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domingo, janeiro 25, 2026

GERMAINE GREER, SUHEIR HAMMAD, AHED TAMIMI & PALLY SIQUEIRA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Palavra e Som (2017), Fiz uma Viagem – Songs of Dorival Caymmi (2017),  50 (2018), Brasileiras Canções (2022) e o Mar É Mulher (2025), da cantora, compositora e instrumentista Joyce (Joyce Silveira Moreno), autora dos livros Fotografei Você na Minha Rolleiflex (1997) e Aquelas Coisas Todas (2020), das séries Cantos do Rio (1999) e No Compasso da História (2010) e do projeto Pequenos Notáveis (2012). Veja mais aqui & aqui.


 

Parlenda de Truvunca & Quelônia, Acta est fabula... – Virado da breca esse Truvunca, pense numa criatura fuçadora: apronta as suas semostradoras presepadas e, eximindo-se do revide das lapadas, abre um buraco no chão e se entoca de ninguém mais vê-lo. De tanto cavar túneis disparatados, logo viu-se enamorado pela Maria Fumaça, o que parecia ser um bom negócio pra ele, claro. Mas, não. Ela nem nem: só andava na linha e, pra encará-la, só de papel passado. Vixe! Perdeu a viagem e pinotou fora. O melhor era mesmo da loca explorando forames, caboucos, antros, covas, grotas, cavernas e grutas. E de tanto desbravar bateu no domicílio duma Branquiura, eita, saia-justa: caxangá, siri siripuã! Ela: Qual é a tua, dasipodídeo? Tava passando por perto... Tais pensando que o céu é perto? Não... Segura a carapaça senão finda leproso, visse! Vim só dá boa tarde! Ela então abriu a porta e mostrou uma tuia de aratu, caranguejo-uçá e azul, guaiamu, boca-cava-terra, grauçá, chama-maré, Maria-farinha e santola, tudo de boca aberta para tirar proveito: Vem cá, tatu, que eu quero fazer charango! Quirquincho, venha dançar fandango! Quero fazer cesto e do rabo a flauta! Quero comer aaru, meu beiju, peralta! S’esconda não, bota fumaça na toca que eu quero pegá-lo! Oba, banquete com a carne de todos os outros animais! Pulou fora, evadiu-se. Depois dessas tentativas malogradas, jurou nunca se apaixonar. E como cuspiu pra cima e debaixo não saiu, nem deu tempo de sustentar a promessa: viu-se enredado num grande amor com Araminta de Goldoni, uma beldade tracajá. Foi de peito aberto, a plenos pulmões: esmerou-se no vinco, alinhou-se no ajeitado, dançou e melou; ao resolver os documentos do casório, ela se enjicou com ele, arriando o rosário, cabum! Debulhando o miúdo da surpresa: era uma Arsínoe de Molière, uma cágada desaforada: Já enganei onça e só gosto de carniça e rabo de lagarto! Ih! Tem coragem ou vai abrir da vela? Mas, mas... Sai pra lá, banguela! E sacudiu-se toda pras bandas dum Zé-prego que apareceu vistoso, dele ficar só com as mãos balando e a ver navios. Essa doeu dele despencar de vertigens, falta de ar, perdeu a noção das coisas, claudicante, arrastou-se pela lama, findou sofrente na sarjeta: as grandes dores deixam marcas indeléveis, dele cambalear por muito tempo, até levar uma topada e pegar no tranco. Ufa! Nem se resguardara direito, lá estava ele se enrolando com Ródope de Hebbel – uma jabota sonhando Gyges und Sein Ring. Diante de tanta formosura, ele mergulhou de cabeça e caiu com toda boca na botija, chega lambuzar-se todo. Calma, meu nego, que vexame é esse, tatu eté? Vem cá, frochosa! Tatu peba de capote, com seu chapéu voador, parece mais um caçote que perdeu o seu andor! Dou-lhe tudo de meu! E foi de topete desembestado. Alto lá! Pra quê retranca? Enrole, não! Tô gamado! Então, procure outra, papa defunto! Danou-se! E quando viu: estava ela enganchada no pescoço dum carumbe. Ele deu a porra e virou das catrâmbias, encolheu-se feito bola, zonzinho da silva: sucumbira de novo aos tormentos do seu inferno particular, quase perecer de amargura. Foi difícil segurar as pontas, curto-circuito e dor-de-cotovelo: doíam os chifres e, na recaída, quase bota todos os bofes boca a fora: tatu também é gente, também morre em sofrimento! Caiu na gandaia feito um Aretino injuriado: pintou resoluto, bordou dissoluto e arretou-se determinado a se emburacar no chão e sair do outro lado do mundo! Assim fez e findou atribulado num aquífero. Eita! Quando voltou a si: Onde estou? Você quase morre afogado! Quem é você? Sou Quelônia, muito prazer. Você me salvou? Só puxei você pra praia. Quer casar comigo? Já vejo que retomou os sentidos e agora está melhor, até. Não, pelamordedeus, preciso agradecer. De nada. E ela se foi pelas ondas do mar aberto, deixando-o inconsolável. Não fosse a prestimosa intervenção dum primo distante, jamais sairia do seu embotamento. Como é que tá, parente? Tamanduá, você viu aquela? Vi, sim. Quem é ela, hem? Ah, parente, nem queira saber: a cosmófora! Que é isso? A reencarnação de Vishnu, Bodhisattva. Quem? Os 4 pilares da origem algonquina! Piorou. O escudo de Órion dos maias. Deixa de onda! Ela é o pilar que segura o céu. Tais de brincadeira! Ela é a cítara de Mercúrio, a esposa do Sol dos Vaupés! A sabedoria no Bhagavad Gita! Peraí. Uma vez ela subiu num poste. Como assim? Mistério... Oxe! Não entendeu ainda? Quero casar com ela! Não é pro seu bico! Ajuda, primo! Tire o cavalinho da chuva, meu! Preciso, vai! E no meio de disso e daquilo, lá estava ele com o aparentado remando num barco mar adentro. Lá no alto, só as águas beirando o céu, o remador foi ajeitar a direção e, sem querer, derrubou Truvunca tragado pelas ondas revoltas: Pronto, agora reze prela salvar e tudo feito! A sorte está lançada! Deu-se então um tsunami. Lascou! E aí? Um dia lá, muito tempo depois: viram-se à praia. Eita, pensei que o parente estivesse ido dessa pra melhor desde daquele tempo; mas não, tá com a anja da guarda, né? Eu e tu fomos salvos por ela, bestão! Que bom. Casamos e vamos aprender a voar. Calma, disse ela. Também sei nadar! Mas quase se empirulitou por duas vezes, não acha que já tá bom desse brincar de morrer, não? Hum? Veja só: Voar é outra coisa, cuidado com gente! Os humanos só fazem guerra! Pois é. Então, ali ela entregou pra ele um arco e duas espigas de milho: uma madura para semear, outra leitosa para grelhar. O que faço com isso? Ensinou-lhe o hino homérico a Hermes: Saúdo-te, natureza amável, és para mim de um mui feliz presságio... Levar-te-ei à minha casa... Ah, tá, Cabeçuda! Repetiu tudo e ela fez volta-no-meio do tatu-velho! Sou seu capitari, piloso primo do canastra-gigante, do tamanduá e do bicho-preguiça, que quero mais? Segure o fandango! Aí, lá pras tantas resolveram juntar os Tês seguidos por uma enfieira de têzinhos que espoucavam seguindo o rastro dos festeiros: Tartu-bola, peba, mão amarela, tartupoiú! Tartu-cascudo, peludo, rabo-de-couro, galinha do sul! Como é que pode? Ora. Acta est fabula, parlenda: Salve, tartaruga; e viva o rabo do tatu! Até mais ver.

