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quarta-feira, março 07, 2018

ANAÏS NIN, REICH, JOYCE, QUESADO, SAVIANI, ELIANE RODRIGUES, EDUCAÇÃO & REPRESSÃO SEXUAL, FREYARAVI & LUCIAH LOPEZ

FREYARAVI & A SALVAÇÃO DO CATIVEIRO – Imagem: arte da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez. - Errava caeté por terras distantes, atraído pelo clima e abundância de frutas e caças, ao deus dará. Já me acostumava com aquelas paragens até então pacatas e apaziguadoras, quando senti presságios no ar. Deu-me a impressão de que me observavam às escondidas, perseguido pelo matagal. Fique à espreita e logo percebi a presença hostil pelas cercanias. Não demorou muito, surgiram de esconderijos inesperados, muitos índios a me atacar. Lutei com eles o que pude e logo chegaram outros com seus soberbos cavalos e investindo contra mim. Fiz-me afoito, sozinho, a responder seus golpes, eram muitos e cada vez mais, não conseguia suplantá-los e tentei fugir sem obter êxito, pois me feriram e, na queda, logo me cercaram e me capturaram com suas flechas pro cativeiro, amarrado e conduzido para a ocara, em meio de gritos de vitória dos guerreiros. Fui exposto como prêmio e logo fizeram fogueiras e passaram a cantar e danças, saboreando caças moqueadas, regadas a uma bebida que parecia um vinho de mel. Por conta dos ferimentos, desfaleci; e ao recobrar os sentidos, aprisionado e ferido, recebia cuidados de uma bela índia. Logo me afeiçoei a ela por sua forma carinhosa de me tratar. Ouvia sua voz me falar, mesmo sem entender direito, mas que me dizia ter ela nascido dos rios caingangues. Linda e cheia de encantos, durante o dia cuidava de mim. Logo ouvi alguém chamá-la: Yaravi! Esse o nome dela e, pelo visto, reprovavam o tratamento a mim dispensado. Ela sumiu com os demais, ao final da tarde retornou e me segredou cuidadosamente, pelo que pude entender, que durante a noite voltaria. Logo anoiteceu e enquanto a tribo toda festejava a minha captura, um vulto de mulher surgiu na escuridão. Não pude identificar nem fazer menção de qualquer gesto, vez que ferido ainda me condoía. Ela fez sinal de silêncio, tocou-me e nada mais vi. Só dei por mim muito tempo depois dentro de um quarto em ruinas, acompanhado de uma deusa que me curava com um ritual carregado de orações. Quando os primeiros raios de Sol surgiam, ela desaparecia como por encanto. E já manhã ensolarada, chegava Yaravi com mantimentos para me alimentar. Depois de me assistir na primeira refeição do dia, ela se despedia prometendo retornar mais tarde. E só na escuridão da noite, a deusa reaparecia para os seus rituais, sumindo na madrugada. Várias luas se passaram e todos os dias eu ouvia lá longe os festejos da tribo. A deusa reapareceu de repente e me fez levantar: Vamos, teremos guerra e preciso de você. Durante os folguedos tribais, a fumaça das fogueiras atraiu bandeirantes que tencionavam invadir a tribo para escravizá-los. Travou-se combate, as flechas e lanças de nada serviam diante das armas de fogo dos invasores. Foi aí que tomei partido pelos aborígenes e providenciei estratégias de defesa ao ataque inopinado. Luta renhida se fizera, porém, felizmente, nossa coragem e bravura forçaram os inimigos a abandonar a luta, fugindo aos bandos. Quando deram pela minha presença no combate, logo me renderam. Na manhã seguinte, Yaravi teve a coragem de pedir a seu pai que me concedesse a liberdade, alegando minha participação na luta contra os forasteiros. Os guerreiros se reuniram em assembleia, deliberaram sob os mais calorosos protestos e aquiescências, concedendo-me, por fim, a satisfação do seu pedido, sob a condição de que eu acompanhasse a tribo. E assim fui salvo. Por meus feitos a partir de então, fui adquirindo notável influência, acabando por me tornar conselheiro entre eles. Em noite festiva agradeci a Yaravi por ter-me salvo, porém meu gesto de gratidão estava transformado em amor. Ela olhou-me diante da confissão feita, trêmula e, meia sem jeito, abraçou-me afetiva e demoradamente. Pude, então, tomar ciência de que aquela índia era a mesma pessoa da deusa que me aparecia durante a noite. Quis saber dela, respondeu-me: Freyaravi. E fizemos nosso pacto de amor e nunca mais desgrudei dela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá Todo dia é Dia da Mulher com especial com a cantora, compositora e instrumentista Joyce: Feminina, Revendo amigos & Ao vivo; da pianista Eliane Rodrigues: Momentos musicais, Étude op 25 Chopin & Pour le piano Debussy; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Toda educação, sistemática ou não, expressa uma visão de mundo que reflete a realidade socioeconômica e política em que está inserida. Pensamento extraído da tese de doutoramento em Filosofia, sobre a temática Valor e educação (PUC, 1983), do professor José Misael Ferreira do Vale.

