Mostrando postagens com marcador Gaston Bachelard. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gaston Bachelard. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, outubro 02, 2017

BACHELARD, RAIMUNDO CARRERO, DUCHAMP, QUESADO, FRANCISCO DE ALMEIDA, MÚSICA DE PAHLEN & AGENDA 21 DA CULTURA

O JANTAR DOS COMPADRES – Imagem: xilogravura da exposição Transfigurações – 20 aos pedaços, do artista plástico Francisco de Almeida. - Mais de trinta anos separava o compadrio figadal entre Dejandro e Zé-Cantão. A amizade entre eles nascera num pacto de sangue embaixo dum abacateiro no quintal da infância, emendado por anos de estripulia pela adolescência, para se perderem nas quebradas da vida. O reencontro dos já sexagenários numa esquina do tempo foi regado a muitos abraços e gaitadas puxadas da memória. Mas, diga lá, compadre Cantão, como vai a comadre Filó? Ah, compadre, aquilo é um estrupício, sempre trambecando pra lá e pra cá, comendo o restinho da minha paciência. E a comadre Filó bonitona? Ah, aquilo é meu pecado mortal, sabe como é, né? E a afilhada? Ah, a Duilinha puxou ao pai, sempre bonita, faceira, me deu dois netos lindos que são a alegria da minha vida. E os seus netos? Ah, quisera, compadre, a Filó é tão ruim que nem me deu filho nem netos. Não diga, compadre! Conversa vai, pilhéria vem, remorsos, sacadas, enterros, feridas, espalhafatos. Um lembrava das astúcias do outro e leseiras da muita na maior risadagem. Debulharam o passado, tantas aprontações, revestrés, ciladas, desatinos. Depois de horas: Olha só, compadre Cantão, sábado eu quero você lá em casa, vou fazer um jantar para selar o nosso reencontro. Quero você e a comadre lá, sem falta, tome aí meu endereço. Ah, pode deixar, compadre Dejão, estararei lá com meu encosto na hora acertada, podexá. E se separaram depois de horas de puxa-encolhe, abraços e promessas. Um dia atrás do outro e, no horário marcado, lá estavam Cantão e Brisa trajando a domingueira e diante dum palacete. Vixe, homem, vamos embora, isso é um palácio, a gente pode ser preso. Vambora, mulher, isso é a casa do compadre, veja aqui o número do endereço, é aqui mesmo, onde é que fica mesmo a cigarra, hem? E eu lá sei, se você que é todo metido a sabichão não sabe, imagine eu. Cala boca, mulher, o homem está vindo. Sim? É aqui a casa do compadre Dejão? Sim, residência do Dr. Dejandro Jacobina, sim, senhor. O que deseja? Ah, eu sou Zé-Cantão, compadre dele. Como? Sou o compadre dele. Um momento, aguardem aí. Demorou um pouco, seguraram nos cambitos a espera e quase hora depois no sereno: Pois não, podem entrar. Vixe, mulher, vê tudo isso? Isso é que casa, macho, pra você tomar vergonha na cara e ver que esses anos todos não fez nada que prestasse na vida. Danou-se, veja como a comadre Brisa continua bonitona, veja! Isso é uma piscina? Ô mulher, sai daí que se cair eu deixo morrer de vez, visse? E se abraçaram e rolou tudo do bom e do melhor: sorrisos, falsidades, supresas, lembranças, pitu, camarão, lagosta, uísque, prato disso, prato daquilo, mordomo, maior fausto de encher os olhos admirados do humilde casal convidado. Já passava das duas da manhã, os compadres se despediram com o acerto de que no próximo sábado o jantar seria na casa do Cantão. Tudo justado nos conformes da amizade: Até sábado, compadre! Inté. Lá se foi Cantão procurando condução madrugada afora, Brisa claudicando e reclamando da falta de sorte deles de não ter nem uma borreia de nada pra levá-los àquela hora pra casa. Rodaram, toraram aço, esperaram no ponto. Lá pras tantas, pegaram o cata-corno e, depois de muita volta, chegaram, finalmente, ao lar. O dia já amanhecia. Ô Cantão, como é que a gente vai fazer sábado que vem? Ah, Filó, vou ter que me virar essa semana pra arrumar dinheiro e fazer uma festa aqui pro compadre. Acredito não. Acredite, mulher, nem que seja a última coisa que eu faça na vida. Não posso fazer desfeita com o compadre! A semana passou mais rápido que de um dia pra outro, foi só piscar o olho: Vixe! Ainda ontem era domingo, hoje já é sábado. Se pudesse voltava pra sábado passado, aquilo sim é que é jantar que se ofereça. Daí a pouco parou um automóvel de luxo na porta e o motorista perguntou: O senhor pode me informar onde fica o palacete do Dr. José Cantão? Ah, que doutor? Dr. José Cantão! Tem esse não, aqui mora Zé-Cantão, seu criado. Foi então que o vidro traseiro arriou e ouviu-se: Está me estranhando, compadre? Ah, compadre, é aqui mesmo, pode encostar aí. Dejandro e Brisa logo desceram e os abraços e risos deram o tom da festa. Cadê a afilhada Duilinha, veio não? Ah, ela não pode vir porque está de plantão no hospital, fica pra próxima. Adentraram a meia-água, se aboletaram no sofá irregular que ameaçava desabar, exigindo ajeitado constante, e tome conversa. O compadre quer tomar uma pinga? Pinga? Sim, posso fazer uma caipirinha tinindo, quer? Pinga, compadre? Sim, ou quer cerveja? Posso mandar comprar na venda ali, quer? Não, não, estou sem beber hoje. Querem um docinho de jaca? Não, comadre, estou de regime. Tome blábláblá. Até que enfim, chegou a hora do jantar: Mulher, não enrole mais não, ajeite a mesa pra gente beliscar. Tudo pronto, venham. Ah, agora sim! O que é isso, compadre? Sopa! Sopa? É, compadre, comprei uns taquinhos de carne hoje na feira e a mulher inventou essa gororoba aí pra gente, e pela cara está pra lá de muito gostosa! Sopa? Sim, sim, compadre, e da boa. Ah, compadre, me dê uma licencinha que eu e a Brisa vamos ali buscar um remédio e a gente volta já, tá? Já passava da meia noite quando Cantão perguntou pra Filó: Será que o compadre ainda volta? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compsitor alemão Max Bruch (1838-1920): Scoth Fantasy e Concert Violin 1 com Janine Jansen; a pinista Ligia Moreno interpretando Etude Poétique de Scriabin, Concerto para piano de Grieg & Etude Chopin; cantor, compositor e ator da cena underground brasileira, Carlos Careqa com seus álbuns Palavrão: múisica infantil para adultos, Os homens são todos iguais e Um pouco de veneno; e a cantora e compositora Luiza Possi com os álbuns Seguir cantando, Sobre o amor e o tempo & Bons ventes sempre chegam. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - O homem é uma criação do desejo, não uma criação da necessidade. [...] É preciso que cada um destrua mais cuidadosamente as suas 'filias' que suas fobias e suas simpatias pelas intuições primeiras [...] o amor é a primeira hipótese científica para a reprodução objetiva do fogo [...] Estas correspondências das imagens com a palavra são as correspondências verdadeiramente salutares., A cura para um psiquismo dolorido, para um psiquismo desorientado, para um psiquismo vazio será ajudada pela frescura do riacho ou do rio. Mas é preciso que esta frescura seja falada. É preciso que o ser infeliz fale com o riacho. Venham, meus amigos, na clara manhã, cantar as vogais do riacho! Onde nosso sofrimento primeiro? É que nós temos hesitado em dizer... Ele nasceu naquelas horas em que acumulamos em nós muitas coisas silenciadas. O riacho lhes ensinará a falar apesar de suas dores e suas recordações, ele lhes ensinará a euforia pelo eufemismo, a energia pelo poema. Ele lhes dirá, a cada instante, alguma bela palavra bem redonda que rola sobre pedregulhos. Trechos extraídos da obra A psicanálise do fogo (Martins Fontes, 1999), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

