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segunda-feira, julho 10, 2017

VILLA-LOBOS, MAFFESOLI, TURÍBIO SANTOS, MAGRITTE, MAGDA TAGLIAFERRO, EVELYN BENCICOVA, ÁLVARO HENRIQUE, ANNA STELLA SCHIC & CURTA DE FLÁVIO LEANDRO

SOBREVIVENDO À NOSSA BARBÁRIE - Imagem: La condition humaine, do pintor do Surrealismo belga René Magritte (1898-1967). - É com frequência aqui, ali ou acolá, alguém indagar que tempo é este! Esse questionamento invariavelmente surge diante de situações catastróficas, paradoxais ou de extrema violência. Há um amontoado de respostas imediatas, preponderando o dito dos fervorosos religiosos com a afirmação simplista de que é o fim do mundo! E o eco escatológico é reproduzido de forma alarmista como que prevendo a nossa desgraça iminente. Não obstante, é palpável a constatação de que algo está mesmo fora da ordem, como também é quase unânime a grita protestando contra a tragédia, quando pouco ou quase nada se tem feito para mudar esse quadro, encontrando-se até resistências irredutíveis que são mantidas para que nada saia do controle e do previsível. Cada qual seu sectarismo, contradições explícitas se avolumam. Há quem diga que seja a aguda ampliação do fosso entre pouquíssimos privilegiados e a esmagadora maioria escanteada pela exclusão, criando o descompasso que leva ao ápice do que Freud atribuiu ser o conflito entre o princípio do prazer e o princípio de realidade. Bem, opiniões à parte, é inegável que contemplando o passado, a condição de vida melhorou no planeta, malgrado os problemas ambientais crescentes. Entretanto, se a qualidade de vida melhorou, não quer dizer que o ser humano tenha evoluído, o que há de gente ofendida e infeliz gratuitamente distribuindo maledicências nas suas exasperadas expressões, quando não socos e pontapés para rechaçar o oponente ou impor seu poder, não desdiz em nada o desequilíbrio. É flagrante a cotidiana situação de sentimentos feridos, golpes duros do ódio e da indiferença, a feroz competição, na qual a ignorância e emoções indisciplinadas ditam o curso sob pisoteados, configurando o tanto de pequenez danosa e mesquinharia dolorosa caracterizadas pela fúria do hedonismo descartável, do consumo de simulacros, das ameaças e pontos de ruptura entre uns e outros. De um simples aceno ou choque inadvertido, a geração de conflitos e rotas de colisão que comprovam uma carga de negatividade sem precedentes. Aliás, desajustes são visíveis desde que o ser humano começou a intervir na Natureza para o seu sustento e prosperidade há milênios, quando então surgiram maniqueísmos que simularam impérios, discórdias territoriais e religiosas, agressões, consensos e dissensos conforme os interesses de uns em detrimento de muitos, senão todos; imposições e totalitarismos atravessaram eras, a ponto de cada um se ver hoje sob tensões que se revelam tanto por temores crônicos oriundos da insegurança, do medo, da vulnerabilidade; como por terrores incontroláveis nascidos da ambição do umbigocentrismo, do conluio por poder e da necessidade de supremacia sobre o outro: a barbárie da pós-modernidade. Com isso, torna-se visível a condição de sem saída, potencializando o pânico. Diante de situação grave, pungente e funesta tal como a que se vive hoje em dia nas casas com seus altos muros e janelas e portas gradeadas, da atenção redobrada nas saídas pros afazeres diários, da desconfiança generalizada, pergunta-se o que se há de fazer a não ser levar a vida como der ou puder. Pois é, ao centralizar tudo no umbigo, nada mais resta que a solidão e o abandono: não há como firmar bases sólidas nas pressas dos modismos, quando vai ver tudo passou, ficou só lixo pro terreno baldio ou pra debaixo dos tapetes – o que dá no mesmo: o que se esconde, reaparece; o que bota de lado, volta ao ponto de partida. A terra é redonda ou quase; tudo que vai, volta. Pra mim, o que nos resta é enfrentar com discernimento e compreensão, viver e ver as coisas lindas que estão visinvisíveis. E vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

