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terça-feira, abril 30, 2019

ERNESTO SÁBATO, MACHADO DE ASSIS, RENATO ORTIZ, NICOLINA VAZ DE ASSIS & MUCUNÃ


O PRESENTE DE MACHADO - Menino peralta duns oito ou nove anos, por aí, não dava sossego a ninguém tagarelando com meu amigo invisível e na amizade do maior converseiro com todo bicho e pés de plantas no quintal, ou da varanda pro jardim, qualquer brecha a ganhar o mundo e me esgueirando ladeiras acima na fuga pra casa de Pai Lula e Carma, ou, ainda, invadindo a biblioteca do meu pai para me aboletar sobre as coleções à cata das imagens de mulher nua, aos flagras, puxões de orelha e findar amarrado nas pernas de mesa da sala. Aos livros, de vera, era achegado mesmo, gostava. E foi por isso que no meu aniversário, meu pai chegou carregando uma caixa enorme nos braços. Ele me chamou e pediu para que eu adivinhasse o presente. Cá comigo, queria que fosse uma bicicleta e não era, ou um autorama, também não, ou uma coleção de super-herois, gibis, armas de brinquedo, coisa que valha e, evidentemente, pra minha contrariedade não era nada disso. Nada. Fomos pro sofá, mandou-me abrir e vi que era uma tuia de livros. Hum? Folheei um a um e, desapontado, disse: Mas painho não tem uma... ah, não poderia dizer, era segredo, senão estragava tudo e minha mãe viria com beliscões e outras reprimendas. Lição de reincidente, ora. Tive que tapiar na hora e fiz de conta que havia gostado e comecei a soletrar o nome: Machado de Assis (1839-1908). Quem é painho? Ah, vai gostar, tem muitas histórias. E tinha mesmo. Primeiro fui saber quem era, lendo a biografia: nasceu pobre e mesmo sem nunca ter ido à escola, ele escreveu em quase todos os gêneros literários, desde poesias, romances, crônicas, peças teatrais, tornando-se, inclusive, jornalista e crítico literário. Foi testemunha ocular da história, desde o movimento abolicionista, a passagem da monarquia para o republicanismo, além de todas as reviravoltas ocorridas entre o final do século XIX e o início do século XX, fatos que foram registrados em suas obras, ao todo 10 romances, 200 contos, 10 peças teatrais, 5 coletâneas de poemas e mais de 600 crônicas. Tudo isso na minha coleção de 31 volumes, uma edição da W. M. Jackson Inc, datada de 1938: no volume 1 – Ressurreição (1872), a história de Félix, Lívia, Raquel e Meneses. No volume 2 – A mão e a luva (1874), contando da relação de Guiomar com seus três pretendentes, findando a escolha dela por um deles, o Luis Alves. No volume 3 – Helena (1878), contando o acolhimento da jovem Helena pela família quando do falecimento do seu pai. No volume 4 – Yayá Garcia (1878), com a história engenhosa de Jorge e Estela, e ele vai à guerra do Paraguay, enquanto ela, orientada pela mãe dele, para se casar com outro. No volume 5 – Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), marcando o início do Realismo e compreendendo a autobiografia do protagonista que resolve escrever suas memórias depois de morto, a sua paixão pela prostituta Marcela, a claudicante e pobre Eugenia e a Virgilia roubada por Lobo Neves (Veja aqui e aqui). No volume 6 – Quincas Borba (1891), a história do professor Rubião e o filósofo Quincas, a paixão por Sofia, a mulher do sócio, o Humanitismo, a fortuna e o cachorro: “Aos vencedores, as batatas!”. No volume 7 – Dom Casmurro (1900), contando a história de Bentinho, o seminarista órfão, e a sua linda paixão Capitu. No volume 8 – Esaú e Jacó (1904), a história dos irmãos gêmeos briguentos Pedro e Paulo. No volume 9 – Memorial de Ayres (1908), a história do conselheiro Ayres e o amor de Tristão e Fidelia. No volume 10 – Contos fluminenses (vol. 1), com 7 contos, entre eles, Miss Dolar, A mulher de preto, Confissões de viúva moça, O segredo de Augusta, entre outros. No volume 11 – Contos fluminenses (Vol.2), com 14 contos publicados no Jornal das Famílias (1864-1878) e na Estação (1884-1891). No volume 12 – Histórias da meia noite, com 6 narrativas, entre elas A parasita azul, O relógio de ouro e Ponto de Vista. No volume 13 – Histórias Românticas, com 8 contos publicados do Jornal das Famílias (1864-1876). No volume 14 - Papeis Avulsos, com 12 contos, entre eles O Alienista (1882), a história de Simão Bacamarte, médido que reúne os loucos na Casa Verde, de Itagaraí; além de O empréstimo e O espelho. No volume 15 – Histórias sem data, com 18 contos, entre eles A igreja do diabo, Uma senhora e A segunda vida. No volume 16 – Várias histórias, com 16 narrativas entre elas A cartomante, A desejada das gentes, Adão e Eva, entre