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segunda-feira, julho 10, 2017

VILLA-LOBOS, MAFFESOLI, TURÍBIO SANTOS, MAGRITTE, MAGDA TAGLIAFERRO, EVELYN BENCICOVA, ÁLVARO HENRIQUE, ANNA STELLA SCHIC & CURTA DE FLÁVIO LEANDRO

SOBREVIVENDO À NOSSA BARBÁRIE - Imagem: La condition humaine, do pintor do Surrealismo belga René Magritte (1898-1967). - É com frequência aqui, ali ou acolá, alguém indagar que tempo é este! Esse questionamento invariavelmente surge diante de situações catastróficas, paradoxais ou de extrema violência. Há um amontoado de respostas imediatas, preponderando o dito dos fervorosos religiosos com a afirmação simplista de que é o fim do mundo! E o eco escatológico é reproduzido de forma alarmista como que prevendo a nossa desgraça iminente. Não obstante, é palpável a constatação de que algo está mesmo fora da ordem, como também é quase unânime a grita protestando contra a tragédia, quando pouco ou quase nada se tem feito para mudar esse quadro, encontrando-se até resistências irredutíveis que são mantidas para que nada saia do controle e do previsível. Cada qual seu sectarismo, contradições explícitas se avolumam. Há quem diga que seja a aguda ampliação do fosso entre pouquíssimos privilegiados e a esmagadora maioria escanteada pela exclusão, criando o descompasso que leva ao ápice do que Freud atribuiu ser o conflito entre o princípio do prazer e o princípio de realidade. Bem, opiniões à parte, é inegável que contemplando o passado, a condição de vida melhorou no planeta, malgrado os problemas ambientais crescentes. Entretanto, se a qualidade de vida melhorou, não quer dizer que o ser humano tenha evoluído, o que há de gente ofendida e infeliz gratuitamente distribuindo maledicências nas suas exasperadas expressões, quando não socos e pontapés para rechaçar o oponente ou impor seu poder, não desdiz em nada o desequilíbrio. É flagrante a cotidiana situação de sentimentos feridos, golpes duros do ódio e da indiferença, a feroz competição, na qual a ignorância e emoções indisciplinadas ditam o curso sob pisoteados, configurando o tanto de pequenez danosa e mesquinharia dolorosa caracterizadas pela fúria do hedonismo descartável, do consumo de simulacros, das ameaças e pontos de ruptura entre uns e outros. De um simples aceno ou choque inadvertido, a geração de conflitos e rotas de colisão que comprovam uma carga de negatividade sem precedentes. Aliás, desajustes são visíveis desde que o ser humano começou a intervir na Natureza para o seu sustento e prosperidade há milênios, quando então surgiram maniqueísmos que simularam impérios, discórdias territoriais e religiosas, agressões, consensos e dissensos conforme os interesses de uns em detrimento de muitos, senão todos; imposições e totalitarismos atravessaram eras, a ponto de cada um se ver hoje sob tensões que se revelam tanto por temores crônicos oriundos da insegurança, do medo, da vulnerabilidade; como por terrores incontroláveis nascidos da ambição do umbigocentrismo, do conluio por poder e da necessidade de supremacia sobre o outro: a barbárie da pós-modernidade. Com isso, torna-se visível a condição de sem saída, potencializando o pânico. Diante de situação grave, pungente e funesta tal como a que se vive hoje em dia nas casas com seus altos muros e janelas e portas gradeadas, da atenção redobrada nas saídas pros afazeres diários, da desconfiança generalizada, pergunta-se o que se há de fazer a não ser levar a vida como der ou puder. Pois é, ao centralizar tudo no umbigo, nada mais resta que a solidão e o abandono: não há como firmar bases sólidas nas pressas dos modismos, quando vai ver tudo passou, ficou só lixo pro terreno baldio ou pra debaixo dos tapetes – o que dá no mesmo: o que se esconde, reaparece; o que bota de lado, volta ao ponto de partida. A terra é redonda ou quase; tudo que vai, volta. Pra mim, o que nos resta é enfrentar com discernimento e compreensão, viver e ver as coisas lindas que estão visinvisíveis. E vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

