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domingo, junho 19, 2016

ASCENSO, WALTER BENJAMIM, CHICO BUARQUE, NORA DORIAN, CACCIAPUOTI, BRUNELLESCHI & CINEMA BRASILEIRO

É DOMINGO NAS MÃOS – (Imagem: acervo LAM) - Dê-me a sua mão, as minhas são suas e faço delas a cuia pra gente beber água juntos. Vamos de mãos dadas, eu lhe trago flores, acordes de cordas ou teclas, um solo ao piano, uma pincelada na tela desenhando cantigas que emanam do coração. Vamos de mãos dadas semear os campos e colher da plantação o fruto da propícia estação. Vamos saber se é quente ou frio, se áspero ou liso, se viscoso, se grosso ou fino na qualidade dos tecidos, a dimensão dos sólidos, a textura de tudo. E no almoço ou na ceia puxo a cadeira por cortesia, aperto a da amiga e a do amigo, saúdo a todos ou faço discurseira, aliso a pele em sinais de afago ou afeto, roço a carne em sinal de carícia e pego com força em resposta à sedução, vasculhando inquieto por baixo das vestes em toda intimidade a descobri-la maior que o planeta. E bato nas costas abraçado, aliso o cabelo, estalo os dedos tagarelas e abro caminho, tenho as rédeas ou simplesmente agito diabolicamente pra tirar proveito da ocasião provocativa. E se falo pelos cotovelos dou ênfase na gesticulação, tudo tinindo ao polegar pra quem mais quiser – exceto no Oriente Médio onde é gesto obsceno. Ou em riste, atenção! Preste bem atenção! Belisco se negligenciar, seguro firme e mexemos a comida e a colher, o garfo à boca, o cigarro ou cachimbo, copo ou garrafa. Acendemos a luz e aponto com o fura-bolo praquilo que chamo atenção – dizem que é falta de educação. Se em situação aversiva, o maior-de-todos pro que desgosto ou reprovo até mandar tomar na tarraqueta. Do contrário, um sinal de Shaka, ou levo aos bolsos tímidos, espanto tudo, tanjo pra lá. Senão, lá vai figa, até pra quem um tantinho tem só um mindinho. Se estão soltas, brincamos de tudo e chamo o distante que já vem, ou aceno de adeus e já vou. Espalmo em riste a mandar parar, guarda-chuva pra não se molhar, rebato a bola, chapinho nas águas, atiro pedras, limpo as vistas e aparo nos olhos o Sol que incendeia. Com sono, levo à boca até quando espanto, faço soar o sino, conto até dez, identifico quantidades. Impaciente, assento os óculos no cotoco da venta, corro a lista e as entrelinhas no livro. Às pressas, vou ao corrimão, meço tamanhos e distâncias, dirijo o leme ou volante, paraí seu táxi, peraí condução. Quando saímos, carrego encomendas, tudo pesado na festa das sacolas. Quando fica difícil coço a orelha e o cocuruto– eita coceirinha desgramada –, pro alto rendido no imprevisto ou aplaudindo com as chicólatras. Ah, leio em Braille, teclo mensagens, digito texto das tripas coração, escrevo cartas e sou só paixão. Se vamos ao trabalho, as unhas cavando o chão, tiro leite das pedras, ordenha de vacas no curral, pego frutas no quintal. No outro expediente dou marteladas, manejo a tesoura, fabrico artefatos, manuseio brebotes e espremo as horas e o serviço com punho cerrado pro pugilato, ou espalmada pro karatê, ocupação em ofício de manufatura, traçando ferramentas, mecanismos, processos. Chegamos em casa já tarde da noite, viro a chave, puxo o trinco, abro a porta. É hora de descanso, agito a percussão ou seguro o queixo, assôo o nariz, bato punheta pra aprumar na inheta. Enfim, dou de paz e amor paratodos. E de mãos dadas somos das falanges aos tendões o carpo e o metacarpo entre mamíferos primatas e bípedes, a função dos quirodáctilos diante da dialética pé-mã0-cérebro de Morin, quando sabemos nossa identidade nas impressões digitais e nos perdemos nos caminhos das linhas até dar fé de Drummond: tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. E com as duas juntas, prostrados em reverência ou firmando vitória, empunhamos o archote da vida na comunhão do amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Imagem: a arte do pintor italiano Giuseppe Cacciapuoti.

O QUE SERÁ (À FLOR DA PELE)
Imagem: Under my skin, by Nora Dorian.
O que será que me dá / Que me bole por dentro, será que me dá / Que brota à flor da pele, será que me dá / E que me sobe às faces e me faz corar / E que me salta aos olhos a me atraiçoar / E que me aperta o peito e me faz confessar / O que não tem mais jeito de dissimular / E que nem é direito ninguém recusar / E que me faz mendigo, me faz suplicar / O que não tem medida, nem nunca terá / O que não tem remédio, nem nunca terá / O que não tem receita.
O que será que será / Que dá dentro da gente e que não devia / Que desacata a gente, que é revelia / Que é feito uma aguardente que não sacia / Que é feito estar doente de uma folia / Que nem dez mandamentos vão conciliar / Nem todos os unguentos vão aliviar / Nem todos os quebrantos, toda alquimia / Que nem todos os santos, será que será / O que não tem descanso, nem nunca terá / O que não tem cansaço, nem nunca terá / O que não tem limite.
O que será que me dá / Que me queima por dentro, será que me dá / Que me perturba o sono, será que me dá / Que todos os tremores me vêm agitar / Que todos os ardores me vêm atiçar / Que todos os suores me vêm encharcar / Que todos os meus nervos estão a rogar / Que todos os meus órgãos estão a clamar / E uma aflição medonha me faz implorar / O que não tem vergonha, nem nunca terá / O que não tem governo, nem nunca terá / O que não tem juízo.
O que será (à flor da pele), de Chico Buarque. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
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PESQUISA

Enciclopédia do cinema brasileiro (Senac, 2000), organizado por Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda, trazendo verbetes sobre a produção cinematográfica nacional. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
- Mas D. Nina,
aquilo que é o tal de cinema?
O homem saiu atrás da moça,
pega aqui, pega acolá,
pega aqui, pega acolá,
até que pegou-la.
Pegou-la e sustentou-la!
Danou-lhe beijo,
danou-lhe beijo!…
Depois entram pra dentro dum quarto!
Fêz-se aquela escuridão
e só se via o lençol bulindo…
…………………………………….
- Me diga uma coisa, D. Nina:
isso presta pra moça ver?
(Cinema, do livro Poemas de Ascenso Ferreira, Nordestal, 1981). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:

[...] Para o homem hodierno, a imagem do real fornecida pelo cinema é infinitamente mais significativa, pois se ela atinge esse aspecto das coisas que escapa a qualquer instrumento – o que se trata de exigência legítima de toda obra de arte – ela só consegue exatemente porque utiliza instrumentos destinados a penetrar, do modo mais insensivo, no coração da realidade. [...].
Trecho do livro A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução (Abril Cultural, 1980), o filósofo, sociólogo, ensaísta e crítico literário alemão Walter Benjamim (1892-1940). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA

Dia do Cinema Brasileiro.

