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segunda-feira, outubro 02, 2017

BACHELARD, RAIMUNDO CARRERO, DUCHAMP, QUESADO, FRANCISCO DE ALMEIDA, MÚSICA DE PAHLEN & AGENDA 21 DA CULTURA

O JANTAR DOS COMPADRES – Imagem: xilogravura da exposição Transfigurações – 20 aos pedaços, do artista plástico Francisco de Almeida. - Mais de trinta anos separava o compadrio figadal entre Dejandro e Zé-Cantão. A amizade entre eles nascera num pacto de sangue embaixo dum abacateiro no quintal da infância, emendado por anos de estripulia pela adolescência, para se perderem nas quebradas da vida. O reencontro dos já sexagenários numa esquina do tempo foi regado a muitos abraços e gaitadas puxadas da memória. Mas, diga lá, compadre Cantão, como vai a comadre Filó? Ah, compadre, aquilo é um estrupício, sempre trambecando pra lá e pra cá, comendo o restinho da minha paciência. E a comadre Filó bonitona? Ah, aquilo é meu pecado mortal, sabe como é, né? E a afilhada? Ah, a Duilinha puxou ao pai, sempre bonita, faceira, me deu dois netos lindos que são a alegria da minha vida. E os seus netos? Ah, quisera, compadre, a Filó é tão ruim que nem me deu filho nem netos. Não diga, compadre! Conversa vai, pilhéria vem, remorsos, sacadas, enterros, feridas, espalhafatos. Um lembrava das astúcias do outro e leseiras da muita na maior risadagem. Debulharam o passado, tantas aprontações, revestrés, ciladas, desatinos. Depois de horas: Olha só, compadre Cantão, sábado eu quero você lá em casa, vou fazer um jantar para selar o nosso reencontro. Quero você e a comadre lá, sem falta, tome aí meu endereço. Ah, pode deixar, compadre Dejão, estararei lá com meu encosto na hora acertada, podexá. E se separaram depois de horas de puxa-encolhe, abraços e promessas. Um dia atrás do outro e, no horário marcado, lá estavam Cantão e Brisa trajando a domingueira e diante dum palacete. Vixe, homem, vamos embora, isso é um palácio, a gente pode ser preso. Vambora, mulher, isso é a casa do compadre, veja aqui o número do endereço, é aqui mesmo, onde é que fica mesmo a cigarra, hem? E eu lá sei, se você que é todo metido a sabichão não sabe, imagine eu. Cala boca, mulher, o homem está vindo. Sim? É aqui a casa do compadre Dejão? Sim, residência do Dr. Dejandro Jacobina, sim, senhor. O que deseja? Ah, eu sou Zé-Cantão, compadre dele. Como? Sou o compadre dele. Um momento, aguardem aí. Demorou um pouco, seguraram nos cambitos a espera e quase hora depois no sereno: Pois não, podem entrar. Vixe, mulher, vê tudo isso? Isso é que casa, macho, pra você tomar vergonha na cara e ver que esses anos todos não fez nada que prestasse na vida. Danou-se, veja como a comadre Brisa continua bonitona, veja! Isso é uma piscina? Ô mulher, sai daí que se cair eu deixo morrer de vez, visse? E se abraçaram e rolou tudo do bom e do melhor: sorrisos, falsidades, supresas, lembranças, pitu, camarão, lagosta, uísque, prato disso, prato daquilo, mordomo, maior fausto de encher os olhos admirados do humilde casal convidado. Já passava das duas da manhã, os compadres se despediram com o acerto de que no próximo sábado o jantar seria na casa do Cantão. Tudo justado nos conformes da amizade: Até sábado, compadre! Inté. Lá se foi Cantão procurando condução madrugada afora, Brisa claudicando e reclamando da falta de sorte deles de não ter nem uma borreia de nada pra levá-los àquela hora pra casa. Rodaram, toraram aço, esperaram no ponto. Lá pras tantas, pegaram o cata-corno e, depois de muita volta, chegaram, finalmente, ao lar. O dia já amanhecia. Ô Cantão, como é que a gente vai fazer sábado que vem? Ah, Filó, vou ter que me virar essa semana pra arrumar