Mostrando postagens com marcador Milton Santos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Milton Santos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, julho 02, 2021

RAOUL HAUSMANN, LEOPOLDO ZEA, MARIO BUNGE & A DONZELA DE JÚLIO DE BERENGUER

 

 

TRÍPTICO DQP –- Dia a mais ou de menos... Imagens: as artes do artista visual e escritor austríaco Raoul Hausmann (1886-1971), ao som das óperas Licht - Die sieben Tage der Woche, a espiral eterna da semana de Karlheinz Stockhausen. - Com ele se dera o mesmo como Em declive, de Horacio Quiroga: Guiava o seu carango feliz da vida por ter trapaceado o algoz, ter escanteado um terceiro concorrente e saído vitorioso sozinho daquela licitação vultosa. Era o ás da jogada, sabia armar, sair por cima e passar a perna em quem ousasse desafiá-lo na competição da vida. Nessa hora até aumentou o som e olhou de lado o saco com a dinheirama: Sou o melhor, u-ru! Mais adiante resolveu dobrar numa transversal, encostar embaixo de uma árvore, puxar o saco e contar as cédulas. Nesse instante ocorreu um curto circuito agitando o ambiente ao redor, ele nem aí. Algo caiu sobre o teto do veículo. Nem ligou, queria mesmo saber o total do volume que amealhara. Assim entretido, quase nem percebeu uma picada firme ao pescoço, só se dando conta do que ocorrera ao passar a mão para demover o que mordia ali e perceber uma mancha de sangue colorindo o dinheiro. Era dos seus dedos: Hem? Passou a outra mão no lugar afetado e constatou que o sangue provinha de lá. Que foi isso? Olhou de lado e viu uma cobra assanhada na janela do carro, pronta para um novo ataque. Conseguiu sacudi-la para longe e vê-la descer pelo exterior do para-brisa. Num impulso fugitivo, virou a chave, acionou o motor, engatou a primeira e saiu imediatamente. Será que houve? Logo sentiu seus olhos turvarem, um inchaço sobressaía-lhe do local atingido, tonteou, sentia as mãos adormecerem e uma sede medonha, um queimor por dentro do peito. Esforçou-se para enxergar uma farmácia ou clínica médica, um hospital, o que fosse, no meio do trânsito agigantado de uma hora para outra. Ouvia buzinadas insistentes enquanto procurava de um lado a outro, onde estacionar para se medicar. Tentou se lembrar das proximidades de alguma emergência, não conseguia mais enxergar direito, acelerou e se sentiu num deserto, estacionou na primeira vaga encontrada e tentou enxugar o suor que lhe descia abundante pelas faces. Algo apertava a garganta e forçava sua memória a ponto de se lembrar de coisas esquecidas de muito. Confesso tudo que fiz, mas onde estou? Os pais, a família, os filhos, parentes e amigos, todos pareciam vivos e reprovadores na sua ideia. O que fiz? Parecia mais aprisionado no dito do Kurt Vonnegut: Bem, aqui estamos, presos no âmbar deste momento. Não há porquê. Agitou-se, afrouxou a gravata, desatacou os botões da camisa, calor insuportável, vertigens e nenhum socorro, aí fechou os olhos e tentou respirar. Tudo rememorado. O futuro? Nem soube direito como pensar agora sobre isso, seria temerário, mas sabia que seria deserção não cogitar, como considerara Milton Santos: Não se trata do futuro como certeza, porque isso seria desmentir a sua definição, mas como tendência. Aí se sentiu cada vez mais anestesiado, como se considerasse o que escrevera Evelin Lau: Para onde foram os sentimentos quando desapareceram? Eles deixaram um traço químico em algum lugar em nossas mentes, de modo que se pudéssemos olhar para dentro de nós, veríamos através dos padrões dos neurônios algumas das coisas importantes que aconteceram conosco em nossas vidas? Por um instante tentou raciocinar, a confusão das ideias o fizera duvidar até de si. Novamente fechou os olhos e... parou de respirar.

 


Outra assim do nada... - Eram cinco irmãos: Chico, Harpo, Gummo, Zeppo e o caçula Groucho. Homenagem do Maia pai, um fanático apreciador dos comediantes estadunidenses. Era um prestidigitador, enquanto a mãe uma bailarina cantatriz que mais encantava por seus dotes corporais que por talento, mas juntos enrolavam bem plateias incultas. Os meninos cresceram e como ele andava ocupado demais com a criação de novos truques, ela providenciou encaminhar os meninos para um futuro promissor, já que quatro deles eram bem hilários com propensões a comediantes, enquanto Groucho um chorão incorrigível. Atinou bem ela e criou com eles o grupo A Diva e as Mascotes Musicais. Veio então a peste e levou o mais velho. Não desanimou e formou o Quinteto Pastelão. Não demorou, outro sucumbiu, agora: Os quatro rouxinóis. Mais um deu baixa com a epidemia, era o Trio Manda Brasa. Aí foi a vez dela, pro saco. Xi, restou a dupla: Feliz e Chorão. Este último findou sozinho, seguindo os passos do pai e o superou com habilidosas lágrimas: tornou-se o Mago Chorão Maia. Nem ele sabia a razão do sucesso, foi levado de roldão e alcançou o estrelato. O pai ficou pelo caminho e ele nem deu tempo de procurá-lo porque estava assediado por muitos, a ponto de poderosos brigarem por sua predileção. No auge percebeu que escolheu errado, defendera com unhas e dentes, enganando a todos e fora abandonado por seu pretenso protetor, expulso de palcos e plateias. Recolheu-se solitário gozando do prestígio de rabiscar tantas páginas, imitando o astro: Memórias de um amante esquálido. Caiu na graça. Juntou uns trocados e bancou a tipografia: os adquirentes elogiavam, mas ele sabia que era falsidade. Depois publicou outro volume, copiando os títulos do ídolo: Eu e eu. Filosofia? Não, garatujas das ideias. E pensava intrigado no que dissera o filósofo mexicano Leopoldo Zea (1912- 2004): A filosofia deve ser uma espécie de olhos da sociedade. Até que tentara mesmo filosofar, mas desistiu quando soube filósofo argentino Mario Bunge (1919-2020): Não acredito em filosofias eternas, perenes, acredito que filosofia é fazer permanentemente. Preferiu seguir os passos do seu homônimo famoso e juntou um volume com As cartas. Vendeu aos montes, tudo copiado. Findou mesmo debruçado sobre suas definitivas memórias: O triste fim de Groucho Maia. Maldição do Fecamepa. 