outras. No volume 17 – Páginas recolhidas (1889), com contos e duscursos pronunciados na Academia Brasileira de Letras. No volume 18 – Relíquias da casa velha (Vol.1) reunindo 21 contos. No volume 19 – Relíquias da casa velha (Vol.2) com 22 contos. No volume 20 – Chronica I (1859-1863), com crônicas publicadas no Diário do Rio de Janeiro, O Futuro, Semana Ilustrada, entre outros veículos (Veja aqui). No volume 21 – Chronica II (1859-1863), com crônicas publicadas no Diário do Rio de Janeiro (1859-1867) e Ao acaso & Cartas fluminenses. No volume 22 – Chronica III (1859-1888), com crônicas publicadas na Semana Literária (1871-1873) e Ilustração Brasileira (1876-1878). No volume 23 – Chronicas IV (1859-1888), com crônicas publicadas no O Cruceiro (1878) e Gazeta de Notícias (1884-1888). No volume 24 - A semana (1892-1897), 1º volume de crônicas. No volume 25 – A semana (1892-1897), 2º volume de crônicas. No volume 25 – A semana (1892-1900), 3º volume de crônicas. No volume 26 – A semana (1892-1900), 4º volume de crônicas. No volume 27 - Poesias completas (1870-1900), reunindo os livros Chrysalidas, Phalenas, Americanas, Ocidentaes e o Almada. No volume 28 – Theatro – reunindo as comédias Não consultes médico, O caminho da porta, O protocolo, Quase Ministro, além de folhetins, cartas e a fantasia dramática Desencantos. No volume 29 – Crítica literária (1858-1906), reunindo críticas e prefácios. No volume 30 – Crítica literária (1858-1906), 2º volume reunindo críticas e prefácios. No volume 31 – Correspondência, reunindo 25 cartas, entre elas a Quintino Bocaiuva, José de Alencar e Joaquim Nabuco. Era história que não acabava mais: 31 volumes. E quanto mais lia, mais gostava – apesar da grafia que não era do meu tempo de aprendizado, bem diferente e cheia de phs, ffs e coisas e tais. Confesso hoje que o presente foi melhor que tudo que desejei à época e que ainda hoje releio alguns volumes – embora dois deles já estejam bem deteriorados -, cuidando bem da obra desse grande escritor brasileiro que contribuiu e muito para minha formação. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] um executivo alemão foi mandado à China para projetar uma grande instalação industrial. Durante algumas semanas, devido ás exigências de sua profissão, ele se vê obrigado a viver uma experiência amarga. Não fala chinês, desconhece os costumes locais, ressente-se da falta dos automóveis, encontra-se na contingência de partilhar um modesto quarto de hotel com outro viajante qualquer. De retorno a Hong Kong, sua conexão para voltar à Europa, respira aliviado. A paisagem que o cerca é sua velha conhecida. Mas por que um alemão se “sente em sua casa” em Hong Kong? O que lhe é familiar neste lugar longínquo? [...] A China Popular, para nosso executivo alemão, é um “mundo” distante, inóspito. Em seu território, tudo lhes é estranho. Em contrapartida, Hong Kong representa algo próximo, um recanto povoado por coisas de sua vida prosaica (hotéis, padrão de refeição e de conforto, táxis, etc.). Envolvido por uma miríade de objetos-mobilias, ele sente-se à vontade neste mundo-mundo. Familiaridade que se realiza no anonimato de uma civilização que minou as raízes geográficas dos homens e das coisas. [...].
Trechos extraídos da obra Mundialização e cultura (Brasiliense, 1994), do sociólogo e antropólogo Renato Ortiz, refletindo sobre a condição de cidadão do mundo diante da mundialização da cultura e a inevitável reorientação das sociedades atuais. No primeiro capítulo, trata sobre Cultura e sociedade global, discutindo a distinção entre mundialização, internacionalização e globalização, cultura e sociedade mundializada; o segundo capítulo trata do advento de uma civilização, efetuando uma abordagem do séc. XV até a atualidade, tratando sobre a sobremodernidade e alta modernidade de Giddens; no terceiro capítulo trata sobre a cultura e modernidade-mundo, procurando o entendimento sobre o contato entre as civilizações, trabalhando conceitos de mapa cultural; no quarto capítulo, aborda sobre cultura internacional-popular, a desterritorialização e os não-lugares; o quinto capítulos aborda sobre os artífices mundiais de cultura, em que as pessoas são praticamente forçadas a perder toda a relação com as antigas culturas da nação, diferentemente dos seus antecessores pré-globais (as ditas antigas multinacionais), estabelecendo a cultura-mundo; no sexto, a legitimidade e estilos de vida são o foco da sociologia; no sétimo, a digressão final, elucidando os conceitos de tradição, o fim do Estado, entre outros assuntos.

