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sábado, novembro 04, 2017

DUFRENNE, RACHEL DE QUEIROZ, DELEUZE, ANA CRUZ, VIRGÍNIA PALOMEQUE, BOLSHOI BALLET, IARAVI & ÁGUAS BELAS

IARAVI ENTRE ANHANGÁ & PERÓS - Imagem: arte da artista plástica argentina Virgínia Palomeque - Tupã alumia meus caminhos e me protege enquanto subo o Una, alcanço as margens do Pirangi, sigo até a Serra da Prata para alcançar toda extensão da minha gente caeté, empunhando seus arcos e tacapes. Aceno e me despeço de todos. Sinto-me seguro, prossigo até a densa floresta com o silvo de cobras, piados de coruja rasgando mortalhas, cricrilar dos insetos, ameaças da Cobra Grande, ventos e presságios. Vou com a flecha em punho para rasgar o espaço escuro e o meu tacape pronto para golpear qualquer fera que interdite minha caminhada. Vou firme. Sei que lá longe Anhangá reina tirânico além das matas, aterroriza escravizando a todos que lhe cruzem as vistas. Por conta de uma sua desalmada intervenção, a amada caingang perdeu-se no caminho, nunca mais pude vê-la, temo não mais encontrá-la. Esse imprevisto me atormenta a alma e persigo os seus passos, sinto a baforada de sua ira a cada surpresa, tenho de enfrentar o seu horrível bafejo, pois desconfio que Iaravi tenha sido capturada por suas garras. Ouvi dizer que não, apenas se perdera estrada afora. Anhangá continua inquieto, reafirmam, se a tivesse capturado estaria quieto, entretido com sua escrava. Pode ser. Talvez ela tenha sido levada pelos perós aos montes desembarcando das suas caravelas e se amontoando na praia, sinal de desgraça no ar. Não confio neles, cara pálida pérfido parece desalmado e achegado às hostilidades. As fogueiras ardem e eles buscam aprisionar as cunhantãs formosas, isso eu sei. Temo por Iaravi. Também disseram que ela não está entre as suas prisioneiras, está perdida. Sei que ela tem poderes que nem sabe, aprenderá a usá-los para sobreviver às emboscadas e malsinações das matas densas sme fim. Foi por causa disso que exilei do meu povo para reencontrá-la, desconsolado, desgostoso de tudo, muitas luas no camino e penso nela, sua boca requerente à espera do meu beijo, sua graça à porta da maloca ansiando minha chegada, seu corpo o reino da minha satisfação. Por ela enfrento toda e qualquer maledicência, que venham monstros e algozes com seus ferros ultrajantes, estou pronto pro vento que encrespa nas ondas do Una e um raio fuzila no espaço com estrondoso trovão, chegou a hora da contenda! O vendaval é forte e demorado e quando a procela passa a manhã sorri no firmamento, com a autora o Sol doura as copas das frondosas árvores. Lá longe avisto: eis ela nas águas pro seu banho ritual, inocente vítima das circunstâncias. O meu coração se apressa querendo sair pela boca, meus passos se misturam às carreiras para encontrá-la quase a me descontrolar na descida da ribanceira e ela presa fácil, preciso alcançá-la para protegê-la tanto das investidas de Anhangá como das insolentes invasões dos perós. Finalmente alcanço-a e seu olhar é só sorriso ao ver-me. Abraço-a e sua carne é como a água que nos lava à cintura, tudo nela é como a vida para que eu possa viver o amor que nos une a alma. PS: Narrativa inspirada na lenda de Ajuricaba, recolhida da obra Folclore amazônico (São José, 1951), de José Coutinho de Oliveira. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o conjunto instrumental-vocal Quinteto Violado: O Guarani & outros sucessos; a violinista e maestro britânica Rachel Podger: Sonatas de Bach &  La Stravaganza Vivaldi; o Duofel formado pela dupla de violonistas Fernando Melo e Luiz Bueno: Festival Choro Jazz, Beatles, Palhaço de Egberto Gismonti & Construção/Cotidiano/Deus lhe pague de Chico Buarque; e a compositora, performer, vocalista, cineasta e cenógrafa estadunidense Meredith Monk: Pianos Songs & Book of Days. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Certas conversações duram tanto tempo, que já não sabemos mais se faz parte da guerraou já da paz. È verdade que a filosofia é inseparável de uma cólera contra a época, mas também de uma serenidade que ela nos assegura [...] Como as potências não se contentam em ser exteriores, mas também passam por cada um de nós que, graças a filosofia, encontra-se incessantemente e em guerrilha consigo mesmo [...]. Trechos extraídos da obra Conversações (34, 1992), do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995), que nos legou em sua última obra Crítica e clínica (34, 1997), o texto A literatura e a vida, do qual destaco o trecho: [...] Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer materia vivível ou vivida. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

