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domingo, janeiro 23, 2022

ELLA WILCOX, NOAM GORDON, KELLY VERDANA, TARIK ALI, MORGAN LLYWELYN, JOUBERT & ÁLVARO LINS

 

 

TRÍPTICO DQP – Só a poesia torna a vida suportável...- Ao som do Klavierkonzert nº 20 in d-moll KV 466 - 1. Allegro 2. Romance 3. Rondo: Allegro assai (1785), de Wolfgang Amadeus Mozart, na interpretação da pianista austríaca Ingrid Haebler, com a Klavier London Symphony Orchestra Dirigent: Alceo Galliera – Tempoutros, naveganamnese... Jovem impúbere e o teatro à flor da pele. Andava às tontas até ser encaminhado por Enock Queiroz, Gildásio Santana e Maurício Melo, afora o amável casal Dudu e Léa – esta atriz de muitos palcos -, pra conversar com seu Odyllo da banca de jornal - que era Costa para todos e Ferreira como ator. Sim, dos palcos de Fenelon Barreto e que protagonizou, entre outras peças, o Náufrago do Mafalda. Dele as instruções para melhor conduzir a Adoração que eu queria montar com o Luizinho Barreto. A paciente e dedicada ilustração dele para mim era de suma importância, ouvia-o atentamente, experiência que contava. Tantas vezes a ele recorri para esclarecer esta ou aquela cena, sempre saindo do encontro mais pujante quanto invencível. Depois do malogro da empresa, todos os dias eu pegava o jornal diário e indagava de dona Maria: Cadê seu Odyllo? E de lá de dentro ele se aproximava com um bom dia e troca de algumas ideias: Este o sobrevivente das tragédias! Ele com um meio sorriso, reiterava: Nas peças de Felelon só quem escapava mesmo era Enock que era o ponto e fugia antes do final, senão nem ele saía vivo! Ressuscitado depois de tantas apresentações, guardava ele as boas lembranças de quantas vezes não enlouqueceu em cena, quantos naufrágios, quanto enlutamento e desespero. E a gente se ria contando do sucesso que explodia quando fechava o pano. Era a glória! Os olhos dele chega marejavam. Pois bem, o tempo passou e, dia deste, do inesperado me aparece a conterrânea Odyla Gorette Fronrath em vídeo e fotos. Sim, com o seu Vida aos 50 – Teste os seus limites, enfrente os seus medos e não deixe que nada impeça você de pelo menos tentar. Conversa vai e vem, seu Odyllo? Sim. Nossa, que maravilha! E conversamos um bocado e com ela outra lembrança, um dia que o pai dela me falou do jornalista, advogado e crítico literário da Academia Brasileira de Letras, Álvaro Lins (1912-1970): Durante algum tempo – e ainda hoje em certos meios – a história nada mais significava do que um peso morto, isto é: luxo de erudição, para uns; amontoado de fatos e datas, para outros. Tudo mais ou menos frio e inerte como se o passado fora um outro mundo, uma região estrangeira. Pois há quem não compreenda a verdadeira significação do tempo; neste caso, o que está para trás sendo uma paisagem distante e indiferente. Sim, foi dele que ouvi pela primeira vez o nome do imortal acadêmico caruaruense. E o que dissera me soava como um alerta para os que têm olhos e não veem, ouvidos e não ouvem, só se arrastam e se debatem espíritos rasos e fúteis do ódio e do egoísmo na tagarelice da insipidez do proselitismo, nas tolices de endeusamentos conservadores das religiões e superstições ou dos preconceitos das convicções e das disparatadas panaceias carregadas de recalques e com todo o tipo de restrição disso ou daquilo. Sim, uma advertência para quem bebeu as águas nos infernos de Lete para olvidar do passado inglório da história, como real pusilanimidade, pois se prestar atenção a um detalhe irrecorrível, saberá que, por maior que seja a indiferença, as ninfas das nove noites amantes de Mnemósine estarão sempre em riste. Por isso só a poesia, viva.

 


Menoscabo aos pávidos... Imagens da artista canadense Claire Wilks (1933-2017). - Lá estava eu no meio do Trilema de Epicuro e exumado pelo bombardeio estúpido daqueles do Efeito Dunning-Kruger. Ninguém merece. É como se eu esquecesse o que repetia o escritor estadunidense Noam Gordon (1926-2021): A vida é gloriosa, mas pode ser considerada cruel. Sim, mais do que nunca é preciso sobreviver às bravatas dos insensatos com seus dislates e platitudes! Ouço bem Tarik Ali: Como vivemos nossas vidas não depende, infelizmente, apenas de nós. Circunstâncias, boas ou ruins, intervêm constantemente. Uma pessoa próxima a nós morre. Uma pessoa não tão próxima de nós continua vivendo. Todas essas coisas afetam a forma como vivemos... Afinal, vivemos em um mundo onde as ilusões são sagradas e a verdade, profana. Ah, não! Se os desmiolados esdrúxulos pintam de azul o horror e querem por que querem impor sua bizarrice sobre os telhados e peitos abertos nas calçadas e ruas para contaminar a miséria tenebrosa como se fossem ofertas faustosas, estou careca de saber daquela do moralista francês Joseph Joubert (1754-1824): O medo depende da imaginação; a covardia, do caráter. E muito mais do que fez a poeta estadunidense Ella Wheeler Wilcox (1850-1919): Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar, transforma homens em covardes. Para quem acha que não há quem salve a dor da traição, sigo adiante.

