto de buscas. Conversamos de tudo de nossas vivências, mas como sou desligado, não peguei seu telefone, nem sei onde trabalhava ou estudava, perdi. Estava naquela do André Comte-Sponville: Esperar um pouco menos, amar um pouco mais. É, quem sabe. Da terceira vez... Não houve, apenas uma carta como a d’Aquela moça do Vasco Pratolini, quase. Lembrei dela e levei flores, no coração o que foi de nós e nosso.

 


Três boatos e uma verdade: o Recife isolado do mundo. - Ao som de Três Peças Nordestinas, do compositor, arranjador, pianista e regente Clóvis Pereira, com a Orquestra da ULBRA, regência Tiago Flores. – A carta dela veio acompanhada de dois livros, três boatos e só uma verdade. O primeiro boato dava conta de que o mar ia engolir o Recife, maior torada de aço. Pense num papo chato, esse. O segundo era também de longas datas e de deixar os cabelos em pé: que a barragem de Tapacurá estava para se romper. Não tinha quem não dissesse: Vai ser um estrago da porra! Abri o livro e lá estava: Tapacurá: viagem ao planeta dos boatos (CEPE, 2015), do escritor e jornalista Homero Fonseca. Aí, o terceiro, foi verdade. E tanto que consta das páginas do Memorial da redação (FCCR/SJPEP, 1989), do jornalista Fernando Menezes, O dia em que o Recife ficou isolado do mundo: No começo dos anos 1960 [...] Um DC-7 da Panair, que regressava de Lisboa, o chamado “Voo da Amizade” cairia um pouco antes da pista. As primeiras notícias davam conta de mais de 60 mortos (na verdade foram 67), havia sobreviventes feridos em vários hospitais, sobretudo no Hospital da Aeronáutica [...] Assim foi naquele 1º de novembro de 1961, uma lição viva e aprendida, um episódio que o tempo apagou. Nele se confirmou uma regra clássica e a competência de dois grandes profissionais [...]. Folheei ambos os volumes e, cá comigo, passava na minha cabeça qual seria o meu delírio comunista e, confesso, meio embatucado com a papa que virou o exército brasileiro, se bem que desde menino nunca fui muito achegado às fardas policiais – passei a infância e a adolescência toda na repressão do golpe de 1964 -, sempre olhei de soslaio e com um bocado de antipatia. Isso só foi um tanto debelado das minhas chaturas, ao conhecer de perto alguns oficiais graduados nas faculdades, que me deram até lição de humanidade. Mas depois do golpe lavajatista e da jogada pro Coisonário, nossa, meu país virou uma bandeira rasgada no meio de um genocídio da pior melecagem, infelizmente. Até mais ver.

 