 

Linda Buck: Faça algo que te apaixone, algo que você simplesmente precise entender, porque é daí que vem a alegria, e também, eu acho, é daí que vêm as grandes descobertas... Veja mais aqui.

Mairead Corrigan: Se quisermos colher os frutos da paz e da justiça no futuro, teremos que semear as sementes da não violência, aqui e agora, no presente... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Shirley Hazzard: Existe equilíbrio na vida, mas não existe justiça. Na verdade, não se ganha nada com a experiência; aprende-se apenas a prever o próximo erro. Às vezes, certamente, a verdade está mais próxima da imaginação ou da inteligência, do amor, do que dos fatos? Ser preciso não é o mesmo que estar certo... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

OF WOMAN TORN

Imagem: Acervo ArtLAM.

Filha de palestine \ fazer amor pode ser tão perigoso \ como toques de recolher quebrados \ guerrilheiros escondidos \ você se junta agora aqueles que não vão embora \ a terra assombra minha \ dormir quem observa o meu \ de volta sempre que eu colocar \ os suicídios forçados o \ mortes por dote e \ nora \ decapitado por \ seu pai sobre seu proibido \ lua de mel ele desfilou \sua cabeça através \ cairo para provar sua \ masculinidade isso é 1997 \ e eu só posso esperar \ você tinha uma canção especial a \ poema memorizado um segredo \ que te fez sorrir \ Isto é um amor \ poema cause i love \ você agora mulher \ quem viveu tentou \ amor neste mundo de \ facões e pecado \ Eu sinto o cheiro de suas cinzas \ de zaatar e amêndoas \ sob a minha pele \ Eu carrego seus ossos.

Poema da escritora e ativista político palestino-estadunidense Suheir Hammad, autora das obras Born Palestinian, Born Black (Harlem River Press, 1996), Drops of This Story (Harlem River Press, 1996), Zaatar Diva (Cypher Books, 2006) e Breaking Poems (Cypher Books, 2008).

 

SOBRE O ESTUPRO – [...] Se um homem lhe der um soco no olho, não se espera que você tenha implorado para que ele não o fizesse para que o crime seja considerado agressão. Se você estiver sentada no caixa e alguém exigir o dinheiro, você não será acusada de consentimento se simplesmente entregar o dinheiro. Somente em casos de estupro é que a prova de resistência se torna relevante. [...] Assim como não é o pênis que comete estupro, nem a testosterona que o motiva, nem mesmo um desejo sexual avassalador, a castração, seja cirúrgica ou química, não eliminará o ódio dos homens pelas mulheres. [...]. Trechos extraídos da obra On Rape (Bloomsbury Publishing, 2018), da escritora e jornalista australiana Germaine Greer. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ME CHAMARAM DE LEOA: A LUTA DE UMA MENINA PALESTINA PELA LIBERDADE – [...] O riso transmite uma mensagem poderosa: ainda estamos vivos, ainda estamos rindo e amamos a vida. [...] Não somos cidadãos de Israel; tampouco temos voz ou direitos políticos no Estado que controla todos os aspectos de nossas vidas. Estamos presos à incapacidade de planejar nosso futuro, de viajar livremente ou mesmo de nos deslocarmos pelo nosso território de cidade em cidade sem ter que cruzar postos de controle militar. Precisamos de permissão para construir nossas casas, para viajar, para trabalhar — todos os direitos e liberdades básicos que você poderia considerar garantidos vivendo em uma sociedade civil simplesmente não existem quando se vive sob ocupação militar. Não é uma vida fácil, e ainda assim, é a única que conheço. [...] Peço também que se lembrem da sua humanidade, porque é ela que vai determinar o que farão quando virarem estas últimas páginas e fecharem este livro. Vão se solidarizar com a causa palestina e ajudar da forma que puderem — seja conscientizando outras pessoas, pressionando o governo ou se informando mais sobre o que está acontecendo? Ou vão ignorar o que aprenderam, largar este livro e seguir com a vida como sempre? A escolha é sua. [...] Os palestinos representam 20% da população de Israel e, apesar de viverem em sua própria pátria, Israel os relega a um status de cidadãos de segunda ou até terceira classe. Um dos meus colegas descobriu que mais de cinquenta leis discriminam os cidadãos palestinos de Israel com base unicamente em sua etnia. Outro comentou como os recursos governamentais são desproporcionalmente direcionados aos judeus, deixando os palestinos com os piores padrões de vida na sociedade israelense, com as escolas para crianças palestinas recebendo apenas uma fração do investimento governamental destinado às escolas judaicas. Eles também falaram sobre a dificuldade que os palestinos enfrentam para obter terras para moradia, negócios ou agricultura, porque mais de 90% das terras em Israel pertencem ao Estado ou a agências paraestatais (como o Fundo Nacional Judaico) que discriminam os palestinos. E lamentaram o fato de que, se eles ou algum parente se casassem com um palestino da Cisjordânia ou da Faixa de Gaza, não poderiam transmitir a cidadania israelense ao cônjuge, devido à Lei de Cidadania e Entrada em Israel. O cônjuge sequer conseguiria obter o status de residente para morar com eles em Israel. Isso significaria que seriam forçados a deixar Israel e se separar de suas famílias para viver com o cônjuge. […]. Trechos extraídos da obra They Called Me a Lioness: A Palestinian Girl’s Fight for Freedom (One World, 2022), da ativista palestina Ahed Tamimi.

