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segunda-feira, julho 30, 2018

RILKE, TAHAR JELLOUN, JOSEPH CORNELL, KO HUNG, NEY MATOGROSSO, JESSIER & DORO


PÉ DO PULE - Imagem: arte do artista estadunidense Joseph Cornell (1903-1972). - Doro acordou com aquela milhar na cabeça, ganhou num sonho. Pegou no bolso o calendário com a pin-up dos sonhos, conferiu o dia e o mês, é hoje, entraria na história. É hoje. Nem se lixava mais com nada, o seu pensamento predominante: é hoje. Isso para quem estava só a pelanca, couro e osso, credores tudo no pé, uma ruma de bronca pra todo lado, nunca mais. Hoje é o dia. Levantou-se, asseou-se como de costume e, apressado, botou a cara na rua. Atordoado, pra onde se virasse, os números perseguiam: a casa da frente, eita! Ao atravessar a rua, quase atropelado de tão envolvido com a sorte: a placa do carro, danou-se! Olhou o relógio, vixe! É hoje. Pegou a conta da luz, o valor. Foi ter no açougue, o peso dos miolos de boi na balança, a milhar; e como nada dava certo, essa podia dar na cabeça. É hoje. Ah, foi ter logo com o cambista. Qual o pé do pule? Era ela, a mesma do sonho, a sua perseguição. É hoje. Tascou no palpite. Pronto, resolvido, é hoje. E saiu descompromissado de tudo. Passou o dia sonhando com os olhos abertos, devaneava toda sorte de ventura. Não mais a um passo da queda, sopesava; Passou a vida a limpo: quantos desdouros, vítima dos remoques e chasqueados, ah, esquecia a tuia de coprólitos deixados nos caminhos já passados, os borborigmos que permeavam seus conflitos e males, nada, agora era outro, tudo já era, e já se via fazendeiro dono de terras, bichos e posses, viajando na maior das jornadas pelas lonjuras dos roteiros mais chamativos das bandas estrangeiras, os sete mares, os quatros cantos do mundo, florestas de não sei de onde, desertos de lá longe, palácios de reis e rainhas, enfrentando perigos em todos os tipos de aventuras contadas para deixar todos de queixo caído com as mais tenebrosas façanhas e diabólicas situações; proprietário prestigiado de um harém com as mais reboculosas, uma para cada dia do ano, e mais tantas opulentas e sedutoras serviçais para as horas vagas; mandando e cagando raio a torto e a direito; cheio das extravagâncias. Imaginava fazendo doidice só pra se mostrar excêntrico, bancando farra, cagando dinheiro, limpando o rabo com nota de cem, aprontando desordens e estripulias nas maiores arruaças, pervertendo a ordem, todo impune pela fortuna, sem remorsos pelas infâmias e torpezas, sabia não mais ter que expiar, a remissão da indigência de sempre, peito cheio, agora dava pra pensar eleito prefeito, deputado, senador e, íntimo das castas do poder, governador, presidente numa ascendente e vitoriosa carreira política, já se dava por tudo e certo. Até que o dia já fraquejando pro império da noite, o relógio marcava: faltavam vinte pras cinco, a hora do resultado estava prestes, é hoje, foi conferir: tiro e queda. Ela inteirinha, dezena, centena e milhar, na cabeça. Disse pra si: pronto, quebrei a banca. Foi lá, vasculhou os bolsos, cadê? Nada, vixe! Cadê o danado do pule. Virou-se, revirou-se, remexeu bolsos e algibeiras, onde tinha se socado o danado, apareça desgraçado. Nada. Levou tempo e nada, enfrentou de cara lisa: acertei, quero meu prêmio. Cadê o pule? Perdi, não acho. Ah, não vale. Lembrou-se: o cambista? Ninguém sabia, lugar mais limpo. Oxe, quero meu prêmio, joguei, acertei, quero o justo no contado, tintim por tintim. Você está doido, é? Traga o pule e a gente paga, na hora. Não adiantou seu arrazoado, ou prova ou nada. Fez de tudo, a sorte fugia entre os dedos. Insistiu, esperneou, chorou, nada. Não era sonho, que pena. Fui engalobado de novo. Alegria de pobre dura pouco, acabou-se o que era doce. Sou um bucho inchado arrodeado de peidos por todos os lados. E tudo voltou ao antes, mais um dia atrás do outro. Era o Doro de sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor, dançarino, ator e diretor Ney Matogrosso: Secos & Molhados, Batuque ao Vivo, Um Brasileiro & Canto em qualquer canto & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Os objetos começam com o mundo; são o mundo. Mas além das coisas da natureza que saem de meios invisíveis para nós, existem outras, formadas pelo homem de acordo com o modelo daquelas que foram encontradas e vistas anteriormente. [...] Deve ter sido uma experiência estranha verificar que as coisas feitas com as próprias mãos eram tão reconhecidas, tão iguais em seu direito de existência, tão reais ao lado daquilo que existia. [...] E agora ter essa experiência – ver como aquilo que se imitava com ardor e ansiosamente, que, em sua perfeição, adquiria a mesma serenidade, a mesma dignidade, se unia às coisas, assim como os mortos se unem aos bem-aventurados: para perdurar – como aquilo se tornou estranho e, não obstante, conservou uma intimidade delicada e melancólica. [...]. Trecho extraído da obra Auguste Rodin (Nova Alexandria, 2003), do poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926). Veja mais aqui.

