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terça-feira, dezembro 12, 2023

SOPHIE KINSELLA, LUCÍA SAORNIL, ANNE CONWAY & BESTA FUBANA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do premiado álbum Erosão (Risco\Fun In The Church, 2021), da baterista, cantora e compositora Mariá Portugal, uma expoente da musica experimental e fundadora do Quartabê – grupo formado por Maria Beraldo, Joana Queiroz e Chicão Montorfano.

 

ENTRE OBSESSÕES, IMPOSTURAS & COMPULSÕES... - Era a cidade feita de palavras ubíquas às diegeses insones. O que mais de assombroso quando se parecia um dia azul, outro nem tanto e a estupefação de nunca se saber como começou. Havia quem decodificasse algaravias ocultas, diziam das conversas de defuntos. O pior era um quase terror: as pessoas perderam a amabilidade e se empurravam umas às outras, e era para me escantear enrolado na trama da Trilogia da Estrada de Wim Wenders. O que de mim quase nada mais restou, apenas fruir dela Marion como se fosse radiante Lou Salomé, uma trapezista nas Asas do Desejo e um verso de Rilke: Uma única coisa é necessária: a solidão... O amor consiste nisso: dois solitários que se encontram, protegem e se cumprimentam... Graças a não sei quem havia a remissão à beira do rio: um elogio à imanência, entre o desvelar dos simulacros e a penitência. E a vida uma girândola com todos os fogos de artifícios atordoantes, para saber de Adélia Prado: Dor não tem nada a ver com amargura. Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais, é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável. Cada dia mais rica de humanidade... Tudo então nos dividia e a divisão nos complementava – o contrário nos completava. A vida realizou a morte e quase nem se soube quandera manhã ou tarde, tanto faz, até a mesmice surpreendia, porque a sorte era só um aceno; a existência, uma lembrança. Então ali a praça fundiu casulos e conchas praquela rua que vai nem sei pra onde, porque nunca mais circos, só um monte púlpitos itinerantes, tudo muito chato, idolatria e o quão tedioso. Impotente, não havia dinheiro algum, não tinha nada, a doença do vazio – onde o tempo, qual espaço –, palimpsestos dos escarnecidos pecados incontáveis. Foi preciso Ella Baker: Uma das coisas que temos que enfrentar é o processo de espera para mudar o sistema, o quanto temos que fazer para descobrir quem somos, de onde viemos e para onde vamos... Dê luz e as pessoas encontrarão o caminho... Experimentei e tive consciência de matar a fome, mentir, maldizer, descalçar-me e desmascarar-me o quanto podia, sorria e chorava, nada mais. No decurso de um tempo qualquer que nem percebia, aparecia Rodin: Olhe pro jardim... E era Agnieszka Holland: Se você olhar com atenção, o mundo todo é um jardim.... Havia perdido o olhar e o duplo, nem de mim ali só, nenhuma aura fugitiva por interstícios das rachaduras do impermeável: o sonho era um filme e a vida, rendi-me ao afeto, afinal sou e sei como existíamos. Até mais ver.

 

HINO DAS MULHERES LIVRES

Imagem: Acervo ArtLAM.

Aponte para mulheres em todo o mundo \ para os horizontes gravídicos de luz \ devido a aceiros, o pé no chão a cabeça não é azul. \ Afirmar essas promessas dá vida \ Tradição do desafio \ Nós nos modelamos com argila quente \ de um mundo nascido de dor. \ Que o passado caiu num lugar nenhum. \ O que nos interessa aqui? \ Queremos escrever de novo. \ Uma palavra mulher. \ Vá em frente, mulheres do mundo, \ com um ponto elevado para azul. \ Em fogo quebrado, \ Vá em frente, diante dá luz.

Poema da escritora, jornalista e líder anarquista espanhola Lucía Sánchez Saornil (1895-1970). Veja mais aqui e aqui.

 

À PROCURA – [...] Acho que percebi que a vida consiste em subir, descer e se levantar novamente. E não importa se você escorregar. Contanto que você esteja indo mais ou menos para cima. Isso é tudo que você pode esperar. Mais ou menos para cima. [...] O problema é que a depressão não traz sintomas úteis, como manchas e febre, então você não percebe isso a princípio. Você continua dizendo 'estou bem' para as pessoas quando não está bem. Você acha que deveria ficar bem. Você fica dizendo para si mesmo: 'Por que não estou bem? [...] Não será para sempre. Você ficará no escuro o tempo que for necessário e então sairá. [...] A maioria das pessoas subestima os olhos. Eles são infinitos. Você olha alguém diretamente nos olhos e toda a sua alma pode ser sugada em um nanossegundo. Os olhos das outras pessoas são ilimitados e é isso que me assusta. [...] Quanto mais você se envolve com o mundo exterior, mais será capaz de diminuir o volume dessas preocupações. Você verá que eles são infundados. Você verá que o mundo é um lugar muito movimentado e variado e que a maioria das pessoas tem a capacidade de atenção de um mosquito. Eles já esqueceram o que aconteceu. Eles não pensam sobre isso. Haverá mais cinco sensações desde o seu incidente. [...] Já enfrentei idiotas suficientes no meu tempo. Eles nunca percebem que são idiotas. Nem uma vez. Qualquer coisa que você diga. [...] Às vezes, espero estar acumulando um estoque de risadas perdidas e, quando me recuperar, todas elas explodirão em um ataque gigantesco que durará vinte e quatro horas. [...] Mesmo quando você pensa que se perdeu, o amor ainda pode te encontrar. [...]. Trechos extraídos da obra Finding Audrey (Doubleday Childrens, 2015), da escritora britânica Sophie Kinsella. Veja mais aqui.