HISTÓRIA DA MÚSICA - A vida é som. Continuamente estamos cercados de sons e ruídos oriundos da natureza e das várias formas de vida que ela produz. O homem fala e canta há incalculáveis milhares de anos e, graças ao seu ouvido maravilhosamente construído que se parece a uma harpa com infinidades de cordas, percebe sons e ruídos, embora apenas uma parte insignificante da imensidão de tudo quanto soa [...] Talvez cantassem os raios de sol nas montanhas que se aqueciam todas as manhãs, como ainda hoje cantam misteriosamente nas colunas egipcias de Memnon; durante tempos sem fim deve ter ressoado o órgão natural da gruta de Fingal, muito antes que os celtas lhe chamassem Ilgaimh bin, gruta da música, e muito antes, ainda, que um compositor romântico, Mendelssohn, transferisse aqueles sons naturais para a moderna orquestra. É o estranho ouvido de Dionísio, da Sicilia, aumentou, com certezas, todos os sons que o penetravam, muito antes que um ser humano lá se achasse para comprovar o milagre. A terra a abrir-se na mocidade, as fontes a jorrar, os vulcões e as montanhas a explodir, as águas do dilúvio a subir, tudo deve ter constituído gigantesca sinfonia que ninguém nos descreveu. [...] Davi toca harpa para afugentar os maus pensamentos do Rei Saul; Farinelli, com o auxilio da música, cura a terrível melancolia de Filipe V. Timoteo provoca, por meio de certa melodia, a fúria de Alexandre, o Grande, e acalma-o por meio de outra. Os sacerdotes celtas educam o povo com a música; somente eles conseguem, abrandar os costumes selvagens. Diz-se que Terpandro, tocando flauta, abafou a revolta dos lacedemônios. [...]. Trechos da obra História Universal da Música (Melhoramentos, 1944), do compositor, musicólogo e regente austríaco Kurt Pahlen. Veja mais aqui.

