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terça-feira, abril 30, 2019

ERNESTO SÁBATO, MACHADO DE ASSIS, RENATO ORTIZ, NICOLINA VAZ DE ASSIS & MUCUNÃ


O PRESENTE DE MACHADO - Menino peralta duns oito ou nove anos, por aí, não dava sossego a ninguém tagarelando com meu amigo invisível e na amizade do maior converseiro com todo bicho e pés de plantas no quintal, ou da varanda pro jardim, qualquer brecha a ganhar o mundo e me esgueirando ladeiras acima na fuga pra casa de Pai Lula e Carma, ou, ainda, invadindo a biblioteca do meu pai para me aboletar sobre as coleções à cata das imagens de mulher nua, aos flagras, puxões de orelha e findar amarrado nas pernas de mesa da sala. Aos livros, de vera, era achegado mesmo, gostava. E foi por isso que no meu aniversário, meu pai chegou carregando uma caixa enorme nos braços. Ele me chamou e pediu para que eu adivinhasse o presente. Cá comigo, queria que fosse uma bicicleta e não era, ou um autorama, também não, ou uma coleção de super-herois, gibis, armas de brinquedo, coisa que valha e, evidentemente, pra minha contrariedade não era nada disso. Nada. Fomos pro sofá, mandou-me abrir e vi que era uma tuia de livros. Hum? Folheei um a um e, desapontado, disse: Mas painho não tem uma... ah, não poderia dizer, era segredo, senão estragava tudo e minha mãe viria com beliscões e outras reprimendas. Lição de reincidente, ora. Tive que tapiar na hora e fiz de conta que havia gostado e comecei a soletrar o nome: Machado de Assis (1839-1908). Quem é painho? Ah, vai gostar, tem muitas histórias. E tinha mesmo. Primeiro fui saber quem era, lendo a biografia: nasceu pobre e mesmo sem nunca ter ido à escola, ele escreveu em quase todos os gêneros literários, desde poesias, romances, crônicas, peças teatrais, tornando-se, inclusive, jornalista e crítico literário. Foi testemunha ocular da história, desde o movimento abolicionista, a passagem da monarquia para o republicanismo, além de todas as reviravoltas ocorridas entre o final do século XIX e o início do século XX, fatos que foram registrados em suas obras, ao todo 10 romances, 200 contos, 10 peças teatrais, 5 coletâneas de poemas e mais de 600 crônicas. Tudo isso na minha coleção de 31 volumes, uma edição da W. M. Jackson Inc, datada de 1938: no volume 1 – Ressurreição (1872), a história de Félix, Lívia, Raquel e Meneses. No volume 2 – A mão e a luva (1874), contando da relação de Guiomar com seus três pretendentes, findando a escolha dela por um deles, o Luis Alves. No volume 3 – Helena (1878), contando o acolhimento da jovem Helena pela família quando do falecimento do seu pai. No volume 4 – Yayá Garcia (1878), com a história engenhosa de Jorge e Estela, e ele vai à guerra do Paraguay, enquanto ela, orientada pela mãe dele, para se casar com outro. No volume 5 – Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), marcando o início do Realismo e compreendendo a autobiografia do protagonista que resolve escrever suas memórias depois de morto, a sua paixão pela prostituta Marcela, a claudicante e pobre Eugenia e a Virgilia roubada por Lobo Neves (Veja aqui e aqui). No volume 6 – Quincas Borba (1891), a história do professor Rubião e o filósofo Quincas, a paixão por Sofia, a mulher do sócio, o Humanitismo, a fortuna e o cachorro: “Aos vencedores, as batatas!”. No volume 7 – Dom Casmurro (1900), contando a história de Bentinho, o seminarista órfão, e a sua linda paixão Capitu. No volume 8 – Esaú e Jacó (1904), a história dos irmãos gêmeos briguentos Pedro e Paulo. No volume 9 – Memorial de Ayres (1908), a história do conselheiro Ayres e o amor de Tristão e Fidelia. No volume 10 – Contos fluminenses (vol. 1), com 7 contos, entre eles, Miss Dolar, A mulher de preto, Confissões de viúva moça, O segredo de Augusta, entre outros. No volume 11 – Contos fluminenses (Vol.2), com 14 contos publicados no Jornal das Famílias (1864-1878) e na Estação (1884-1891). No volume 12 – Histórias da meia noite, com 6 narrativas, entre elas A parasita azul, O relógio de ouro e Ponto de Vista. No volume 13 – Histórias Românticas, com 8 contos publicados do Jornal das Famílias (1864-1876). No volume 14 - Papeis Avulsos, com 12 contos, entre eles O Alienista (1882), a história de Simão Bacamarte, médido que reúne os loucos na Casa Verde, de Itagaraí; além de O empréstimo e O espelho. No volume 15 – Histórias sem data, com 18 contos, entre eles A igreja do diabo, Uma senhora e A segunda vida. No volume 16 – Várias histórias, com 16 narrativas entre elas A cartomante, A desejada das gentes, Adão e Eva, entre