Veja mais sobre Doro & o Big Shit Bôbras, Salman Rushdie, Ludwig Uhland, Paul McCartney, Blaise Pascal, Andre Derain, Ridley Scott, Sean Young, Paulina Bonaparte & Venus Victrix, Antonio Canova & Cesar Obeid aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: The erotic line, do artista plástico Umberto Brunelleschi.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá.
Veja aqui.

segunda-feira, julho 21, 2014

EEVA-LIISA MANNER, SELENA KITT, JULIANNE DAVIDOW & TIA MARIA!...

 


SALVE TIA MARIA!... – A negra feiticeira era temida. Tia Maria era uma mulher madura cuja fama corria longe! Tornou-se vivandeira que idosa engajou-se à Coluna Prestes a partir de São Paulo, percorrendo milhares de quilômetros pelos sertões do Brasil, por 13 estados brasileiros. Por essa ação ela julgava combater a injustiça e as desigualdades sociais. Era a cozinheira dedicada no destacamento de Juarez Távora. Passou privações, combateu, dividia tarefas, integrou marcha armada e os confrontos. Ao lado dela a valente enfermeira austríaca Hermínia, a brava enfermeira alemã Elza Schimidk, a combatente aguerrida Alzira generala rebelde, a destemida amazona Santa Rosa que pariu seu filho em combate; a espevitada mulata Onça; a belíssima Albertina que foi estuprada e degolada brutalmente pelos soldados governistas; a Cara de Macaca, a Isabel-Pisca-Pisca, a Chiquinha, Anna Alice, Maria Emília, Tia Manoela Gorda, Ai Jesus, Etelvina, Cândida, Eufrázia, Ernestina, Emília Dias, Chuvinha, Xatuca, Ernestina, Lamparina, Gaúcha, Amália, Letícia, Maria Revoltosa e Ótima, todas apaixonadas pela causa e corajosas livres, donas de si. Era ela que protegia a Coluna, diziam unanimemente. Até os soldados legalistas acusavam-na de terrível feiticeira! Tanto é que em um sangrento combate em Piancó, na Paraíba, junto com outros combatentes extraviados, foi presa e barbaramente assassinada, padeceu nas mãos dos inimigos, uma morte com requinte de crueldade: separada dos demais por causa dos seus supostos poderes mágicos de usar a força dos mortos para garantir a vida dos vivos, ela foi levada ao cemitério para ser executada. Foi torturada e obrigada a cavar a própria cova. Depois esfaqueada para se tornar uma real lenda. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - É hora de seguir em frente e focar nas coisas que negligenciamos: arte, beleza e a união do humanismo e da religião. Recomendo ao leitor que leia o livro com atenção. pense nas palavras que você lê e reserve um tempo com as imagens. existe aqui a possibilidade de uma nova vida, de encontrar uma saída para as filosofias desumanizantes que controlam o nosso mundo. Pensamento do psicoterapeuta estadunidense Thomas Moore, autor da obra: Cuidado da Alma: Um Guia para Cultivar Profundidade e Sagrado na Vida Cotidiana.

 

ALGUÉM FALOU: O desejo erótico é na verdade um desejo de fundir-se com algo maior do que você mesmo. Pois todo tipo de amor é uma força que contém a promessa de nos levar além das limitações de nossas vidas individuais. Pensamento da escritora e professora estadunidense Julianne Davidow.

 

A VERDADE – [...] a verdade não existe fora do poder ou sem poder [...]. A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder [...]. Trechos extraídos da obra Microfísica do poder (Graal, 1979), do filósofo, historiador, filólogo, teórico social e crítico literário francês Michel Foucault (1926-1984). Veja mais aqui e aqui.

 

A REUNIÃO - [...] Ela tinha um gosto doce, como laranja, sol líquido em minha boca enquanto nos beijávamos, nossas línguas brincando juntas. [...] Ficamos assim por um tempo, respirando juntos, observando as sombras tremulando nas paredes e nos rostos uns dos outros. Ela brincou com uma mecha molhada do meu cabelo, enrolando-a no dedo. Deveria ter sido estranho, mas de alguma forma não foi. Senti algo se movendo entre nós, como luz ou calor, crescendo a cada respiração. [...]. Trechos extraídos da obra A Baumgartner Reunion (Createspace Independent, 2009), da escritora estadunindense Selena Kitt, que na sua antologia fumegante expressou: O desejo não quer exposição, nem luz nem sol. A luxúria busca a escuridão, um calor profundo e secreto, algo enterrado, um tesouro a ser encontrado.

 

POEMAS - A CIDADE - Como as casas ascenderam nesta cidade, \ os abismos se aprofundaram, a água escureceu, \ logo estará rastejando pelas ruas.\ As grades estão enferrujadas, \ o lençol freático está subindo, \ os porões estão afundando.\ O medo está a aumentar, ou a ser encoberto \ por trás de uma discrição estrangulada, \ de surtos de criminalidade.\ Teremos que ir para os barcos, \ vocês não ouvem a agitação da água, \ ir para os barcos e esquecer os chapéus.\ Ou se você mergulhar, oh, corajosamente, \ leve a palavra \ para o outro lado das luzes de socorro. II - Meu quarto, com cheiro de floresta, \ fica cada vez mais vermelho \ com o sol poente.\ O coração das paredes de sequóia está escurecendo, \ a luz difratada está fria.\ A noite é vermelha e velha \ como um espectro de ferro. III - Se a dor fumegasse, \ a fumaça envolveria a terra. \ No entanto, sob esta dor há fogo, \ meu coração que queima, queima \ e não queima. IV - E agora coloque gelo na sua música. \ Isso se transformará em matemática. \ Coloque gelo na sua música agora. V - Abro-o à luz de um lampião – \ um livro amarelado que cheira a grama e mofo.\ Folheando as páginas, um som de chuva \ e uma leve brisa atravessa\ de página em página de um campo de batalha. \ A fumaça do cartucho se espalha como relógios de dente-de-leão.\ alvoroço. Silêncio. Muitos cavalos estão vagando \ e homens sem cavalos. Através de frestas nas venezianas\ sons e cheiros camponeses. Os gritos da andorinha. \ Anis, salsa bovina. Papoula, relógios de dente de leão\ e cartuchos nas páginas de um livro. \ O círculo de luz suave da lâmpada investe em um campo de sangue. Poemas da poeta, dramaturga e tradutora finlandesa Eeva-Liisa Manner (1921- 1995), que sobre a guerra de sua infância, ela expressou: Os anos de guerra obscureceram minha juventude. Eu tinha dezassete anos quando os aviões russos começaram a bombardear a minha cidade natal, Wiborg, em 30 de Novembro de 1939, danificando-a gravemente. No armistício, Wiborg teve de ser cedida, permaneceu atrás da fronteira – uma fonte inesgotável de nostalgia para quem tinha um gosto felino e perseverante pela propriedade rural. Mesmo aos dez anos de idade, tive sonhos arrepiantes sobre a destruição de Wiborg e, desde então, tenho sido assombrado por reflexões sobre a natureza e o mistério do tempo. Acredito que temos uma falsa concepção do tempo; tudo já aconteceu em algum lugar de uma dimensão desconhecida.