RUÍNAS DA ALMA - [...] Fechou os pequenos ataúdes com pregos. Rezou. Os meninos respiravam,, fiapos de respiração, respiravam. Ismael colocou=os nos braços, pesados, eram bem pesados, ele não imaginava que pesassem daquela forma. Andou, atravessou o mangue, entrou no rio, soltou dos dois brancos, branquíssimos, empurrou-se para longe, para onde ninguém pudesse alcançá-los. Entrou no caixão, exímio artesão, parafusou por dentro. Suor e cansaço. Agora só a lembrança dos meninos nas águas. Dois belos e perfeitos ataúdes correndo para o mar. [...]. Trecho da obra As sombrias ruínas da alma: ficções (Iluminuras, 1999), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero. Veja mais aqui e aqui.

MOTE GLOSADO - Como dois astros banhados / num clarão puro e divino, / num semblante purpurino, / vi dois brilhantes cravados, / e os anjos, ali, postados, / como que, a Deus, servindo / e ela contente e rindo, / como se no paraíso: / mostrando, de Deus, o riso, / num rosto moreno e lindo. Do poeta-vaqueiro Luís Dantas Quesado (1850-1930), autor da obra Glosqas sertanejas (1922). Veja mais aqui e aqui.


AGENDA 21 DA CULTURAUm compromisso das cidades e dos governos locais para o desenvolvimento cultural - Nós, cidades e governos locais do mundo, comprometidos com os direitos humanos, a diversidade cultural, a sustentabilidade, a democracia participativa e a criação de condições para a paz, reunidos em Barcelona nos dias 7 e 8 de Maio de 2004, no IV Fórum de Autoridades Locais de Porto Alegre para a Inclusão Social, no marco do Fórum Universal das Culturas – Barcelona 2004, aprovamos esta Agenda 21 da cultura como documento orientador das políticas públicas de cultura e como contribuição para o desenvolvimento cultural da humanidade. I. PRINCÍPIOS 1. A diversidade cultural é o principal patrimônio da humanidade. É o produto de milhares de anos de história, fruto da contribuição coletiva de todos os povos, através das suas línguas, imaginários, tecnologias, práticas e criações. A cultura adota formas distintas, que sempre respondem a modelos dinâmicos de relação entre sociedades e territórios. A diversidade cultural contribui para uma “existência intelectual, afetiva, moral e espiritual satisfatória” (Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural, artigo 3), e constitui um dos elementos essenciais de transformação da realidade urbana e social.  [...] 35. Convidar criadores e artistas a comprometerem-se com as cidades e com os territórios, identificando problemas e conflitos da nossa sociedade, melhorando a convivência e a qualidade de vida, ampliando a capacidade criativa e crítica de todos os cidadãos e, muito especialmente, cooperando para contribuir à resolução dos desafios das cidades.