A VIDA & O BEM VIVER - [...] Pegue três libras de cinábrio e uma libra de mel branco, misture-0s. Seque a mistura ao sol. Asse-a no fogo até poder formar pílulas. Tome dez pílulas do tamanho de uma semente de cânhamo a cada manhã. Dentro de um ano, os cabelos brancos voltarão a ser negros, dentes cariados voltarão a crescer, o corpo tornar-se-á liso e resplandecente. Um velho que tomar esse preparado por um logo período de tempo se tornará jovem. Aquele que o tomar constantemente desfrutará de vida eterna e não morrerá. [...] É também perigoso para as pessoas que amam a vida confiar em suas próprias especialidades. Aqueles que conhecem as técnicas do Clássico da Dama Misteriosa e o Clássico da Dama Comum dirão que apenas a “arte da alcova” conduzirá à salvação. Aqueles que entendam o método dos exercícios espirituais dirão que apenas a absorção da força vital pode prolongar a vida. Aqueles que conhecem o método do alongamento e flexões, dirão que apenas os exercícios físicos podem prevenir a velhice. E aqueles que conhecem as fórmulas das ervas, dirão que apenas a medicina poderá tornar a vida eterna. Eles fracassam, em sua busca do tao porque são muito unilaterais. Pessoas de conhecimento superficial acham que sabem o suficiente quando de fato conhecem apenas um caminho e não percebem que a verdade é daquele que busca incessantemente, mesmo depois de ter conseguido algumas fórmulas. [...]. Trecho extraído da obra Nei p’ien: Estudo da alquimia chinesa (Xangai, 1928), do escritor esotérico e alquimista taoista chinês Ko Hung (Pao-Pi U Tz’u – 283-343).

