domingo, junho 19, 2016

É DOMINGO NAS MÃOS



É DOMINGO NAS MÃOS – (Imagem: acervo LAM) - Dê-me a sua mão, as minhas são suas e faço delas a cuia pra gente beber água juntos. Vamos de mãos dadas, eu lhe trago flores, acordes de cordas ou teclas, um solo ao piano, uma pincelada na tela desenhando cantigas que emanam do coração. Vamos de mãos dadas semear os campos e colher da plantação o fruto da propícia estação. Vamos saber se é quente ou frio, se áspero ou liso, se viscoso, se grosso ou fino na qualidade dos tecidos, a dimensão dos sólidos, a textura de tudo. E no almoço ou na ceia puxo a cadeira por cortesia, aperto a da amiga e a do amigo, saúdo a todos ou faço discurseira, aliso a pele em sinais de afago ou afeto, roço a carne em sinal de carícia e pego com força em resposta à sedução, vasculhando inquieto por baixo das vestes em toda intimidade a descobri-la maior que o planeta. E bato nas costas abraçado, aliso o cabelo, estalo os dedos tagarelas e abro caminho, tenho as rédeas ou simplesmente agito diabolicamente pra tirar proveito da ocasião provocativa. E se falo pelos cotovelos dou ênfase na gesticulação, tudo tinindo ao polegar pra quem mais quiser – exceto no Oriente Médio onde é gesto obsceno. Ou em riste, atenção! Preste bem atenção! Belisco se negligenciar, seguro firme e mexemos a comida e a colher, o garfo à boca, o cigarro ou cachimbo, copo ou garrafa. Acendemos a luz e aponto com o fura-bolo praquilo que chamo atenção – dizem que é falta de educação. Se em situação aversiva, o maior-de-todos pro que desgosto ou reprovo até mandar tomar na tarraqueta. Do contrário, um sinal de Shaka, ou levo aos bolsos tímidos, espanto tudo, tanjo pra lá. Senão, lá vai figa, até pra quem um tantinho tem só um mindinho. Se estão soltas, brincamos de tudo e chamo o distante que já vem, ou aceno de adeus e já vou. Espalmo em riste a mandar parar, guarda-chuva pra não se molhar, rebato a bola, chapinho nas águas, atiro pedras, limpo as vistas e aparo nos olhos o Sol que incendeia. Com sono, levo à boca até quando espanto, faço soar o sino, conto até dez, identifico quantidades. Impaciente, assento os óculos no cotoco da venta, corro a lista e as entrelinhas no livro. Às pressas, vou ao corrimão, meço tamanhos e distâncias, dirijo o leme ou volante, paraí seu táxi, peraí condução. Quando saímos, carrego encomendas, tudo pesado na festa das sacolas. Quando fica difícil coço a orelha e o cocuruto– eita coceirinha desgramada –, pro alto rendido no imprevisto ou aplaudindo com as chicólatras. Ah, leio em Braille, teclo mensagens, digito texto das tripas coração, escrevo cartas e sou só paixão. Se vamos ao trabalho, as unhas cavando o chão, tiro leite das pedras, ordenha de vacas no curral, pego frutas no quintal. No outro expediente dou marteladas, manejo a tesoura, fabrico artefatos, manuseio brebotes e espremo as horas e o serviço com punho cerrado pro pugilato, ou espalmada pro karatê, ocupação em ofício de manufatura, traçando ferramentas, mecanismos, processos. Chegamos em casa já tarde da noite, viro a chave, puxo o trinco, abro a porta. É hora de descanso, agito a percussão ou seguro o queixo, assôo o nariz, bato punheta pra aprumar na inheta. Enfim, dou de paz e amor paratodos. E de mãos dadas somos das falanges aos tendões o carpo e o metacarpo entre mamíferos primatas e bípedes, a função dos quirodáctilos diante da dialética pé-mã0-cérebro de Morin, quando sabemos nossa identidade nas impressões digitais e nos perdemos nos caminhos das linhas até dar fé de Drummond: tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. E com as duas juntas, prostrados em reverência ou firmando vitória, empunhamos o archote da vida na comunhão do amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Imagem: a arte do pintor italiano Giuseppe Cacciapuoti.