 

A ARTE DE PALLY SIQUEIRA

Queremos, sim, mais produções lideradas por mulheres, protagonizadas por mulheres e com questões pertinentes a nós. Somos a maioria da população e já estamos fartas de ocupar o segundo plano... As pessoas em sua maioria se sentem perdidas, cheias de dúvidas, eu me enquadro muito nessa porcentagem. Mas o que me assusta tem sido ver a onda fascista que tem se levantado, eles agem de uma forma muito organizada e bélica. Quando perdemos a capacidade da empatia algo está errado...

Trechos da entrevista concedida ao jornalista Vinícius Nader (Correio Brasiliense, 2018), pela atriz, autora e artista plástica Pally Siqueira. Veja mais aqui & aqui.

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Selma do Coco aqui.

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Luiz Marinho aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

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terça-feira, outubro 27, 2020

SYLVIA PLATH, DYLAN THOMAS, JEAN ACKER, GRACILIANO, ROSE NOGUEIRA, JOSÉ BARBOSA & A SEREIA DO ROBIMAGAIVER


  

TRÍPTICO DQC: PALÁVORA METAFÁBULA - Estradafora passadopasso futuronde errânbulos vidoutráfego. Realizarpar precisora, adivinhanando portabertas & realsonhalizar velacesa desertormentas. Volvouver, voltainda, vamboramanhã, desdontem jagora! Feridoída, saravento. Dylan Thomas: A bola que lancei quando brincava no parque ainda não tocou o chão. A lição de Graciliano Ramos: É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço. E faço e refaço, torno a refazer, sempre. O que foi e o que irá: todos. O que não me mata me faz viver. O que não me atiça não me falta nem existe. Quem não tem audácia não vive. Quem não se arrepende não faz.

 


A SEREIA DA LOROTA - Imagem: Art Deco handmade Sculpture nude beauty Mermaid Bronze copper Statue. - Depois do Pipoco da porra, da paixonite do besouro doido, da presepada com a culpa no cartório e das emboanças malsucedidas no Big Shit Bôbras, Robimagaiver havia desaparecido fazia tempo e, de repente, deu as caras para lá de lívido e às carreiras. Que foi que houve? Escapei fedendo! Como assim? Arfante, não dizia coisa com nexo. Aí Zé Corninho sapecou: Esse cabra mente que o cu apita! Todos concordaram e juntando curioso ao redor dele, só de mutuca para apurar a pinoia. Foi de mesmo, cara! A gente já saca tua pacutia, fidapeste! Foi mesmo! Vai-te! Vou contar. Então, conta. Seguinte: uma reboculosa daquelas que não é pro meu bico, sei o trampo que carrego, meu carrinho de mão e coisa e tal, e pelo jeito ela deu mole! Espia só: o sujeito juízo curto, mulher bonita, só dá merda! E deu. Passo o rodo, caiu na rede é peixe. E era. Foi só me abestalhar nuns xambregos bons e ineivados e lá pras tantas findar na beira do rio. Pega aqui, pega acolá. Nem aí, depois do sarro era a hora do vamos ver e ela timbungou, tirou a roupa e ficou só me atiçando. Sou lá de refugar na horagá, desvesti tudo num mergulho só. Dali a pouco no meio dos agarrados e umbigadas, um peixão passou pela batata da perna: Tem peixe grande na área! E ela se ria toda não me toques e vem e vai. Passou de novo, pelo volume, vôte, é dos grandões. Tá doido, quero lá ser devorado por jacaré ou sei lá o quê, pulei fora. Oxe, ela danou-se a cantar e a vista escureceu, tonteei e apaguei. Quando dei fé depois de num sei quanto tempo, ela era a peixa. Pode? Aí, foi pior, tive um troço com o pega-pega e só me acordei num lugar desconhecido em que ela não era mais uma peixa, era uma ave com cara de mulher! E queria me pegar. Onde já se viu? Dei uma carreira, nadei num sei quantos dias, ela atrás, grasnando, eu tome braçada, pelo jeito acho que rodei o mundo até despistá-la e chegar em casa. Ufa! Escapei fedendo, meu! Como é? A tropa toda deu sinal de lorota: E quando foi que aprendesse a nadar, desgraçado? A necessidade ensina! Ah, não! Nessa hora ia passando o doutor Zé Gulu que foi atrapalhado pela mangação e teve de ouvir todo relato do dito cujo. Ah, sim, se é verdade ou não, pela descrição do lugar que você deu, não resta dúvida que é a Ilha das Sereias. Como? Sim, é uma ilha incerta do Mediterrâneo e que muitos autores falaram deste lugar: a Odisseia de Homero, a Argonáutica de Apolônio de Rodes, a Die Lorerei de Henrich Heine e o Ulisses do James Joyce, reza a lenda: com seu canto melodioso, as Sereias atraem os marinheiros que, inconscientes do perigo, naufragam nos rochedos da ilha. Êpa! A turma com o mestre pelo canto do olho: Ô doutor, diga cá uma coisa: como é que um frebento desse passa por uma dessa e sai ileso, me diga? A turma do qual é: Nem nadar o bexiguento sabe! Onde já se viu um embola-bosta desse todo topetudo pra bancar o bonzão pra cima da gente, ora! Com todo respeito, doutor, mas não dá para acreditar numa lorota dessa!

