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segunda-feira, agosto 13, 2018

GENET, MURILO MENDES, CUATEMOC, MILTON SANTOS, BETO GUEDES & LEONOR FINI


O AMANHÃ DE ONTEM – Imagem: da pintora, designer, ilustradora e autora surrealista argentina Leonor Fini (1907-1996). - Uma mulher amamenta, alguns vão, outros voltam. A cena aurática: dela o olhar perplexo no vazio como se um dedo apontasse oblíquo o fosso da existência. A alegoria da família desfeita, marido perdido, só o chão e a roupa do couro com seus lençóis de marquises suspensas de lua estrelada, fronha de cimento, travesseiro de concreto. Ela olha inquieta pros lados e vacila um tanto assustada como quem perde o canavial da infância, coxas de fora, seios fartos na fome. Quase vejo sua alma e se recompõe alisando o cabelo em desalinho, enquanto a criança inquieta ao colo desarruma suas vestes e mais seduz sem conseguir esconder com seu vestido curtinho de alça, simples e solto na carne alva, a sorrir sem jeito com seus olhos intensos a olhares atentos, face afogueada, quase tão plena quanto desolada. Quem passa logo vê, é o que lhe dão na flor da idade, se embaixo de uma ponte ou de um viaduto com as hortas paternas devastadas, o amparo árido materno, o chão batido pra pisar o asfalto, o coração condoído. Ninguém sabe sua dor, se presente ou futura, apenas uma mãe naquela hora e a vida na lágrima inupta, escapada a deslizar aos lábios salientes e entreabertos. Não há o que fazer nem como pedir, sem ponto de parada ou partida, a sofrer por quilômetros a língua no choro, a cabeça nas paisagens de nuvens e pensamentos superpostos que se confundem ao cenário cruel. Ela lá, no aleitamento, muitos se foram, outros voltaram. A espera de nada, condução inexistente, a chuva sem guarida, a sala das horas a céu aberto e espelhado. Não sabe das margens, só uma pra ficar e do outro lado, tudo acontece. À distância, ela compõe a brumosa paisagem e continua a dar de mamar. Todos sabem para onde vão, ela parece não ter para onde ir nem ficar. Ela me vê como se dissesse: se houver amanhã será ontem. Eu sigo e ela, não sei até quando, na memória. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor e multi-instrumentista Beto Guedes: Ao vivo, Contos da lua vaga, Dias de Paz e Outros clássicos ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Aqui eu, Cacique Guaicaipuro Cuatemoc, vim encontrar aqueles que participam da reunião. Aqui eu, descendente dos que povoaram a América há quarenta mil anos, vim encontrar os que a encontraram há somente quinhentos anos. Aqui pois, nos encontramos todos. Sabemos o que somos, e é o bastante. Nunca pretendemos outra coisa. O irmão aduaneiro europeu me pede papel escrito com visto para poder descobrir aos que me descobriram. O irmão usurário europeu me pede o pagamento de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei a vender-me. O irmão rábula europeu me explica que toda dívida se paga com bens ainda que seja vendendo seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu os vou descobrindo. Também posso reclamar pagamentos e também posso reclamar juros. Consta no Archivo de Índias, papel sobre papel, recibo sobre recibo e assinatura sobre assinatura, que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram a San Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Saque? Não acredito! Porque seria pensar que os irmãos cristãos pecaram em seu Sétimo Mandamento. Espoliação? Guarde-me Tanatzin de que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue de seu irmão! Genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomé de las Casas, que qualificam o encontro como de destruição das índias, ou a radicais como Arturo Uslar Pietri, que afirma que o avanço do capitalismo e da atual civilização europeia se deve à inundação de metais preciosos! Não! Esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata devem ser considerados como o primeiro de muitos outros empréstimos amigáveis da América, destinado ao desenvolvimento da Europa. O contrário seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito não só de exigir a devolução imediata, mas também a indenização pelas destruições e prejuízos. Não Eu, Guaicaipuro Cuatemoc, prefiro pensar na menos ofensiva destas hipóteses. Tão fabulosa exportação de capitais não foram mais que o início de um plano ‘Marshalltesuma’, para garantir a reconstrução da bárbara Europa, arruinada por suas deploráveis guerras contra os cultos muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, do banho cotidiano e outras conquistas da civilização. Por isso, ao celebrar o Quinto Centenário do Empréstimo, poderemos perguntar-nos: Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo dos fundos tão generosamente adiantados pelo Fundo Indo Americano Internacional? Lastimamos dizer que não. Estrategicamente, o dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em armadas invencíveis, em terceiros reichs e outras formas de extermínio mútuo, sem outro destino que terminar ocupados pelas tropas gringas da OTAN, como no Panamá, mas sem canal. Financeiramente, têm sido incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de cancelar o capital e seus fundos, quanto de tornarem-se independentes das rendas líquidas, das matérias primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo. Este deplorável quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e os juros que, tão generosamente temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus as vis e sanguinárias taxas de 20 e até 30 por cento de juros, que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos adiantados, mais o módico juros fixo de 10 por cento, acumulado somente durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base, e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que nos devem, como primeiro pagamento de sua dívida, uma massa de 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambos valores elevados à potência de 300. Isto é, um número para cuja expressão total, seriam necessários mais de 300 algarismos, e que supera amplamente o peso total do planeta Terra. Muito pesados são esses blocos de ouro e prata. Quanto pesariam, calculados em sangue? Alegar que a Europa, em meio milênio, não pode gerar riquezas suficientes para cancelar esse módico juro, seria tanto como admitir seu absoluto fracasso financeiro e/ou a demencial irracionalidade das bases do capitalismo. Tais questões metafísicas, desde logo, não inquietam os Indo Americanos. Mas exigimos sim a assinatura de uma Carta de Intenção que discipline os povos devedores do Velho Continente, e que os obrigue a cumprir seus compromissos mediante uma privatização ou reconversão da Europa, que permita que a nos entregue inteira, como primeiro pagamento da dívida histórica. Discurso do embaixador mexicano de descendência indígena Guaicaípuro Cuatemoc, na conferência dos chefes de Estado da União Européia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002 em Madri, Espanha.