Veja mais:
Terceira idade aqui.
A música de Max Bruch aqui.
A arte musical de Ligia Moreno aqui e aqui.
A arte de Carlos Careqa aqui.
A arte de Luiza Possi aqui, aqui e aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista francês Marcel Duchamp (1887-1968). 
Veja mais aquiaqui e aqui.
 

segunda-feira, abril 24, 2017

BACHELARD, ROGEL SAMUEL, GÉRÔME, WENDY ARNOLD, DE HOMENS, BICHOS & FERAS.


DE HOMENS, BICHOS & FERAS - Imagem: Diógenes (1860), do pintor e escultor academicista francês Jean-Léon Gérôme (1824-1904) - Ainda ontem eu vi o velho Diógenes com sua vigilância e inseparável lanterna pelas ruas de Sinope e alguém lhe perguntou: pra onde vai, mestre, com essa lanterna acesa em plena luz do dia? Procuro um homem com agá maiúsculo. Virou gay, mestre? Não, pra sua mãe, gafanhoto. Mestre! E retirou-se resmungando: melhor pedir esmolas às estátuas. Nesse contratempo, surge o ameaçador e poderoso Xandão Pistola, com sua cara de mi bordão a indagar do velho com ar de repreensão: o que espera do futuro, Diógenes? Para quem saiu do barril e só tem um alforje, um bastão e uma tigela, só espero que não me tire o que não me pode dar. Estranhou Xandão aquela resposta, só entendendo ao ser empurrado pro lado, retirando a sombra que fazia para que o idoso pudesse sentir a luz do Sol em sua pele. Prevendo a tragédia, o discípulo logo acorreu para apaziguar: Não ligue, senhor Xandão, o velho não anda bem da cabeça. Se eu não fosse Xandão, poderoso e rico, eu queria ser Diógenes, admiro a sua coragem. E saiu como uma nuvem negra que vai atemorizar outras paragens. Ao se virar, o discípulo flagra o mestre se masturbando diante da uma estátua nua em plena via pública: mestre, o que é que é isso? Que porra é essa, mestre? O senhor enlouqueceu? Indiferente, respondeu: que pena não se possa viver apenas esfregando a barriga. Mestre, isso é crime! Ah, gafanhoto, quanta gente-lesma se arrasta reprimida e desencorajada a se enojar dos seus próprios excrementos sem se envergonhar dos seus imundos roubos do que é dos outros e querem tudo só pra si; quanta gente-papagaio que é só tagarela repetindo o que bebeu na boca dos outros e se torna pior que as cantigas de grilo remoendo no juízo só pro engano que querem perpetuar; quanta gente-maribondo ferroando a paciência alheia a ensinar o que já se sabe e tirar de quem nada mais tem; quanta gente-cupim a corroer o erário público em nome de uma riqueza que diz ser de todos e que é só pro gozo de si mesmo; quanta gente-vagalume que precisa de luz e plateia para enganar a todos com seus pesadelos mais profundos e sua infelicidade na peçonha que faz todos serem infelizes; quanta gente sangue de barata que não passa de um bando de traiçoeiros tubarões wobbegong nas cruzetas dos sicários, a prear tudo pros seus latifúndios infindáveis; quanta gente-louva-a-deus que se julga a maior tropa de escolhidos dos céus para cometerem as maiores ignomínias em nome da fé e da moral; quanta gente-escorpião com seu rabo homicida a promover discórdias e confusões; quanta gente-lagartixa para servir de lambecus dos dominantes; quanta gente-caranguejo aprisionados por cordas invisíveis, cada qual puxando pra direções opostas na maior das confusões e equívocos; quanta gente-urubu pra se servir da carniça dos miseráveis corrompidos; quanta gente-abutre que abduzem desmiolados pra escravaria; quanta gente-serpente a destilar veneno pra desunião; quanta gente-pavão tão camaleônica a ponto de enganar a todos e a si mesmo; quanta gente-gambá que fede por dentro e por fora e se entope dos aromas para perfumar sua fedentina na luxuria da sociedade corrupta. O que pode ser pior, gafanhoto? Mas o senhor está colocando tudo num mesmo balaio, mestre, ricos e pobres? Não há onde cuspir na casa de um rico, senão na cara dele mesmo! Ah, mestre, existem pessoas boas no mundo! Não duvido, gafanhoto, só não encontro uma, só Fabos. Quem são esses, mestres? Fabricantes de bosta, só o que sabem fazer, comboio de patetas. Mestre! Um dia, os insetos que empestam a vida de todo mundo se reuniram protestado por serem presas dos seus predadores. O aniquilador respondeu: faço isso pra sobreviver e, ao mesmo tempo, aproveitou pra protestar a cadeia alimentar, porque apareceu o homem e fodeu com tudo, derrubando árvores, desmatando pra bagunçar com tudo, matando bichos e feras pra se alimentar e comerciar, escravizando o próprio humano pra se deliciar com a desgraça de tudo, Homo homini lúpus. Mestre, mestre... ah, gafanhoto, prefiro o meu barril que viver como todos: enrustidas lagartas que rastejam com a borboleta aprisionada, por completa falta de coragem de libertá-la, dias piores virão. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