MUCUNÃ
O documentário Mucunã (2019), direção e roteiro de Carol Correia, trata sobre a história das mulheres do Sítio Rodrigues, vilarejo situado próximo a cidade de Belo Jardim, agreste pernambucano, povoado em que todos descendem de uma índia, que ainda criança, foi capturada nas margens do Rio Ipojuca, levada para casa, “amançada” e obrigada a casar com seu algoz. Da indiazinha, as mulheres herdaram o exímio traquejo com o barro e através da sua arte subverteram a lógica devastadora do patriarcado se tornando provedoras do lar e revolucionando uma realidade de violência e miséria extrema. O filme foi vencedor do Prêmio Naíde Teodósio de Estudos de Gênero – Ano IX, na categoria Roteiro, promovido pela Secretaria da Mulher de Pernambuco, em 2016. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora Nicolina Vaz de Assis (1874-1941). 
Veja mais aquiaqui.
&
A OBRA DE ERNESTO SÁBATO
A história não é mecânica, porque os homens são livres para a transformar.
A obra do escritor e artista plástico argentino Ernesto Sábato (1911-2011) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, outubro 23, 2017

ERNESTO SÁBATO, EDWIGES DE SÁ PEREIRA, MARIA FIRMINA DOS REIS, ADMAURO, LUCIAH, FENELON & PNTANDO NA PRAÇA

PINTANDO NA PRAÇA - Manhã ensolarada de sábado, nuvens em trânsito e chuva passageira para amainar o calor, olhares dispersos, muita conversa, afagos, afetos, telas, sons e solidariedade. Gente de muito tempo aos abraços e apertos de mãos se perdia entre esboços de mãos inquietas na imageninação dos cavaletes. Gente da mais profunda estima, parceiros, amigos, irmãos que são e outros que se achegam entte coqueiros, bancos, flores de outubro, transeuntes que não sei. Gente que nunca vi por ali entre livros de Hermilo, de Ascenso, de outros palmarenses de ontem e de hoje: livros da Biblioteca que é minha e de todos. A praça estava em festa, trânsito de idas e vindas. Ali acontecia o mundo margeado pelo comércio alheio, passos incertos por direções opostas, passando, chegando e indo embora. Gente que ia e vinha, algumas interrogativas com toda movimentação: que droga é nove? Gente curiosa que queria saber o que era aquilo, ugnorando as doidices estranhas de outros doidos que vão além de ver e passar, comprar e vender. Gente do passado ressuscitada, gente que sequer poderia ser gente, gente que veio doutras cidades e até de longe para bulir lindamente no coração, mas gente, muita gente. No anfietatro eu me esgoelava no palco cantando das coisas coração: Pirangi, Martelada, Nina do Ripe, Severina de Acioly, Nunca chore por mim e Desejo. Saudava quem chegava, assistia a tudo, a arte, na verdade, estava da outro lado, bem na minha frente: a arte na plateia. Pincéis, lápis, tintas, espátulas, riscos, brebotes, garatujas, cores, contemplação, paisagens, inspiração, estalos, transpiração. O Sol dava o tom do que fervia na cabeça de pintores, desenhistas, faz de conta e tudo o mais. Linaldo fez festa com um jeito todo seu de cantar e tocar. Depois chamou Marquinhos e fizeram um duo no mormaço da manhã. O que antes indecifrável nos rascunhos das telas, agora tomava corpo: dava pra se ter ideia o que queria dizer cada um dos artistas na moldura da vida. Zé Ripe deu show com coro da plateia e aplausos muitos: coisas da terra e de poesia que nem devia mais sair mais do palco. Pintou-se o sete e o escambau por toda a manhã pra mais de meio dia, coisas e ideais: a vida pintou na praça e a gente passou a viver mais. Parabéns Paulo Profeta. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Vital Farias: Sagas brasileiras, Taperoá & solo; da pianista Magda Tagliaferro (1893-1986): Rosa Amarela, Saudade das selvas brasileiras & Impressões seresteiras, todas de Heitor Villa-Lobos; do pianista Rogerio Tutti: Sonata ao luar do sertão, Deep in your soul & Libertango de Astor Piazzolla; da cantora Mônica Salmaso: Voadeira, Iaiá & Noites de gala, samba na rua. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] romance é algo mais que uma sucessão de aventuras: é o testeminho trágico de um artista diante do qual ruiiram os valores seguros de uma comundiade sagrada. [...] pavoroso processo de desmistificação do mundo [...] Os homens escrevem ficções porque estão encarnados, porque são imperfeitos. Um Deus não escreve romances. Trechos extraídos da obra O escritor e seus fantasmas (Companhia das Letras, 2003), do escritor e artista plástico argentino Ernesto Sábato (1911-2011). Veja mais aqui e aqui.
 Poema do dramaturgo, advogado, professor e poeta palmarense Fenelon Barreto, em placa na Praça Paulo Paranhos – Palmares - PE. Veja mais aqui e aqui.