 

PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS - [...] Eu digo, vida e figura são atributos distintos de uma substância, e como um mesmo corpo pode ser transmutado em todos os tipos de figuras; e como a figura mais perfeita compreende aquilo que é mais imperfeito; assim um mesmo corpo pode ser transmutado de um grau de vida para outro mais perfeito, que sempre compreende em si o inferior [...] Temos um exemplo de figura em um prisma triangular, que é a primeira figura de todos os prismas triangulares sólidos alinhados à direita, que é a primeira figura de todos os corpos sólidos alinhados à direita, onde em um corpo é conversível; e deste em um cubo, que é uma figura mais perfeita, e contém em si um prisma; de um cubo pode ser transformado em uma figura mais perfeita, que se aproxima mais de um globo, e deste em outra, que está ainda mais próxima; e assim ascende de uma figura, mais imperfeita, a outra mais perfeita, ad infinitum; pois aqui não há limites; nem pode ser dito que este corpo não pode ser transformado em uma figura mais perfeita: Mas o significado é que esse corpo consiste em linhas retas planas; e isso é sempre modificável para uma figura mais perfeita, e ainda assim nunca pode alcançar a perfeição de um globo, embora sempre se aproxime mais dele; o caso é o mesmo em diversos graus de vida, que têm de fato um começo, mas não têm fim; de modo que a criatura é sempre capaz de um grau de vida mais avançado e perfeito, ad infinitum, e ainda assim nunca pode atingir a igualdade com Deus; pois ele ainda é infinitamente mais perfeito do que uma criatura, em sua mais alta elevação ou perfeição, assim como um globo é a mais perfeita de todas as outras figuras, da qual ninguém pode se aproximar. [...]. Trechos extraídos da obra The Principles of the Most Ancient and Modern Philosophy (Cambridge University Press, 1996), da filósofa inglesa Anne Conway (1631-1679), que na obra Tangled Secrets (Usborne Publishing, 2015), expressa que: [...] Ele estava fazendo parecer que eu era forte e corajoso. Ele não percebeu o quão assustado eu estava por dentro. Como minha fita estava na minha bolsa. Como eu o encontrei enfiado na parte de trás da minha cama e ainda precisava dele apenas para passar o dia. Como eu nunca tinha feito nada corajoso em toda a minha vida. Seus olhos nunca deixaram meu rosto. “Se alguém pode entrar naquela sala, Maddie Wilkins – tarde, ou cedo, ou qualquer coisa – é você. [...]. Também noutra de sua obra Forbidden Friends (Usborne, 2013), também expressa que: […] Inclinei-me e, antes que pudesse mudar de ideia, beijei-o bem nos lábios. E então me virei e corri pela porta da frente. “Caramba, Abelha!” ele gritou atrás de mim. Mas quando olhei para trás, ele estava encostado no batente da porta, sorrindo. [...] Nós nos divertimos muito juntos [...] Ela é o tipo de pessoa que faz cara de corajosa mesmo quando tem vontade de chorar [...]. Veja mais aqui e aqui.

 

A BESTA FUBANA

[...] A desunião dos bichos era a desunião deles, empolgados e ambiciosos. A volúpia do poder enxotara o pássaro-guia e os deixara órfãos de luz e de proteção, entregues à sanha do inimigo [...].

Trecho extraído da obra O romance da Besta Fubana (Bagaço, 2019), do escritor Luiz Berto. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 


domingo, junho 19, 2022

JAIME BATEMAN, KRENAK, ARNE NÆSS, MARCO BOBBIO, DOMENICO UHNG HUR & DAVI KOPENAWA

 

 

TRÍPTICO DQP: Insone insânia... - Ao som das obras Di-stances (Sistrum, 2006), Memórias Abstratas e Abstraídas (Funarte, 2012) e Karysma (Funarte, 1987), da compositora, pianista, professora e regeste Vânia Dantas Leite (1945-2018). - Onde estou quase não sei, nem consigo dormir e quem poderia depois do alarme 24/7 de Jonathan Crary. Já me sinto enterrado vivo, talvez restem sonhações: apenas pesadelos distópicos, Sidarta Ribeiro. E cada vez mais os piores povoados por ressurretos abomináveis e estúpidos dagora. Entre eles topo O doente imaginado (Bamboo, 2014), do médico italiano Marco Bobbio: A medicina obteve muitos sucessos ao salvar vidas humanas, mas poucos para garantia de vida sadia aos sobreviventes. Ninguém sabe que o céu caiu e quase nem ouço Davi Kopenawa: Tanta destruição nos deixa muito preocupados... Sei apenas que a Terra é mais sólida do que nossa vida e que não morre. Sei também que ela nos faz comer e viver... A constatação que fica é a de Domenico Uhng Hur: Estamos desterrados, com a sombra da morte, e sem modelos pressupostos a seguir. Sim, já é detectável o fim dos nossos mundos, Ailton Krenak, posso ver em cada olhar, em cada esquina, em cada gesto. Precisávamos saber o que diz Maffesoli: A vida só existe porque a morte tem nela seu papel. Melhor quem sabe seria o que diz o filósofo norueguês Arne Næss: A Terra não pertence aos homens. Sim, aqui tudo se parece com aquela nigeriana de Tremearne, o país todo se tornou o Vale do Javari. Como é doloroso amar em tempos de ódio...