AS TRIBOS DE ÁGUAS BELAS - A vila de Águas Belas foi criada na antiga povoação de Ipanema, pela Lei provincial 997, de 13 de dezembro de 1871 – data de criação -, tendo sido desmembrada do município de Buíque. Sua instalação ocorreu em 25 de junho de 1872. Foi elevada à categoria de cidade pela Lei Estadual 665, de 24 de maio de 1904. Segundo a tradição, a região onde fica hoje siatuada a cidade de Águas Belas, era habitado pela tribo denominada de Tupiniquins. A tribo dos Carajós, depois de uma luta com aquela, conseguiu expulsá-la do aldeamento então conehcido pelo nome de Lagoa, devido a uma lagoa que ali existia. [...]. A denominação de Águas Belas se opriginou do fato de o ouvidor, Jacobina, durante a viagem, ao chegar a este lughar, encontrou a mais potável e fina água [...] Em Águas Belas ainda existe uma aldei de índios, já mais civilizados, restantes da tribo que povoou a região em épocas distantes. Eles já vivem em contato com os habitantes da cidade, embora conservando ainda seus antigos ritos tribais. Administrativamente, o município é formado apenas pelo distrito-sede e pelos povoados de Campo Grande, Curral Novo, Garcia e Tanquinho. Anualmente, no dia 24 de maio, Águas Belas comemora a sua emancipação política. [...]. Extraído  da Enciclopedia dos municipios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

A ESTÉTICA DE DUFRENNE - [...] A essência tem de ser descoberta, mas por um desenvolvimento e não por um salto do conhecido ao desconhecido. A fenomenologia se aplica em primeiro lugar ao humano, porque a consciência é consciência de si: é aqui que está o modelo do fenômeno, o aparecer como aparecer do sentico a ele mesmo [...] Nós não podemos dizer aqui qual é esta norma do objeto estético, pois ele é inventado por cada objeto, que não tem outra lei senão a que dá a si mesmo; mas pode-se dizer ao menos que, sejam quais forem os meios de uma obra, o fim a que ela se propõe para ser obra-prima é por sua vez a plenitude de ser senível e a plenitude de significação imanente ao sensível [...] Não se define o que é o belo, constatamos que ele é objeto [...] Assim é possível uma estética que não refuta de modo algum a valorização estética, mas que não lhe é subserviente, que reconhece a beleza sem fazer uma teoria da beleza, porque no fundo não há teoria a ser feita; ela tem a dizer o que são os objetos estéticos, e eles são belos desde que são verdadeiros [...]. Trechos extraídos da obra Fenomenologia da Experiência Estética  (PUF, 1953), do filósofo e esteticista francês Mikel Dufrenne, autor da obra Estética e filosofia (Perspectiva, 1998), em que aborda sob a perspectiva estrutural e fenomenológica por meio da experiência os valores estéticos das obras de arte e da natureza, os referenciais constituintes no objeto da percepção válida, o belo como artístico e natural, a linguagem da arte, a crítica literária, o objeto estético e técnico.

VIVER NA CIDADE - [...] A cidade, assim de repente, vista de uma vez e surpreendida de brusco, deu-me um choque no coração, comoveu-me tanto que as mãos me começaram a tremer e meus olhos se encheram de água. Estava ali o mundo, o povo, a vida de fora, tudo o que era interdito à minha vida de reclusa. Sentia medo e alegria juntos numa emoção violenta, como quem rouba e se apossa de qualquer coisa sonhada e proibida [...]. Trecho extraído da obra As três Marias (Abril, 1982), da escritora, jornalista, dramaturga e tradutora Rachel de Queiroz (1910-2003). Veja mais aqui e aqui.

CORAÇÃO TIÇÃO - Quero me lambuzar nos mares negros / para não me perder, / conseguir chegar no meu destino. / Não quero ser parda, mulata / Sou afro-brasileira-mineira. / Bisneta / de uma princesa de Benguela. / Não serei refém de valores / que não me pertencem. / Quero sentir sempre meu coração / como um tição. / Não vou deixar que o mito / do fogo entre as pernas iluda e desvie / homens e mulheres / daqui por diante. Poema extraído da obra E... feito de luz (Ykenga, 1995), da poeta Ana Cruz. Veja mais aqui.

A ARTE DE VIRGINIA PALOMEQUE
A arte da artista plástica argentina Virgínia Palomeque.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Espetáculo The Cage do Bolshoi Ballet and Opera Treatre, com música de Igor Stravinsky, coreografia de Jerome Robbins.
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quinta-feira, outubro 19, 2017