outras. No volume 17 – Páginas recolhidas (1889), com contos e duscursos pronunciados na Academia Brasileira de Letras. No volume 18 – Relíquias da casa velha (Vol.1) reunindo 21 contos. No volume 19 – Relíquias da casa velha (Vol.2) com 22 contos. No volume 20 – Chronica I (1859-1863), com crônicas publicadas no Diário do Rio de Janeiro, O Futuro, Semana Ilustrada, entre outros veículos (Veja aqui). No volume 21 – Chronica II (1859-1863), com crônicas publicadas no Diário do Rio de Janeiro (1859-1867) e Ao acaso & Cartas fluminenses. No volume 22 – Chronica III (1859-1888), com crônicas publicadas na Semana Literária (1871-1873) e Ilustração Brasileira (1876-1878). No volume 23 – Chronicas IV (1859-1888), com crônicas publicadas no O Cruceiro (1878) e Gazeta de Notícias (1884-1888). No volume 24 - A semana (1892-1897), 1º volume de crônicas. No volume 25 – A semana (1892-1897), 2º volume de crônicas. No volume 25 – A semana (1892-1900), 3º volume de crônicas. No volume 26 – A semana (1892-1900), 4º volume de crônicas. No volume 27 - Poesias completas (1870-1900), reunindo os livros Chrysalidas, Phalenas, Americanas, Ocidentaes e o Almada. No volume 28 – Theatro – reunindo as comédias Não consultes médico, O caminho da porta, O protocolo, Quase Ministro, além de folhetins, cartas e a fantasia dramática Desencantos. No volume 29 – Crítica literária (1858-1906), reunindo críticas e prefácios. No volume 30 – Crítica literária (1858-1906), 2º volume reunindo críticas e prefácios. No volume 31 – Correspondência, reunindo 25 cartas, entre elas a Quintino Bocaiuva, José de Alencar e Joaquim Nabuco. Era história que não acabava mais: 31 volumes. E quanto mais lia, mais gostava – apesar da grafia que não era do meu tempo de aprendizado, bem diferente e cheia de phs, ffs e coisas e tais. Confesso hoje que o presente foi melhor que tudo que desejei à época e que ainda hoje releio alguns volumes – embora dois deles já estejam bem deteriorados -, cuidando bem da obra desse grande escritor brasileiro que contribuiu e muito para minha formação. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] um executivo alemão foi mandado à China para projetar uma grande instalação industrial. Durante algumas semanas, devido ás exigências de sua profissão, ele se vê obrigado a viver uma experiência amarga. Não fala chinês, desconhece os costumes locais, ressente-se da falta dos automóveis, encontra-se na contingência de partilhar um modesto quarto de hotel com outro viajante qualquer. De retorno a Hong Kong, sua conexão para voltar à Europa, respira aliviado. A paisagem que o cerca é sua velha conhecida. Mas por que um alemão se “sente em sua casa” em Hong Kong? O que lhe é familiar neste lugar longínquo? [...] A China Popular, para nosso executivo alemão, é um “mundo” distante, inóspito. Em seu território, tudo lhes é estranho. Em contrapartida, Hong Kong representa algo próximo, um recanto povoado por coisas de sua vida prosaica (hotéis, padrão de refeição e de conforto, táxis, etc.). Envolvido por uma miríade de objetos-mobilias, ele sente-se à vontade neste mundo-mundo. Familiaridade que se realiza no anonimato de uma civilização que minou as raízes geográficas dos homens e das coisas. [...].
Trechos extraídos da obra Mundialização e cultura (Brasiliense, 1994), do sociólogo e antropólogo Renato Ortiz, refletindo sobre a condição de cidadão do mundo diante da mundialização da cultura e a inevitável reorientação das sociedades atuais. No primeiro capítulo, trata sobre Cultura e sociedade global, discutindo a distinção entre mundialização, internacionalização e globalização, cultura e sociedade mundializada; o segundo capítulo trata do advento de uma civilização, efetuando uma abordagem do séc. XV até a atualidade, tratando sobre a sobremodernidade e alta modernidade de Giddens; no terceiro capítulo trata sobre a cultura e modernidade-mundo, procurando o entendimento sobre o contato entre as civilizações, trabalhando conceitos de mapa cultural; no quarto capítulo, aborda sobre cultura internacional-popular, a desterritorialização e os não-lugares; o quinto capítulos aborda sobre os artífices mundiais de cultura, em que as pessoas são praticamente forçadas a perder toda a relação com as antigas culturas da nação, diferentemente dos seus antecessores pré-globais (as ditas antigas multinacionais), estabelecendo a cultura-mundo; no sexto, a legitimidade e estilos de vida são o foco da sociologia; no sétimo, a digressão final, elucidando os conceitos de tradição, o fim do Estado, entre outros assuntos.