A BARBÁRIE HUMANA DE MAFFESOLI
As tribos pós-modernas fazem parte, agora, nos dias atuais, da paisagem urbana. Isso, após terem sido objeto de uma conspiração silenciosa das mais estritas – quanta tinta elas fizeram correr! Tudo de uma vez, para relativizá-las, marginalizá-las, invalidá-las depois de denegri-las. Coloquemos uma questão simples. Essas tribos, não são elas a expressão da figura do bárbaro que, regularmente, retorna a fim de fecundar um corpo social, um pouco debilitado? O que há de certo é quando uma forma do laço social se satura e que uma outra (re)nasce – isso se faz, sempre, com temor e vacilação. É o que faz com que certas boas almas se choquem por essa renascença, porque ela desloca um pouco a moral estabelecida. Do mesmo modo, certas belas almas podem se ofuscar, pois essas tribos não fazem senão privilegiar a primazia do Político. [...] Da minha parte, de diversas maneiras, analisei a centralidade subterrânea, a socialidade obscura e outras metáforas, pontuando a retirada do povo sobre seu Aventino. Orfandade da tradição mística, retornando, subrepticiamente, ao gosto do dia! Um tal tecido repregueado é frequente nas histórias humanas. E ele é sempre o indicador de uma demanda de reconhecimento. Contra o patriciado romano, o povo se refere a seus direitos. Isso se dá igualmente em nossos dias. E a demanda implícita, silenciosa, que tem dificuldade em se formular, necessita que se saiba fazer uma espécie de geologia da vida social. E, na maneira de ser, uma pesquisa das estruturas heterogêneas que a constituem. Mas fiquemos nesta ambivalência. Esta bipolaridade entre isto que é retraído e o que se mostra. Ainda mais hermético que em evidência. Salvemo-nos aqui do comentário que fez Lacan do conto de Edgar Poe, “a carta roubada”. É porque ela está aqui, sob o manto da chaminé que o comissário que está à sua procura não a vê. E como em eco, ouçamos o conselho de Gaston Bachelard: “não há ciência fora do obscuro”. Dizendo com clareza esse escondido nos arruína os olhos. E por pouco que se tome seriamente a teatralidade dos fenômenos, este theatrum mundi, de antiga memória, se saberá aí ver os novos modos de vida em gestação. Para além de nossas certezas e convicções: políticas, filosóficas, religiosas, científicas, convém se por em acordo simplesmente, humanamente, ao que se dá a ver. Procurar o essencial no inaparente das aparências. Estas da vida cotidiana. Estas desses prazeres miúdos e de pouca importância, constituindo o humano onde cresce o estar-junto. Não será isso a cultura? “Os aspectos os mais importantes para nós estão escondidos por causa de sua banalidade e de sua simplicidade” (Wittgenstein). Talvez a partir de um tal principio de incerteza se será capaz de fazer um bom prognóstico. Quer dizer, ter a intuição dos fenômenos, esta visão do interior, fazendo tanta falta à paranóia tão frequente nas elites. A partir do olhar penetrante nos será permitido ver o núcleo fatíco das coisas. Fatídico, porque nos falta ser mestres. Isso vem de bem longe, e não se deixa dominar pela pequena razão instrumental peculiar à modernidade. Núcleo arquetípico, no qual é importante localizar a fecundidade.
Trechos do artigo A barbárie em face do humano: as tribos pós-modernas (Z Cultural, 2015), do sociólogo francês Michel Maffesoli. Veja mais aqui & aqui.

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Migrante entre equívocos, Santuário de William Faulkner, Tragédia da cultura de Georg Simmel, Cibercultura de André Lemos, a música de Ivan Lins & Sá & Guarabira, o cinema de e Tony Richardson & Lee Ann Remick, a pintura de James McNeill Whistler, a arte de Yosuke Onishi & Lanoo, A Lei & a Pizza aqui.

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O lamentável expediente da guerra aqui.
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No caminho de Swan de Marcel Proust, Carmina Burana de Carl Orff, a pintura de Camille Pissarro, a arte do Mestre Vitalino & a poesia de Rachel Levkovits aqui.
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A CONDIÇÃO HUMANA DE FLÁVIO LEANDRO
O curta metragem de animação A condição humana (2006), dirigido por Flávio Leandro, conta a história de um artista de rua entretendo transeuntes nas praças publicas do centro do Rio de Janeiro, para levar o pão de cada dia para a mulher e o casal de filhos. Em sua atuação de rua, o artista mambembe se questiona se deve ou não continuar a fazer esse tipo de trabalho. No dia do aniversário do casamento o destino lhe reserva uma surpresa.

RÁDIO TATARITARITATÁ: RECITAL VIOLÃO & PIANO
Hoje é dia de especial com o violonista Turíbio Santos Violão Sinfônico & Orquestra de Violões, a pianista Magda Tagliaferro com recitais da obra de Heitor Villa Lobos; o violonista Álvaro Henrique com a Suíte Candanga & Villa Lobos; e a pianista Anna Stella Schic com prelúdios & infantis de Villa Lobos. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Ecce Homo, projeto da artista e fotógrafa alemã Evelyn Bencicova. 
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segunda-feira, novembro 21, 2016

