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sexta-feira, dezembro 04, 2020

PIERRE MICHON, MARIA DE ARRUDA MÜLLER, SLAVA BOWMAN, ZOFIA KULIK, DULCE MAIA, ORIANA DUARTE & AULO PÉRSIO FLACO


  

TRÍPTICO DQC: JANELANDANTE, RESQUÍCIO DE MEMÓRIAS – Ao som da Phantasy Quartet - Phantasy for Oboe, Violin, Viola and Violoncello, Op. 2 (1932), do compositor, maestro, pianista e violista britânico Benjamin Britten (1913-1976), na interpretação de Gernot Schmalfuß & Mannheimer Streichquartett - O Tico – Tiquinho pros íntimos, Sócrates de batismo - tinha um sonho de menino: farda, quepe e desfile na defesa da pátria e nos passos do irmão mais velho, patenteado da repressão nos idos do golpe de sessenta. Não deu, reprovação de batoré entroncado, virou maquinista de plantão. Amargou desilusão e, no meio do chororô, topou com Xanta – Xantipa de família -, numa estação perdida dessa. Pegou no bico da chaleira fervendo e atrepou-se no gogó da escorreita morenaça, mais espalhafatosa que endoidada, num namoro pras beiras esponsais: É com essa que me ajeito, ora! Juras e papel passado, lá ia ele montado no parque de diversão e embuchando a fogosa, de findar uma fileira de bruguelos. Com o passar do tempo, o que era mar de rosa, foi desbotando e ele se viu no caminho da casa da peste! Pronto, no meio desmantelo: Se essa mulher bebesse o mundo estava frito. Pra sorte dele era uma rainha abstêmia, porém escandalosa arrastadora de uma tuia de bichanos e guenzos, uns trinta, se pouco, de organizar os miados e latidos – inclusive de botar nos trilhos a beca folgada dele, também -, isso afora os buás vinte e quatro horas por dia: Isso é o inferno ao vivo e em cores, lasquei-me! Pois foi, regulou a paciência enquanto tudo procriava e tudo crescia na lei do matriarcado. Ele era só mutismo e olhares dum canto a outro: os bregues gasguitos pra manter casa arrumada, nada de mexer, tudo no lugar. De uma hora para outra acabaram com as ferrovias e ele sem serventia alguma: Fazer o quê? Era do batente para casa e vice-versa, agora só tinha uma horinha de folga que fosse pro interlocutor, seu único amigo: o livro. E ouviu de John Steinbeck: E agora que você não precisa ser perfeito, você pode ser bom. Já de Thomas Carlyle: Com estupidez e boa digestão o homem pode enfrentar muita coisa. Tolerância é paciência concentrada. Do poeta romano Aulo Pérsio Flaco (32-61): Do nada, nada vem; e ao nada, nada pode reverter. Até Rainer Maria Rilke: Amor são duas solidões protegendo-se uma à outra. Ser amado é passado; amar é durar. Aí, noite dessa, chegando em casa ela encarou na lata: Você não serve para nada! Eu? Sim, seu traste! O mundo caiu e não aguentou o baque: teve um piripaque e bateu as botas. Ainda deu pra vê-lo a voar aliviado com a maior cara de anjo!

 


ITINERÁRIO DE SONHOS – Imagem: arte da artista visual búlgara Slava Bowman, ao som de Close to Home, do pianista e compositor estadunidense Lyle Mays (1953-2020). – Logicalguma: pés alados nos galhos do arvoredo perseguem aves canoras. O mundo é dos pardais e nada mais. Sinto que estou quase vivo, quase morto, a vida pelas sobras do que restou da precariedade, sem escapatória, de alfa para ômega, todas embaralhadas no Aleph: o topo da montanha e o abismo, a rotina e o xeque-mate, o paradoxo... A água pegando fogo, a Terra caindo, o céu descendo, a Natureza se esvaindo e o miserável saiu e ficou com a botija trilionária, graças! Um pedinte a menos. O rico ficou e saiu empobrecido pela sovinice, um pobretão a mais entre zilhões. Do outro lado da ribanceira arrivistas falocratas sobre monturos de rancores, ameaças e promessas; e a vulgaridade nauseante, a crueldade da violência, a eloquência do noticiário, quanto absurdo! Na verdade, horrores demais. Ouvi o escritor francês Pierre Michon: A pesada aventura de crescimento terminou, ficamos surpresos que não era eterna... As coisas do passado são tão estonteantes como o espaço e a sua impressão na memória é deficiente como as palavras: (apesar disso) descobri que se lembra. Só queria esquecer e não saber mais nada. Desolado no meu canto, ela chega Hannah Arendt: Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança. Vamos...

 