 


Truz era o meu verbo... - Imagem da artista visual alemã Silke Host - Quantas quedas, tombos e topadoutras, não herdei sozinho as múltiplas maldições terceiromundistas. Se este é o meu pecado, mantenho-me desobediente! Ao procurar identificar qual o meu verbo, ouvi algo mais ameno e afetivo da enfermeira e professora Kelly Graziani Giacchero Vedana: Se perdoe. Perdoe pela falta de tempo consigo; pelas vezes que disse sim quando deveria ter dito não; perdoe seu passado, você não sabia das coisas que sabe hoje. Não seja severa assim. Você não merece carregar todo esse peso nas costas. Olhe no espelho e diga: eu te perdoo, tudo vai ficar bem daqui para frente. E lá estava eu na InspirAção para melhor ouvir e entender o que me dizia Morgan Llywelyn: A intuição é a voz do espírito dentro de você. O único poder que um homem tem que não pode ser tirado dele é o poder de não fazer nada. Nós nascemos sozinhos e morremos sozinhos, eu aceito isso. Mas por que, Deus, temos que ficar sozinhos no meio? Os corpos se desgastam para nos lembrar que são temporários e nos forçam a pensar mais em nossos espíritos. Sim e se hoje tudo anda em marcha à ré pelas trevas da ignorância maldita, não se pode ficar com um pé atrás: um passo a mais e outro adiante, não há por que nem como se calar. Até mais ver.

 

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segunda-feira, outubro 23, 2017

ERNESTO SÁBATO, EDWIGES DE SÁ PEREIRA, MARIA FIRMINA DOS REIS, ADMAURO, LUCIAH, FENELON & PNTANDO NA PRAÇA

PINTANDO NA PRAÇA - Manhã ensolarada de sábado, nuvens em trânsito e chuva passageira para amainar o calor, olhares dispersos, muita conversa, afagos, afetos, telas, sons e solidariedade. Gente de muito tempo aos abraços e apertos de mãos se perdia entre esboços de mãos inquietas na imageninação dos cavaletes. Gente da mais profunda estima, parceiros, amigos, irmãos que são e outros que se achegam entte coqueiros, bancos, flores de outubro, transeuntes que não sei. Gente que nunca vi por ali entre livros de Hermilo, de Ascenso, de outros palmarenses de ontem e de hoje: livros da Biblioteca que é minha e de todos. A praça estava em festa, trânsito de idas e vindas. Ali acontecia o mundo margeado pelo comércio alheio, passos incertos por direções opostas, passando, chegando e indo embora. Gente que ia e vinha, algumas interrogativas com toda movimentação: que droga é nove? Gente curiosa que queria saber o que era aquilo, ugnorando as doidices estranhas de outros doidos que vão além de ver e passar, comprar e vender. Gente do passado ressuscitada, gente que sequer poderia ser gente, gente que veio doutras cidades e até de longe para bulir lindamente no coração, mas gente, muita gente. No anfietatro eu me esgoelava no palco cantando das coisas coração: Pirangi, Martelada, Nina do Ripe, Severina de Acioly, Nunca chore por mim e Desejo. Saudava quem chegava, assistia a tudo, a arte, na verdade, estava da outro lado, bem na minha frente: a arte na plateia. Pincéis, lápis, tintas, espátulas, riscos, brebotes, garatujas, cores, contemplação, paisagens, inspiração, estalos, transpiração. O Sol dava o tom do que fervia na cabeça de pintores, desenhistas, faz de conta e tudo o mais. Linaldo fez festa com um jeito todo seu de cantar e tocar. Depois chamou Marquinhos e fizeram um duo no mormaço da manhã. O que antes indecifrável nos rascunhos das telas, agora tomava corpo: dava pra se ter ideia o que queria dizer cada um dos artistas na moldura da vida. Zé Ripe deu show com coro da plateia e aplausos muitos: coisas da terra e de poesia que nem devia mais sair mais do palco. Pintou-se o sete e o escambau por toda a manhã pra mais de meio dia, coisas e ideais: a vida pintou na praça e a gente passou a viver mais. Parabéns Paulo Profeta. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Vital Farias: Sagas brasileiras, Taperoá & solo; da pianista Magda Tagliaferro (1893-1986): Rosa Amarela, Saudade das selvas brasileiras & Impressões seresteiras, todas de Heitor Villa-Lobos; do pianista Rogerio Tutti: Sonata ao luar do sertão, Deep in your soul & Libertango de Astor Piazzolla; da cantora Mônica Salmaso: Voadeira, Iaiá & Noites de gala, samba na rua. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] romance é algo mais que uma sucessão de aventuras: é o testeminho trágico de um artista diante do qual ruiiram os valores seguros de uma comundiade sagrada. [...] pavoroso processo de desmistificação do mundo [...] Os homens escrevem ficções porque estão encarnados, porque são imperfeitos. Um Deus não escreve romances. Trechos extraídos da obra O escritor e seus fantasmas (Companhia das Letras, 2003), do escritor e artista plástico argentino Ernesto Sábato (1911-2011). Veja mais aqui e aqui.
 Poema do dramaturgo, advogado, professor e poeta palmarense Fenelon Barreto, em placa na Praça Paulo Paranhos – Palmares - PE. Veja mais aqui e aqui.