HERANÇA HISTÓRICA – [...] O Crescimento urbano e as modificações no tipo de atividades dominantes que o acompanharam traduzindo-se na paisagem por destruições, justaposições ou novas utilizações no habitat e no patrimônio mobiliário anteriores [...] Realizados de forma incompleta, as destruições deixaram subsistir testemunhos da cidade primitiva [...] Na maioria dos casos porém, foi instituída uma separação em “bairros históricos”; a separação foi tanto mais forte quanto mais interviram fatores políticos, étnicos ou econômicos, para impor a diferenciação [...]. Trecho extraído da obra Manual da geografia urbana (Hucitec, 1981), do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001). Veja mais aqui.

O ATELIÊ DE GIACOMETTI - Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, senão terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele não poderá nunca transformá-lo em outro. Sonhamos então, nostálgicos, com um universo em que o homem, em vez de agir com tanta fúria sobre a aparência visível, se dedicasse a desfazer-se dessa aparência, não somente recusando qualquer ação sobre ela, mas desnudando-se o bastante para descobrir esse lugar secreto, dentro de nós mesmos, a partir do qual seria possível uma aventura humana de todo diferente. Mais precisamente moral, sem dúvida. Mas, afinal, é talvez a essa condição humana, a esse agenciamento inelutável, que devemos a nostalgia de uma civilização que procuraria se aventurar fora do que é mensurável. [...]. Trecho extraído da obra O ateliê de Giacometti (Cosaic & Naify, 2000), do controverso escritor e dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986), Veja mais aqui.