MUCUNÃ
O documentário Mucunã (2019), direção e roteiro de Carol Correia, trata sobre a história das mulheres do Sítio Rodrigues, vilarejo situado próximo a cidade de Belo Jardim, agreste pernambucano, povoado em que todos descendem de uma índia, que ainda criança, foi capturada nas margens do Rio Ipojuca, levada para casa, “amançada” e obrigada a casar com seu algoz. Da indiazinha, as mulheres herdaram o exímio traquejo com o barro e através da sua arte subverteram a lógica devastadora do patriarcado se tornando provedoras do lar e revolucionando uma realidade de violência e miséria extrema. O filme foi vencedor do Prêmio Naíde Teodósio de Estudos de Gênero – Ano IX, na categoria Roteiro, promovido pela Secretaria da Mulher de Pernambuco, em 2016. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora Nicolina Vaz de Assis (1874-1941). 
Veja mais aqui & aqui.
&
A OBRA DE ERNESTO SÁBATO
A história não é mecânica, porque os homens são livres para a transformar.
A obra do escritor e artista plástico argentino Ernesto Sábato (1911-2011) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


terça-feira, fevereiro 05, 2019

STEPHEN HAWKINS, CAROL CORREIA, NARCIS IBAÑEZ PALLARES & CARTA DE FEVEREIRO


CARTA DE FEVEREIRO – Por onde andei nenhum rastro, quase nem sei dali como fui: águas na areia familiar sem impressão digital. O chão esconde as dores na sola dos sapatos gastos, pés na terra, como se a punição apagasse fevereiro sem frevo nas chuvas de um céu incendiado. A culpa, não sei, o pingado da torneira, a sensação das cinzas de fogo apagado para desconhecer os nomes do parentesco, como se fosse roupas perdidas, cartas rasgadas, coisas urgentes esquecidas, consertos adiados, batalhas que sequer venci: nenhum caminho de volta e ter de fugir a toda hora para longe ir, não sei, andanças de quem chora e sofre entre extravios e fadigas. Quando por vezes regressei, mãos vazias pelas ruas escuras e desbotadas, havia escuridão e eu estava esgotado, todavia o que voga e conta, sem limites nem horas, nada mais porque cheguei disperso pelo que me consumia na desbaratada calamidade. Não que ouvisse quem me chamasse, coisas incompreensíveis e ninguém ali, porque sabia apenas necrológios e o que não se comprazia das fortunas embalsamadas, mumificados patrimônios, objetos de borracha e tecnologia de ponta, nada valia nada, decerto, apenas o repentino frio da solidão ao vento arrepiando a alma com as portas que se fechavam por si mesmas, as vozes das crianças, os muitos mortos nas entranhas abertas do meio dia. Não sou poeta porque revolvo cinzas um canto estropiado e não me digam das cigarras escondidas no ouvido tapado pelas mãos desesperadas, porque ninguém percebe que já fui embora há muito tempo, razão alguma pra voltar. O que se pode fazer diante de tudo isso, quem sabe, não fale com o motorista, não fale, não tenho passagem nem malas. Nem buzine em frente aos hospitais, por favor, os enfermos precisam de