VINICIUS, MIGUEL ASTURIAS, ORTEGA Y GASSET, CAMILLE CLAUDEL & RICHARD MARTIN

IARA, IARAVI – Um dia Fiietó se apaixonou. E ele com a sua força e firmeza no braço, altivez de porte e agudez de vista, dominava a mataria brava, seguindo a caça e afrontando o inimigo, aremessando o arco de sua flecha certeira cortando as carreiras ou os pulos dos animais, abatendo o voo de carniceiros, estava perdidamente apaixonado. Justo aquele que ao vogar sobre as águas silenciosas do Una, velejava alteroso, braços abertos e, ao passar junto ao barranco do rio, as brisas folionas sacudiam os galhos e derramavam uma chuva de flores sobre seus cabelos negros e todos os peixes, pássaros e demais seres viventes das profundezas e das margens fluviais, saudavam-no nas suas peripécias. Justo ele, estava enamorado. Por conta disso, todas as tardes a sua canoa aparecia no poente, seguindo solitário pelas sombras da noite adentro, pescaria essa que todos interrogavam pela vigência dos fantasmas noturnos saltarem das profundas dos infernos para atomentarem seres viventes que jaziam medrosos escondidos nas suas moradas. Indagavam do intrépido Fiietó se não ouvira os temerosos presságios pelos ventos gemedores com suas dores que matam, ele quase nem ouvia sua mãe aos prantos pela audácia do filho de desafiar os gênios malignos que se aproveitavam da indomável juventude de suas presas nas horas mortas. Contavam pra ele histórias repetidas vezes de quantos não houveram encontrados insones com seus olhos fundos e tristes, cotovelos fincados nos joelhos, pernas pendentes da rede selvagem, aprisionados pela má sorte, pungentemente hipnotizados na escuridão. Até sua mãe lamentava com enternecidas palavras, meu filho, não vejo alegria nos seus olhos, só vagos gestos de quem fora picado no coração, aquele a quem as moças admiravam, os velhos e guerreiros festejavam as astúcias com seus cantos entoando seu nome que um dia gozaria supremo na mansão dos bravos. O que está havendo, meu filho? Estou amando, mãe, quero encontrá-la. Não me diga que é a Iara! Mãe, quero encontrá-la. Não, meu filho, a Iara não, ela envenenou seu coração? Mãe, eu a vi, eu a vi, mãe, boiando em flor, linda como a lua nas noites claras, eu vi, mãe, os cabelos de flores, brilho do Sol, era ela, mãe! Meu filho! As suas faces, mãe, são formosas que ninguém jamais viu! Ela olhou pra mim, mãe, estendeu-me os braços, repartiu as águas e me levou encantado pelas estrelas do céu. Meu filho! Foge, meu filho, foge! Aquela que você viu é a Iara, aquela que canta a agonia e dos seus olhos só a morte espia. Mãe, eu vi, é linda! A mãe chorava a perda de filho tão valoroso. Não vá, meu filho, fuja, fuja enquanto pode, foge da Iara. E ele resoluto, pisou na água e começou a deslizar mansa e tranquilamente, estava decidido, estava verdadeiramente apaixonado. E todos na tribo caeté viram-no passar como quem vai pescar nas trevas. E seguia sozinho no espelho das águas. Logo depois, ouviam-se gritos: Vem ver, gente! Vem ver, corre, gente, vem ver! Todos pararam atônitas à beira do Rio Una, Fiietó fendendo as águas, braços abertos como se fosse voar, quando surgiu ao lado do jovem guerreiro, enlaçando-o a beijá-lo, completamente ensolarada com sua majestade e corpo harmonioso coroado por sua beleza indescritível de tão grandiosa maravilha, cabelos esvoaçantes e a jurar de amor por ele, aquela que cativara o seu coração. A Iara! É ela, a Iara! Todos gritavam estupefatos com a cena, em uníssono: É Iara! É ela mesmo! E todos correram para acompanhar o trajeto do casal que iluminava todos os arredores, escondendo-se para não serem flagrados pela deusa. Dali mais um pouco, Fiietó abraçou-a e beijaram-se ardentemente, provocando faíscas, relâmpagos e trovões vindos dos céus e retumbando por toda redondeza. Beijavam-se e o amor celebrava a festa dos amantes, enquanto os nativos fugiam para mais distante, amedrontados com a cena e tudo que acontecia. Era Iara, na verdade, era Iaravi, a índia caingang que é bela como as frescas manhãs de Sol nas águas do Una, transformada em Iara para demonstrar o seu amor e para ser aquela a quem Fiietó, perdidamente apaixonado, jurava morrer de amor. (Recriação a partir de A Iara (Selva, 1947), de Afonso Arinos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Geraldo Azevedo: De outra maneira, A luz do solo, Inclinações musicais, Adoro você & Tanto querer; da pianista e compositora Fernanda Chaves Canaud interpretando Radamés Gnatali & Lua Branca de Chiquinha Gonzaga; do compositor e educador musical Mario Ficarelli: Parasinfonia, O poço e o pêndulo & Tempestade óssea; da cantora Joan Baez: Al star 75th Birthay Celebration Live, Live Concert & Line in the New York. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAO importante é a lembrança dos erros, que nos permite não cometer sempre os mesmos. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros, a larga experiência vital decantada por milénios, gota a gota. do filósofo e ativista político espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Veja mais aqui.

SONETO DA MULHER AO SOL
A bordo do Andrea C, a caminho da França
Uma mulher ao sol - eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos lábios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.
Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol - eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pêlo úmido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.
Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda e com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce
E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente - e se deixa a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir...
Extraído do livro Para viver um grande amor (Companhia das Letras, 1984),
do poeta, dramaturgo, jornalista, compositor e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980). Veja mais aqui, aqui & aqui.