TRÊS POEMASSOMOS TODOS POETAS - Assisto em mim a um desdobrar de planos. / as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move, / A luz desce das origens através dos tempos / E caminha desde já / Na frente dos meus sucessores. / Companheiro, / Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma. / Sou todos e sou um, / Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego, / Pelos gritos isolados que não entraram no coro. / Sou responsável pelas auroras que não se levantam / E pela angústia que cresce dia a dia. A MÃE DO PRIMEIRO FILHO - Carmem fica matutando / no seu corpo já passado. / — Até à volta, meu seio / De mil novecentos e doze. / Adeus, minha perna linda / De mil novecentos e quinze. / Quando eu estava no colégio / Meu corpo era bem diferente. / Quando acabei o namoro / Meu corpo era bem diferente. / Quando um dia me casei / Meu corpo era bem diferente. / Nunca mais eu hei de ver / Meus quadris do ano passado... / A tarde já madurou / E Carmem fica pensando. GILDA - Não ponha o nome de Gilda / na sua filha, coitada, / Se tem filha pra nascer / Ou filha pra batisar. / Minha mãe se chama Gilda, / Não se casou com meu pai. / Sempre lhe sobra desgraça, / Não tem tempo de escolher. / Também eu me chamo Gilda, / E, pra dizer a verdade / Sou pouco mais infeliz. / Sou menos do que mulher, / Sou uma mulher qualquer. / Ando à-toa pelo mundo. / Sem força pra me matar. / Minha filha é também Gilda, / Pro costume não perder / É casada com o espelho / E amigada com o José. / Qualquer dia Gilda foge / Ou se mata em Paquetá / Com José ou sem José. / Já comprei lenço de renda / Pra chorar com mais apuro / E aos jornais telefonei. / Se Gilda enfim não morrer, / Se Gilda tiver uma filha / Não põe o nome de Gilda, / Na menina, que não deixo. / Quem ganha o nome de Gilda / Vira Gilda sem querer. / Não ponha o nome de Gilda / No corpo de uma mulher. Poemas do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, designer, ilustradora e autora surrealista argentina Leonor Fini (1907-1996). Veja mais aquiaqui.

AGENDA
Festival Internacional de Compositores – dias 15 a 20 de Outubro,  Solar da Marquesa Av. Joaquim Nabuco, 5, Largo do Varadouro, Olinda & muito mais na Agenda aqui.
&
Marquinhos Cabral: desde menino solto na buraqueira, o pensamento de Jiddu Krishnamurti & Celso Furtado, o mito de Joseph Campbell, As amizades de Barbosa Lima Sobrinho, a literatura de Millôr Fernandes, Rio Una & Jorge de Altinho aqui.