DE SENTIR & VIVER - [...] – Que ventura! = então disse ele, erguendo as mãos ao céu – que ventura podê-lo salvar! O homem que assim falava era um pobre rapaz, que ao muito parecia contar vinte e cinco anos,e que na franca expressão de sua fisionomia, deixava adivinhar toda a nobreza de um coração bem formado. O sangue africano refervia-lhe nas veias; o mísero ligava-se à odiosa cadeia da escravidão; e embalde o sangue ardente que herdara de seus pais, e que o nosso clima e a servidão não puderam resfriar, embalde – dissemos – se revoltava; porque se lhe erguia como barreira – o poder do forte contra o fraco!... Ele entanto resignava-se; e se uma lágrima desesperação lhe arrancava, escondia-a no fundo de sua miséria. [...]. Trecho extraído da obra Úrsula (Presença/INL, 1988), da escritora Maria Firmina dos Reis (1825-1917), considerada a primeira romancista brasileira.


Coqueiros no céu de Palmares: Praça Paulo Paranhos, Palmares – PE.

MULHER
De ser não sei, na seriação dos seres,
Que mais preocupa e que se estuda tanto:
Alma, razão de agir, paixões, misteres,
A essência do teu riso e do teu pranto!
Magos, poetas, filósofos, no entanto,
Mergulhando-as na orgia dos prazeres,
Ou elevando nas palmas como a um santo,
- Controversos que são quanto às mulheres!
Dessas vacilações, desses enganos
Surge o dogma, imutável, transcendente
Que ao homem sagra “senhor” entre os humanos...
E o dono, e chefe, e rei – por que padeces,
Ó forte, ó sábio, e vives tão somente
Na razão desse mal que mal conheces?!
Poema extraído da obra Horas inúteis (Imprensa Oficial, 1960), da educadora, jornalista, poeta e ativista feminina Edwiges de Sá Pereira (1884-1958).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

A poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez, participando do evento Pintando na Praça – Palmares – PE. Veja mais aqui & aqui.

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ADMMAURO GOMMES
Recepcionando o poeta e professor Admmauro Gommes na exposição do projeto Pintando na Praça, na Biblioteca Fenelon Barreto, Palmares – PE. Veja mais aqui.
 

segunda-feira, agosto 07, 2017

BIBLIOTECA FENELON, HERMILO, MILTON SANTOS, GILBERTO FREYRE, ROGER CHARTIER & JURANDIR FREIRE COSTA


A VIDA ENTRE LIVROS & LEITURAS – Imagem: foto da Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto - Sempre fui um menino travesso de fechaduras, brechas, postigos e combongós. Fresta que fosse, lá estava eu curioso peregrino e contumaz. Vencia buliçoso todas as dependências da casa, exceto um cômodo sempre de portas fechadas. Bastava eu me aproximar, surgia a advertência de mãe para eu me afastar dali. Vez ou outra eu esbarrava nela, sempre fechada, inheto por vencer a barreira, um interdito. Só muito depois, certa feita, estava entreaberta, invadi: lá estava meu pai entre livros e estantes. Ousei tocar um deles, logo a censura: mexa não! Tomava distância, fazendo de nem nem, só esperando momento oportuno para atacar. Doutra feita, meu pai levantou-se, remexeu nalguma coisa e me entregou um volume colorido que muito me deixou afoito no afã de descobri o segredo ali contido. Sentei-me no chão todo ancho pela posse, a folhear fisgado nas figuras. Daí a pouco minha mãe ralhava: venha, seu pai está trabalhando. Trabalho? Sim, trabalho. Maínha, trabalho. Não, seu pai está ocupado, venha. Bastava ela descuidar e eu lá mexedor ao lado dele: Maínha, trabalho. E imitava meu pai concentrado nos impressos. Eles riam. Outra vez, inadvertidamente, puxei um volume maior do que eu na estante, um desastre. Acorreram em socorro e me assustei com a aflição deles, enquanto eu repetia sem parar: trabalhar, maínha, trabalhar. Nem adiantava. Assim fui crescendo e aprendendo furtivamente a invadir aquele ambiente, vasculhando volumes e páginas às escondidas. Não sei quantas vezes fui flagrado por minha mãe enquanto eu babava com as imagens de mulheres nuas, as que mais me apeteciam. O tempo passou até aprender a ler e adquiri o hábito até hoje, tornando-me um leitor assíduo. Com essas leituras aprendi que o desejo é uma força de ação latente, somos todos seres de desejos entre escolhas, tornando-nos deuses-homens criadores de um mundo fragmentado e escravizados pelas ilusões do orgulho, da vaidade, das ambições, arrogâncias, apegos, envolvidos entre o ter e o ser. Com os livros compreendi e optei pelo ser, o ter seria uma consequência, nada mais. Com as recorrentes leituras me preparei para experimentar do sofrimento, do sacrifício, das falhas, de suportar as provas circunstanciais, enfrentando de forma reflexiva aos acontecimentos. Passei a discernir que todo sofrimento e adversidades infligidas nada mais eram que aprendizados que não careciam de explicação, apenas sentir e apreender. A despeito de todos os obstáculos, nunca me dei conta das dores e tribulações porque enriqueceram minha espiritualidade, vez que ao me harmonizar com a aflição do mundo, pude me tornar mais complacente e tolerante, e isso me fez senhor de mim mesmo: as minhas experiências me ensinaram as lições da vida. Graças a elas fortaleci meu caráter e me libertei dos apetites, disciplinando a mente para o trabalho construtivo com o estabelecimento de propósitos para uma vida útil e plena: a de um buscador sincero da verdade, com senso de moral e responsabilidade de prático e realista na direção da concretização digna do meu projeto de vida. Nunca desisti. Não me vi vencido pelas vicissitudes que serviram para promover um ideal voltado para o desenvolvimento e oportunidade para servir à humanidade. Se não venci aos olhos alheios, pouco importa, purguei falsas concepções, conheci o amor, a felicidade e a verdade da vida, a natureza humana e o propósito real da existência. Valeu a pena, só valeu a pena. Reconheci que trabalhei e sofri por um ideal: difundir a Luz em um mundo obscuro de plena barbárie. Fiz disso a minha habilitação e passei a ter a noção da força motriz pro incentivo, satisfação e entusiasmo de superar os desafios lançados na capacidade de criar oportunidades e na construção de um ideal altruístico: o acesso para todos à informação e ao conhecimento no desenvolvimento do pensamento e bem-estar humanos. Aliando as experiências vividas ao hábito da leitura para reflexão, passei a sabedor do quão importante é viver e interagir com a experiência dos outros: eu vivo porque aprendi a viver com todos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 
Imagem: com o bibliotecário João Paulo e alunos da rede pública municipal durante a Semana do Centenário de Hermilo Borba Filho, na Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, em Palmares – Pernambuco.