 


Pinoia, não, de fato... – Verdade, essa aconteceu aqui perto: um poderoso senhor de engenho viu sua única filha crescer e tornar-se aformoseada moça cobiçada: Com essa ninguém casa! A debutante ficou inquieta e ele em riste: Só casa com macho rico! Aí ela botou as unhas de fora e poucos dias depois apresentava o namorado. Que é que você faz da vida? Sou trabalhador, enfrento qualquer situação, não tenho medo de nada e só um defeito. Qual? Sou pobre. Arrede da minha vista, traste! A filha caiu no maior pranto por meses e ele lá inexorável. Alguns meses depois apareceu um jovem ricaço que se apaixonou por ela e foi logo levado à sala da casa grande: Quero a mão da sua filha em casamento! E o que é que você tem? O noviço passou horas contando do que tinha e podia, dando ideia de não saber tudo que possuía. O pai ajeitou o bucho na fivela e largou na cara do petulante: Oxe, essa riquezinha que você tem não dá pra comprar de papel higiênico pra limpar a bunda da minha filha! Vôte. Apressado o namorado saiu e ela correu atrás dele para saber do resultado: Sai pra lá, cagona! E desapareceu do mapa. Tinha certeza eu que esse fato era exclusivo das terras da Mata Sul e não era: dei de cara com o relato no meio das páginas dum livreto: História de Santa Cruz do Capibaribe (Autor, 2003), escrito pelo autodidata Júlio de Berenguer – Júlio Ferreira de Araújo. Procurei saber melhor a respeito dele: só citações em estudos a respeito da localidade, nada mais. E ela? Coitada, ainda ontem a vi desamparada, nua e deitada na areia da praia, posando pro retratista Raoul. Até mais ver.

Veja mais aqui e aqui.

 


quarta-feira, junho 24, 2020

FITZGERALD, CARMEN POSADAS, SHONDA RHIMES, TARKOVSKI, SÁBATO, SUELI CARNEIRO, CECÍLIA BRENNAND, GENTIL PORTO, MILTON SANTOS, PHIOCLES DE ABDALLES & SAMWAAD RUA DO ENCONTRO



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA PROCURA DA POESIA - Houve um tempo em que o sorriso era a mata densa lá longe, com todas as abusões escurecidas para fantasias e presepadas. Hoje, telhados e arranha-céus escondem o azul do amanhã e os descampados de agora, antes ontens fantásticos. Poetar passos no asfalto entre corações duros e olhares minguantes no concreto respirando pelas frestas insalubres. Um verso de Arseny Tarkovski: Eu ergui todos os dias que fizeram o passado / Com uma cadeia de agrimensor, eu medi o tempo / E viajei através dele como se viajasse pelos Urais. Ainda tenho muitos sonhos de olhos abertos, sonhar ainda é possível noutro verso dele: Eu prontamente trocaria a vida / Por um lugar seguro e quente / Se a agulha veloz da vida / Não me puxasse pelo mundo como uma linha. Ademais, tudo é afinal para viver.

DUAS OU MAIS SOLIDÕES - Estou só com a festa dos pássaros nos amanheceres. Entre entardeceres, sou entre roncos de motores, gente apressada e rumores inauditos pelas esquinas. Comigo anoiteceres longínquos de espera. Ouço Ernesto Sábato: Estamos próximos, mas estamos a uma distância incomensurável, estamos próximos, mas estamos sós. Viver consiste em construir memórias futuras. Horas a fio, entre o cansaço e a insônia, me refaço e estou sempre pronto para viver.

TRÊS HUMILHAÇÕES POR DIA - Desapontamentos recheiam o dia nestes tempos de duplo flagelo. Para a pandemia, o isolamento e dor solidária; mas, para a babel coisonária é tudo muito vergonhoso. Nunca pensei que entre a minha gente houvesse tantos alheios desalmados. É tudo muito escatológico, talvez um OVNI apareça rasgando os céus em nosso socorro, quando na verdade é nossa a responsabilidade de levar a bom termo os destinos da humanidade. Bem disse Milton Santos para minha maior consternação: A má índole associada a falta de educação leva ao racismo, ao preconceito e até a marginalidade. A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une. Quem dera braços abertos e solidários numa só canção, mas não. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] a unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende apenas da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, mas exige, também, a superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo. O racismo estabelece a inferioridade social dos segmentos negros da população em geral e das mulheres negras em particular, operando ademais como fator de divisão na luta das mulheres pelos privilégios que se instituem para as mulheres brancas. Nessa perspectiva, a luta das mulheres negras contra a opressão de gênero e de raça vem desenhando novos contornos para a ação política feminista e anti-racista, enriquecendo tanto a discussão da questão racial, como a questão de gênero na sociedade brasileira. Esse novo olhar feminista e antirracista, ao integrar em si tanto as tradições de luta do movimento negro como a tradição de luta do movimento de mulheres, afirma essa nova identidade política decorrente da condição específica do ser mulher negra. [...]. Trecho do artigo Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero (Portal Geledés, 2011), da filósofa, escritora e ativista antirracista Sueli Carneiro, fundadora e coordenadora-executiva do Geledés – Instituto da Mulher Negra - São Paulo SP, e considerada uma das principais autoras do feminismo negro no Brasil.