 


ELA ENCENA & O AMOR É REAL - Imagem: arte da atriz estadunidense Jean Acker (1893-1978) – Adentrou seminua na noite e disse: Sou Rose. A jornalista e defensora dos direitos humanos, Rose Nogueira. E passou o texto: “Sobe depressa, Miss Brasil’, dizia o torturador enquanto me empurrava e beliscava minhas nádegas escada acima no Dops. Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os ‘40 dias’ do parto. Na sala do delegado Fleury, num papelão, uma caveira desenhada e, embaixo, as letras EM, de Esquadrão da Morte. Todos deram risada quando entrei. ‘Olha aí a Miss Brasil. Pariu noutro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca’, disse ele. Um outro: ‘Só pode ser uma vaca terrorista’. Mostrou uma página de jornal com a matéria sobre o prêmio da vaca leiteira Miss Brasil numa exposição de gado. Riram mais ainda quando ele veio para cima de mim e abriu meu vestido. Picou a página do jornal e atirou em mim. Segurei os seios, o leite escorreu. Ele ficou olhando um momento e fechou o vestido. Me virou de costas, me pegando pela cintura e começaram os beliscões nas nádegas, nas costas, com o vestido levantado. Um outro segurava meus braços, minha cabeça, me dobrando sobre a mesa. Eu chorava, gritava, e eles riam muito, gritavam palavrões. Só pararam quando viram o sangue escorrer nas minhas pernas. Aí me deram muitas palmadas e um empurrão. Passaram-se alguns dias e ‘subi’ de novo. Lá estava ele, esfregando as mãos como se me esperasse. Tirou meu vestido e novamente escondi os seios. Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar de louco. No meio desse terror, levaram-me para a carceragem, onde um enfermeiro preparava uma injeção. Lutei como podia, joguei a latinha da seringa no chão, mas um outro segurou-me e o enfermeiro aplicou a injeção na minha coxa. O torturador zombava: ‘Esse leitinho o nenê não vai ter mais’. ‘E se não melhorar, vai para o barranco, porque aqui ninguém fica doente.’ Esse foi o começo da pior parte. Passaram a ameaçar buscar meu filho. ‘Vamos quebrar a perna’, dizia um. ‘Queimar com cigarro’, dizia outro”. E chorava com todos os poros, vísceras & sangue, estirada no chão e a mencionar nomes perdidos, Heleny, Marilena, Helena, Labibe, Alceri: sou todas elas e elas são em mim o último suspiro de vida. Levantei-me até ela e, num abraço, soluçava. Disse-me Sylvia Plath: Acho que criei você no interior da minha mente. Quando você entrega todo o coração a uma pessoa e ela não aceita, não dá para pegar de volta. Você o perde para sempre. Disse-lhe apenas: vivocê! E nos beijamos para a eternidade. Até mais ver.

 

O MUNDO DE JOSÉ BARBOSA

A arte do escultor, entalhador, pintor, desenhista, ilustrador e gravador José Barbosa da Silva, que organizou o Movimento Arte Ribeira, em 1963, e participou do início da Tropicália, do Cinema Novo e da Nova Figuração de artes plásticas, tendo participado de individuais e coletivas em países como Alemanha, França, Espanha, Chile, Inglaterra, USA, Suíça, entre outros. Veja mais aqui e aqui.

 