DE SENTIR & VIVER - [...] – Que ventura! = então disse ele, erguendo as mãos ao céu – que ventura podê-lo salvar! O homem que assim falava era um pobre rapaz, que ao muito parecia contar vinte e cinco anos,e que na franca expressão de sua fisionomia, deixava adivinhar toda a nobreza de um coração bem formado. O sangue africano refervia-lhe nas veias; o mísero ligava-se à odiosa cadeia da escravidão; e embalde o sangue ardente que herdara de seus pais, e que o nosso clima e a servidão não puderam resfriar, embalde – dissemos – se revoltava; porque se lhe erguia como barreira – o poder do forte contra o fraco!... Ele entanto resignava-se; e se uma lágrima desesperação lhe arrancava, escondia-a no fundo de sua miséria. [...]. Trecho extraído da obra Úrsula (Presença/INL, 1988), da escritora Maria Firmina dos Reis (1825-1917), considerada a primeira romancista brasileira.


Coqueiros no céu de Palmares: Praça Paulo Paranhos, Palmares – PE.

MULHER
De ser não sei, na seriação dos seres,
Que mais preocupa e que se estuda tanto:
Alma, razão de agir, paixões, misteres,
A essência do teu riso e do teu pranto!
Magos, poetas, filósofos, no entanto,
Mergulhando-as na orgia dos prazeres,
Ou elevando nas palmas como a um santo,
- Controversos que são quanto às mulheres!
Dessas vacilações, desses enganos
Surge o dogma, imutável, transcendente
Que ao homem sagra “senhor” entre os humanos...
E o dono, e chefe, e rei – por que padeces,
Ó forte, ó sábio, e vives tão somente
Na razão desse mal que mal conheces?!
Poema extraído da obra Horas inúteis (Imprensa Oficial, 1960), da educadora, jornalista, poeta e ativista feminina Edwiges de Sá Pereira (1884-1958).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

A poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez, participando do evento Pintando na Praça – Palmares – PE. Veja mais aquiaqui.

Veja mais:
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ADMMAURO GOMMES
Recepcionando o poeta e professor Admmauro Gommes na exposição do projeto Pintando na Praça, na Biblioteca Fenelon Barreto, Palmares – PE. Veja mais aqui.
 

