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sexta-feira, maio 03, 2019

ANA CRISTINA CÉSAR, NÉLIDA PIÑON, MILTON SANTOS, HELENA HAUSS & O NOME DE CADA UM


BILHETE EXTRAVIADO – Outono de ano, quase inverno na vida: preparo a caminhada na estrada infinita. Da primavera, fagueiras fantasias: um quintal que era tudo e quase sem fim. O verão chegou cedo: passei, nem vi direito. Apesar de tudo, aprendi da forma mais difícil, nem direito até: cavalos que se arvoravam soltos e indomáveis, bispos ariscos de banda, torres frágeis a se moverem solitárias e à deriva, rainha se antecipando ao rei imóvel no xeque mate, que seja Dia Internacional do Sol – para mim é todo dia, mesmo que chova canivetes ou o escambau! O que tenho para dizer são minhas mãos espalmadas, meus braços doloridos, meu corpo cansado de lutas vãs. Fiz o que pude até quase exaurir todas as minhas forças, esgotar os ânimos, liquidado pelas adversidades. Mas não perdi a ternura e o sorriso, suplantei limites e que seja Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, hoje outra coisa, matérias de interesses, anúncios de fachadas, manchetes da mentira sensacionalista: vendem tudo, até a alma. O que de mim restou por ambicionar direitos, trevas dissolveram sonhos arrebatados. Sou o mundo porque inexiste o tempo, volta e meia me desfiz em coisa vinda que não se sabe, amanhecendo esperanças, anoitecendo vigílias e que seja Dia Internacional do Parlamento, outros representantes de vícios, nada vale nessas ruas que não os meus prontos para serem enterrados pelos que ditam leis contra os que estão de fora da corriola. Por conta própria escolhi a solidão, no que logro ou ignoro por resolver um só problema e criar outros tantos improváveis e interinos, mesmo sem querer. Meço o trecho que me cabe para igualar o que não sei que é, porque infrigi a regra de ouro ao desatino, somente sou braços abertos a quem chegar. E me basto de nada, lições de partir e se perder, sou para a vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o projeto apresentado em 1965 pelo deputado federal Áureo Melo destinado a “proibir registro de nomes ridículos ou humilhantes”. [...] O Congresso Nacional decreta: Art. 1º. Fica proibido em todo o território nacional, o registro, pelas autoridades, de nomes próprios que venham a se constituir, por serem ridículos ou humilhantes, motivo de prejuizo moral àqueles a quem forem dados. Art. 1ª. Ficam passíveis de multa, que será arbitrada em um mínimo de Cr$ 1.000,000 (hum milhão de cruzeiros), todos aqueles que infrigirem o disposto no artigo anterior. [...] Tal projeto era acompanhado por esta breve justificação: “Sandália de Oliveira Silva; Maria dos Prazeres Fortes; Sherlock Holmes da Silva; Adolf Hitler de Oliveira, etc. Tais são os nomes que tivemos ensejo de encontrar, legalizados e em pleno vigor, e com os quais arcam, como um verdadeiro estigma, oriundo da ignorância dos pais e escrivãos [...] Pode servir de exemplo o caso do desembargador Francisco Gonçalves de Campos, magistrado no Acre, que deu a seus filhos nomes extremamente curiosos, todos oriundos de suas propensões literárias. Ao primeiro nascido, deu o nome de Prólogo de Campos. O segundo recebeu o nome de Verso de Campos. Nasceu depois uma menina, que recebeu o nome de Estrofe. Veio, então, o quarto filho, que os pais supunham que seria o último, donde o seu nome: Epílogo de Campos. Mas, ao fim de algum tempo, imprevista gravidez da esposa do honrado desembargador anunciou novo aumento da prole. Nasceu uma menina que se chamou Poesia de Campos. E em seguida, veio ainda uma filha. Que fazer? Como batizá-la? Só ocorreu uma solução: ela se chamaria Errata de Campos! E assim foi feito, pois que a colocação da Poesia após o Epílogo estava mesmo pedindo Errata... (A relação foi fornecida pelo ex-deputado Epílogo de Campos, que confessa nunca ter tido qualquer dificuldade motivada por seu nome singularíssimo) [....].
Trechos extraídos da obra Como você se chama? Estudo sócio-psicológico de prenomes e cognomes (Documentário, 1974), do saudoso escritor, historiador, jornalista, escritor e teatrólogo Raimundo Magalhães Júnior (1907-1981). Veja mais aqui e aqui.

