PÉ DO PULE - Imagem: arte do artista estadunidense Joseph Cornell (1903-1972). - Doro
acordou com aquela milhar na cabeça, ganhou num sonho. Pegou no bolso o
calendário com a pin-up dos sonhos, conferiu o dia e o mês, é hoje, entraria na
história. É hoje. Nem se lixava mais com nada, o seu pensamento predominante: é
hoje. Isso para quem estava só a pelanca, couro e osso, credores tudo no pé,
uma ruma de bronca pra todo lado, nunca mais. Hoje é o dia. Levantou-se,
asseou-se como de costume e, apressado, botou a cara na rua. Atordoado, pra onde
se virasse, os números perseguiam: a casa da frente, eita! Ao atravessar a rua,
quase atropelado de tão envolvido com a sorte: a placa do carro, danou-se!
Olhou o relógio, vixe! É hoje. Pegou a conta da luz, o valor. Foi ter no
açougue, o peso dos miolos de boi na balança, a milhar; e como nada dava certo,
essa podia dar na cabeça. É hoje. Ah, foi ter logo com o cambista. Qual o pé do
pule? Era ela, a mesma do sonho, a sua perseguição. É hoje. Tascou no palpite. Pronto,
resolvido, é hoje. E saiu descompromissado de tudo. Passou o dia sonhando com
os olhos abertos, devaneava toda sorte de ventura. Não mais a um passo da
queda, sopesava; Passou a vida a limpo: quantos desdouros, vítima dos remoques
e chasqueados, ah, esquecia a tuia de coprólitos deixados nos caminhos já
passados, os borborigmos que permeavam seus conflitos e males, nada, agora era
outro, tudo já era, e já se via fazendeiro dono de terras, bichos e posses,
viajando na maior das jornadas pelas lonjuras dos roteiros mais chamativos das
bandas estrangeiras, os sete mares, os quatros cantos do mundo, florestas de
não sei de onde, desertos de lá longe, palácios de reis e rainhas, enfrentando
perigos em todos os tipos de aventuras contadas para deixar todos de queixo caído
com as mais tenebrosas façanhas e diabólicas situações; proprietário prestigiado
de um harém com as mais reboculosas, uma para cada dia do ano, e mais tantas
opulentas e sedutoras serviçais para as horas vagas; mandando e cagando raio a
torto e a direito; cheio das extravagâncias. Imaginava fazendo doidice só pra
se mostrar excêntrico, bancando farra, cagando dinheiro, limpando o rabo com
nota de cem, aprontando desordens e estripulias nas maiores arruaças, pervertendo
a ordem, todo impune pela fortuna, sem remorsos pelas infâmias e torpezas, sabia
não mais ter que expiar, a remissão da indigência de sempre, peito cheio, agora
dava pra pensar eleito prefeito, deputado, senador e, íntimo das castas do
poder, governador, presidente numa ascendente e vitoriosa carreira política, já
se dava por tudo e certo. Até que o dia já fraquejando pro império da noite, o
relógio marcava: faltavam vinte pras cinco, a hora do resultado estava prestes,
é hoje, foi conferir: tiro e queda. Ela inteirinha, dezena, centena e milhar,
na cabeça. Disse pra si: pronto, quebrei a banca. Foi lá, vasculhou os bolsos,
cadê? Nada, vixe! Cadê o danado do pule. Virou-se, revirou-se, remexeu bolsos e
algibeiras, onde tinha se socado o danado, apareça desgraçado. Nada. Levou tempo
e nada, enfrentou de cara lisa: acertei, quero meu prêmio. Cadê o pule? Perdi,
não acho. Ah, não vale. Lembrou-se: o cambista? Ninguém sabia, lugar mais
limpo. Oxe, quero meu prêmio, joguei, acertei, quero o justo no contado, tintim
por tintim. Você está doido, é? Traga o pule e a gente paga, na hora. Não adiantou
seu arrazoado, ou prova ou nada. Fez de tudo, a sorte fugia entre os dedos. Insistiu,
esperneou, chorou, nada. Não era sonho, que pena. Fui engalobado de novo.