A BARBÁRIE HUMANA DE MAFFESOLI
As tribos pós-modernas fazem parte, agora, nos dias atuais, da paisagem urbana. Isso, após terem sido objeto de uma conspiração silenciosa das mais estritas – quanta tinta elas fizeram correr! Tudo de uma vez, para relativizá-las, marginalizá-las, invalidá-las depois de denegri-las. Coloquemos uma questão simples. Essas tribos, não são elas a expressão da figura do bárbaro que, regularmente, retorna a fim de fecundar um corpo social, um pouco debilitado? O que há de certo é quando uma forma do laço social se satura e que uma outra (re)nasce – isso se faz, sempre, com temor e vacilação. É o que faz com que certas boas almas se choquem por essa renascença, porque ela desloca um pouco a moral estabelecida. Do mesmo modo, certas belas almas podem se ofuscar, pois essas tribos não fazem senão privilegiar a primazia do Político. [...] Da minha parte, de diversas maneiras, analisei a centralidade subterrânea, a socialidade obscura e outras metáforas, pontuando a retirada do povo sobre seu Aventino. Orfandade da tradição mística, retornando, subrepticiamente, ao gosto do dia! Um tal tecido repregueado é frequente nas histórias humanas. E ele é sempre o indicador de uma demanda de reconhecimento. Contra o patriciado romano, o povo se refere a seus direitos. Isso se dá igualmente em nossos dias. E a demanda implícita, silenciosa, que tem dificuldade em se formular, necessita que se saiba fazer uma espécie de geologia da vida social. E, na maneira de ser, uma pesquisa das estruturas heterogêneas que a constituem. Mas fiquemos nesta ambivalência. Esta bipolaridade entre isto que é retraído e o que se mostra. Ainda mais hermético que em evidência. Salvemo-nos aqui do comentário que fez Lacan do conto de Edgar Poe, “a carta roubada”. É porque ela está aqui, sob o manto da chaminé que o comissário que está à sua procura não a vê. E como em eco, ouçamos o conselho de Gaston Bachelard: “não há ciência fora do obscuro”. Dizendo com clareza esse escondido nos arruína os olhos. E por pouco que se tome seriamente a teatralidade dos fenômenos, este theatrum mundi, de antiga memória, se saberá aí ver os novos modos de vida em gestação. Para além de nossas certezas e convicções: políticas, filosóficas, religiosas, científicas, convém se por em acordo simplesmente, humanamente, ao que se dá a ver. Procurar o essencial no inaparente das aparências. Estas da vida cotidiana. Estas desses prazeres miúdos e de pouca importância, constituindo o humano onde cresce o estar-junto. Não será isso a cultura? “Os aspectos os mais importantes para nós estão escondidos por causa de sua banalidade e de sua simplicidade” (Wittgenstein). Talvez a partir de um tal principio de incerteza se será capaz de fazer um bom prognóstico. Quer dizer, ter a intuição dos fenômenos, esta visão do interior, fazendo tanta falta à paranóia tão frequente nas elites. A partir do olhar penetrante nos será permitido ver o núcleo fatíco das coisas. Fatídico, porque nos falta ser mestres. Isso vem de bem longe, e não se deixa dominar pela pequena razão instrumental peculiar à modernidade. Núcleo arquetípico, no qual é importante localizar a fecundidade.
Trechos do artigo A barbárie em face do humano: as tribos pós-modernas (Z Cultural, 2015), do sociólogo francês Michel Maffesoli. Veja mais aqui & aqui.

Veja mais sobre:
Migrante entre equívocos, Santuário de William Faulkner, Tragédia da cultura de Georg Simmel, Cibercultura de André Lemos, a música de Ivan Lins & Sá & Guarabira, o cinema de e Tony Richardson & Lee Ann Remick, a pintura de James McNeill Whistler, a arte de Yosuke Onishi & Lanoo, A Lei & a Pizza aqui.