 


Funâmbulo na corda bamba... - Imagem da artista, dramaturga e escritora russo-estadunidense Svetlana Boym. - Desperto no meio de uma tempestade onírica como se eu tivesse que reler as lições dos Cadernos de Rilke: viajar por muitas cidades e ver seres e coisas como o voo dos pássaros, as flores desabrochando, as regiões desconhecidas, as noites de amor, ter de acompanhar moribundos e ouvir os ruídos da rua pela janela, até que as lembranças se tornem sangue, olhar e gesto. Já me condenei a ousar previamente cônscio da lapada inexorável que virá depois: aqui se faz, aqui se paga. Sei que não é bem assim, essa a voz do povo; sou responsável por tudo que cometi e traço. Do que aprendi das leituras, às vezes um soco no estômago – o melhor é quando me defronto com o colombiano Jaime Bateman (1940-1983) cantando: Você tem que dançar e você tem que cantar. E não só para a morte, nem cantar só para as derrotas. Você tem que cantar para a vida, porque se você vive baseado na morte, você já está morto. As pessoas que vivem só de memórias estão mortas, a memória sem futuro a única coisa que traz é a tristeza, e a tristeza nunca gera briga, nunca... Há um fiapo de vida pela fresta do que flagro. E isso me basta, disso faço a imensidão do Universo...

 


No seio de Ixchel... - Imagens do artista conceitual argentino León Ferrari (1920-2013). - Entre acordormir sonhadiço, efialtas sobrevêm por entre dandões e quase me sinto esvair pelas espirais da loucura. Só me salvei porque daquela vez ela era Malinche e me contou desde quando menina e era Malintzin que cresceu Doña Marina até ser acusada de traição. Foi condenada e só conseguiu escapar porque era uma feiticeira de Trobriand, e se envultando dacolá pra depois, enfim, tornar-se a incólume deusa lunar Ixchel. Foi quando me chamou de Itzama e nem olvidei porque me levou para a ilha de Dcuzamil, na província de Ecab. Lá eu vi chegarem canoas de peregrinos, enquanto me mostrava manequins manuscritos com meus versos e canções. Entre um atrativo e outro chegou a me dizer que conheceu pessoalmente o lendário violonista e compositor conterrâneo, Normando Marques dos Santos – aquele mesmo professor que se apresentou em 1962, no histórico show bossanovista do Carnegie Hall, em New York – e que muito apreciou os álbuns de Siba – principalmente Avante (2012) e Coruja muda (2019) -, desde que ele fazia parte do Mestre Ambrósio e da Fuloresta do Samba. Não podia ser! E estalou os dedos e ouvi a música rolando no ar. Só tempos depois embalado pelos ritmos foi que me vi só, não estava mais ali. Ao procurá-la dou pra janela a surpresa: levantou a saia e mostrou-me as belas nádegas arredondadas e a sorrir safada de linda. E virou-se mantendo a saia levantada enquanto se tocava sedutoramente... Não sabia o que fazer, apreciava atento seus gemidos e mexidas. Ela saiu correndo, arrodeou o terreiro, adentrou ofegante e me encontrou priápico aceso para envolver-me com um beijo astucioso. Não, ela era humana demais para ser deusa. E mais cavalgava em meu ventre, recitando ao meu ouvido um poema de Cristina Peri Rossi: Nenhuma palavra / nenhum discurso / – nem Freud, nem Martí – / serviu para deter a mão / a arma / do torturador. / Mas quando uma palavra escrita / na margem na página na parede / serve para aliviar a dor de um torturado / a literatura tem sentido. E arreou exaurida sobre meu peito depois das faíscas do gozo extremo. Foi então que esticou o braço, pegou num banco perto e me entregou dois volumes: o livro do Popol-vuh e o códice de Dresden. Já anoitecia quando me disse TÚmiPoema e era María de España. Vê-la assim e em mim, talvez ainda seja possível sonhar mesmo. Até mais ver.

 

A meta fundamental da educação holística é promover uma educação integral, que permita à pessoa conectar-se consigo mesma e com tudo aquilo que a rodeia. Isso inclui o meio social e o meio natural. A vida na cidade, a vida moderna, altamente tecnicizada, afastou cada vez mais a pessoa do meio natural, sendo este um cenário distante, incompreendido e, portanto, não sentido. Perde-se, assim, a noção de que nossa vida depende dos recursos que nos são proporcionados por ecossistemas que não estão na cidade, normalmente muito longe, que são esgotáveis e cuja extração e transporte muitas vezes causam danos. Perdemos também a noção de que, embora os recolhamos diariamente, nossos resíduos, próprios de nossa forma de vida, produzem danos em ecossistemas mais ou menos próximos. Com esse conhecimento, o certo é adotar um comportamento pessoal e coletivo que minimize esses danos e não esgote os recursos para que as gerações futuras de nossa espécie e de outras espécies em geral habitem um planeta limpo e com recursos suficientes para viver. Por isso, a educação holística inclui a educação ambiental ou a educação para a sustentabilidade.