 

OUTROS DITOS

Se eu não tirar a cabeça da concha e mostrar às pessoas quem eu sou, tudo o que todos pensarão que eu sou é minha concha... Fui criada para ter pais maravilhosos e para acreditar que tinha poder, por maior ou menor que fosse. Ele estava lá e precisava ser utilizado. É algo que quero que muitas mulheres tenham a oportunidade de sentir...

Pensamento da roteirista, cineasta e produtora estadunidense Shonda Rhimes (Shonda Lynn Rhimes), autora do livro Year of Yes: How to Dance It Out, Stand In the Sun and Be Your Own Person (Marysue Rucci Books, 2015).

 

O MESTRE DAS MARIONETES, DE CARMEN POSADAS

[...] A verdade dói, mas o que dói mais é a mentira [...] A verdade é muito parecida com aqueles venenos que são terapêuticos em pequenas doses, mas, em grandes doses, matam. [...] Foi assim que aprendi — ela diz agora — que a verdade não existe, a verdade é fabricada. E é exatamente isso que tenho feito desde então. É tão divertido quanto útil. [...].

Trechos extraídos da obra La maestra de títeres (Booket, 2019), da escritora e roteirista uruguaia Carmen Posadas, autora de obras como La hija de Cayetana (2016), El testigo invisible (2013), Invitación a un asesinato (2010), La cinta roja (2008) e Little Indiscretions (2004).

 

O GRANDE GASTBY, DE FITZGERALD

[...] Então seguimos em frente, barcos contra a corrente, impelidos incessantemente de volta ao passado. [...] Eu estava por dentro e por fora, simultaneamente encantado e repelido pela inesgotável variedade da vida. [...] Aprendamos a demonstrar nossa amizade por um homem enquanto ele estiver vivo e não depois que ele morrer. [...].

Trechos extraídos da obra The Great Gatsby (Chump Change, 1925), do escritor e ensaísta estadunidense F. Scott Fitzgerald (Francis Scott Key Fitzgerald – 19896-1940). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DESTAQUE: À LUZ DE VELAS – [...] Fui chamado às pressas para atender um paciente em estado gravíssimo que estava se ultimando numa das enfermarias do hospital. Enquanto eu tentava manobras reanimatórias que se revelaram infrutíferas, o nosso herói correu à cozinha trazendo de lá uma vela acesa. Procurava a todo custo que fosse segurada pelo moribundo que não tinha mais forças para tal. Não conseguindo êxito, gritava: “segura na vela João, para não morrer feito jumento”. Concluído o desenlace, ele ostentava uma cara de tristeza, fracasso ou decepção por saber que apesar dos seus esforços o João partiu para outra sem o conforto da luz de vela a iluminar o seu caminho. Trecho da crônica extraída da obra E o tempo passou (Bagaço, 2010), do escritor e médico Gentil Porto (1940-2019), membro da Academia Recifense de Letras e Academia Pernambucana de Medicina.

PHIOCLES DE ABDALLES
[...] Diz a lenda que esse povo descende de Abdalles, filho do deus Sol, e Phiocles, a primeira mulher. Phiocles tem a reputação de ter sido concebida quando um raio de sol atingiu uma serpente e de ter sido criada por uma raposa depois que a serpente morreu. Phiocles também manteve relações com os irmãos de Abdalles [...]. Os costumes matrimoniais dos Abdalles dão grande importância ao Ab-Soc-Cor, o padrinho do noivo. No dia anterior ao casamento, ele visita a noiva; ao anoitecer, fecha-se com ela numa sala escura, onde lhe ensina os deveres físicos e sexuais de uma esposa e se assegura de que ela ainda é virgem. Ao amanhecer, ele vai até o noive, saudando-o com estas palavras: “A criança está dormindo”. O noivo responde: “Vamos acordá-la”. Somente então partem para o templo onde se realiza a cerimonia de casamento propriamente dita. [...].
PHIOCLES DE ABDALLES - Trecho da lenda extraída da obra Lamekis, ou les voyages extraordinaires d’um egyptien dans la terre intérieure avec la découverte de l’isle de Silphides, enrichi notes curieuses (Haia, 1735), de Charles Fieux de Mouhy, recolhida do Dicionário de lugares imaginários (Companhia das Letras, 2003), de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi. Veja mais aqui.