COMITÊ POVÃO – Tem político que é feito banana de carboreto, engana com a cor da casca. Com essa enganação torna-se imprestável feito rede de bexiguento. Nunca tarde lembrar que trajetória política é feito carreira de raposa, sinuosa e sujeita a tiro e queda. Para o bom político no entanto, é prego batido e ponta virada. O político é feito papagaio do brejo, já nasce pedindo a palavra e tem discurso cor de arara. Com seu modo simples e fala vinda do céu, sabe microfonar a palavra e provar com voz de cimento que é caboco tutanudo, amarombado, que não tem guerra na alma e nem limão no pensamento. Já o mau político é macio por fora e por dentro é uma lixa doze de pessoa. É aquele olhar xingoso, mãos de visgo de jaca e solto na buraqueira. Em matéria de trabalho só tem bambeira nas pernas. É espremedor de gente, é coice de rifle ruim, tem queda pra desmantelo e discurso cor de viúva. O mau político é feito pombo, quando sobe, borra na cabeça do povo. Mas é como diz o matuto: um dia é da caça, outro é da checa. Por isso contra o mau político, use sua melhor arma: o seu voto! Trecho extraído da obra Política de pé de muro (Bagaço, 2002), do poeta, compositor e intérprete Jessier Quirino. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PALAVRAS DE UM PERSONAGEM CEGO - As histórias que se contam são como lugares. São habitados por aqueles a quem pertenceram em tempos longínquos, não necessariamente por aquilo que alguém pode chamar de espíritos. Uma história é como uma casa, uma velha casa com diversos níveis, diversos aromas, quartos, corredores, portas e janelas, cavas e grutas. Espaços inúteis. As paredes são a memória. Raspe um pouco uma pedra, aproxima uma orelha e ouvirá coisas certamente! O tempo recolhe aquilo que o dia traz aquilo que a noite esparge. Cuida e aprisiona. O testemunho é a pedra. O estado da pedra. Como pedra é uma página, escrita, lida e cancelada. Tudo adere-se nos grãos da terra. Uma história. Uma casa. Um livro. Um deserto. [...]. Extraído do livro Criaturas de areia (L’Ermete, s/d), do escritor e dramaturgo marroquino Tahar Ben Jelloun.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista estadunidense Joseph Cornell (1903-1972).
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Neuroeducação aqui & aqui muito mais na Agenda aqui.
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Colhendo sonhos nos galhos da vida, Voltando às raízes pra recomeçar do zero de novo, a arte de Vincent Hložník & Luciah Lopez aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

quinta-feira, junho 21, 2018

DIDI-HUBERMAN, PROUST, JOYCE, BOURDIEU, JESSIER, TEIXEIRA LOPES, PHILIPH DVORAK, ALFARRÁBIOS & POESIA ABSOLUTA


ESCOLHA DAS MÃOS: O QUE VALE É VIVER! – Imagem: arte do pintor, desenhista e fotógrafo estadunidense Philiph Dvorak. - Já passei por debaixo da ponte de muitas broncas e, vez ou outra, depois de pelejar tanto, umazinha lá, no bambo, lograr êxito ao acertar na caçapa. Não é nada demais, uma vez lá que seja, acertar na mosca: tum! Também sou filho de Deus, né? Porquanto, nunca reclamei da sorte, assim mesmo sempre me achei privilegiado pelo que fiz e não tenho. Nunca usei das mãos pra brigar na marra, ou arrancar pra possuir, no máximo a ler as linhas da palma, porque sempre soube uma para alcançar o que se quer e, outra, para zis coisas, afora as duas, em concha, punho cerrado, expostas. Se uma abre caminho; a outra, arma o bote ou semeia e colhe. E as duas, pedido ou entrega, sejam destros ou canhotos, tudo do nada pode brotar inventando o que não há, reinventado a si e ao redor. Tanto faz ficar ou seguir, ir ou parar, a ocasião faz a hora de dormir ou acordar, senão sigo na minha: devagar e sempre. Ao livre arbítrio, quantas escolhas a todo átimo por cara ou coroa, quem não no lá ou loa, ímpar ou par, e acertar o negócio da China ou gorar a morte da bezerra, sujeito ao escalpelo ou covarde isento de gafes escondido pelas beiradas, seguindo retardatários pra se esboroar ao sacrossanto, ou rasgar o glossário do interdito pra saborear o limiar do pecado. Sempre soube quem foi pra voltar, quem vem pra desistir: enlaces e desencontros, erros e acertos, adesões e repulsões, guisado ou frito, subir ou descer, em pé ou deitado, tanto pelo insosso certo previsto, como pelo sedutor desconhecido misterioso, nunca se sabe. Qual é, entre todas e nenhuma, ou uma ou outra, e se passei batido e nem vi a bússola entre as agruras do céu e as delícias do inferno, sorri soprando o relado da pele no reboco dos muros com suas sombras a desfazer de sonhos por ocas desilusões ou vazias vicissitudes. Assim são as escolhas e sou quem não sabe delas as consequências, nem preciso, vivo o momento no sabor do imprevisível. A vida não tem ver de novo, vale a precisão do inesquecível, a memória acendendo a libido, cada vez única, de outra não se repete, revive sem saber aonde vai dar. Não há melhor que isso, nada de repeteco, coisas de parar, retroceder e consertar o que passou, nada disso, aconteceu e foi, já era. Só fica a vivência, o experienciado inupto, singular, da gente saber o que voga, se isso ou aquilo, distinguir depois da curva ou atrás do monte, ninguém sabe, nem adianta ficar matutando se tivesse ido pro outro lado ou se tivesse tempo de pular fora antes do acontecido. Nada disso. E tudo isso, ora. Tem até quem não sabe que escolheu e fala dos outros, como se incólume da desgraceira. As coisas vão pelo tino, assim como pra quem gosta de guerra, sou pela paz e voo de beija-flor que não sobrevive ao olhar, recolhendo a música das pedras e o ensurdecedor silêncio mortuário que vem das ruas da ancestralidade milenar. Deu ou não deu, não há pra chorar, só recomeçar, refazer-se, revelar-se. Se me perdi dos passos, não é nada, voluntário vou com o coração na mão, pulsando a fazer o que posso, de novo e resiliente, porque pra quem errou demais da conta é só aprender a lição, apagar o passado e sorrir esquecido de ontem se quiser ser feliz, senão nunca mais, pra nunca ser tarde de seguir de mãos dadas, depois do celebrado e mútuo aperto de mãos nos abraços de vida. O que vale é viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música
da cantora, compositora e instrumentista Joyce: Visions of dawn, Revendo amigos, Aquarius & Ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] se a unidade doméstica é um dos lugares em, que a dominação masculina se manifesta de maneira mais indiscutível (e não só através do recurso à violência física), o princípio de perpetuação das relações de força materiais e simbólicas que aí se exercem se coloca essencialmente fora desta unidade, em instancias como a Igreja, a Escola ou o Estado e em suas ações propriamente políticas, declaradas ou escondidas, oficiais ou oficiosas (basta, para nos convencermos disto, observar, na realidade imediata, as reações e as resistências ao projeto de contrato de união social). [...]. Trecho extraído da obra A dominação masculina (Bertrand Brasil, 2002), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), que em outra publicação, A escola conservadora: as desigualdades frente a escola e à cultura (Vozes, 2003), assinala que: [...] Além de permitir à elite se justificar de ser o que é, a ideologia do dom, chave do sistema escolar e do sistema social, contribui para encerrar os membros das classes desfavorecidas no destino que a sociedade lhes assinala, levando-os a perceberem como inaptidões naturais o que não é senão efeito de uma condição inferior, e persuadindo-os de que eles devem o seu destino social (cada vez mais ligado ao seu destino escolar) à sua natureza individual e à sua falta de dom. [...]. Veja mais aqui.