Pensamento do pedagogo e entomologista espanhol Rafael Yus. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.


 


sexta-feira, dezembro 04, 2020

PIERRE MICHON, MARIA DE ARRUDA MÜLLER, SLAVA BOWMAN, ZOFIA KULIK, DULCE MAIA, ORIANA DUARTE & AULO PÉRSIO FLACO


  

TRÍPTICO DQC: JANELANDANTE, RESQUÍCIO DE MEMÓRIAS – Ao som da Phantasy Quartet - Phantasy for Oboe, Violin, Viola and Violoncello, Op. 2 (1932), do compositor, maestro, pianista e violista britânico Benjamin Britten (1913-1976), na interpretação de Gernot Schmalfuß & Mannheimer Streichquartett - O Tico – Tiquinho pros íntimos, Sócrates de batismo - tinha um sonho de menino: farda, quepe e desfile na defesa da pátria e nos passos do irmão mais velho, patenteado da repressão nos idos do golpe de sessenta. Não deu, reprovação de batoré entroncado, virou maquinista de plantão. Amargou desilusão e, no meio do chororô, topou com Xanta – Xantipa de família -, numa estação perdida dessa. Pegou no bico da chaleira fervendo e atrepou-se no gogó da escorreita morenaça, mais espalhafatosa que endoidada, num namoro pras beiras esponsais: É com essa que me ajeito, ora! Juras e papel passado, lá ia ele montado no parque de diversão e embuchando a fogosa, de findar uma fileira de bruguelos. Com o passar do tempo, o que era mar de rosa, foi desbotando e ele se viu no caminho da casa da peste! Pronto, no meio desmantelo: Se essa mulher bebesse o mundo estava frito. Pra sorte dele era uma rainha abstêmia, porém escandalosa arrastadora de uma tuia de bichanos e guenzos, uns trinta, se pouco, de organizar os miados e latidos – inclusive de botar nos trilhos a beca folgada dele, também -, isso afora os buás vinte e quatro horas por dia: Isso é o inferno ao vivo e em cores, lasquei-me! Pois foi, regulou a paciência enquanto tudo procriava e tudo crescia na lei do matriarcado. Ele era só mutismo e olhares dum canto a outro: os bregues gasguitos pra manter casa arrumada, nada de mexer, tudo no lugar. De uma hora para outra acabaram com as ferrovias e ele sem serventia alguma: Fazer o quê? Era do batente para casa e vice-versa, agora só tinha uma horinha de folga que fosse pro interlocutor, seu único amigo: o livro. E ouviu de John Steinbeck: E agora que você não precisa ser perfeito, você pode ser bom. Já de Thomas Carlyle: Com estupidez e boa digestão o homem pode enfrentar muita coisa. Tolerância é paciência concentrada. Do poeta romano Aulo Pérsio Flaco (32-61): Do nada, nada vem; e ao nada, nada pode reverter. Até Rainer Maria Rilke: Amor são duas solidões protegendo-se uma à outra. Ser amado é passado; amar é durar. Aí, noite dessa, chegando em casa ela encarou na lata: Você não serve para nada! Eu? Sim, seu traste! O mundo caiu e não aguentou o baque: teve um piripaque e bateu as botas. Ainda deu pra vê-lo a voar aliviado com a maior cara de anjo!

 


ITINERÁRIO DE SONHOS – Imagem: arte da artista visual búlgara Slava Bowman, ao som de Close to Home, do pianista e compositor estadunidense Lyle Mays (1953-2020). – Logicalguma: pés alados nos galhos do arvoredo perseguem aves canoras. O mundo é dos pardais e nada mais. Sinto que estou quase vivo, quase morto, a vida pelas sobras do que restou da precariedade, sem escapatória, de alfa para ômega, todas embaralhadas no Aleph: o topo da montanha e o abismo, a rotina e o xeque-mate, o paradoxo... A água pegando fogo, a Terra caindo, o céu descendo, a Natureza se esvaindo e o miserável saiu e ficou com a botija trilionária, graças! Um pedinte a menos. O rico ficou e saiu empobrecido pela sovinice, um pobretão a mais entre zilhões. Do outro lado da ribanceira arrivistas falocratas sobre monturos de rancores, ameaças e promessas; e a vulgaridade nauseante, a crueldade da violência, a eloquência do noticiário, quanto absurdo! Na verdade, horrores demais. Ouvi o escritor francês Pierre Michon: A pesada aventura de crescimento terminou, ficamos surpresos que não era eterna... As coisas do passado são tão estonteantes como o espaço e a sua impressão na memória é deficiente como as palavras: (apesar disso) descobri que se lembra. Só queria esquecer e não saber mais nada. Desolado no meu canto, ela chega Hannah Arendt: Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança. Vamos...