FIO DA VIDA – Imagem: a arte da performática artista visual polonesa Zofia Kulik, ao som Humoresque, Op .20, de Robert Schumann, na interpretação da pianista russa Daria Rabotkina. – O quarto escuro, a cena era ela, nua e linda, sob o holofote imaginário: Sou Dulce, Dulce Maia (1937-2017): Muitos deles vinham assistir para aprender a torturar. E lá estava eu, uma mulher franzina no meio daqueles homens alucinados, que quase babavam. Hoje, eu ainda vejo a cara dessas pessoas, são lembranças muito fortes. Eu vejo a cara do estuprador. Era uma cara redonda. Era um homem gordo, que me dava choques na vagina e dizia: ‘Você vai parir eletricidade’. Depois disso, me estuprou ali mesmo. Levei muitos murros, pontapés, passei por um corredor polonês. Fiquei um tempão amarrada num banco, com a cabeça solta e levando choques nos dedos dos pés e das mãos. Para aumentar a carga dos choques, eles usavam uma televisão, mudando de canal, ‘telefone’, velas acesas, agulhas e pingos de água no nariz, que é o único trauma que permaneceu até hoje. Em todas as vezes em que eu era pendurada, eu ficava nua, amarrada pelos pés, de cabeça para baixo, enquanto davam choques na minha vagina, boca, língua, olhos, narinas. Tinha um bastão com dois pontinhos que eles punham muito nos seios. E jogavam água para o choque ficar mais forte, além de muita porrada. O estupro foi nos primeiros dias, o que foi terrível para mim. Eu tinha de lutar muito para continuar resistindo. Felizmente, eu consegui. Só que eu não perco a imagem do homem. É uma cena ainda muito presente. Depois do estupro, houve uma pequena trégua, porque eu estava desfalecida. Eles tinham aplicado uma injeção de pentotal, que chamavam de ‘soro da verdade’, e eu estava muito zonza. Eles tiveram muito ódio de mim porque diziam que eu era macho de aguentar. Perguntavam quem era meu professor de ioga, porque, como eu estava aguentando muito a tortura, na cabeça deles eu devia fazer ioga. Me tratavam de ‘puta’, ‘ordinária’. Me tratavam como uma pessoa completamente desumana. Eu também os enfrentei muito. Com certa tranquilidade, eu dizia que eles eram seres anormais, que faziam parte de uma engrenagem podre. Eu me sentia fortalecida com isso, me achava com a moral mais alta... Sou entre aquelas que são filhas de outras filhas da dor. E quase num folego só recitou Conformismo da poeta educadora Maria de Arruda Müller (1898-2003): Ensinar a viver, eis minha sina! / No trabalho mostrar que “trabalho é oração”. / No lar, na escola, na oficina... / Ai! Quantas vezes, sangrando o coração! / Qual Cirineu, meu dever é servir! / Aliviar a cruz, que o próximo carrega, / Lenir dores tantas, tantas súplicas ouvir, / Que de dor, o próprio peito verga! / Contra o destino, às vezes me revolto: / Sentir que a carga pesa, em demasia!... / Sei, porém, que a alma no pecado envolta, / Necessita aceitar, dobrar-se ao jugo; / Se no erro, no mal, no crime comprazia / Precisa ser réu, quem foi verdugo... E chorou ao meu ombro e me disse Omar Khayyam: Seja feliz neste momento. Este momento é a sua vida! E nos abraçamos como se ali escapássemos dos horrores do mundo. Até mais ver.

 

A ARTE DE ORIANA DUARTE

A arte da artista visual Oriana Duarte, que é doutora e mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é bacharel em Desenho Industrial pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e professora do Departamento de Design da UFPE. Veja mais aqui e aqui.

 



segunda-feira, abril 20, 2020

AMANDA PALMER, DJANIRA, ROSA LOBATO, MÁ MATIAZI, TIÊ & KARINA FREITAS


MANUAL DE ESTUPIDOLOGIA – UMA: CONDIÇÃO HUMANA & BANALIZAÇÃO DA MALDADE – Que mundo é este hem? Que coisa! Da para enxergar? Em tempos da Idiocracia do Coiso e seu mínions, cafos & fabos, anestesiados pelo ódio, enquadrados na Lei do Cipolla (aquele mesmo que assinala que o estúpido é mais perigoso que o bandido) e no emburrecimento, imbecilização e insanidade, questiona-se se não seria própria da barulhenta barbárie a afeição pela espetacularização da desgraça e a sedução pelo sangreiro em que a banalidade do mal se sobrepusesse à potência do bem, levados pela vingança e o julgamento de quem estiver fora desses padrões. Quanta mediocridade! O alerta de Hannah Arendt: Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança. Ela nos ensina que o mal não está somente no outro. Hem? Afinal, quem comete o mal? Se não é o outro e não sou eu, quem? Ninguém é culpado. Mesmo? Quem é ninguém? Nenhum alguém, nem eu? Cadê minha sombra que me esqueci do que sou e não sei. DUAS: A CONDIÇÃO HUMANA ENTRE A NORMOSE & A DESUMANIDADE - Alô, alô! Tem alguém aí? Ah, não! Segue-se atolados na normose, simples servidão a cumprir regulamentos e regras simplesmente, não precisa pensar e nem procurar sentido algum para nada, viver apenas burocraticamente, livre de ter escolhas entre o verdadeiro e o falso. Não ao justo ou direito, o menor prejuízo; não a verdade, a ignorância diante de tantas informações. Isso é vida? A simples sobrevivência com as muletas tecnológicas e mais nada: não se precisa mais de ninguém. Ouvi Bernard Shaw: O maior pecado para com os nossos semelhantes, não é odiá-los mas sim tratá-los com indiferença; é a essência da desumanidade. Eita! Ou, por mim, Anatole France: Preferi sempre a loucura das paixões à sabedoria da indiferença. É que a indiferença, então, seria ou não a nossa condição de desumanidade. O que fizeram da minha utopia? TRÊS: CREPÚSCULO DAS RELIGIÕES, DISTOPIAS & DATAÍSMO – Qual que é: quem tem dinheiro, ganha; quem não tem, amealha amarguras e nunca esqueça dos dízimos, viu! Isso é igual a Mateus 13,13 do Novo Testamento. Agora, sim, a lei do dataísmo em vigência nos leva pelos algoritmos, entre bits e metadados: o ser humano, então, é só o combustível para converter tudo em dinheiro e lucro, apenas. Tudo para o panteão da riqueza comandado pelo deus dinheiro e deus lucro, santos ricaços e tudo o mais da acumulação terrena. Vôte! Inconformado, quase um patafísico e na tentativa de ser apenas um estúpido a menos, vou cantando Bob Dyllan: Quando não se tem nada, não há nada a perder. E vamos aprumar a conversa, gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] É sabido que na infância o tempo não passa, na adolescência demora-se, na idade adulta corre, na velhice precipita-se. Nunca ninguém morre, só quem nós matamos na memória, no pensamento e no coração. Pensamento da escritora e dramaturga portuguesa, Rosa Lobato de Faria (1932-2010), autora desse belíssimo poema: De todas as palavras escolhi água, / porque lágrima, chuva, porque mar / porque saliva, bátega, nascente / porque rio, porque sede, porque fonte. / De todas as palavras escolhi dar. / De todas as palavras escolhi flor / porque terra, papoila, cor, semente / porque rosa, recado, porque pele / porque pétala, pólen, porque vento. / De todas as palavras escolhi mel. / De todas as palavras escolhi voz / porque cantiga, riso, porque amor / porque partilha, boca, porque nós / porque segredo, água, mel e flor. / E porque poesia e porque adeus / de todas as palavras escolhi dor.