RENÉ MAGRITTE, CLAUDIO NUCCI, BRENNAND, PAUL VILINSKI & O MUNDO TODO CABE EM UM ATO DE PAZ


O MUNDO TODO CABE EM UM ATO DE PAZ - Imagens: arte do escultor e artista visual estadunidense Paul Vilinski - A despeito do que possa me valer desse minifúndio que ocupo pras minhas ruminantes tentativas ineptas na fonte das intuições, e pro oficio de aprender e descobrir entre a sinceridade e o fingimento, tenho sempre, pra mim, nas minhas leréias de acaciano, que sou capaz de fazer pedras mexerem no quintal ou peixes fisgarem a minhoca do anzol nas pescarias que nunca faço. Evidente, sempre fui mais propenso a cometer que evitar. Â beira da doidice carrego zis dúvidas e quase nenhuma hipótese: vou até onde só a coragem chega pra saber que não tenho a mínima salvação - como se procurasse um novo código de conduta no desacato. Mesmo que não se espere lá muita coisa, vou munido das maiores expectativas e a impossibilidade de dar certo, ou quase. Vingo, ou tento. Nem sempre o riscado sai como o planejado e sou mais um entre os criadores de monstrengos inúteis no reino dos protozoários e dos descartáveis. Valho-me da antítese entre ter o que dizer e não. Outsider? Melhor ovelha negra ou patinho feio mesmo, porque se não me dava conta das vilanias e seus correlatos nos arredores, coexistia com cobras e lagartos sem distingui-los, um flerte com o perigo muito de perto. E nem morri, ainda. Dou munição pro inimigo: um pouco de vergonha compensaria os meus maus procedimentos, o que já seria um grande passo, talvez, que seja, pras minhas próprias implicâncias com os limites do que se pode chamar de tolerância: quais limites pro asneirol, pro frenesi dos umbigos, pra espetacularização do ínfimo, pro homogêneo jeito dos enturmados, pras sacanagens dos políticos, oh, não!?! Ah, um doido a mais, nada mais. Se me dou por perdido por conta dos resultados dos meus paradoxos e irresoluções, mais por meu desmedido açodamento e explosivo despudor, de sobremesa, sirvo os cacoetes da ourivesaria maldita dos meus devaneios na minha ascese diante do desconhecido ou incerto no espelho da identidade perdida, como quem sempre foi punido com irrestrito rigor. Se o prazer é ou não perda de tempo, são outros quinhentos; se creia ou não, do que faço e digo, eu sei ars longa, bellum brevis, só um pretexto: o mundo todo cabe em um ato de paz. © Luiz Alberto Machado.. Veja mais aqui.


Curtindo a música do cantor e compositor Cláudio Nucci.

Veja mais sobre:
Fecamepa & a escravaria toda, Monteiro Lobato, Cruz e Sousa, Milton Nascimento, Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Edu Lobo, Cacá Diégues, Zezé Motta, Samir Mattar, Missa dos Quilombos, A guerra dos escravos, O quilombo dos Palmares, Arena conta Zumbi, Chica da Silva & José Augusto Coelho aqui.

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Porque hoje é sábado, Selma Lagerlöf, René Magritte, Sigfrid Karg Elert, Voltaire, Norman Jewison, Boris Karastov, Goldie Hawn & Luiz Delfino aqui.
A violência na escola aqui.
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Hermilo Borba Filho, Rubão, Doro, Dr. Zé Gulu & Humoreco aqui.
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Cordel: Que língua essa nossa, de Carlos Silva aqui.
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DESTAQUE: RICARDO BRENNAND
A arte do Instituto Ricardo Brennand.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor belga René Magritte (1898-1967).
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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sábado, novembro 21, 2015

VOLTAIRE, MAGRITTE, LAGERLÖF, LUIZ DELFINO, ELERT, MEIMEI CORRÊA & TATARITARITATÁ!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? PORQUE HOJE É SÁBADO – Quando é sábado tudo finda pra recomeçar. Os últimos poderão ser os primeiros, quem sabe. Cada qual, coisa e tal. Se o dia logo amanhece, logo se renovam as esperanças. Pode não ser a hora certa, mas o riso pode se fazer presente com os raios do Sol. É um novo dia e, por isso mesmo, tudo pode acontecer. Até o impossível. Feito luz que se propaga e segue adiante, como a correnteza do rio até desembocar não sei onde. Sei que vou, voo, sei que todos vamos, segundo a segundo, minuto a minuto, de hora em hora. Pra onde? Que importa? Nascemos nus e desprovidos de qualquer posse. Quem prevê o futuro? No máximo sabemos de ontem. De hoje? Só o aqui e agora, nada mais além do átimo que chega e já se foi e a gente nem percebe que vamos, e indo sem saber pra onde nem de nada. Só que vamos. Ou não. Pode ser que sintamos a ida, podendo até estarmos todos imobilizados na camisa de força do tempo e do espaço, mesmo que nem sintamos nada disso. Só que tudo vibra de vitalidade na contagem regressiva da nossa existência. Perplexidade? Nada, o infinito só é vasto por ser infinito. E nós, na nossa finitude, julgamos que sabemos ou que podemos algo mais. E podemos, sim, não como pensamos ou queremos, nada é como pensamos ou queremos, nada é previsível e que, de fato, somos bem maior do que imaginamos e nem nos damos conta disso de tão mergulhados que estamos no nosso egoísmo e mesquinharia. Podíamos até fazer que não sabemos de nada, que não queremos sequer pensar nisso ou que algo nos assalte a calma e o conforto, e nos mostre que um algo mais misterioso pode nos dar a percepção de algo, na verdade, tão natural: nós mesmos. Que temor do desconhecido, se é do ignoto que surgimos. Que nada mais saber-me cônscio do que possa ocorrer pelo que já passou. O fato é que o futuro bate à porta. Abrirás? Senão a caverna não deixará de existir em nós ou nós jamais sairemos de nossas tenebrosas cavernas irreconhecíveis. Eu vou, vamos? Pra onde, não sei. Para quê saber. Sei que vou como quem não sabe o caminho. E não sei mesmo, muito menos onde vai dar por chegada. Que da vida eu recolha as lições que me façam melhor que sou, maior que meu tamanho e com o infinito incomensurável todo buliçoso dentro da minha finitude. Quem dera nada fosse previsível, ser por ser e só. Viver por viver, nada mais. Viver como as plantas, as árvores, o vento, o Sol, o ar, a Terra, o fogo e tudo. E me sentisse uno, eu e tudo, naturalmente. Quem dera fosse água sempre na corrente indo para o mar e o mar pra onde? Afinal, quando é sábado a gente dá-se ao luxo das asas à imaginação. Eu quero aurora dos meus olhos viver a eclosão do dia... um novo dia! E vamos aprumar a conversa aqui.