quinta-feira, março 07, 2013

SARAH FLOWER ADAMS, GRANT ALLEN, VERMEER, MIRRA ALFASSA, NILDA MARIA & BUDISMO


A MOÇA DO BRINCO DE PÉROLA – Dois colecionadores foram para um leilão de obra de artes e combinaram que um não cobriria o lance do outro quando algum deles manifestasse interesse por uma obra. Assim foi e ao suspeitar que se tratava de suposta obra de um autor há muito esquecido, um deles arrematou e prometeu ao outro doar para o Museu Mauritshuis, de Haia, quando morresse. Assim se procedeu e não fosse o Marcel Proust descobri-la e dedicar páginas sublinhando a beleza dela e de outras obras do pintor em seu clássico Em busca do tempo perdido (1927), talvez nem tivéssemos mais notícia. A partir disso é que se passou a trazer à tona a obra daquele que passou por mais de 200 anos em profundo esquecimento: a do pintor do Realismo clássico holandês Johannes Vermeer (1632-1675), autor entre outras poucas obras de A Alcoviteira (1656); Vista de Delft (1660); Moça com Brinco de Pérola (1665); O Astrônomo (1668); O Geógrafo (1669). Mas a obra em referência é a famosíssima Meisje met de parel (Moça com brinco de pérola), pintado pelo artista no ano de 1665, alcunhada de Mona Lisa do Norte ou a Mona Lisa holandesa, apresentando a protagonista como uma jovem com ar sereno, doce, angelical, um olhar casto e os lábios entreabertos, voltada para o para o espectador e parcialmente de lado, como se algo a convocasse. Nascido em Delft, na Holanda, em 1632, cidade conhecida pela fabricação de um tipo especial de cerâmica esmaltada, ele além de pintor atuava como comerciante vendendo pinturas de outros artistas da cidade. Porém, suas atividades entraram em decadência com os desdobramentos da guerra entre a Holanda e a França, ocasião em que uma grave crise econômica tomou conta do cenário. Com a sua morte em extrema pobreza, ele caiu em profundo esquecimento. Ao ser descoberta a famosa obra 200 anos depois, ela foi transformada em um livro com a história contada pela escritora britânica Tracy Chevalier, cujo título era Girl with a Pearl Earring (Plume, 2001). Como pouco se sabe até hoje acerca do pintor e da personagem da pintura, a escritora reuniu informações a respeito e criou este romance histórico, contando a respeito de uma jovem de 17 anos, Griet – nome este que significa grão de areia, coragem e firmeza -, que se vê obrigada a trabalhar para ajudar no sustento da pobre família. Ela torna-se então serviçal na casa do pintor e, por conta disso, chama atenção do filho do açougueiro que começa por cortejá-la, desenvolvendo-se, com isso, um triângulo amoroso. A sua história foi adaptada para o cinema em 2003, num longa-metragem dirigido pelo cineasta Peter Webber, num roteiro adaptado por Olivia Hetreed, estrelado pela atriz Scarlett Johansson. Ironia da vida, mais um exemplo da certidão de que só depois da morte é que autor ganha reputação e alcança sua celebridade. Justiça seja feita!

 


DITOS & DESDITOS - Cada idade tem sua felicidade e problemas. Eu tenho apenas uma ruga e estou sentada sobre ela. Eu tenho uma natureza bastante masculina. Eu não tenho medo de nada. Tive prazer quando pude... agi com clareza e moralidade e sem remorsos. Eu sou muito sortuda. Eu tinha muita força de vontade! Uma baita força de vontade, entendeu? E foi muito útil para mim. Tive que esperar 110 anos para ficar famosa… Pretendo aproveitar o máximo possível. Espero a morte… e os jornalistas... Depoimento da supercentenária francesa Jeanne Louise Calment (1875-1997).

 

ALGUÉM FALOU - A primeira necessidade é a descoberta interior para saber o que se é verdadeiramente atrás das aparências sociais, morais, culturais, raciais, hereditárias. No centro há um ser livre, vasto, conhecedor, que se oferece à nossa descoberta e que deve tornar-se o centro agente de nosso ser, de nossa vida... A maior parte de vocês vive na superfície de seu ser, expostos ao contato das influências externas. Vocês vivem, por assim dizer, quase que projetados para fora de seus corpos, e quando encontram um ser desagradável, projetado como vocês fora do corpo, vocês ficam perturbados. Toda a dificuldade provém do fato de que seu ser não possui o hábito de recolher-se. Vocês devem sempre recuar um passo para o interior de si mesmos. Aprendam a mergulhar profundamente no interior. Recolham-se e estarão em segurança. Não se abandonem às forças superficiais que se movem no mundo externo. Mesmo que estejam apressados para fazer alguma coisa, recolham-se por um instante e descobrirão, para a sua própria surpresa, que farão muito mais rápido e melhor o trabalho que tiverem que realizar. Se alguém encolerizar-se contra vocês, não se deixem tomar por suas vibrações, mas, simplesmente, interiorizem-se, e a raiva da pessoa, não encontrando em vocês nenhum suporte ou resposta, desaparecerá. Permaneçam sempre em paz, resistam a toda tentação de perder esta paz. Não decidam nada sem recolher-se ao interior, jamais digam uma palavra sem recolher-se, jamais se lancem à ação sem recolher-se... Ponham em prática essa paz interior, ao menos tentem um pouco e continuem a se exercitar até que isso se torne um hábito em vocês... Pensamento da artista, musicista e iogue francesa Mirra Alfassa (1878-1973), que formulou os princípios de uma educação integral, vivenciando e descrevendo processos que levem a uma consciência celular para supramentalização integral do ser.