EDUCAÇÃO – [...] o homem necessita produzir continuamente sua própria existência. Para tanto, em lugar de se adaptar à natureza, ele tem que adaptar a natureza a si, isto é, transformá-la. E isto é feito pelo trabalho. Portanto, o que diferencia o homem dos outros animais é o trabalho. Trecho extraído da obra Pedagogia histórico-critica: primeiras aproximações (Cortez & Autores Associados, 1991), do filósofo e pedagogo Dermeval Saviani. Veja mais aqui.

REPRESSÃO SEXUAL - [...] A repressão da sexualidade natural da criança, e em particular da sexualidade genital, torna-as apreensiva, tímida, obediente, cheia de medo da autoridade. “Simpática” e “bem comportada”, no sentido autoritário; paralisa as suas tendências rebeldes já que a revolta desperta a ansiedade; engendra, ao inibir a curiosidade sexual da criança e as suas relações sexuais, um abaixamento generalizado das suas faculdades mentais e do seu sentido crítico. Em resumo, o objetivo da repressão sexual consiste em fabricar um individuo que poderá adaptar-se à sociedade autoritária e que a ela se submeterá apesar de todo o sofrimento e humilhação que é vítima. [...]. Trecho da obra Psicologia de massa do fascismo (Escorpião, 1974), do médico, psicanalista e cientista natural Wilhelm Reich (1897-1957). Veja mais aqui.

A FAMÍLIA E A FUNÇÃO SOCIAL DA REPRESSÃO SEXUALA unidade da célula familiar apoia-se na obediência das crianças a seus pais. Já vimos que as crianças, ao aprenderem a obedecer aos pais, aprendem a obedecer de um modo geral. Os resultados obtidos pela educação familiar são transferidos para todas as situações onde o adulto se encontra diante de um superior hierárquico. Ora, a repressão sexual faz parte da educação familiar. Os pais castigam os filhos que se masturbam e vigiam a hora a que sua filha volta para casa. Para se adaptarem ao meio familiar, os hovens têm portanto que recalcar a sua sexualidade (inversamente, a afirmação destas necessidades sexuais é revestida de um significado de revolta contra os pais. Quando uma jovem volta para casa às seis horas da manhã desafia os pais). É castigando os filhos que os pais lhes ensinam a obedecer e obtem deles a renuncia ao prazer sexual. [...] Isto implica que a ansiedade associada à expressão de desejos sexuais está ligada à angustia suscitada por todas as tendências rebeldes, já que a sexualidade e as veleidades da rebeldia são indistintamente reprimidas pelos educadores. [...] A criança acaba por ter medo desses sexuais e dessas tendências à revolta, e impede-os de se manifestarem. [...]. Trecho de A repressão sexual (Martins Fontes, 1972), de Michel Cartier.