SAMWAAD RUA DO ENCONTRO
Introduzimos gestos e danças de outras culturas no método “cidadão dançante”, pois essas diferentes qualidades de movimento conduzem o aprendiz a outras lógicas e formas de raciocínio. O ser humano possui os mesmos padrões de movimento, seja a qual parte do globo pertença. Entretanto, desenvolveu modos muitos diferentes de dançar, mais uma prova de que, ao consolidar os padrões motores da espécie, o homem consegue também criar a diferenciação cultural.
SAMWAAD RUA DO ENCONTRO - Espetáculo de dança Samwaad - Rua do Encontro (Sesc-SP, 2004), concebido e dirigido pelo coreógrafo e educador do corpo, Ivaldo Bertazzo, com elenco constituído por 55 jovens de 7 ONGs de São Paulo, a maioria jovens com menos de vinte anos de idade que, durante os 8 meses de ensaios, os aspirantes passaram por consultas médicas e odontológicas e tiveram aulas de linguística, percussão e origami. Dele recolhemos Ivaldo Bertazzo: Arte também é educação (Comunicação & Educação, 2006) e Ivaldo Bertazzo: Além do movimento (UEP-Júlio de Mesquita Filho, 2014), de Mariama Silva Gouvêa Barreto. Veja mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Minha história com a dança começou desde muito menina. Seguindo essa vocação, me formei bailarina, mais tarde produtora, e nunca quis fazer outra coisa. Fundei o Aria Espaço de Dança e Arte em 1991, que funcionou comercialmente por 13 anos, em Jaboatão dos Guararapes, como escola de dança e importante galeria. No entanto, sempre sonhei com um espaço que integrasse as artes, a dança, a música, pinturas etc., ( durante 10 anos com Galeria de Arte). Assim, comecei desenvolvendo ações pontuais e voluntárias na área de dança e canto coral. Em 2004, fundamos a Oscip, nascendo assim o Aria Social, que já atendia, voluntariamente, quase 100 crianças e jovens. Foi necessária uma grande reforma em nosso espaço físico, pois, no ano seguinte, já dobramos este atendimento, que veio num crescente até atingirmos os 450 educandos que mantemos hoje, a partir dos cinco anos atuando na dança, iniciação musical, canto coral, aulas de português e matemática.
A arte da bailarina, produtora, curadora e empresária Cecília Brennand, fundadora da produtora Sopro do Zéfiro e do Ária Espaço de Dança e Arte, além de criar o projeto social, Casa de Maria, que reúne mães de crianças que participam do Ária Social.
&
Casa-grande e senzala (Livros do Brasil, 1957), do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) aqui.
Orquestra Armorial & Quinteto Armorial aqui.
Guriatã: um cordel para menino, do poeta Marcus Accioly (1943-2017) aqui e aqui.
A obra da pintora, escultora e desenhista Maria Carmen (Maria Carmen de Queirós Bastos – 1935-2014) aqui.
Eles Voltam, de Marcelo Lordello aqui.
Aminta, da escritora Célia Labanca aqui.
Eu-poesias em vias, de Adriano Sales aqui.
Toada de peito aqui.
&
Quipapá aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


sexta-feira, maio 03, 2019

ANA CRISTINA CÉSAR, NÉLIDA PIÑON, MILTON SANTOS, HELENA HAUSS & O NOME DE CADA UM


BILHETE EXTRAVIADO – Outono de ano, quase inverno na vida: preparo a caminhada na estrada infinita. Da primavera, fagueiras fantasias: um quintal que era tudo e quase sem fim. O verão chegou cedo: passei, nem vi direito. Apesar de tudo, aprendi da forma mais difícil, nem direito até: cavalos que se arvoravam soltos e indomáveis, bispos ariscos de banda, torres frágeis a se moverem solitárias e à deriva, rainha se antecipando ao rei imóvel no xeque mate, que seja Dia Internacional do Sol – para mim é todo dia, mesmo que chova canivetes ou o escambau! O que tenho para dizer são minhas mãos espalmadas, meus braços doloridos, meu corpo cansado de lutas vãs. Fiz o que pude até quase exaurir todas as minhas forças, esgotar os ânimos, liquidado pelas adversidades. Mas não perdi a ternura e o sorriso, suplantei limites e que seja Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, hoje outra coisa, matérias de interesses, anúncios de fachadas, manchetes da mentira sensacionalista: vendem tudo, até a alma. O que de mim restou por ambicionar direitos, trevas dissolveram sonhos arrebatados. Sou o mundo porque inexiste o tempo, volta e meia me desfiz em coisa vinda que não se sabe, amanhecendo esperanças, anoitecendo vigílias e que seja Dia Internacional do Parlamento, outros representantes de vícios, nada vale nessas ruas que não os meus prontos para serem enterrados pelos que ditam leis contra os que estão de fora da corriola. Por conta própria escolhi a solidão, no que logro ou ignoro por resolver um só problema e criar outros tantos improváveis e interinos, mesmo sem querer. Meço o trecho que me cabe para igualar o que não sei que é, porque infrigi a regra de ouro ao desatino, somente sou braços abertos a quem chegar. E me basto de nada, lições de partir e se perder, sou para a vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o projeto apresentado em 1965 pelo deputado federal Áureo Melo destinado a “proibir registro de nomes ridículos ou humilhantes”. [...] O Congresso Nacional decreta: Art. 1º. Fica proibido em todo o território nacional, o registro, pelas autoridades, de nomes próprios que venham a se constituir, por serem ridículos ou humilhantes, motivo de prejuizo moral àqueles a quem forem dados. Art. 1ª. Ficam passíveis de multa, que será arbitrada em um mínimo de Cr$ 1.000,000 (hum milhão de cruzeiros), todos aqueles que infrigirem o disposto no artigo anterior. [...] Tal projeto era acompanhado por esta breve justificação: “Sandália de Oliveira Silva; Maria dos Prazeres Fortes; Sherlock Holmes da Silva; Adolf Hitler de Oliveira, etc. Tais são os nomes que tivemos ensejo de encontrar, legalizados e em pleno vigor, e com os quais arcam, como um verdadeiro estigma, oriundo da ignorância dos pais e escrivãos [...] Pode servir de exemplo o caso do desembargador Francisco Gonçalves de Campos, magistrado no Acre, que deu a seus filhos nomes extremamente curiosos, todos oriundos de suas propensões literárias. Ao primeiro nascido, deu o nome de Prólogo de Campos. O segundo recebeu o nome de Verso de Campos. Nasceu depois uma menina, que recebeu o nome de Estrofe. Veio, então, o quarto filho, que os pais supunham que seria o último, donde o seu nome: Epílogo de Campos. Mas, ao fim de algum tempo, imprevista gravidez da esposa do honrado desembargador anunciou novo aumento da prole. Nasceu uma menina que se chamou Poesia de Campos. E em seguida, veio ainda uma filha. Que fazer? Como batizá-la? Só ocorreu uma solução: ela se chamaria Errata de Campos! E assim foi feito, pois que a colocação da Poesia após o Epílogo estava mesmo pedindo Errata... (A relação foi fornecida pelo ex-deputado Epílogo de Campos, que confessa nunca ter tido qualquer dificuldade motivada por seu nome singularíssimo) [....].
Trechos extraídos da obra Como você se chama? Estudo sócio-psicológico de prenomes e cognomes (Documentário, 1974), do saudoso escritor, historiador, jornalista, escritor e teatrólogo Raimundo Magalhães Júnior (1907-1981). Veja mais aqui e aqui.

