MAIS DIA, MENOS
DIA E O AMOR VALEU – Imagem:
arte da fotográfa & artista plástica holandesa Carla Van de Puttelaar - UMA: QUEM SABERIA PERDER - Desde menino cara pro vento vida solta
que eu sei o tempo e o vento voam. Aprendi a crescer, mas não de todo, como
fruta no pé, madurando. Hoje, como na canção, vivo do que faz meu braço e a Terra
manda. Fui lá e fiz, antes tarde os meus desígnios, afianço que cumpri o meu
dever até agora, conquanto não tenha mais nada pra dizer, tudo é relâmpago na
escuridão, pisando em falso diante das emboscadas, espias de tocaia e
desforras, sem âncora nem cais, as ciladas nas surdinas da morte, acossado pela
urgência, a perder o eixo nos moldes da lógica diante da desconstrução de tudo
e o eterno retorno. E de noite levanto insone entre estrelas de um céu que
sequer existe e a errar dos pés os caminhos do chão, pisadas sem direção pra
voar, voa vento, voa tempo, os segredos perdidos que se revelam na manhã
esquecida. Vejo o que não existe, a Alfa Centauro e a humanimaldade de Cummings,
o peito destroçado de amores escondidos que se perderam sem saudades nem
lembranças, apenas uma, definitivamente apenas uma reina no meu coração de cavaleiro
sem montaria, desmontado. E o mundo cheio de gente mal-agradecida a fazer da
cidade o istmo de sempre arrodeado de canavial e meretrício por todos os lados,
enquanto as pessoas vivem encapsuladas nas cavernas de si mesmo de não sair
jamais das janelas sem vida nas paredes desbotadas pela fé e desavença,
varrendo das ruas a sanidade de viver. Eu não sabia da dor, nunca soube, menino
que era e ainda sou, crescido de nada. Ontem não sabia nada, hoje muito menos,
sou labaredas mesmo que vulnerável, vou além dos extremos. Já fui longe demais,
acho, tanto por fazer. De que outro modo eu poderia viver, quem saberia perder? OUTRA: TINO DE CAÇADOR – Nunca levei jeito pra caçadas, nem queria. Mas com a
ruma de tios, um deles, me vendo menino taludo, já me queria com jeito de
homem: Hoje vai caçar comigo, seu cabra! Todo sábado, meio dia, eu escapulia.
Já vinha não sei quantas vezes eu enrolava e me esgueirava mundo afora. No
entanto, neste dia, não deu. O compadre Jaime me aplacou a fuga: Vai pra onde
menino? Hoje você não escapa, vai com a gente. E mostrava o risinho diabólico
dele. Meu tio logo chegou: Ah, capturou o fujão. Vambora. A gente amontava no
jipe e rumava pra mata pertinho. Pra quê tanta arma, tio? Cada espingarda dessa
é prum tipo de bicho: uma pra paca ou tatu, outra pra veados e o que aparecer
de graúdo, essas mais finas pros passarinhos. Caçar passarinho? Sim. Oxe, não
era pra mim não. Eu já havia soltado os das gaiolas do meu pai, arengava com os
meninos da rua por conta das suas petecas, coisa mais sem propósito, imagine
caçar passarinho, astúcias dessas, era pra mim não. Destá. Meu tio e o compadre
eram mateiros calejados, perseguiam impenitentes todos os bichos que
aparecessem na frente, vigilantes, armados até os dentes, com todo tipo de
cartucho no alforje e no cinturão, tudo muito extravagante e injusto, pareciam
mais cangaceiros de Lampião. Eles subiam afoitos pelas capoeiras e eu atrás,
arrastavam tudo nos peitos, mata escura, somente chiados, estalidos e zoadas
das mais estranhas, coisa de meter medo num sujeitinho como eu não
familiarizado com as surpresas da mata. Eu pensava em Cumadre Fulosinha e
noutras abusões, coisas que metem medo, e meu tio e o compadre Jaime sorriam
das minhas leseiras. Todavia, no meio da pisada, um canto estranho se fez ouvir
e, ao que parece, amoleceu o coração da gente bulindo na superstição, bastante
conhecido sinal de advertência, coisas das ocultas e sortilégios, parece,
adiava a impiedade. O compadre Jaime fez sinal de silêncio, psiu, aguçou as
ouças e disse: Tem coisa! Deitou os ouvidos no chão: É bicho grande, tomara que