paz. Não liguem as máquinas barulhentas, elas roem minha paciência e inflamam o planeta. Não acionem os motores, não há pressa nem levam a lugar algum, poluem demais. Não usem o telefone, não me falem, não preciso de datas ou comemorações. Não acendam as lâmpadas, prefiro escurecer sozinho mesmo. Não façam nada, oh, não façam porque é preciso viver como se tivesse que correr o mundo inteiro depois de inúmeras quedas e cartas escritas, choradas, lacradas, laceradas, rasgadas, porque a noite é imensa e perdi o caminho quando as coisas não iam lá muito bem, assim me parece. Não me digam nada, nada mais vive fora daqui já que o estrondo dos tremores rasgam as tumbas e os astros, nada mais sustenta as palavras e os versos, a vontade e os gestos desenfreados. Não há mais terraços para recitar a música das preces mais verdadeiras. A canção restou amordaçada pelos negros anos e o silêncio infame faz da minha boca a flor murcha no peito, queimando o riso, a tormenta nos lábios ressecados, dos quais o derradeiro grito goteja sílabas de sangue, lama, feridas e o martírio da carne. Quem aquele que não veio a pele ao granizo, pelos açoitados, o corpo desnudo desconhece o frio da noite, desolado e só, eu voo sem precisar ter pra onde ir ou chegar. Apenas, simplesmente, sorriso tímido, olhar em qualquer direção, a vida passa e eu voo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] se descobrimos de fato uma teoria completa, ela deverá, ao longo do tempo, ser compreendida, grosso modo, por todos e não apenas por alguns poucos cientistas. Então, devemos todos, filósofos, cientistas, e mesmo leigos, ser capazes de fazer parte das discussões sobre a questão de por que nós e o universo existimos. Se encontrarmos a resposta para isto teremos o triunfo definitivo a razão humana; porque, então, teremos atingido o conhecimento da mente de Deus [...].
Trecho extraído da obra Uma breve história do tempo: do Big Bang aos buracos negros (Rocco, 2000), do físico e cosmólogo britânico Stephen Hawkins (1942-2018). Veja mais aqui.

MARIA & MUCUNÃ DE CAROL CORREIA
A cineasta Carol Correia dirigiu e fez o roteiro do premiado filme Maria (2015), contando a história de uma mulher que caminha pelas ruas de um passado de beleza e desventuras, ao sentar-se na calçada, acedendo um cigarro e desfrutando da sua habitual solidão. No elenco Marcélia Cartaxo e Karine Ordônio. Ela anuncia para breve o lançamento do seu novo filme Mucunã: A subsistência, a existência e a resistência. A Arte. A Revolução. Nada se apaga. Tudo se paga.  A gente se comove e sonha. Aí sente, senta, coloca no papel e luta. Só que sonho bom a gente divide com os outros e a realização plena dos sonhos só é possível através de um processo coletivo e horizontal. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE NARCIS IBAÑEZ PALLARES
A arte do artista espanhol Narcis Ibañez Pallares. Veja mais aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, julho 18, 2018