 Imagem: The model (1922), do pintor do Surrealismo belga René Magritte (1898-1967). Veja mais aqui.


Curtindo o álbum Works for Harmonium – vol. 3 (1998), do compositor alemão Sigfrid Karg Elert (1877-1933), com Johannes Mathias Michel.

SOU LIVRE? – No livro O filósofo ignorante (Martins Fontes, 2001), do escritor, dramaturgo e filósofo iluminista francês Voltaire (François Marie Arouet/1694-1778), o autor faz uma síntese dos principais pontos de sua filosofia, apresentando-os em forma de perguntas ou “ignorâncias”. Ao discutir tópicos como o sentido da vida, a liberdade, a moral, a natureza e a justiça, Voltaire procura manter uma postura humilde, sem perder de vista as limitações do conhecimento humano, mas sempre com o espírito crítico e mordaz que contribuíram para que se tornasse um dos pensadores mais populares da modernidade. Da obra destaco o trecho Sou livre?: Não saiamos ainda do círculo de nossa existência; continuemos a examinar-nos tanto quanto pudermos. Lembro-me que um dia, antes estivesse colocado todas as questões precedentes, um raciocinador quis fazer-me raciocinar. Perguntou-me se eu era livre; respondi-lhe que não estava na prisão, que tinha a chave de meu quarto, que era perfeitamente livre. Não é isto que vos pergunto, respondeu-me. Acreditais que vossa vontade tem a liberdade de querer ou de não querer jogar-vos pela janela? Pensais, com o anjo da Escola, que o livre arbítrio seja uma potência apetitiva e que se perca pelo pecado? Olhei o meu homem fixamente para tentar ler em seus olhos se não tinha perdido o espírito e respondi-lhe que nada entendia de seu galimatias. Contudo, essa questão sobre a liberdade do homem interessou-me vivamente. Li os escolásticos e, como eles, permaneci nas trevas. Li Locke e vislumbrei raios de luz. Li o Tratado de Collins, que me pareceu Locke aperfeiçoado, e depois disso nada mais li que me desse um novo grau de conhecimento. Eis o que minha fraca razão concebeu, auxiliada por esses dois grandes homens, os únicos, em minha opinião, que se compreenderam a si mesmos escrevendo sobre essa matéria, e os únicos que se fizeram compreender pelos outros. Nada é sem causa. Um efeito sem causa é apenas uma palavra absurda. Todas as vezes que quero, isto só pode ocorrer em virtude de meu juízo bom ou mau; esse juízo é necessário, portanto minha vontade também o é. Com efeito, seria muito singular que toda a Natureza, todos os astros obedecessem a leis eternas, e que houvesse um animalzinho de cinco pés de altura que, menosprezando tais leis, pudesse agir sempre como lhe agradasse, ao sabor de seu capricho. Agiria ao acaso e sabe-se que o acaso nada é. Inventamos essa palavra para exprimir o efeito conhecido de toda causa desconhecida. Minhas ideias entram necessariamente em meu cérebro; como minha vontade, que delas depende, seria, ao mesmo tempo, necessitada e absolutamente livre? Em mil ocasiões sinto que essa vontade nada pode: quando a doença me abate, quando a paixão me transporta, quando meu juízo não pode alcançar os objetos que me são apresentados, etc. Devo, pois, admitir que, sendo as leis da Natureza sempre as mesmas, minha vontade não é mais livre nas coisas que me parecem indiferentes, do que naquelas em que me sinto submetido a uma força invencível. Ser verdadeiramente livre é poder. Quando posso fazer o que quero, eis minha liberdade; mas quero necessariamente aquilo que quero, pois de outro modo eu quereria sem razão, sem causa, o que é impossível. Minha liberdade consiste em andar quando quero andar, desde que não sofra de gota. Minha liberdade consiste em não fazer uma ação má quando é representada por meu espírito como necessariamente má; em subjugar uma paixão quando meu espírito faz-me senti-la como perigosa, e quando o horror dessa ação combate poderosamente meu desejo. Podemos reprimir nossas paixões, como já anunciei no capítulo XI, mas nesse caso não somos livres nem ao reprimir nossos desejos nem ao nos deixarmos arrastar por nossas inclinações, visto que em ambos os casos seguimos irresistivelmente nossa última ideia, e esta é necessária; portanto, faço necessariamente o que ela me dita. É estranho que os homens não estejam contentes com essa porção de liberdade, isto é, com o poder que receberam da Natureza para fazer o que quiserem em muitos casos. Os astros não a têm; nós a possuímos e nosso orgulho leva-nos a crer que às vezes possuímos ainda mais. Imaginamos que temos o dom incompreensível e absurdo de querer, sem outra razão, sem outro motivo senão o de querer. Vide o capítulo XXIX. Não, não posso perdoar o Dr. Clarke por ter combatido com má fé essas verdades, cuja força percebia e que pareciam acomodar-se muito mal em seu sistema. Não, não é permitido a um filósofo como ele atacar Collins como sofista e desviar o centro da questão, reprovando Collins por ter chamado o homem de "agente necessário". Agente ou paciente, que importa? Agente, quando se move voluntariamente; paciente, quando recebe as ideias. O que o nome faz com a coisa? O homem é um ser dependente em tudo, e não pode ser excetuado entre os outros seres. O pregador que existia em Samuel Clarke abafou o filósofo. Distingue a necessidade física e a necessidade moral. Que é uma necessidade moral? Há de parecer-vos verossímil que uma rainha da Inglaterra, coroada e sagrada numa igreja, não venha despojar-se de seus trajes reais para estender-se sobre o altar, completamente nua, embora se conte uma aventura semelhante a respeito de uma rainha do Congo. Chamareis a isto de "necessidade moral" numa rainha de nossos climas, mas, no fundo, é uma necessidade física, eterna, vinculada à constituição das coisas. É tão certo que essa rainha não fará tal loucura, quanto é certo que morrerá um dia. A necessidade moral é apenas uma palavra, tudo o que se faz é absolutamente necessário. Não há intermediário entre a necessidade e o acaso, e sabeis que não há acaso; portanto, tudo o que ocorre é necessário. Para complicar mais a coisa, imaginou-se, ainda, distinguir necessidade e constrangimento, mas, no fundo, que é o constrangimento senão uma necessidade de que nos apercebemos? E a necessidade não é um constrangimento de que não nos apercebemos? Há uma necessidade igual quando Arquimedes é obrigado a permanecer em seu quarto porque o trancaram aí, como quando está tão ocupado com um problema que não recebe a ideia de sair. Ducunt volentem fata, nolentem trahunt. (Sên., Ep. CVIl.) O ignorante que hoje pensa assim não pensou sempre dessa maneira, mas, enfim, foi constrangido a submeter-se. Veja mais aqui e aqui.