Alegria de pobre dura pouco, acabou-se o que era doce. Sou um bucho inchado
arrodeado de peidos por todos os lados. E tudo voltou ao antes, mais um dia
atrás do outro. Era o Doro de sempre. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
segunda-feira, julho 30, 2018
RILKE, TAHAR JELLOUN, JOSEPH CORNELL, KO HUNG, NEY MATOGROSSO, JESSIER & DORO
PÉ DO PULE - Imagem: arte do artista estadunidense Joseph Cornell (1903-1972). - Doro
acordou com aquela milhar na cabeça, ganhou num sonho. Pegou no bolso o
calendário com a pin-up dos sonhos, conferiu o dia e o mês, é hoje, entraria na
história. É hoje. Nem se lixava mais com nada, o seu pensamento predominante: é
hoje. Isso para quem estava só a pelanca, couro e osso, credores tudo no pé,
uma ruma de bronca pra todo lado, nunca mais. Hoje é o dia. Levantou-se,
asseou-se como de costume e, apressado, botou a cara na rua. Atordoado, pra onde
se virasse, os números perseguiam: a casa da frente, eita! Ao atravessar a rua,
quase atropelado de tão envolvido com a sorte: a placa do carro, danou-se!
Olhou o relógio, vixe! É hoje. Pegou a conta da luz, o valor. Foi ter no
açougue, o peso dos miolos de boi na balança, a milhar; e como nada dava certo,
essa podia dar na cabeça. É hoje. Ah, foi ter logo com o cambista. Qual o pé do
pule? Era ela, a mesma do sonho, a sua perseguição. É hoje. Tascou no palpite. Pronto,
resolvido, é hoje. E saiu descompromissado de tudo. Passou o dia sonhando com
os olhos abertos, devaneava toda sorte de ventura. Não mais a um passo da
queda, sopesava; Passou a vida a limpo: quantos desdouros, vítima dos remoques
e chasqueados, ah, esquecia a tuia de coprólitos deixados nos caminhos já
passados, os borborigmos que permeavam seus conflitos e males, nada, agora era
outro, tudo já era, e já se via fazendeiro dono de terras, bichos e posses,
viajando na maior das jornadas pelas lonjuras dos roteiros mais chamativos das
bandas estrangeiras, os sete mares, os quatros cantos do mundo, florestas de
não sei de onde, desertos de lá longe, palácios de reis e rainhas, enfrentando
perigos em todos os tipos de aventuras contadas para deixar todos de queixo caído
com as mais tenebrosas façanhas e diabólicas situações; proprietário prestigiado
de um harém com as mais reboculosas, uma para cada dia do ano, e mais tantas
opulentas e sedutoras serviçais para as horas vagas; mandando e cagando raio a
torto e a direito; cheio das extravagâncias. Imaginava fazendo doidice só pra
se mostrar excêntrico, bancando farra, cagando dinheiro, limpando o rabo com
nota de cem, aprontando desordens e estripulias nas maiores arruaças, pervertendo
a ordem, todo impune pela fortuna, sem remorsos pelas infâmias e torpezas, sabia
não mais ter que expiar, a remissão da indigência de sempre, peito cheio, agora
dava pra pensar eleito prefeito, deputado, senador e, íntimo das castas do
poder, governador, presidente numa ascendente e vitoriosa carreira política, já
se dava por tudo e certo. Até que o dia já fraquejando pro império da noite, o
relógio marcava: faltavam vinte pras cinco, a hora do resultado estava prestes,
é hoje, foi conferir: tiro e queda. Ela inteirinha, dezena, centena e milhar,
na cabeça. Disse pra si: pronto, quebrei a banca. Foi lá, vasculhou os bolsos,
cadê? Nada, vixe! Cadê o danado do pule. Virou-se, revirou-se, remexeu bolsos e
algibeiras, onde tinha se socado o danado, apareça desgraçado. Nada. Levou tempo
e nada, enfrentou de cara lisa: acertei, quero meu prêmio. Cadê o pule? Perdi,
não acho. Ah, não vale. Lembrou-se: o cambista? Ninguém sabia, lugar mais
limpo. Oxe, quero meu prêmio, joguei, acertei, quero o justo no contado, tintim
por tintim. Você está doido, é? Traga o pule e a gente paga, na hora. Não adiantou
seu arrazoado, ou prova ou nada. Fez de tudo, a sorte fugia entre os dedos. Insistiu,
esperneou, chorou, nada. Não era sonho, que pena. Fui engalobado de novo.