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terça-feira, abril 30, 2019

ERNESTO SÁBATO, MACHADO DE ASSIS, RENATO ORTIZ, NICOLINA VAZ DE ASSIS & MUCUNÃ


O PRESENTE DE MACHADO - Menino peralta duns oito ou nove anos, por aí, não dava sossego a ninguém tagarelando com meu amigo invisível e na amizade do maior converseiro com todo bicho e pés de plantas no quintal, ou da varanda pro jardim, qualquer brecha a ganhar o mundo e me esgueirando ladeiras acima na fuga pra casa de Pai Lula e Carma, ou, ainda, invadindo a biblioteca do meu pai para me aboletar sobre as coleções à cata das imagens de mulher nua, aos flagras, puxões de orelha e findar amarrado nas pernas de mesa da sala. Aos livros, de vera, era achegado mesmo, gostava. E foi por isso que no meu aniversário, meu pai chegou carregando uma caixa enorme nos braços. Ele me chamou e pediu para que eu adivinhasse o presente. Cá comigo, queria que fosse uma bicicleta e não era, ou um autorama, também não, ou uma coleção de super-herois, gibis, armas de brinquedo, coisa que valha e, evidentemente, pra minha contrariedade não era nada disso. Nada. Fomos pro sofá, mandou-me abrir e vi que era uma tuia de livros. Hum? Folheei um a um e, desapontado, disse: Mas painho não tem uma... ah, não poderia dizer, era segredo, senão estragava tudo e minha mãe viria com beliscões e outras reprimendas. Lição de reincidente, ora. Tive que tapiar na hora e fiz de conta que havia gostado e comecei a soletrar o nome: Machado de Assis (1839-1908). Quem é painho? Ah, vai gostar, tem muitas histórias. E tinha mesmo. Primeiro fui saber quem era, lendo a biografia: nasceu pobre e mesmo sem nunca ter ido à escola, ele escreveu em quase todos os gêneros literários, desde poesias, romances, crônicas, peças teatrais, tornando-se, inclusive, jornalista e crítico literário. Foi testemunha ocular da história, desde o movimento abolicionista, a passagem da monarquia para o republicanismo, além de todas as reviravoltas ocorridas entre o final do século XIX e o início do século XX, fatos que foram registrados em suas obras, ao todo 10 romances, 200 contos, 10 peças teatrais, 5 coletâneas de poemas e mais de 600 crônicas. Tudo isso na minha coleção de 31 volumes, uma edição da W. M. Jackson Inc, datada de 1938: no volume 1 – Ressurreição (1872), a história de Félix, Lívia, Raquel e Meneses. No volume 2 – A mão e a luva (1874), contando da relação de Guiomar com seus três pretendentes, findando a escolha dela por um deles, o Luis Alves. No volume 3 – Helena (1878), contando o acolhimento da jovem Helena pela família quando do falecimento do seu pai. No volume 4 – Yayá Garcia (1878), com a história engenhosa de Jorge e Estela, e ele vai à guerra do Paraguay, enquanto ela, orientada pela mãe dele, para se casar com outro. No volume 5 – Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), marcando o início do Realismo e compreendendo a autobiografia do protagonista que resolve escrever suas memórias depois de morto, a sua paixão pela prostituta Marcela, a claudicante e pobre Eugenia e a Virgilia roubada por Lobo Neves (Veja aqui e aqui). No volume 6 – Quincas Borba (1891), a história do professor Rubião e o filósofo Quincas, a paixão por Sofia, a mulher do sócio, o Humanitismo, a fortuna e o cachorro: “Aos vencedores, as batatas!”. No volume 7 – Dom Casmurro (1900), contando a história de Bentinho, o seminarista órfão, e a sua linda paixão Capitu. No volume 8 – Esaú e Jacó (1904), a história dos irmãos gêmeos briguentos Pedro e Paulo. No volume 9 – Memorial de Ayres (1908), a história do conselheiro Ayres e o amor de Tristão e Fidelia. No volume 10 – Contos fluminenses (vol. 1), com 7 contos, entre eles, Miss Dolar, A mulher de preto, Confissões de viúva moça, O segredo de Augusta, entre outros. No volume 11 – Contos fluminenses (Vol.2), com 14 contos publicados no Jornal das Famílias (1864-1878) e na Estação (1884-1891). No volume 12 – Histórias da meia noite, com 6 narrativas, entre elas A parasita azul, O relógio de ouro e Ponto de Vista. No volume 13 – Histórias Românticas, com 8 contos publicados do Jornal das Famílias (1864-1876). No volume 14 - Papeis Avulsos, com 12 contos, entre eles O Alienista (1882), a história de Simão Bacamarte, médido que reúne os loucos na Casa Verde, de Itagaraí; além de O empréstimo e O espelho. No volume 15 – Histórias sem data, com 18 contos, entre eles A igreja do diabo, Uma senhora e A segunda vida. No volume 16 – Várias histórias, com 16 narrativas entre elas A cartomante, A desejada das gentes, Adão e Eva, entre