O TESOURO – O romance O tesouro (1904 – Cavalo de Ferro, 2010), da escritora sueca Prêmio Nobel de 1909, Selma Lagerlöf (1858-1940), é uma espécie de fábula com central no bem e no mal e as dúvidas que permeiam as ideias dos personagens no conflito por optar diante das encruzilhadas da vida. Da obra destaco o trecho: [...] Bastante depois da meia-noite saíram uns quantos homens da casa da herdade, em Branehög, para selarem os cavalos e dirigirem-se a suas casas. Quando saíram para o pátio viram uma fogueira crepitando no ar, do lado norte. Então, voltaram a correr para dentro de casa, exclamando: — Levantai-vos! Levantai-vos! O presbitério de Solberga está a arder! Entre os comensais havia muita gente, e os que tinham cavalos saltaram-lhes para a garupa e puseram-se logo a caminho do presbitério. Os que tiveram de ir a pé correram até lá, chegando quase ao mesmo tempo. Quando as gentes chegaram ao presbitério não se via ninguém a pé ou em movimento; pelo contrário, todos pareciam estar a dormir, apesar de a fogueira crepitar bem alta. Porém, nenhuma das casas ardia, apenas um grande monte de vime, palha e lenha, que tinha sido despejado junto à parede da velha casa do padre. Não tinha ardido durante muito tempo. As chamas ainda não tinham feito mais do que enegrecer a boa madeira da parede e derreter a neve acumulada sobre o telhado. Começavam agora a chegar ao colmo do telhado. Todos perceberam imediatamente que se tratava de incêndio criminoso, e começaram a perguntar-se se o senhor Arne e a sua criadagem realmente dormiriam, ou se lhes teria acontecido alguma desgraça. Antes de os salvadores entrarem na casa empurraram com longas varas a fogueira ardente para longe da parede e, trepando até ao telhado, arrancaram a palha que fumegava, antes que esta pegasse fogo. Depois, com o intuito de entrarem e acordarem o senhor Arne, alguns homens dirigiram-se à porta da casa, mas quando o que ia à frente chegou ao limiar, desviou-se para o lado e deu lugar ao que ia a seguir. Este deu um passo em frente, mas quando ia a estender a mão para agarrar o puxador da porta, mudou de ideias e deu lugar aos que seguiam atrás. Tinham medo de abrir aquela porta, pois por debaixo da charneira corria uma larga torrente vermelha e o puxador estava sujo de sangue. Foi nesse instante que a porta se abriu diante deles, e o padre, ajudante do senhor Arne, saiu. Foi cambaleando até junto dos homens; tinha uma ferida profunda na cabeça e estava encharcado em sangue. Ficou um pouco em pé e estendeu a mão, como para pedir silêncio. Em seguida disse, com um estertor na voz: — O senhor Arne e os seus serviçais foram assassinados esta noite por três homens, vestidos com peles esfarrapadas, que desceram do telhado entrando pelo buraco da chaminé. Lançaram-se sobre nós como animais ferozes e mataram-nos. Mais não conseguiu dizer, caindo morto aos pés dos homens. Depois, as gentes entraram na casa e encontraram tudo tal como o padre ajudante havia descrito. A grande arca de carvalho, onde o senhor Arne guardava o seu dinheiro, tinha desaparecido, o cavalo do senhor Arne tinha sido levado do estábulo, e o trenó desaparecera da cabana. Havia trilhos de trenó que desciam do pátio, através dos prados em redor do presbitério, até ao mar, e uma vintena de homens pôs-se rapidamente a caminho, no encalço dos assassinos. Entretanto, as mulheres ficaram a ocupar-se dos mortos, levando-os da casa ensanguentada para a neve imaculada. Não encontraram lá toda a gente do senhor Arne, faltava alguém. Era a donzela pobre, que o senhor Arne tinha acolhido em sua casa. Todos se perguntavam, com grande espanto, se ela teria conseguido escapar ou se os malfeitores a teriam levado consigo. Foi quando inspecionaram a casa com mais cuidado que a encontraram no sítio onde ela se havia escondido, entre o enorme fogão de sala e a parede. Tinha-se mantido ali refugiada durante a contenda, e encontrava-se completamente sã e salva, mas estava tão totalmente fora de si, devido ao susto, que não conseguia articular palavra nem responder às perguntas que lhe faziam. Veja mais aqui.