E mais:
O lamentável expediente da guerra aqui.
A Terra & o porvir da humanidade aqui.
Desabafo de Dr. Zé Gulu & a civilização dos equívocos aqui.
Globalização do conhecimento e consciência de Milton Santos, À sombra das raparigas de Marcel Proust, As nuvens de música de Véronique Gens & Stark Naked Orchestra, Cleópatra & Elizabeth Taylor, a poesia de Clevane Pessoa de Araújo Lopes, a pintura de Camille Pissarro & Howard Chandler Christy aqui.
No caminho de Swan de Marcel Proust, Carmina Burana de Carl Orff, a pintura de Camille Pissarro, a arte do Mestre Vitalino & a poesia de Rachel Levkovits aqui.
Paulo Freire & a pedagogia do oprimido aqui.
Pletora dos antípodas & a pintura de Bruno Steinbach aqui.
Biogênese, Sadismo, Inconoclastia, Ficha podre, A panelinha do G-8 & muito mais humor aqui.
Se nada acontecesse, nada valeria, Saturação de Michel Maffesoli, O escritor e seus fantasmas de Ernesto Sábato, a música de Gilberto Gil, Hora sagrada de Isabel Câmara, a arte de Beatriz Segall, o cinema de Eliane Caffé, a fotografia de Ludovic Florent, a pintura de Edvard Munch & Howard Chandler aqui.
Ih, esqueci, Tutameia de João Guimarães Rosa, Sobre a natureza de Anaximandro de Mileto, a poesia de Lelia Coelho Frota, a música de Ida Presti, Geração Trianon de Anamaria Nunes, o cinema de Krzystof Kieslowski & Irène Marie Jacob, a arte de Márcio Baraldi, a pintura de Kurt Schwitters & Lavinia Fontana aqui.
Terra do que sou, vida que me cabe, Elogio da madrasta de Mario Vargas Llosa, Vento Geral de Thiago de Mello, Galalaus & batorés de Mário Souto Maior, a pintura de Natalia Goncharova & Taha Hassaballa Malasi, a arte de Shelley Bain, Rachel Mascarenhas & Ana Paula Pessoa, a fotografia de Yan Pierre & a música de Eduardo Ponti aqui.
Domingo do que fui e não sou, Os segredos da ficção de Raimundo Carrero, O erotismo de Georges Bataille, Cantos novos de Federico Garcia Lorca, a música de Laurie Anderson, a pintura de Marta Nael & Cecily Brown, a xilogravura de Marcelo Alves Soares, a arte de Benedict Olorunnisomo & Paula Valéria de Andrade aqui.
Mamão, novamente o estranho amor, Desobediencia civil de Henry Thoreau, O Livro das mil e uma noites, a pintura de Newton Mesquita & Thiago Hellinger, Fecamepa & a Temerança no Big Shit Bôbras, a arte de Raimundo Rodriguez, a música de Dery Nascimento & Planeta MPB aqui.
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A CONDIÇÃO HUMANA DE FLÁVIO LEANDRO
O curta metragem de animação A condição humana (2006), dirigido por Flávio Leandro, conta a história de um artista de rua entretendo transeuntes nas praças publicas do centro do Rio de Janeiro, para levar o pão de cada dia para a mulher e o casal de filhos. Em sua atuação de rua, o artista mambembe se questiona se deve ou não continuar a fazer esse tipo de trabalho. No dia do aniversário do casamento o destino lhe reserva uma surpresa.

RÁDIO TATARITARITATÁ: RECITAL VIOLÃO & PIANO
Hoje é dia de especial com o violonista Turíbio Santos Violão Sinfônico & Orquestra de Violões, a pianista Magda Tagliaferro com recitais da obra de Heitor Villa Lobos; o violonista Álvaro Henrique com a Suíte Candanga & Villa Lobos; e a pianista Anna Stella Schic com prelúdios & infantis de Villa Lobos. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Ecce Homo, projeto da artista e fotógrafa alemã Evelyn Bencicova. 
Veja mais aquiaqui & aqui