dinheiro e fazer uma festa aqui pro compadre. Acredito não. Acredite, mulher, nem que seja a última coisa que eu faça na vida. Não posso fazer desfeita com o compadre! A semana passou mais rápido que de um dia pra outro, foi só piscar o olho: Vixe! Ainda ontem era domingo, hoje já é sábado. Se pudesse voltava pra sábado passado, aquilo sim é que é jantar que se ofereça. Daí a pouco parou um automóvel de luxo na porta e o motorista perguntou: O senhor pode me informar onde fica o palacete do Dr. José Cantão? Ah, que doutor? Dr. José Cantão! Tem esse não, aqui mora Zé-Cantão, seu criado. Foi então que o vidro traseiro arriou e ouviu-se: Está me estranhando, compadre? Ah, compadre, é aqui mesmo, pode encostar aí. Dejandro e Brisa logo desceram e os abraços e risos deram o tom da festa. Cadê a afilhada Duilinha, veio não? Ah, ela não pode vir porque está de plantão no hospital, fica pra próxima. Adentraram a meia-água, se aboletaram no sofá irregular que ameaçava desabar, exigindo ajeitado constante, e tome conversa. O compadre quer tomar uma pinga? Pinga? Sim, posso fazer uma caipirinha tinindo, quer? Pinga, compadre? Sim, ou quer cerveja? Posso mandar comprar na venda ali, quer? Não, não, estou sem beber hoje. Querem um docinho de jaca? Não, comadre, estou de regime. Tome blábláblá. Até que enfim, chegou a hora do jantar: Mulher, não enrole mais não, ajeite a mesa pra gente beliscar. Tudo pronto, venham. Ah, agora sim! O que é isso, compadre? Sopa! Sopa? É, compadre, comprei uns taquinhos de carne hoje na feira e a mulher inventou essa gororoba aí pra gente, e pela cara está pra lá de muito gostosa! Sopa? Sim, sim, compadre, e da boa. Ah, compadre, me dê uma licencinha que eu e a Brisa vamos ali buscar um remédio e a gente volta já, tá? Já passava da meia noite quando Cantão perguntou pra Filó: Será que o compadre ainda volta? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compsitor alemão Max Bruch (1838-1920): Scoth Fantasy e Concert Violin 1 com Janine Jansen; a pinista Ligia Moreno interpretando Etude Poétique de Scriabin, Concerto para piano de Grieg & Etude Chopin; cantor, compositor e ator da cena underground brasileira, Carlos Careqa com seus álbuns Palavrão: múisica infantil para adultos, Os homens são todos iguais e Um pouco de veneno; e a cantora e compositora Luiza Possi com os álbuns Seguir cantando, Sobre o amor e o tempo & Bons ventes sempre chegam. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - O homem é uma criação do desejo, não uma criação da necessidade. [...] É preciso que cada um destrua mais cuidadosamente as suas 'filias' que suas fobias e suas simpatias pelas intuições primeiras [...] o amor é a primeira hipótese científica para a reprodução objetiva do fogo [...] Estas correspondências das imagens com a palavra são as correspondências verdadeiramente salutares., A cura para um psiquismo dolorido, para um psiquismo desorientado, para um psiquismo vazio será ajudada pela frescura do riacho ou do rio. Mas é preciso que esta frescura seja falada. É preciso que o ser infeliz fale com o riacho. Venham, meus amigos, na clara manhã, cantar as vogais do riacho! Onde nosso sofrimento primeiro? É que nós temos hesitado em dizer... Ele nasceu naquelas horas em que acumulamos em nós muitas coisas silenciadas. O riacho lhes ensinará a falar apesar de suas dores e suas recordações, ele lhes ensinará a euforia pelo eufemismo, a energia pelo poema. Ele lhes dirá, a cada instante, alguma bela palavra bem redonda que rola sobre pedregulhos. Trechos extraídos da obra A psicanálise do fogo (Martins Fontes, 1999), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