 



PHILIPPE ARIÈS – O historiador e filósofo francês Philippe Ariès (1914-1984), em seu livro História social da criança e da família, defendendo que a etapa da infância é aquela que compreende o processo de formação biológica da criança que se encontra suscetível à socialização e que, por isso, para essa criança são necessários cuidados especiais. As suas ideias de realizar uma abordagem histórica acerca do tratamento dado à criança desde tempos mais remotos, promoveu uma nova ótica para a educação infantil, organizando-se o entendimento acerca da criança, a partir da identificação da classificação da criança-adulto ou infância negada, a criança-filho-aluno ou criança institucionalizada e a criança-sujeito social ou sujeito de direitos. Tais entendimentos levaram a necessidade de compreensão do ser a criança como um sujeito social, redesenhando a educação infantil com o compromisso da escola e da família. Veja mais aqui e aqui.


Imagem: Nu, do pintor tcheco Emil Orlik (1870-1932)

Ouvindo o Concerto For Piano, Violin, Cello & Orchestra In C Major Op.56 'Thriple Concerto, de Ludwig Van Beethoven (1770 – 1827), com o violino de Isaac Stern (1920 – 2001), piano de Emanuel Ax e regência de Michael Stern com a London Symphony Orchestra (1992).

A OBRA DE ARTE NA ERA DA SUA REPRODUTIVIDADE TÉCNICA, DE WALTER BENJAMIN - [...] No interior de grandes períodos históricos, a forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao mesmo que seu modo de existência. O modo pelo qual se organiza a percepção humana, o meio em que ela se dá, não é apenas condicionado naturalmente, mas também historicamente. A época das invasões dos bárbaros, durante a qual surgiram as indústrias artísticas do Baixo Império Romano e a Gênese de Viena, não tinha apenas uma arte diferente da que caracterizava o período clássico, mas também uma outra forma de percepção. Os grandes estudiosos da escola vienense, Riegl Wickhoff, que se revoltaram contra o peso da tradição classicista, sob o qual aquela arte tinha sido soterrada, foram primeiros a tentar extrair dessa arte algumas conclusões sob a organização da percepção nas épocas em que ela estava e vigor. [...] Em suma, o que é a aura? É uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante por mais perto que ela esteja. Observar, em repouso, numa tarde de verão, uma cadeia de montanhas no horizonte, ou um galho, que projeta sua sombra sobre nós, significa respirar a aura dessas montanhas, desse galho. Graças a essa definição, é fácil identificar os fatores sociais específicos que condicionam o declínio atual da aura. Ela deriva de duas circunstâncias, estreitamente ligadas à crescente difusão e intensidade dos movimentos de massas. Fazer as coisas "ficarem mais próximas" é uma preocupação tão apaixonada das massas modernas como sua tendência a superar o caráter único de todos os fatos através da sua reprodutibilidade. Cada dia fica mais irresistível a necessidade de possuir o objeto, de tão perto quanto possível, na imagem, ou antes, na sua cópia, na sua reprodução. Cada dia fica mais nítido a diferença entre a reprodução, como ela nos é oferecida pelas revistas ilustradas e pelas atualidades cinematográficas, e a imagem. Nesta, a unidade e a durabilidade se associam tão intimamente como, na reprodução, a transitoriedade e a repetibilidade. Retirar o objeto do seu invólucro, destruir sua aura, é a característica de uma forma de percepção cuja capacidade de captar "o semelhante no mundo” é tão aguda, que graças à reprodução ela consegue captá-lo até no fenômeno único. Assim se manifesta na esfera sensorial a tendência que na esfera teórica explica a importância crescente da estatística. Orientar a realidade em função das massas e as massas em função da realidade é um processo de imenso alcance, tanto para o pensamento como para a intuição. [...] Uma das tarefas mais importantes da arte foi sempre a de gerar uma demanda cujo atendimento integral só poderia produzir-se mais tarde. A história de toda forma de arte conhece épocas críticas em que essa forma aspira a efeitos que só podem concretizar-se sem esforço num novo estágio técnico, isto é, -numa nova forma de arte. As extravagâncias e grosserias artísticas daí resultantes e que se manifestam sobretudo nas chamadas "épocas de decadência" derivam, na verdade, do seu campo de forças historicamente mais rico. Ultimamente, foi o dadaísmo que se alegrou com tais barbarismos. Sua impulsão profunda só agora pode ser identificada: o dadaísmo tentou produzir através da pintura (ou da literatura) os efeitos que o público procura hoje no cinema. [...] A massa é a matriz da qual emana, no momento atual, toda uma atitude nova com relação à obra de arte. A quantidade converteu-se em qualidade. O número substancialmente maior de participantes produziu um novo modo de participação. O fato de que esse modo tenha se apresentado inicialmente sob uma forma desacreditada não deve induzir em erro o observador. Afirma-se que as massas procuram na obra de arte distração, enquanto o conhecedor a aborda com recolhimento. Para as massas, a obra de arte seria objeto de diversão, e para o conhecedor, objeto de devoção. Vejamos mais de perto essa crítica. A distração e o recolhimento representam um contraste que pode ser assim formulado: quem se recolhe diante de urna obra de arte mergulha dentro dela e nela se dissolve, como ocorreu com um pintor chinês, segundo a lenda, ao terminar seu quadro. A massa distraída, pelo contrário, faz a obra de arte mergulhar em si, envolve-a com o ritmo de suas vagas, absorve-a em seu fluxo. O exemplo mais evidente é a arquitetura. Desde o início, a arquitetura foi o protótipo de uma obra de arte cuja recepção se dá coletivamente, segundo o critério da dispersão. As leis de sua recepção são extremamente instrutivas. [...] A crescente proletarização dos homens contemporâneos e a crescente massificação são dois lados do mesmo processo. O fascismo tenta organizar as massas proletárias recém-surgidas sem alterar as relações de produção e propriedade que tais massas tendem a abolir. Ele vê sua salvação no fato de permitir às massas a expressão de sua natureza, mas certamente não a dos seus direitos. Deve-se observar aqui, especialmente se pensarmos nas atualidades cinematográficas, cuja significação propagandística não pode ser superestimada, que a reprodução em massa corresponde de perto à reprodução das massas. Nos grandes desfiles, nos comícios gigantescos, nos espetáculos esportivos e guerreiros, todos captados pelos aparelhos de filmagem e gravação, a massa vê o seu próprio rosto. Esse processo, cujo alcance é inútil enfatizar, está estreitamente ligado ao desenvolvimento das técnicas de reprodução e registro. De modo geral, o aparelho apreende os movimentos de massas mais claramente que o olho humano. Multidões de milhares de pessoas podem ser captadas mais exatamente numa perspectiva a voo de pássaro. E, ainda que essa perspectiva seja tão acessível ao olhar quanto à objetiva, a imagem que se oferece ao olhar não pode ser ampliada, como a que se oferece ao aparelho. Isso significa que os movimentos de massa e em primeira instância a guerra constituem uma forma do comportamento humano especialmente adaptada ao aparelho. As massas têm o direito de exigir a mudança das relações de propriedade; o Fascismo permite que elas se exprimam conservando, ao mesmo tempo, essas relações. Ele desemboca, consequentemente, na estetização da vida política. [...] É a forma mais perfeita do  art pour l'art. Na época de Homero, a Humanidade oferecia-se em espetáculo aos deuses olímpicos agora, ela se transforma em espetáculo para si mesma. Sua auto-alienação atingiu o ponto que lhe permite viver sua própria destruição como uni prazer estético de primeira ordem. Eis a estetização da política, como a pratica o fascismo. O comunismo responde com a politização da arte. A OBRA DE ARTE NA ERA DA SUA REPRODUTIVIDADE TÉCNICA – O livro A obra de arte na era da sua reprodutividade técnica, do filósofo, sociólogo ensaísta, critico literário e tradutor judeu alemão, Walter Benjamin (1892-1940), é um ensaio que foi publicado em 1936, tratando da reprodutibilidade técnica, autenticidade, destruição da aura, ritual e política, valor de culto e valor de exposição, fotografia. valor de eternidade, fotografia e cinema como arte, cinema e teste, o intérprete cinematográfico, exposição perante a massa, exigência de ser filmado, pintor e cinegrafista, recepção dos quadros, camundongo Mickey, Dadaísmo, recepção tátil e recepção ótica e estética da guerra. Foi produzido em um esforço para descrever uma teoria materialista da arte, que seria "útil para a formulação das exigências revolucionárias na política da arte", fazendo uma comparação entre teatro e cinema, fotografia e pintura, de como a aura foi deturpada ao longo dos anos e de como a existência parasitária no ritual foi perdendo-se com a ideologia burguesa. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIA
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da sua reprodutividade técnica. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