A MÚSICA DE AMANDA PALMER
É o seguinte: todo mundo parte de alguma carência. Queremos que nos vejam, nos entendam, nos aceitem, se conectem com a gente. Todos nós queremos que acreditem na gente. A única coisa é que os artistas costumam ser mais… veementes a respeito disso. As pessoas sempre querem alguma coisa de você. Seu tempo. Seu amor. Seu dinheiro. Que você concorde com elas, com as posições políticas e pontos de vista delas. E você nunca consegue dar o que querem. Mas você nunca consegue dar às pessoas o que elas querem. Mas pode lhes dar outra coisa. Pode lhes dar empatia. Pode lhes dar compreensão. E isso é muito, e suficiente.
AMANDA PALMER - A arte da artista, cantora, compositora e pianista estadunidense Amanda Palmer, autora do livro A arte de pedir (Intrínseca, 2015), resultante de uma palestra homônima e que trata essencialmente de recorrer ao outro, sem temor, sem vergonha e sem reservas, considerando que por que não pedimos ajuda, dinheiro, amor, com a mesma naturalidade com que pedimos uma cadeira vazia num restaurante ou uma caneta, na rua, para fazer uma anotação. Ela defende que é digno e necessário, e é a conexão entre quem dá e quem recebe que enriquece a vida humana. Longe de ser um manual sobre como pedir, o livro é uma provocação bem-vinda e urgente, que incita o leitor a superar seus medos e admitir o valor de precisar e doar ajuda, sempre.
&
O CANTO DE TIÊ
A arte da cantora e compositora Tiê Gasparinetti Biral, que já lançou quatro álbuns de estúdio e vem despontando como grande artista. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, desenhista, ilustradora e cenógrafa Djanira Motta e Silva (1914-1979). Veja mais aqui.
&
A ARTE DE MÁ MATIAZI
A arte da escritora, quadrinista e ilustradora Má Matiazi. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Delírios gráficos é como tenho chamado parte de meu trabalho em que me expresso através de colagens. É um misto de brincadeira e experimentação. As imagens são criadas a partir de um processo muito intuitivo, tratam da necessidade de se sentir livre, de se lançar e desfazer certezas, procurar caminhos desconhecidos. Qualquer caminho que tenha coração.
A arte da ilustradora e designer gráfica Karina Freitas, que tem seu trabalho reunido no Projeto Curadoria e Cargo Collective.
A literatura do escritor, dramaturgo, tradutor e advogado Hermilo Borba Filho. (1917-1976) aqui & aqui.
A poesia de Oliveira de Panelas aqui.
A música de Maria Dapaz aqui.
Biblioterapia aqui.
Camões & Camonge aqui.
Tolinho & Bestinha aqui.
São Benedito do Sul aqui & aqui.


sábado, outubro 14, 2017

ÍTALO CALVINO, ARENDT, NIETZSCHE, CECÍLIA KERCHE, CUMMINGS, WOLF VOSTELL, RENATO JANINE, MAKABRESKU, O SOL & A LUA.