HISTÓRIA DA MÚSICA - A vida é som. Continuamente estamos cercados de sons e ruídos oriundos da natureza e das várias formas de vida que ela produz. O homem fala e canta há incalculáveis milhares de anos e, graças ao seu ouvido maravilhosamente construído que se parece a uma harpa com infinidades de cordas, percebe sons e ruídos, embora apenas uma parte insignificante da imensidão de tudo quanto soa [...] Talvez cantassem os raios de sol nas montanhas que se aqueciam todas as manhãs, como ainda hoje cantam misteriosamente nas colunas egipcias de Memnon; durante tempos sem fim deve ter ressoado o órgão natural da gruta de Fingal, muito antes que os celtas lhe chamassem Ilgaimh bin, gruta da música, e muito antes, ainda, que um compositor romântico, Mendelssohn, transferisse aqueles sons naturais para a moderna orquestra. É o estranho ouvido de Dionísio, da Sicilia, aumentou, com certezas, todos os sons que o penetravam, muito antes que um ser humano lá se achasse para comprovar o milagre. A terra a abrir-se na mocidade, as fontes a jorrar, os vulcões e as montanhas a explodir, as águas do dilúvio a subir, tudo deve ter constituído gigantesca sinfonia que ninguém nos descreveu. [...] Davi toca harpa para afugentar os maus pensamentos do Rei Saul; Farinelli, com o auxilio da música, cura a terrível melancolia de Filipe V. Timoteo provoca, por meio de certa melodia, a fúria de Alexandre, o Grande, e acalma-o por meio de outra. Os sacerdotes celtas educam o povo com a música; somente eles conseguem, abrandar os costumes selvagens. Diz-se que Terpandro, tocando flauta, abafou a revolta dos lacedemônios. [...]. Trechos da obra História Universal da Música (Melhoramentos, 1944), do compositor, musicólogo e regente austríaco Kurt Pahlen. Veja mais aqui.

RUÍNAS DA ALMA - [...] Fechou os pequenos ataúdes com pregos. Rezou. Os meninos respiravam,, fiapos de respiração, respiravam. Ismael colocou=os nos braços, pesados, eram bem pesados, ele não imaginava que pesassem daquela forma. Andou, atravessou o mangue, entrou no rio, soltou dos dois brancos, branquíssimos, empurrou-se para longe, para onde ninguém pudesse alcançá-los. Entrou no caixão, exímio artesão, parafusou por dentro. Suor e cansaço. Agora só a lembrança dos meninos nas águas. Dois belos e perfeitos ataúdes correndo para o mar. [...]. Trecho da obra As sombrias ruínas da alma: ficções (Iluminuras, 1999), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero. Veja mais aqui e aqui.

MOTE GLOSADO - Como dois astros banhados / num clarão puro e divino, / num semblante purpurino, / vi dois brilhantes cravados, / e os anjos, ali, postados, / como que, a Deus, servindo / e ela contente e rindo, / como se no paraíso: / mostrando, de Deus, o riso, / num rosto moreno e lindo. Do poeta-vaqueiro Luís Dantas Quesado (1850-1930), autor da obra Glosqas sertanejas (1922). Veja mais aqui e aqui.