TEMPO ATUAL – [...] O apocalipse continua sua marcha. Nosso atual “mal-estar na cultura” caminha nesse sentido, ao que tudo indica, e é assim que, com frequência, o experimentamos. Mas uma coisa é designar a máquina totalitária, outra coisa é lhe atribuir tão rapidamente uma vitória definitiva e sem partilha. Assujeitou-se o mundo, assim, totalmente como o sonharam - o projetam, o programam e querem no-lo impor - nossos atuais “conselheiros pérfidos”? Postulá-lo é, justamente, dar crédito ao que sua máquina quer nos fazer crer. É ver somente a noite escura ou a ofuscante luz dos projetores. É agir como vencidos: é estarmos convencidos de que a máquina cumpre seu trabalho sem resto nem resistência. É não ver mais nada [“C’est ne voir que du tout”, é ver “apenas o todo/o tudo”, ao contrário do “apesar de tudo”.]. É, portanto, não ver o espaço - seja ele intersticial, intermitente, nômade, situado no improvável - das aberturas, dos possíveis, dos lampejos, dos apesar de tudo [...]. Trecho extraído da obra Sobrevivência dos vagalumes (EdUFMG, 2011), do filósofo, historiador, crítico de arte e professor francês Georges Didi-Huberman, que em outra obra A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg (Contraponto, 2013), expressa que: [...] Eis o que seria necessário fazer face ao esplendor e ao caos do mundo: enquadrar – isolar, para melhor o observar como que por dentro – cada fenômeno fecundo. E, para isso, seria importante também pegar no lápis, na pena e no pincel para preencher cadernos e folhas de desenho, que constituiriam ainda testemunhos dessa precisão poética que Goethe demonstra perante a diversidade do mundo sensível [...]. Veja mais aqui.