não seja onça. Ah! É menor, parece mais veado. E ficou atento, ouvido no chão,
levantava e virava a cabeça para os lados. Por prevenção, vamos subir!, mandou,
e subimos cada um em árvores – eu mesmo mais que amedrontado deslizava o pé no
tronco, relei-me todo para conseguir me trepar no pé de não sei o quê, um toro
roliço que não dava nem para abarcar com os braços. Fiquei lá no galho,
balançando as pernas, atento ao que vinha. O barulho das patas nas folhas
aumentava e a música era mais audível, até então eu nem ouvia, mas agora estava
nítida: as pisadas e a música. Era coisa de veado, daqueles galhudos, com mais
de vinte chifres ocos e furados feito flauta, pra quando o vento soprar sair
aquela pungente sonoridade. Eu num disse! O compadre Jaime já acenava pro meu
tio, apontando, eu não via, ouvi quando disseram: É veado mesmo! Melhor ir
embora. Arrumamos as coisas e zarpamos pro jipe do lado de fora da mata. Bem na
saída já respirando o ar livre, perguntei a razão da desistência, explicaram
não ser dia apropriado para caça, era dia de reunião das proteções deles, dia
que não se deve caçar. Não ousavam contrariar as forças da natureza,
transgredir era arcar com consequências bastante funestas, coisas do encantado
que nunca se sabe. De caso pensado, retornamos, ficou pro próximo sábado.
Livrei-me mais uma pra nunca mais. (Historieta apresentada nas minhas
atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore, baseada
em material recolhido por folcloristas brasileiros). © Luiz Alberto Machado.
Direitos reservados. Veja mais aqui.TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quarta-feira, fevereiro 28, 2018
SIGRID UNDSET, MOLIÈRE, IVAN LINS, FLEW, JULIANA MERÇON, MÔNICA SALMASO, GAMEIRO & CARLA VAN DE PUTTELAAR
MAIS DIA, MENOS
DIA E O AMOR VALEU – Imagem:
arte da fotográfa & artista plástica holandesa Carla Van de Puttelaar - UMA: QUEM SABERIA PERDER - Desde menino cara pro vento vida solta
que eu sei o tempo e o vento voam. Aprendi a crescer, mas não de todo, como
fruta no pé, madurando. Hoje, como na canção, vivo do que faz meu braço e a Terra
manda. Fui lá e fiz, antes tarde os meus desígnios, afianço que cumpri o meu
dever até agora, conquanto não tenha mais nada pra dizer, tudo é relâmpago na
escuridão, pisando em falso diante das emboscadas, espias de tocaia e
desforras, sem âncora nem cais, as ciladas nas surdinas da morte, acossado pela
urgência, a perder o eixo nos moldes da lógica diante da desconstrução de tudo
e o eterno retorno. E de noite levanto insone entre estrelas de um céu que
sequer existe e a errar dos pés os caminhos do chão, pisadas sem direção pra
voar, voa vento, voa tempo, os segredos perdidos que se revelam na manhã
esquecida. Vejo o que não existe, a Alfa Centauro e a humanimaldade de Cummings,
o peito destroçado de amores escondidos que se perderam sem saudades nem
lembranças, apenas uma, definitivamente apenas uma reina no meu coração de cavaleiro
sem montaria, desmontado. E o mundo cheio de gente mal-agradecida a fazer da
cidade o istmo de sempre arrodeado de canavial e meretrício por todos os lados,
enquanto as pessoas vivem encapsuladas nas cavernas de si mesmo de não sair
jamais das janelas sem vida nas paredes desbotadas pela fé e desavença,
varrendo das ruas a sanidade de viver. Eu não sabia da dor, nunca soube, menino
que era e ainda sou, crescido de nada. Ontem não sabia nada, hoje muito menos,
sou labaredas mesmo que vulnerável, vou além dos extremos. Já fui longe demais,
acho, tanto por fazer. De que outro modo eu poderia viver, quem saberia perder? OUTRA: TINO DE CAÇADOR – Nunca levei jeito pra caçadas, nem queria. Mas com a
ruma de tios, um deles, me vendo menino taludo, já me queria com jeito de
homem: Hoje vai caçar comigo, seu cabra! Todo sábado, meio dia, eu escapulia.