quinta-feira, junho 21, 2018

DIDI-HUBERMAN, PROUST, JOYCE, BOURDIEU, JESSIER, TEIXEIRA LOPES, PHILIPH DVORAK, ALFARRÁBIOS & POESIA ABSOLUTA


ESCOLHA DAS MÃOS: O QUE VALE É VIVER! – Imagem: arte do pintor, desenhista e fotógrafo estadunidense Philiph Dvorak. - Já passei por debaixo da ponte de muitas broncas e, vez ou outra, depois de pelejar tanto, umazinha lá, no bambo, lograr êxito ao acertar na caçapa. Não é nada demais, uma vez lá que seja, acertar na mosca: tum! Também sou filho de Deus, né? Porquanto, nunca reclamei da sorte, assim mesmo sempre me achei privilegiado pelo que fiz e não tenho. Nunca usei das mãos pra brigar na marra, ou arrancar pra possuir, no máximo a ler as linhas da palma, porque sempre soube uma para alcançar o que se quer e, outra, para zis coisas, afora as duas, em concha, punho cerrado, expostas. Se uma abre caminho; a outra, arma o bote ou semeia e colhe. E as duas, pedido ou entrega, sejam destros ou canhotos, tudo do nada pode brotar inventando o que não há, reinventado a si e ao redor. Tanto faz ficar ou seguir, ir ou parar, a ocasião faz a hora de dormir ou acordar, senão sigo na minha: devagar e sempre. Ao livre arbítrio, quantas escolhas a todo átimo por cara ou coroa, quem não no lá ou loa, ímpar ou par, e acertar o negócio da China ou gorar a morte da bezerra, sujeito ao escalpelo ou covarde isento de gafes escondido pelas beiradas, seguindo retardatários pra se esboroar ao sacrossanto, ou rasgar o glossário do interdito pra saborear o limiar do pecado. Sempre soube quem foi pra voltar, quem vem pra desistir: enlaces e desencontros, erros e acertos, adesões e repulsões, guisado ou frito, subir ou descer, em pé ou deitado, tanto pelo insosso certo previsto, como pelo sedutor desconhecido misterioso, nunca se sabe. Qual é, entre todas e nenhuma, ou uma ou outra, e se passei batido e nem vi a bússola entre as agruras do céu e as delícias do inferno, sorri soprando o relado da pele no reboco dos muros com suas sombras a desfazer de sonhos por ocas desilusões ou vazias vicissitudes. Assim são as escolhas e sou quem não sabe delas as consequências, nem preciso, vivo o momento no sabor do imprevisível. A vida não tem ver de novo, vale a precisão do inesquecível, a memória acendendo a libido, cada vez única, de outra não se repete, revive sem saber aonde vai dar. Não há melhor que isso, nada de repeteco, coisas de parar, retroceder e consertar o que passou, nada disso, aconteceu e foi, já era. Só fica a vivência, o experienciado inupto, singular, da gente saber o que voga, se isso ou aquilo, distinguir depois da curva ou atrás do monte, ninguém sabe, nem adianta ficar matutando se tivesse ido pro outro lado ou se tivesse tempo de pular fora antes do acontecido. Nada disso. E tudo isso, ora. Tem até quem não sabe que escolheu e fala dos outros, como se incólume da desgraceira. As coisas vão pelo tino, assim como pra quem gosta de guerra, sou pela paz e voo de beija-flor que não sobrevive ao olhar, recolhendo a música das pedras e o ensurdecedor silêncio mortuário que vem das ruas da ancestralidade milenar. Deu ou não deu, não há pra chorar, só recomeçar, refazer-se, revelar-se. Se me perdi dos passos, não é nada, voluntário vou com o coração na mão, pulsando a fazer o que posso, de novo e resiliente, porque pra quem errou demais da conta é só aprender a lição, apagar o passado e sorrir esquecido de ontem se quiser ser feliz, senão nunca mais, pra nunca ser tarde de seguir de mãos dadas, depois do celebrado e mútuo aperto de mãos nos abraços de vida. O que vale é viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música
da cantora, compositora e instrumentista Joyce: Visions of dawn, Revendo amigos, Aquarius & Ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] se a unidade doméstica é um dos lugares em, que a dominação masculina se manifesta de maneira mais indiscutível (e não só através do recurso à violência física), o princípio de perpetuação das relações de força materiais e simbólicas que aí se exercem se coloca essencialmente fora desta unidade, em instancias como a Igreja, a Escola ou o Estado e em suas ações propriamente políticas, declaradas ou escondidas, oficiais ou oficiosas (basta, para nos convencermos disto, observar, na realidade imediata, as reações e as resistências ao projeto de contrato de união social). [...]. Trecho extraído da obra A dominação masculina (Bertrand Brasil, 2002), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), que em outra publicação, A escola conservadora: as desigualdades frente a escola e à cultura (Vozes, 2003), assinala que: [...] Além de permitir à elite se justificar de ser o que é, a ideologia do dom, chave do sistema escolar e do sistema social, contribui para encerrar os membros das classes desfavorecidas no destino que a sociedade lhes assinala, levando-os a perceberem como inaptidões naturais o que não é senão efeito de uma condição inferior, e persuadindo-os de que eles devem o seu destino social (cada vez mais ligado ao seu destino escolar) à sua natureza individual e à sua falta de dom. [...]. Veja mais aqui.

TEMPO ATUAL – [...] O apocalipse continua sua marcha. Nosso atual “mal-estar na cultura” caminha nesse sentido, ao que tudo indica, e é assim que, com frequência, o experimentamos. Mas uma coisa é designar a máquina totalitária, outra coisa é lhe atribuir tão rapidamente uma vitória definitiva e sem partilha. Assujeitou-se o mundo, assim, totalmente como o sonharam - o projetam, o programam e querem no-lo impor - nossos atuais “conselheiros pérfidos”? Postulá-lo é, justamente, dar crédito ao que sua máquina quer nos fazer crer. É ver somente a noite escura ou a ofuscante luz dos projetores. É agir como vencidos: é estarmos convencidos de que a máquina cumpre seu trabalho sem resto nem resistência. É não ver mais nada [“C’est ne voir que du tout”, é ver “apenas o todo/o tudo”, ao contrário do “apesar de tudo”.]. É, portanto, não ver o espaço - seja ele intersticial, intermitente, nômade, situado no improvável - das aberturas, dos possíveis, dos lampejos, dos apesar de tudo [...]. Trecho extraído da obra Sobrevivência dos vagalumes (EdUFMG, 2011), do filósofo, historiador, crítico de arte e professor francês Georges Didi-Huberman, que em outra obra A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg (Contraponto, 2013), expressa que: [...] Eis o que seria necessário fazer face ao esplendor e ao caos do mundo: enquadrar – isolar, para melhor o observar como que por dentro – cada fenômeno fecundo. E, para isso, seria importante também pegar no lápis, na pena e no pincel para preencher cadernos e folhas de desenho, que constituiriam ainda testemunhos dessa precisão poética que Goethe demonstra perante a diversidade do mundo sensível [...]. Veja mais aqui.