NOS CAMINHOS DE SWAN - [...] fazer penetrar a imagem de Odette num mundo de sonhos ao qual até então ela não tivera acesso e no qual ela impregnou-se de nobreza. E, ao passo que a visão puramente carnal que tivera daquela mulher enfraquecia seu amor, essas dúvidas foram dissipadas e esse amor assegurado quando teve por base os dados de uma estética exata; sem contar que o beijo e a posse, que lhe pareciam naturais e medíocres se concedidos por uma carne arruinada, vindo coroar a adoração de uma peça de museu, afiguravam-se-lhe sobrenaturais e deliciosos [...]. Trecho da obra Nos caminhos de Swan (Abril, 1979), do escritor francês Marcel Proust (1871 - 1922). Veja mais aqui e aqui.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS ESQUERDOS HUMANOS – O cabôco pode ter todo defeito do mundo: / Ser assoprador de velas antes do parabéns / Aborteiro do amor / Cacundeiro de político / Pode ser desmancha-samba / Dizedor de palavrão. / Pode ter vício, desvio: / Ser tomador de cachaça / Putanheiro, maconheiro / Vivaldino, fanfarrão. / Ter tido uma desventura: Ser corno dum mulherão. / E também ser diferente: um domador de serpente / Mais pra lá do que pra cá, peneirinha, chibateiro. / Apoucado de tamanho: / Metade de Nelson Ned / Ou mesmo um caga-baixinho. / Mulher pode ser: / Megera, concordante, oferecida / Moita-crespa ao deus-dará / Ser tabaco-militar, das que só pega soldado. / O cabôco ser machista, moralista, de direita… / Não interessa: / Têm todo o esquerdo do mundo / De ser tratado dentro do vão dos direitos. / Pois o lado direito de quem olha / É o lado perfeito e benfazejo / Do esquerdo e sensível coração. Extraído da obra Berro Novo (Bagaço, 2009), do poeta, compositor e intérprete Jessier Quirino. Veja mais aqui.

VIVA FANZINE
Foi lançado no último dia 16/06, no Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, em Niterói, o Fanzine Coletivo Alfarrábios VIII D'Além MAR!, com participação especial de Victor H. Rosa & mais: Adriana Mayrinck, Andreia Evangelista, Cláudia Lí, Jammy Said, João Ayres, Jordão Pablo de Pão, José Antonio C e Silva, José Glauco Ribeiro Tostes, Marco Valença, María Angélica Carter Morales, Mônica Firma Maciel, Spírito Santo, Tchello d'Barros, Thina Curtis & muito mais! Produção: Armazém de Quinquilharias e Utopias Brasil. PS: Alfarrábios não tem dono, não tem liderança, não visa lucro. As edições são a preço de custo e o valor de venda se destina a reposição do investimento, propiciando a auto sustentabilidade.
A Poesia Absoluta aqui & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor português Teixeira Lopes (1866-1942)
Veja mais aqui e aqui.
&
Em cada esquina a vida passa, Era secular de Charles Taylor, A educação estética de Friedrich Schiller, o cinema de Lúcia Murat & Luciana Rigueira, a arte de Benjamin Cassiano & Sarau Poesia Revista aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.