SENHOR PRESIDENTE - [...] A cidade grande, imensamente grande para a sua fadiga, foi ficando pequena para a sua aflição. Noites de espanto, seguidas por dias de perseguição. Acossado pela gente que, não satisfeita em gritar-lhe: “Bobalhãozinho, domingo você vai casar com sua mãe... aquela velhinha... seu pirado... animal, vagabundo!”, batiam nele, arrancavam-lhe a roupa a pedaços. Perseguido pela molecada, refugiava-se nos bairros pobres, mas ali sua sorte era pior; ali, onde todos andavam às portas da miséria, era não só insultado, mas quando o viam correr apavorado atiravam-lhe pedras, ratos mortos e latas vazias. Vindo de um desses bairros, chegou ao Portal do Senhor num dia qualquer, na hora da missa, ferido na testa, a cabeça descoberta, arrastando a rabiola de uma pipa que, arremedando um remendo, haviam-lhe grudado atrás. Assustava-se com as sombras dos muros, os cachorros passando, as folhas que caíam das árvores, o rodar desigual dos carros... Quando chegou ao Portal, quase de noite, os mendigos, virados para a parede, contavam e recontavam seus ganhos do dia. Mulamanca discutia com o Mosquito, a surda-muda esfregava a mão na barriga, para ela inexplicavelmente grande, e a cega se remexia, sonhando-se dependurada em um gancho, coberta por moscas, como carne de açougue. [...] E mais não disse. Arrancado do chão pelo grito, o Bobalhão saltou em cima dele e, sem lhe dar tempo para usar suas armas, enterrou-lhe os dedos nos olhos, despedaçou-lhe o nariz a dentadas e golpeou-lhe as partes com os joelhos, até deixá-lo inerte. Os mendigos fecharam os olhos horrorizados, a coruja passou de novo e o Bobalhão fugiu pelas ruas escuras enlouquecido e tomado por espantoso paroxismo. Uma força cega acabava de tirar a vida do coronel José Parrales Sonriente, vulgo o homem da mulinha. Amanhecia. [...]. Trechos da obra O senhor presidente (Mundaréu, 2016), do escritor, jornalista, diplomata guatemalteco Miguel Angel Asturias (1899-1974), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1967. Veja mais aqui.

ARTE DE CAMILLE CLAUDEL
A arte da escultora francesa Camille Claudel (1864-1943). Veja mais aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte do artista plástico australiano Richard Martin.
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terça-feira, outubro 17, 2017

ANNIE BESANT, RAMOS ROSA, ARTHUR MILLER, TORERO, LORI KIPLINGER PANDY & VLAHO BUKOVAC

IARAVI & A LUA – No dia que a apaixonada cunhã Iaravi perdeu o caminho de volta pra sua casa caingang e se desencontrou do seu amado Fiietó, ela errou por terras distantes, até vê-se completamente desamparada, aos prantos. Seguiu erradia por noites e dias com a esperança de reencontrar o caminho de casa e o seu amor perdido. Depois de muito vagar sozinha pela vida, não restava mais a ela, senão, o caminho de todas as cunhãs que padeciam de amor: seguir pro alto da colina, deprecar por Iaci, na crença de que ela pudesse trazer o seu amor de volta, tendo em vista a deusa selenita, com o seu beijo, redimir todas as mulheres apaixonadas, tornando-as iluminadas, desmaterializando-as e transformando-as em estrelas fixadas no firmamento. Assim fez Iaravi, procurando altas elevações para realizar o sonho da felicidade, percorrendo lugares com montanhas, serras e montes, até encontrar a maior delas, para alcançar o reino selênico. Ao chegar ao pico daquela, fitou o céu onde as estrelas pareciam entoar cânticos à beleza da Terra e logo encontrou a lua banhando-se no lago. Pulou do alto e mergulhou nas águas onde se encontrava Iaci que, apiedando-se do seu sofrimento, aproximou-se e perguntou: O que queres, minha linda canigang? Iaci, minha deusa, perdi o caminho de volta e, o pior, me desencontrei do meu amor e sigo errante, perdida e desesperada. Nada mais me resta, a não ser a tua complacência, minha deusa e soberana da noite, me transformando em uma vitória-régia, a estrela das águas, para que eu possa findar meus dias sempre esperando por meu amado. Iaci compadeceu-se daquela índia, beijou suas faces, transofrmando-a numa formosa estrela do céu, imortalizada com o aroma da paixão universal. Teve o cuidado de guardar na bela amante todos os mistérios das águas profundas para que ela pudesse reluzir no encantamento dos belíssimos viveiros fluviais da Terra. Mais que grata, Iaravi transformou-se na Lua refletindo a chamar a atenção das caboclas inspiradas pela paixão do amor e a guiar o caminho dos selenitos. (Recriada a partir da lenda Vitória-régia, de Anísio Melo, extraída da obra Contos e lendas amazônicas - Alfredo Ladislau, 1923), © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor e pianista russo Alexander Scriabin (1871-1915): O poema do êxtase op. 54, Misterium & Poema do fogo; da cantora e compositora Fátima Guedes: Muito intensa, Muito prazer, Flor de ir embora & Cheiro de mato; do compositor e pianista estadunidense Keith Jarret: The Koln Concert, La Scala & My Song; da cantora, compositora, instrumentista e designer sonoro Joana Flor: Sine qua non, O que me resta, Me falta tem, Indivíduo lugar & Do que é efêmero. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Eu procuro e não consigo encontrar, Willy. Hoje eu fiz o último pagamento da casa. Hoje, querido. E não há ninguém nela. Não estamos devendo nada a ninguém. Estamos livres de obrigações. Estamos livres... Estamos livres... livres... [...]. Trecho da obra A morte do caixeiro-viajante (Abril, 1976), do dramaturgo estadunidense Arthur Miller (1915-2005).