CONFIDENCIAL

Fenelon Barreto

... E agora é a gente vil nos censurando! É o riso
Das amantes que eu tive e das mulheres feias.
Meia dúzia de maus, de cérebros sem juízo,
Que desejam colher aquilo que semeias.
Querem mesmo findar o sonho que idealizo.
Gostam também de entrar nas relações alheias,
Tão cínicas enfim, que às vezes é preciso
Mostrarmos o rancor que ferve em nossas veias.
Crê em minha afeição, minha jovem rosada!
E longe dessa turba estúpida e maldita
Teremos algum dia a paz desejada!
E após ouvir-me assim, ei-la a sorrir... repleta
Desse orgulho que tem toda mulher bonita
Convicta de possuir o coração de um poeta.
Poema extraído da antologia Poetas de Palmares (Palmares, 1973), seleção e introdução de Juareiz Correya.

FENELON BARRETO – O dramaturgo, advogado, professor e poeta palmarense Fenelon Barreto, colaborou em diversos jornais e revistas, deixando inéditos uma gramática portuguesa e um livro sobre contabilidade. Autor de peças teatrais como Adoração, O náufrago da Mafalda, entre outras tantas tragédias que foram encenadas. Veja mais aqui.

A BIBLIOTECA – Desde Alexandria, o sonho da biblioteca universal excita as imaginações ocidentais. [...] a leitura pública supõe que a biblioteca saia dos seus muros, vá ao encontro dos leitores, com ônibus-bibliotecas, as bibliotecas circulantes instaladas nos bairros, as bibliotecas nas empresas. [...] É um movimento cuja inspiração continua sendo útil. Neste mesmo momento em que estamos conversando, está ocorrendo uma revolução técnica, com o que ela tem de promissor e temerário. É por isso que se deve conservar, no interior do debate sobre a biblioteca eletrônica, senão as fórmulas ou os instrumentos da leitura pública, ao menos o espírito que ela possuía. [...] as bibliotecas, sejam elas nacionais, públicas, ou universitárias, tornam-se um recurso absolutamente indispensável [...]. Trechos extraídos da obra Aventura do livro: do leitor ao navegador (Unesp, 1998), de Roger Chartier. Veja mais aqui & aqui.

OS AMBULANTES DE DEUS – [...] O período foi de calamidade: houve um carnaval triste porque tudo o que ia acontecer estava pairando no ar, na cidade e no rio [...] é, houve um carnaval triste, com uns pobres caboclinhos descendo a ladeira, arcos e flechas na batida monótona e sem gosto, penas descoloridas, cocares desbotados, dançava prum lado e outro pra nem-te-ligo, mal acertava, o passo, assim mesmo persistiram na beira do rio os três dias convencionais, mas os da jangada nem bem nem mal prestavam atenção, não prestavam, estavam mesmo encafifados, havia coisa no ar, estava para acontecer, aconteceu. Houve um golpe militar, um tritíssimo golpe militar em nome da liberdade; e nesse golpe militar viam-se cabeça rolando no meio da rua, pernas penduradas nos fios elétricos, testículos nos açougues, intestinos enlaçados; e houve a morte lenta, conseguida depois de cada centímetro de dor; e houve um morto em cada casa e os homens se transformaram em inimigos dos homens e houve paradas militares e os civis se refugiaram em tocas de bichos; e a jangada teve de permanecer parada à espera de ordens; e houve viúvas puxando pelos cabelos os cadáveres dos maridos no meio da rua; e houve mortos que mesmo depois de mortos vinham passear no meio da rua, as feridas abertas, de cara triste, e os soldados passavam e atiravam neles e abriam novas feridas e riam e bebiam; e houve quem dissesse que ia chegar um vaso de guerra para bloquear a fuga dos subversivos pelo rio e as patrulhas passaram a policiar as margens e vez por outra, por desfastio, davam rajadas de metralhadoras nos viajantes da jangada; e houve mais: missas negras, necrofilia, torturas do coração, luto perene, lágrimas de sangue, empalamentos, pesadelos revividos, interrogatórios indolores, fornos de cremação, hinos nacionais, oratória democrática e desfiles. [...] De há muito já não eram mais eles mesmos, também ninguem o era na cidade, mas disto não sabiam; e quem era nos antigamentes  gente humana podia ser agora uma pedra, uma partícula de pó, um fruto podre, ou no vice-versa, quem fora um torrão de areia, nos presentes podia ser um homem que gritava ou uma mulher que chorava, uma criança que engatinhava, descangotada a certeza, tudo nos arrevesados da sorte e do destino, cidade quase vaia de tão culposa, a galiqueira campeando pelos males da fornicação e por mui fermosas que ainda fossem as adolescentes a sustança dos tutanos aquosa era, o que as tornava umas desinfelizes com olhos-de-peixe-morto, a alegria ida [...]. Trechos extraídos da obra Os ambulantes de deus (Civilização Brasileira, 1976), do escritor, dramaturgo, tradutor e advogado Hermilo Borba Filho. (1917-1976). Veja mais aqui.