OS OLHOS ALONGADOS DE ANITA – [...] Os olhos alongados de Anita não se fechavam como os das outras mulheres, mas como os olhos dos tigres, pumas e leopardos, com as duas pálpebras juntando-se preguiçosa e lentamente; e estas pareciam levemente unidas próximo do nariz, tornando-se mais estreitas, com um relance lascivo e obliquo pendendo dos olhos, como o olhar de relance de uma mulher que não quer ver o que estão fazendo em seu corpo. Tudo isso dava a ela um ar de quem estava fazendo amor [...] Anita estava se vestindo em meio a uma profusão de flores; e, para deleite dos admiradores sentados à sua volta, estava pintando o sexo com batom, sem permitir que eles fizessem qualquer movimento em sua direção. [...] ela apenas ergueu a cabeça e sorriu para ele. Estava com um pé apoiado sobre uma mesinha, o requintado vestido brasileiro estava levantado e, com as mãos cheias de joias, retomou a pintura do sexo, rindo da excitação dos homens à sua volta. O sexo dela era como uma gigantesca flor de estufa, maior do que qualquer um que o Barão já houvesse visto, e o pelo em volta era abundante, encaracolado, negro acetinado. Eram aqueles lábios que ela pintava como se fossem uma boca, muito requintadamente, de modo que ficaram como uma camélia vermelho-sangue aberta à força, mostrando o botão interior, o cerne mais pálido e de pétalas mais delicadas da flor. [...] Depois é que se seguia a performance pela qual Anita era famosa em toda a América do Sul, quando os recônditos camarotes do teatro, no escuro, com as cortinas semicerradas, enchiam-se de homens da sociedade de todo o mundo. As mulheres não eram levadas àquele espetáculo de variedades de alta classe. Ela havia se vestido de novo com o traje de saia rodada que usara no palco durante as canções brasileiras, mas não estava de xale. O vestido não tinha alças, e os seios fartos e abundantes, comprimidos pelo corpete justíssimo, avolumavam-se para cima, oferecendo-se quase que por inteiro ao olhar. Nesse traje, enquanto o resto do show continuava, ela fazia a ronda dos camarotes. Lá, mediante solicitação, ajoelhava-se diante de um homem, desabotoava as calças dele, pegava o pênis com as mãos cheias de jóias e, com um toque de bom gosto, uma destreza, uma sutileza que poucas mulheres já desenvolveram, chupava-o até satisfazê-lo. As duas mãos eram ativas como a boca. A delícia daquilo quase privava os homens dos sentidos. A elasticidade das mãos; a variedade de ritmos; a mudança entre um aperto de mão em todo o pênis e o mais leve toque na ponta, entre a pegada firme de todas as partes e o mais leve roçar dos pêlos em volta – tudo isso por uma mulher excepcionalmente linda e voluptuosa, enquanto a atenção do público estava voltada para o palco. Ver o pênis entrar na boca magnífica, entre os dentes brilhantes, enquanto os seios arfavam, dava aos homens um prazer pelo qual pagavam generosamente. A presença dela no palco preparava-os para a aparição nos camarotes. Ela provocava-os com a boca, os olhos, os seios. E, para satisfazê-los, junto com a música, as luzes e a cantoria, havia uma forma de entretenimento excepcionalmente picante em um camarote escuro e com as cortinas semicerradas acima da platéia. [...]. Trechos extraídos da obra Delta de Vênus (Artenova, 1978), da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977). Veja mais aqui.

BEIJO DE MULHERBeijo de mulher medrosa / dado escondido, às escuras, / é a melhor das aventuras / que a alma do homem goza. / Convém que o beijo se tome / depois de renhida luta, / que é como se fosse fruta / comida por quem tem fome. / O beijo é concedido / com liberdade e franqueza / é como uma sobremesa / depois de um jantar sortido. / Mas o beijo que enamora / e provoca mais desejo / é quando a dona do beijo / soluça, suspira e chora. / Porém o melhor sabor / é quando a mulher nos nega: / porque então a gente pega / e beija seja onde for... Quadras do poeta paraibano Luís Dantas Quesado (Luiz Siqueira Dantas – 1850-1930), considerado o maior glosador do Brasil de todos os tempos.