O QUE SERÁ (À FLOR DA PELE)
Imagem: Under my skin, by Nora Dorian.
O que será que me dá / Que me bole por dentro, será que me dá / Que brota à flor da pele, será que me dá / E que me sobe às faces e me faz corar / E que me salta aos olhos a me atraiçoar / E que me aperta o peito e me faz confessar / O que não tem mais jeito de dissimular / E que nem é direito ninguém recusar / E que me faz mendigo, me faz suplicar / O que não tem medida, nem nunca terá / O que não tem remédio, nem nunca terá / O que não tem receita.
O que será que será / Que dá dentro da gente e que não devia / Que desacata a gente, que é revelia / Que é feito uma aguardente que não sacia / Que é feito estar doente de uma folia / Que nem dez mandamentos vão conciliar / Nem todos os unguentos vão aliviar / Nem todos os quebrantos, toda alquimia / Que nem todos os santos, será que será / O que não tem descanso, nem nunca terá / O que não tem cansaço, nem nunca terá / O que não tem limite.
O que será que me dá / Que me queima por dentro, será que me dá / Que me perturba o sono, será que me dá / Que todos os tremores me vêm agitar / Que todos os ardores me vêm atiçar / Que todos os suores me vêm encharcar / Que todos os meus nervos estão a rogar / Que todos os meus órgãos estão a clamar / E uma aflição medonha me faz implorar / O que não tem vergonha, nem nunca terá / O que não tem governo, nem nunca terá / O que não tem juízo.
O que será (à flor da pele), de Chico Buarque. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
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PESQUISA

Enciclopédia do cinema brasileiro (Senac, 2000), organizado por Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda, trazendo verbetes sobre a produção cinematográfica nacional. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
- Mas D. Nina,
aquilo que é o tal de cinema?
O homem saiu atrás da moça,
pega aqui, pega acolá,
pega aqui, pega acolá,
até que pegou-la.
Pegou-la e sustentou-la!
Danou-lhe beijo,
danou-lhe beijo!…
Depois entram pra dentro dum quarto!
Fêz-se aquela escuridão
e só se via o lençol bulindo…
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- Me diga uma coisa, D. Nina:
isso presta pra moça ver?
(Cinema, do livro Poemas de Ascenso Ferreira, Nordestal, 1981). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:

[...] Para o homem hodierno, a imagem do real fornecida pelo cinema é infinitamente mais significativa, pois se ela atinge esse aspecto das coisas que escapa a qualquer instrumento – o que se trata de exigência legítima de toda obra de arte – ela só consegue exatemente porque utiliza instrumentos destinados a penetrar, do modo mais insensivo, no coração da realidade. [...].
Trecho do livro A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução (Abril Cultural, 1980), o filósofo, sociólogo, ensaísta e crítico literário alemão Walter Benjamim (1892-1940). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA

Dia do Cinema Brasileiro.

Veja mais sobre Doro & o Big Shit Bôbras, Salman Rushdie, Ludwig Uhland, Paul McCartney, Blaise Pascal, Andre Derain, Ridley Scott, Sean Young, Paulina Bonaparte & Venus Victrix, Antonio Canova & Cesar Obeid aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: The erotic line, do artista plástico Umberto Brunelleschi.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá.
Veja aqui.

VARGAS LLOSA, RANCIÈRE, BADIOU, WAGNER TISO, QUINET, BRUNO TOLENTINO, FRANCINE VAYSSE, FRESNAYE, NÁ OZZETTI & JOAQUIM NABUCO

A BARATA & O MONSTRO - Imagem: The Architect (1913), do pintor cubista francês Roger de la Fresnaye (1885-1925). - A noite e a solid...