A POESIA DE ANA CRISTINA CESAR
NOITE DE NATAL: Noite de Natal. / Estou bonita que é um desperdício. / Não sinto nada / Não sinto nada, mamãe / Esqueci / Menti de dia / Antigamente eu sabia escrever / Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída / com desvelo técnico. / Freud e eu brigamos muito. / Irene no céu desmente: deixou de / trepar aos 45 anos / Entretanto sou moça / estreando um bico fino que anda feio, / pisa mais que deve, / me leva indesejável pra perto das / botas pretas / pudera
CARTILHA DA CURA: As mulheres e as crianças são as primeiras que / desistem de afundar navios.
ANÔNIMO: Sou linda; gostosa; quando no cinema você roça o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais quem desejo, que me assaviva, comendo coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no cinema é escuro e a tela não importa, só o lado, o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora deste sabe onde me encontro até de olhos fechados; falo pouco; encontre; esquina de Concentração com Difusão, lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.
MOCIDADE INDEPENDENTE: Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem medir mais as consequências. Por que recusamos ser proféticas? E que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma graça atravessando o Estado de São Paulo, de madrugada, por você, e furiosa: é agora, nesta contramão.
Poemas da escritora e tradutora Ana Cristina César – Ana C. (1952-1983). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual, escultora e ilustradora francesa Helena Hauss. Veja mais aqui & aqui.
&
A OBRA DE MILTON SANTOS
A clarividência é uma virtude que se adquire pela intuição, mas sobretudo pelo estudo e tentar ver a partir do presente o que se projeta no futuro.
A obra do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
A OBRA DE NÉLIDA PIÑON
O escritor não deve apenas criar, mas deve também emprestar a sua consciência à consciência dos seus leitores, sobretudo num país como o Brasil. Se vive e se escreve sem rede de segurança. Eu não confio no Estado. Eu confio na vigilância da sociedade. Quando os direitos humanos são desrespeitados em casa, tornam-se públicos. Se a imaginação edifica enredos de amor, o corpo fatalmente sofre seus efeitos. O ser humano é um peregrino. É só na aparência que ele tem uma geografia. Só envelhece quem vive.
A obra da escritora Nélida Piñon aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, agosto 13, 2018