sábado, agosto 06, 2016

BACHELARD, VINICIUS, BENCICOVA, NECKER, WEBERN, NELINA, OELZE & VERMEER

O PALHAÇO DOIDO - Selerino Freitas era fogo! E bote fogaréu nisso. O cabra era sonso se aproveitando de incautos para armar de seus ardis. Tirava proveito de qualquer abestalhado. Todo faceiro, cheio de manha, pintava e bordava. De algumas refregas fora escaldado. Não podia tapiar mais ninguém, estavam vacinados de seu desazo. Não quero aqui macular a imagem de artista dele, não, nada disso. Reconheço que se tratava do mais genuíno artista, daqueles capazes de se criar as mais lendárias das existências celebradas até em folhetos de repentistas e emboladores. Prova disso era o seu controvertidíssimo jeito de escapar das situações mais vexatórias que se tenha notícia. Ora, nisso ele era perito, prova de sua inconteste veia artística digna de muitas homenagens e maldições. Pois bem, quando a maior parte da população abriu o olho para as suas artimanhas, foi aí que Selerino, sabido ineivado, não tendo como enrolar mais a ninguém, deu corpo ao seu alter ego. Seu intento era o seguinte: se ele não conseguia mais aplicar das suas nos brocos, outro, nele mesmo, o faria. Foi aí que ele entocou-se por uns dias, cerziu uma roupa colorida e larga, arrumou uns sapatos imensos, idealizou uma maquiagem com cores vivas, exercitou sua habilidade física de ginasta, construiu uma careca de pano reluzente com cabelos de lã colorida pelos lados, ensaiou chistes e gags resultado de uma pesquisa profunda copiando Foottit, Chocolat, Grock, os Fratellini, Rastelli, Zavatta, Kopov, Lazarenko, Piolim, Arrelia, Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Loyd, Oscarito, Grande Otelo, Mazzaropi, Coronel Ludugéro, Os Trapalhões, os irmãos Max, Os três Patetas, O Gordo e o Magro, Jerry Lewis, Rowan Atkinson, Chico Anísio, Golias, Costinha, Fafy, Bemvindo Serqueira, Saulo Laranjeira, Pedro Bismark, sem esquecer de passar noites sem pregar os olhos lendo Sérgio Porto, Leon Eliachar, Luis Fernando Veríssimo, Ary Toledo e Henfil. Dizia-se ancho: - Ora, isso é moleza, também faço! O bicho tava com um repertório bom, tendo cursado uma eventual oficina teatral e circense promovida pela Associação dos Artistas Biriteiros, onde se assenhoreou da commedia dell arte, pantominas, saltimbancos, mambembes e, daí, saiu armando das suas. O bicho era presepeiro mesmo. E dos bons. Foi aí que entre muita bravata e sacolejo nascia o seu alter-ego: palhaço Pirulitino. Vale salientar que tudo que conseguira fora ou à custa de muito sacrifício ou mesmo adquirido pelas suas atividades escusas deslustrando sua vocação e o êxito pessoal. Ou seja, como ele mesmo dizia: - Como só tem tu, vai tu mesmo. Conseguiu a fim da força e de um bocado de azucrinamento abundante, um espaço num programa radiofônico dominical. Peiticou tanto o juízo do produtor da rádio que, finalmente, conseguira trinta minutos de horário infantil. Virara logo símbolo de sucesso, não antes haver tropeçado em algumas apropriações indébitas que lhes fustigaram a alma e a dignidade. Mas estava lá no programa que escancarara as portas em batizados, aniversários, festinhas, inventando espetáculos infantis e induzindo a criançada às maiores gargalhadas. Era o ídolo local da meninada e ápice do desconfiômetro dos adultos. Já era requisitado até pela alta sociedade para entretenimento da gurizada durante reuniões várias, festivais do guaraná, vesperais, matinês, animação em lojas de artigos infantis, virado na breca. Muitas e muitas vezes era interrompido durante suas apresentações por credores infames que lhe cobravam débitos retardatários. Acusavam-no de velhaco, ora. Por isso, ora empenhava a vestimenta numa festa acabada sob ameaça de credores e contratantes que prometiam nunca mais trazê-lo para nada. Outras, era a vez do som que conseguira emprestado do primo que só não matou-lo de cacete por sentimento cristão no meio da ira. E muitas e muitíssimas outras tantas macacadas que provocavam decepção em todos. O desgraçado não tomava jeito, vendia o que era e o que não era seu, tapiando aqui e ali ao se apropriar de resultados de outrem. E não só isso: fiava de tudo que precisasse, conseguia avais de condescendentes simpatizantes que depois caíam na real e já era tarde; envolvia terceiros nas suas mazelas; assinava cheques que não eram seus; adulterava documentos visando tirar proveito da situação; era a gota, avalie! Eis que, no meio desse cabrunco todo, certa sexta-feira fora contratado por um bom cachê para animar o aniversário do filho de seu Joaquinildo, um próspero comerciante local. Fora requisitado pela esposa do mesmo, dona Filadelfa, uma gorducha simpática que era bastante ingrizienta com as coisas. Estava tudo marcado para o dia seguinte, sábado, às dezesseis horas, na residência opulenta deles, à beira da piscina. Tudo programado, menino que só a praga. Os endiabrados empurravam-no, tiravam dedada nele, puxavam sua indumentária, chutavam suas pernas, jogavam o que lhes viessem à mão na cara dele, faziam dele gato e sapato na maior hostilidade. Aqueles capetinhas estavam envenenados objetivando destituí-lo da liderança na festa. - Isso não é menino não, gente, são uns diabinhos de pais desalmados, só sendo!!!! Ôxe, vou lascá-los também, ah, se vou! Castigado em demasia, passou disfarçadamente a revidar as arteirices dando umas beliscadas, uns empurrões fora de propósito, uns safanões maledicentes, uns cascudos malcriados, umas puxadas de orelhas proeminentes, uns corretivos repressores, umas rasteiras bem dadas, que quando o moleque chorava ele cobrava dos outros mangação reprovativa para que o mesmo não levasse ao conhecimento da mãe iludida. Toma lá, dá cá. Presepada pura. - Eita, gota! Isso não é festa, é a ingrezia de pervertidos mirins! Pirulitino lá. E quando algum pai aparecia ele provocava a criançada a dar uma vaia nele para que saísse do mundo deles. O pai aplaudia a irreverência envolvedora. Depois, castigava os endiabrados que lhe surravam o tempo todo. À certa altura da festa ele já estava com as vestes rasgadas, esmulambado pela violenta participação dos audaciosos bexiguentos, virado na porra e se trocando com eles. Quando chegou a hora para cantar os parabéns ele teve que refazer a maquiagem e restituir o espírito do palhaço que residia dentro de si. Esperava a vingança. - Vamos cantar os parabéns! Juntou-se a todos e lá cantarolou a canção natalícia não antes receber dos intrépidos maloqueirinhos umas quinhentas dedadas no furico, milhares de alfinetadas nas costas, na bunda e nas pernas; estourada de peido de véia no corpo todo; ovo podre nas fuças; traque de sala no quengo; cabada de vassoura na testa; bolada no pau da venta; chute nos culhões; estrupiado todo, resolveu acender a vela. Aí, uma tesuda mãe de um dos garotos, parente do aniversariante, usava um vestido de napa colado mostrando sua graciosidade corporal, num decote que lhe mostrava mais da metade dos seios, um glúteo bem desenhado que enervara a cupidez do Pirulitino, a ponto de tremer-lhe o fósforo aceso, incendiando os arranjos postos na mesa, ao que intervindo por apagar o fogo teve a atração da chama investida na roupa da sedutora mãe, fagulha na cabeleira da anfitriã, pavio aceso jogado na ornamentação, fogueira geral, o Pirulitino endoidou, empurrou a dona e a de napa na piscina numa pesada grande, afugentou todo mundo à base de pernadas e braçadas, largou os sapatos grandes em cima do fogo, provocando a maior quebradeira no recinto. Prejuízos muitos. Eita! - O palhaço tá doido! Peraí! Foi aí que alguns pais presentes e providentes acalmaram o endoidado a safanões, porradas e cacetadas. Vôte! - Para, acho que já voltou ao normal! Estava o Pirulitino descascado, meleguento e desacordado. Presenciaram todos o seu estertor. Era o fim de sua triunfante carreira artística. Já era uma vez um palhaço. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