quinta-feira, março 30, 2017

SÁBATO, HAMILTON DE HOLANDA, CAROL PEACE, ÉLISABETH LE BRUN, MAXFIELD PARRISH, SAÚDE NA PAZ & LÍDIA LIMA

SAÚDE NA PAZ - Estou vivo e tudo o que faço está mecanicamente elaborado, sempre no automático, não faço a menor ideia de com fiz e faço certas coisas, apenas faço por fazer. O mundo pesa sobre meus paradoxos e se penso é sempre para mergulhar na infelicidade; se saio, não tenho para onde ir; se fico aqui, me deprimo entediado. Ora, ora. Já não sei de nada, estou doente e eu não sabia que a minha doença nascia da inveja que tive de fulano ter alcançado sucesso e eu não; dos ciúmes que tive de beltrano adquirir o carro dos sonhos e eu não; da vingança que perpetrei silenciosamente com meus sentimentos de ódio contra sicrano que apenas se recusou a concordar comigo e eu, a partir de então, tê-lo por mau e inimigo só por ter ideias diferentes das minhas; da ácida crítica e grosserias que assaquei contra aqueles que inocentemente caíram na minha antipatia, só porque sorriam felizes sem saber de nada ou se deram bem nas suas empreitadas e eu não; nos meus atos destrutivos ao perder a calma diante dos meus desesperos, ou por augurar maledicências despropositais, ou diante do desapontamento por não ter conseguido êxito nisso ou naquilo. É por causa disso tudo que a minha vida é sobrecarregada de complicações, alijado de todos e sem perceber mão alguma em auxílio, a ponto de me ver excluído do que quer que seja por ser problemático, antipático, inarmônico. É por causa disso que tenho amígdalas inflamadas, resfriados constantes, reumatismos dolorosos, tumores intermitentes que reaparecem a cada momento que estou livre de dores ou mal-estares, afora indisposições, sintomas indesejáveis e tédio que me assediam a toda hora e instante. Sinto que por isso eu mesmo envenenei cada uma das minhas células. Reconheço que me estraguei por inteiro. Estou doente e sinto todo meu corpo apodrecendo. Cada minuto que gastei alimentando o rancor e o ódio tem corroído todo meu ser e se tornaram desde ontem e anteontem mais sofrimento que infligi a mim mesmo agora, sanções que impingi a mim mesmo hoje. Estou doente e preciso purgar meu veneno, mudar minha atitude mental. Preciso fazer algo por mim mesmo, sei que o que sou hoje devo às teimosias e quantas incoerências que promovi insensatamente para desarticular e desagregar tudo ao meu redor desde muito antes e eu sequer sabia que cavava a minha própria cova. Preciso me curar e para isso preciso mudar meus pensamentos que estão me sufocando e me intoxicando, preciso respirar ar puro com inalações profundas e beber água fresca para restaurar, renovar e revitalizar todo meu ser, lavando meus intestinos, rins e bexiga. Agora preciso de mim mais que a qualquer outra coisa. Tenho sede, preciso de paz e me curar, só assim terei alívio. Estou doente e a minha cura está na minha paz. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

Curtindo os álbuns Samba do Avião (Recording Arts, 2007), Caprichos (Brasilianos, 2015), Bandolim (MPS Records, 2015) e Samba de Chico (Biscoito Fino, 2016), do bandolinista e compositor Hamilton de Holanda.

Veja mais sobre:
Cantarau, Thiago de Mello, Paul Verlaine, Tracy Chapman, Melanie Klein, Francisco de Goya, José Celso Martinez Corrêa, Vincent Van Gogh, Warren Beatty, Méry Laurent & Paulo Cesar Barros aqui.

E mais:
Sombras de Goya & Os poderosos de hoje aqui.
Poemas de Thiago de Mello aqui.
A poesia de Paul Verlaine, Denise Levertov, Wojciech Kilar, Paul Delaroche, Marcoliva & Lourdes Limeira aqui.
Big Shit Bôbras: a lástima da imitação do pior do ruim, Georg Trakl, Paul Auster, Sarah Kane, Gertrude Stein, Felix Mendelssohn, Gil Elvgren & Marion Cotillard aqui.
Desejo: a história da canção, A Paz & Ralph M. Lewis, Jacques Prévert, Milton Hatoum, Jonathan Larson, Eric Fischl, Monica Bellucci, Madhu Maretiori & Sônia Mello aqui.
A multa do fim do mundo, William Burroughs, Henfil, Ernest Chausson, Liliana Cavani, Hans Rudolf Giger, Paulo Dalgalarrondo, Charlotte Rampling & Auber Fioravante Junior aqui.
O pensamento de Theodor Adorno aqui.
A teoria da estruturação de Anthony Giddens & Iniciação à estética de Ariano Suassuna aqui.
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E se vem ou vai, eu voou, Jehane Saade, Paula Rego& Manuel Pereira da Silva aqui.
O poeta e a fera, Mariarosaria Stigliano & Leila Nogueira aqui.
Festa do dia 8 de dezembro, lavando a jega, Florbela Espanca, Camille Claudel, Alaíde Costa, Tatiana Grinberg, Militão dos Santos & Quando tudo se desapruma a farra é só pro desgoverno aqui.
O fulgor do amor, Érico Veríssimo, Jorge Drexler, Luciah Lopez & O amor premia o final de semana aqui.
A corrupção come no centro e a gente é quem paga o pato sempre, Darcy Ribeiro, Sebastião Salgado & Depois da farra a corda só arrebenta pra precipício dos que estão de fora aqui.
Há um ano, Ná Ozzetti, Fernando Rosa, Luciah Lopez & Quem não sabe ver é mais fácil de enrolar aqui.
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História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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A croniqueta de antemão aqui.
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A arte da escultora e artista plástica inglesa Carol Peace.