PRÊMIO HERMILO BORBA FILHO DE LITERATURA
A Biblioteca Fenelon Barreto informa aos interessados que estão abertas até o próximo dia 09 de março de 2018, as inscrições nas categorias de conto, poema ou romance, do Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura. Maiores informações aqui.

Veja mais:
Errâncias de quem ama, promessas da paixão, A origem das estrelas & os Bororos Orientais, a música de o Richard Strauss & Leonie Rysanek, o teatro de Oscar Wilde, a escultura de Sonia Ebling de Kermoal, a arte de Dorothy Lafriner Bucket & Todo dia é dia da mulher aqui.
Origem da Vida & Programa Tataritaritatá aqui.
A Pesquisa, Michel Randan, Arthur Koestler, Alan Watts, A ignorância, a Natureza Humana & Metodologia Científica aqui.
Carl Gustav Jung, Pierre Weil & Tagore aqui.
Jorge de Sena, Habermas, Trova & Trovadorismo aqui.
Nietzsche, Oniomania & Shopaholic, Noam Chomsky, Madame de Staël, Flimar & Djavan aqui.
O Apocalipse da Atualidade, Heidegger, Carl Rogers, Konrad Lorenz & Ubiratan D’Ambrósio aqui.
José Saramago, Rogel Samuel & Programa Tataritaritatá aqui.
Gato escaldado pra se enturmar é um pé na frente e outro atrás aqui.
Dos temores da infância aos arroubos juvenis aqui.
O verbo no coração do silêncio aqui.
O trauma da moça aqui.
É pra ela, Carlos Gomes & Silviane Bellato, Neila Tavares, Heloneida Studart, Maria Esther Maciel, Monica Bellucci, Piet Mondrian, Edwin Landseer & A lenda Mundurucu Quando mandavam as mulheres aqui.
Direito de Família, Psicologia Escolar, Pedofilia, Liderança & Psicose Puerperal aqui.
O pensamento de Darcy Ribeiro aqui.
Direito Autoral, Psicologia Social, Trabalho & Doenças Ocupacionais aqui.
Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido & da Autonomia aqui.
As trelas do Doro: vai tomar no quiba, porra aqui.
Contribuições da Filosofia Greco-Romana para a Psicologia & I FLIC de Cambuquira aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.

ARTE DE LUCIAH LOPEZ
As pedras (resignadas) criam limo
e nas asas das andorinhas, o vento faz cafuné!
A tampa do mundo se abre, e,
eu vejo o céu___________ o mesmo céu
que embalou "il sommo poeta"
A Terra, exilada dos meus pés tenta dormir
resfolegando ...
E a Grande Mãe, pisca seu olho esquerdo
contraindo o canto dos lábios
num meio riso (cúmplice?!) deixando no ar
só a ideia e o começo da história.
É mesmo supra-sumo!!
Poema Passa tempo, antologia poética Conexão III (Feira do Poeta de Curitiba), organizada por Elciane Goedert & Amauri Nogueira com o poema Fonte, da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, outubro 02, 2017