O SOL E A LUA - No tempo em que o Sol e a Lua eram gente, certo dia, o curumin caeté Fiietó brincava de caçar na mata, quando encontrou uma linda menina e se aproximou dela: Você está brincando de caçar? Tô não, tô perdida. Perdida? Sim, saí atrás de uma linda bobroleta e perdi o caminho de volta pra casa. Onde você mora? Não sei, estou perdida. Qual a sua tribo? Sou caingang. Nunca ouvi falar. Acho que corri demais atrás da borboleta de não perceber tão longe que fui. E você, é de qual tribo? Ah, sou caeté. Nunca ouvi falar, também. E agora? Não sei, estou perdida. Vamos brincar por ali pela lagoa, aí você, quem sabe, não encontra o caminho de de sua casa, hem? É, vamos. Como é seu nome? Iaravi. E o seu? Fiietô. Ah, tá, vamos pra lagoa? Vamos. E saíram os dois até chegarem à lagoa e ficaram brincando de mergulhar com os peixes. Pulavam, timbungavam, maior festa. Vamos ver de nós dois quem atira cipó mais longe dentro d’água? Nunca brinquei disso. Ah, porque você é menina, não sabe como é brincar coisa de menino. É, então vamos, quero aprender. E ficavam pegando gravetos e cipós no chão da mata e jogavam dentro d’água. Os peixes pulavam pra pegar as coisas jogadas no ar. Virou uma competição. Aí Fiietó gritou: Saiam, não é pra vocês pegarem, estamos apostando quem joga mais longe. Ah, os peixes nem deram conta, pulavam mesmo assim e interceptavam tudo no ar. Vocês estão atrapalhando nossa brincadeira! Ah, deixa, eles estão brincando com a gente, vamos nadar com eles? Então, vamos. E saíram nadando com os peixes e estes, para provocar os dois, ficavam apenas com o rabinho fora d’água só pra provocá-los a virem nadando atrás deles. Iaravi ia prum lado atrás dos que via, Fiietó ia pro outro com o mesmo objetivo. Tanto foram pra lados opostos que se distanciaram e, quando menos esperavam, esbarraram um no outro. Eita! Batemos com a cabeça. Foi. Estou cansada com esses peixes, eles me botaram para nadar muito. Eu também, vamos voltar pra margem? Vamos. E retornaram, ficaram olhando o brinquedo dos peixes pulando fora d’água e se riam muito com isso. Já estava escurecendo quando Iaravi ficou preocupada em voltar: E agora? Como volto pra casa? Ah, a gente se esqueceu de procurar o caminho, vamos ver se a gente encontra. Saíram, andaram, andaram, nada de Iaravi achar, quando Fêetó resolveu levá-la pra tribo dele. Lá chegando os dois se juntaram aos demais, cearam e foram dormir. No outro dia acordaram, tiraram o jejum e foram ver se achavam o caminho de volta pra casa dela. Foram pra mata e lá começaram a brincar de esconde-esconde, o que é que é, até que encontraram uns pica-paus e ele pediu um chapéu daquele cor de fogo feito os deles. Logo um dos pica-paus retirou um e deu pra ele, fazendo-o de leque. Bonito? Sim. E pra ela? Outro pica-pau deu um pra Iaravi. Eu estou bonita agora? Está. Vamos? Vamos. E ambos brincaram comos pássaros, de pula-pula e correr e voar. Lá pras tantas os pica-paus se despediram e foram embora, eles estavam felizes com os leques feitos chapéus cor de fogo na cabeça. Ah, agora você se faz de cega preu brincar de lhe guiar pela mata, tá bom. Nessa brincadeira ela muito tropicou nos galhos quebrados e secos, nas raízes e muitas pedras, a ponto de invocar-se e não querer mais brincar disso não. Ao abrir os olhos avistou uma casa de marimbondos. Vixe! Vamos embora, corre, olha ali uma casa de marimbondos. Era tarde, correram tanto que findaram mergulhados dentro da lagoa. Alguns peixes pularam e comeram alguns dos marimbondos que não resistiram e foram embora. Visse? Não fosem os peixes, a gente ia morrer afogado. Era mesmo, ainda me ferraram. E Fiietó realmente constatou inchaço nas faces e nas costas de Iaravi. Está doendo? Está. Vamos lá pra minha tribo cuidar disso. E voltaram. Chegaram lá, foram pro feiticeiro que passou uns ungüentos na pele de Iaravi e lhe deu um remédio para beber, demorou um pouquinho, a dor passou, mas continuava com a face e as costas inchadas. Ela então se deitou no chão da oca e ali adormeceu. Será que ela vai ficar boa? Vai, é só efeito do remédio que eu dei, logo ela acorda e volta a brincar com você. No outro dia Iaravi acordou e foram brincar de esconde-esconde de novo, ela tanto se escondeu que Fiietó não mais encontrou. Perdeu-se, sumiu-se. Caçou ele por tantos lugares e lonjuras, não mais encontrou Iaravi. Ele ficou muito triste, estava com saudades dela. Encostou-se numa pedra perto da lagoa e logo os peixes apareceram pulando na água. Ela desapareceu, não achei mais não. Queria era crescer, ficar grande, para encontrá-la. Quem sabe, ela esteja perdida na mata. Nessa hora um peixe deu um pulo maior e com um toque de barbatanas fez Fiietó crescer, agora um rapaz forte, bonito, guerreiro. Obrigado, amigos peixes, agora vou procurar Iaravi, se vocês encontrarem me avisem, viu? Vamos. E saiu morro acima, montanha abaixo, terras distantes nunca vistas. Bem distante dali, estava Iaravi soluçando na beira de um rio distante, quando os peixes pularam foram d’água. Ah, amigos peixinhos, que bom encontrar vocês por aqui. Viram Fiietó? E um dos peixes pulou, bateu a barbatana e Iaravi cresceu, tornando-se uma linda cunhã. Os peixinhos ficaram pulando como se a chamassem para nadar. Vocês sabem onde está Fiietó? Eles mais pulavan, ela entendeu que era pra segui-los. E ela nadou dias e noites. E Fiietó procurou por ela noites e dias. Cansavam, descansavam, tornavam a procurar um pelo outro, ao cabo de uma semana, quando ambos já haviam perdido as esperanças, sentaram cada qual na beira oposta de um grande rio, extenuados e sem mais esperanças. Estavam desapontados por não reencontrarem um ao outro. Ela olhava tudo ao redor, o céu, a terra, o mato, quando percebeu os peixes pulando de novo e não entendia. Vieram os pica-paus em bandos cantando, ah, os amiguinhos pica-paus, que vocês querem? Não entendia. Da mesma forma, na outra margem do grande rio, também os peixes e os pica-paus faziam o mesmo com Fiietó e ele não entendia. O que vocês querem? Os peixes mais pulavam e os pica-paus mais bicavam no ar, como se mandando ele a segui-los. E assim foi, ele mergulhou no grande rio e pôs-se a nadar acompanhando os peixes e os pássaros. Lá longe Iaravi avistava outros pica-paus voando aos pulos dos peixes na água, enquanto os que estavam com ela aumentavam no bater das asas e nos pulos na água. Demorou pra ela perceber umas braçadas firmes de gente na água, acompanhando os pulos dos peixes e o vôo dos pássaros, vindo em sua direção. Mais um pouco os braços se aproximavam e os pica-paus que vinham se encontravam com os outros que estavam com ela e, na água, aumentou em muito os pulos com muitos peixes até a chegada dele na beira do rio. Era Fiietó. Ela ficou feliz. Fiietó? Iaravi? Era o reencontro. E se abraçaram, se beijaram e juraram nunca mais se afastarem um do outro. Tanto é que passaram a tomar conta do mundo, ele de dia passou a ser o soberano Sol brilhando do amanhecer até o final das tardes, e ela, de noite, tornou-se a radiante Lua com suas fases para iluminar o caminho dos que se perdem. (Recriação a partir das lendas indígenas amazônicas recolhidas de Notícia dos Ofaié-Xavante (Revista Museu Paulista, 1951), de Darcy Ribeiro, e Os apinajé (Boletim do Museu Paraense Emiolio Goeldi, 1956), de Curt Nimuendaju). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor, regente orquestral, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): O anjo esquerdo da história, Alegres trópicos - um baile na mata atlântica & Qualquer música; a saudosa cantora Elis Regina (1945-1982) ao Vivo, em Montreaux & Trem azul; do multi-instrumentista, músico, compositor e ativista nigeriano Fela Kuti (1938-1997): Afordisiac, Go slow & Gentleman; e da cantora Irah Caldeira: Flor do dia, Quero ter você, A natureza das coisas, Sem segredo & Avoante com Santanna, o Cantador. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - Houve também quem, embora literato da cabeça aos pés, não sentiu nenhum complexo de inferioridade diante da história, mas, antes, teve certeza de que foi ele a nutri-la e enriquecê-la com toda a sua fantasia e cultura. Trecho de Assunto encerrado (Companhia das Letras, 2009), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui.