sábado, janeiro 06, 2018

RUBEM BRAGA, HARVEY, ERIK SATIE, JESSIER, PENÉLOPE WHITE, CHOUINARD, BOSCH, PEDRO ILDO & JEITINHO BRASILEIRO

QUEBRAR A CASCA & VIVER - Imagem: O ovo, do artista plástico português Pedro Ildo. - Assim sou como aquele ou aquela que passa rua acima, estrada abaixo, sem nome nem endereço sabidos, sem rótulos nem tarjas, apesar das diferentes íris e digitais, semelhantes na essência, como posso querer ser melhor ou ter o privilégio da distinção se sou tal qualquer um, da mesma natureza, passível das mesmas emoções e anseios, indo e vindo, cada qual, razções e motivos. Quando vou ou venho, muros separam vizinhança nas ruas e o confinamento das grades de ferro, segurança neurótica, a ameaça dos incômodos causados pelo preço imposto da violência. Nas ruas uma paz armada até os dentes pelas fronteiras, esquinas, cada qual cuide de si, a polícia e a multidão, uma repressão invisível em nome da ordem estabelecida – uma ordem suicida, diga-se de passagem, que incentiva a desobediência civil desconhecida por todos e até justa, e a desordem pelo caos da disfunção das leis entre horrores de perdas e vinganças sanguinárias. Uma paz forjada no acinte da arma escondida disposta ao disparo, enquanto o Estado não cumpre a sua parte – nunca cumpriu, pelo contrário, promove em todo momento a violência institucional por seus suntuosos gabinetes nos crime de todas as esferas governamentais, enquanto gestores e autoridades desfrutam do banquete a tripudiar sobre a humilhação de um povo que não sabe de si nem de ninguém, apenas a coação da carteirada no monopólio dos interesses de uns sobre os outros, fatiando a bel prazer as provisões entre os seus e sabidos, em detrimento da miséria de todos. Ah, os governantes não sabem, nunca souberam, hipnotizados pelo poder, cegos pela ambição. As autoridades nunca souberam o preço do abuso do poder. E se espalham – e como! - prepotentes, indestrutíveis, agora e sempre – um sempre de décadas, até, nunca perene. Nunca será tarde, pode ser até amanhã de manhã, ou depois de amanhã, ano que vem, quem sabe, a qualquer momento. Assim sou como os que estão sob o mando, preteridos, esperançados, mesmo que inconsciente mutuamente esperançosos, pois sei que sou como todos, pela mesma essência divina que permeia as águas, os minerais, os vegetais, o magnetismo da Terra, a refulgente emanação solar, o movimento do universo e o trabalho maravilhoso da Natureza. De minha parte para todos, a autopercepção no espectro interpessoal, seja azul natural de um ajudante zeloso, ou vermelho intenso de um realizador decisivo, ou verde claro do pensador lógico, ou o que seja nos matizes comportamentais humanos, em consonância com o plano original das coisas: do Sopro de Vida, a força misteriosa da semente enterrada no chão, que quebra a casca e brota feito o ovo que deu vida para passar da lagarta pra crisálida, até a borboleta pro pó da Terra. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor francês Erik Satie (1866-1925): The Essencial Colection e Gymnopédies & Gnossiennes; a cantora lírica inglesa Penélope White: Ária –Bachianinha nº 5 Villa-Lobos, Composição de Diego Carneiro de Oliveira & com Ivan Pires, Concertos particulares & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que há de notável nas entidades vivas é a maneira como captam fluxos difusos de energia ou de informação e os moldam em formas complexas mas bem organizadas [...]. Trecho extraído da obra Espaços de esperança (Loyola, 2009), do professor e geógrafo britânico marxista David Harvey. Veja mais aqui.

JEITINHO BRASILEIRO - [...] Ser esperto e gostar de “dar um jeitinho” tornou-se, sem dúvida, um traço do caráter do brasileiro. Porém, em tempos passados. Era um comportamento menos freqüente e abrangente, e com menor grau de agressividade e perifulosidade. Às vezes costumava até revestir-se de certa ingeniodade ou pureza de propósito. Além do que constitui manifestação de duas habilidades também próprias do nosso povo: inteligência e criatividade. Estas duas aptidões são voltdas para resolver problemas. E, muitas vezes, resolver pequenos problemas pessoais foi chamado de “dar um jeitinho”. [...] Poderimos mesmo comparar a evolução negatiza da esperteza com a evolução do furto comum, de pequenas conseqüências, para o assalto agressivo, violento e que resulta em grandes perdas materiais e traumas psicológicos. [...] As atitudes da esperteza foram propagando-se e agravando-se na medida da progressividade da crise moral, da deterioração dos costumes, da permanência da inflação alta que favorece espertezas de diversas formas, da proliferação da corrupção nos órgãos públicos. Na medida em que os membros do poder executivo passaram a não ter mais escrúpulos em dar maus exemplos para a sociedade; os políticos e os poderes legislativos também cometem seus atos de espertezas. Enfim, na medida em que o poder judiciário se mostra lento e ineficiente, colaborando com a impunidade. Sem contar o fato de que nossas lenais penais são brandas. Com tal degradação do ambiente, significativa parcela da população e das organizações passaram a adotar a filosofia do “já que é assim, deixa eu defender o meu”, recorrendo à esperteza para alcançar seus objetivos particulares, sem levar em conta o prejuízo de terceiros, a moral pública social, o bem comum, a situação do país. [...]. Trecho extraído da obra Cidadania: o remédio para as doenças culturais brasileiras (Summus,  1992), do executivo, conferencista e consultor Ênio Resende. Veja mais aqui.