 O que acreditamos saber, claramente ofusca o que deveríamos saber.
Trecho da obra A formação do espírito científico (Contraponto, 1996), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui, aqui e aqui.
[...] Para que memorizar, se máquinas podem fazê-lo melhor e mais rapidamente do que nós? De que adianta conhecer um teorema ou uma receita, se podemos acessá-los facilmente na web? Mas será que devemos concluir que a sociedade da informação conduz a uma sociedade caracterizada pela amnésia e ignorância? Não. A pergunta “quem sabe?” só terá perdido a relevância se confundirmos informação com conhecimento [...] O conhecimento inclui dimensões sociais, ética e políticas que não podem ser reduzidas à tecnologia. Uma sociedade que fosse exclusivamente de informação seria um conjunto de enormes redes interligadas, eficazes e ágeis, mas que não iria produzir inovações [...] Sem o intercâmbio do conhecimento não podem existir avanços econômicos, científicos ou políticos de monta em nível local, regional ou global. A partilha equitativa do conhecimento será a origem da riqueza do amanhã.
Trecho do artigo Quem sabe (Tendências e Debates - Folha de São Paulo, 2003), do sociólogo alemão Jérôme Bindé e do filósofo francês Jean-Joseph Goux. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Parece que foi ontem ser pai no aniversário da filha, a literatura de Erza Pound, Enterrem meu coração na curva de um rio de Dee Brown, a música de Percorso Ensemble & pintura de Fernand Khnof aqui.

E mais:
Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL, a literatura de Ítalo Calvino, Mademoiselle Fifi de Guy de Maupassant, Mandrágora de Nicolau Maquiavel, Serge Gainsbourg & Jane Birkin, a música de Cole Porter, os Poemas de amor de Ivo Korytowski, a arte de Maria de Medeiros, a pintura de Odilon Redon & a coreografia da Quasar Cia de Dança aqui.
Ginofagia: quatro poemetos em prosa de paixão por ela & a pintura de Victoria Selbach aqui.
A arte musical de Ruthe London & outras dicas tataritaritatá aqui.
A honra dos sertões à morte, a literatura de Euclides da Cunha, O julgamento de Frineia, Amarcord de Federico Fellini, a música de Amedée Ernest Chausson, a pintura de Antonio Parreiras, a poesia de Ana Terra & Programa Tataritaritatá aqui.
A filosofia na alcova de Marquês de Sade, a necessidade neurótica do amor de Karen Horney, O tambor de Günter Grass, a música de Chico Buarque, o teatro de Maria Clara Machado, a pintura de Larry Vincent Garrison, a arte de Angela Winkler, a poesia de Luiz Edmundo Alves & o blog de Monica & Monique Justino aqui.
O caso Dora de Freud & Ida Bauer, Contos do Panchatantra, O amante de Marguerite Duras, o teatro de Molière, a música de Muddy Waters, o cinema de Jean-Jacques Annaud & Jane March, a pintura de Maurice de Vlaminck & a Deusa Cibele aqui.
A menstruação mental do Robimagaiver puto da vida, A realidade e os sonhos de Muriel Spark, O mundo da vida cotidiana de Peter L. Berger & Thomas Luckmann, A sociologia econômica de Mark Granovetter, a música de Han-Na Chang, a arte de Marina Abramović, a fotografia de Greg Gorman & Alfred Cheney aqui.
A correnteza do rio me ensinou a nadar, A flor azul de Penelope Fitzgerald, A juventude e as tecnologias de Beatriz Polivanov e Vinicius Andrade Pereira, Intereções e redes na sociedade de Denise Najmanovich & Elina Dabas, a música de Karlheinz Stockhausen & Suzanne Stephens, a arte de Yayoi Kusama & Robert Rauschenberg, a coreografia de Anita Berber, a arte de Otto Dix & Sue Halstenberg, Palmares & Rio Una aqui.
O amor todo dia e o dia todo, O homem ativo & o intelectual de Antonio Gramsci, a literatura de Samuel Rawet, A dialética do concreto de Karel Kosik, a música de Madeleine Peyroux, a fotografia de Rory Banwell, a arte de Luciah Lopez, a pintura de Serge Marshennikov & Amélia Toledo aqui.
Entre topadas e escorregões, eu insisto, persisto, resisto e até persevero, A poesia brasileira de Antonio Cândido, História de um louco amor de Horacio Quiroga, O espelho da alma de Marilena Chauí, a música de Catherine Ribeiro, a coreografia de Caralotta Ikeda, a pintura de Anders Zorn, a fotografia de Spencer Tunick & Maureen Bisilliat aqui.
Poesia não deu, só noutra, o pensamento de Friedrich Nietzsche, a literatura de Nadine Gordimer, A gaia ciência de José D 'Assunção Barros, a música de Dulce Pontes, a fotografia de Kharlos Cesar, a arte de Giovanna Casotto & Jeju Loveland aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