 

IDILIO - [...] Aqui na Inglaterra, nosso bacurau é apenas um migrante de verão, um visitante dos pântanos enquanto os insetos abundam; e nós o escutamos ansiosamente no clima quente de maio. Ele vem até nós da África do Sul, onde passa o inverno entre os zulus, ou melhor, escapa totalmente do frio do inverno no hemisfério oposto. Pois ele deve ter insetos, insetos voadores nas asas, e muitos deles. Damos as boas-vindas ao seu primeiro barulho entre os pinheiros e samambaias como um sinal do verão; pois ele é um pássaro prudente e raramente comete erros, conhecendo bem as marcas do tempo [...] Poucas aves britânicas, de fato, mostram maior e mais próxima adaptação a condições especiais do que nossos sonhadores night-jars, essenciais vendedores de insetos do crepúsculo em planaltos abertos e sem árvores. Seus olhos grandes e misteriosos, suas bocas escancaradas, sua franja esticada de cerdas, sua delicada plumagem de coruja, seu vôo rápido e silencioso, seus movimentos ágeis, seu grito misterioso, sua curiosa natureza apaixonada - tudo os marca como maravilhosamente variantes noturnas modificadas no tipo geral dos andorinhões e trogons. [...] O ano costumava começar em março. Isso era simples e natural - deixá-lo começar seu curso com o primeiro sopro mais quente do retorno da primavera. Começa agora em janeiro – o que não tem nada que recomende. Não tenho certeza se a Natureza não nos mostra que realmente começa no dia primeiro de outubro. "Outubro!" você chora, “quando tudo está mudando e morrendo! quando as árvores perdem suas folhas, quando as trepadeiras ficam vermelhas, quando os cantores de verão abandonam nossas florestas, quando as flores escasseiam no campo ou na sebe! Que promessa então da primavera? Que sinais alegres de um começo?” Mesmo assim, as coisas parecem de relance superficial. O outono, você pensaria, é a estação da decadência, da morte, da dissolução, o fim de todas as coisas, sem esperança ou símbolo de rejuvenescimento. No entanto, olhe um pouco mais de perto enquanto caminha pelas alamedas, entre as samambaias douradas, mais gloriosas à medida que desaparecem, e logo verá que o ciclo da vida do ano começa muito mais verdadeiramente em outubro do que em qualquer outra data na mudança de doze meses. você pode corrigi-lo facilmente. [...]. Trechos extraídos da obra Moorland Idylls (Chatto & Windus, 1896), do escritor canadense Grant Allen (1848-1899).

 

DOIS POEMAS - I - Embora como o andarilho, \ O sol se pôs, \ A escuridão está sobre mim, \ Meu descanso é uma pedra; \ No entanto, em meus sonhos eu estaria mais perto, meu Deus, de Ti. II - Ele envia o sol, ele envia a chuva, \ - Ambos são necessários para a flor; \ E alegrias e lágrimas são enviadas \ Para dar à alma alimento adequado. \ Como vem a mim ou nuvem ou sol, \ Pai! seja feita a tua vontade, não a minha. Poemas da escritora inglesa Sarah Flower Adams (1805-1848), autora da obra Vivia Perpetua, um poema alegórico dramático que retrata uma jovem esposa que se recusa a se submeter ao controle masculino e renunciar às suas crenças cristãs, sendo, por isso, é condenada à morte, uma denúncia sobre um conflito religioso, defendendo o livre pensamento, a autonomia espiritual e intelectual feminina.