EVOLUÇÃO MORAL - Muitas pessoas nutrem bons sentimentos para com qualquer boa causa, mas poucas se esforçam por ajuda-la, e muito poucas arriscarão alguma coisa para apoiá-la. 'Alguém deve fazê-lo, mas por que eu?' é a pergunta sempre repetida pela amabilidade irresoluta. 'Alguém deve fazê-lo, e por que não eu?' é o grito de algum zeloso servo do homem, que se atira, animoso, para a frente a fim de enfrentar algum dever perigoso. Entre essas duas sentenças jazem séculos inteiros de evolução moral. Pensamento da escritora e ativista anglo-indiana Annie Besant (1847-1933). Veja mais aqui.

SONHO & SAUDADE - [...] Tive um sonho esquisito ontem: era uma manhã ensola rada e eu vinha a pé pela avenida Paulista, sentido Consolação-Paraíso. O silêncio era total, nenhum carro passava. Havia apenas papéis picados cobrindo o asfalto e bandeiras brasileiras penduradas nas janelas [...] Acordei com saudades [...] de nhoque feito pela avó, [...] de meu avô, [...] dos shorts de panos estampados feitos pela minha mãe; saudade do barulho de batedeira de minha mãe [...] de ir aos jogos com meu pai, [...] de ver os avós brigando e fazendo as pazes, [...] de briga de empurrão com meus irmãos [...] de ganhar dinheiro do meu avô para comprar figurinha de chapinha [...] Saudade do tempo que já foi. Saudade do que já fui. [...]. Trechos extraídos da obra Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso (Objetiva, 2001), do escritor e jornalista José Roberto Torero. Veja mais aqui.

PALAVRA - Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina / e a alegria aviva-se em redonda ressonância. / O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível / que reconhece e inventa a pluralidade delicada. / Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios. / Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo /da coisa nomeada. O rosto da terra se renova. / Ela aflui em círculos desagregando, construindo. / Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua. / Sobre si enrola o anel nupcial do universo. / O gérmen amadurece no seu corpo nascente. / Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo. / Move-se aqui e agora entre contornos vivos. / Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo. / Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano. Poema extraído da obra Volante verde (Moraes, 1986), do poeta, tradutor e desenhista português António Ramos Rosa (1924-2013). Veja mais aqui.

A ARTE DE LORI KIPLINGER PANDY
A arte da escultora estadunidense Lori Kiplinger Pandy.

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Iaravi & Fiietó aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor croata Vlaho Bukovac (1855-1922).
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sábado, outubro 14, 2017

ÍTALO CALVINO, ARENDT, NIETZSCHE, CECÍLIA KERCHE, CUMMINGS, WOLF VOSTELL, RENATO JANINE, MAKABRESKU, O SOL & A LUA.