URBANIZAÇÃO BRASILEIRA - [...] Em nosso país, já conhecemos desde muito uma flexibilização tropical do trabalho, que é o mecanismo pelo qual se criam tantos empregos urbanos, evitando a explosão das cidades. A forma como se dá o processo de involução urbana assegura trabalho para centenas de milhares de pessoas dentro das cidades. Essa é uma pergunta crucial: como será o trabalho nos próximos anos? Da forma como ele for, dependerá a forma como a urbanização se dará, também, porque aí pode estar a semente de nova consciência política. Ora, a vontade política é o fator por excelência das transfursões sociais. Nesse particular, as tendências que a urbanização assume neste fim, de século aparecem como dado fundamental para admitirmos que o processo irá adquirir dinâmica política própria, estrutural, apontando para uma evolução que poderá ser positiva se não for brutalmente interrompida. Trecho extraído da obra A urbanização brasileira (EdUsp, 2009), do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001. Veja mais aqui.

A MULHER - [...] Mas através de toda a época patriarcal – época de mulheres franzinas o dia inteiro dentro da casa, cosendo, embalando-se na rede, tomando o ponto dos doces, gritando para as mulecas, brincando com os periquitos, espiando os homens estranhos pela frincha das portas, fumando cigarro e às vezes charuto, parindo, morrendo de parto; através de toda a época patriarcal, houve mulheres, sobretudo senhoras de engenho, em quem explodiu uma energia social, e não simplesmente domesrtica, maior que a do comum dos homens. Energia para administrar fazendas, como as Donas Joaquinas do Pompeu; energia para dirigir a política partidária da família, em toda uma região,c Omo as donas Franciscas do Rio Formoso; energia guerreira, como a das matronas pernambucanas que se distinguiram durante a guerra contra os holandeses, não só nas duas marchas, para as Alagoas e para a Bahia, pelo meio das matas e atravessando rios fundos, como em Tejecupapo, onde é tradição que elas lutaram bravamente contra os hereges. Trecho do estudo socioantropologico A mulher e o homem, extraído da obra Sobrados e mocambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano (José Olympio, 1968), do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987). Veja mais aqui.

O AMOR HOJE - [...] O amor romântico, ameaçado de perder o que lhe dava vitalidade – os atrativos do sentimento, da privacidade e da formação da identidade -, parece cada dia mais restrito aos episódios de êxtase sentimental e sexual. Seu estatuto é semelhante ao dos ideais emocionais arcaicos: belos e luminosos no passado ou em recintos fechados; frágeis e desbotados no presente e ao ar livre. Resta, portanto, como aconselha Solomon, procurar inventar um “neo-romantismo” mais comprometido com o mundo e, até lá, “ser humildes quanto a nosso entusiasmo” pelo amor erótico. Sem isso, o declínio do amor-paixão pode deixar um vazio identitário que não sabemos como ocupar. Durante séculos, a metáfora amorosa nos ensinou a buscar a felicidade na companhia do outro e a acreditar que esse ideal era imortal. Hoje, trata-se de pensar no que significa “outro”, “companhia”, “felicidade” e “ideal imortal”, para não termos de nos perguntar, como a Macabéa de Clarice Lispector, para que serve a felicidade. Trecho extraído da obra Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico (Rocco, 1998), do psicanalista e professor Jurandir Freire Costa. Veja mais aqui.

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Imagem: obras teatrais de Hermilo Borba Filho. Veja mais aqui.