NOS CAMINHOS DE SWAN - [...] fazer penetrar a imagem de Odette num mundo de sonhos ao qual até então ela não tivera acesso e no qual ela impregnou-se de nobreza. E, ao passo que a visão puramente carnal que tivera daquela mulher enfraquecia seu amor, essas dúvidas foram dissipadas e esse amor assegurado quando teve por base os dados de uma estética exata; sem contar que o beijo e a posse, que lhe pareciam naturais e medíocres se concedidos por uma carne arruinada, vindo coroar a adoração de uma peça de museu, afiguravam-se-lhe sobrenaturais e deliciosos [...]. Trecho da obra Nos caminhos de Swan (Abril, 1979), do escritor francês Marcel Proust (1871 - 1922). Veja mais aqui e aqui.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS ESQUERDOS HUMANOS – O cabôco pode ter todo defeito do mundo: / Ser assoprador de velas antes do parabéns / Aborteiro do amor / Cacundeiro de político / Pode ser desmancha-samba / Dizedor de palavrão. / Pode ter vício, desvio: / Ser tomador de cachaça / Putanheiro, maconheiro / Vivaldino, fanfarrão. / Ter tido uma desventura: Ser corno dum mulherão. / E também ser diferente: um domador de serpente / Mais pra lá do que pra cá, peneirinha, chibateiro. / Apoucado de tamanho: / Metade de Nelson Ned / Ou mesmo um caga-baixinho. / Mulher pode ser: / Megera, concordante, oferecida / Moita-crespa ao deus-dará / Ser tabaco-militar, das que só pega soldado. / O cabôco ser machista, moralista, de direita… / Não interessa: / Têm todo o esquerdo do mundo / De ser tratado dentro do vão dos direitos. / Pois o lado direito de quem olha / É o lado perfeito e benfazejo / Do esquerdo e sensível coração. Extraído da obra Berro Novo (Bagaço, 2009), do poeta, compositor e intérprete Jessier Quirino. Veja mais aqui.

VIVA FANZINE
Foi lançado no último dia 16/06, no Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, em Niterói, o Fanzine Coletivo Alfarrábios VIII D'Além MAR!, com participação especial de Victor H. Rosa & mais: Adriana Mayrinck, Andreia Evangelista, Cláudia Lí, Jammy Said, João Ayres, Jordão Pablo de Pão, José Antonio C e Silva, José Glauco Ribeiro Tostes, Marco Valença, María Angélica Carter Morales, Mônica Firma Maciel, Spírito Santo, Tchello d'Barros, Thina Curtis & muito mais! Produção: Armazém de Quinquilharias e Utopias Brasil. PS: Alfarrábios não tem dono, não tem liderança, não visa lucro. As edições são a preço de custo e o valor de venda se destina a reposição do investimento, propiciando a auto sustentabilidade.
A Poesia Absoluta aqui & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor português Teixeira Lopes (1866-1942)
Veja mais aqui e aqui.
&
Em cada esquina a vida passa, Era secular de Charles Taylor, A educação estética de Friedrich Schiller, o cinema de Lúcia Murat & Luciana Rigueira, a arte de Benjamin Cassiano & Sarau Poesia Revista aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.


quarta-feira, março 07, 2018

ANAÏS NIN, REICH, JOYCE, QUESADO, SAVIANI, ELIANE RODRIGUES, EDUCAÇÃO & REPRESSÃO SEXUAL, FREYARAVI & LUCIAH LOPEZ

FREYARAVI & A SALVAÇÃO DO CATIVEIRO – Imagem: arte da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez. - Errava caeté por terras distantes, atraído pelo clima e abundância de frutas e caças, ao deus dará. Já me acostumava com aquelas paragens até então pacatas e apaziguadoras, quando senti presságios no ar. Deu-me a impressão de que me observavam às escondidas, perseguido pelo matagal. Fique à espreita e logo percebi a presença hostil pelas cercanias. Não demorou muito, surgiram de esconderijos inesperados, muitos índios a me atacar. Lutei com eles o que pude e logo chegaram outros com seus soberbos cavalos e investindo contra mim. Fiz-me afoito, sozinho, a responder seus golpes, eram muitos e cada vez mais, não conseguia suplantá-los e tentei fugir sem obter êxito, pois me feriram e, na queda, logo me cercaram e me capturaram com suas flechas pro cativeiro, amarrado e conduzido para a ocara, em meio de gritos de vitória dos guerreiros. Fui exposto como prêmio e logo fizeram fogueiras e passaram a cantar e danças, saboreando caças moqueadas, regadas a uma bebida que parecia um vinho de mel. Por conta dos ferimentos, desfaleci; e ao recobrar os sentidos, aprisionado e ferido, recebia cuidados de uma bela índia. Logo me afeiçoei a ela por sua forma carinhosa de me tratar. Ouvia sua voz me falar, mesmo sem entender direito, mas que me dizia ter ela nascido dos rios caingangues. Linda e cheia de encantos, durante o dia cuidava de mim. Logo ouvi alguém chamá-la: Yaravi! Esse o nome dela e, pelo visto, reprovavam o tratamento a mim dispensado. Ela sumiu com os demais, ao final da tarde retornou e me segredou cuidadosamente, pelo que pude entender, que durante a noite voltaria. Logo anoiteceu e enquanto a tribo toda festejava a minha captura, um vulto de mulher surgiu na escuridão. Não pude identificar nem fazer menção de qualquer gesto, vez que ferido ainda me condoía. Ela fez sinal de silêncio, tocou-me e nada mais vi. Só dei por mim muito tempo depois dentro de um quarto em ruinas, acompanhado de uma deusa que me curava com um ritual carregado de orações. Quando os primeiros raios de Sol surgiam, ela desaparecia como por encanto. E já manhã ensolarada, chegava Yaravi com mantimentos para me alimentar. Depois de me assistir na primeira refeição do dia, ela se despedia prometendo retornar mais tarde. E só na escuridão da noite, a deusa reaparecia para os seus rituais, sumindo na madrugada. Várias luas se passaram e todos os dias eu ouvia lá longe os festejos da tribo. A deusa reapareceu de repente e me fez levantar: Vamos, teremos guerra e preciso de você. Durante os folguedos tribais, a fumaça das fogueiras atraiu bandeirantes que tencionavam invadir a tribo para escravizá-los. Travou-se combate, as flechas e lanças de nada serviam diante das armas de fogo dos invasores. Foi aí que tomei partido pelos aborígenes e providenciei estratégias de defesa ao ataque inopinado. Luta renhida se fizera, porém, felizmente, nossa coragem e bravura forçaram os inimigos a abandonar a luta, fugindo aos bandos. Quando deram pela minha presença no combate, logo me renderam. Na manhã seguinte, Yaravi teve a coragem de pedir a seu pai que me concedesse a liberdade, alegando minha participação na luta contra os forasteiros. Os guerreiros se reuniram em assembleia, deliberaram sob os mais calorosos protestos e aquiescências, concedendo-me, por fim, a satisfação do seu pedido, sob a condição de que eu acompanhasse a tribo. E assim fui salvo. Por meus feitos a partir de então, fui adquirindo notável influência, acabando por me tornar conselheiro entre eles. Em noite festiva agradeci a Yaravi por ter-me salvo, porém meu gesto de gratidão estava transformado em amor. Ela olhou-me diante da confissão feita, trêmula e, meia sem jeito, abraçou-me afetiva e demoradamente. Pude, então, tomar ciência de que aquela índia era a mesma pessoa da deusa que me aparecia durante a noite. Quis saber dela, respondeu-me: Freyaravi. E fizemos nosso pacto de amor e nunca mais desgrudei dela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá Todo dia é Dia da Mulher com especial com a cantora, compositora e instrumentista Joyce: Feminina, Revendo amigos & Ao vivo; da pianista Eliane Rodrigues: Momentos musicais, Étude op 25 Chopin & Pour le piano Debussy; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Toda educação, sistemática ou não, expressa uma visão de mundo que reflete a realidade socioeconômica e política em que está inserida. Pensamento extraído da tese de doutoramento em Filosofia, sobre a temática Valor e educação (PUC, 1983), do professor José Misael Ferreira do Vale.