O SOL E A LUA - No tempo em que o Sol e a Lua eram gente, certo dia, o curumin caeté Fiietó brincava de caçar na mata, quando encontrou uma linda menina e se aproximou dela: Você está brincando de caçar? Tô não, tô perdida. Perdida? Sim, saí atrás de uma linda bobroleta e perdi o caminho de volta pra casa. Onde você mora? Não sei, estou perdida. Qual a sua tribo? Sou caingang. Nunca ouvi falar. Acho que corri demais atrás da borboleta de não perceber tão longe que fui. E você, é de qual tribo? Ah, sou caeté. Nunca ouvi falar, também. E agora? Não sei, estou perdida. Vamos brincar por ali pela lagoa, aí você, quem sabe, não encontra o caminho de de sua casa, hem? É, vamos. Como é seu nome? Iaravi. E o seu? Fiietô. Ah, tá, vamos pra lagoa? Vamos. E saíram os dois até chegarem à lagoa e ficaram brincando de mergulhar com os peixes. Pulavam, timbungavam, maior festa. Vamos ver de nós dois quem atira cipó mais longe dentro d’água? Nunca brinquei disso. Ah, porque você é menina, não sabe como é brincar coisa de menino. É, então vamos, quero aprender. E ficavam pegando gravetos e cipós no chão da mata e jogavam dentro d’água. Os peixes pulavam pra pegar as coisas jogadas no ar. Virou uma competição. Aí Fiietó gritou: Saiam, não é pra vocês pegarem, estamos apostando quem joga mais longe. Ah, os peixes nem deram conta, pulavam mesmo assim e interceptavam tudo no ar. Vocês estão atrapalhando nossa brincadeira! Ah, deixa, eles estão brincando com a gente, vamos nadar com eles? Então, vamos. E saíram nadando com os peixes e estes, para provocar os dois, ficavam apenas com o rabinho fora d’água só pra provocá-los a virem nadando atrás deles. Iaravi ia prum lado atrás dos que via, Fiietó ia pro outro com o mesmo objetivo. Tanto foram pra lados opostos que se distanciaram e, quando menos esperavam, esbarraram um no outro. Eita! Batemos com a cabeça. Foi. Estou cansada com esses peixes, eles me botaram para nadar muito. Eu também, vamos voltar pra margem? Vamos. E retornaram, ficaram olhando o brinquedo dos peixes pulando fora d’água e se riam muito com isso. Já estava escurecendo quando Iaravi ficou preocupada em voltar: E agora? Como volto pra casa? Ah, a gente se esqueceu de procurar o caminho, vamos ver se a gente encontra. Saíram, andaram, andaram, nada de Iaravi achar, quando Fêetó resolveu levá-la pra tribo dele. Lá chegando os dois se juntaram aos demais, cearam e foram dormir. No outro dia acordaram, tiraram o jejum e foram ver se achavam o caminho de volta pra casa dela. Foram pra mata e lá começaram a brincar de esconde-esconde, o que é que é, até que encontraram uns pica-paus e ele pediu um chapéu daquele cor de fogo feito os deles. Logo um dos pica-paus retirou um e deu pra ele, fazendo-o de leque. Bonito? Sim. E pra ela? Outro pica-pau deu um pra Iaravi. Eu estou bonita agora? Está. Vamos? Vamos. E ambos brincaram comos pássaros, de pula-pula e correr e voar. Lá pras tantas os pica-paus se despediram e foram embora, eles estavam felizes com os leques feitos chapéus cor de fogo na cabeça. Ah, agora você se faz de cega preu brincar de lhe guiar pela mata, tá bom. Nessa brincadeira ela muito tropicou nos galhos quebrados e secos, nas raízes e muitas pedras, a ponto de invocar-se e não querer mais brincar disso não. Ao abrir os olhos avistou uma casa de marimbondos. Vixe! Vamos embora, corre, olha ali uma casa de marimbondos. Era tarde, correram tanto que findaram mergulhados dentro da lagoa. Alguns peixes pularam e comeram alguns dos marimbondos que não resistiram e foram embora. Visse? Não fosem os peixes, a gente ia morrer afogado. Era mesmo, ainda me ferraram. E Fiietó realmente constatou inchaço nas faces e nas costas de Iaravi. Está doendo? Está. Vamos lá pra minha tribo cuidar disso. E voltaram. Chegaram lá, foram pro feiticeiro que passou uns ungüentos na pele de Iaravi e lhe deu um remédio para beber, demorou um pouquinho, a dor passou, mas continuava com a face e as costas inchadas. Ela então se deitou no chão da oca e ali adormeceu. Será que ela vai ficar boa? Vai, é só efeito do remédio que eu dei, logo ela acorda e volta a brincar com você. No outro dia Iaravi acordou e foram brincar de esconde-esconde de novo, ela tanto se escondeu que Fiietó não mais encontrou. Perdeu-se, sumiu-se. Caçou ele por tantos lugares e lonjuras, não mais encontrou Iaravi. Ele ficou muito triste, estava com saudades dela. Encostou-se numa pedra perto da lagoa e logo os peixes apareceram pulando na água. Ela desapareceu, não achei mais não. Queria era crescer, ficar grande, para encontrá-la. Quem sabe, ela esteja perdida na mata. Nessa hora um peixe deu um pulo maior e com um toque de barbatanas fez Fiietó crescer, agora um rapaz forte, bonito, guerreiro. Obrigado, amigos peixes, agora vou procurar Iaravi, se vocês encontrarem me avisem, viu? Vamos. E saiu morro acima, montanha abaixo, terras distantes nunca vistas. Bem distante dali, estava Iaravi soluçando na beira de um rio distante, quando os peixes pularam foram d’água. Ah, amigos peixinhos, que bom encontrar vocês por aqui. Viram Fiietó? E um dos peixes pulou, bateu a barbatana e Iaravi cresceu, tornando-se uma linda cunhã. Os peixinhos ficaram pulando como se a chamassem para nadar. Vocês sabem onde está Fiietó? Eles mais pulavan, ela entendeu que era pra segui-los. E ela nadou dias e noites. E Fiietó procurou por ela noites e dias. Cansavam, descansavam, tornavam a procurar um pelo outro, ao cabo de uma semana, quando ambos já haviam perdido as esperanças, sentaram cada qual na beira oposta de um grande rio, extenuados e sem mais esperanças. Estavam desapontados por não reencontrarem um ao outro. Ela olhava tudo ao redor, o céu, a terra, o mato, quando percebeu os peixes pulando de novo e não entendia. Vieram os pica-paus em bandos cantando, ah, os amiguinhos pica-paus, que vocês querem? Não entendia. Da mesma forma, na outra margem do grande rio, também os peixes e os pica-paus faziam o mesmo com Fiietó e ele não entendia. O que vocês querem? Os peixes mais pulavam e os pica-paus mais bicavam no ar, como se mandando ele a segui-los. E assim foi, ele mergulhou no grande rio e pôs-se a nadar acompanhando os peixes e os pássaros. Lá longe Iaravi avistava outros pica-paus voando aos pulos dos peixes na água, enquanto os que estavam com ela aumentavam no bater das asas e nos pulos na água. Demorou pra ela perceber umas braçadas firmes de gente na água, acompanhando os pulos dos peixes e o vôo dos pássaros, vindo em sua direção. Mais um pouco os braços se aproximavam e os pica-paus que vinham se encontravam com os outros que estavam com ela e, na água, aumentou em muito os pulos com muitos peixes até a chegada dele na beira do rio. Era Fiietó. Ela ficou feliz. Fiietó? Iaravi? Era o reencontro. E se abraçaram, se beijaram e juraram nunca mais se afastarem um do outro. Tanto é que passaram a tomar conta do mundo, ele de dia passou a ser o soberano Sol brilhando do amanhecer até o final das tardes, e ela, de noite, tornou-se a radiante Lua com suas fases para iluminar o caminho dos que se perdem. (Recriação a partir das lendas indígenas amazônicas recolhidas de Notícia dos Ofaié-Xavante (Revista Museu Paulista, 1951), de Darcy Ribeiro, e Os apinajé (Boletim do Museu Paraense Emiolio Goeldi, 1956), de Curt Nimuendaju). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor, regente orquestral, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): O anjo esquerdo da história, Alegres trópicos - um baile na mata atlântica & Qualquer música; a saudosa cantora Elis Regina (1945-1982) ao Vivo, em Montreaux & Trem azul; do multi-instrumentista, músico, compositor e ativista nigeriano Fela Kuti (1938-1997): Afordisiac, Go slow & Gentleman; e da cantora Irah Caldeira: Flor do dia, Quero ter você, A natureza das coisas, Sem segredo & Avoante com Santanna, o Cantador. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - Houve também quem, embora literato da cabeça aos pés, não sentiu nenhum complexo de inferioridade diante da história, mas, antes, teve certeza de que foi ele a nutri-la e enriquecê-la com toda a sua fantasia e cultura. Trecho de Assunto encerrado (Companhia das Letras, 2009), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui.