AGENDA 21 DA CULTURAUm compromisso das cidades e dos governos locais para o desenvolvimento cultural - Nós, cidades e governos locais do mundo, comprometidos com os direitos humanos, a diversidade cultural, a sustentabilidade, a democracia participativa e a criação de condições para a paz, reunidos em Barcelona nos dias 7 e 8 de Maio de 2004, no IV Fórum de Autoridades Locais de Porto Alegre para a Inclusão Social, no marco do Fórum Universal das Culturas – Barcelona 2004, aprovamos esta Agenda 21 da cultura como documento orientador das políticas públicas de cultura e como contribuição para o desenvolvimento cultural da humanidade. I. PRINCÍPIOS 1. A diversidade cultural é o principal patrimônio da humanidade. É o produto de milhares de anos de história, fruto da contribuição coletiva de todos os povos, através das suas línguas, imaginários, tecnologias, práticas e criações. A cultura adota formas distintas, que sempre respondem a modelos dinâmicos de relação entre sociedades e territórios. A diversidade cultural contribui para uma “existência intelectual, afetiva, moral e espiritual satisfatória” (Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural, artigo 3), e constitui um dos elementos essenciais de transformação da realidade urbana e social.  [...] 35. Convidar criadores e artistas a comprometerem-se com as cidades e com os territórios, identificando problemas e conflitos da nossa sociedade, melhorando a convivência e a qualidade de vida, ampliando a capacidade criativa e crítica de todos os cidadãos e, muito especialmente, cooperando para contribuir à resolução dos desafios das cidades.

Veja mais:
Terceira idade aqui.
A música de Max Bruch aqui.
A arte musical de Ligia Moreno aqui e aqui.
A arte de Carlos Careqa aqui.
A arte de Luiza Possi aqui, aqui e aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista francês Marcel Duchamp (1887-1968). 
Veja mais aquiaqui e aqui.
 

domingo, junho 26, 2016

MARCEL PROUST, JAKOBSON, SECOS & MOLHADOS, ASENCIO, LUIZA POSSI, REGINA GALINDO & THOMAS KARSTEN


QUEM DESISTE JAMAIS SABERÁ O GOSTO DE QUALQUER VITÓRIA - A vida dá muitas voltas, feliz de quem entra na onda e consegue sair dela. O que hoje é tido no maior valor, amanhã poderá não valer nada. Ou o mais ínfimo de agora, a fortuna de amanhã. Nunca se sabe. Cada coisa possui sua razão de ser e, de onde menos se espera, acontece o que diz o escritor estadunidense John Gardner (1933-1982): “Por trás de todo problema existe uma oportunidade brilhantemente disfarçada”. Vale o olhar da descoberta e as lições advindas das experiências. Nada mais. O que virá depois, nunca se sabe, realmente. Algumas ideias chegam promissoras e prontas pro sucesso; muitas – ou quase todas -, ao contrário, fadadas ao fracasso. Para alguns, êxito é pura sorte; para outros: resultados da determinação. Ou seja, cada qual sua sina de Perseu diante da Medusa: ou prospera degolando a cabeça de todas as adversidades, ou se petrifica diante do primeiro obstáculo. Aos que vencem, louros; aos derrotados, o amargor da decepção. Todos seguem pra novo desafio. Alguns compram na esquina, não sabem o real valor de ser e ter. Entretanto, a vida, na vera, é outra coisa. Por isso, é preciso ter coragem para arrebentar as redomas intransponíveis, tirar a corda do pescoço, livrar-se da espada de Dâmocles, arrancar as mordaças da resignação, abrir as vistas vendadas pelo sectarismo, sair daquela do sal se pisando, deixar de pagar pato indébito, saber ralar no trampo, sentir o gosto ruim das derrocadas. Quantas tempestades, mínimas bonanzas; quantos aperreios de arrancar os cabelos, quantas noites em claro, quantos trejeitos dos que são do contra suplantando os cacoetes dos que estavam a favor, quantas portas na cara, quantos planos abortados, quantas somas noves fora nada, quantas projeções invalidadas, quantos nocautes de última hora. Se não aprendeu, refaz a lição. O usual é se há perigo iminente, abandono do navio, o último que apague a luz: a covardia ou esperteza como expediente da fuga. Há outra coisa: é como a semente não se ver raiz, a raiz não se saber tronco, o tronco desconhecer dos galhos, os galhos não enxergarem folhas, flores e frutos. Ao primeiro vendaval se perde a vontade de experimentar o segredo dos abismos, a valia da queda, o gosto da perda, a dor de aprender os mistérios do visível e do invisível ao nosso redor. A quem persevera é dado o prazer de segurar a primavera nos dentes. Quem desiste, nunca saberá o gosto de qualquer vitória. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 Imagem: arte do artista plástico estadunidense Henry Asencio. Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Sobre amor e o tempo (Radar Records, 2013), da cantora e compositora Luiza Possi. Veja mais aqui.