A POESIA DE ANA CRISTINA CESAR
NOITE DE NATAL: Noite de Natal. / Estou bonita que é um desperdício. / Não sinto nada / Não sinto nada, mamãe / Esqueci / Menti de dia / Antigamente eu sabia escrever / Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída / com desvelo técnico. / Freud e eu brigamos muito. / Irene no céu desmente: deixou de / trepar aos 45 anos / Entretanto sou moça / estreando um bico fino que anda feio, / pisa mais que deve, / me leva indesejável pra perto das / botas pretas / pudera
CARTILHA DA CURA: As mulheres e as crianças são as primeiras que / desistem de afundar navios.
ANÔNIMO: Sou linda; gostosa; quando no cinema você roça o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais quem desejo, que me assaviva, comendo coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no cinema é escuro e a tela não importa, só o lado, o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora deste sabe onde me encontro até de olhos fechados; falo pouco; encontre; esquina de Concentração com Difusão, lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.
MOCIDADE INDEPENDENTE: Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem medir mais as consequências. Por que recusamos ser proféticas? E que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma graça atravessando o Estado de São Paulo, de madrugada, por você, e furiosa: é agora, nesta contramão.
Poemas da escritora e tradutora Ana Cristina César – Ana C. (1952-1983). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual, escultora e ilustradora francesa Helena Hauss. Veja mais aqui & aqui.
&
A OBRA DE MILTON SANTOS
A clarividência é uma virtude que se adquire pela intuição, mas sobretudo pelo estudo e tentar ver a partir do presente o que se projeta no futuro.
A obra do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
A OBRA DE NÉLIDA PIÑON
O escritor não deve apenas criar, mas deve também emprestar a sua consciência à consciência dos seus leitores, sobretudo num país como o Brasil. Se vive e se escreve sem rede de segurança. Eu não confio no Estado. Eu confio na vigilância da sociedade. Quando os direitos humanos são desrespeitados em casa, tornam-se públicos. Se a imaginação edifica enredos de amor, o corpo fatalmente sofre seus efeitos. O ser humano é um peregrino. É só na aparência que ele tem uma geografia. Só envelhece quem vive.
A obra da escritora Nélida Piñon aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, outubro 31, 2018

ANA CRISTINA CÉSAR, NATALIE MERCHANT, HELMUT NEWTON, RURAL E URBANO


É ASSIM QUE É OU NÃO – Imagem: Phiplip Treacy, do fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004). - A dona de casa se esmera para arrumar cantarolando a casa emburrecida de tantos pisos espelhados de cera e tetos arranjados de luzes com todas as ordens nas paredes e cantos da organização mais intacta e desumana, a conferir nenhuma imundície nem poeira a difamar sua elegância atapetada de vaidade. Ela vai de sala em vãos aos quartos, copas e cozinhas, delicadas ornamentações de varandas, escadas e corredores, tudo na mais perfeita arquitetura, dela não dispensar o menor dos detalhes de dobras, cortinas e adereços. É que ali só ela mora consigo e mais ninguém para desmanchar seu penteado ou tirar o brilho dos olhos ou o sorriso dos lábios, só o capricho da dona para ufaná-la além das amigas e comadres, quando nem ela sabe o sepulcro das poupanças abarrotadas de numerários para orgulho de quem esbanja o inabitável na imobilidade dos desejos. Ah, quanta habitação do fausto, é ali que se mata um saci presepeiro por acordar as crianças e ali não podem brincar em nome de todas as etiquetas da ostentação, tudo nos conformes da abundância de nunca brincar de pobre de marré no jogo daqui que veio dacolá: Je suis pauvre dans ce jeu d’ici. É de lá que o reino dos homens se faz ortodoxia imperativa do moralismo falso e inclemente dos dentes nas orelhas, com tudo previsível no aluguel de vinco das casas dos botões dos palitós com broches na gola, lenço no bolso e abotoadura nos punhos, e que faz tudo muito opaco para amanhã, porque a verdade possível foi varrida pra debaixo dos tapetes pra que tudo soe limpo e intocável. A sala está um brinco e pronta para receber os achegados com suas risadas de dólares embotidos no coldre e armas empunhads pela burrice gozam da impunidade para que cada vez mais sangue lave a honra imaculada dos estúpidos e fique por isso mesmo porque aos amigos tudo e aos inimigos as barras da lei de conveniência e camaradagens da leniência para dar de ombros e mãos apertadas no código de sátiros energúmenos de colarinho a se baquetear nas assembleias da miséria alheia e pelos púlpitos dos templos das mentiras deslavadas, com suas ladainhas de prosélitos do poder a furar o céu com breguices idiotas pros que perderam a memória na digital diplomada, na ganância dos que querem mais que os outros e nada mais. Ainda ousam sorrir da dor na alma do meu povo. Ainda anteontem havia alguma esperança, agora não mais porque a morte ronda anunciando a tragédia do apocalipse anunciado, não há como se salvar. Nada demais por isso, a salvação não existe e poderia sorrir mais que sou: as nuvens são mordaças ao Sol e os rios apodrecidos e o ar contaminado e a terra deserta, saídas bloqueadas por dentes que rangem seu ódio e infelicidade. É preciso estar adiante e inventar destinos pra seguir. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
Tu queres sono: despe-te dos ruídos,
e dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, e os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.
Poema extraído da obra A Teus Pés (Ática, 1998), da escritora e tradutora Ana Cristina César – Ana C. (1952-1983). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004). Veja mais aqui & aqui.