 

A PRISÃO DE CHANTAL DO BALCÃO DE GENET – A atriz Nilda Maria Toniolo Quadro de Barros foi presa durante uma apresentação da peça teatral o Balcão, do controverso escritor e dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986), na temporada brasileira de 1969, encenada pelo diretor Victor Garcia. A peça estreou em dezembro de 1969 e ficou em cartaz até 16 de agosto de 1971. Porém, em 5 de maio de 1970, a atriz Nilda Maria, que interpretava a personagem Chantal, desapareceu. No segundo ato da peça foi anunciado que a revolucionária Chantal havia sido presa e incomunicável, e que sua cena seria suspensa do espetáculo até a sua libertação. O autor da peça ao chegar ao Brasil procurou influir na liberação da atriz. Gaucha de Santa Maria e nascida em 1935, a atriz começou sua carreira artística como programadora musical da Rádio Santamariense, no Rio Grande do Sul. A partir de 1954, ela passou a integrar um grupo de teatro amador em Porto Alegre, se mudando posteriormente para São Paulo, onde passa a atuar no Teatro Brasileiro de Comedia (TBC), no Teatro de Arena e no Oficina. Com Ruth Escobar criou o Teatro Popular Nacional que se apresentava em praças públicas. Ao participar da audaciosa montagem de “O Balcão”, em maio de 1970, ela foi presa e passou seis meses no Departamento da Ordem Política Social (DOPS). No cinema ela atuou no filme Grande Sertão:Veredas, de Geraldo Santos Pereira e na Televisão participou da novela “Vila do Arco”, em 1975, escrita por Sérgio Jockyman, com direção de Luiz Gallon, baseada na inspiradora obra de Machado de Assis. Hoje aposentada de sua trajetória que durou de 1962-2010, participando de trabalhos como Quarto de Despejo (1961), Os últimos (1968), Uma violinista no telhado (1971;72), Como somos (1972), todas no teatro, além de Onde a cruz está marcada (1975), Vila do Arco (1975), The Star (1979) e Eu e as coisas (1981), na televisão. Veja mais aqui.

 