Alegria de pobre dura pouco, acabou-se o que era doce. Sou um bucho inchado
arrodeado de peidos por todos os lados. E tudo voltou ao antes, mais um dia
atrás do outro. Era o Doro de sempre. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.sábado, setembro 03, 2011
ASSIA DJEBAR, KO HUNG, JONATHAN LITTELL, RASHID BOUDJEDRA, A MULHER, A REPÚBLICA E O SUFRÁGIO NO BRASIL
A arte da pintora neoclássica suíça Angelica
Kauffman (Maria Anna Angelika Kauffmann – 1741-1807).
Veja mais abaixo.
CANÇÃO DO EXÍLIO DA MINHA TERRA – Minha terra não tem palmeiras, só tem canavial. Nosso
céu tem mais fumaça, nossas várzeas, um pantanal. O progresso deu-lhe o preço,
a fome a miserar. As aves que aqui gorjeiam ouvem tiros a zoar. Em cismar
sozinho à noite, um prazer encontro cá: minha terra não tem terra, somente o
Sol a brilhar. Não fui eu não fui quem o fogo acendi, quem acendeu o fogo está
longe daqui. Não permita deus que eu morra pensando em seus primores, minha
terra não tem ouro, também não tem amores. Minha terra não tem mais palmeira,
nem se canta um sabiá, nossas matas só têm monstros que nem sabem caçoar. Em
cismar sozinho, à noite, inda pensa em nela está, pois sabendo que sozinho inda
posso arredar. Deus me livre mangará! Deus me livre de voltar! © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.
A pintora Angelica Kauffman foi fundadora da Academia Real Inglesa (1769) e teve
uma carreira de sucesso. Casou-se com um aventureiro sociopata que se passava
por conde Frederik de Horn, um impostor de quem se separou em 1768, só se
casando pela segunda vez, em 1781, depois da morte dele.
DITOS & DESDITOS - Quando o
amor é feito com prazer, com verdadeiro prazer, a memória desperta. Viver
sozinho me permite um tipo muito especial de exílio.
Pensamento da escritora argelina Assia Djebar (Fatema Zohra Imalayen – 1936-2015), personalidade cultural do
Maghreb e defensora da emancipação feminina.
ALGUÉM FALOU: Quando você olha com muita atenção nos olhos de alguém, você é obrigado
a olhar para si mesmo. O racista é aquele que pensa que tudo o que é muito
diferente dele ameaça a sua tranquilidade. A luta contra o racismo começa com
um trabalho sobre linguagem.
Pensamento do escritor esotérico e alquimista taoista
chinês Ko Hung (Pao-Pi U Tz’u –
283-343). Veja mais aqui.
RAÇA PURA
- Somos súditos da natureza, nem em tudo
dependemos dela e em muito de nós mesmos. A natureza dá-nos a vida. Nós vivemos
prolongando-a, abreviando-a ou melhorando-a a nosso juízo. Trecho
extraído da obra Raça pura: uma história
da eugenia no Brasil e no mundo (Contexto, 2007), da historiadora e
professora Pietra Diwan, tratando
sobre a busca da perfeição corporal para tornar pessoas cortadas, costuradas,
espetadas por agulhas, queimadas por raios laser, besuntadas e massageadas com
cremes, para a construção de "super-homem" e perseguir uma suposta
perfeição que já levou diversas nações a atitudes extremadas, abrindo a
"caixa preta" da eugenia e desatando os nós da rede de relações que
compõe a empreitada, seus adeptos, incentivadores e financiadores.
AS BENEVOLENTES - [...] A
necessidade, já os gregos o sabiam, é uma deusa não só cega mas também cruel. [...] Olhei pela janela e vi como que um torso
humano poisado entre os destroços: um soldado alemão, com as duas pernas
arrancadas pela explosão, ria a bandeiras despregadas. Eu olhava e ele não
parava de rir no meio de uma poça de sangue que alastrava pelo entulho. Trechos
extraídos da obra Les bienveillantes
(Companhia das Letras, 2007), do escritor estadunidense Jonathan Littell.
OS CORVOS – Nas
ruas de Argel / Os corvos têm pinta de paraquedistas / Minhas armas pegajosas /
Vomitam sobre as paredes brancas. / O Qasba / sangue amarelo / Nos jardins do
meu bairro / Almond continua o ódio / O céu está cheio de névoa sórdida / E tem
o rosto de um carrasco / Nas vielas de Constantine / As mulheres andam rápido /
E suportam nas orelhas / Eletrodos cinzas. Poema do escritor e dramaturgo
argelino Rashid Boudjedra.
MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA
Imagem: Acervo ArtLAM . O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...
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