Já vinha não sei quantas vezes eu enrolava e me esgueirava mundo afora. No
entanto, neste dia, não deu. O compadre Jaime me aplacou a fuga: Vai pra onde
menino? Hoje você não escapa, vai com a gente. E mostrava o risinho diabólico
dele. Meu tio logo chegou: Ah, capturou o fujão. Vambora. A gente amontava no
jipe e rumava pra mata pertinho. Pra quê tanta arma, tio? Cada espingarda dessa
é prum tipo de bicho: uma pra paca ou tatu, outra pra veados e o que aparecer
de graúdo, essas mais finas pros passarinhos. Caçar passarinho? Sim. Oxe, não
era pra mim não. Eu já havia soltado os das gaiolas do meu pai, arengava com os
meninos da rua por conta das suas petecas, coisa mais sem propósito, imagine
caçar passarinho, astúcias dessas, era pra mim não. Destá. Meu tio e o compadre
eram mateiros calejados, perseguiam impenitentes todos os bichos que
aparecessem na frente, vigilantes, armados até os dentes, com todo tipo de
cartucho no alforje e no cinturão, tudo muito extravagante e injusto, pareciam
mais cangaceiros de Lampião. Eles subiam afoitos pelas capoeiras e eu atrás,
arrastavam tudo nos peitos, mata escura, somente chiados, estalidos e zoadas
das mais estranhas, coisa de meter medo num sujeitinho como eu não
familiarizado com as surpresas da mata. Eu pensava em Cumadre Fulosinha e
noutras abusões, coisas que metem medo, e meu tio e o compadre Jaime sorriam
das minhas leseiras. Todavia, no meio da pisada, um canto estranho se fez ouvir
e, ao que parece, amoleceu o coração da gente bulindo na superstição, bastante
conhecido sinal de advertência, coisas das ocultas e sortilégios, parece,
adiava a impiedade. O compadre Jaime fez sinal de silêncio, psiu, aguçou as
ouças e disse: Tem coisa! Deitou os ouvidos no chão: É bicho grande, tomara que
não seja onça. Ah! É menor, parece mais veado. E ficou atento, ouvido no chão,
levantava e virava a cabeça para os lados. Por prevenção, vamos subir!, mandou,
e subimos cada um em árvores – eu mesmo mais que amedrontado deslizava o pé no
tronco, relei-me todo para conseguir me trepar no pé de não sei o quê, um toro
roliço que não dava nem para abarcar com os braços. Fiquei lá no galho,
balançando as pernas, atento ao que vinha. O barulho das patas nas folhas
aumentava e a música era mais audível, até então eu nem ouvia, mas agora estava
nítida: as pisadas e a música. Era coisa de veado, daqueles galhudos, com mais
de vinte chifres ocos e furados feito flauta, pra quando o vento soprar sair
aquela pungente sonoridade. Eu num disse! O compadre Jaime já acenava pro meu
tio, apontando, eu não via, ouvi quando disseram: É veado mesmo! Melhor ir
embora. Arrumamos as coisas e zarpamos pro jipe do lado de fora da mata. Bem na
saída já respirando o ar livre, perguntei a razão da desistência, explicaram
não ser dia apropriado para caça, era dia de reunião das proteções deles, dia
que não se deve caçar. Não ousavam contrariar as forças da natureza,
transgredir era arcar com consequências bastante funestas, coisas do encantado
que nunca se sabe. De caso pensado, retornamos, ficou pro próximo sábado.
Livrei-me mais uma pra nunca mais. (Historieta apresentada nas minhas
atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore, baseada
em material recolhido por folcloristas brasileiros). © Luiz Alberto Machado.