6 DE AGOSTO DE 1945
Veja aqui.

Curtindo o álbum Lieder Anton Webern (Deutsche Grammophon, 1995), do compositor austríaco Anton Webern (1883-1945), na interpretação da soprano alemã Christiane Oelze.

PESQUISA:
[...] Para que o conhecimento tenha toda a sua eficácia é preciso agora que o espírito se transforme. É preciso que ele se transforme nas suas raízes para poder assimilar nos seus rebentos. As próprias condições da unidade da vida do espírito impõem uma variação na vida do espírito, uma mutação humana profunda. Em suma, a ciência instrui a razão. [...].
Trecho extradído do livro A filosofia do não (Presença, 1991), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Rosa de Hiroshima (Antolio Poética – José Olympio, 1984), do poeta, dramaturgo, jornalista, compositor e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Vejam dois tolos conversando. Eles não se escutam, mas riem continuamente. Enquanto um fala, o outro permanece num ponto de vista que o maravilha, o situado entre o que ele disse e o que dirá. Eles se prometem, na despedida, voltar à mútua expansão, ambos acreditam piamente ter produzido, com suas graçolas, toda a alegria do seu amigo.
Trecho de Réflexions sur le bonheur des fous, do economista e político suíço que ministro das finanças na França, Jacques Necker (1732-1804).