BANDEIRA, GERSHWIN, LUC FERRY, GILBERTO FREYRE, CARAVAGGIO, MOUWAILIHI, ARTUR GOMES, MARIA & SEVERINA BRANCA


AS MULHERES DE CARAVAGGIO - Imagens: arte do pintor italiano Michelangelo Merisi, o Caravaggio (1571-1610) – Merisi, o Golias autorretratado, apareceu do Ducado de Milão, do Porto Ercole, Monte Argentário. De lá o menino viu de perto a peste bubônica imprimir um rastro de morte ao redor. Cresceu contencioso com o desafio nos olhos, farrista inveterado com seu gênio difícil a criar problemas e rusgas pelos lupanares de então. Perseguia a si próprio a passar fome em Roma, vivendo pelas ruas numa turbulência perigosa. Teve sua cabeça a prêmio por matar um jovem. A fuga errática dá em Malta e uma nova briga e mais outras tantas em Nápoles, e andou de cidade em cidade, casmurro insultante tão litigante compulsivo por extravagâncias a levarem-no ao endividamento, entre o desespero e o remorso, entre a arte e a recusa por trabalho fiel ao seu estilo. Era a vida atribulada do amante libertino de mulheres de má fama, quantas delas sobejadas por um celerado que conhecia todos os calabouços, um proscrito impetuoso que dormia com a adaga sob o travesseiro e sempre perseguido por matar seu rival nobre. Em louvor a elas retratava as coisas mundanas como se fossem sagradas: o Jesus flagelado e as cenas religiosas com seus modelos recrutados na rua, gente simples e pobre para romper com as convenções, em contrastes de luz e sombra, a beleza na vulgaridade: pessoas e a vida de todos os dias, a vida inflamada e elas ardendo de prazeres. Era a emoção profunda de santas, madonas, rainhas, deusas, interpretadas por modelos catadas entre as suas amantes prostitutas e mendigas das ruas esconsas, com impressionantes e audaciosos gestos, a mulher encarquilhada com toda tristeza da Terra, a Filli de Melandroni que representou Salomé e Judith, e aquela gente medonha, carnal, das vísceras do povo, que riem, devem, desacatam, fornicam, se danam, se amam e se detestam, se inflamam e se embriagam quais pecadores dos quintos dos infernos na exaltação da vida pelo gozo da carne desejada. As mulheres e todos esculpidos na condição humana. O bispo reconheceu e o excomungou. Assim, ele se viu só, esperava o barco que nunca chegou à solidão da febre e condenado à morte da vergonha, até desaparecer misteriosamente para nunca mais ser encontrado. Só depois do seu desaparecimento foi absolvido pelo Papa. Já era tarde, nada nem nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor estadunidense George Gershwin (1898-1937): Rapsody in Blue, Piano Concert in F Major, Blue Monday & Summertime & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] a própria ideia de felicidade é objeto de um debate contraditório, de uma “antinomia” que opõe radicalmente duas teses. Para uns, a felicidade é a meta de toda vida humana, e também da animal, e a sabedoria suprema consiste em apoderar-se dela. [...] Já para outros, embora seja evidente que todos procuramos desesperadamente a felicidade, essa busca não passa de ilusão, de uma miragem. A felicidade não apenas é inacessível aos seres humanos em razão do caráter finito de nossa existência como simples mortais, mas também, sendo nossos desejos contraditórios e flutuantes, em qualquer hipótese é impossível defini-la de maneira categórica e satisfatória. Sabemos com bastante clareza o que nos torna infelizes, mas muito menos distintamente sabemos o que nos faria felizes. É claro, em nossa existência conhecemos momentos de alegria, e até oásis de serenidade. [...] Trechos extraídos da obra 7 maneiras de ser feliz: como viver de forma plena (Objetiva, 2018), do filósofo francês Luc Ferry, que em outra obra Aprender a Viver: Filosofia para os novos tempos (Objetiva, 2012), expressa que: [...] Como dizem, cada um a seu modo, vários pensadores contemporâneos, não se filosofa por divertimento, nem mesmo apenas para compreender o mundo e conhecer melhor a si mesmo, mas, às vezes, para “salvar a pele”. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ISTO É BRASIL? – [...] Não há brasileiro de classe mais elevada, mesmo depois de nascido e criado depois de oficialmente abolida a escravidão, que não se sinta aparentado do menino Braz Cubas na malvadez e no gosto de judiar com negros. Aquele mórbido deleite em ser mau com os inferiores e com os animais é bem nosso: é de todo o menino brasileiro atingido pela influência do sistema escravocrata [...] um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher de doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um muleque de casa, era meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava-lhe mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas vezes gemendo – mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – “ai, nhonhô!” – ao que eu retorquia – cala a boca, besta!”- esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscão nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos [...]. Trechos extraídos da obra Casa-grande e senzala (Livros do Brasil, 1957), do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987). Veja mais aqui e aqui.