Direitos reservados. Veja mais aqui.segunda-feira, outubro 23, 2017
ERNESTO SÁBATO, EDWIGES DE SÁ PEREIRA, MARIA FIRMINA DOS REIS, ADMAURO, LUCIAH, FENELON & PNTANDO NA PRAÇA
PINTANDO NA
PRAÇA - Manhã ensolarada de sábado, nuvens em
trânsito e chuva passageira para amainar o calor, olhares dispersos, muita
conversa, afagos, afetos, telas, sons e solidariedade. Gente de muito tempo aos
abraços e apertos de mãos se perdia entre esboços de mãos inquietas na
imageninação dos cavaletes. Gente da mais profunda estima, parceiros, amigos,
irmãos que são e outros que se achegam entte coqueiros, bancos, flores de
outubro, transeuntes que não sei. Gente que nunca vi por ali entre livros de
Hermilo, de Ascenso, de outros palmarenses de ontem e de hoje: livros da
Biblioteca que é minha e de todos. A praça estava em festa, trânsito de idas e
vindas. Ali acontecia o mundo margeado pelo comércio alheio, passos incertos
por direções opostas, passando, chegando e indo embora. Gente que ia e vinha,
algumas interrogativas com toda movimentação: que droga é nove? Gente curiosa
que queria saber o que era aquilo, ugnorando as doidices estranhas de outros
doidos que vão além de ver e passar, comprar e vender. Gente do passado
ressuscitada, gente que sequer poderia ser gente, gente que veio doutras
cidades e até de longe para bulir lindamente no coração, mas gente, muita
gente. No anfietatro eu me esgoelava no palco cantando das coisas coração:
Pirangi, Martelada, Nina do Ripe, Severina de Acioly, Nunca chore por mim e
Desejo. Saudava quem chegava, assistia a tudo, a arte, na verdade, estava da
outro lado, bem na minha frente: a arte na plateia. Pincéis, lápis, tintas,
espátulas, riscos, brebotes, garatujas, cores, contemplação, paisagens,
inspiração, estalos, transpiração. O Sol dava o tom do que fervia na cabeça de
pintores, desenhistas, faz de conta e tudo o mais. Linaldo fez festa com um
jeito todo seu de cantar e tocar. Depois chamou Marquinhos e fizeram um duo no
mormaço da manhã. O que antes indecifrável nos rascunhos das telas, agora
tomava corpo: dava pra se ter ideia o que queria dizer cada um dos artistas na
moldura da vida. Zé Ripe deu show com coro da plateia e aplausos muitos: coisas
da terra e de poesia que nem devia mais sair mais do palco. Pintou-se o sete e
o escambau por toda a manhã pra mais de meio dia, coisas e ideais: a vida
pintou na praça e a gente passou a viver mais. Parabéns Paulo Profeta. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.sexta-feira, fevereiro 27, 2015
NIKI DE SAINT PHALLE, MARTÍN-BARÓ, LI TAI PO, RICOEUR & SAURA
A SOLIDÃO DE
NACHO, EL ROJO… - O menino de Valladolid cresceu
adolescendo no noviciado em Orduña aos 17 anos. Tornou-se viajante e foi pra
Villagarcía e, de lá, prAmérica Central. Estudava muito em Quito, fez filosofia
em Bogotá, bacharelou-se e seguiu prum Externato de El Salvador. Depois foi
professor na Centroamericana, viajou pra Frankfurt, bacharelou-se de novo na
Bélgica, retornou à San Salvador para lecionar psicologia na Academia de Santa
Ana. Contribuiu para a revista dos Estudios Centroamericanos, fez mestrado em
Chicago, onde, depois, também fez seu doutoramento em Psicologia Social. Acompanhava
de perto os conflitos de El Salvador, com a fundação do Iudop, escrevendo para
a revista costarriquenha Polómica. Foi professor na Venezuela, em Porto Rico,
em Bogotá, em Madrid e publicou seus livros e artigos científicos e culturais,
contemplando as sociedades alternativas da América Latina. Mas era tempo de opressão,
repressão e da anormalidade normal das injustiças sociais com suas anomalias na
violência estrutural. Vivia no meio da guerra civil financiada pelos USA, que
mantinham o governo militar repressor e os esquadrões da morte. Era 16 de
novembro daquele ano de 1989: ele foi executado no massacre da UCA, a chacina
promovida pelo exército salvadorenho. Um tiro na nuca e o mártir da teologia da
libertação sucumbiu juntamente com outros 5 professores jesuítas, mais a
caseira e sua filha de 16 anos. Os soldados do Atlacatl destruíram livros,
documentos e computadores e deixaram no local um cartaz político na tentativa
de imputar o crime à FMLN contra os “traidores da causa”. Não foi e a voz nunca
se calou. Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.