BUDISMO  - O budismo surge no norte da Índia onde nasceu o Jainismo. O fundador do budismo é Gautama ou Siddhárta, que será em seguida denominado Câkya-Muni, ou seja, o sábio do Çâkyas e, posteriormente, Buda, o iluminado. Ele nasceu pelo ano 560ª.C., perto de Kapilavatsu, capitado do estado. Foi criado pela irmã da sua mãe, passando a mocidade entre as mais requintadas voluptuosidades. Aos 20 anos Gautama casou com uma ou provavelmente três mulheres e teve um filho que o seguiria mais tarde na via da renuncia ao mundo. Apesar da vida voluptuosa de que era rodeado, aos 30 anos o futuro Buda experimentou um desgosto profundo do mundo e da vida. Tinha 36 anos quando compreendeu que: o sofrimento é essencial à vida, que se resolve na doença, na velhice, na morte. Desde então Gautama se tornou Buda, o iluminado, superior aos ascetas e aos próprios deuses, porque tivera a intuição da via para libertar-se do curso tormentoso da existência, da cadeia trágica do nascimento e da morte, do sofrimento e da vida. Descoberta a verdade libertadora, Buda ficou em duvida se devia ou não revelá-la ao mundo, mas resolveu manifestar aos homens a via da salvação, isto é, a libertação definitiva desta vida.
A DOUTRINA BUDISTA – Para o budismo nega a realidade substancial do eu e do não-eu, dissolvendo ambos em elementos fenomênicos, embora mutuamente conexos. Assim, o individuo humano não tem realidade estável nem como espírito, nem como corpo, os quais são complexos mutáveis de elementos fenomênicos. Não é real o ser, mas o ato. Este determina aquela agregação de elementos fenomênicos, que é a personalidade empírica, pelo desejo e pela vontade de viver. Essa vontade de viver por sua vez, procede da inconsciente ignorância da vaidade do mundo e da vida. É loucura, portanto, apegar-se à vida e é sabedoria libertar-se dela. Para o budismo a libertação depende radicalmente do conhecimento, da ciência. É, por conseguinte, uma doutrina intelectualista, pela importância fundamental que atribui ao conhecimento na solução do problema da vida. É ao mesmo tempo agnóstico, porque não indaga a respeito do absoluto e nada sabe sobre ele, interessando-se unicamente pela libertação deste mundo efêmero e pela dissolução da vida empírica. Como é antimetafísico, é antiascetico, porquanto julga estéril a penitencia corporal. O desapego do mundo e a mortificação da vontade de viver, de harmonia com todo o pensamento clássico indiano, nega e condena a ação no mundo geradora do mal e do sofrimento.
Buda sintetiza a sua complexa doutrina nas quatro famosas santas verdades da predica de Benares: a vida é sofrimento – a causa do sofrimento é o desejo – é mister suprimir o desejo para libertar-se do sofrimento – para suprimir o desejo para libertar-se do sofrimento – para suprimir o desejo é preciso praticar oito fundamentais mandamentos éticos.
O budismo originário era empírico e agnóstico, consistindo o escopo da vida na consecução da libertação pessoal nirvânica, e essa praxe excluía de propósito toda metafica verdadeira e própria.
Após a morte de Gautama, seus ensinamentos foram codificados pelos discípulos que os conservaram, a principio por tradição oral e mais tarde por escrito. Cerca de 100 anos depois, uma série de divergências começou a dividir a comunidade.
O fim do budismo indiano está ligado à invasão islâmica da Índia a partir do séc. XIII, que destruiu os grandes mosteiros e universidades e conseguiu extirpar o budismo do solo indiano.
Em seus 2 mil e 500 anos de história, o budismo deu origem a grande número de escolas e correntes, apresentando complexas variações doutrinárias. Encontram-se no budismo elementos doutrinários pan-indianos ao lado de outros especificamente budistas
Há que se considerar que o idealismo budista suscitará depois do século V uma escola de lógicos ilustres, cujos maiores expoentes serão Dignâga e Dharmakitri. Mais adiante o budismo se confronta com o induísmo e com o bramanismo, acabando de ser suplantado pelo segundo depois do século XII.
O budismo proporcionou ao pensamento indiano uma grande contribuição critica.
A literatura canônica do budismo compreende três grandes coleções: o cânon páli, conservado pelos budistas do sudeste asiático, o cânon sino-japones e o cano tibetano. Existem mais textos esparsos em sânscrito, mandchu, mongol e em vários dialetos da Ásia central, como tangut.
O budismo pretende que se evite especialmente o amor à mulher, daí derivando a conservação da espécie humana. O que é a extrema expressão do desejo, da vontade de viver e implica o extremo sofrimento humano. Conta a este propósito certa lenda budista que uma famosa e belíssima hetera se apaixonou loucamente por um jovem sequaz de Buda. E tendo-o convidado repetidas vezes para junto de si, o homem budista sempre recusou o convite. Em seguida, por ter consentido um crime, a hetera foi punida por ordem do rei com a mutilação, que a tornou disforme e repugnante, e assim abandonada na lama de um cemitério. Então o jovem budista foi visitá-la. Muito surpreendida, a hetera perguntou-lhe porque não quisera vê-la quando era sã e bonita e a visitava agora que era disforme. O jovem respondeu: “Minha irmã, eu não vim antes junto de ti, atraído pelo amor da voluptuosidade, mas venho agora para conhecer a verdadeira natureza daquele corpo miserável que faz o prazer do homem”. E depois a consolou na paz de Buda. Veja mais aqui, aqui e aqui.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
COURTILIER, Gaston. As Antigas Civilizações da Índia . Rio de Janeiro Editions Ferni, 1978.
JAIN, Jagdish Chandra. Jainismo : vida e obra de mahavira vardhamana / Jagdish Chandra Jain, Mahavira Vardhamana. São Paulo : Palas Athena, 1982.
PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Luis. Historia da filosofia.São Paulo: Melhoramentos, 1978.
PIAZZA, Waldomiro. Religiões da Humanidade. São Paulo: Loyola, 1988.
WILGES, Irineu. Cultura religiosa. As religiões no mundo. Petrópolis: Vozes, 1987.




Veja mais sobre:
A mulher nos primórdios da humanidade, Virginia Woolf, Friedrich Engels, Edith Wharton, Maria Polydouri, Sainkho Namtchylak, Paula Picarelli, Inês Pedrosa, Jean-Léon Gérôme, Hanna Cantora & Tudo no Brasil é um parto da montanha aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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