TEMPOS SOMBRIOS - [...] Em nossa época, parece-me, nada é mais dúbio do que nossa atitude em relação ao mundo, nada menos assente que a concordância com o que aparece em público, imposta a nós pela homenagem, a qual confirma sua existência. Em nosso século, mesmo o gênio só pôde se desenvolver em conflito com o mundo e o âmbito público, embora, como sempre, encontre naturalmente sua concordância própria particular com sua platéia. Mas o mundo e as pessoas que nele habitam não são a mesma coisa. O mundo está entre as pessoas, e esse espaço intermediário — muito mais do que os homens, ou mesmo o homem (como geralmente se pensa) — é hoje o objeto de maior interesse e revolta de mais evidência em quase todos os países do planeta. Mesmo onde o mundo está, ou é mantido, mais ou menos em ordem, o âmbito público perdeu o poder iluminador que originalmente fazia parte de sua natureza. Um número cada vez maior de pessoas nos países do mundo ocidental, o qual encarou desde o declínio do mundo antigo a liberdade em relação à política como uma das liberdades básicas, utiliza tal liberdade e se retira do mundo e de suas obrigações junto a ele. Essa retirada do mundo não prejudica necessariamente o indivíduo; ele pode inclusive cultivar grandes talentos ao ponto da genialidade e assim, através de um rodeio, ser novamente útil ao mundo. Mas, a cada uma dessas retiradas, ocorre uma perda quase demonstrável para o mundo; o que se perde é o espaço intermediário específico e geralmente insubstituível que teria se formado entre esse indivíduo e seus companheiros homens. [...] Bem, a esse respeito, os últimos trinta anos dificilmente trouxeram algo que se pudesse chamar de novo. [...]. Trechos da obra Homens em tempos sombrios (Companhia das Letras, 2008), da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OS HOMENS & A MORAL - [...] sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor “bom” e “mau”? E que valor têm eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indícios de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revela-se neles a plenitude, a força, a vontade da vida, sua coragem, sua certeza, seu futuro? [...] Já em princípio a palavra “bom” não é ligada necessariamente a ações “não egoístas”, como quer a superstição daqueles genealogistas da moral. É somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que esta oposição “egoísta” e “não egoísta” se impõe mais à consciência humana. [...] Na origem, toda a educação e os cuidados do corpo, o casamento, a medicina, a agricultura, a guerra, a palavra e o silêncio, as relações entre os homens e as relações com os deuses, pertenciam ao domínio da moralidade: esta exigia que prescrições fossem observadas, sem pensar em si mesmo como indivíduo. [...] Em toda a parte onde existe comunidade e, por conseguinte, moralidade dos costumes, reina a ideia de que a punição pela violação dos costumes recai em primeiro lugar sobre a própria comunidade. [...] Para poder dispor de tal modo do futuro, o quanto não precisou o homem aprender a distinguir o acontecimento casual do necessário, a pensar de maneira causal, a ver e antecipar a coisa distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para o fim, a calcular, contar confiar – para isso, o quanto não precisou antes tornar-se ele próprio confiável, constante, necessário, também para si, na sua própria representação, para poder enfim, como faz quem promete, responder por si como porvir! [...]. Trechos da obra Genealogia da moral: uma polêmica. (Companhia das Letras, 1998), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ENSINO & ESCOLHASVivemos uma enorme demanda de conhecimento qualificado, cientifico, acadêmico. Isso é ótimo: o berço rico, a propriedade da terra, a carteira em banco não bastam mais para o sucesso na vida sem a inteligência e o estudo. [...] O acesso ao melhor conhecimento nem sempre é democrático, porque fica diferenciado pelo dinheiro que se tem. A demanda é democrática, a oferta nem tanto. [...] Da cabeça aos pés, cada um de nós veste a ciência que não existia cinco anos atrás. Mas a ciência também leva a uma consciência mais apurada do mundo. [...] Num país preconceituoso com o conhecimento (Monteiro Lobato sobre a preguiça mental: se desse a cem fazendeiros a escolha de ler meia hora ou derrubar uma mata de peroba, num instante ouviria 101 machados retumbando!), isso é formidável. A universidade também sabe, hoje, que para se legitimar precisa firmar alianças com a sociedade – inclusive, mas não só, o mundo empresarial. Isso diz respeito à sua estratégia. Deveria montar cursos de extensão oferecidos à larga, presenciais ou não. Mas falta dinheiro. Por isso, hoje é fora da academia que se supre essa necessidade. [...]. Trecho do artigo A corrida do ensino: a crise da universidade e a voga dos cursos de extensão (Bravo, março 2005), do filósofo, escritor e professor da USP, Renato Janine Ribeiro.

A ARTE DE CECILIA KERCHE
A arte da bailarina Cecília Kerche.

Veja mais:
Fiietó & Iaravi aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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DOIS POEMAS DE E. E. CUMMINGS
I
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)
contra o silêncio,ou a escuridão….
a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,
devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno
cujos quietos lábios me assassinam subitamente,
mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso
—e então somos Eu e Ela….
o que é isso que o realejo toca
II
a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce
encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,
Recita
sobre a sua
carne
as pérolas
da chuva uma a uma murmurando.
Poemas extraídos da obra Livro de poemas (Assírio & Alvim, 1999), do poeta estadunidense Edward Estlin Cummings ( e.e.cummings 1894-1962). Tradução de Cecília Rego Pinheiro. (Imagens: arte da fotógrafa polonesa Laura Makabresku). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, videoartista e escultor suíço Wolf Vostell (1932-1998).
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, setembro 08, 2008

ARENDT, KIPLING, BETTY FRIEDAN, VALUNA, CORDEL DE JESUS, ÉDIPO DE SÓFOCLES & VIGÉE-LE BRUN

 
A arte da pintora francesa Élisabeth-Louise Vigée-Le Brun (1755-1842).