AGENDA:
III Ciclo de Debates o Rural e o Urbano – 12/14 novembro, na UFRPE & muiro mais na Agenda aqui.
&
Contando história, John Keats, Canhotinho & Costa Porto, Eliane Potiguara, Pintando na Praça & Resistência dos versos, Elisa Fukuda, Duo Fênix – dos pianistas Cláudio Dauelsberg & Délia Fischer. Leo Brouwer & Jane Monheit aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora e pianista estadunidense Natalie Merchant: Live Concert KBCO Rock Fest, Leave Your Sleep & com 10000 Maniacs Live & Unplegged MTV Live & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.
 

sexta-feira, agosto 03, 2018

ANA CRISTINA CÉSAR, YAMANDU, GERTRUDE ELION, MALBA TAHAN, TANNAHILL, KOROLENKOV & TRÂMITE DA SOLIDÃO


TRÂMITE DAS HORAS – Imagem: arte do pintor russo Viacheslav Korolenkov. - As mãos ao rio e as espirais das ondas desmancham a minha efigie. À primeira vista o espelho mente a minha integridade, desfeita fisionomia em mim esvanecida, embora nem saiba o tempo, poderia ao menos ouvir a voz inaudita que clama dentro de todas as coisas. Tanto mais soubesse, esqueceria. Só de relance se vê coisas inacreditáveis. Na foz do dia sou mais de mil em ânimos e desânimos, mais que a ventania na hora agitada, mais que o furor pulsando na barra do desejo. Ainda ontem sobrevivi às teimas, hoje bem menos, será, por isso, sei das trevas em cada esquina divisada, não sei, o fato existe no que possa ser a descoberta dias depois da surpresa. Salvo o presente como posso pendurado ao gancho do momento, atravessando a corda bamba das circunstâncias que se dizimam a cada instante. Às vezes penso tudo foi feito de ontem e amanhã pode ser nunca mais. É bem provável se eu tivesse um faroleiro para me guiar, não seria a noite escura meu alento. Nem mesmo as insondáveis lembranças perdidas reconstruíram o que foi demolido com o passar dos anos. Mais tivesse de esperança não saberia o que fazer dos meus escombros. Quem sabe, pudesse cantar mais alto talvez me salvasse do silêncio alheio. Não, acho não, poderia assustar as pessoas meu desentoo, ou incomodá-las meu destempero. Quanto desconforto e isso é quase nada para um estrangeiro que não sabe o que dizer de suas necessidades aos passantes que desolham as margens com as paisagens dos seus próprios sonhos. Pra mim é tão cedo de tão tarde e não poderia mais dormir ou nunca mais acordar. Nem sempre o Sol cabe nas mãos, acaso se nem fosse visto como uma lêmure que zanza impune sem paradeiro certo. Quase nem me dei conta de que tudo passa e fica só o aprendido, lições demais. Chovesse mais, seria apagado; ao fogo, seria eu o descarte das cinzas. Hoje as mãos fora d’água apontam o incerto, quem sabe Deus revele o desconhecido da memória perdida. Nem eu sei mais, o trâmite da solidão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista e compositor Yamandu Costa: In Concert, Jazz à Porquerolles, Ao vivo & com Dominguinhos & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Quando terminei os estudos, tentei trabalhar num laboratório. Contudo, o exercício foi bastante penoso e frustrante. Primeiro, tentaram me convencer de que ninguém conseguiria emprego em pesquisa química durante a depressão. Quando finalmente reconheceram que eu era qualificada, levei outro choque: advertiram-me que nunca mulher nenhuma tinha trabalhado naquele laboratório e que eu poderia me transformar em “elemento de distração” para o restante dos pesquisadores. Mas isso foi apenas o começo do grande pesadelo. Durante mais de 40 anos, testemunhei interminável batalha feminina para conseguir entrar em instituições científicas [...]. Trecho da entrevista concedida pela bioquímica estadunidense e Prêmio Nobel de Medicina de 1988, Gertrude Elion (1918-1999), extraída da obra Conversações: entrevistas essenciais para entender o mundo (Cultura, 2008), de João Lins de Albuquerque. Veja mais aqui.