outras. No volume 17 – Páginas recolhidas (1889), com contos e duscursos pronunciados na Academia Brasileira de Letras. No volume 18 – Relíquias da casa velha (Vol.1) reunindo 21 contos. No volume 19 – Relíquias da casa velha (Vol.2) com 22 contos. No volume 20 – Chronica I (1859-1863), com crônicas publicadas no Diário do Rio de Janeiro, O Futuro, Semana Ilustrada, entre outros veículos (Veja aqui). No volume 21 – Chronica II (1859-1863), com crônicas publicadas no Diário do Rio de Janeiro (1859-1867) e Ao acaso & Cartas fluminenses. No volume 22 – Chronica III (1859-1888), com crônicas publicadas na Semana Literária (1871-1873) e Ilustração Brasileira (1876-1878). No volume 23 – Chronicas IV (1859-1888), com crônicas publicadas no O Cruceiro (1878) e Gazeta de Notícias (1884-1888). No volume 24 - A semana (1892-1897), 1º volume de crônicas. No volume 25 – A semana (1892-1897), 2º volume de crônicas. No volume 25 – A semana (1892-1900), 3º volume de crônicas. No volume 26 – A semana (1892-1900), 4º volume de crônicas. No volume 27 - Poesias completas (1870-1900), reunindo os livros Chrysalidas, Phalenas, Americanas, Ocidentaes e o Almada. No volume 28 – Theatro – reunindo as comédias Não consultes médico, O caminho da porta, O protocolo, Quase Ministro, além de folhetins, cartas e a fantasia dramática Desencantos. No volume 29 – Crítica literária (1858-1906), reunindo críticas e prefácios. No volume 30 – Crítica literária (1858-1906), 2º volume reunindo críticas e prefácios. No volume 31 – Correspondência, reunindo 25 cartas, entre elas a Quintino Bocaiuva, José de Alencar e Joaquim Nabuco. Era história que não acabava mais: 31 volumes. E quanto mais lia, mais gostava – apesar da grafia que não era do meu tempo de aprendizado, bem diferente e cheia de phs, ffs e coisas e tais. Confesso hoje que o presente foi melhor que tudo que desejei à época e que ainda hoje releio alguns volumes – embora dois deles já estejam bem deteriorados -, cuidando bem da obra desse grande escritor brasileiro que contribuiu e muito para minha formação. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] um executivo alemão foi mandado à China para projetar uma grande instalação industrial. Durante algumas semanas, devido ás exigências de sua profissão, ele se vê obrigado a viver uma experiência amarga. Não fala chinês, desconhece os costumes locais, ressente-se da falta dos automóveis, encontra-se na contingência de partilhar um modesto quarto de hotel com outro viajante qualquer. De retorno a Hong Kong, sua conexão para voltar à Europa, respira aliviado. A paisagem que o cerca é sua velha conhecida. Mas por que um alemão se “sente em sua casa” em Hong Kong? O que lhe é familiar neste lugar longínquo? [...] A China Popular, para nosso executivo alemão, é um “mundo” distante, inóspito. Em seu território, tudo lhes é estranho. Em contrapartida, Hong Kong representa algo próximo, um recanto povoado por coisas de sua vida prosaica (hotéis, padrão de refeição e de conforto, táxis, etc.). Envolvido por uma miríade de objetos-mobilias, ele sente-se à vontade neste mundo-mundo. Familiaridade que se realiza no anonimato de uma civilização que minou as raízes geográficas dos homens e das coisas. [...].
Trechos extraídos da obra Mundialização e cultura (Brasiliense, 1994), do sociólogo e antropólogo Renato Ortiz, refletindo sobre a condição de cidadão do mundo diante da mundialização da cultura e a inevitável reorientação das sociedades atuais. No primeiro capítulo, trata sobre Cultura e sociedade global, discutindo a distinção entre mundialização, internacionalização e globalização, cultura e sociedade mundializada; o segundo capítulo trata do advento de uma civilização, efetuando uma abordagem do séc. XV até a atualidade, tratando sobre a sobremodernidade e alta modernidade de Giddens; no terceiro capítulo trata sobre a cultura e modernidade-mundo, procurando o entendimento sobre o contato entre as civilizações, trabalhando conceitos de mapa cultural; no quarto capítulo, aborda sobre cultura internacional-popular, a desterritorialização e os não-lugares; o quinto capítulos aborda sobre os artífices mundiais de cultura, em que as pessoas são praticamente forçadas a perder toda a relação com as antigas culturas da nação, diferentemente dos seus antecessores pré-globais (as ditas antigas multinacionais), estabelecendo a cultura-mundo; no sexto, a legitimidade e estilos de vida são o foco da sociologia; no sétimo, a digressão final, elucidando os conceitos de tradição, o fim do Estado, entre outros assuntos.