VALUNA: AS ABELHAS DE CUPIRA & O BEBEDOURO DE AGRESTINA - Eu era uma carpa de tempos remotos e me tornei cantador: cantar no ar sem emudecer a terra, toada imitando a maviosa ária do tangerino: aboio que quase não existe mais. Tirava a solfa deles, meu corpo sentia a dor da Terra, da cidade, do país, do cosmos. Sentia o composto que se decompunha como se sentindo a cumplicidade dos peixes e das pedras que rolam abandonadas. Outros eu via ressentidos pelas agruras, ao deus dará. A comida entre o lixo e a feiura, a dor e o fastio, graves e exaustos. Uma horrível tristeza, um retrato pálido, insurretos que conformavam a revolta num país de equivocados com seus insetos que picam inexoravelmente as ideias e o ânimo, e sempre foi e será assim para os que vivem banhados de urina e as fezes do diabo. Quanta culpa entre os impotentes e os fugidos apáticos, as redomas religiosas, milagres de nenhum triunfo. Circunspecção de mágoas e frustrações, infelizes que levantam a voz com sarcasmos como se só os outros fossem os fracassados, donos da razão, incongruentes, extravagantes atrevidos, miseráveis, cicatrizes patéticas findam maior aguaceiro. Ouvia quem dissesse de longe: Vá se meter com pidonas e depois vai ver o que acontece. Era quem olhava no espelho, alguém metido a vencedor apesar da penúria por todos os lados e lugar. Depois, batia no peito e ia pro mundo como se fosse o indestrutível, invencível, açodado de tão acochado, aos espirros, parecia mais sapo que adivinhava chuva. Aos cochichos ouvia-se não sei quem: Traste de gente! Ah, se acha, não passa de uma ameba. Há quem se ache nada de nenhum e siga como mais um qualquer, qual todos. A vida dali, deles como podiam e tinham afora virarem a cara aos que davam adeuses de mão fechada - abecados que abordoavam com umbigo de boi, sabiam e eu dizia: não façam guerra que não é nada boa -, às vezes por versos de pés quebrados, quando não aos acochos pulavam como se brincassem de roda, caçando ovos secos de acauã: um santo remédio pras picadas de cobra e de gente dos olhos seca-pimenteira. De cócoras, hoje contam história e a verdade é bem diversa. Amanhã, só uma será com seus vieses. Como eu estava abafanético, me satisfazia dela, ali ao meu lado, sem dar conta da pabulagem solta no terreiro. Eu lambia a sua pele de Pornea, me nutria dela, uma criança priápica; em recompensa, os lábios dela por toda minha pele, dos pés à cabeça. O verbo se fazia carne porque o sexo era a aliança, a vida encarnada na ternura do lingan e ioni. Ela completava a parte que me faltava, preenchia meu vazio e a minha coluna de luz das coisas infinitamente grandes ou pequenas. E eu a amei a noite inteira porque era ela como se fosse Pathé, com posse e dependência. Fez-se para mim tal qual Eros com seus pés de asas para que eu ficasse adulto maravilhado, antes da adolescência. E se fez Storqué, a ternura da dança que curava a mim e a Terra. Ao despertar, seus cafunés nos meus dengos. As cupiras zuniam para o mel ao redor da baraúna das Panelas. Eram as abelhas do cupinzeiro que me trouxeram algarobas, umbuzeiros, ipês e juazeiros do pau d’arco, onde a coroa-de-frade, os cactos e mandacarus reinavam sobre jamelões, jaqueiras, pau-brasil e mangueiras, fruta-pão dos brejos, a baraúna de Aleluia pelo Taboleiro até Gravatá. De lá do Peri-peri do Gato pro serrote da Nazaré no Pau Ferrado, davam no Entroncamento e o poeta no lajeiro de Imbiruçi, divisava Lage Dantas com Riachão de Fora, até Lagoa de Patos e a Ribeira do Rio na Barra dos Gatos. Os versos dele passavam Bebida, Morcego, Cangalha, Brejinho, da Bebida do Gado pro Boqueirão, as terras de Iraci e de Igarapeba, Periperi e do Soberana. Era 13 de maio, data festiva não sei do quê. Os daqui nem sabiam direito, quanto mais eu: coisas dos gravatudos e mandões. Do outro lado, o quipa das cactáceas, quipaquipá, era coisa linda de se ver. E de lá para o que era de Barra de Jangada, Pau Ferro, Queimadas, São Benedito e São Sebastião da Barra que nem existe mais. Quando vi a palmeira Maraial, que vai dar no Sertãozinho de Baixo ou no de Cima, logo sabia das duas jaqueiras no meio do caminho, onde se deu a colônia Isabel. Depois, a estação ferroviária que escoava o açúcar e ia dar no outeiro da capela da Conceição, onde a locomotiva descarrilhou no engenho Limão e o socorro do trem que vinha de Ribeirão-Cortês também caiu e em Bonito o maior quiproquó. Aí, pou! Era uma vez... saiu um e saíram todos com muita raiva, até chegar no pé da coisa, putos e prontos! Lept! Acocorado perto da loca, roliço de gordo, destamanho, judiava demais, de oito em oito dias. Cadê? Oxe! O que havia de princeso e de prinspa nas casas do vai e num volta dos fandangos, cirandas, maracatus, não davam conta, faina pesada. E cada qual buscava suas melhoras com as bênçãos de quem fica, rodamundo, as maldições ou historias de Caim. Um doido corria bicho e ninguém sabia do que ladravam os cães, se nem aos gatunos oficiais. Nada barrava a ganância e havia quem não saiba que fulano morreu depois dumas tantas e boas que ninguém sabe direito; beltrano com o pé na cova e a polícia no encalço, coisa de tirar bandeira, era ele afilhado dum maioral que lhe cobria as costas; e sicrano segue nem aí com outranos malabaristas de anzóis e de coisas escusas que sequer se adivinha de fato o que podia ser. Ele diz, ela diz, coisas e fatos, o tempo passou, passou e passou, lá vai, lá vai, lameiro e atolava, pei e pou. Hoje quase pegou, quase. Nem hoje nem nunca, de um canto a outro, mungangas e ordem de faz-de-conta, brochas e espinhos, e passavam pela perna de pinto e saíam pela perna de pato, sombra de cajueiro, brisa de pitangas, cajus, araçás. Nada mais. Sabia apenas que ela rainha cupira & eu seu zangão, paragens, altitudes, paisagens, longitude... um dia lá, outra noite... lembrava de quando eu saí do cardume e me insinuava pelo brejo estreitinho até à nascente e lá pensava porque eu era quem ia direto para onde desse, passageiro do tempo noitedia pelo que inexistia e não, outonos a mais e volta ao mundo, as raízes do chão e do céu, pés e cabelos, dos tempos da seca devastadora que jorrava o Bebedouro e os milagres da talha de Santo Antônio. Era 11 de setembro daquele tempo e a festa ia pela Barra do Chata e do Jardim, o Pé de Serra dos Mendes e Araçatuba. Foi lá, outras mil vezes retornei, não havia ninguém. Desolado, coloquei minha cabeça entre os joelhos e recebi a benção, inclinado sobre a terra, porque voltei a ser filho. Ela era Agrestina, o meu altar, sou seu súdito. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.


DITOS & DESDITOS - As palavras são a mais poderosa droga utilizada pela humanidade. Toda a gente está mais ou menos louca em algum aspecto. O fracasso e o sucesso são impostores. Ninguém fracassa tanto como imagina. Ninguém tem tanto sucesso como imagina. Preencha o minuto em que você acha impossível perdoar por 60 segundos de distanciamento. Os princípios são os princípios, nem que o sangue tenha de correr pelas ruas! Nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo. Nenhum homem tem o dever de ser rico ou grande ou sábio: mas todos têm o dever de serem honrados. Viaja mais rápido quem viaja sozinho. Pensamento do escritor britânico Rudyard Kipling (1865-1936). Veja maisaqui.