EDUCAÇÃO – [...] o homem necessita produzir continuamente sua própria existência. Para tanto, em lugar de se adaptar à natureza, ele tem que adaptar a natureza a si, isto é, transformá-la. E isto é feito pelo trabalho. Portanto, o que diferencia o homem dos outros animais é o trabalho. Trecho extraído da obra Pedagogia histórico-critica: primeiras aproximações (Cortez & Autores Associados, 1991), do filósofo e pedagogo Dermeval Saviani. Veja mais aqui.

REPRESSÃO SEXUAL - [...] A repressão da sexualidade natural da criança, e em particular da sexualidade genital, torna-as apreensiva, tímida, obediente, cheia de medo da autoridade. “Simpática” e “bem comportada”, no sentido autoritário; paralisa as suas tendências rebeldes já que a revolta desperta a ansiedade; engendra, ao inibir a curiosidade sexual da criança e as suas relações sexuais, um abaixamento generalizado das suas faculdades mentais e do seu sentido crítico. Em resumo, o objetivo da repressão sexual consiste em fabricar um individuo que poderá adaptar-se à sociedade autoritária e que a ela se submeterá apesar de todo o sofrimento e humilhação que é vítima. [...]. Trecho da obra Psicologia de massa do fascismo (Escorpião, 1974), do médico, psicanalista e cientista natural Wilhelm Reich (1897-1957). Veja mais aqui.

A FAMÍLIA E A FUNÇÃO SOCIAL DA REPRESSÃO SEXUAL – A unidade da célula familiar apoia-se na obediência das crianças a seus pais. Já vimos que as crianças, ao aprenderem a obedecer aos pais, aprendem a obedecer de um modo geral. Os resultados obtidos pela educação familiar são transferidos para todas as situações onde o adulto se encontra diante de um superior hierárquico. Ora, a repressão sexual faz parte da educação familiar. Os pais castigam os filhos que se masturbam e vigiam a hora a que sua filha volta para casa. Para se adaptarem ao meio familiar, os hovens têm portanto que recalcar a sua sexualidade (inversamente, a afirmação destas necessidades sexuais é revestida de um significado de revolta contra os pais. Quando uma jovem volta para casa às seis horas da manhã desafia os pais). É castigando os filhos que os pais lhes ensinam a obedecer e obtem deles a renuncia ao prazer sexual. [...] Isto implica que a ansiedade associada à expressão de desejos sexuais está ligada à angustia suscitada por todas as tendências rebeldes, já que a sexualidade e as veleidades da rebeldia são indistintamente reprimidas pelos educadores. [...] A criança acaba por ter medo desses sexuais e dessas tendências à revolta, e impede-os de se manifestarem. [...]. Trecho de A repressão sexual (Martins Fontes, 1972), de Michel Cartier.