PESQUISA
O livro Relações entre a ciência da linguagem e as outras ciências (Bertrand/Martins Fontes, 1974), do pensador russo, linguista e pioneiro da analise estrutural da linguagem, Roman Jakobson (1896-1982). Veja mais aqui.

LEITURA 
Nos caminhos de Swan (Globo, 2006), do escritor francês Marcel Proust (1871 - 1922), conta a história de um refinado personagem da aristocracia, narrando a sua infância e adolescência. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Imagem: capa do álbum de estreia da banda Secos & Molhados (Continental, 1973), formado por Ney Matogrosso (vocais), João Ricardo (Vocais, violão e harmônica), Gerson Conrad (vocais e violão) e Marcelo Frias (bateria).
Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
Letra da música Primavera nos Dentes, de João Ricardo & João Apolinário.

IMAGEM DO DIA 
A arte da performática artista guatemalteca Regina José Galindo.

Veja mais sobre Michel Maffesoli, Ernesto Sábato, Gilberto Gil, Isabel Câmara, Beatriz Segall, Eliane Caffé, Ludovic Florent, Howard Chandler, Edvard Munch & Leo Lobos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 
 Imagem: Moments of Intensity, do fotográfo e arquiteto holandês Thomas Karsten (1884-1945)
Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá.
Veja aqui.


quinta-feira, junho 26, 2014

ISABELLE STENGERS, BAUDELAIRE, MANN, AUTRAN DOURADO, GIL & OUTRAS MÚSICAS


 

O QUE SOU & NÃO, CONTRADIÇÕES... – (Imagem: capa do álbum Contradições, do músico e produtor Gilber T) – O que era não mais e o que serei não sei. Se o céu azul se faz negro, o Sol brilha e amarelo a vida com quem sabe que, se não deu certo, não era errado pensar e agir doutra forma. O dia ensolarado muitas vezes foi mais breu que a madrugada, sequer tinha pra onde ir. O calor na fervura da emoção tantas vezes era banho de água fria, mais que gelo antártico no coração. O que de líquido e certo tivera, umbral no meio da mata que nem lá mais existia, levando no peito arame farpado de todas as horas. Ao chegar ao topo não era monte nem beira-mar e as ondas eram lufadas que empurravam pro precipício. Assim cada ano por muitos instantes espremidos e nem sabia o que era da esquina no meio do alvoroço. Fui de ontem pro amanhã, pelo certeiro por sobre pedras falsas, sabia lá que a ponte era móvel e o rodízio era feito redemoinho de dias... Eu sorria e a chuva era o choro da remissão. E refazia o trajeto como se nunca tivesse por ali passado e retomando outras ideias como se fosse possível colher cada flor no meio da correria. Saía do quintal pro meio de longa e larga avenida, nem dava pra ouvir o alarido das ameaças, o psiu por alarde ou o sinal vermelho. Teimava em trilhar quaisquer ousadias, lá longe o circo dos horrores com seus desfiles por todos os lados das ruas e semblantes. O que não dava pra atravessar eu cortava caminho e quase feliz com a criançada aos pulos na saída da escola, a sirene abrindo portões e um tanto de gente fugindo pelo ladrão. Eu não estava e a sorte era não reconhecer ninguém, tão estrangeiro quanto quem nunca nascera sonhando viver. Outras atrações adiante repletas de ondas intermináveis com luzes mais caleidoscópicas. Era um espetáculo que pisava lágrimas, dores e espremidos. No meio da multidão uma sereia acenava e era tão linda como um dia de festa. Com o dedo apontando tocou meu coração como se fosse um feitiço para me fazer feliz. Pegou-me pelas vísceras a levitar sobre uma montanha russa repleta de tapetes mágicos, contornando monumentos, perigos e golpes de estado. Sorria cabelos nas nuvens e me contava histórias de antanho em que mortes e vitórias sangrentas eram comemoradas pra felicidade dos que são poderosos enterrando quem não tivesse onde cair morto. Soube que eu era um dos vencidos gozando do último pedido nas mãos dela e a vi tão cruel quanto bondosa, com a nudez do beijo final da viúva negra. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.