BACHELARD, RAIMUNDO CARRERO, DUCHAMP, QUESADO, FRANCISCO DE ALMEIDA, MÚSICA DE PAHLEN & AGENDA 21 DA CULTURA

O JANTAR DOS COMPADRES – Imagem: xilogravura da exposição Transfigurações – 20 aos pedaços, do artista plástico Francisco de Almeida. - Mais de trinta anos separava o compadrio figadal entre Dejandro e Zé-Cantão. A amizade entre eles nascera num pacto de sangue embaixo dum abacateiro no quintal da infância, emendado por anos de estripulia pela adolescência, para se perderem nas quebradas da vida. O reencontro dos já sexagenários numa esquina do tempo foi regado a muitos abraços e gaitadas puxadas da memória. Mas, diga lá, compadre Cantão, como vai a comadre Filó? Ah, compadre, aquilo é um estrupício, sempre trambecando pra lá e pra cá, comendo o restinho da minha paciência. E a comadre Filó bonitona? Ah, aquilo é meu pecado mortal, sabe como é, né? E a afilhada? Ah, a Duilinha puxou ao pai, sempre bonita, faceira, me deu dois netos lindos que são a alegria da minha vida. E os seus netos? Ah, quisera, compadre, a Filó é tão ruim que nem me deu filho nem netos. Não diga, compadre! Conversa vai, pilhéria vem, remorsos, sacadas, enterros, feridas, espalhafatos. Um lembrava das astúcias do outro e leseiras da muita na maior risadagem. Debulharam o passado, tantas aprontações, revestrés, ciladas, desatinos. Depois de horas: Olha só, compadre Cantão, sábado eu quero você lá em casa, vou fazer um jantar para selar o nosso reencontro. Quero você e a comadre lá, sem falta, tome aí meu endereço. Ah, pode deixar, compadre Dejão, estararei lá com meu encosto na hora acertada, podexá. E se separaram depois de horas de puxa-encolhe, abraços e promessas. Um dia atrás do outro e, no horário marcado, lá estavam Cantão e Brisa trajando a domingueira e diante dum palacete. Vixe, homem, vamos embora, isso é um palácio, a gente pode ser preso. Vambora, mulher, isso é a casa do compadre, veja aqui o número do endereço, é aqui mesmo, onde é que fica mesmo a cigarra, hem? E eu lá sei, se você que é todo metido a sabichão não sabe, imagine eu. Cala boca, mulher, o homem está vindo. Sim? É aqui a casa do compadre Dejão? Sim, residência do Dr. Dejandro Jacobina, sim, senhor. O que deseja? Ah, eu sou Zé-Cantão, compadre dele. Como? Sou o compadre dele. Um momento, aguardem aí. Demorou um pouco, seguraram nos cambitos a espera e quase hora depois no sereno: Pois não, podem entrar. Vixe, mulher, vê tudo isso? Isso é que casa, macho, pra você tomar vergonha na cara e ver que esses anos todos não fez nada que prestasse na vida. Danou-se, veja como a comadre Brisa continua bonitona, veja! Isso é uma piscina? Ô mulher, sai daí que se cair eu deixo morrer de vez, visse? E se abraçaram e rolou tudo do bom e do melhor: sorrisos, falsidades, supresas, lembranças, pitu, camarão, lagosta, uísque, prato disso, prato daquilo, mordomo, maior fausto de encher os olhos admirados do humilde casal convidado. Já passava das duas da manhã, os compadres se despediram com o acerto de que no próximo sábado o jantar seria na casa do Cantão. Tudo justado nos conformes da amizade: Até sábado, compadre! Inté. Lá se foi Cantão procurando condução madrugada afora, Brisa claudicando e reclamando da falta de sorte deles de não ter nem uma borreia de nada pra levá-los àquela hora pra casa. Rodaram, toraram aço, esperaram no ponto. Lá pras tantas, pegaram o cata-corno e, depois de muita volta, chegaram, finalmente, ao lar. O dia já amanhecia. Ô Cantão, como é que a gente vai fazer sábado que vem? Ah, Filó, vou ter que me virar essa semana pra arrumar dinheiro e fazer uma festa aqui pro compadre. Acredito não. Acredite, mulher, nem que seja a última coisa que eu faça na vida. Não posso fazer desfeita com o compadre! A semana passou mais rápido que de um dia pra outro, foi só piscar o olho: Vixe! Ainda ontem era domingo, hoje já é sábado. Se pudesse voltava pra sábado passado, aquilo sim é que é jantar que se ofereça. Daí a pouco parou um automóvel de luxo na porta e o motorista perguntou: O senhor pode me informar onde fica o palacete do Dr. José Cantão? Ah, que doutor? Dr. José Cantão! Tem esse não, aqui mora Zé-Cantão, seu criado. Foi então que o vidro traseiro arriou e ouviu-se: Está me estranhando, compadre? Ah, compadre, é aqui mesmo, pode encostar aí. Dejandro e Brisa logo desceram e os abraços e risos deram o tom da festa. Cadê a afilhada Duilinha, veio não? Ah, ela não pode vir porque está de plantão no hospital, fica pra próxima. Adentraram a meia-água, se aboletaram no sofá irregular que ameaçava desabar, exigindo ajeitado constante, e tome conversa. O compadre quer tomar uma pinga? Pinga? Sim, posso fazer uma caipirinha tinindo, quer? Pinga, compadre? Sim, ou quer cerveja? Posso mandar comprar na venda ali, quer? Não, não, estou sem beber hoje. Querem um docinho de jaca? Não, comadre, estou de regime. Tome blábláblá. Até que enfim, chegou a hora do jantar: Mulher, não enrole mais não, ajeite a mesa pra gente beliscar. Tudo pronto, venham. Ah, agora sim! O que é isso, compadre? Sopa! Sopa? É, compadre, comprei uns taquinhos de carne hoje na feira e a mulher inventou essa gororoba aí pra gente, e pela cara está pra lá de muito gostosa! Sopa? Sim, sim, compadre, e da boa. Ah, compadre, me dê uma licencinha que eu e a Brisa vamos ali buscar um remédio e a gente volta já, tá? Já passava da meia noite quando Cantão perguntou pra Filó: Será que o compadre ainda volta? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compsitor alemão Max Bruch (1838-1920): Scoth Fantasy e Concert Violin 1 com Janine Jansen; a pinista Ligia Moreno interpretando Etude Poétique de Scriabin, Concerto para piano de Grieg & Etude Chopin; cantor, compositor e ator da cena underground brasileira, Carlos Careqa com seus álbuns Palavrão: múisica infantil para adultos, Os homens são todos iguais e Um pouco de veneno; e a cantora e compositora Luiza Possi com os álbuns Seguir cantando, Sobre o amor e o tempo & Bons ventes sempre chegam. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - O homem é uma criação do desejo, não uma criação da necessidade. [...] É preciso que cada um destrua mais cuidadosamente as suas 'filias' que suas fobias e suas simpatias pelas intuições primeiras [...] o amor é a primeira hipótese científica para a reprodução objetiva do fogo [...] Estas correspondências das imagens com a palavra são as correspondências verdadeiramente salutares., A cura para um psiquismo dolorido, para um psiquismo desorientado, para um psiquismo vazio será ajudada pela frescura do riacho ou do rio. Mas é preciso que esta frescura seja falada. É preciso que o ser infeliz fale com o riacho. Venham, meus amigos, na clara manhã, cantar as vogais do riacho! Onde nosso sofrimento primeiro? É que nós temos hesitado em dizer... Ele nasceu naquelas horas em que acumulamos em nós muitas coisas silenciadas. O riacho lhes ensinará a falar apesar de suas dores e suas recordações, ele lhes ensinará a euforia pelo eufemismo, a energia pelo poema. Ele lhes dirá, a cada instante, alguma bela palavra bem redonda que rola sobre pedregulhos. Trechos extraídos da obra A psicanálise do fogo (Martins Fontes, 1999), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