 


FIO DA VIDA – Imagem: a arte da performática artista visual polonesa Zofia Kulik, ao som Humoresque, Op .20, de Robert Schumann, na interpretação da pianista russa Daria Rabotkina. – O quarto escuro, a cena era ela, nua e linda, sob o holofote imaginário: Sou Dulce, Dulce Maia (1937-2017): Muitos deles vinham assistir para aprender a torturar. E lá estava eu, uma mulher franzina no meio daqueles homens alucinados, que quase babavam. Hoje, eu ainda vejo a cara dessas pessoas, são lembranças muito fortes. Eu vejo a cara do estuprador. Era uma cara redonda. Era um homem gordo, que me dava choques na vagina e dizia: ‘Você vai parir eletricidade’. Depois disso, me estuprou ali mesmo. Levei muitos murros, pontapés, passei por um corredor polonês. Fiquei um tempão amarrada num banco, com a cabeça solta e levando choques nos dedos dos pés e das mãos. Para aumentar a carga dos choques, eles usavam uma televisão, mudando de canal, ‘telefone’, velas acesas, agulhas e pingos de água no nariz, que é o único trauma que permaneceu até hoje. Em todas as vezes em que eu era pendurada, eu ficava nua, amarrada pelos pés, de cabeça para baixo, enquanto davam choques na minha vagina, boca, língua, olhos, narinas. Tinha um bastão com dois pontinhos que eles punham muito nos seios. E jogavam água para o choque ficar mais forte, além de muita porrada. O estupro foi nos primeiros dias, o que foi terrível para mim. Eu tinha de lutar muito para continuar resistindo. Felizmente, eu consegui. Só que eu não perco a imagem do homem. É uma cena ainda muito presente. Depois do estupro, houve uma pequena trégua, porque eu estava desfalecida. Eles tinham aplicado uma injeção de pentotal, que chamavam de ‘soro da verdade’, e eu estava muito zonza. Eles tiveram muito ódio de mim porque diziam que eu era macho de aguentar. Perguntavam quem era meu professor de ioga, porque, como eu estava aguentando muito a tortura, na cabeça deles eu devia fazer ioga. Me tratavam de ‘puta’, ‘ordinária’. Me tratavam como uma pessoa completamente desumana. Eu também os enfrentei muito. Com certa tranquilidade, eu dizia que eles eram seres anormais, que faziam parte de uma engrenagem podre. Eu me sentia fortalecida com isso, me achava com a moral mais alta... Sou entre aquelas que são filhas de outras filhas da dor. E quase num folego só recitou Conformismo da poeta educadora Maria de Arruda Müller (1898-2003): Ensinar a viver, eis minha sina! / No trabalho mostrar que “trabalho é oração”. / No lar, na escola, na oficina... / Ai! Quantas vezes, sangrando o coração! / Qual Cirineu, meu dever é servir! / Aliviar a cruz, que o próximo carrega, / Lenir dores tantas, tantas súplicas ouvir, / Que de dor, o próprio peito verga! / Contra o destino, às vezes me revolto: / Sentir que a carga pesa, em demasia!... / Sei, porém, que a alma no pecado envolta, / Necessita aceitar, dobrar-se ao jugo; / Se no erro, no mal, no crime comprazia / Precisa ser réu, quem foi verdugo... E chorou ao meu ombro e me disse Omar Khayyam: Seja feliz neste momento. Este momento é a sua vida! E nos abraçamos como se ali escapássemos dos horrores do mundo. Até mais ver.

 

A ARTE DE ORIANA DUARTE

A arte da artista visual Oriana Duarte, que é doutora e mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é bacharel em Desenho Industrial pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e professora do Departamento de Design da UFPE. Veja mais aqui e aqui.

 