A BELEZA E O ACASALAMENTO – [...] Na posição primata costumeira, a fêmea apresenta o posterior ao macho, sendo o intercurso breve, cru e com uma finalidade. [...] o sexo se tornava agora ativamente agradável, bem como instintivamente premeditado – e a busca do prazer e consecução do objetivo tiveram sua influência, por vezes óbvia, por vezes sutil, em todo o curso subsequente do desenvolvimento humano. Houve inúmeras mudanças associadas. Na época em que foi usualmente adotada a posição frontal, os primitivos humanos sem dúvida, já se tinham livrado do pelame corporal de seus ancestrais [...] a nova posição produziu o que descreve o geneticista britânico C. D. Darlington como “a grande variação anatômica da genitália entre as raças humanas e indivíduos de hoje”. O caso clássico é o dos Bushman, do Kalahari. A mulher Bushman possui um mons púbis incomumente amplo, de maneira que o homem precisa ter um pênis quase horizontal para ultrapassá-lo – um eterno tema de humor entre as tribos vizinhas e, sem dúvida, um fator contributivo para que os Bushman as antagonizem. [...] No mundo vivente, apenas uma espécie de serpente parece partilhar com a humanidade a capacidade de concluir um acasalamento contra a vontade da fêmea. [...] Durante todo o tempo em que a humanidade empregou a antiga posição de acasalamento dos primatas, o homem tinha apenas uma visão do posterior de seu parceiro sexual, de maneira que parece ter encontrado satisfação estética em nádegas opulentas e arredondadas. A mulher não tinha visão alguma. A ela, talvez, deveria ser acreditada a filosofia de “comportamento vale mais que a aparência”. Entretanto, quando surgiu a mudança o entusiasmo do homem pelas nádegas declinou [...] Também o rosto começou a ganhar importância entre ambos os sexos [...]. Trecho extraído da obra O sexo na história (Francisco Alves, 1983) da historiadora e escritora britânica Reay Tannahill (1929-2007). Veja mais aqui e aqui.