MUCUNÃ
O documentário Mucunã (2019), direção e roteiro de Carol Correia, trata sobre a história das mulheres do Sítio Rodrigues, vilarejo situado próximo a cidade de Belo Jardim, agreste pernambucano, povoado em que todos descendem de uma índia, que ainda criança, foi capturada nas margens do Rio Ipojuca, levada para casa, “amançada” e obrigada a casar com seu algoz. Da indiazinha, as mulheres herdaram o exímio traquejo com o barro e através da sua arte subverteram a lógica devastadora do patriarcado se tornando provedoras do lar e revolucionando uma realidade de violência e miséria extrema. O filme foi vencedor do Prêmio Naíde Teodósio de Estudos de Gênero – Ano IX, na categoria Roteiro, promovido pela Secretaria da Mulher de Pernambuco, em 2016. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora Nicolina Vaz de Assis (1874-1941). 
Veja mais aqui & aqui.
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A OBRA DE ERNESTO SÁBATO
A história não é mecânica, porque os homens são livres para a transformar.
A obra do escritor e artista plástico argentino Ernesto Sábato (1911-2011) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, agosto 29, 2016

KAFKA, PERLS, MACHADO, CARMELA GROSS, DISCANTUS, LUBA LUKOVA, PAULO ITO & GUTTUSO

PAPO DE FABOS - Teve um cara aí que disse que o Senado é um hospício! Num sei quem foi, nunca vi mais gordo!Foi mesmo? Bingô. Acertou em cheio! Nada, errou feio. Oxe, errou? Errou, porque pra mim não é um hospício, o Congresso todo é um pandemônio no sentido grego da palavra! Grego? Sim: uma concentração de demônios! Vôte! E num é não? Pra mim é a representação do povo! E o povo o que é? O povo é todo mundo! Nada, tudo uns analfabetos, não sabem votar, tudo uns brucutus! E, por acaso, você não faz parte desse povo? Eu não, sou letrado e não me misturo, tenho consciência e se eu estivesse no poder eu daria um jeito no Brasil! Como e que jeito? Oxe, eu sei como fazer, botava tudo na reta! Como, quem seria seus ministros? Ué, minha família! Comigo é assim: pros meus tudo, pros inimigos o paredão! Eita, isso é nepotismo! E tem melhor que minha família e os meus amigos? Danou-se! Danou-se, nada! Sei escolher os amigos e tenho a melhor e a mais honesta família do mundo! E o resto do povo? E eu sei!?! O povo que se dane, eu resolvendo o meu, o resto que se fôda! Comigo é assim: conversa de broco, ouvidos moucos, meu! Eu sei como dá jeito no Brasil! Ah, tá! Quer dizer que os bons estão com você, o resto não presta! Claro, ora, vê se eu elegi algum desses picaretas! E você votou em quem? Votei em branco, não tenho responsabiliade nenhuma sobre a merdaria que grassa agora! Hum, pra você isso é o certo? Todo dia de eleição, faço a minha parte: comprovo e vou lá, voto em nenhum. A culpa é dos outros que não sabem votar! Ah, isso lhe exime de qualquer responsabilidade, né? É, não faço parte dessa mundiça que não sabe votar! Que coisa!?! Sou feito os gringos do primeiro mundo, sei como fazer, por isso que o Brasil não presta, com um povo desse que nem é gente, um bando de preguiçoso e burro! Destá! E você acha que está certíssimo, né? Mas mudando de conversa, vamos deixar esse povo pra lá, tudo uns imprestáveis. Na verdade preciso de um favor seu! Quando levo nisso? Ué, você é dos meus! Sou cristão: é dando que se recebe! Preciso de um favor! Vamos lá, diga o que é e quanto vai cair de ôia na minha algibeira! Não seja mercenário! Pra mim é assim: santo que não me ajuda pode cair da parede! Ah, assim não dá! Comigo não tem venha nós, o vosso reino, mostre logo dindim preu me animar e comprar a sua briga! Amigo é pra ajudar na lição de Jesus! Ah, não sou igreja pra obrar caridade, amigo é pra acudir o outro, comeu, lavou, deixa pra lá; se gostou, vai de novo até abusar e jogar fora! Moral da história: dito pelo não dito, ficou que o Congresso e todos os poderes da Nação são um pandemônio e o Brasil todo é um hospício, eles não. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Curtindo o álbum Hortus Deliciarum (Opus 111 - Hymnaire de Pairis Anonymous, Naïve/1998-2003), do octeto de vozes femininas Discantus, dirigido por Brigitte Lesne com composições da mística monja beneditina, compositora, poeta e dramaturga alemã Hildegard de Bingen (1098-1179), a Sibila do Reno.