NEUSOPSICOLOGIA HOJE – O livro Neuropsicologia hoje, organizado por Vivian Maria Andrade, Flavia Heloisa dos Santos e Orlando F. A. Bueno, aborda acerca dos aspectos instrumentais e metodológicos da avaliação psicológica, bases estruturais do sistema nervoso, conceito de inteligência, atenção, neurobiologia da atenção visual, funções executivas, memória e amnésia, neurobiologia da linguagem, neuropsicologia do desenvolvimento, memória operacional e estratégias de memória, avaliação neuropsicológica infantil, reabilitação cognitiva pediátrica, epilepsia, avalia neuropsicológica em traumatismo craniencefálico, aspectos cognitivos da esclerose múltipla, modelo de reabilitação e atendimento interdisciplinar, Doença de Parkinson e seus aspectos neuropsicológicos, aspectos neuropsícológicos associados ao uso de cocaína, envelhecimento e memória, avaliação e reabilitação neuropsicológica no idoso e redução da assimetria hemisférica em adultos mais velhos sob a perspectiva do modelo Harold, entre outros temas. REFERÊNCIA: ANDRADE, Vivian; SANTOS, Flavia; BUENO, Orlado (Orgs.). Neuropsicologia hoje. Porto Alegre: Artmed, 2004. Veja mais aqui e aqui.

EDUCAÇÃO SEXUAL - a obra Educação sexual em 8 lições: como orientar da infância à adolescência – um guia para professores e pais, da sexóloga Laura Miller, abordando o tema sexualidade de forma franca, aberta e esclarecedora, com base nos livros, colunas e textos para jornais, revistas e internet, e como psicóloga clínica com atendimento a jovens, adultos, casais e famílias em seu consultório particular em São Paulo. MILLER, Laura. Educação sexual em 8 lições: como orientar da infância à adolescência – um guia para professores e pais. São Paulo Academia do Livro, 2013. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.



RUY JOBIM NETO - O autor teatral, roteirista, cartunista e blogueiro Ruy Jobim Neto tem um currículo invejável. Para começar é formado em cinema pela ECA/USP. É o criador do personagem Cão Jarbas (1989). É autor do livro Na Tigela com Jarbas (2002) e das revistas bimestrais Brincadeiras do Jarbas, lançadas em novembro de 1996. Também autor dos temas Santos Dumont, Zumbi, Guararapes e O padre do voador da coleção Heróis do Brasil. No teatro, entre outras tantas, é autor das peças teatrais Virgens à deriva (2007), Ao primeiro que viu a maré (que em 2011 foi traduzida e encenada em Londres), a premiada Do claustro (2008), Sobre o teu corpo duvidei (2008), Andares acima (2008), De eterno flerte, adoro ver-te (2008), Bem longe da Traçalândia (2009), Lourenço (2009), Dois para o saguão (2009) e lá vai mais um bocado. No cinema, roteiro e direção do filme Horário de meu verão (2010), curta-metragem Hyppólita (2011), roteiro e direção do O dia D E. J. Carvalho (2012), Alguém para conversar contigo quando anoitecer (2012), Todo dia é dia de ator (2012), Legendas (2013) e Barcos da Terra (2013) e deve ter mais. Além de tudo isso é integrante da Cia Mestremundo de Histórias, ministra aulas de Histórias em Quadrinhos, oficinas culturais, interpretação para locução de rádio, escreve crítica de cinema e vídeo, participou do Salão de Humor de Piracicaba, já contracenou com o ator Cláudio Mamberti, foi indicado como melhor ator coadjuvante no Mapa Cultural Paulista de 1995, pela participação no elenco O enigma dos Turins, edita quatro excelentes blog na rede e, acima de tudo, é um cara arretado! Pronto. O objetivo desse registro aqui é aplaudir de pé o trabalho desse grande artista. Abração amigo Ruy, sucesso procê!