DESTAQUE: ERNESTO SÁBADO
[...] Jogou fora o jornal: “Quase nunca acontecem coisas”, diria-lhe Bruno, anos depois, “embora a peste dizime uma região da Índia”. Voltava a ver o rosto exageradamente maquiado de sua mãe dizendo: “você só existe porque me descuidei”. Coragem, sim senhor, coragem é o que lhe havia faltado. Pois, do contrário, ele teria terminado na cloaca. [...] Fez um grande esforço para manter os olhos na estátua. Disse que naquele instante sentiu medo e fascínio; medo de se virar e um fascinante desejo de fazê-lo. Lembrou que uma vez, na Quebrada de Humahuaca, à beira da Garganta do Diabo, enquanto contemplava a seu pés o abismo negro, uma força irresistível o impeliu de repente a pular para o outro lado. E naquele momento acontecera-lhe algo parecido: sentiu-se impelido a pular por cima de um abismo escuro, “para o outro lado de sua vida”. E então a força inconsciente mas irresistível o obrigou a virar a cabeça. Mal entreviu, afastou depressa o olhar, tornando a fixá-lo na estátua. Tinha pavor dos seres humanos: pareciam-lhe imprevisíveis, mas sobretudo perversos e sujos. As estátuas, em compensação, proporcionavam-lhe uma felicidade serena, pertenciam a um mundo ordenado, belo e limpo. [...] Mas sabia – enfatizou a palavra – que algo muito importante acabava de acontecer em sua vida: não tanto pelo que tinha visto, mas pela poderosa mensagem que recebeu em silêncio. – O senhor mesmo me disse isso várias vezes. Que nem sempre acontecem coisas, que quase nunca acontecem coisas. Um homem cruza o estreito de Dardanelo, um cavalheiro assume a presidência da Áustroa, a peste dizima uma região da Índia, e para as pessoas nada tem importância. O senhor mesmo me disse que é terrível, mas que é assim. E naquele instante tive a nítida sensação de que acabava de acontecer alguma coisa. Alguma coisa, senhor Bruno, que mudaria o rumo de minha vida. [...].
Trechos do romance Sobre heróis e tumbas (Planeta De Agostini, 2001), do escritor e artista plástico argentino Ernesto Sábato (1911-2011). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora francesa Élisabeth-Louise Vigée-Le Brun (1755-1842).
Veja mais aquiaqui e aqui.

DEDICATÓRIA:
A edição de hoje é dedicada à locutora Lídia Lima.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: arte do artista estadunidense Maxfield Parrish (1870-1966).
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