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sábado, setembro 05, 2015

AMAZÔNIA, CAGE, JOSUÉ DE CASTRO, UGARTE, FENELON, KARITA, SONREL & WELSH.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DIA DA AMAZÔNIA – Encontra-se nas enciclopédias que, no Brasil, chama-se Amazônia, a região amazônica ou simplesmente região Norte, a parte setentrional do país, cujas características são: uma vasta bacia hidrográfica, densa cobertura florestal e extrema rarefação demográfica. Dentro do Brasil, a Amazônia compreende os Estados do Pará, Amazônas, Acre, Rondonia, Roraima e Amapá. Nessa região se encontra a floresta amazônica, a maior selva equatorial do mundo. No livro Amazônia, a Menina dos Olhos do Mundo (Civilização Brasileira, 1992), o poeta Thiago de Mello assim se refere a ela: A questão amazônica pode ser complexa, mas não é complicada. Trata-se do encontro do equilíbrio entre a ocupação, a utilização das riquezas da floresta e a preocupação do que ela tem de melhor e mais precioso para o benefício da vida humana. Quer dizer, o que ela guarda dentro dela, nasce dela e vive dela. Ninguém pretende que a floresta seja intocável e conservada como se fosse um museu. Afinal, desde que o primeiro Índio abateu a primeira árvore para fazer a sua canoa ou o esteio de sua maloca e matou a primeira onça e derrubou o primeiro pavão para adornar-se com as suas penas coloridas – que o homem vem convivendo e usando a floresta. Convivência, entretanto harmoniosa. Como a que ainda hoje mantém com a floresta o caboclo a que habita o coração das matas. O que se pretende é uma utilização racional, respeitosa, que nem degrade nem acabe com ávida do verde. Do jeito que o homem a vem maltratando, sobretudo nos últimos vinte anos, o futuro da floresta pode ser negro, ou vermelho, que é a cor, que segundo os cientistas, terá o deserto que a ela se transformaria. E curtindo as imagens cinematográficas ao som dos acordes de A floresta amazônica de Heitor Villa-Lobos e o Amazonia de Egberto Gismonti, posso entoar a minha crença: Convem lembrar da vida aos olhos de todas as manhãs. Convém lembrar que há a terra dos pés de todas as cores, coisas, raças e crenças. Convém lembrar que há pra vida todos os ventos, do rio de todos os peixes, todas as canoas, brejos, lagos e lagoas. De todos os mares, oceanos e marés. De todas as várzeas, todos os campos, todos os quintais de todas as frutas e infâncias, de todas as selvas dos bichos de todas as feras e mansas, de todas as matas, de todas as flores e folhas, de todas as aves, répteis e batráquios. E de tudo que brilha pra gente um outro sentido de vida. Convém lembrar, acima de tudo, o direito de viver e deixar viver. (Vida verde viva – Canto Verde, Luiz Alberto Machado. Primeira Reunião: Bagaço, 1992). Veja mais aqui, aqui e aqui. 

 Imagem: The Poetess Sappho, do pintor francês Jacques-Louis David (1748-1825).


Curtindo a peça para solo de piano Music of Changes (1951 – Reissue, 1988), do compositor e escritor estadunidense John Cage (1912-1992), com o pianista alemão Herbert Henck. Veja mais aqui e aqui.

JOSUÉ DE CASTRO E O BRASIL – O livro Josué de Castro e o Brasil (Fundação Perseu Abramo, 2003), escritor por Manuel Correia de Andrade, José Graziano da Silva, Walter Belik, Maya Takagi, Humberto Costa, Malaquias Batista Filho, Luciano Vidal Batista, Djalma Agripino de Melo Filho, José Arlindo Soares, Paulo Santana, Renato Duarte e Michel Zaidan Filho, trata sobre o trabalho e obra do escritor, nutrólogo, geógrafo e ativista Josué de Castro (1908-1973), abordando os deconhecimentos e reconhecimentos no Brasil e no mundo, as políticas de combate à fome, 50 anos depois de Geografia da fome, quando a fome começa antes do nascimento, uma hermenêutica do ciclo do caranguejo, releitura crítica, representações sociais da miséria no Nordeste, a geopolítica da fome: dos tempos de Josué de Castro aos tempos atuais, as evidências científicas da fome dispensável, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: A fome não poderia continuar sendo um “tema proibido”, ou “bastante delicado e perigoso”, como à época em que a redescobria, ou revelava cientificamente, o seu maior estudioso. O livro Geografia da fome completou 56 anos. Mais de meio século, portanto, desde que o pernambucano Josué de Castro tentou, com ele, quebrar a “conspiração do silêncio” em torno do assunto. Com êxito parcial. A pesquisa e seu fruto, o documento contundente e revelador, merecem celebração. Assim como o seu autor. Respeitado em todo o mundo, reconhecido até hoje nos círculos acadêmicos, trata-se o ilustre pernambucano de um quase desconhecido para a imensa maioria da população brasileira [...] O Josué de Castro universal, que transcendeu fronteiras e levou o mundo a reconhecer feridas, pagou um alto preço pela distância forçada do país natal. Sua obra ganhou o mundo e ele perdeu a luta contra a violência do desterro. Impossível ser mais local, sendo global, como o foi Josué, em todos os postos e lugares pelos quais passou. Entretanto, a notoriedade no exterior não se traduziu aqui, no seu canto. Não foi ele o Pernambucano do Século na opinião de seus conterrâneos, mesmo que lá fora, caso existisse um título similar, estendido aos brasileiros, o seu nome despontasse indiscutivelmente como um dos mais fortes concorrentes. Josué de Castro era extremamente atuante, corajoso e desbravador, o que o transforma em autor e pesquisador inesquecível, na magnitude do papel cumprido, na consistência das obras legadas à humanidade. E já é tempo de tirá-lo da quase clandestinidade. Chega ao fim o exílio, Josué precisa ocupar o Brasil. Se esta é a realidade local, vale reconhecer que, mesmo privado do convívio com o seu país, no seu íntimo Josué de Castro jamais o abandonou. E foi vivendo de forma intensa, e não poucas vezes tensa, que partiu, preservando-se da dor imposta pelas portas fechadas – e o consequente impedimento de promover, no seu locus, a transformação vislumbrada. Josué construiu-se como um humanista, um articulador, um cientista, reunindo qualidades que justificavam largamente a condição que ocupou em vida e até hoje, ainda que o reconhecimento se restrinja a setores da sociedade. “Nós nos reconhecemos em Josué de Castro”, resume poeticamente Abbé Pierre, no filme de Sílvio Tendler, Josué de Castro – Cidadão do Mundo , um impressionante encontro de personalidades nacionais e internacionais sob um único propósito: reverenciá-lo. Muitos se reconhecem em Josué, embora nem todos o reconheçam, infelizmente [...]. Veja mais aqui e aqui.