O AMANTE DAS AMAZONAS, DE ROGEL SAMUEL
[...] Quando a urutu pica, dói muito e incha a carne, que vai ficando escura e roxa, até o aparecimento da hemorragia e da morte. Já a picada da cascavel ataca o sistema nervoso central, a dor desaparece, a vista se perturba, vai ficando cega lentamente, começa a perder os movimentos do corpo, a princípio os dedos. Aí vêm dores na nuca, cada vez mais fortes, a paralisia vai subindo, a gente via ferver o progresso da morte, das extremidades para o centro, o corpo ficando rijo, duro, a morte vem pela rigidez viscosa, por asfixia, quando o diafragma enrijece. A morte vence o corpo, e a coral, obra de ourivesaria, é linda, vermelho-amarelo, cores vivas, e presas curtas, mas raramente pica. Mas não seja enganosa esta beleza, pois picando, mata. Mas pior de todas é a surucucu, grande, agressiva, forte e que, ao contrário das outras, vem e ataca. Tem muito veneno e permanece na tocaia das margens escuras de rios e lagos [...].
Trecho do romance O amante das amazonas (Itatiaia, 2005), do escritor, professor doutor em Letras, webjornalista e colunista cultural, Rogel Samuel, que edita o blog Literatura e foi entrevistado por mim no Guia de Poesia – O referencial Humano. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
AArte da artista plástica neozelandeza Wendy Arnold.
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