 

PENSAR & VIVERSe aprender a pensar é aprender a resistir a um futuro que se apresenta como óbvio, plausível e normal, não o podemos fazer nem evocando um futuro abstracto, do qual foi afastado tudo o que está sujeito à nossa desaprovação, nem referindo-nos a um futuro distante. causa que poderíamos e deveríamos imaginar estar livres de qualquer compromisso. Resistir a um futuro provável no presente é apostar que o presente ainda fornece substância para a resistência, que é povoado por práticas que permanecem vitais mesmo que nenhuma delas tenha escapado ao parasitismo generalizado que as implica a todas. Pensamento da filósofa e historiadora belga Isabelle Stengers.

 

QUAL É A VERDADEIRA? - Conheci uma certa Benedita que enchia a atmosfera de ideal, cujos olhos resplandeciam o desejo da grandeza, do belo, da glória e de tudo aquilo que faz crer na imortalidade. Mas essa menina milagrosamente era bela demais para viver muito tempo; assim, ela morreu alguns dias depois que a conheci, e fui eu mesmo que a enterrei, num dia em que a primavera agitava seu incensório até nos cemitérios. Fui eu que a enterrei, bem lacrada em um caixão de uma madeira perfumada e incorruptível como as arcas da Índia. E, como os meus olhos permaneciam plantados no lugar onde estava enterrado o meu tesouro, vi subitamente uma pequena pessoa que se parecia muito com a defunta, e que, esperneando na terra fresca com uma violência histérica e bizarra, dizia, explodindo de rir: "Sou eu a verdadeira Benedita! Sou eu, uma famosa canalha! E, como punição a sua loucura e cegueira, você me amará assim, como eu sou!". Mas, furioso, respondi: "Não! não! não!". E, para melhor marcar minha recusa, bati o pé tão violentamente na terra que minha perna afundou até o joelho na recente sepultura, e, como um lobo pego na armadilha, permaneço preso, talvez para sempre, na vala do ideal. Texto do escritor, tradutor, crítico de arte e poeta francês, Charles Baudelaire (1821-1867). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 


Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora.
(Metáfora, Gilberto Gil)

GILBERTO GIL: 72 ANOS DE MÚSICA E POESIA – O multiartista Gilberto Gil está na minha vida desde minha infância. Como eu disse, aos 7 anos de idade, fui embalado pela sua “Domingo no Parque”. Depois disso, toda sua interpretação e obra musical desfilou na minha preferência: poesia & canções. Tive a oportunidade de vê-lo no palco por diversas vezes nos seus mais diversos shows e álbuns, constatando que: se tem Gil, tem festa e poesia. Sempre saio encantado das suas apresentaçõ0es. Daqui minha festa & parabéns: Salve Gilberto Gil. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – Já dizia Autran Dourado na sua belíssima “Novelas de aprendizado”: “[...] Apesar da dificuldade de aquisição de um livro numa pequena cidade do interior brasileiro, meu pai tinha uma relativamente boa biblioteca, pelo menos em número, eu não saberia julgar. Na sua maioria livros de Direito (eu não sei por que tão numerosos, apesar de meu pai ser juiz; depois fiquei sabendo – quanto menos respeito tem um país às leis, maior a sua literatura jurídica) [...]”. Veja mais aqui.