Ouvindo Just like a woman, do Bob Dylan, na sensualíssima voz da Charlotte Gainsbourg

CHARLOTTE GAINSBOURG – Quem já teve a oportunidade de ouvir ou ver a maravilhosa arte da cantora e atriz francesa Charlotte Gainsbourg, sabe o que eu quero dizer. O primeiro deles La tentation d'Isabelle, do diretor Jacques Doillon (1985), depois Anna Oz, do diretor Eric Rochant (1996), Ma femme est une actrice dirigido por Yvan Attal (2001), entre muitos outros. Mas o destaque aqui vai para o provocador e encantador filme Nymphomaniac (2014), do cineasta dinamarquês Lars Von Trier, em que ela protagoniza de forma exuberante e provocadora toda trama proposta na busca por algo e carregado de um tema tabu, exigindo que se assista completamente despido de moralismo ou preconceito.


MARCO LEAL – O meu primeiro contato com o trabalho musical com o cantor e compositor Marco Leal foi no Clube Caiubi de Compositores, o espaço mais democrático da música brasileira. Dele recebi o sei cd Namoradeira que curti bastante, destacando as faixas Festa de São João e O samba do morro. Parabéns, amigo Marco Leal, sucesso procê!!!


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Remexendo as catracas do quengo e queimando as pestanas com coisas, coisitas e coisões, Débora Massmann, Boaventura de Souza Santos, Terêncio, O Fausto de Goethe, Ética, Saúde no Brasil & Big Shit Bôbras aqui.
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terça-feira, janeiro 29, 2008

WALTER BENJAMIM, CARL ROGERS, CÂMARA CASCUDO, FERNANDO VERISSIMO, FREINET, ROSZAK, GEIR CAMPOS, ELLEN TROTZIG, EPOMINA, ÍSIS NEFELIBATA & BIG SHIT BÔBRAS


 A arte da artista plastic norueguesa Ellen Trotzig (1878-1959)


BIG SHIT BÔBRAS: LIDERANÇA, A SEGUNDA EMBOANÇA.- Arte: Derinha Rocha. - O FECAMEPA, o festival que transformou o escambau no mais revolucionário modelo educacional do universo, tem a honra de apresentar: o BIG SHIT BÔBRAS! E com vocês, o mais requintado, o inimitável, o apoteótico galã número 1 da Alagoinhanduba AMFM, Zé Peiudo! - Gente da minha gente -, aparece Zé-Peiúdo todo engalanado e com uma voz pastosa de quem comeu e não gostou -, vamos ao primeiro momento de decisão dentro do sobrado onde estão reunidos os mais audaciosos participantes do maior reality show da paróquia, o Big Shit Bôbras! Como vão todos? - Maiômeno -, delatou Zé-Corninho? - Mais ou menos, Zé-Corninho, por que? - Issaqui é um fartura! - Tem de tudo, né? - Hum... de tudo? Só tem porquera e farta de desorganização. - Você quer dizer falta de organização? - De desorganização mermo.... - Cala boca, viado -, gritou Robimagaiver -, esse cara num sabe de nada! Isso é um bocó da peste. - Ô seu Zé-Peiudo!? -, chamou Mamão. - Diga Mamão! - Quano é qui a genti vai forunfar liberado, hem? -, perguntou Mamão. - Cala boca, abestalhado! -, gritou Vera -, olhai, seu Zé-Peiudo, diga logo ao que veio que a gente tem mais o que fazer. - Bom, bom -, disse Zé-Peiudo -, pois bem, estão todos reunidos aí? - Sim, todos! - Então vocês terão que escolher o líder de vocês. - Opa, isso é comigo -, adiantou-se Doro. - Sai pra lá, rafamé, o nosso líder é o Padre Bidião -, exigiu Afredo Bocoió. - Nada disso, eu sou o líder! -, sentenciou Zé Bilôla. - Ôxe, que macharia mais retardada, a líder sou eu, Vera, a maioral! -, sapecou Vera com o apoio e aplauso das outras mulheres. - Então, meus amigos e amigas – retomou Zé Peiúdo -, temos, então, 4 concorrentes: o Doro, o padre Bidião, o Zé Bilôla e a Vera. Vamos começar a votação. - Já instou inleito! -, disse o Doro. Começa então a maior corta-brocha, todo mundo se achando no direito de liderar a todos, um horror. Como ninguém se entende na derriça, Zé Peiúdo tenta resolver a querela com voto em secreto, mas a mundiçada não aceitou. - Quem quiser votar que declare seu voto! -, sacudiu Vera. - Assim nós inleitores nos sintiremos acuados, ora! -, argüiu Zé-Corninho. - O voto, como em qualquer lugar do mundo, é secreto! -, bateu o martelo Zé-Peiúdo e saiu distribuindo uma cédula de votação a cada um para que fossem individualmente à cabine de votação. Um ré-pra-trás da gota! Ao cabo de umas 3 horas, os trastes deram por votados. Zé Peiúdo então, abriu a urna e começou a contagem mencionando o nome dos contendores. Resultado: Vera, 13 votos, Padre Bidião, 5 votos, Doro 3 votos, Zé Bilôla, 3 votos. - Eita, se tem 12 homi e 12 mulé, por que a Vera tevi 13 votos? -, perguntou Doro. - Alguém cagou fora do caco -, disse Robimagaiver. - E eu já desconfio de quem seja.... -, desconfiado Doro fitava de soslaio pro Zé-Corinho. - Num foi eu não -, se defendeu Zé- Corninho. Um a um dos marmanjos tiveram conferência detalhada das feições pelo Doro e o Ribimagaiver, menos o padre Bidião que era insuspeito. As mulheres comemoravam a vitória. E no meio da conferência, obviamente, a culpa recaiu mesmo exatamente no Zé-Corninho que, pela segunda vez consecutiva, melava o voto. - Foi você seu corno! -, disse Robimagaiver já metendo uns bofetes bem dados no dissidente, apoiado por Mamão, Afredo, Doro e Zé Bilôla. - Minha gente, vamos se organizar -, chamou na grande o Zé Peiúdo -, e agora a líder Vera que ganhou 10 pontos, o quarto mais ajeitado da casa, o direito de escolher um parceiro para furunfar, indicar 3 nomes pro primeiro paredão, direito a não fazer nada e mandar todos cumprirem suas tarefas, isenta do quizz, imunidade para fazer o que bem entender, fiscalização das condutas e castigar os infratores, agora vai dar a sua primeira determinação. Com vocês, a líder Vera! - Meus amigos, amigas, eleitores e radiouvintes, quero agradecer a minha mãe por ter me parido, ao meu pai por ter me educado, aos meus avós por terem me mimado, aos meus tios e tias por me ajudarem a ser quem sou, aos meus amigos e amigas por dividirem comigo a vida toda, menos os meus 3 ex-maridos que são tudo uns feladasputas! Também quero agradecer a rádio Alagoinhanduba AM/FM, na pessoa do seu ilustre locutor, o safado do Zé Peiúdo que já me tentou umas 5 vezes mas tasquei-lhe processo de assédio nas costelas para ele aprender a ter vergonha na cara à base de óleo de peroba e chamo atenção das minhas colegas, amigas e eleitoras: macho tem que se foder de rachar o tampo. E vou começar com a minha primeira determinação assim: todos os homens deste sobrado têm que ficar nu, de 4 com o fiofó pra cima, com uma vela de 7 dia acesa e enfiada no bocal da quartinha até queimar as pregas dos nojentos. Pronto esta é a minha primeira determinação. Virou um escarcéu! Zé Peiúdo estava entre corado de vergonha e lívido de decepção pelas denúncias da Vera. Mas se riu meio amarelado com a determinação: - Isso é um vitupério! -, mangou o locutor. O bafafá não chegou a um consenso, mulheres e homens trocavam de posição, fixando a maior discórdia já vista. Ao lado de Vera somente Rolivânio, Penisvaldo, Vaginalda e Bucetildes que, depois disso, formaram a maior panelinha. O restante, tudo do contra. Vera exigiu cumprimento da sua determinação. Não houve acordo. Zé Peiúdo partiu para votação, se juntaram e novamente depositaram seu voto na urna. Resultado: 5 votos pró-Vera, 21 do contra. Foi a primeira desmoralização da liderança. Ela perdeu, então, mais da metade dos poderes. - Isso é uma sacanagem, fui traída! -, gritou Vera puta-da-vida! Aí fechou a conta e mandou ver. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA -  A narrativa revelará sempre a marca do narrador, assim como a mão do artista é percebida, por exemplo, na obra de cerâmica. Pensamento do filósofo, ensaísta e critico literário alemão Walter Benjamim (1892-1940). Veja mais aqui e aqui.