sábado, agosto 06, 2016

BACHELARD, VINICIUS, BENCICOVA, NECKER, WEBERN, NELINA, OELZE & VERMEER

O PALHAÇO DOIDO - Selerino Freitas era fogo! E bote fogaréu nisso. O cabra era sonso se aproveitando de incautos para armar de seus ardis. Tirava proveito de qualquer abestalhado. Todo faceiro, cheio de manha, pintava e bordava. De algumas refregas fora escaldado. Não podia tapiar mais ninguém, estavam vacinados de seu desazo. Não quero aqui macular a imagem de artista dele, não, nada disso. Reconheço que se tratava do mais genuíno artista, daqueles capazes de se criar as mais lendárias das existências celebradas até em folhetos de repentistas e emboladores. Prova disso era o seu controvertidíssimo jeito de escapar das situações mais vexatórias que se tenha notícia. Ora, nisso ele era perito, prova de sua inconteste veia artística digna de muitas homenagens e maldições. Pois bem, quando a maior parte da população abriu o olho para as suas artimanhas, foi aí que Selerino, sabido ineivado, não tendo como enrolar mais a ninguém, deu corpo ao seu alter ego. Seu intento era o seguinte: se ele não conseguia mais aplicar das suas nos brocos, outro, nele mesmo, o faria. Foi aí que ele entocou-se por uns dias, cerziu uma roupa colorida e larga, arrumou uns sapatos imensos, idealizou uma maquiagem com cores vivas, exercitou sua habilidade física de ginasta, construiu uma careca de pano reluzente com cabelos de lã colorida pelos lados, ensaiou chistes e gags resultado de uma pesquisa profunda copiando Foottit, Chocolat, Grock, os Fratellini, Rastelli, Zavatta, Kopov, Lazarenko, Piolim, Arrelia, Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Loyd, Oscarito, Grande Otelo, Mazzaropi, Coronel Ludugéro, Os Trapalhões, os irmãos Max, Os três Patetas, O Gordo e o Magro, Jerry Lewis, Rowan Atkinson, Chico Anísio, Golias, Costinha, Fafy, Bemvindo Serqueira, Saulo Laranjeira, Pedro Bismark, sem esquecer de passar noites sem pregar os olhos lendo Sérgio Porto, Leon Eliachar, Luis Fernando Veríssimo, Ary Toledo e Henfil. Dizia-se ancho: - Ora, isso é moleza, também faço! O bicho tava com um repertório bom, tendo cursado uma eventual oficina teatral e circense promovida pela Associação dos Artistas Biriteiros, onde se assenhoreou da commedia dell arte, pantominas, saltimbancos, mambembes e, daí, saiu armando das suas. O bicho era presepeiro mesmo. E dos bons. Foi aí que entre muita bravata e sacolejo nascia o seu alter-ego: palhaço Pirulitino. Vale salientar que tudo que conseguira fora ou à custa de muito sacrifício ou mesmo adquirido pelas suas atividades escusas deslustrando sua vocação e o êxito pessoal. Ou seja, como ele mesmo dizia: - Como só tem tu, vai tu mesmo. Conseguiu a fim da força e de um bocado de azucrinamento abundante, um espaço num programa radiofônico dominical. Peiticou tanto o juízo do produtor da rádio que, finalmente, conseguira trinta minutos de horário infantil. Virara logo símbolo de sucesso, não antes haver tropeçado em algumas apropriações indébitas que lhes fustigaram a alma e a dignidade. Mas estava lá no programa que escancarara as portas em batizados, aniversários, festinhas, inventando espetáculos infantis e induzindo a criançada às maiores gargalhadas. Era o ídolo local da meninada e ápice do desconfiômetro dos adultos. Já era requisitado até pela alta sociedade para entretenimento da gurizada durante reuniões várias, festivais do guaraná, vesperais, matinês, animação em lojas de artigos infantis, virado na breca. Muitas e muitas vezes era interrompido durante suas apresentações por credores infames que lhe cobravam débitos retardatários. Acusavam-no de velhaco, ora. Por isso, ora empenhava a vestimenta numa festa acabada sob ameaça de credores e contratantes que prometiam nunca mais trazê-lo para nada. Outras, era a vez do som que conseguira emprestado do primo que só não matou-lo de cacete por sentimento cristão no meio da ira. E muitas e muitíssimas outras tantas macacadas que provocavam decepção em todos. O desgraçado não tomava jeito, vendia o que era e o que não era seu, tapiando aqui e ali ao se apropriar de resultados de outrem. E não só isso: fiava de tudo que precisasse, conseguia avais de condescendentes simpatizantes que depois caíam na real e já era tarde; envolvia terceiros nas suas mazelas; assinava cheques que não eram seus; adulterava documentos visando tirar proveito da situação; era a gota, avalie! Eis que, no meio desse cabrunco todo, certa sexta-feira fora contratado por um bom cachê para animar o aniversário do filho de seu Joaquinildo, um próspero comerciante local. Fora requisitado pela esposa do mesmo, dona Filadelfa, uma gorducha simpática que era bastante ingrizienta com as coisas. Estava tudo marcado para o dia seguinte, sábado, às dezesseis horas, na residência opulenta deles, à beira da piscina. Tudo programado, menino que só a praga. Os endiabrados empurravam-no, tiravam dedada nele, puxavam sua indumentária, chutavam suas pernas, jogavam o que lhes viessem à mão na cara dele, faziam dele gato e sapato na maior hostilidade. Aqueles capetinhas estavam envenenados objetivando destituí-lo da liderança na festa. - Isso não é menino não, gente, são uns diabinhos de pais desalmados, só sendo!!!! Ôxe, vou lascá-los também, ah, se vou! Castigado em demasia, passou disfarçadamente a revidar as arteirices dando umas beliscadas, uns empurrões fora de propósito, uns safanões maledicentes, uns cascudos malcriados, umas puxadas de orelhas proeminentes, uns corretivos repressores, umas rasteiras bem dadas, que quando o moleque chorava ele cobrava dos outros mangação reprovativa para que o mesmo não levasse ao conhecimento da mãe iludida. Toma lá, dá cá. Presepada pura. - Eita, gota! Isso não é festa, é a ingrezia de pervertidos mirins! Pirulitino lá. E quando algum pai aparecia ele provocava a criançada a dar uma vaia nele para que saísse do mundo deles. O pai aplaudia a irreverência envolvedora. Depois, castigava os endiabrados que lhe surravam o tempo todo. À certa altura da festa ele já estava com as vestes rasgadas, esmulambado pela violenta participação dos audaciosos bexiguentos, virado na porra e se trocando com eles. Quando chegou a hora para cantar os parabéns ele teve que refazer a maquiagem e restituir o espírito do palhaço que residia dentro de si. Esperava a vingança. - Vamos cantar os parabéns! Juntou-se a todos e lá cantarolou a canção natalícia não antes receber dos intrépidos maloqueirinhos umas quinhentas dedadas no furico, milhares de alfinetadas nas costas, na bunda e nas pernas; estourada de peido de véia no corpo todo; ovo podre nas fuças; traque de sala no quengo; cabada de vassoura na testa; bolada no pau da venta; chute nos culhões; estrupiado todo, resolveu acender a vela. Aí, uma tesuda mãe de um dos garotos, parente do aniversariante, usava um vestido de napa colado mostrando sua graciosidade corporal, num decote que lhe mostrava mais da metade dos seios, um glúteo bem desenhado que enervara a cupidez do Pirulitino, a ponto de tremer-lhe o fósforo aceso, incendiando os arranjos postos na mesa, ao que intervindo por apagar o fogo teve a atração da chama investida na roupa da sedutora mãe, fagulha na cabeleira da anfitriã, pavio aceso jogado na ornamentação, fogueira geral, o Pirulitino endoidou, empurrou a dona e a de napa na piscina numa pesada grande, afugentou todo mundo à base de pernadas e braçadas, largou os sapatos grandes em cima do fogo, provocando a maior quebradeira no recinto. Prejuízos muitos. Eita! - O palhaço tá doido! Peraí! Foi aí que alguns pais presentes e providentes acalmaram o endoidado a safanões, porradas e cacetadas. Vôte! - Para, acho que já voltou ao normal! Estava o Pirulitino descascado, meleguento e desacordado. Presenciaram todos o seu estertor. Era o fim de sua triunfante carreira artística. Já era uma vez um palhaço. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