LUIZA POSSI – Lembro bem quando vi a cantora Zizi Possi grávida maravilhosamente cantando a belíssima canção “Luiza” do Tom Jobim: “Vem cá Luiza, me dá tua mão, o teu desejo é sempre o meu desejo [...] que eu guardei somente pra te dar Luiza...”. A mãe antevia na lindeza da música toda a beleza da sua filha, hoje a cantora e compositora Luiza Possi Gadelha. Belíssima voz, lindíssima expressão e que de mãe pra filha fui sendo envolvido pelo talento dessa jovem cantora que hoje comemora 30 anos de idade. Eu me deliciei mesmo quando ela gravou “Logo eu” do parceiramigo Sonekka Osmar Lazzarini & Zé Edu Camargo. Parabéns, Luiza, muito sucesso procê é o desejo do seu fã.

THOMAS MANN – Essa recolhida do livro “Tônio Kroeger” do escritor alemão Thomas Mann (1875-1955), na tradução de Maria Deling: “[...] A experiência fê-lo saber que era o amor, apesar de ter certeza que o amor deveria trazer-lhe muita dor, tormentos e humilhações, e que além disso destruía a paz e deixava o coração transbordar com melodias sem que encontrasse sossego para dar forma a alguma coisa e tranquilamente forjar uma peça inteiriça. Assim mesmo aceitava-o, entregava-se completamente e zelava por ele com as forças de sua alma, pois sabia que o amor enriquecia e dava vida e ele ansiava por ser rico e vivo em vez de na tranquilidade forjar algo concreto...”. Veja mais aqui.


CÉLIA DEMÉZIO – O Clube Caiubi de Compositores desde sempre (e bote ano nisso!) me proporcionou surpresas agradabilíssimas. Sempre encontro coisas muito legais pra curtir. Dessa vez, estava catando coisas na rede e fui conferir melhor o trabalho lítero&musical da cantora, poeta e compositora Célia Demézio. Curti as canções de sua autoria e suas performances no Grupo Noir: “Trocadinhos”, “Suando frio”, “Que cena era aquela”, “Ok” (uma parceria dela com Jorge Mendes), entre outras, até chegar na sua “Sorrisos crônicos” que me levou pro primoroso blog homônimo onde catei pérolas como “Do lado avesso”, “Hssssssss”, “O caminho do cinema”, “VampKlauss”, “Re-Seios” e o belíssimo “Poema para Iporanga”, tudo isso que ela vinha publicando desde 2007. Tudo um primor. Parabéns duplos: pro trabalho artístico e pela nova idade hoje: feliz aniversário!!!!!


Veja mais sobre:
O cis, o efêmero & eu aqui.

E mais:
Cancioneiro da imigração de Anna Maria Kieffer & Ecologia Social de Murray Bookchin aqui.
A poesia de Sylvia Plath & a Filosofia da Miséria de Proudhon aqui.
Antonio Gramsci & Blinded Beast de Yasuzo Masumura & Mako Midori aqui.
Mabel Collins & Jiddu Krishnamurti aqui.
Christiane Torloni & a Clínica de Freud aqui.
Paulo Moura, Pedro Onofre, Gustavo Adolfo Bécquer, Marcos Rey, Mihaly von Zick, Marta Moyano, Virna Teixeira aqui.
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A obra de Tomás de Aquino & Comunicação em prosa moderna de Othon M. Garcia aqui.
Essa menina é o amor aqui.
Uma gota de sangue de Demétrio Magnoli & mais de 300 mil no YouTube aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...