O MÉTODO NATURAL - [...] Observem, diante de um livro ou de uma página de jornal, a criança que aprendeu a ler segundo o método tradicional; faz um grande esforço de reconhecimento das peças a desmontar que combina laboriosamente. A mecânica funciona: lê de uma maneira certa, sem erros de pronúncia. Mas perguntem-lhe o sentido daquilo que leu: terá de reler o texto para o compreender, porque o lera da primeira vez para o decifrar. [...] E que não se julgue que este é um erro menor. Este divórcio entre a mecânica e o pensamento corre o risco, pelo contrário, de definiivo. Está na origem de uma nova forma de analfabetismo, para a qual ainda não se criou a denominação apropriada: as crianças, os adolescentes e os homens que são afetados por ele sabem decifrar mas nada compreendem do que lerem. [...]. Trecho extraído de O método natural: a aprendizagem da língua (Estampa, 1977), do pedagogo e pedagogista francês Celestin Freinet (1896-1966). Veja mais aqui.

CONHECIMENTO, INFORMAÇÃO & TECNOLOGIA - [...] Os computadores podem ser altamente vantajosos para canalizar uma grande quantidade de informação através de programas científicos e técnicos. Mas, mesmo nesse caso, devemos ter em mente que há ideias fundamentais de tipo não-matemático (podemos chamá-las de insights ou, talvez, de artigos de fé) que governam todo o pensamento científico... Quase toda ciência moderna foi desenvolvida a partir de uma série de ideias metafísicas e estéticas como: o universo consiste de matéria em movimento (Descartes); a natureza é governada por leis universais (Newton); conhecimento é poder (Bacon). Nenhuma dessas idéias é uma conclusão adquirida através de pesquisas científicas; nenhuma delas é o resultado de processamento de informações. Pelo contrário, são premissas que tornam possível a pesquisa científica e conduzem à descoberta de dados seguros. Novamente, são ideias-mestras sobre o mundo, e, enquanto tais, transcendem a informação. Elas emergem de uma dimensão da mente, de uma capacidade para insights que talvez tenha afinidade com o poder artístico e inspiração religiosa [...]. Extraído de O culto da informação (Brasiliense, 1988), do professor e pesquisador estadunidense Theodore Roszak (1933-2011). Veja mais aqui.

O AMOR DE EPOMINA – Epomina, também registrada como Peponila, era esposa do governador e aristocrata gaulês da tribo dos lingões e chefe dos éduos, Julio Sabino, ativo no Império Romano à época da Revolta Batava de 69. Sob alegação de ser um descendente dos Césares, após o suicídio de Nero, ele tentou tomar vantagem e estabelecer um Estado gaulês independente. Mesmo formando a colização com outros líderes e aderindo à Revolta Batava, ele foi derrotado pelos sequanos e pelas legiões liderada por Galo. Ele consegue fugir e ocultar-se. Sua esposa julga-o morto, a princípio, e já estava disposta a acompanhar o esposo ao outro mundo, quando recebe noticias dele. Procurando- às ocultas, encontraram-se e combinaram viver, doravante, de modo a não despertar as suspeitas dos inimigos. Continuará fingindo estar viúva, mas não deixará de encontra-lo. E assim vivem durante dez anos, tendo filhos e educando-os no esconderijo, sempre oculto à argúcia dos funcionários romanos. Mas lá um dia, suspeitou-se de tanta viagem dela e, seguindo-a, deu-se com o esconderijo deles. Apesar de toda a dedicação dessa heroína do amor conjugal, Vespasiano não quis comover-se e dar final no caso. Mandou matar os dois, despachando-os juntos. A história foi registrada pelo filósofo grego Plutarco e, posteriormente, aparece como heroína na obra Os miseráveis, de Victor Hugo. Veja mais aqui.