TEMPOS SOMBRIOS - [...] Em nossa época, parece-me, nada é mais dúbio do que nossa atitude em relação ao mundo, nada menos assente que a concordância com o que aparece em público, imposta a nós pela homenagem, a qual confirma sua existência. Em nosso século, mesmo o gênio só pôde se desenvolver em conflito com o mundo e o âmbito público, embora, como sempre, encontre naturalmente sua concordância própria particular com sua platéia. Mas o mundo e as pessoas que nele habitam não são a mesma coisa. O mundo está entre as pessoas, e esse espaço intermediário — muito mais do que os homens, ou mesmo o homem (como geralmente se pensa) — é hoje o objeto de maior interesse e revolta de mais evidência em quase todos os países do planeta. Mesmo onde o mundo está, ou é mantido, mais ou menos em ordem, o âmbito público perdeu o poder iluminador que originalmente fazia parte de sua natureza. Um número cada vez maior de pessoas nos países do mundo ocidental, o qual encarou desde o declínio do mundo antigo a liberdade em relação à política como uma das liberdades básicas, utiliza tal liberdade e se retira do mundo e de suas obrigações junto a ele. Essa retirada do mundo não prejudica necessariamente o indivíduo; ele pode inclusive cultivar grandes talentos ao ponto da genialidade e assim, através de um rodeio, ser novamente útil ao mundo. Mas, a cada uma dessas retiradas, ocorre uma perda quase demonstrável para o mundo; o que se perde é o espaço intermediário específico e geralmente insubstituível que teria se formado entre esse indivíduo e seus companheiros homens. [...] Bem, a esse respeito, os últimos trinta anos dificilmente trouxeram algo que se pudesse chamar de novo. [...]. Trechos da obra Homens em tempos sombrios (Companhia das Letras, 2008), da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OS HOMENS & A MORAL - [...] sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor “bom” e “mau”? E que valor têm eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indícios de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revela-se neles a plenitude, a força, a vontade da vida, sua coragem, sua certeza, seu futuro? [...] Já em princípio a palavra “bom” não é ligada necessariamente a ações “não egoístas”, como quer a superstição daqueles genealogistas da moral. É somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que esta oposição “egoísta” e “não egoísta” se impõe mais à consciência humana. [...] Na origem, toda a educação e os cuidados do corpo, o casamento, a medicina, a agricultura, a guerra, a palavra e o silêncio, as relações entre os homens e as relações com os deuses, pertenciam ao domínio da moralidade: esta exigia que prescrições fossem observadas, sem pensar em si mesmo como indivíduo. [...] Em toda a parte onde existe comunidade e, por conseguinte, moralidade dos costumes, reina a ideia de que a punição pela violação dos costumes recai em primeiro lugar sobre a própria comunidade. [...] Para poder dispor de tal modo do futuro, o quanto não precisou o homem aprender a distinguir o acontecimento casual do necessário, a pensar de maneira causal, a ver e antecipar a coisa distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para o fim, a calcular, contar confiar – para isso, o quanto não precisou antes tornar-se ele próprio confiável, constante, necessário, também para si, na sua própria representação, para poder enfim, como faz quem promete, responder por si como porvir! [...]. Trechos da obra Genealogia da moral: uma polêmica. (Companhia das Letras, 1998), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ENSINO & ESCOLHASVivemos uma enorme demanda de conhecimento qualificado, cientifico, acadêmico. Isso é ótimo: o berço rico, a propriedade da terra, a carteira em banco não bastam mais para o sucesso na vida sem a inteligência e o estudo. [...] O acesso ao melhor conhecimento nem sempre é democrático, porque fica diferenciado pelo dinheiro que se tem. A demanda é democrática, a oferta nem tanto. [...] Da cabeça aos pés, cada um de nós veste a ciência que não existia cinco anos atrás. Mas a ciência também leva a uma consciência mais apurada do mundo. [...] Num país preconceituoso com o conhecimento (Monteiro Lobato sobre a preguiça mental: se desse a cem fazendeiros a escolha de ler meia hora ou derrubar uma mata de peroba, num instante ouviria 101 machados retumbando!), isso é formidável. A universidade também sabe, hoje, que para se legitimar precisa firmar alianças com a sociedade – inclusive, mas não só, o mundo empresarial. Isso diz respeito à sua estratégia. Deveria montar cursos de extensão oferecidos à larga, presenciais ou não. Mas falta dinheiro. Por isso, hoje é fora da academia que se supre essa necessidade. [...]. Trecho do artigo A corrida do ensino: a crise da universidade e a voga dos cursos de extensão (Bravo, março 2005), do filósofo, escritor e professor da USP, Renato Janine Ribeiro.