quarta-feira, dezembro 04, 2019

RILKE, CHRISTA WOLF, MARTHA LORBER, REGINALDO OLIVEIRA & SUMÉ DE CASCUDO


O MUNDO PARA QUEM VÊ & O NÃO VISTO! – Ao ler os originais desta obra, findei surpreendido. Da primeira à última página, uma interessantíssima viagem. Logo, influenciado, passei dias a meditar: ganhar o mundo! Quem não? Sujeito andejo como sou, sempre me questionei: a vida é outra coisa, muito diferente dessa que me coube e não me basta. Uma vontade medonha a remoer no âmago: abdicar de tudo e me livrar dos grilhões da rotina, do peso das responsabilidades assumidas. Ninguém merece. Cadê coragem? A libertária atitude de jogar tudo para o alto e seguir errático o rumo das ventas na direção do horizonte - como os antigos eremitas, só na cabeça de visionários, avalie. Cada qual, o mundo ao seu modo e jeito. Einstein mesmo preferiu a viagem vital do universo para dentro de si. Outros, com os olhos de Verne, ou do Barão de Münchausen; tantos, feito o quixotesco de Cervantes, do Gulliver de Swift, Walden de Thoreau; muitos outros, como Marco Polo, Andersen, Twain, Stenvenson, ou mesmo On the road de Kerouak. Afinal, a vida é uma viagem. Por isso Quintana dizia que viajar é mudar a roupa da alma. Eu mesmo vou cantarolando aquela da banda Alcano, humildemente. Enfim, a valia do axioma de Pompeu, que foi reiterado por Plutarco, Petrarca e Fernando Pessoa para os Argonautas de Caetano, o poético: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Contudo, nem só de aventura se vive – e quem está falando de aventura? Digo de vida: livrar-se das convenções, não é tão fácil quanto parece. Deixar casa, emprego, família e se atirar aos devires: se pensar duas vezes, ninguém sai do lugar – vai e volta: arrependimentos e culpas. A coragem de pegar a estrada, enfrentar surpresas e fantasmagorias, chuva e insolação, deitar-se pelas calçadas, esquinas ou embaixo de marquises; sujeitar-se ao inopinado: pessoas de bem ou sinistras, locais acolhedores ou hostis, tudo pode acontecer, imprevisível. O surpreendente é quando uma figura hirsuta, ocupando seu espaço na praça, as mãos ao artesanato, vestes comuns dos desapegados. Passantes de soslaios: não sabem que ali está aquele que escolheu o próprio modo de viver, um ser que é, ao seu modo, sua expressão verdadeira: um nômade, seus apetrechos de vagante, sua bicicleta e o cão amigo, nos olhos ruas e caminhos. Aproximar-se, hesitante, puxar uma conversa, coisa e tal, isso e aquilo, curiosidades. É aí que nasce a surpresa: o diálogo surpreende e inesperado. Converge o encontro: quem sabe o que quer e é. Ao final, uma lição: a coragem da liberdade, o aprendizado da vida. É isso. Não ouso dizer mais nada, leiam e verão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] uma mulher que é rebelde só porque afirma a sua vontade [...] As mulheres dos Coríntios parecem-me animaizinhos domésticos cuidadosamente amansados, olham para mim como se eu fosse uma coisa do outro mundo, nós os três, os divertidos da ponta da mesa, atraíamos todos os olhares, todos os olhares invejosos e escandalizados dos convivas e os de Jasão, implorando [...] E ela não facilita nada as coisas a ninguém. Quase diria que brinca com fogo. Só a maneira como anda! Desafiadora, é o termo. A maior parte das mulheres da Cólquida anda assim. Eu até gosto. Mas, por outro lado, também se percebe que as mulheres dos Coríntios se queixam: porque é que as estrangeiras, refugiadas, haviam de poder andar na sua cidade com um porte mais seguro do que elas próprias? Houve sarilhos, esperava-se que eu acalmasse as coisas, Medeia mandou-me passear. [...] Muitas vezes tive de contar como subi à árvore, como agarrei o velo e com ele desci, e de cada vez que a contava mudava um pouco, para corresponder às expectativas dos ouvintes, para ficarem bem assustados e no fim poderem ter uma forte sensação de alívio. A coisa chegou ao ponto de eu próprio já não saber o que se passou realmente naquele bosque, junto do carvalho com a serpente, mas assim como assim já ninguém quer ouvir a história. A noite, à volta da fogueira, cantam os feitos de Jasão matador de dragões. [...] Uma vez Medeia ouviu comigo essas canções, e no fim disse: eles fizeram de cada um de nós aquele que mais lhe convém. De ti fizeram o herói, e de mim a mulher má. E assim conseguiram separar-nos. [...] Eu conheço os homens, acho que posso dizê-lo, conheço as suas estranhas e irreprimíveis necessidades, conheço a sua fantasia desmedida e a sua tendência para tomar por pura realidade as excrescências dessa fantasia, mas aquela mulher devia ter alguma coisa que incendiava as suas cabeças e não lhes saía delas. [...]. Trechos extraídos da obra Medeia vozes (Cotovia, 1996), da escritora, ensaísta e crítica literária alemã Christa Wolf (1929-2011). Veja mais aqui.

SUMÉ
Sumé. Personagem misteriosa, homem branco, de barba e cabelos longos, que, antes do descobrimento, apareceu entre os indígenas, ensinando-lhes o cultivo da terra e regras morais. Com sua ajuda os indígenas plantaram sementes variadas e viraram nascer a mandioca, o milho, o feijão. Dotado de poderes extraordinários, era capaz de abrandar chuvas e secas, dominar as ondas do mar e os animais ferozes. Mas os pajés, invejosos do seu poder, só queriam afastá-lo. Repelido, abandonou a região, caminhando sobre as águas do mar. Transpondo distâncias com uma única passada, Sumé livrava-se das flechas que lhe atiravam, fazendo-as voltar e atingir o inimigo. Sua passagem pelo litoral fluminense deixou relatos de feitos extraordinários. [...]
SUMÉ – Trecho extraído da obra Dicionário do folclore brasileiro (Global, 2001), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), no qual trata sobre o verbete Sumé, referenciando a Zomé que é tido por São Tomé, dando conta de relatos ocorridos em 1549, uma personagem misteriosa para os indígenas, homem branco, surgido antes do descobrimento, que procurava inculcar os índios ensinamentos morais e a arte de cultivar a terra. Repelido por eles escapou de suas flechadas caminhando sobre as águas do mar. Antiga tradição reza que vindo São Tomé à Bahia, onde cultivou a mandioca e as bananas que tomaram seu santo nome e que, ao fugir da perseguição dos silvícolas, foi para as Índias, com enormes passadas, sobre as ondas do mar. Contudo segundo outras fontes Sumé era apenas o grande pajé, sem o menor vestígio alienígena, ou seja, nome de uma entidade da mitologia dos tupis da costa, que teria ensinado aos índios a agricultura: Pa’i, Sumé pypûera’angaba a’e. Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da dançarina, atriz, cantora e modelo estadunidense Martha Lorber (1900-1983), que começou ainda adolescente sua carreira na Broadway, participando do Ziegfeld Follies a partir de 1922, além de ser prestigiada personagem que foi fotografada por Edward Steichen, Nickolas Muray, Arnold Genthe, Alberto Vargas e do escultor Harriet Whitney Frishmuth, entre outros. Veja mais aquiaqui e aqui.