6 DE AGOSTO DE 1945
Veja aqui.

Curtindo o álbum Lieder Anton Webern (Deutsche Grammophon, 1995), do compositor austríaco Anton Webern (1883-1945), na interpretação da soprano alemã Christiane Oelze.

PESQUISA:
[...] Para que o conhecimento tenha toda a sua eficácia é preciso agora que o espírito se transforme. É preciso que ele se transforme nas suas raízes para poder assimilar nos seus rebentos. As próprias condições da unidade da vida do espírito impõem uma variação na vida do espírito, uma mutação humana profunda. Em suma, a ciência instrui a razão. [...].
Trecho extradído do livro A filosofia do não (Presença, 1991), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Rosa de Hiroshima (Antolio Poética – José Olympio, 1984), do poeta, dramaturgo, jornalista, compositor e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Vejam dois tolos conversando. Eles não se escutam, mas riem continuamente. Enquanto um fala, o outro permanece num ponto de vista que o maravilha, o situado entre o que ele disse e o que dirá. Eles se prometem, na despedida, voltar à mútua expansão, ambos acreditam piamente ter produzido, com suas graçolas, toda a alegria do seu amigo.
Trecho de Réflexions sur le bonheur des fous, do economista e político suíço que ministro das finanças na França, Jacques Necker (1732-1804).

IMAGEM DO DIA
Ecce Homo, projeto da artista e fotógrafa alemã Evelyn Bencicova, retratando motivos artísticos comuns com origens bíblicas, representações de violência e guerra, narrativa de mistério e questionamentos. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Fecamepa, Ouspensky, Herberto Sales, Gianfrancesco Guarnieri, Andy Warhol, Baden Powell de Aquino, M. Night Shyamalan & Bryce Dallas Howard aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora impressionista ucraniana Nelina Trubach-Moshnikova.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
A arte da pintora, ilustradora e designer holandesa Karin Vermeer.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...