HISTÓRIA DA MÚSICA - A vida é som. Continuamente estamos cercados de sons e ruídos oriundos da natureza e das várias formas de vida que ela produz. O homem fala e canta há incalculáveis milhares de anos e, graças ao seu ouvido maravilhosamente construído que se parece a uma harpa com infinidades de cordas, percebe sons e ruídos, embora apenas uma parte insignificante da imensidão de tudo quanto soa [...] Talvez cantassem os raios de sol nas montanhas que se aqueciam todas as manhãs, como ainda hoje cantam misteriosamente nas colunas egipcias de Memnon; durante tempos sem fim deve ter ressoado o órgão natural da gruta de Fingal, muito antes que os celtas lhe chamassem Ilgaimh bin, gruta da música, e muito antes, ainda, que um compositor romântico, Mendelssohn, transferisse aqueles sons naturais para a moderna orquestra. É o estranho ouvido de Dionísio, da Sicilia, aumentou, com certezas, todos os sons que o penetravam, muito antes que um ser humano lá se achasse para comprovar o milagre. A terra a abrir-se na mocidade, as fontes a jorrar, os vulcões e as montanhas a explodir, as águas do dilúvio a subir, tudo deve ter constituído gigantesca sinfonia que ninguém nos descreveu. [...] Davi toca harpa para afugentar os maus pensamentos do Rei Saul; Farinelli, com o auxilio da música, cura a terrível melancolia de Filipe V. Timoteo provoca, por meio de certa melodia, a fúria de Alexandre, o Grande, e acalma-o por meio de outra. Os sacerdotes celtas educam o povo com a música; somente eles conseguem, abrandar os costumes selvagens. Diz-se que Terpandro, tocando flauta, abafou a revolta dos lacedemônios. [...]. Trechos da obra História Universal da Música (Melhoramentos, 1944), do compositor, musicólogo e regente austríaco Kurt Pahlen. Veja mais aqui.