IMAGEM DO DIA
Ecce Homo, projeto da artista e fotógrafa alemã Evelyn Bencicova, retratando motivos artísticos comuns com origens bíblicas, representações de violência e guerra, narrativa de mistério e questionamentos. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Fecamepa, Ouspensky, Herberto Sales, Gianfrancesco Guarnieri, Andy Warhol, Baden Powell de Aquino, M. Night Shyamalan & Bryce Dallas Howard aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora impressionista ucraniana Nelina Trubach-Moshnikova.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
A arte da pintora, ilustradora e designer holandesa Karin Vermeer.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



domingo, maio 22, 2016

ÍTALO CALVINO, JOSUÉ DE CASTRO, ANGELA GHEORGHIU, BÉCAT, RENÉ MELS, EVELYN BENCICOVA & POESIA GREGA


FORTE E SADIO QUE NEM O POVO DO TEMPO DO RONCA - Uma dor de cabeça e Zé Corninho quase doido. Uma causa, todos sabiam, ele também: as gaias dando curto circuito no quengo. Dessa vez, só isso não. Já se dava por hipocondríaco de tantos médicos consultados, meio mundo de cachete e nada: uma dor crônica. Já desconfiava em dar razão pra mundiça. Para ele, a essa altura do campeonato, só Padre Bidião ou doutor Zé Gulu de todas as ciências que resolviam. Logo, o mais fácil. Na porta do bar, soube que o doutor arribara carregado duns braquearos pra carburar as ideias com uma pilha de livros e uma reboladeira dengosa pro furunfado lá pras bandas duma ilha deserta. Já o padre Bidião, tomou ciência de que ele andara envultado no seu disco voador a dar trabalho à humanidade. E agora? Doro sugeriu Mãe-Lena, uma raizeira afamada que era tida por malquista catimbozeira pra população em peso. Quem? Vou nada! Ela vivia num conluio de décadas com o não menos doutor Baita, um farmacêutico que possui uma drogaria que vendia de tudo: desde raiz de pau a veneno de última geração – incluindo antraz, tabum, sarin e outras reengenharias químicas inventadas por ele e mais eficientes, só vendidas pra exportação pros gringos em guerra. Da união escondida entre ambos, nasceu um menino mais conhecido por O homem da cobra, propagandista do principal produto da botica: a salsa, caroba e cabacinha – a panaceia para todos os males. Tá doido? De primeira, o enfermo refugou: vai que ela prescreva lacrau prele comer e, ao invés de curado, ele morresse envenenado. O pariceiro persuadiu o renitente adoentado que a dita cuja era perita na cura de todas maledicências da face da Terra, vez que vem gente até do exterior pra se tratar com ela. Prova disso, era o fato de que fora ela a responsável pela saúde do ferro do padre Bidião: - Você já viu o padre arriado alguma vez? Deveras, o padre arrotava saúde. Como também o próprio Doro, testemunha viva das artes da benzedeira, isso desde que fora tratado, nunca mais soube o que era a tal da doença. Zé Corninho apertou o juízo, remexeu na cachola e mesmo com o juízo trabalhando na baixa, resolveu topar a coisa. Chegando lá, a prestimosa curandeira fez um exame detido da situação do acamado a base de passes e rezas, chegando ao diagnóstico que ele estava achacado dum mal dos brabos e que pra remediar só ele morrendo pra renascer de novo, porque perspectiva de cura alguma havia. Mas ela que não perdia nunca a viagem nem um paciente que fosse, resolveu encarar o desafio em cima da bucha e foi logo lá pra dentro, remexendo nas tranqueiras dela e trazendo um copo cheio dalguma coisa pra ele tomar: - Tome! Quéquéisso? Ayahuasca, cura-tudo! Ele olhou pro Doro desconfiado que lhe deu um empurrão mandando tomar logo o remédio. Vai, peste! Ingeriu a pulso, de biquinho, foi sorvendo com uma careta dos diabos! Toma, infeliz! Engoliu, tossiu, engasgou-se e quase vomita! – Segura frebento! Aí foi a hora dum ritual carregado de orações de benzeduras machas com um molho de matos e plantas amarrados e esfregado na venta do combalido, isso por horas. Tome tempo e ela sacudindo o mato nas fuças, tronco e membros do achacoso, dele queimar de febre e suar mais que tampa de chaleira. O cabra quase desaba de vez e bate as botas. Foi aí que ela emborcou o sujeito, dele ficar de cu pra cima, deu-lhe uma pisa de urtiga pra tirar todas as maleitas, depois sacudiu-lo embaixo do chuveiro com banhos de mais folhas e matos de toda espécie, fez uma defumação geral do cara quase morrer de tanto tossir, deitou-lo numa mesa forrada com toalha branca e copos com diversos líquidos e cheinhos pela borda, bateu bombo, saracoteou, baixou santo, falou com meio mundo de mortos, deu tapas, tabefes emurros nos costados do desinfeliz, revirou ele de todo jeito de quase botá-lo pelo avesso, até sacudi-lo em pé com uma ordem: - Pronto! Tá curado. E num é que tava mesmo!?! Ele até sorriu se dizendo bonzinho na hora, novinho em folha. Aí foi a vez das prescrições num receituário sem fim: banhos de manhã, de tarde e de noite; chás, infusões e sucos disso e daquilo com todo tipo de casco, pé de pau, raiz e inseto – êpa, isso não! -; essências, emplastros, óleos, unguentos, xaropes e infusões dum tanto de coisa com meizinhas diversificadas e, o mais importante, uma dieta a base de taioba, gengibre, açafrão, pimenta malagueta, barro, poejo, sabugueiro, linhaça, manjericão, avelóis, chicória – isso no por enquanto, de quinze em quinze dias tinha que ser tudo revisto na dieta geral, isso só em nova consulta- e fazer a oração da cabra preta como manda o rital: nu, meia noite em ponto, numa encruzilhada. Tudo isso pra não mais ser acometido de porqueira de doença nenhuma. Cruz-credo, pensou ele. Nu mesmo? Pelado de tudo! Vixe! A encruzilhada mais próxima da casa dele era a do cemitério. Virgem, santa! Deu com pé atrás. Como sinal de apoio, Doro se prontificou de acompanhá-lo na horagá. Mas num é isso! O que é? É que não sou bicho nem sou achegado a só comer mato, preciso de coisa que dê sustança pra mode dar vencimento nas mulheres. Ah, aí são outros quinhentos! Ou faz, ou morre, escolha. Seguiu à risca. E num é que o cabra não foi mais acometido por moléstia nenhuma, vez que toda vez que sentia algo estranho, corria logo pra prevenção: receita da Mãe-Lena, drogaria do doutor Baita! Pronto, pra ele, as gaias nunca mais deram curto circuito! E pra quem nunca caiou, não seria agora que ia passar vexame, né? Tinha as garrafadas à base de catuaba e outros afrodisíacos tirados do chão e que ela mesma aprontou pra ele de nunca passar vergonha. A bronca é que ele encheu a casa de bruguelos até de um olho só e, pra isso, não tem remédio que dê jeito: língua falou, pingulim funcionou, o cu pagou. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui

 Imagem: a arte do pintor, desenhista, gravador, escultor e ceramista belga René Mels (1909-1977).


Curtindo o álbum Diva (EMI, 2004), uma compilação dos melhores momentos da carreira da soprano e cantora lírica romena Angela Gheorghiu.

PESQUISA
Geografia da fome - o dilema brasileiro: pão ou aço (Brasiliense, 1957), do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
Poesia moderna da Grécia (Guanabara, 1986), seleção, tradução, prefácio e textos críticos de José Paulo Paes, reunindo poemas do folclore, Kaváfis, Kazantzákis, Seféris, entre outros. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Italo Calvino by Wesley Merritt & Cloe/Las ciudades invisibles de Italo Calvino by Giagarofalo
No momento que a ciência desconfia das explicações gerais e das soluções que não sejam setoriais e especialisticas, o grande desafio para a literatura é o de saber tecer em conjunto os diversos saberes e os diversos códigos numa visão pluralista e multifacetada do mundo.
Trecho extraído do livro Seis propostas para o próximo milênio (Vozes, 2000), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Ecce Homo, projeto da artista e fotógrafa alemã Evelyn Bencicova, retratando motivos artísticos comuns com origens bíblicas, representações de violência e guerra, narrativa de mistério e questionamentos.

Veja mais sobre Bernard Shaw, Richard Wagner, Somadeva Suri, Mary Cassatt, Gilberto Gil, Betty Williams, Patrick Süskind, Pigmalião, Karoline Herfurth, Susan Strasberg & Pedro Du Bois aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Gravura do pintor, gravador e ilustrador francês Paul-Émile Bécat (1885-1960).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...