GENET, MURILO MENDES, CUATEMOC, MILTON SANTOS, BETO GUEDES & LEONOR FINI


O AMANHÃ DE ONTEM – Imagem: da pintora, designer, ilustradora e autora surrealista argentina Leonor Fini (1907-1996). - Uma mulher amamenta, alguns vão, outros voltam. A cena aurática: dela o olhar perplexo no vazio como se um dedo apontasse oblíquo o fosso da existência. A alegoria da família desfeita, marido perdido, só o chão e a roupa do couro com seus lençóis de marquises suspensas de lua estrelada, fronha de cimento, travesseiro de concreto. Ela olha inquieta pros lados e vacila um tanto assustada como quem perde o canavial da infância, coxas de fora, seios fartos na fome. Quase vejo sua alma e se recompõe alisando o cabelo em desalinho, enquanto a criança inquieta ao colo desarruma suas vestes e mais seduz sem conseguir esconder com seu vestido curtinho de alça, simples e solto na carne alva, a sorrir sem jeito com seus olhos intensos a olhares atentos, face afogueada, quase tão plena quanto desolada. Quem passa logo vê, é o que lhe dão na flor da idade, se embaixo de uma ponte ou de um viaduto com as hortas paternas devastadas, o amparo árido materno, o chão batido pra pisar o asfalto, o coração condoído. Ninguém sabe sua dor, se presente ou futura, apenas uma mãe naquela hora e a vida na lágrima inupta, escapada a deslizar aos lábios salientes e entreabertos. Não há o que fazer nem como pedir, sem ponto de parada ou partida, a sofrer por quilômetros a língua no choro, a cabeça nas paisagens de nuvens e pensamentos superpostos que se confundem ao cenário cruel. Ela lá, no aleitamento, muitos se foram, outros voltaram. A espera de nada, condução inexistente, a chuva sem guarida, a sala das horas a céu aberto e espelhado. Não sabe das margens, só uma pra ficar e do outro lado, tudo acontece. À distância, ela compõe a brumosa paisagem e continua a dar de mamar. Todos sabem para onde vão, ela parece não ter para onde ir nem ficar. Ela me vê como se dissesse: se houver amanhã será ontem. Eu sigo e ela, não sei até quando, na memória. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor e multi-instrumentista Beto Guedes: Ao vivo, Contos da lua vaga, Dias de Paz e Outros clássicos ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Aqui eu, Cacique Guaicaipuro Cuatemoc, vim encontrar aqueles que participam da reunião. Aqui eu, descendente dos que povoaram a América há quarenta mil anos, vim encontrar os que a encontraram há somente quinhentos anos. Aqui pois, nos encontramos todos. Sabemos o que somos, e é o bastante. Nunca pretendemos outra coisa. O irmão aduaneiro europeu me pede papel escrito com visto para poder descobrir aos que me descobriram. O irmão usurário europeu me pede o pagamento de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei a vender-me. O irmão rábula europeu me explica que toda dívida se paga com bens ainda que seja vendendo seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu os vou descobrindo. Também posso reclamar pagamentos e também posso reclamar juros. Consta no Archivo de Índias, papel sobre papel, recibo sobre recibo e assinatura sobre assinatura, que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram a San Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Saque? Não acredito! Porque seria pensar que os irmãos cristãos pecaram em seu Sétimo Mandamento. Espoliação? Guarde-me Tanatzin de que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue de seu irmão! Genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomé de las Casas, que qualificam o encontro como de destruição das índias, ou a radicais como Arturo Uslar Pietri, que afirma que o avanço do capitalismo e da atual civilização europeia se deve à inundação de metais preciosos! Não! Esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata devem ser considerados como o primeiro de muitos outros empréstimos amigáveis da América, destinado ao desenvolvimento da Europa. O contrário seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito não só de exigir a devolução imediata, mas também a indenização pelas destruições e prejuízos. Não Eu, Guaicaipuro Cuatemoc, prefiro pensar na menos ofensiva destas hipóteses. Tão fabulosa exportação de capitais não foram mais que o início de um plano ‘Marshalltesuma’, para garantir a reconstrução da bárbara Europa, arruinada por suas deploráveis guerras contra os cultos muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, do banho cotidiano e outras conquistas da civilização. Por isso, ao celebrar o Quinto Centenário do Empréstimo, poderemos perguntar-nos: Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo dos fundos tão generosamente adiantados pelo Fundo Indo Americano Internacional? Lastimamos dizer que não. Estrategicamente, o dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em armadas invencíveis, em terceiros reichs e outras formas de extermínio mútuo, sem outro destino que terminar ocupados pelas tropas gringas da OTAN, como no Panamá, mas sem canal. Financeiramente, têm sido incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de cancelar o capital e seus fundos, quanto de tornarem-se independentes das rendas líquidas, das matérias primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo. Este deplorável quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e os juros que, tão generosamente temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus as vis e sanguinárias taxas de 20 e até 30 por cento de juros, que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos adiantados, mais o módico juros fixo de 10 por cento, acumulado somente durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base, e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que nos devem, como primeiro pagamento de sua dívida, uma massa de 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambos valores elevados à potência de 300. Isto é, um número para cuja expressão total, seriam necessários mais de 300 algarismos, e que supera amplamente o peso total do planeta Terra. Muito pesados são esses blocos de ouro e prata. Quanto pesariam, calculados em sangue? Alegar que a Europa, em meio milênio, não pode gerar riquezas suficientes para cancelar esse módico juro, seria tanto como admitir seu absoluto fracasso financeiro e/ou a demencial irracionalidade das bases do capitalismo. Tais questões metafísicas, desde logo, não inquietam os Indo Americanos. Mas exigimos sim a assinatura de uma Carta de Intenção que discipline os povos devedores do Velho Continente, e que os obrigue a cumprir seus compromissos mediante uma privatização ou reconversão da Europa, que permita que a nos entregue inteira, como primeiro pagamento da dívida histórica. Discurso do embaixador mexicano de descendência indígena Guaicaípuro Cuatemoc, na conferência dos chefes de Estado da União Européia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002 em Madri, Espanha.

HERANÇA HISTÓRICA – [...] O Crescimento urbano e as modificações no tipo de atividades dominantes que o acompanharam traduzindo-se na paisagem por destruições, justaposições ou novas utilizações no habitat e no patrimônio mobiliário anteriores [...] Realizados de forma incompleta, as destruições deixaram subsistir testemunhos da cidade primitiva [...] Na maioria dos casos porém, foi instituída uma separação em “bairros históricos”; a separação foi tanto mais forte quanto mais interviram fatores políticos, étnicos ou econômicos, para impor a diferenciação [...]. Trecho extraído da obra Manual da geografia urbana (Hucitec, 1981), do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001). Veja mais aqui.