A OBRA DE RAINER MARIA RILKE
Temos que aceitar a nossa existência em toda a sua plenitude possível. Tudo, inclusive o inaudito, deve ficar possível dentro dela. No fundo, só essa coragem nos é exigida: a de sermos corajosos em face do estranho, do maravilhoso e do inexplicável que se nos pode defrontar.
A obra do poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
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ASSIM VEJO O MUNDO, DE REGINALDO OLIVEIRA
Conforme mencionado lá em cima, a obra Assim vejo mundo, do historiador Reginaldo Oliveira, será lançada em breve. O autor já lançou a obra Sabedoria ou mediocridade? Diálogos no reino encantado das águias (Bagaço, 2013). Veja mais aqui.


segunda-feira, julho 30, 2018

RILKE, TAHAR JELLOUN, JOSEPH CORNELL, KO HUNG, NEY MATOGROSSO, JESSIER & DORO


PÉ DO PULE - Imagem: arte do artista estadunidense Joseph Cornell (1903-1972). - Doro acordou com aquela milhar na cabeça, ganhou num sonho. Pegou no bolso o calendário com a pin-up dos sonhos, conferiu o dia e o mês, é hoje, entraria na história. É hoje. Nem se lixava mais com nada, o seu pensamento predominante: é hoje. Isso para quem estava só a pelanca, couro e osso, credores tudo no pé, uma ruma de bronca pra todo lado, nunca mais. Hoje é o dia. Levantou-se, asseou-se como de costume e, apressado, botou a cara na rua. Atordoado, pra onde se virasse, os números perseguiam: a casa da frente, eita! Ao atravessar a rua, quase atropelado de tão envolvido com a sorte: a placa do carro, danou-se! Olhou o relógio, vixe! É hoje. Pegou a conta da luz, o valor. Foi ter no açougue, o peso dos miolos de boi na balança, a milhar; e como nada dava certo, essa podia dar na cabeça. É hoje. Ah, foi ter logo com o cambista. Qual o pé do pule? Era ela, a mesma do sonho, a sua perseguição. É hoje. Tascou no palpite. Pronto, resolvido, é hoje. E saiu descompromissado de tudo. Passou o dia sonhando com os olhos abertos, devaneava toda sorte de ventura. Não mais a um passo da queda, sopesava; Passou a vida a limpo: quantos desdouros, vítima dos remoques e chasqueados, ah, esquecia a tuia de coprólitos deixados nos caminhos já passados, os borborigmos que permeavam seus conflitos e males, nada, agora era outro, tudo já era, e já se via fazendeiro dono de terras, bichos e posses, viajando na maior das jornadas pelas lonjuras dos roteiros mais chamativos das bandas estrangeiras, os sete mares, os quatros cantos do mundo, florestas de não sei de onde, desertos de lá longe, palácios de reis e rainhas, enfrentando perigos em todos os tipos de aventuras contadas para deixar todos de queixo caído com as mais tenebrosas façanhas e diabólicas situações; proprietário prestigiado de um harém com as mais reboculosas, uma para cada dia do ano, e mais tantas opulentas e sedutoras serviçais para as horas vagas; mandando e cagando raio a torto e a direito; cheio das extravagâncias. Imaginava fazendo doidice só pra se mostrar excêntrico, bancando farra, cagando dinheiro, limpando o rabo com nota de cem, aprontando desordens e estripulias nas maiores arruaças, pervertendo a ordem, todo impune pela fortuna, sem remorsos pelas infâmias e torpezas, sabia não mais ter que expiar, a remissão da indigência de sempre, peito cheio, agora dava pra pensar eleito prefeito, deputado, senador e, íntimo das castas do poder, governador, presidente numa ascendente e vitoriosa carreira política, já se dava por tudo e certo. Até que o dia já fraquejando pro império da noite, o relógio marcava: faltavam vinte pras cinco, a hora do resultado estava prestes, é hoje, foi conferir: tiro e queda. Ela inteirinha, dezena, centena e milhar, na cabeça. Disse pra si: pronto, quebrei a banca. Foi lá, vasculhou os bolsos, cadê? Nada, vixe! Cadê o danado do pule. Virou-se, revirou-se, remexeu bolsos e algibeiras, onde tinha se socado o danado, apareça desgraçado. Nada. Levou tempo e nada, enfrentou de cara lisa: acertei, quero meu prêmio. Cadê o pule? Perdi, não acho. Ah, não vale. Lembrou-se: o cambista? Ninguém sabia, lugar mais limpo. Oxe, quero meu prêmio, joguei, acertei, quero o justo no contado, tintim por tintim. Você está doido, é? Traga o pule e a gente paga, na hora. Não adiantou seu arrazoado, ou prova ou nada. Fez de tudo, a sorte fugia entre os dedos. Insistiu, esperneou, chorou, nada. Não era sonho, que pena. Fui engalobado de novo. Alegria de pobre dura pouco, acabou-se o que era doce. Sou um bucho inchado arrodeado de peidos por todos os lados. E tudo voltou ao antes, mais um dia atrás do outro. Era o Doro de sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor, dançarino, ator e diretor Ney Matogrosso: Secos & Molhados, Batuque ao Vivo, Um Brasileiro & Canto em qualquer canto & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Os objetos começam com o mundo; são o mundo. Mas além das coisas da natureza que saem de meios invisíveis para nós, existem outras, formadas pelo homem de acordo com o modelo daquelas que foram encontradas e vistas anteriormente. [...] Deve ter sido uma experiência estranha verificar que as coisas feitas com as próprias mãos eram tão reconhecidas, tão iguais em seu direito de existência, tão reais ao lado daquilo que existia. [...] E agora ter essa experiência – ver como aquilo que se imitava com ardor e ansiosamente, que, em sua perfeição, adquiria a mesma serenidade, a mesma dignidade, se unia às coisas, assim como os mortos se unem aos bem-aventurados: para perdurar – como aquilo se tornou estranho e, não obstante, conservou uma intimidade delicada e melancólica. [...]. Trecho extraído da obra Auguste Rodin (Nova Alexandria, 2003), do poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926). Veja mais aqui.