quarta-feira, julho 13, 2016

ERNESTO SÁBATO, GRAMSCI, ELISEO VISCONTI, OLAVO DANTAS, BENÍCIO, ROCK, ROSANA SABENÇA & RITA-BARRETO


CRUZETAS, OS MANDACARUS DE FOGO (Imagem: Mandacarú, vegetação em Canudos, da fotógrafa Rita-Barreto) – Gerdélio era um homem de poucas palavras. Ríspido no seu modo de ser, rústico de alma, andava sempre embecado de vinco da gola à braguilha, do cós ao abanhado da calça, quebrando no brim. O seu inconfundível pisado forte de jeito faroeste no salto da bota cano longo, peito estufado, nariz empinado, costeletas e topete de galã de cinema, cinturão afivelado nos polegares, pigarro de escarrada ressonante, sisudo de cusparada espessa. Acostumado a uma talagada na raiz de pau, não antes uns pingos no chão pro devotado na virada de copo e tragava um tora-peito que ele mesmo fazia do fumo de rolo, de se esconder na fumaça quando pensativo, puxando do tirocínio. Espinhaço forrado, tino aprumado, nervos no lugar. Quando abusado, se acochava e não abria nem prum trem. Fosse com conversa mole pra banda dele, descompostura em cima da bucha. Desaforo, não deixava pra depois; não perdia viagem com embusteiro, resposta no toitiço. Não fosse dum jeito, era na marra, na força da munheca, do muque. Resolvia tudo com um ronco gutural de meter medo no adversário. Sim, sim, não, não. Falava alto no mando, destemido, austero nas gentilezas, econômico com as palavras. Acertado ela lei; inadimplir, arranca-rabo. Tudo certo no ajustado, sem sair da reta. Se desse errado, encrenca. Homem das praticidades. Pouca conversa, distâncias regulamentares dos outros. Gostava de uma saia perdida, arrastava pé com elas de quase gastar o solado do sapato numa noite só. E com mulher a lei dele era virar a cara pro perigo e fosse lá o que Deus quisesse. No mais vivia no pacato pelas calçadas e conversas, um ou outro confronto de opinião, nada de sério. Religião a de si, só Jesus e mais nada: um homem de pouca fé; não vacilava: uma vela pra Deus, outra pro diabo. Com ele era tudo nos conformes: a honra acima de tudo, nunca uma humilhação, nem desmoralizado. Até que um dia, numa das esquinas da vida, um tiro na nuca estendeu-lo no chão: um mandacaru de fogo. Uma emboscada terrível por encomenda de alguém desafeto. Coisa de jagunço que sai da touceira dos caminhos, detrás das moitas, pra pegar no desprevenido. Só se ouviu o papouco com descarga fulminante. Alguém que botou a cara na janela pra ver o acontecido, finou com um orifício de bala entre os olhos. Assim é o dia-a-dia. Como se a vida humana fosse um peteleco qualquer, estalo de dedos, um palito de fósforo que se risca, acende e agita para apagar. Nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

 Imagem: a arte do pintor, desenhista e designer ítalo-brasileiro Eliseo Visconti (1866-1944). Veja mais aqui.

 Curtindo o álbum Manhã de mim (Independente, 2015), da cantora e compositora Rosana Sabença.

PESQUISA:
A arte de cada época carrega consigo uma visão do mundo e o conceito que essa época tem da verdadeira realidade, e essa concepção, essa visão, está baseada numa metafísica e em um ethos que lhe são próprios. [...]
Trecho do livro O escritor e seus fantasmas (Companhia das Letras, 2003), do escritor, ensaísta, artista plástico e físico argentino Ernesto Sábato (1911-2011). Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA
[...] um sentenciado tinha uma linda filha. Um dia a moça foi à praia sozinha, sendo arrebatada pelo dragão, que a levou para a caverna onde a conserva prisioneira.
Trecho de A caverna dos suspiros, extraído do livro Sob o céu dos trópicos (José Olympio, 1938), do médico e escritor Olavo Dantas (??-1997). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Na colocação dos problemas histórico-críticos, não se deve conceber a discussão cientifica como um processo judiciário, no qual há um réu e um promotor, que deve demonstrar que o réu é culpado e digno de ser tirado de circulação. Na discussão científica, já que se supõe que o interesse seja a pesquisa da verdade e o progresso da ciência, demonstra ser mais avançado quem se coloca do ponto de vista segundo o qual o adversário pode expressar uma exigência que deva ser incorporada, ainda que como um momento subordinado, na sua própria construção. Compreender e valorizar com realismo a posição e as razões do aversário (e o adversário é, talvez, todo pensamento passado) significa justamente estar liberto da prisão das ideologias (no sentido pejorativo, de cego fanatismo ideológico), isto é, significa colocar-se em um ponto de vista critico, o único fecundo na pequisa cientifica.
Trecho estraido da obra Concepção dialética da história (Civilização Brasileira, 1987), do filósofo, cientista político e comunista italiano, Antonio Gramsci (1891-1937). Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA:
Dia Mundial do Rock.

Veja mais sobre A vida é um filme, Wole Soyinka, Emir Sader, No colo do Pai, Erwin Piscator, Stelvio Massi, Carl Kricheldorf, Joan Collins, Václav Hollar & Isaac Lazarus Israels aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
As mulheres do ilustrador e desenhista Benício.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

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