O ATELIÊ DE GIACOMETTI - Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, senão terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele não poderá nunca transformá-lo em outro. Sonhamos então, nostálgicos, com um universo em que o homem, em vez de agir com tanta fúria sobre a aparência visível, se dedicasse a desfazer-se dessa aparência, não somente recusando qualquer ação sobre ela, mas desnudando-se o bastante para descobrir esse lugar secreto, dentro de nós mesmos, a partir do qual seria possível uma aventura humana de todo diferente. Mais precisamente moral, sem dúvida. Mas, afinal, é talvez a essa condição humana, a esse agenciamento inelutável, que devemos a nostalgia de uma civilização que procuraria se aventurar fora do que é mensurável. [...]. Trecho extraído da obra O ateliê de Giacometti (Cosaic & Naify, 2000), do controverso escritor e dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986), Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS – SOMOS TODOS POETAS - Assisto em mim a um desdobrar de planos. / as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move, / A luz desce das origens através dos tempos / E caminha desde já / Na frente dos meus sucessores. / Companheiro, / Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma. / Sou todos e sou um, / Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego, / Pelos gritos isolados que não entraram no coro. / Sou responsável pelas auroras que não se levantam / E pela angústia que cresce dia a dia. A MÃE DO PRIMEIRO FILHO - Carmem fica matutando / no seu corpo já passado. / — Até à volta, meu seio / De mil novecentos e doze. / Adeus, minha perna linda / De mil novecentos e quinze. / Quando eu estava no colégio / Meu corpo era bem diferente. / Quando acabei o namoro / Meu corpo era bem diferente. / Quando um dia me casei / Meu corpo era bem diferente. / Nunca mais eu hei de ver / Meus quadris do ano passado... / A tarde já madurou / E Carmem fica pensando. GILDA - Não ponha o nome de Gilda / na sua filha, coitada, / Se tem filha pra nascer / Ou filha pra batisar. / Minha mãe se chama Gilda, / Não se casou com meu pai. / Sempre lhe sobra desgraça, / Não tem tempo de escolher. / Também eu me chamo Gilda, / E, pra dizer a verdade / Sou pouco mais infeliz. / Sou menos do que mulher, / Sou uma mulher qualquer. / Ando à-toa pelo mundo. / Sem força pra me matar. / Minha filha é também Gilda, / Pro costume não perder / É casada com o espelho / E amigada com o José. / Qualquer dia Gilda foge / Ou se mata em Paquetá / Com José ou sem José. / Já comprei lenço de renda / Pra chorar com mais apuro / E aos jornais telefonei. / Se Gilda enfim não morrer, / Se Gilda tiver uma filha / Não põe o nome de Gilda, / Na menina, que não deixo. / Quem ganha o nome de Gilda / Vira Gilda sem querer. / Não ponha o nome de Gilda / No corpo de uma mulher. Poemas do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, designer, ilustradora e autora surrealista argentina Leonor Fini (1907-1996). Veja mais aqui & aqui.

AGENDA
Festival Internacional de Compositores – dias 15 a 20 de Outubro,  Solar da Marquesa Av. Joaquim Nabuco, 5, Largo do Varadouro, Olinda & muito mais na Agenda aqui.
&
Marquinhos Cabral: desde menino solto na buraqueira, o pensamento de Jiddu Krishnamurti & Celso Furtado, o mito de Joseph Campbell, As amizades de Barbosa Lima Sobrinho, a literatura de Millôr Fernandes, Rio Una & Jorge de Altinho aqui.


quinta-feira, maio 03, 2018

MILTON SANTOS, NÉLIDA PIÑON, SUZUKI, LYGIA PAPE, FRÉDÉRIC MISTRAL, RAFAEL RABELLO & PHINDILE MKHIZE

CORAÇÃO PAU-BRASIL AO SOL – Imagem: arte da gravadora, escultora, pintora, professora e artista multimídia Lygia Pape (1927-2004). - Meu coração pau-brasil é maior do que sou e quer muito mais além da mata atlântica pelo litoral, agreste e sertão, além dos pampas às águas caudalosas amazônicas, desse Sol Brasil de janeiro a janeiro. Se do branco peró invasor virei mameluco, caboclo ou caiçara, também mulato e curiboca, cafuzo e pardo, cabra e crioulo, e se o anátema do sangue assassinado me fez a alma rachada pra ser mais que Macunaíma ou nada mais que uma alma penada por assaltos e golpes, sou dessa costa atlântica ameríndia maior do que se quer chamar de nação. É que meu coração tupi quer ser tão caeté quanto tabajara, caingangue, tamoio, bororo, taulipang, tereno, cadiuéu, ofaié, caiuá-guarani, tupinambá, atroari, umutina, bacairi, vapidiana, deni, hixkaryana, jamamadi, carajá, kaxarari, apinajé, apiaká, craó, tembé, caiapó, anambé, mayoruna, caxuiana, ticuna, kulina, jarawara, munducuru, caxinaua, katukina, apurinã, marubo, baniwa, ye’kuana, hupda, yujup, kaxinawá, matis, yanomami, waimiri e todas as cores e crenças desse carnaval gigante que nunca parou de sofrer e sonhar. É que meu coração quer ser mais que massapé, terra roxa, salmourão e aluvial, muito mais que samba, afoxé, coco, xote, baião, mais que frevo e carimbó, choro e maracatu, mais que calango e cateretê, mais que ciranda e coco de roda, maxixe e lundu, xaxado e partido alto, mais que moda de viola e repente, mais que tudo que bole com a gente, mais que chula e congo, mais que fandango e chamamé, mais que a dança de homem ou de mulher, mais que o branco e o amarelo, mais que o verde e o azul, seja de norte a sul, do centro ao sudeste, do norte ao nordeste, tanto seus rios quanto seus mares, do Oiapoque ao Chuí. Quer ser mais que cana e café, soja e algodão, mais que boi e pescado, mais que pantanal e cerrado, mais que ser pentacampeão. Não quer só isso não, quer ser o Brasil mais brasileiro, daquele mais estradeiro no dia do Sol. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista e compositor Rafael Rabello (1962-1995): Sete cordas, Todos os tons & Cry my guitar; da cantora e atriz sul-africana Phindile Mkhize: Beautiful voices, I’m very woman & Circle of life; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Eu acho que essa nossa tarefa no começo do século XXI é a recriação da cidadania, mediante uma outra globalização, horizontalizada e não verticalizada como a atual, na qual a vida não seja tributária do cálculo, mas haja espaço para a emoção – que é o que une os homens. [...]. Pensamento extraído da obra O país distorcido: o Brasil, a globalização e a cidadania (Publifolha, 2002), do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001), que na obra O espaço do cidadão (Nobel, 1987), expressou que [...] quando aceitamos que sejam pagos salários de fome a uma boa parte da população, é certo que estamos longe de possuir uma verdadeira cultura [...] educação feito mercadoria, [pois estas] reproduzem e ampliam as desigualdades, sem extirpar as mazelas da ignorância, promovendo apenas a produção setorial, profissional, consumista que criam afinal gente deseducada para a vida [...]. Veja mais aqui.