GERAÇÃO DO AI-5 – [...] Quando fracassou o crime do Riocentro ela estava com pouco menos de 13 anos; poderia muito bem ter ido lá, naquela arapuca sinistra, destinada a sacrificar sobretudo jovens e artistas. Amigos seus foram. Mas a geração do AI-5 parece ter uma secreta força. É certo que esses jovens começaram a amar quando já havia a pílula, e a gravidez deixou de ser uma doença venérea quase inevitável, e os antibióticos já afastavam os fantasmas antigos da tuberculose, que matava os poetas, e da sífilis, que os enlouquecia. Esses jovens falam dos esportes do céu, da terra e do mar. Mergulham, voam, esquiam, amam a floresta e as praias desertas. É certo que se aventuram um pouco pelas tentações e modas do mundo: inclusive drogas, é de jovens fazer tolices. Mas reagem. Surge-lhes de súbito pela frente o fantasma da Aids. Eles o superam, porque não vivem ao léu. Sinto nessa menina que vem me entrevistar e em alguns companheiros seus um fundo sadio de amor ao trabalho, ao estudo e à justiça social; querem saber como este mundo foi e por que é assim, por que há tanta gente rica e tantos miseráveis, tanta roubalheira e tantos fingimentos. Do fundo da minha descrença eu encontro uma secreta, desesperada esperança: gente assim e só gente assim pode criar dias mais limpos e racionais para o Brasil. Que Deus proteja essa geração do maldito AI-5. Extraído da obra As boas coisas da vida (Record, 2010), do escritor Rubem Braga (1913-1990). Veja mais aqui.