ALGUÉM FALOU: A única maneira de uma mulher, assim como um homem, encontrar-se, conhecer-se como pessoa, é através do trabalho criativo próprio. Não há outro caminho. O problema que não tem nome (que é simplesmente o fato de que as mulheres são impedidas de crescer até a plena capacidade humana) está afetando muito mais a saúde física e mental de nosso país do que qualquer doença conhecida. Os homens não são o inimigo, mas as vítimas. O verdadeiro inimigo é a denegrição das mulheres. Os homens tinham que ser super-homens: bilhetes de refeição estoicos e responsáveis. Domínio é um fardo. A maioria dos homens honestos admite isso. O envelhecimento não é "juventude perdida", mas um novo estágio de oportunidade e força. Pensamento da escritora e ativista feminista estadunidense Betty Friedan (1921-2006). Veja mais aqui.

BANALIDADE DO MAL – [...] Foi como se naqueles últimos minutos estivessem resumindo a lição que este longo curso de maldade humana nos ensinou — a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos. [...]. Trecho extraído da obra Eichmann em Jerusalém — Um relato sobre a banalidade do mal (Companhia da Letras, 1999), da filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975), contando a história do sequestro do nazista Adolf Eichmann que foi levado até Jerusalém para ser julgado, quando a autora investiga a capacidade do Estado de igualar o exercício da violência homicida ao mero cumprimento da atividade burocrática. Apontado como um monstruoso carrasco nazista, responsável pelo planejamento e operacionalização da chamada "solução final", a figura de Eichmann se apresenta, diante de Arendt como um funcionário pronto a obedecer a qualquer voz imperativa, incapaz de refletir sobre seus atos ou de fugir aos clichês burocráticos, quando ela Arendt se depara com a confluência entre a capacidade destrutiva e a burocratização da vida pública. Na obra a autora retoma a questão do mal radical kantiano, politizando-o, e analisa o mal quando este atinge grupos sociais ou o próprio Estado. Segundo a filósofa, o mal não é uma categoria ontológica, não é natureza, nem metafísica, é político e histórico: é produzido por homens e se manifesta apenas onde encontra espaço institucional para isso - em razão de uma escolha política, a trivialização da violência corresponde, então para a autora, ao vazio de pensamento, onde a banalidade do mal se instala. Veja mais aqui & aqui.

ÉDIPO REI - Quem não tem medo de um ato menos medo terá de uma palavra. Para um homem, não há mais nobre tarefa que ajudar os outros na medida de sua força e de seus recursos. Censuras minha furiosa obstinação, enquanto não perceber a que habita em ti, e é a mim que a seguir condenas! Esse dia te fará nascer e morrer ao mesmo tempo. Rejeitar um amigo legal é na verdade privar-se de uma parte da própria vida, isto é, daquilo que mais se preza. Um caráter como o teu faz sofrer sobretudo a si mesmo, e é justo que seja assim. Mas o deus já publicou sua sentença: para o assassino, para o ímpio que sou, é a morte. Guardemo-nos de chamar um homem feliz, antes que ele tenha transposto o termo de sua vida sem ter conhecido a tristeza. Trechos extraídos da peça teatral Édipo Rei, escrita por Sófocles no teatro antigo grego, extraída da publicação Teatro Grego (W.M.Jackson, 1950), organizada por J. B. Mello e Souza. Édipo Rei é a primeira obra de um conjunto que inclui também Antígona e Édipo em Colono, centrada na família de Édipo, descrevendo eventos com mais de 8000 anos. A história desta família é determinada por uma profecia que Édipo irá matar o seu pai e casar com a sua mãe; a ação desta primeira peça é a descoberta da realização dessa profecia. Veja mais aquiaqui & aqui.


A HISTÓRIA DE JESUS E O MESTRE DOS MESTRES

Manoel D´Almeida Filho

Quando Jesus Cristo andou
Neste mundo de miséria
Ele fez muitos milagres
Em transformar a matéria
Em sã, forte e sadia
Quando já estava funérea.

É por isso que eu conto
Esse drama verdadeiro
Que Jesus numa viagem
Encontrou um ferreiro
O qual hospedou Jesus
Por ser muito hospitaleiro.

Jesus viu na parede
Tinha visível um letreiro
Dizia por esta forma:
“Na arte sou o primeiro
Eu sou o mestre dos mestres
Nessa arte de ferreiro”

Jesus então perguntou-lhe
Se aquilo era verdade
O ferreiro disse: - Amigo
Tenho essa propriedade
Nesta arte que exerço
Faço o que tenho vontade.

Jesus nada disse a ele
Porque de tudo sabia
Dormiu muito sossegado
Quando foi no outro dia
Chegou uma pobre velha
E uma esmola lhe pedia.

Essa pobre peregrina
Vivia sempre esmolando
Quando pediu a esmola
Jesus lhe foi perguntando:
- Diga se quer ficar moça
Para viver trabalhando?

Disse a velha: - Quem me dera
Eu ser moça e de saúde!
Só meus Deus ou Jesus
Faziam-me essa virtude
Jesus lhe disse: - Pois agora
Encontraste quem te ajude.

Então pediu ao ferreiro
Com sua força divina:
- Quero a licença de vós
Para na vossa oficina
Fazer essa velha moça
Que esta peça é muito fina.

O ferreiro disse: - Faça
Seu serviço de apreço
Que eu quero apreciar
Como se faz no começo
Porque na arte de fole
Esta parte eu não conheço.

Jesus preparou a safra
E botou fogo no fole
Botou a velha na brasa
Urgente fez o controle
Quando puxou para safra
Todo osso ficou mole.

Jesus meteu-lhe o martelo
Fez o serviço à vontade
A velha soltando as casacas
E chegando à mocidade
Pronto ela apresentava
Uns doze anos de idade.

O ferreiro quando viu
O serviço que Jesus fez
Ficou dizendo consigo:
“Aprendi todo de vez
Se eu for fazer isto, faço
Inda com mais rapidez”.

Jesus então despediu-se
Sua viagem seguiu
O ferreiro orgulhou-se
Assim que Jesus saiu
Disse: - Agora faço cousa
Que o povo nunca viu.