DITOS & DESDITOS -
É claro que ninguém vai devolver ao dissidente
preso a sua juventude; à jovem que foi violada a sua inocência; à pessoa que
foi torturada a sua integridade. desaparecidos para as suas famílias. O que
pode e deve ser publicamente restituído são os nomes das vítimas e a sua
dignidade, através do reconhecimento formal da injustiça do ocorrido e, sempre
que possível, da reparação material... Aqueles que clamam por isso. a reparação
social não pede vingança nem acrescenta cegamente dificuldades a um processo
histórico que já não é nada fácil. Pelo contrário, promove a viabilidade
pessoal e social de uma nova sociedade, verdadeiramente democrática...
Pensamento do filósofo e psicólogo social espanhol Ignacio Martín-Baró (1942-1989), uma das vítimas da chacina de El Salvador,
em 1989, que no seu estudo La violencia en centroamerica: una vision psicossocial
(Revista de Psicologia de ElSalvador, 1990), expressa que: [...] A verdade do povo latino-americano não está no seu
presente de opressão, mas na sua manhã de liberdade […].
Se toda forma de violência exige uma justificação, é porque não a tem em si.
O que leva à consequência de que a violência não pode ser considerada em
abstrato como boa ou má, o que contradiz uma das suposições implícitas da
maioria das abordagens psicológicas; a bondade ou maldade da formalidade
violenta advém do ato que a substantiva, isto é, daquilo que um ato tão
violento socialmente significa e historicamente produz. E é aqui que o caráter
ideológico da violência aparece claramente [...]. Já no seu livro Acción
y ideologia: Psicología Social desde Centroamérica (UCA, 1985), ele expressa
que: [...] Uma sociologia do conhecimento psicológico sobre violência e
agressão mostra que, com honrosas exceções, geralmente a “matéria violenta” que
é tomada como objeto de análise é o ato contrário o prejudicial ao regime
estabelecido, a agressão física individual, a violência delinquencial ou a
violência das massas, assumindo em todos esses casos que seu caráter negativo
deriva do dano causado à convivência sob a ordem social imperante. [...] A
exploração dos trabalhadores, sobretudo o campesino e indígena, a contínua
repressão a seus esforços organizativos, o bloqueio a satisfação de suas
necessidades básicas e às exigências para o desenvolvimento humano, e tudo isso
como parte de um funcionamento “normal” das estruturas sociais, constitui uma
situação em que a violência contra as pessoas está incorporada à natureza da
ordem social, bem chamado de “desordem organizada” ou “desordem estabelecida”.
[...] A violência aberta como uma possibilidade ao ser humano assumida e
desenvolvida através do processo de socialização encontra sua formalização
última em sua justificação. [...] todo ato de violência requer uma
justificação social e, quando carece dela [...] a gera por si mesma.
[...]. Já no seu estudo O papel do psicólogo (Estudos de Psicologia, 1996),
ele expressa que: [...] A consciência não é simplesmente o âmbito privado do
saber e sentir subjetivo dos indivíduos, mas, sobretudo, aquele âmbito onde
cada pessoa encontra o impacto refletido de seu ser e de seu fazer na
sociedade, onde assume e elabora um saber sobre si mesmo e sobre a realidade
que lhe permite ser alguém, ter uma identidade pessoal e social. A consciência
é o saber, ou o não saber sobre si mesmo, sobre o próprio mundo e sobre os demais
[...] Ao assumir a conscientização como horizonte do quefazer psicológico,
reconhece-se a necessária centralização da psicologia no âmbito do pessoal, mas
não como terreno oposto ou alheio ao social, mas como seu correlato dialético
e, portanto, incompreensível sem a sua referência constitutiva. Não há pessoa
sem família, aprendizagem sem cultura, loucura sem ordem social; portanto, não
pode tampouco haver um eu sem um nós, um saber sem um sistema simbólico, uma
desordem que não se remeta a normas morais e a uma normalidade social [...]