O MORTO RESSUSCITADO - [...] Vi-me em sonho numa planície de Al-Imâm, caminhando entre os túmulos e as colunas, por uma bela noite clara. [...] Eu ia com minha alma por cima dos túmulos e das lápides, do orgulho do homem e da sua presunção, da vaidade das suas ideias de gloria e de ilustração, do insondável exagero das suas pretensões, da excessiva opinião que ele faz de si próprio quando se glorifica e se esquece do túmulo. A vaidade o exalta a ponto de querer atravessar a abobada celeste, cheio de admirações pelo que possui e pelo que adquiriu. Depois, a morte constrange este nariz erguido para o céu a abrir um buraco na terra, após haver sepultado sob as lápides funerárias, as páginas da sua gloria e da sua grandeza. Eu continuava a andar, a ir e vir, até que me lembrei no decorrer da minha caminhada por sobre as areias das planícies, dos versos do sábio poeta SAbou’l alâ: “Diminui a pressão dos teus passos sobre a terra, posque o chão não é feito de outra coisa senão destes corpos. Não seria bom de nossa parte, mesmo que eles tenham morrido há muito tempo, tratar com desprezo os nossos pais e antepassados. Caminha tão devagar quanto possas, sem te orgulhares às expensas dos outros humanos”. Rangi os dentes arrependido e pus-me a caminha na ponta dos pés, sentindo que na massa destes mortos, na multidão dessas ossadas, havia lábios que os amorosos tomaram por gibla, pela doçura dos quais eles os preferiam às cores do arco-íris; bocas misturadas à poeira cinzenta e dentes em meio às pedras do caminho. Recordei então que estas faces de que a rosa tivera ciúmes, e que choravam com lagrimas de orvalho, e que acendiam nos corações os fogos da consumação, diante das quais o grain de beauté era como Abrão diante do fogo, ou como os fios da água do ceu nas anêmonas, nos quais brilhava o resplendor do poder e da juventude – lembrava-me de que estas faces tinham visto sua beleza dobrada pelo destino como página de um livro – tinham por seu decreto se tornado poeira na face da terra. [...]. Trecho de conto do escritor egípcio Mohammed al-Mouwailihi (1858-1930).

ESTRADA – Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho, / Interessa mais que uma avenida urbana. / Nas cidades todas as pessoas se parecem. / Todo o mundo é igual. todo o mundo é toda a gente. / Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma. / Cada criatura é única. / Até os cães. / Estes cães da roça parecem homens de negócios: / Andam sempre preocupados. / E quanta gente vem e vai! / E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar: / Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho / manhoso. / Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos, / Que a vida passa! que a vida passa! / E que a mocidade vai acabar. Poema do poeta, tradutor, critico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968). Veja mais aqui.

MARIA, NO TEMPO DO CORPO VIVE A MEMÓRIA.
Sou mulher de sentimento
As duas da madrugada
Levando a chave na mão
Deixando a porta trancada
E uma filha na cama
Sem esperança de nada.
O curta Maria (2016), com direção e roteiro de Carol Correia, traz momentos da vida de uma poeta, ex-prostituta e analfabeta do Sertão do Pajeú, Severina Branca, com as atrizes Marcelia Cartaxo e Karine Ordônio, produção da Cambaio Filmes e Nahsom Filmes.

A performance poética Poesia Viva Poesia do poeta e ator Artur Gomes & muito mais na Agenda aqui.
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A arte de Artur Gomes aqui, aqui & aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
“Não sou um pintor valentão, como me chamam, mas sim um pintor valente, isto é, que sabe pintar bem e imitar bem as coisas naturais.”
Série de Tree3Art inspirada na obra Caravaggio (1571-1610). Também a fotógrafa Mônica Silva fez uma exposição inspirada na obra do mesmo autor intitulada Lux Et Filum, uma visão contemporânea de Caravaggio (2015), em São Paulo.
Veja mais aqui, aqui & aqui.
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A jaca & a botija, Coco Chanel & Stravinsky, Aprender a aprender de Joseph D. Novak e D. Bob Gowin, A sociedade pós-capitalista de Peter Drucker, Vênus Afrodite, a música de Stravinsky, Maria João Pires, João Guilherme Ripper & Martha Angerich aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...