sábado, junho 18, 2016

E SE NADA ACONTECESSE, NADA VALERIA...

E SE NADA ACONTECESSE, NADA VALERIA... – (Imagem: O escaravelho sagrado, da artista plástica, escritora e ilustradora Madalena Tavares ) - Sempre estive só e vou só: voo sobre milênios de injustiças, os sonhos nas alturas além das latitudes possíveis, além das longitudes mensuradas, com minhas asas pelos trocentos mundos da delícia, fascínio e infinutude: nada pelos sentidos, só pela compreensão. Sou andarilho e vou descalço. É inverno ao redor, o Sol é pleno, nenhuma nuvem sobre meu céu. Aprendi com os fracassos e me são valiosos porque passei a viver nas sombras, disso entendo. E como não quero nem tenho coroas de louros, vou ruminando pela ascensão e declínio de tudo, porque fui de tudo a tudo até ser-me bem logrado, e ao meu próprio ver, adivinhando meios de saída. Tornei-me forte com meus tropeços e quedas, a cautela aprimorada, quitado comigo mesmo. Peso tudo, tolero quase nada com meus contravenenos. Se não tenho louros nem riquezas, pouco importa, sou das grandes tarefas, inglórias sim e até. Sigo nas ruas como quem árvores resiste no asfalto e mesmo que o tempo imponha seu negrume, eu me alimento da luz pelos poros de todos os suores. Cada esquina uma emboscada e não desmereço do inopinado, sou mais que vigilante dos tapumes luminosos chamando atenção pro inútil conforto, nem menosprezo de todo as coisas vãs. Presto atenção a tudo porque reaprendi de tudo, faço de mim o que for desafio, longe de toda inteireza, muito menos certeza. Sou da dúvida o essencial: faço-me natural como a semente pra raiz, corrente pro rio, vento pro ar. Aprendi a não olhar com os olhos, mas com a sabença do íntimo das coisas; a não tocar com as mãos, mas com o que sou de mim mais de dentro; a não ouvir com os ouvidos, mas com a compreensão que tenha de tudo e todas as coisas; a não cheirar com o olfato ou degustar com o paladar, mas o que exala do invisível por trás de toda manifestação e que pulsa por todas as dimensões. Se eu não tivesse um outro olhar seria suduzido pelo momento do fútil e fugaz, vou sempre altivo e cego mouco por cantos de sereias no oferecimento aplacador do caminho com suas falsas tentações. Vou exilado da moral dos parvos, na contramão dos ideais dos que nasceram póstumos e no mise-em-scène dos ídolos dessa venerada humanidade virtuosa do perecível, do aliciante e do capcioso, reduzida à civilização ocidental com suas promessas não cumpridas e mentiras ideológicas com que se acredita por verdadeiro, da qual sou estrangeiro e jamais tomei parte do pacto da segregação e da regressão do conluio dos fanáticos e dos ditos redentores da pátria que se amoldam apenas ao compatível, admissível e permitido. Se o que perdi me fez falta, digo que não, pois sequer tive quanto possuía algo fora de mim e da poeira das coisas. Não julgo nada, não posso, nem devo, sou o trâmite e, em sendo, nada vale tudo e a recíproca é obvia e idêntica ao que foi do será. Sou dos meus cabelos soltos ao vento em desalinho pelo chão que piso e não sei onde estou, nem preciso saber: livre da cilada das horas, das cruzetas daqui e dali ou do perigo dos abismos. Se não soubesse sobrepujar os limites e a vacância falsária de toda gritaria com seus arroubos sedutores e escuros, eu não teria chão sequer para pisar no planeta. Se desse ouvidos a todos os doutos e profetas desse tempo e que se dizem senhores do certo e da razão, não teria vivido um mínimo que fosse da mais real sensação de vida além do que se compra, do que se tem por posse ou do que se pode ganhar por preços de exploração e acumulação. Sou simplesmente ser, nada acima ou abaixo, compreendo tudo. O que fiz e faço é apenas viver como a flor que brota cumprindo sua mística missão de tornar a vida real. Sigo adiante e vou só. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 Imagem: a arte do pintor italiano Bruno Di Maio.


Curtindo o álbum Mukaiama Women Composers (BV Hasst Records, 1994), da pianista japonesa Tomoko Mukaiyama, combinando performances de música com arquitetura, escultura e roupas, interpretando obras de Adriana Hölszky, Vanessa Lann, Galina Ustvolskaya, Sofia Gubaidulina e Meredith Monk.

PESQUISA
Las gladulas: nuestros guardianes invisibles (AMORC, 1965), de M. W. Kapp M.D., tratando sobre a divina alquimia, situação e ações das glândulas endócrinas, tipos endócrinos de personalidades, método para desenvolvimento das glândulas e exemplos das inibições e expansões do sistema glandular. Veja mais aqui.

LEITURA 
Agá (Civilização Brasileira, 1974), romance do escritor, romancista, dramaturgo, advogado, jornalista e crítico literário Hermilo Borba Filho (1917-1976). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA: “A CIÊNCIA CASA-SE À ARTE E A FILOSOFIA BEIJA ESSA PERFEITA UNIÃO”
[...] Os homens, não são nada mais do que caminhos para alimento, aumentadores de imundície e enchedores de privadas... nada mais no mundo é realizado através deles e não têm nenhuma virtude... certamente, ninguém se oporá a que a Natureza deseja extinguir a raça humana como uma coisa inútil. Precisamos separar esses grandes agrupamentos de gente que vive amontoada, como bandos de cabras, enchendo o ar de mau cheiro, espalhando as sementes da peste e da morte. [...] O que pensais, homens, de vossa própria espécie? Não vos envergonhais de vossa estupidez? É um ato infinitamente atroz tirar a vida de qualquer criatura. A alma não quer que a raiva e a malícia destruam a vida. Sempre temos esperanças no futuro, mas o futuro nos reserva somente uma certeza: a morte de toda esperança. A arte do homem não é completamente igual à tarefa de pintar a crueldade do homem. Não existe talento perfeito sem grande sofrimento. [...]
Trecho de uma série de fábulas amargas e brilhantes escritas do polímata italiano Leonardo da Vinci (1452-1519), censurando asperamente a mais vergonhosa e mais lamentável das criaturas vivas: o homem. Ele desprezava a miserável raça humana e, no entanto, estava sempre ansioso para ajuda-la a sair da miséria. Veja mais aqui , aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Imagens: Cartaz & cena do espetáculo de dança Sobre um Paroquiano (2007), da Compassos Cia de Danças, inspirado no texto Um Paroquiano Inevitável, de Hermilo Borba Filho.

Veja mais sobre Desnorteio & Wilson Monteiro, Jürgen Habermas, Gilberto Mendonças Teles, Ana de Castro Osório, Joseph-Marie Vien, Maria Bethânia, Arlete Salles, David Lynch, Isabella Rosselini & Bartolomeu Ammanati aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Eve (1929), xilogravura do tipógrafo, escultor, ilustrador, gravurista e designer gráfico inglês Eric Gill (1882-1940).
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
O calor do abraço, do xilogravurista Perron.
Recital Musical Tataritaritatá.
Veja aqui.


ARIANO, LYA LUFT, WALLON, AS VEIAS DE GALEANO, FECAMEPA, JOÃO DE CASTRO, RIVAIL, POLÍTICAS EM DEBATE & MANOCA LEÃO

A VIDA NA JANELA – Imagem: conversando com alunos do Ginásio Municipal dos Palmares - Ainda ontem flores reluziam no jardim ornando muros...