Uma simples consciência sobre a realidade não supõe, por si só, a mudança
dessa realidade, mas dificilmente se avançará com as mudanças necessárias
enquanto um véu de justificativas, racionalizações e mitos encobrir os
determinismos últimos da situação dos povos centro-americanos. A
conscientização não só possibilita, mas facilita o desencadeamento de mudanças,
o rompimento com os esquemas fatalistas que sustentam ideologicamente a
alienação das maiorias populares [...] os problemas específicos dos
nossos povos sem as proteções dos marcos teóricos apriorísticos, que filtram,
de forma enviesada, a realidade e limitam, não isentos de interesses, nossa
capacidade de compreensão [...]. No seu artigo acadêmico Para uma
psicología da Libertação (Alínea, 2011), ele chama atenção para a
necessidade de: [...] fazer algo que contribua significativamente para dar
resposta aos problemas cruciais de nossos povos"? [...]. Veja mais
aqui, aqui e aqui.
ALGUÉM FALOU: A vida...
nunca é como a gente imagina. Ela te surpreende, te espanta, e te faz rir ou
chorar quando você não espera. Eu amo o redondo, as curvas, a ondulação, o mundo
é redondo, o mundo é um seio. A música é a almofada mais macia do mundo. A pintura acalmou o caos que abalava minha alma. Pensamento da pintora, escultora e cineasta francesa Niki de Saint
Phalle (1930-2002), que no seu livro Mon Secret (Différence, 1994),
ela expressa que: [...] Meu pai, secretamente, teve
que sufocar em sua vida, mas faltou-lhe a coragem de uma verdadeira revolta. A garotinha
que eu era será a única vítima de sua lamentável rebelião. [...]. Veja mais aqui e aqui.
LAMENTO DO GUARDIÃO DA FRONTEIRA – O poeta predestinado ou
imortal chinês Li Tai Po (701-762)
possui uma obra composta de mais de mil poemas reunidos em vinte e quatro
livros e divididos em doze cadernos, nos quais manifesta sua imaginação
extravagante ao comunicar sua personalidade e espírito livre que exorta a vida
faustosa, suas interações com a natureza, o amor pelo vinho, a amizade e o
olhar aguçado sobre a vida, tendo sido condenado à morte por mais de uma vez,
suicidando-se embriago ao se atirar no rio Yang-tsé Kiang. Dele destaco o poema
Lamento do Guardião da Fronteira,
inserido no ABC da Literatura, de Ezra Pound, traduzido por Augusto de Campos: Pelo Portão do Norte sopra o vento carregado
de areia, / solitário desde a origem do tempo até agora! / Árvores caem, no
outro a relva amarelece. / Galgo torres e torres / para vigiar a terra bárbara:
/ desolado castelo, o céu, o amplo deserto. / Nenhum muro de pé sobre esta
aldeia. / Ossos alvos com milhares de geadas, / altas pilhas, cobertas de
arvores e grama; / quem fez com que isto acontecesse? / Quem trouxe a cólera
imperial flamante? / Quem trouxe o exército com tambores e timbales? / Bárbaros
reis. / De uma primavera suave a um outono de sangue e sangue, / trezentos e
sessenta mil, / e tristeza, tristeza como chuva. / Tristeza para ir, tristeza
no regresso. / Desolados, desolados campos, / e nenhuma criança de campanha
sobre eles, / não mais os homens para a ofensa e a defesa. / Ah! Como sabereis
de toda esta tristeza no Portão do Norte, / com o nome de Rihaku esquecido / e
nós, guardiões, pasto de tigres? Veja mais aqui, aqui e aqui.