RUÍNAS DA ALMA - [...] Fechou os pequenos ataúdes com pregos. Rezou. Os meninos respiravam,, fiapos de respiração, respiravam. Ismael colocou=os nos braços, pesados, eram bem pesados, ele não imaginava que pesassem daquela forma. Andou, atravessou o mangue, entrou no rio, soltou dos dois brancos, branquíssimos, empurrou-se para longe, para onde ninguém pudesse alcançá-los. Entrou no caixão, exímio artesão, parafusou por dentro. Suor e cansaço. Agora só a lembrança dos meninos nas águas. Dois belos e perfeitos ataúdes correndo para o mar. [...]. Trecho da obra As sombrias ruínas da alma: ficções (Iluminuras, 1999), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero. Veja mais aqui e aqui.

MOTE GLOSADO - Como dois astros banhados / num clarão puro e divino, / num semblante purpurino, / vi dois brilhantes cravados, / e os anjos, ali, postados, / como que, a Deus, servindo / e ela contente e rindo, / como se no paraíso: / mostrando, de Deus, o riso, / num rosto moreno e lindo. Do poeta-vaqueiro Luís Dantas Quesado (1850-1930), autor da obra Glosqas sertanejas (1922). Veja mais aqui e aqui.


AGENDA 21 DA CULTURAUm compromisso das cidades e dos governos locais para o desenvolvimento cultural - Nós, cidades e governos locais do mundo, comprometidos com os direitos humanos, a diversidade cultural, a sustentabilidade, a democracia participativa e a criação de condições para a paz, reunidos em Barcelona nos dias 7 e 8 de Maio de 2004, no IV Fórum de Autoridades Locais de Porto Alegre para a Inclusão Social, no marco do Fórum Universal das Culturas – Barcelona 2004, aprovamos esta Agenda 21 da cultura como documento orientador das políticas públicas de cultura e como contribuição para o desenvolvimento cultural da humanidade. I. PRINCÍPIOS 1. A diversidade cultural é o principal patrimônio da humanidade. É o produto de milhares de anos de história, fruto da contribuição coletiva de todos os povos, através das suas línguas, imaginários, tecnologias, práticas e criações. A cultura adota formas distintas, que sempre respondem a modelos dinâmicos de relação entre sociedades e territórios. A diversidade cultural contribui para uma “existência intelectual, afetiva, moral e espiritual satisfatória” (Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural, artigo 3), e constitui um dos elementos essenciais de transformação da realidade urbana e social.  [...] 35. Convidar criadores e artistas a comprometerem-se com as cidades e com os territórios, identificando problemas e conflitos da nossa sociedade, melhorando a convivência e a qualidade de vida, ampliando a capacidade criativa e crítica de todos os cidadãos e, muito especialmente, cooperando para contribuir à resolução dos desafios das cidades.

Veja mais:
Terceira idade aqui.
A música de Max Bruch aqui.
A arte musical de Ligia Moreno aqui e aqui.
A arte de Carlos Careqa aqui.
A arte de Luiza Possi aqui, aqui e aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista francês Marcel Duchamp (1887-1968). 
Veja mais aquiaqui e aqui.
 

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...