Aí chamou a mãe dele
Que era uma velha insossa
Disse: - Velha ande ligeiro
Que eu vou fazê-la moça
Você vai ficar agora
Uma boneca de louça.

A velha inda era dura
Era muito sacudida
Com a voz de ficar moça
Tornou-se mais enxerida
Disse? – Assim eu faço cousa
Que até o diabo duvida.

Disse ela – Eu ficando moça
Diga que danou-se o jogo
Porque eu não mais
Inda havendo muito rogo
Eu quero é gozar a vida
E namorar de pegar fogo.

O ferreiro disse: - Velha
Deixe de conversa mole
Botou-a dentro do fogo
Disse: - Eu tocar o fole
Você agüenta a quentura
Fica quieta e não se bole.

A velha caiu na brasa
Danou-se para gritar
Disse o ferreiro: - Eu não sei
Como você quer gozar
Para poder ficar moça
Tem que gemer e chorar.

Aí foi numa garrafa
Botou e bebeu um porre
Disse: - Velha, cale a boca
Ninguém aqui lhe socorre
Agüente tudo calada
Quem não pode viver morre.

E tocou fogo na velha
A pobre velha calou-se
Ele botou-a na safra
Um pedaço incendiou-se
Ele disse: - Isso é o diabo
Minha mãe desmantelou-se.

Quando pegou o martelo
Disse: - Aqui ninguém contesta
Bateu logo na cabeça
Chegou afundar a testa
Disse: - E pelo que eu vejo
Essa porqueira não presta.

O ferreiro aperreou-se
Foi tomou outra bicada
Voltou a velha ao fogo
Que estava fogulada
Disse: - Hoje te faço moça
Nem que fiques alejada.

Tirou a velha do fogo
E botou água fria
Para ver se dava o ponto
Do jeito que ele queria
Mas sem a força divina
Nada o ferreiro fazia.

Tirou a velha da água
Viu que de nada valeu
Foi de novo na garrafa
E disse quando bebeu:
- Quero ver se aquele homem
Trabalha mais do que eu.

Bateu tanto e pelejou
Que ficou desenganado
A garrafa estava seca
Este muito encachaçado
Vendo que não dava jeito
Ficou chorando humilhado.

A pobre velha virou-se
Numa pedra de carvão
O ferreiro disse: - Agora
Só tem uma solução
Vou chamar aquele homem
Pra vê se ele dá jeito ou não.

Correndo encontrou Jesus
Em um lugar hospedado
Quando o ferreiro chegou
Disse chorando cansado:
- Se o senhor não me valer
Eu sei que estou desgraçado.

- Fui fazer minha mãe moça
O ponto desmantelou-se
Ou foi de mais ou de menos
Em carvão ela tornou-se
Se o senhor não der um jeito
Minha mãe foi quem danou-se

Jesus disse: - Meu amigo
O erro já vem de atrás
O senhor é bom artista
Conhece tudo o que faz
E sendo mestre dos mestres
O que é que eu faço mais.

O ferreiro ajoelhou-se
Pediu com a fronte vencida:
- Peço que vá dá um jeito
À minha mãe querida
Porque eu perdendo ela
Perco gosto da vida.

Sendo assim disse Jesus:
- Eu vá já com rapidez
Porem lhe digo a verdade
Aviso por minha vez
Não garanto fazer nada
Diante do que você fez.

O ferreiro chegou adiante
Jesus vinha mais atrás
Chegando, o ferreiro disse:
- Está aí veja o que faz
Jesus disse: - Está queimada
Agora não presta mais.

- Do jeito que ela está
Não dá mais uma mulher
Mas ainda tem um jeito
Se acaso você quiser
Dela eu faço uma macaca
Diga se assim você quer.

O ferreiro disse: - Amigo
Eu quero é que dê um jeito
Já conheço seu trabalho
Sei que o senhor faz direito
Faça lá de qualquer forma
Que ficarei satisfeito.

Jesus fez logo o serviço
Isso sem haver demora
A macaca estava pronta
Em menos de uma hora
Entregou-a ao ferreiro
Despediu-se e foi embora.

Para quem tem consciência
Exemplo maior não há
Sempre nos diz o rifão:
“Veja o orgulho em que dá
Quem quer ser mais do que é
Fica pior do que está”.

O ferreiro ainda disse:
- Agora estou convencido
Mestre dos mestres é aquele
Fez o serviço polido
Minha mãe só ficou feia
Com este rabo comprido.

- Minha mãe velha ficou
Magra igual uma faca
Fazendo muita careta
Fedendo que só tacaca
Mas eu dou graças a deus
Ter por mãe essa macaca.

Eu peço a todos amigos
Ajudem um brasileiro
Cada um compre um folheto
Que é pequeno dinheiro
Quem não comprar vai ficar
Igual á mãe do ferreiro.

MANUEL D´ALMEIDA FILHO – o poeta e cantador paraibano Manuel D´Almeida Filho (1914-1995),publicou diversos folhetos de cordel, entre eles A Menina que Nasceu Pintada com as Unhas de Ponta e as Sobrancelhas Raspadas (1936), Vicente, o Rei dos Ladrões (1957), Vida, Vingança e Morte de Corisco (1986 ), Os Amigos do Barulho e o Bandido Carne Frita (1991), A Afilhada da Virgem da Conceição (1995), A Princesa que não ria e as Proezas de João Tolo, este o último dos seus romances de cordel. Ainda são de sua autoria os folhetos A Sorte do Amor, Rufino, O Rei do Barulho, Padre Cícero, o Santo do Juazeiro, Os Quatro sábios do reino, A Vitória de Floriano e a Negra Feiticeira, Vicente, o Rei dos Ladrões, Jesus e o Mestre dos Mestres, Josafá e Marieta, O Monstro Misterioso, O Feitiço Por Cima de feiticeiro, O Lobisomem Encantado, A Noiva do Diabo, Os Três Conselhos da Sorte, entre outros tantos títulos. Segundo o cordelista e pesquisador da cultura popular brasileira, Marco Haurélio, as obras de Manuel S´Almeida Filho ocupam lugar privilegiado na poesia popular destacando na sua extensa bibliografia Os Cabras de Lampião, a obra-prima do autor e, indubitavelmente, a melhor biografia em versos sobre o famoso cangaceiro. Com 652 estrofes, enumera os feitos do Rei do Cangaço e prima pela objetividade e riqueza na descrição dos fatos.


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