A LENDA DO LAGO DE SZIRA – [...] no vale estreito, que as águas do Szira cobrem atualmente, existia, outrora, prospera e rica cidade habitada pelos tártaros Ouigur – povo guerreiro que chegou a dominar grande parte da Ásia Central. Em suntuoso templo dessa rica metrópole, encontrava-se, sob grande laje, sepultado o corpo de Almagor, o último rei Ouigur. Quis o destino que os mongóis de Gêngis-Cã invadissem os domínios de Almagor. Atacaa pelo poderoso inimigo, a cidade foi facilmente vencida e saqueada. Os bárbaros conquistadores massacraram os homens e escravizaram as mulheres. No dia em que a cidade caiu em poder dos mongóis, rompeu-se, como por encanto, a pedra que cobria o túmulo do rei Almagor. A sombra imponente desse monarca surgiu e fez-se ouvir, lúgubre, impressionante a sua voz: - Chorai, ó mulheres tártaras! Chorai lágrimas salgadas de aflição e desespero! Chegou o último dia do povo Ouigur! Sensibilizadas com as palavras do rei tão querido, que o amor à pátria fizera erguer da tumba, as mulheres puseram-se a chorar. E prantearam suas amarguras, dia e noite, sem descanso. Ordenaram os vencedores que elas dessem fim àquelas lamentações aflitivas. As mulheres de Ouigur, porém, não atenderam à intimação dos tiranos e continuaram com seus gemidos e soluços. [...] Os guerreiros de Gêngis-Cã, exasperados com aquelas lamuria intermináveis e impelidos por indomável furor sanguinário, degolaram, sem piedade, as prisioneiras. As infelizes escravas, porém, mesmo depois de mortas, continuaram a chorar incessantemente, e suas lágrimas ardentes e abundantes, em gotas e gotas sem fim, formaram caudalosa corrente. Esse rio de prantos invadiu o vale, submergindo jardins, palácios e mesquitas. Surgiu, assim, pelas lágrimas das inditosas esposas tártaras, o lago de Szira, em cujo seio dorme, para sempre, a cidade de Almagor. [...]. Trechos extraídos da obra Novas lendas orientais (Record, 1997), do escritor, pedagogo e matemático brasileiro Malba Tahan (1895-1974). Veja mais aqui.

FLORES DO MAIS - Devagar escreva / uma primeira letra / escreva / nas imediações construídas / pelos furacões; / devagar meça / a primeira pássara / bisonha que / riscar / o pano de boca / aberto / sobre os vendavais; / devagar imponha / o pulso / que melhor / souber sangrar / sobre a faca / das marés; / devagar imprima / o primeiro olhar / sobre o galope molhado / dos animais; devagar / peça mais / e mais e / mais. Poema extraído da obra Inéditos e dispersos (Ática/IMS, 1999), da escritora e tradutora Ana Cristina César – Ana C. (1952-1983). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor russo Viacheslav Korolenkov.
Veja mais aqui.

AGENDA
Segunda Mostra de Cinema de Vitória de Santo Antão – Dias 20 a 26 de agosto - Teatro Silogeu Professor José Aragão - Praça Diogo de Braga, Vitória de Santo Antão & muito mais na Agenda aqui.
&
O trâmite da solidão aqui e aqui.
&
Somos as nossas glândulas endócrinas, a literatura de Nélida Piñon, Ensaios de Harvey Spencer Lewis, as lendas de Leonardo Boff, a arte de Élon Brasil, Nitolino & Música nas Escolas, História e Texto Virtual & muito mais aqui.
 

quinta-feira, junho 02, 2016

ANA CRISTINA CÉSAR, MARQUÊS DE SADE, ROBERTO CARNEVALE, PICASSO, CLAUDIA ANDUJAR, ROGEL SAMUEL, LYGIA PAPE & LINDA MARLOWE