A ARTE DE CECILIA KERCHE
A arte da bailarina Cecília Kerche.

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Fiietó & Iaravi aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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DOIS POEMAS DE E. E. CUMMINGS
I
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)
contra o silêncio,ou a escuridão….
a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,
devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno
cujos quietos lábios me assassinam subitamente,
mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso
—e então somos Eu e Ela….
o que é isso que o realejo toca
II
a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce
encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,
Recita
sobre a sua
carne
as pérolas
da chuva uma a uma murmurando.
Poemas extraídos da obra Livro de poemas (Assírio & Alvim, 1999), do poeta estadunidense Edward Estlin Cummings ( e.e.cummings 1894-1962). Tradução de Cecília Rego Pinheiro. (Imagens: arte da fotógrafa polonesa Laura Makabresku). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, videoartista e escultor suíço Wolf Vostell (1932-1998).
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, novembro 11, 2016

O AMOR NA TARDE ENSOLARADA, VARVARA STEPANOVA, LUCIAH LOPEZ & O QUINTAL DOS MILAGRES

E SE O AMOR FOSSE A VIDA NA TARDE ENSOLARADA DO QUINTAL - (Imagem: arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez) – No quintal dos milagres a gente inventava de tudo na vida, até sonhos impossíveis a gente crescia com as muitas luas. De menina sapeca e levada da breca atrepada na jaqueira, ela se fez moça linda filha do fogo – Iaravi. E certa tarde toda faceira, chegou-se com seu jeito eterna menina e me ofereceu o rumbiá da congonha – que é isso? Nunca tinha bebido da cuia do mate. Muna! Chamou-me pra segui-la e fui atrás dos seus passos primeiro pelos campos dos pinheirais de Aú – e enquanto eu conferia detalhadamente sua compleição, ela seguia a passos largos por arroios, capões e serras, até a mata espessa em que ficamos ouvindo o silvo dos pássaros e das abusões. Ha kantin! Insistia pra seguir-lhe enquanto pezunhávamos úmidas folhas, raízes e gravetos, até chegarmos às margens do rio Atuba, apontando pelo vilarinho dos Côrtes. Tá! Tati kéva! – disse-me, apontando para o lugar. Seguiu até a margem e caminhou dentro d’água até ver-lhe apenas a cabeça de fora. Deu uns três mergulhos e fez um sinal para que eu fosse até lá onde estava. Assim o fiz do jeito que estava pronto para tudo e, ao me deparar com seu corpo nu naquelas águas cristalinas, ela disse-me: - On buonghvê! E me fez mergulhar minha cabeça três vezes, como a um batismo. Feito isso, repetiu-me: - On buonghvê! E me beijou as faces, encostou seu corpo nu ao meu e pude ter a revelação da vida. Ela se tornara Freyaravi me embalando na dança de todas as paixões. Beijou-me os lábios e eu pude ver os campos do Bacaxeri, os bosques de Fuong, até os campos do Juvevê num voo que não tinha a menor noção do que acontecera. Eu sabia que havia voado em seus braços, mas quando dei por mim, estávamos no mesmo lugar, arrodeados por belíssimas paragens – ela própria, a maior e mais bela de todas elas. Nem me dei conta que em seus braços haviam passado quatro luas e eu teimando em não me afastar, nada de me desgrudar um mínimo que fosse dela. Voltei ao mundo quando ouvi soprar uma ookire, tocou-me melodia estranha pra lá de reconfortante. Viu-me encantado e mais me beijou com seus cálidos lábios para que o amor fosse a vida na tarde ensolarada do quintal dos milagres. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aquiaqui.

Veja mais sobre:
Querência & a arte de Mazinho, Fiódor Dostoiévski, Igor Stravinsky, Saulo Laranjeira, René Clair, Joseph Tomanek, Veronica Lake, Erich Sokol & Bioética: meio ambiente, saúde e pesquisa aqui.

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DESTAQUE: VERVARA STEPANOVA
Imagens: arte da artista construtivista russa Varvara Stepanova (1894-1958).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
( a poesia))_______ foi feita de uma flor
 e ainda me queima por dentro.
Mas é tão bom ficar assim...
((suplico às horas___passem! Passem!))
A poesia – poemas, fotos, imagens – arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...