OS CAVALOS SELVAGENS – Nos livros Manuel Ugarte: o sonho da pátria grande (Insular, 2014), de Victor Ramos, e Maravilhas do conto hispano-americano (Cultrix, 1968), organizado por Diaulas Riedel, encontro que o escritor, diplomata e intelectual socialista argentino Manuel Ugarte (1875-1951), era um dos defensores da unidade latino-americana, relacionando as ideias do internacionalismo socialista com as do nacionalismo, reivindicando uma retomada do programa bolivariano de integração e emancipação. Da sua lavra, destaco os trechos do conto Os cavalos selvagens: [...] Quando nos encontramos ante a primeira estacada da propriedade, Julio fez correr o fecho, sem descer do cavalo, e continuamos a correria. Daí à casa havia ainda meia hora. Os animais começaram a fraquejar, mas ferimo-lhes desesperadamente os flancos e continuaram a galopar com relinchos lamentosos de pobres animais que ignoram por que são sacrificados. Ao sair de um bosquezinho de pinheiros, divisamos as primeiras luzes da vivenda. O edifício desaparecia na sombra e só se viam os retângulos da luz das janelas. Abrimos o fecho de outro portão, entramos no jardim, e a primeira claridade do dia assomava no horizonte, quando nos encontramos na porta da casa. A mãe de Julio saiu a receber-nos, e deixou-se cair nos nossos braços, sem atinar com nada para dizer. Julio separou-se nervosamente... abriu a porta e, mudo, desequilibrado, como se não se inteirasse das coisas, entrou no salão... No meio do quarto havia dois ataúdes rodeados de círios e de gente enlutada. Quis atirar-se sobre os cadáveres; mas precipitamo-nos sobre ele, impedindo-o. Então começou uma luta espantosa durante a qual lhe contaram com palavras entrecortadas o que tinha acontecido. O cavalo de Margarida, acometido por uma raiva louca, tinha tomado o freio nos dentros perto das brenhas que contornavam o arroio e tinha fugido, levando-a pelos campos para o horizonte. D. Antonio picou as esporas e correu atrás para lhe prestar ajuda. Da casa seguiram-no com os olhos naquela corrida vertiginosa. D. Antonio perdeu o equilíbrio e caiu ao inclinar-se para refrear o cavalo da sua filha. Margarida continuou sozinha... primeiro manteve-se e lutou por conter o cavalo desbocado... depois saltou da montada... o seu pé ficou prisioneiro no estribo... e o cavalo continuou... tropeçando o corpo contra as árvores e as pedras, até que um movimento brusco o libertou da carga que arrastava, deu um salto mais elástico e perdeu-se, junto com o outro, na planura... Quando chegaram para socorrê-los, D. Antonio agonizava e Margarida era um montão de carnes sangrentas cobertas de lodo. Julio não escutou os detalhes. Pelos seus olhos passou uma chama de loucura e aproximou-se da janela aberta enxugando a fronte... muito longe, roçando quase os campos, no dintel do dia, o sol pendurava o seu lampião chinês vermelho. Um bando de cavalos selvagens passou para o norte, com as crinas ao vento, num desses pânicos que os arrebatam no pampa. Entre eles iam os dois com freio e sela... Julio fez, ao vê-los, um gesto brusco; agarrou uma carabina que estava pendurada na parede e apontou. As detonações soaram uma atrás das outras, com um ruído sinistro, na quietação daquele quarta onde havia dois cadáveres. Um dos animais caiu e rebolou no chão, lançando um relincho agudo. Os outros perderam-se na distância... E Julio, como um colosso vencido pela barbárie da natureza, começou por fim a chorar e mostrou-lhes os punhos. Veja mais aqui.