OS OLHOS ALONGADOS DE ANITA – [...] Os olhos alongados de Anita não se fechavam como os das outras mulheres, mas como os olhos dos tigres, pumas e leopardos, com as duas pálpebras juntando-se preguiçosa e lentamente; e estas pareciam levemente unidas próximo do nariz, tornando-se mais estreitas, com um relance lascivo e obliquo pendendo dos olhos, como o olhar de relance de uma mulher que não quer ver o que estão fazendo em seu corpo. Tudo isso dava a ela um ar de quem estava fazendo amor [...] Anita estava se vestindo em meio a uma profusão de flores; e, para deleite dos admiradores sentados à sua volta, estava pintando o sexo com batom, sem permitir que eles fizessem qualquer movimento em sua direção. [...] ela apenas ergueu a cabeça e sorriu para ele. Estava com um pé apoiado sobre uma mesinha, o requintado vestido brasileiro estava levantado e, com as mãos cheias de joias, retomou a pintura do sexo, rindo da excitação dos homens à sua volta. O sexo dela era como uma gigantesca flor de estufa, maior do que qualquer um que o Barão já houvesse visto, e o pelo em volta era abundante, encaracolado, negro acetinado. Eram aqueles lábios que ela pintava como se fossem uma boca, muito requintadamente, de modo que ficaram como uma camélia vermelho-sangue aberta à força, mostrando o botão interior, o cerne mais pálido e de pétalas mais delicadas da flor. [...] Depois é que se seguia a performance pela qual Anita era famosa em toda a América do Sul, quando os recônditos camarotes do teatro, no escuro, com as cortinas semicerradas, enchiam-se de homens da sociedade de todo o mundo. As mulheres não eram levadas àquele espetáculo de variedades de alta classe. Ela havia se vestido de novo com o traje de saia rodada que usara no palco durante as canções brasileiras, mas não estava de xale. O vestido não tinha alças, e os seios fartos e abundantes, comprimidos pelo corpete justíssimo, avolumavam-se para cima, oferecendo-se quase que por inteiro ao olhar. Nesse traje, enquanto o resto do show continuava, ela fazia a ronda dos camarotes. Lá, mediante solicitação, ajoelhava-se diante de um homem, desabotoava as calças dele, pegava o pênis com as mãos cheias de jóias e, com um toque de bom gosto, uma destreza, uma sutileza que poucas mulheres já desenvolveram, chupava-o até satisfazê-lo. As duas mãos eram ativas como a boca. A delícia daquilo quase privava os homens dos sentidos. A elasticidade das mãos; a variedade de ritmos; a mudança entre um aperto de mão em todo o pênis e o mais leve toque na ponta, entre a pegada firme de todas as partes e o mais leve roçar dos pêlos em volta – tudo isso por uma mulher excepcionalmente linda e voluptuosa, enquanto a atenção do público estava voltada para o palco. Ver o pênis entrar na boca magnífica, entre os dentes brilhantes, enquanto os seios arfavam, dava aos homens um prazer pelo qual pagavam generosamente. A presença dela no palco preparava-os para a aparição nos camarotes. Ela provocava-os com a boca, os olhos, os seios. E, para satisfazê-los, junto com a música, as luzes e a cantoria, havia uma forma de entretenimento excepcionalmente picante em um camarote escuro e com as cortinas semicerradas acima da platéia. [...]. Trechos extraídos da obra Delta de Vênus (Artenova, 1978), da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977). Veja mais aqui.

BEIJO DE MULHER – Beijo de mulher medrosa / dado escondido, às escuras, / é a melhor das aventuras / que a alma do homem goza. / Convém que o beijo se tome / depois de renhida luta, / que é como se fosse fruta / comida por quem tem fome. / O beijo é concedido / com liberdade e franqueza / é como uma sobremesa / depois de um jantar sortido. / Mas o beijo que enamora / e provoca mais desejo / é quando a dona do beijo / soluça, suspira e chora. / Porém o melhor sabor / é quando a mulher nos nega: / porque então a gente pega / e beija seja onde for... Quadras do poeta paraibano Luís Dantas Quesado (Luiz Siqueira Dantas – 1850-1930), considerado o maior glosador do Brasil de todos os tempos.

PRÊMIO HERMILO BORBA FILHO DE LITERATURA
A Biblioteca Fenelon Barreto informa aos interessados que estão abertas até o próximo dia 09 de março de 2018, as inscrições nas categorias de conto, poema ou romance, do Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura. Maiores informações aqui.

Veja mais:
Errâncias de quem ama, promessas da paixão, A origem das estrelas & os Bororos Orientais, a música de o Richard Strauss & Leonie Rysanek, o teatro de Oscar Wilde, a escultura de Sonia Ebling de Kermoal, a arte de Dorothy Lafriner Bucket & Todo dia é dia da mulher aqui.
Origem da Vida & Programa Tataritaritatá aqui.
A Pesquisa, Michel Randan, Arthur Koestler, Alan Watts, A ignorância, a Natureza Humana & Metodologia Científica aqui.
Carl Gustav Jung, Pierre Weil & Tagore aqui.
Jorge de Sena, Habermas, Trova & Trovadorismo aqui.
Nietzsche, Oniomania & Shopaholic, Noam Chomsky, Madame de Staël, Flimar & Djavan aqui.
O Apocalipse da Atualidade, Heidegger, Carl Rogers, Konrad Lorenz & Ubiratan D’Ambrósio aqui.
José Saramago, Rogel Samuel & Programa Tataritaritatá aqui.
Gato escaldado pra se enturmar é um pé na frente e outro atrás aqui.
Dos temores da infância aos arroubos juvenis aqui.
O verbo no coração do silêncio aqui.
O trauma da moça aqui.
É pra ela, Carlos Gomes & Silviane Bellato, Neila Tavares, Heloneida Studart, Maria Esther Maciel, Monica Bellucci, Piet Mondrian, Edwin Landseer & A lenda Mundurucu Quando mandavam as mulheres aqui.
Direito de Família, Psicologia Escolar, Pedofilia, Liderança & Psicose Puerperal aqui.
O pensamento de Darcy Ribeiro aqui.
Direito Autoral, Psicologia Social, Trabalho & Doenças Ocupacionais aqui.
Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido & da Autonomia aqui.
As trelas do Doro: vai tomar no quiba, porra aqui.
Contribuições da Filosofia Greco-Romana para a Psicologia & I FLIC de Cambuquira aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.

ARTE DE LUCIAH LOPEZ
As pedras (resignadas) criam limo
e nas asas das andorinhas, o vento faz cafuné!
A tampa do mundo se abre, e,
eu vejo o céu___________ o mesmo céu
que embalou "il sommo poeta"
A Terra, exilada dos meus pés tenta dormir
resfolegando ...
E a Grande Mãe, pisca seu olho esquerdo
contraindo o canto dos lábios
num meio riso (cúmplice?!) deixando no ar
só a ideia e o começo da história.
É mesmo supra-sumo!!
Poema Passa tempo, antologia poética Conexão III (Feira do Poeta de Curitiba), organizada por Elciane Goedert & Amauri Nogueira com o poema Fonte, da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...