HISTÓRIA DE AMOR – No livro Poesia completa – Tomo II – Poemas longos (Academia Catarinense de Letras, 2001) do poeta catarinense Luiz Delfino (1834-1910), organizado por Lauro Junkes, destaco o poema História de amor: Nesta página molhada / com uma lágrima de dor, / pra sempre deixo lembrada / a história de nosso amor. / Que queres tu que te eu faça? / Achei-o em meu coração: / podes chama-lo desgraça: / não erras, não mentes, não! / Este amor, que foi gerado / de um raio dos olhos teus, pelo destino embalado, / talvez maldito de Deus,  / eu não queria. Não pude / nunca a ideia conceber / de te manchar a virtude, / auréola do teu viver. / Mas disse: - pode-se amá-la, / sem ela mesmo o saber: / vê-la em sonhos e beijá-la, / cair aos seus pés prostrado, / febril, louco, delirante; / pois este amor ignorado, / que a mim me fora bastante, / que mal lhe pode fazer? / Cri eu, ser o mesmo, amá-la, / bem como se ama a pintura / de um quadro, que por ventura / caiu sob o nosso olhar. / Tão baixo estava a mirá-la / no céu tão alto em que a vida. / Que eu a mim próprio dizia: / - Não há perigo em amar. / Há tanta cousa que amamos / sobre este pobre planeta, / há tanta cousa que olhamos / sem que um crime se cometa, / que a olhar mais docemente, / mesmo com certa paixão, / ser mesmo um pouco imprudente / num terno aperto de mão, / quando tinha em minha frente / essa sublime visão, / esse raio de alegria / que dava em meu coração, / que dentro da alma vibrava, / e de um mistério a inquietava, / de emoção a embevecia, / que ante essa mulher sublime, / ai! Tudo ser bem podia, / mas não podia ser crime / o que fosse admiração. / E pus-me a amá-la, - Gostava / de olhá-la profundamente: / nessa fronte inteligente, que como o céu se encurvava, / eu lhe procurava a história / do que dentro se passava: / minha fronte merencória, / como vergasta pendida, / bebia o calor da vida / na vasta chama, em que toda / parecia ela envolvida. / Era um perfume de roda / na nuvens dos seus vestidos! / Dos seus cabelos compridos, / negros, finos, luzidios, / saíam como que rios / de luz cambiante e cheirosa, / e sobre a fronte orgulhosa / enrolados lhe pousavam / como coroa cintilante; / os seus pés escorregavam / sobre o tapete da sala, / como os silfos, que passavam / sobre os seus lábios sem fala, / mas onde se adivinhava / na ligeira convulsão / o acumular-se da lava / na cratera de um vulcão. / Essa boca não falava! / Mas ai dela o que eu ouvia! / Era uma eterna harmonia / que minha alma inebriava. / Já não tinha liberdade / de fugir ao encanto dela... / era queimar-me à vontade / as asas em luz tão bela... / envenenara-me a essência / que seu corpo trescalava/ louco já, sem consciência, / preso ao meu cego desejo, / pela morte procurava / no fundo abismo de um beijo. / Ai eu já me deleitava / não sei com que pensamento / e depois? Que me importava / esse importuno depois, / que fora talvez mortalha / que um mau destino só talha / para pôr sobre nós dois. / Sobre nós dois? – Porém ela / tão pura e casta e tão bela, / não! Amar-me não devia. / Nem mesmo amar-me queria... / custava-lhe muito... tanto, / que a revoltava... – No entanto, / quando eu aos seus pés chegava, / o seu olhar de rainha / tão doce se aveludava, / tão doce chama continha, / que o rosto lhe iluminava; / que não era ilusão minha, / também ela se alegrava / de ver-me, como eu a via: / ai! Assim de dia em dia / surdo incêndio se ateava. / Lavrou o fogo... a virtude / quase estalava por fim: / e nesta batalha rude / não sei dela, nem de mim... / eu sou o mar que soluça / na praia, em que se debruça, / como esplêndida voragem / espelhando a sua imagem; / ela é a planta isolada / que sobre a praia deixada / do vento ao rijo fragor, / sobre um árido rochedo / nasce, vinga, e cresce a medo, / dando solitária flor. / Se a tempestade passar / na asa de um vento mais forte, / pode ela encontrar a morte / rojada ao fundo do mar. / Nesta página molhada / com uma lágrima de dor, / pra sempre aí fica lembrada / a história do nosso amor. Veja mais aqui.