PESQUISA: 
Preciso escrever sobre mim mesmo. Eu sou meu laboratório. A privacidade das suas experiências não é minha conhecida, exceto por revelações. Não há ponte entre homem e homem. [...] Eu adivinho e imagino, empatizo e sei lá que mais. Pois estranhos somos, e estranhos ficamos, exceto algumas identidades em que eu e você nos juntamos. Ou melhor ainda, onde você me toca e eu toco você, quando a estranheza se faz familiar. Venha, faça os discursos que quiser. Você fala de si, e não do mundo. Pois há espelhos no lugar da luz e do brilho das janelas. Você vê a si mesmo, e não a nós. Só projeções, livre-se delas. Self mais pobre, recupere aquilo que é apenas seu, torne-se essa projeção, entre nela bem a fundo. O papel dos outros é o seu. Venha, recupere e cresça mais. Assimile o que você negou. Se você odeia algo que existe, isso é você, embora seja triste. Pois você é eu e eu sou você, você odeia em si mesmo, aquilo que você despreza. Você odeia a si mesmo e pensa que odeia a mim. Projeções são a pior coisa. Acabam com você, o deixam cego transformam montinhos em montanhas para justificar seu preconceito. Recupere os sentidos. Veja claro. Observe aquilo que é real, E não aquilo que você pensa.
Trecho extraído da obra Escarafunchando Fritz: dentro e fora da lata de lixo (Summus, 1979), do psicólogo, psicoterapeuta e psiquiatra alemão Friederich Perls (1893-1970). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
A imagem do lar emergia continuamente e as lembranças dele o preenchiam. Também lá erguia-se na praça principal uma igreja, cercada em parte por um velho cemitério e este por um muro alto. Só alguns poucos meninos tinham escalado aquele muro, K. também não o havia conseguido. Não era curiosidade o que os movia, o cemitério não tinha mais nenhum segredo para eles, já haviam entrado várias vezes pela pequena porta gradeada, o que queriam era somente conquistar o muro alto e liso. Uma tarde — a praça quieta e vazia estava inundada de luz; quando K. a vira assim, antes ou depois? — ele o conseguiu de uma maneira surpreendentemente fácil; num lugar onde já fora vencido com frequência, ele escalou o muro na primeira tentativa, com uma pequena bandeira entre os dentes. O cascalho ainda rolava debaixo dele quando já estava em cima. Fincou a bandeira, o vento esticou o tecido, ele olhou para baixo e à sua volta, pelo alto dos ombros, em direção à cruz que afundava na terra, ninguém agora era maiordo que ele ali. Por acaso então passou o professor, forçou-o a descer com um olhar irado, na descida K. feriu o joelho, só chegou em casa com esforço, mas ele tinha estado com certeza em cima do muro, o sentimento dessa vitória parecia-lhe na época o suporte para uma longa vida, o que não fora completamente tolo, pois agora, tantos anos depois, vinha ajudá-lo na noite de neve no braço de Barnabás. [...].
Trecho da obra O castelo (Companhia das Letras, 2000), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Pelo que respeita especialmente à patifaria Panamá [...] Não faltam réus na porcaria Panamá, sejam eles castigados, como merecem. [...] Quando um homem tem a glória de Suez e perpetuo renome, é triste vê-lo metido com papeluchos falsos. [...].
Trecho da crônica de 12 de dezembro de 1892 (M. Jackson Inc, 1938), escrita pelo escritor Machado de Assis (1839-1908). Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA; 
A arte da pintora, escultora, artista visual, desenhista, gravadora, professora e artista multimídia Carmela Gross. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre Nascente Poético, Goethe, Martin Heidegger, Victor Assis Brasil, Tônia Carrero, Peter Weir, Man Ray, Giorgio Vasari & Swazi África aqui.

E mais: Edu Lobo, John Locke, Fagundes Varela, David Plante, Jiří Růžek, Oscar Pereira da Silva, Alessandra Negrini, Ana Carolina Lima, A esposa sábia & o Lítero Cultural – Selmo Vasconcellos aqui.

DESTAQUE
A arte do artista de rua Paulo Ito.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor italiano Renato Guttuso (1911-1987).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Injustiça, da designer e artista visual búlgara Luba Lukova.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...