EDUCAÇÃO É AMOR - [...] O homem é governado pela força da vida. A alma viva, com seu desejo de sobrevivência, demonstra grande poder de adaptação ao seu ambiente. A força da vida humana, vendo e sentindo o meio ambiente, forma e desenvolve novas faculdades. Essas faculdades continuam em desenvolvimento, sobrepujando dificuldades, e se transformam em relevantes habilidades. Essa é a relação entre o ser humano e a habilidade. O desenvolvimento de uma habilidade não pode ser conseguido por mero pensar e teorizar, mas tem de ser acompanhado por ações e práticas [...]. Só na ação, a potência da força vital pode se desenvolver inteiramente. A habilidade se desdobra com a prática. Uma pessoa inativa não desenvolve habilidades. [...] Está em meu poder educar todas as crianças do mundo, de maneira a fazê-las um pouco mais felizes e melhores. Nessa direção devo agir. Não busco mais do que amor e felicidade para a humanidade. Creio que é aquilo que todos buscamos afinal. Amor é gerado por amor. Nossa vida só vale a pena se nos amamos e consolamos. Procurei na música o significado da arte e a música me deu trabalho e foi meu alvo de vida. [...] Desejo, se for possível, uma modificação da maneira de educar, para não mais apenas dar instrução, mas educação no verdadeiro sentido da palavra, uma educação que, baseada no fato de a criança estar em crescimento, estimule, desenvolva e cristalize as capacidades humanas. Por esse motivo, dedico todas as minhas forças à Educação do Talento. O que virá de uma criança depende de sua educação. Meu mais profundo desejo é que todas as crianças deste mundo possam ser boas criaturas humanas, pessoas felizes, com habilidades extraordinárias, e é para conseguir isso que dou toda minha força de ação. Isso porque estou plenamente seguro de que todas as crianças nascem com esse potencial [...] As pessoas de hoje são como jardineiros que olham com tristeza e balançam a cabeça para sua muda que não cresceu e dizem que a semente deveria ter sido má. Não consideram que a semente vingou, mas que a maneira de cuidar é que estava errada. Ficam firmes na maneira errada e deixam que, planta após planta, feneçam [...]. Trechos extraídos da obra Educação é amor: um novo método de educação (UFSM, 1983), do filósofo, músico e educador japonês Shinichi Suzuki (1898-1998), inventor do método internacional de educação musical e desenvolveu uma filosofia para educar pessoas de todas as idades e habilidades. Veja mais aqui.

COLHEITA – [...] Um rosto proibido desde que crescera. Dominava as paisagens no modo ativo de agrupar frutos e os comia nas sendas minúsculas das montanhas, e ainda pela alegria com que distribuía sementes. A cada terra a sua verdade de semente, ele se dizia sorrindo [...] sorriu, era altiva como ele, embora seu silêncio fosse de ouro [...] Um rosto proibido desde que crescera [...] Onde estive então nesta casa, ele perguntou. Procure e em achando haveremos de conversar [...] mais capaz do que ele de atingir a intensidade, e muito mais sensível porque viveu entre grades, e mais voluntariosa por ter resistido com bravura aos galanteios [...]. Trechos extraídos da obra Sala de armas (Aché, 1973), da premiadíssima escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon. Veja mais aqui e aqui.

MIREIA (FRAGMENTO) – [...] Então Mireia sossegava, / o olhar perdido na distância... / Parecia nas profundezas do ar azul / ver imagens maravilhosas. / Depois de novo prosseguiu: / - Felizes, felizes das almas / não mais retidas nestye mundo pela carne! / Viste os flocos de luz, Vicente, / que elas lançavam ao subirem ? / Que belo livro se teria, se as palavras / que disseram fossem escritas! / Vicente, porém, que a vontade / de chorar vinha reprimindo, / deu larga à sua dor, em soluços pungentes: / - Ah, tivesse-as eu visto! Aos seus / vestidos, como um carrapato, / me teria agarrado, e chorando, e berrando: / - Ó Rainhas do céu, diria / Único asilo que nos resta, / Oh arrancai-me os dentes todos, / os dez dedos das mãos, os dois olhos da cara! / Mas dai-me incólume de volta / a fadazinha dos meus sonhos! / - Ei-las que vêm nas suas túnicas de linho! / Súbito pôs-se ela a dizer, / e esforçando-se por sair / do regaço de sua mãe, / acenava com a mão para as bandas do mar. / Logo todos o olhar volveram / para onde a moça apontava. / E diziam, levando a mão à testa: - Nada / enxergamos ali por ora, / senão a linha do horizonte / confinando o céu e a água amarga. / - Não se vê nada ali... – Vê-se, sim! Olhe bem! / - Elas vêm num barco sem vela, / gritou Mireia. Não estão vendo / como as ondas ficam serenas diante delas? / Oh, são elas! O ar está claro, / e a brisa suave que as bafeja / se move o mais leve que pode... / Os pássaros do mar saúdam-na em revoadas. [...]. Trecho do Canto duodécumo: a morte, extraído da obra Mireia (Delta, 1962), do poeta francês Frédéric Mistral (1830-1914), Prêmio Nobel de Literatura de 1904.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte gravadora, escultora, pintora, professora e artista multimídia Lygia Pape (1927-2004). Veja mais aqui & aqui.


O III Simpósio de Pesquisa e Práticas Docentes – III SIMPRAD & muito mais na Agenda aqui.
&
A vida é plena e é o que sou, o pensamento de Milton Santos, a literatura de Nélida Piñon, Liberdade de Imprensa & a arte de Leonid Afremov aqui.
 

RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...