FLÁVIA, CABEÇA, TRONCO E MEMBROS – O texto teatral – ou como assinala o próprio autor: tragédia ou comédia
em dois atos -, Flávia, cabeça, tronco e
membros (L&PM, 1977), do saudoso escritor, dramaturgo, tradutor,
desenhista, humorista e jornalista Milton Viola Fernandes, ou simplesmente Millôr Fernandes, é um dos primeiros
projetos de uma mulher liberada em 1963, que usa seu fascínio e liberdade ao
absurdo das caricaturas ao abordar sobre poder, força e a permanente capacidade
de mistificação inerente ao ser humano. Destaco a cena do segundo ato, em que o
Juiz Paulo Moral pega um papel na mesa e fala: Mao Tsé me mandou um telegrama, aplaudindo minha sentença. Esse me
compreende, sabe o que estou dizendo. Que nosso irmão querido é uma ameaça no
espaço. Constante. Nos roça mais de que devia. Nos aperta mais do que podia. É
isso. Já nos aperta. Já somos gente demais. Assim, se não temo coragem de fazer
uma eliminação sumária é preciso ao menos estimular os que têm e eliminam. (Bem
coloquial). Inda ontem mesmo estava eu as seis horas da tarde na Avenida
Copacabana e o fantasma da superpopulação esbarrou no meu braço. Quase me
estrangulou. E além de tanta gente chafurdando nas ruas, milhões no aconchego
de alcovas, camas de randevus e até leitos burgueses preparando mais gente.
Mais gente e mais, mais gente, muito mais, muito mais gente. Até minha velha
senhora espera um neto! Alguém pode evitar que se procrie? (Quase gritando). Eu
absolvo todos! São todos livres para o novo exemplo. Vocês sabem, vocês sentem,
se já não sentiam, se já não sabiam: o homem abdicou da alma. O avião da asa.
Vem aí o omelete sem ovo! (Assina, rápido, um papel com uma grande pena de ave,
colorida. Em tom geral). Ide, missa est. [...] (Em tom terrível) Posso. Pelas chagas de um Cristo fracassado, posso.
Posso pelos princípios da força e da fraqueza. Posso por uma visão essencial da
Queda. Pela felicidade que poucos merecem e menos compreendem também posso.
Posso pois voltei ao Sinai e trouxe tabuas de matéria plástica. Novas
revelações, novas palavras, novos vícios, erros novos. Quem será condenado se
de repente explodir um astronauta e podre e em fragmentos ficar em torno de nos
girando o seu fedor por toda Eternidade? Quem será condenado? Belle époque, lei
seca, padrão-ouro, melindrosas, não morrestes em vão! O fogo é fresco, a água
seca; o infinito uma limitação. Pela última dor do ser humano, posso. Posso por
Hiroshima, amor de mis amores. Posso. Eu, Paulo Belmonte Joaquim Moral, juiz,
posso. Pelo direito infernal, pela Santa Moral, por algo que me dói aqui no
peito, pelos dez mandamentos idiotas, pela jura de Hipócrates hipócrita, por
todos os códigos mais feitos, pelo feroz direito da impotência, posso,
Meritíssimo, posso. Posso até fazer nascer um dia novo! (Sem transição, apenas
mudando de tom). E além disso estou armado. (Puxa violentamente uma Lugger da
toga. Arma-a com ruído violento. Avança lenta e firmemente para a frente. O
promotor vai recuando rapidamente, some. Moral continua avançando, com o olhar
firme no público. Quando atinge a linha do proscênio o pano cai). Fim. Veja
mais aqui, aqui, aqui e aqui.NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS
Imagem: Acervo ArtLAM . Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...
-
Imagem: Acervo ArtLAM . Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...
-
A FEBRE DA PAIXÃO – I - Em tua carne febril de manhãs amorosas a libertação do poema pelo canto que ensaio presente em meu querer desp...
-
A arte da pintora sérvia Nevena Kostic SUBMISSÃO - Esta noite, ah, esta noite e você como archote na minha escuridão. Não digo na...
-
A ÚLTIMA: ZÉ BILÔLA NA FITA - Charge do Márcio Baraldi - Eita! Mas num é que depois de perder o último vagão do trem da farra tod...
-
A arte de do pintor, desenhista, gravador e escultor austríaco Rudolf Hausner (1914-1995) LITERÓTICA: DE TODO JEITO É BOM - ...

