A DIZ PUTA ELEITORAL – Quando o coronel Eurico Rosado da Rocha Lisboa chamou o seu protegido para um conversatório particuloso, já estava de festa em dança no juízo, e se rindo de contente. Aquele era o vivente mais ajuramentado em débito de favor, desbocado e caceteiro e foi realmente o escolhido. No vagão central do alpendre, fez uma recepção sem hem-hem-hem e sem noves-fora e foi logo dizendo: - Nego Foda, o senhor vai ser candidato nesta eleição. Tá me entendendo? Ao ser chamado de Nego Foda – apelido que detestava – Biu das Quenga ficou roxo, deu-lhe uma engrossadura de língua, um intestinamento de barriga e só não mandou o coronel tomar no centroma, por se tratar de um Rosado Lisboa, que não era pouca merda naquelas pastagens. Sem entender direito e engolindo uma carrada de desaforo, indagou: - Eu, coroné Rosado? – Sim, senhor, é o senhor mesmo. Não esqueça que me deve uma soltura de cadeia, de onde nunca sairia! Agora chegou a hora do pagamento. – Mas coroné! Eu não sou letrado de ensino, tenho andado mais duro que santo em procissão e não tenho um pingo, um pinguinho sequer de sintoma prefeituroso! [...] Com sua oratória matuto-político-camumbembal, Biu das Qunga foi conseguindo atrair até criacinha de oposição, e aos poucos foi avessando a casaca de eleitor acabestrado não só com Mané Jipinho, mas tambpem com o do coronel e demais políticos de Brasilzim de Dentro e Vila Teimosa. Mas foi o tiro de misericórdia aplicado em Mané Jipinho que disparou sua campanha. Com poesias feitas de próprio punho, meteu o sarrafo, caluniou o concorrente, além de divertir e atrair a atenção do povo para seu palanque. Com a ajuda de Luzia Manca, que tirou as digitais matutas para melhor expressar a suposta fala do prefeito, soltou o falso Pensamento de Mané Jipinho, como sendo o proibido discurso de posse do concorrente quando eleito prefeito de Brasilzim de Dentro, onde sai lia o poema com o mote de um poeta Potiguar, Sempre foi meu desejo comer o cu desse povo: Assim que saio eleito / no fim duma apuração / me dá muito mais resão / por o povo ter-me aceito / se fui eleito prefeito / com o voto deles de novo / eu pago com um par de ovo / um taco duro e um gracejo: / que sempre foi meu desejo / comer o cu desse povo / ... Vou me mantendo fiel / a este povo bundeiro / sou político verdadeiro / neste país de bordel / e desta lua-de-mel / sei que jamais me demovo / e sendo eleito de novo / como em grosso e varejo / pois sempre foi meu desejo / comer o cu desse povo. [...] Para demonstrar que não existia conchavo político com os demais partidos e total transparência nas decisões da FUDENE, a cúpula do partido distribuiu um folheto intitulado Conversa de Bastidor, que dizia: Pra mandar tudim pra PQP / não pudemo se quer, se PDT / que é mode o PSB / amuntado no PV / não vir se aliançar. / PC-dê-B a hipótis / dum PT, sem muito T / nem que a legenda se mele / ou de PF ou de L / feito PMDB. / Antes que o pau recomece / vai assim assuceder: / PMN não manda / já desanda o PTB / PSDB tira o S / logo depois tira o B / no mei desse sururu / nós pega o F e U / e acunha tudo no D. [...] Num discurso puxado com sustança, e como disse Biu das Quenga: mais bonito do que pé de macaíba na safra, Luzia Manca fez o seguinte pronunciamento em versos, apresentando sua equipe de trabalho e denunciando as mazelas da cidade: - Meus amigos fudedores / gigolôs e cachaceiros / ilustres raparigueiros / e todos da região! / Se a FUDENE não fudesse / não fosse mulher bolida / se não quengasse na vida / não tava na eleição. / Disputou com puta a puta / mas trouxe no fim da briga / um coral de rapariga / pra cima do caminhão. / Trouxe Zzefa Pragatão / trouxe Priquito de Frande / Teinha do Obreiro Baixo / e com licença da palavra / trouxe Roquete Cuzão. / Roquete é feito feijão / quando esquenta dá o bicho / mas andará no capricho / no rumo da eleição. / Reparem bem o estado / dessa nossa região / do Estreto da Galheira / do beco do Pinguelão / lá do Buraco da Velha / do Pai Torto e Suvacão. / Da rua do Arrombado / lá da Taiada da Jega / esquina do Lasca e Trinca / Suvaco de cururu / atolado da Frieira / da Rua da Beira Seca / e do Beco do Teju / Não queira ver o estado / do apertado da hora / da Pinguela do Tauá / do beco do Quebra-Pote / da Rua do Quixelau / Rua do Grude e da Merda / escorrega lá vai um / e beiço do Eita Pau / Estão levando na zona / a nossa zona sofrida / zonaram da nossa zona / nunca nos deram carona / no trem que sobre na vida. / Mas esta bacafuzada / ta com seus dias contados / quem ganha a vida fudendo / levando e sendo enganado / de tanto saber gemer / quer “tanto assim” pra fuder / prefeitos e deputados. / Vote em nossa bandeira / de norte-sul-leste-oeste / vamos votar na FUDENE / a redenção verdadeira / que são essas fudedeiras / desenvolvendo o Nordeste. / Finalizo estas palavras / clamando de braço aberto / aos companheiros de luta / que vamos votas nas puta / pois nos filhos não deu certo. [...]. Extraído da obra Agrutas da lata d’água (Bagaço, 1998), do poeta, compositor e intérprete Jessier Quirino. Veja mais aqui.

ILHA DAS FLORES
O premiadíssimo curta-metragem Ilha das Flores (1989), escrito e dirigido pelo cineasta Jorge Furtado, narra através da trajetória de um tomate, da plantação ao lixo, as desigualdades sociais e o destno dos homens em um planeta massacrado pelo desconhecimento, mostrando como a economia gera relações desiguais entre os seres humanos.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...