CIDADE DE PALMARES, CONFIDENCIAL & CAIXA DE FÓSFOROS – No livro Poetas dos Palmares (Nordeste, 1987), organizada pelo poeta Juareiz Correya, encontro os poemas do dramaturgo, advogado, professor e poeta Fenelon Barreto, entre os quais destaco, inicialmente, Cidade de Palmares: Quando quiseres ver os esplendores / da vida, entesourando um mundo lindo, / terra de Deus, de sonhos e de amores, / dos canteiros florindo e reflorindo,  quando quiseres, em deleite infindo, / ouvir o canto pelos seus cantores, / poemas de plumas, de astros refulgindo, / das lindas moças que só vestem flores, / quando quiseres ver azuis e pretas, / essas bailando em todos os matrizes, / lindos pana-canás de borboletas, / Palmares te contempla e te convida! / Vem ver como aqui todos são felizes, / esquecendo o destino e amando a vida. Também o seu poema Confidencial: ...E agora é a gente vil nos censurando! É o riso / das amantes que tive e das mulheres feias, / meia dúzia de meus, de cérebros sem juízo, / que desejam colher aquilo que semeias. / Querem mesmo findar o sonho que idealizo. / Gostam também de entrar nas relações alheias, / tão cínicas enfim, que às vezes é preciso / mostrarmos o rancor que ferve em nossas veias. / Crê em minha afeição, minha jovem rosada! / E longe dessa turba estúpida e maldita / teremos algum dia a paz desejada! / E após ouvir-me assim, ei-la a sorrir... repleta / desse orgulho que tem toda mulher bonita, / convicta de possuir o coração de um poeta. Por fim, Caixa de Fósforos: Ontem quando a comprei ao merceeiro, / tão valiosa quanto imprescindível, / achei que era absurdo indiscutível / pagar por ela apenas um cruzeiro. / Uma caixa de fósforos-dinheiro / não paga o preço desse combustível; / luz, que é vida, valor imperecível, / luz, entre os elementos, o primeiro, / Uns fósforos tomei-lhe, bem poupados, / mais outros, outros mais e em leve assomo, / notei todos os fósforos queimados. / A vida humana é a mesma fantasia: / poder, orgulho, tudo acaba. É como / essa caixa de fósforos vazia. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

AS FESTAS MEDIEVAIS – No livro Traité de scénographie (Biblioteca Theatre, 1984), do arquiteto, designer e teórico de teatro, Pierre Sonrel (1903-1984), encontro o estudo sobre As festas medievais, o qual destaco os trechos: O mundo antigo não legara ao mundo medialval qualquer forma dramática viva. A arte teatral em Roma perdera-se, por fim, nos jogos grandiosos e bárbaros do circo, onde os primeiros cristãos desempenharam sobretudo o papel de mártires. É a igreja que, sem o ter procurado, vai dar ao teatro uma vida nova e um novo sentido. Da mesma maneira, de fato, que a celebração dos ritos dionisíacos está na origem da tragédia e da comedia gregas, também o teatro clássico moderno nasce do desenvolvimento da liturgia da missa, a pouco e pouco dilatada com a representação de cenas extraídas das sagradas escrituras. [...] Os primeiros dramas litúrgicos desenrolaram-se nas igrejas, onde constituíam um desenvolvimento mimado e dialogado dos textos do ofício e das cerimônias rituais. Depois com o nome de mistérios e de milagres, realizaram-se verdadeiras representações teatrais; mas sempre inspiradas nos textos bíblicos e evangélicos e traduzindo, em linguagem vulgar e em cenas variadas, os ensinamentos contidos no latim e nas rubricas da liturgia. [...] Durante séculos, todos estes espetáculos se multiplicaram e renovaram, sem que surgisse, em toda a cristandade, um único poeta que, como o construtor das catedrais seu contemporâneo, dominasse e ordenasse os seus elementos, soubesse criar uma forma típica, um quadro estável no qual se moldassem os impulsos dramáticos e líricos dos autores e dos interpretes. Sobre a encenação e a decoração destes espetáculos só temos muito raros documentos e os eruditos limitam-se a conjeturas. Não chegou até nós nenhum testemunho gráfico referente às representações religiosas dadas entre os séculos X e XV. O mistério de Adão e Eva do século XII é, sem dúvida, o mais antigo texto dramático de língua francesa que existe [...] Alegorias e fábulas mitológicas, música e cantos, luzes, trajos suntuosos, máquinas e aparições aéreas, tais são os elementos essenciais que se encontram nestes espetáculos precursores do bailado e da ópera. Como nos mistérios, toda a cidade colaborava nestas festas sob a direção dos artistas de maior nomeada na cidade ou na província que, depois de terem concebido a ideia, vigiavam a execução. Assim, encontra-se na obra destes pintores a arte que consiste em dispor as personagens, em prever as suas evoluções, em valoriza-las com fundos apropriados, em coloca-las sobre degraus, numa palavra, encenando, concebendo cenografia e movimentos das celebrações tanto religiosas como civis, antepassadas do nosso teatro. Veja mais aqui. 

BEDAZZLED – A comédia britânica Bedazzled (O diabo é meu sócio, 1967), dirigido por Stanley Donem, conta a história de um jovem introvertido e perdedor infeliz que vende sua alma ao diabo em troca de sete desejos, mas com a dificuldade para conquistar a garota de seus sonhos, entra em desespero por sua paixão não correspondida, levando-o ao processo de completa incompetência para a tentativa de suicídio. Uma releitura cômica da lenda do Fausto, traz não só a infelicidade do personagem central que representa os sete pecados capitais, como a disputa do diabo com Deus, na tentativa de reunir bilhões de almas, com o objetivo de ser, ao conseguir tal reunião, seria admitido no céu. O destaque do filme é a atriz e cantora estadunidense Raquel Welsh – a sempre bela Jo Raquel Tejada. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
As diversas poses da soprano finlandesa Karita Mattila.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. E para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.

    Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...