LIBERDADE DE EXPRESSÃO – No Dicionário filosófico (1764 - Martin Claret, 2002), do escritor, dramaturgo e filósofo iluminista francês Voltaire (François Marie Arouet/1694-1778), destaco o trecho dedicado à liberdade de expressão: [...] LIBERDADE (DA) A Eis uma bateria de canhões que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a não ouvir? B É claro que não posso evitar ouvi-la. A Desejaríeis que esse canhão decepasse vossa cabeça e as de vossa mulher e vossa filha que estivessem convosco? B Que espécie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, em meu são juízo, desejar semelhante coisa. Isso me é impossível. A Muito bem; ouvis necessariamente esse canhão e, também necessariamente, não quereis morrer, vós e vossa família, de um tiro de canhão; não tendes nem o poder de não ouvi-lo nem o poder de querer permanecer aqui. B Isso é evidente. A Em consequência, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhão: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos? B Nada mais verdadeiro. A E se fôsseis paralítico? Não teríeis podido evitar ficar exposto a essa bateria; não teríeis o poder de estar onde agora estais: teríeis então necessariamente ouvido e recebido um tiro de canhão e necessariamente estaríeis morto? B Nada mais claro. A Em que consiste, pois, vossa liberdade, senão está no poder exercido pelo vosso indivíduo de fazer o que a vossa vontade exigia com absoluta necessidade? B Embaraçais-me; então a liberdade é apenas o poder de fazer o que bem entendo? A Refleti um pouco. Vede se a liberdade pode ser outra coisa. B Neste caso o meu cão de caça é tão livre como eu; ele tem necessariamente a vontade de correr quando vê uma lebre e o poder de correr se não estiver doente das pernas. Eu nada tenho, pois, mais do que meu cão: reduzis-me ao estado das bestas. A Eis uma série de pobres sofismas dos pobres sofistas que vos instruíram. Eis que estais despeitado por não serdes livre como vosso cão. Ora, não vos pareceis com ele em mil coisas? A fome, a sede, o velar, o dormir, os cinco sentidos, não são em vós como nele? Pretenderíeis cheirar com outro qualquer órgão além do nariz? Por que quereis uma liberdade diferente da que ele tem? B Porém eu tenho uma alma que raciocina muito bem, e o meu cão não pensa coisa alguma. Ele apenas tem ideias simples, enquanto eu tenho mil ideias metafísicas. A Pois muito bem! Sois mil vezes mais livre do que ele, isto é, tendes mil vezes mais poder de pensar do que ele; porém vossa liberdade é perfeitamente igual à dele. B Como? Eu não tenho a liberdade de querer o que desejo? A Que entendeis com isso? B O que toda gente entende. Não se diz diariamente: "As vontades são livres"? A Um provérbio não é uma razão; explicai-vos melhor. B Penso que sou livre de querer como melhor me agradar. A Com vossa licença, isso não tem o mínimo sentido; não percebeis que é ridículo dizer: "Eu quero querer"? Necessariamente, vós desejais em consequência das ideias que se vos apresentam. Quereis casar, sim ou não? B Mas e se eu vos disser que não quero nem uma nem outra coisa? A Responderíeis como aquele que disse: "Uns pensam que o cardeal Mazarino está morto; outros, que está vivo; eu não creio nem numa coisa nem noutra". B Pois bem, quero casar-me. A Isto é responder! Por que quereis casar? B Porque estou apaixonado por uma bela rapariga, bem educada, muito rica, que canta muito bem, filha de pais honestos e que me ama, assim como sua família. A Eis uma razão. Vedes, pois, que não podeis querer sem razão. Declaro-vos que tendes a liberdade de vos casar: isto é, que tendes o poder de assinar o contrato. B Como! Eu não posso querer sem motivo? Que sucede então a este outro provérbio: Sit pro ratione voluntas: minha vontade é minha razão, eu quero porque quero? A Isso é absurdo, meu caro amigo, pois haveria em vós um efeito sem causa. B Que? Quando jogo par ou ímpar tenho então um motivo para escolher par em vez de ímpar? A Sim, sem nenhuma dúvida. B E qual é essa razão, por obséquio? A É que a ideia de par se apresentou ao vosso espírito mais do que a ideia oposta. Seria muito cômico que nalguns casos desejásseis por existir uma razão para o vosso desejo e que noutros desejásseis sem motivo. Quando vos quereis casar, sentis a razão dominante, evidentemente; não a sentis quando jogais par ou ímpar, e contudo é mister que exista uma B Mas, uma vez ainda: sou ou não sou livre? A Vossa vontade não é livre mas vossas ações o são. Tendes a liberdade de fazer quando tendes o poder de fazer. B Mas, todos os livros que li sobre a liberdade de indiferença... A São tolices: não existe liberdade de indiferença; é um termo destituído de senso, inventado por pessoas que o não possuem. LIBERDADE DE PENSAMENTO Pelo ano de 1707, época em que os ingleses ganharam a batalha de Saragoça, protegeram Portugal e deram durante algum tempo um rei à Espanha, minha Boldmind, oficial general, quer fora ferido, estava perto das águas de Berèges. Encontrou aí o conde Medroso, que caíra do cavalo, atrás das bagagens, a légua e meia do campo de batalha, e viera também fazer uma cura de águas. O conde Medroso era familiar da Inquisição; milorde Boldmind era familiar apenas na conversação. Um dia, depois de beber, teve com Medroso a seguinte conversa: BOLDMIND Sois, portanto, sargento dos dominicanos? Exerceis um bem vil oficio. MEDROSO É verdade; mas gostei mais de ser criado deles do que ser vitima e preferi a desgraça de queimar o meu próximo à de ser eu próprio cozido. BOLDMIND Que horrível alternativa! Éreis cem vezes mais felizes sob o jugo dos mouros que vos deixavam estagnar livremente no meio das vossas superstições e que, embora vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a