quarta-feira, julho 13, 2016

CRUZETAS, OS MANDACARUS DE FOGO

CRUZETAS, OS MANDACARUS DE FOGO (Imagem: Mandacarú, vegetação em Canudos, da fotógrafa Rita-Barreto) – Gerdélio era um homem de poucas palavras. Ríspido no seu modo de ser, rústico de alma, andava sempre embecado de vinco da gola à braguilha, do cós ao abanhado da calça, quebrando no brim. O seu inconfundível pisado forte de jeito faroeste no salto da bota cano longo, peito estufado, nariz empinado, costeletas e topete de galã de cinema, cinturão afivelado nos polegares, pigarro de escarrada ressonante, sisudo de cusparada espessa. Acostumado a uma talagada na raiz de pau, não antes uns pingos no chão pro devotado na virada de copo e tragava um tora-peito que ele mesmo fazia do fumo de rolo, de se esconder na fumaça quando pensativo, puxando do tirocínio. Espinhaço forrado, tino aprumado, nervos no lugar. Quando abusado, se acochava e não abria nem prum trem. Fosse com conversa mole pra banda dele, descompostura em cima da bucha. Desaforo, não deixava pra depois; não perdia viagem com embusteiro, resposta no toitiço. Não fosse dum jeito, era na marra, na força da munheca, do muque. Resolvia tudo com um ronco gutural de meter medo no adversário. Sim, sim, não, não. Falava alto no mando, destemido, austero nas gentilezas, econômico com as palavras. Acertado ela lei; inadimplir, arranca-rabo. Tudo certo no ajustado, sem sair da reta. Se desse errado, encrenca. Homem das praticidades. Pouca conversa, distâncias regulamentares dos outros. Gostava de uma saia perdida, arrastava pé com elas de quase gastar o solado do sapato numa noite só. E com mulher a lei dele era virar a cara pro perigo e fosse lá o que Deus quisesse. No mais vivia no pacato pelas calçadas e conversas, um ou outro confronto de opinião, nada de sério. Religião a de si, só Jesus e mais nada: um homem de pouca fé; não vacilava: uma vela pra Deus, outra pro diabo. Com ele era tudo nos conformes: a honra acima de tudo, nunca uma humilhação, nem desmoralizado. Até que um dia, numa das esquinas da vida, um tiro na nuca estendeu-lo no chão: um mandacaru de fogo. Uma emboscada terrível por encomenda de alguém desafeto. Coisa de jagunço que sai da touceira dos caminhos, detrás das moitas, pra pegar no desprevenido. Só se ouviu o papouco com descarga fulminante. Alguém que botou a cara na janela pra ver o acontecido, finou com um orifício de bala entre os olhos. Assim é o dia-a-dia. Como se a vida humana fosse um peteleco qualquer, estalo de dedos, um palito de fósforo que se risca, acende e agita para apagar. Nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

 Imagem: a arte do pintor, desenhista e designer ítalo-brasileiro Eliseo Visconti (1866-1944). Veja mais aqui.

 Curtindo o álbum Manhã de mim (Independente, 2015), da cantora e compositora Rosana Sabença.

PESQUISA:
A arte de cada época carrega consigo uma visão do mundo e o conceito que essa época tem da verdadeira realidade, e essa concepção, essa visão, está baseada numa metafísica e em um ethos que lhe são próprios. [...]
Trecho do livro O escritor e seus fantasmas (Companhia das Letras, 2003), do escritor, ensaísta, artista plástico e físico argentino Ernesto Sábato (1911-2011). Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA
[...] um sentenciado tinha uma linda filha. Um dia a moça foi à praia sozinha, sendo arrebatada pelo dragão, que a levou para a caverna onde a conserva prisioneira.
Trecho de A caverna dos suspiros, extraído do livro Sob o céu dos trópicos (José Olympio, 1938), do médico e escritor Olavo Dantas (??-1997). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Na colocação dos problemas histórico-críticos, não se deve conceber a discussão cientifica como um processo judiciário, no qual há um réu e um promotor, que deve demonstrar que o réu é culpado e digno de ser tirado de circulação. Na discussão científica, já que se supõe que o interesse seja a pesquisa da verdade e o progresso da ciência, demonstra ser mais avançado quem se coloca do ponto de vista segundo o qual o adversário pode expressar uma exigência que deva ser incorporada, ainda que como um momento subordinado, na sua própria construção. Compreender e valorizar com realismo a posição e as razões do aversário (e o adversário é, talvez, todo pensamento passado) significa justamente estar liberto da prisão das ideologias (no sentido pejorativo, de cego fanatismo ideológico), isto é, significa colocar-se em um ponto de vista critico, o único fecundo na pequisa cientifica.
Trecho estraido da obra Concepção dialética da história (Civilização Brasileira, 1987), do filósofo, cientista político e comunista italiano, Antonio Gramsci (1891-1937). Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA:
Dia Mundial do Rock.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
As mulheres do ilustrador e desenhista Benício.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



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