A VIDA & O BEM VIVER - [...] Pegue três libras de cinábrio e uma libra de mel branco, misture-0s. Seque a mistura ao sol. Asse-a no fogo até poder formar pílulas. Tome dez pílulas do tamanho de uma semente de cânhamo a cada manhã. Dentro de um ano, os cabelos brancos voltarão a ser negros, dentes cariados voltarão a crescer, o corpo tornar-se-á liso e resplandecente. Um velho que tomar esse preparado por um logo período de tempo se tornará jovem. Aquele que o tomar constantemente desfrutará de vida eterna e não morrerá. [...] É também perigoso para as pessoas que amam a vida confiar em suas próprias especialidades. Aqueles que conhecem as técnicas do Clássico da Dama Misteriosa e o Clássico da Dama Comum dirão que apenas a “arte da alcova” conduzirá à salvação. Aqueles que entendam o método dos exercícios espirituais dirão que apenas a absorção da força vital pode prolongar a vida. Aqueles que conhecem o método do alongamento e flexões, dirão que apenas os exercícios físicos podem prevenir a velhice. E aqueles que conhecem as fórmulas das ervas, dirão que apenas a medicina poderá tornar a vida eterna. Eles fracassam, em sua busca do tao porque são muito unilaterais. Pessoas de conhecimento superficial acham que sabem o suficiente quando de fato conhecem apenas um caminho e não percebem que a verdade é daquele que busca incessantemente, mesmo depois de ter conseguido algumas fórmulas. [...]. Trecho extraído da obra Nei p’ien: Estudo da alquimia chinesa (Xangai, 1928), do escritor esotérico e alquimista taoista chinês Ko Hung (Pao-Pi U Tz’u – 283-343).

COMITÊ POVÃOTem político que é feito banana de carboreto, engana com a cor da casca. Com essa enganação torna-se imprestável feito rede de bexiguento. Nunca tarde lembrar que trajetória política é feito carreira de raposa, sinuosa e sujeita a tiro e queda. Para o bom político no entanto, é prego batido e ponta virada. O político é feito papagaio do brejo, já nasce pedindo a palavra e tem discurso cor de arara. Com seu modo simples e fala vinda do céu, sabe microfonar a palavra e provar com voz de cimento que é caboco tutanudo, amarombado, que não tem guerra na alma e nem limão no pensamento. Já o mau político é macio por fora e por dentro é uma lixa doze de pessoa. É aquele olhar xingoso, mãos de visgo de jaca e solto na buraqueira. Em matéria de trabalho só tem bambeira nas pernas. É espremedor de gente, é coice de rifle ruim, tem queda pra desmantelo e discurso cor de viúva. O mau político é feito pombo, quando sobe, borra na cabeça do povo. Mas é como diz o matuto: um dia é da caça, outro é da checa. Por isso contra o mau político, use sua melhor arma: o seu voto! Trecho extraído da obra Política de pé de muro (Bagaço, 2002), do poeta, compositor e intérprete Jessier Quirino. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PALAVRAS DE UM PERSONAGEM CEGO - As histórias que se contam são como lugares. São habitados por aqueles a quem pertenceram em tempos longínquos, não necessariamente por aquilo que alguém pode chamar de espíritos. Uma história é como uma casa, uma velha casa com diversos níveis, diversos aromas, quartos, corredores, portas e janelas, cavas e grutas. Espaços inúteis. As paredes são a memória. Raspe um pouco uma pedra, aproxima uma orelha e ouvirá coisas certamente! O tempo recolhe aquilo que o dia traz aquilo que a noite esparge. Cuida e aprisiona. O testemunho é a pedra. O estado da pedra. Como pedra é uma página, escrita, lida e cancelada. Tudo adere-se nos grãos da terra. Uma história. Uma casa. Um livro. Um deserto. [...]. Extraído do livro Criaturas de areia (L’Ermete, s/d), do escritor e dramaturgo marroquino Tahar Ben Jelloun.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista estadunidense Joseph Cornell (1903-1972).
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Colhendo sonhos nos galhos da vida, Voltando às raízes pra recomeçar do zero de novo, a arte de Vincent Hložník & Luciah Lopez aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...