ferros. MEDROSO Que quereis? Não nos é permitido escrever, nem falar, nem mesmo pensar. Se faamos, torna-se fácil interpretar as nossas palavras e mais ainda os nossos escritos. Enfim, como não podem condenar-nos queimados por ordem do próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. Persuadiram o governo que se possuíssemos o senso comum todo o Estado ficaria em combustão e a nação tornar-se-ia a mais desgraçada da Terra. BOLDMIND Achais que somos desgraçados, nós, ingleses, que cobrimos os mares com os nossos barcos e viemos ganhar para vós batalhas nos confins da Europa? Vede os holandeses que vos desapossaram de quase todas as vossas descobertas na Índia e hoje se enfileiram entre os vossos protetores: pensais que sejam malditos de Deus por haverem concedido inteira liberdade de imprensa e por fazerem o comercio dos pensamentos humanos? Foi menos poderoso o império romano por Cicero haver escrito com liberdade? MEDROSO Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem: não se trata aqui de Cicero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antonio de Padua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar. BOLDMIND Não cabe a vós acredita-lo, pois estás seguro que a vossa religião é divina e que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Se assim é, nada poderá destruí-la. MEDROSO Não, mas pode ser reduzida a pouca coisa. E foi por terem pensado que a Suécia, a Dinamarca, toda a vossa ilha e metade da Alemanha gemem na pavorosa desgraça de não mais serem súditos do papa. Diz-se mesmo que os homens continuam a guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por se ater à simples adoração de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno prevalecerem até esse ponto, em que se tornará o Santo Ofício? BOLDMIND Se os primeiros cristão não tivessem a liberdade de pensar, não é verdade que não existiria cristianismo? MEDROSO Que quereis dizer? Não vos entendo. BOLDMIND Acredito. Quero dizer que se Tibério e os primeiros imperadores dispusessem de dominicanos que houvessem impedido os primeiros cristão de usar penas e tinta; se durante tanto tempo não tivesse sido permitido pensar livremente no império romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos estabelecer os seus dogmas. Portanto, se o cristianismo só se formou pela liberdade de pensamento, por que contradição, por que injustiça desejaria aniquilar hoje essa liberdade sobre a qual está fundado? Quando vos propõem algum negocio interessante, não o examinais demoradamente, antes de o concluirdes? Haverá no mundo maior interesse que o da nossa felicidade ou eterna desgraça? Existem sobre a Terra cem religiões e todas vos condenam à danação por acreditardes nos vossos dogmas, que essas religiões consideram absurdos e ímpios; examinai, portanto, esses dogmas. MEDROSO como posso examiná-los? Não sou dominicano. BOLDMIND Sois homens e isso basta. MEDROSO Ai de mim! Sois bem mais homem do que eu. BOLDMIND A vós apenas cabe aprender a pensar; haveis nascido com espirito; sois uma ave na gaiola da Inquisição; o Santo Oficio aparou-vos as asas mas elas podem voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la; qualquer homem pode instruir-se; é vergonhoso que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais não se confiaria o dinheiro. Ousai pensar por vós mesmo. MEDROSO Há quem diga que, se toda a gente pensasse por aí, a confusão seria prodigiosa. BOLDMIND Pelo contrário. Quando assistimos a um espetáculo, cada qual dá livremente a sua opinião e a paz não é perturbada; se, porém, algum insolente, protetor de algum mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de gosto a considerarem bom o que lhe parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se com maçãs, como já aconteceu uma vez em Londres. São estes tiranos dos espíritos que causaram parte das desgraças do mundo. Na Inglaterra, só somos felizes desde que cada qual goze livremente do direito de exprimir a sua opinião. MEDROSO também nós estamos sossegados em Lisboa, onde ninguém pode exprimir a sua. BOLDMIND Estais sossegados mas não sois felizes; tal é o sossego dos forçados das galés que remam em cadencia e em silencio. MEDROSO Julgais, portanto, que a minha alma está nas galés? BOLDMIND Sim. E gostaria de libertá-la. MEDROSO Mas se acontecer que eu me sinta bem nas galés? BOLDMIND Nesse caso, é porque mereceis as galés. Veja mais aqui.


BEST FRIENDS – A comédia romântica Best friends (Amigos muito íntimos, 1982), dirigido por Norman Jewison e música de Michel Legrand, é vagamente baseado na história real da relação entre seus escritores, Barry Levinson e Valerie Curtin, contando a história de um par de roteiristas de Hollywood que viveram e trabalharam em conjunto um pro outro por vários de anos. Ele gostaria de se casar, mas ela não sentia a menor necessidade. Tendo acabado de escrever um roteiro de filme, o casal decide se casar sem deixar que ninguém saiba. Eles se casam e saem para uma noite de núpcias quando ela alega que terão de dormir em camas separadas. A partir de então vão viver desencontros e a infelicidade leva a relação pessoal e profissional pro fundo do poço. O destaque do filme vai para a premiada atriz estadunidense Goldie Hawn. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 A arte do fotógrafo Boris Karastov.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada como uma homenagem & gesto de gratidão eterna à mulher maravilhosa, poeta e superparceira radialista do meu coração, Meimei Corrêa & Baú de Ilusões. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!!!
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ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...