OS COMPADRES CORCUNDAS – Era uma vez, dois compadres corcundas, um Rico outro Pobre. O povo do lugar vivia zombando da corcunda do Pobre e não reparava no Rico. A situação do Pobre, que era caçador, andava meio mal. Certo dia, sem conseguir caçar nada, já tardinha, sem querer voltar para casa, o Pobre resolveu dormir ali mesmo no mato. Quando já ia pegando no sono ouviu uma cantiga ao longe, como se muita gente cantasse ao mesmo tempo. Saiu andando e andando no rumo da cantiga que não parava. Depois de muito andar, chegou numa clareira iluminada pelo luar e viu uma roda de gente esquisita, vestida de diamantes que brilhavam com a lua. Velhos, rapazes, meninos, todos cantavam e dançavam de mãos dadas, o mesmo verso, sem mudar: – “Segunda, Terça-feira, Vai, vem! Segunda, Terça-feira, Vai, vem!” Tremendo de medo, escondeu-se numa moita e ficou assistindo aquela cantoria que era sempre a mesma durante horas e horas. Depois ficou mais calmo e foi se animando. E como era metido a improvisador, entrou no meio da cantoria entoando: – “Segunda, Terça-feira, Vai, vem! E Quarta e Quinta-feira, Meu, bem!” Imediatamente todos ficaram em silêncio, e o povo espalhou-se à procura de quem havia falado. Pegaram o corcunda e o levaram para o meio da roda. Um velhão, então, perguntou com voz delicada: – Foi você quem cantou o verso novo da cantiga? – Sim, fui eu, Senhor! – Quer vender o verso? – perguntou o Velhão. – Olha, meu senhor, não a vendo. Melhor, dou-lhes de presente, porque gostei demais do baile animado. O Velho achou graça e todo aquele povo esquisito riu também. – Pois bem – disse o Velhão – uma mão lava a outra. Em troca do verso eu te tiro essa corcunda e esse povo te dá um Bisaco novo! O Velho passou a mão nas costas do caçador Pobre e a corcunda , como numa mágica, sumiu. As pessoas lhe deram um Bisaco novo e disseram que ele deveria abrir somente quando o sol nascesse. O Caçador meteu-se na estrada e foi embora. Assim que o sol nasceu abriu o bisaco e o encontrou cheio de pedras preciosas e moedas de ouro. No outro dia comprou uma casa com todos os móveis, comprou uma roupa nova e foi à missa porque era domingo. Lá na igreja encontrou o compadre Rico, também corcunda. Ele quase caiu de costas, ficou muito surpreso com a mudança. Mais espantado ficou quando o compadre, antes pobre e agora rico, contou tudo que aconteceu ao compadre Rico. Cheio de ganância, o Rico resolveu arranjar ainda mais dinheiro e livrar-se da corcunda nas costas. Esperou uns dias e depois se meteu no meio do mato. Tanto fez que ouviu a cantoria e foi na direção da toada. Achou o povo esquisito dançando numa roda e cantando: – “Segunda, Terça-feira, Vai, vem! Quarta e quinta-feira, Meu, bem!” O Rico não se conteve. Abriu o par de queixos e foi logo berrando: – “Sexta, Sábado e Domingo, Também!” Como antes, todos ficaram em silêncio. O povo esquisito voou para cima do homem atrevido e o levaram para o meio da roda onde estava o Velhão. Esse gritou, furioso: – Quem mandou se meter onde não é chamado, seu corcunda besta? Você não sabe que gente encantada não quer saber de Sexta-Feira, dia em que morreu o filho do alto?! O corcunda Rico olhou sem reação e nada disse. O Velhão continuou exclamando em voz alta: – Gente encantada não quer saber de Sábado, o dia em que morreu o filho do pecado, e nem de Domingo, dia em que ressuscitou quem nunca morre! Não sabia disso? Pois fique sabendo! E para que não se esqueça da lição, leve a corcunda que deixaram aqui e suma-se da minha vista, senão acabo com seu couro! O Velhão passou a mão no peito do corcunda Rico e deixou ali a corcunda do compadre Pobre. Depois, deram uma carreira no homem, que ele não sabe como chegou em casa. E assim viveu o resto de sua vida: Rico, mas com duas corcundas, uma na frente e outra atrás. As corcundas tornaram-se seu fardo, para ele deixar de ser ambicioso. Extraído da obra Contos tradicionais do Brasil (Global, 2006), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Veja mais aqui.