CRÔNICA DE AMOR POR ELA (Imagem: O sonho dos outros – da exposição da fotógrafa Claudia Andujar: No lugar do outro) – II – É ela na rua de todas as esquinas e luzes e vitrines e olhares nas suas vestes encharcadas da álacre chuva dos deleites da vida, com seus semáforos da noite luzidia de ir e de voltar. É ela do penteado adornado de sonhos e luxo, pesadelos esdrúxulos na cabeça de vento engajada na luta que é dela e mais ninguém. É ela das faces góticas, rouges e sombras com suas sobrancelhas de espanto e olhos mais que vivos à espreita do golpe da morte. É ela dos lábios carnudos e batom vivo vermelho na boca sedutora de todos os prazeres e que fala manhosa grunhindo no ouvido com todos os ferros que fustigam a pele cotidiana nas camas oníricas anoitecidas entre viver e morrer. É ela o decote arraigado da vitória agida de todas as guerras levadas no peito dos óvnis de Dois Irmãos que me acolhem voluptuosamente maternos para que eu escale o íngreme aclive até voar asa delta de um a outra com minha gula pra lá de insaciável. É ela umbigo de fora na cinturinha de pilão dos quartos generosos que são ancas profusas sambando noitedia no palco do meu coração, esquentando o meu sexo pronto para a erupção vulcânica de todas as minhas vinganças de gozo. É ela o ventre da Terra com todas as grutas escuras pra investigações provocantes, a me iniciar nos mistérios de que a vida é além do se vê, sente e percebe no átimo de tudo. É ela de coxas roliças macias pro aconchego do colo de veludo nos cafunés me mimando no dengo do que sou de menino atrevido e peralta buliçoso traquino no seu ninho de paz. É ela as pernas que guardam meu corpo no caminho de todas as quimeras de atalhos e trilhas jamais revividas. É ela dos pés alados a me levar por todas as estradas das rotas estelares que lançam na imensidão cósmica e nos recônditos das brenhas abissais. É ela o corpo de chão com toda a fauna e flora de todas as maravilhas do planeta dispostas pra mim, com a água de todos os oceanos e rios e o vento de todas as aragens dos pontos cardeais. É ela a carne saborosa de toda riqueza da Mãe Natura pra todo faminto repasto mais que suntuoso. É ela o coração do mundo, a alma da vida que se faz de manhã eterna cunhã caingang Iaravi filha do fogo e toda noite vem carregada de açoites e sedução feita valquírya Freya pra me envolver com todos os seus poderes mágicos do amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem: Les demoiselles d'Avignon (As Senhoritas de Avignon - Bordel Filosófico, 1907), do pintor, escultor, ceramista, cenógrafo, poeta e dramaturgo espanhol Pablo Picasso (1881-1973). Veja mais aqui e aqui.

Curtindo a obra Progression-Form for cl. and piano (Akua Keta Disco Theatre), do ocompositor, pianista e maestro italiano Roberto Carnevale.

PESQUISA
Novo Manual de Teoria Literária (Vozes, 2007), do escritor, professor e webjornalista Rogel Samuel, apresentando os conceitos básicos e as modernas pesquisas feitas sobre os gêneros literários, além do das teorias críticas, da literatura comparada e das teorias pós-modernas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
Os 120 dias de Sodoma, ou Escola de Libertinismo (Les 120 journées de Sodome or l'école du libertinagem – 1785 - Iluminuras, 2008), do escritor libertino francês Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade (1740-1814), uma novela que conta história de quatro ricos homens libertinos que resolvem experimentar a definitiva gratificação sexual em orgias e, para isso, eles se trancaram por quatro meses num castelo inacessível com um harém de quarenta e seis vítimas, a maioria adolescentes de ambos os sexos, e recrutaram quatro cafetinas para contar a história de suas vidas e suas aventuras. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.
Poema Nada, Esta Espuma, da escritora e tradutora Ana Cristina César – Ana C. (1952-1983). Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Cena da atriz australiana Linda Marlowe no drama de terror Dyn Amo (1972), produzido por Michael Armitage e Maggie Pinhorn, baseado na peça teatral Dínamo, do roteirista, produtor e diretor Chris Wilkinson, que conta a história da distinção entre o eu e os outros, o sexual role-playing e o masoquismo.

Veja mais sobre Cagliostro, Darel Valença Lins, Ana Cristina César, Marquês de Sade, Nelson Rodrigues, Márcia Haydée Salavarry Pereira da Silva, Banda Bicho de Pé & Janie Rhyne aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Hoje é o Dia Internacional da Prostituta marcando o evento ocorrido no dia 2 de junho de 1975, quando 100 prostitutas entraram em greve e ocuparam a igreja de Saint-Nizier, em Lyon, na França, por conta de dois assassinatos, a violência de cafetões e clientes, e da repressão policial. O movimento durou 8 dias chamando atenção para sua situação, findando sob ação policial. Por conta disso, a partir de 1976, o dia 2 junho passou a ser uma data consagrada, lembrando a discriminação, as condições de vida precária, o trabalho e a exploração. Em 2011, foi realizado em Bochum, na Alemanha, o evento Mulheres sem quartos, numa manifestação contra as ações de Dortmund de suprimir as prostitutas da vida pública. Outras datas importantes são no mês de março quando ocorre Internacional Sex Workers’ Rights Day (Dia Internacional dos Direitos dos Trabalhadores de Sexo) e no dia 17 de dezembro, o International Day to End Violence Against Sex Workers (Dia Internacional contra a violência contra prostitutas).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
A arte gravadora, escultora, pintora, professora e artista multimídia Lygia Pape.
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...