A TEORIA CENTRADA NA PESSOA - O psicólogo norte-americano Carl Rogers (1902-1987), é o criador da abordagem psicoterapeuta Terapia Centrada na Pessoa e elaborou uma teoria da personalidade com base em único fator motivacional semelhante ao conceito de autorrealização de Maslow, não resultando do estudo de pessoas emocionalmente saudáveis, mas da aplicação da sua teoria nos seus pacientes dos centros de aconselhamento da universidade. Essa teoria expressa a visão de Rogers sobre a personalidade humana e a coloca na responsabilidade pela melhora na pessoa ou no paciente, não no terapeuta, assumindo que as pessoas seriam capazes, consciente e racionalmente, de mudar os próprios pensamentos e comportamentos do indesejável para o desejável. Não acredita no individuo permanentemente reprimido por forças inconscientes ou por experiência da infância. Para ele, a personalidade é moldada pelo presente e pela maneira como o individuo percebe a circunstância. A maior força motivadora da personalidade é o impulso para a realização do self. Embora essa anciã pela autorrealização seja inata, pode ser incentivada ou reprimida por experiências da infância e por aprendizagem. Por isso, enfatizava a importância da relação entre mãe e filho por ela afetar o senso de self em evolução da criança. Se a mãe satisfaz a necessidade de amor do bebê, que ele chamou de atenção positiva – o amor incondicional da mãe pelo bebê -, ele provavelmente terá uma personalidade saudável. Se a mãe condiciona o amor pelo filho a um comportamento adequado (atenção positiva condicional), ele internalizará essa sua atitude e desenvolverá condições de valor. Nesse caso a criança se sentirá valorizada somente sob determinadas condições e tentará evitar comportamentos considerados reprováveis. Consequentemente, a noção de si mesma não se desenvolverá plenamente. A criança não será capaz de expressar todos os aspectos de si própria porque aprendeu que alguns desses comportamentos produzem rejeição. Desse modo, o principal requisito para o desenvolvimento da saúde psicológica é a atenção positiva incondicional na infância. A autorrealização consiste no mais alto nível da saúde psicológica, uma vez que as pessoas plenamente funcionais ou psicologicamente saudáveis apresentam características como mente aberta para aceitar qualquer tipo de experiência e de novidades, tendência a viver plenamente cada momento, capacidade para se orientar pelos próprios instintos e não pelas opiniões ou razões de outras pessoas, senso de liberdade em pensamento e ação, algo grau de criatividade e a necessidade continua de maximizar seu potencial. Ele descrevia as pessoas plenamente funcionais como sendo realizadas e não realizadas, para indicar que a evolução do self está em constante andamento. Essa ênfase está assentada na espontaneidade, na flexibilidade e na capacidade continua de crescimento. O CAMPO DA EXPERIÊNCIA – Há um campo de experiência único para cada individuo, este campo de experiência ou campo fenomenal contém tudo o que se passa no organismo em qualquer momento e que está potencialmente disponível à consciência. Inclui eventos, percepções, sensações e impactos dos quais a pessoa não toma consciência, mas poderia tornar se focalizasse a atenção nesses estímulos. É um mundo privativo e pessoal que pode ou não corresponder à realidade objetiva. Dentro do campo de experiência está o self que é uma gestalt organizada e consistente num processo constante de formar-se e reformar-se à medida que as situações mudam. O sel ideal é o conjunto das características que o individuo mais gostaria de poder reclamar como descritivas de si mesmo. Assim como o self, ele é uma estrutura móvel e variável que passa por redefinição constantemente. A congruência é definida como o grau de exatidão entre a experiência da comunicação e a tomada de consciência. Ela se relaciona às discrepâncias entre experienciar e tomar consciência. A incongruência ocorre quando há diferença entre a tomada de consciência, a experiência e a comunicação desta, sendo definida como habilidade de perceber com precisão e ao mesmo tempo como inabilidade ou incapacidade de comunicação precisa. As forças positivas em direção à saúde e ao crescimento são naturais e inerentes ao organismo.  Uma vez que todos os indivíduos possuem a capacidade de experienciar e de se tornarem consciente de seus desajustamentos. Comportamentos ou atitudes que negam algum aspecto do self são chamados de condições de valor. A personalidade e a identidade são uma gestalt continua. O valor dos relacionamentos é de interesse central porque a interação com o outro capacita um individuo a descobrir, encobrir, experienciar ou encontrar seu self real de forma direta. O casamento é um relacionamento não usual, é potencialmente de longo prazo, intensivo e carrega dentro de si possibilidade de manutenção do crescimento e do desenvolvimento, seguindo as mesmas leis que mantêm a verdade dos grupos de encontro, da terapia e de outros relacionamentos: dedicação e compromisso; comunicação-expressão de sentimentos; não aceitação de papéis; e tornar-se um self separado. O individuo saudável toma consciência de suas emoções, sejam ou não expressas. Sentimentos negados à consciência distorcem a percepção de e a reação às experiências que os desencadearam. As três maneiras de conhecer, de verificar hipóteses acessíveis ao individuo psicologicamente maduro é o conhecimento subjetivo que é o discernimento entre amar e odiar, entender e apreciar uma pessoa, uma experiência ou um evento; o conhecimento objetivo é uma forma de testar hipóteses, especulações e conjeturas em relação a sistemas de referência externos; o conhecimento interpessoal ou conhecimento fenomenológico que é a essência da terapia centrada no cliente: uma prática da compreensão empática. Veja mais aqui.
REFERÊNCIAS
ATKINSON, Richard; HILGARD, Ernest; ATKINSON, Rita; BEM, Daryl; HOEKSENA, Susan. Introdução à Psicologia. São Paulo: Cengage, 2011.
DAVIDOFF, Linda. Introdução à Psicologia. São Paulo: Pearson Makron Books, 2001.
FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Teorias da personalidade. São Paulo: Harbra, 2002.
GAZZANIGA, Michael; HEATHERTON, Todd. Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005.
MORRIS, Charles; MAISTO, Alberto. Introdução à psicologia. São Paulo: Pretence Hall, 2004.
MYERS, David. Psicologia. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
SCHULTZ, Duane; SCHULTZ, Sydney. Historia da psicologia moderna.São Paulo: Cengage Learning, 2012.

A COMADRE - O veraneio terminou mal. A ideia dos dois casais amigos, amigos de muitos anos, de alugarem uma casa juntos deu errado. Tudo por culpa do comentário que o Itaborá fez ao ver Mirna, a comadre Mirna, de biquíni fio dental pela primeira vez. Nem tinha sido um comentário. Mas um som indefinido. – Omnahnmon! Aquilo pegara mal. A própria Mirna sorria sem jeito. O compadre Adélio fechara a cara, mas decidira deixar passar. Afinal era o primeiro dia dos quatro na praia, criar um caso naquela hora estragaria tudo. Eram amigos demais para que um simples deslize – o som fora involuntário, isto era claro – acabasse com tudo. E, ainda por cima, a casa já estava paga por um mês. Naquela noite, no quarto, a Isamar pediu satisfação ao marido. – Pô, Itaborá. Qual é? – Não pude controlar, puxa. – Na cara do Adélio! – Eu sei. Foi chato. Mas saiu. Que eu posso fazer? – Nós conhecemos a Mirna e o Adélio há o quê? Quase dez anos. – Mas eu nunca tinha visto a bunda da Mirna. – Ora, Itá! – Não entende? A gente pode conviver com uma pessoa dez, vinte anos, e ainda se surpreender com ela. A bunda de Mirna me surpreendeu, é isso. Me pegou desprevenido. – Vai dizer que você nunca nem imaginou como era? – Nunca. Juro. Nem me passou pela cabeça. E de repente estava ali, toda. Toda ali. – Pois vê se te controla. Pelo resto do veraneio o Itaborá fez questão de nem olhar para o fio dental da comadre. Quando os quatro iam para a praia, se apressava para caminhar na frente. Se por acaso as nádegas da comadre passassem pelo seu campo de visão, olhava para o alto, tapava o rosto com o jornal, assobiava. Um dia, o Itaborá e o Adélio sentados no quintal, a Mirna recém-servira a caipirinha, de biquíni, e se dirigia de volta para casa, e o Itaborá suspirou. – O que foi – perguntou o Adélio, agressivo. – Essa política econômica – disse o Itaborá. – Sei não. Não levo fé. – Ah – disse o Adélio. Até o fim do veraneio ficou aquela coisa chata entre os quatro. O Itaborá não podia tossir que todos olhavam, desconfiados. Extraído da obra O marido do doutor Pompeu (Circulo do Livro, 1987), do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luis Fernando Veríssimo. Veja mais aqui.

TAREFA - Morder o fruto amargo e não cuspir / mas avisar aos outros quanto é amargo, / cumprir o trato injusto e não falhar / mas avisar aos outros quanto é injusto, / sofrer o esquema falso e não ceder / mas avisar aos outros quanto é falso; / dizer também que são coisas mutáveis... / E quando em muitos a noção pulsar / — do amargo e injusto e falso por mudar — / então confiar à gente exausta o plano / de um mundo novo e muito mais humano. Extraído da obra Tarefa (Civlização Brasileira/Massao Ohno/INL, 1981), do escritor, jornalista e tradutor Geir Campos (1924-1999).


Seleção art by Ísis Nefelibata



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