Em rota de
colisão, a sorte fecha a cara & teibei!... – Jesus Zé enganchou-se na porta giratória: Ó
mata-burro! Opa! Ele retrocedeu ao perceber outra pessoa engatada, do outro
lado, recuando também. Foi necessária intervenção do vigilante, enfim, desembaraçando
a passagem. Aí ele entrou; ela, saiu. Pronto, resolvido. Lá dentro, ambiente lotadíssimo:
Ué, como coube tanta gente aqui? Puxou a ficha de atendimento e apurou: Vixe, a
senha do fim do mundo, nunca serei atendido! Ora. Lá na expectativa, maior
lentidão, os olhos às voltas com os ponteiros do relógio e a morosidade emperrada
no expediente abarrotado. Zanzou impaciente espremendo-se entre um e outro, ia
e voltava, tudo na mesma, já mais de meia hora, a fila na mesma e ele secando
os cambitos, quarando, empachado. Num ímpeto aborreceu-se, quase deixa tudo pra
lá, não fosse a porta bloquear: De novo? Esse troço não foi com a minha cara! Ao
sacolejar aos empurrões, quase causou um acidente na outra pessoa entrante. Coincidência:
era a mesma pessoa que havia saído anteriormente, quando ele tentou entrar. Eita!
Duas vezes? É sinal... Afastou-se, nova intervenção do segurança, porta
desenguiçada. Ufa! Tácita repreensão geral pesou no ar. Desculpe, minha senhora,
está bem? Não foi nada. De soslaio, a aguda e unânime reprovação: A coisa aqui
tá pesando pra minha banda. E ele só queria ali mesmo era um buraco no chão pra
se socar e sumir. Desconfortavelmente indeciso, tentou sair de vez, hesitou;
foi prestar assistência à quase vitimada, foi dispensado. Ficou ali encostado, contando
carneirinhos entretido de nem se dar conta de 1, 2, 3 horas, naquele impasse: Argh!
Ah, flagrou uma cadeira vazia, correu pra se aboletar brincando consigo: Foi
passear, perdeu o lugar; daqui não saio, ninguém me tira! Um milagre! Olhou do
lado, ela, desculpou-se reiteradamente. Não foi nada. Essa espera dá nos
nervos. É. E nos muitos guichês apenas 3 funcionárias se desdobravam: A
população do mundo todo tá aqui para ser atendida, só sendo! Ela sorriu: Pelo
jeito não seremos atendidos nunca! Ficaram sem jeito: nunca tinham se visto, nem
se falado, ao menos. Na dele, passou um rabo de olho e viu-lhe ataviada. Hum...
Nela um ar confiante, obstinada, os olhos alados e brandos, podia-se dizer,
meigos; havia um quê de remota simpatia. E ele na sua angústia: Que morrinha! Ah,
mas entre trombadas e empurrões de corpo, finalmente a fortuna poderia lhe
sorrir ali: Será que dá cloro? Meditou apreensivo. E abriu o badalo, adiantando-se
desenrolado: Com licença, sou escancha-parente de ninguém, de Jesus só o nome,
na verdade sou apenas Zé, um faz-tudo, broco O pagador de promessas. Um
vozerio enorme atrapalhou a conversa, logo amainou. E ela: Sim, o senhor ia
dizendo mesmo o quê? Foram envolvidos por nova insatisfação generalizada. E
virou-se ao ouvido dela: Aqui tá difícil. As funcionárias faziam o que podiam. Ela
fitou-o esticando a conversa: As duas vítimas se confrontam! Como assim? Não
vê? O quê? De um lado, 3 atendentes dão o sangue, a empresa devia contratar
mais, todos se vingam nelas quando deveriam era amaldiçoar a empresa. Ah, é
mesmo. De outro, todos nós queremos ser atendidos e já, não há solidariedade.
Sim. Vamos mudar de assunto? Pode ser. O que você faz da vida? Sou um estornado!
Estamos aqui no mesmo barco, mas não sou tão pessimista. Fazer o quê? Saindo
daqui a vida flui. Sim, você está certa: é que já levei demais no espinhaço. E
quem não? Riram. Prazer, Jesus Zé. Dália. Novo tumulto, uma funcionária mais altiva
e experiente, jeitão de gerentona ou chefe dali, chamou a atenção de todos: Nós
estamos aqui todas compenetradas e tentando atendê-los da melhor forma
possível, pedimos paciência, tão logo atenderemos a todos. Óóóóóó! Aí ele
aproveitou o deixa disso e falou pra ela das escolhas desastrosas: Veja só a
minha vida, diga, quem eu julgava amigo me traiu; quem eu tinha por irmão, me
negou 3 vezes; fui discriminado pelo sotaque de matuto dos cafundós e só se
referem a mim com mangação; então, sigo os passos do pai que nunca tive,
desenrolo; nasci dum parto fugitivo: mãe que nunca vi; fui criado por uma
suposta avó que jamais foi; cresci fujão; o que via, aprendia; nunca fui ouro
18, aos solavancos levei tudo na caixa dos peitos, escapando, sempre à mercê da
ventania e na pedra de Drummond: Tome, uma topada da porra, meu! Afora
tudo isso: Uma fila enorme pra todo lado; e pulei muro, desci pelo esgoto,
entalei no arame farpado e sempre empurrado portão afora. Ela arregalou-se e
ele desembestou-se no tirinete. O tempo passava e a coisa mais que imobilizada,
ele no blábláblá, esperava que ela bendissesse a sina dele e, ela, ele que
juntasse os cacos do que sobrou e desse a cara à tapa. Não era outra a sua
inacessível missão. Nem deu pra ver o ar de repugnância dela com a tagarelice dele,
desajeitada, incomodada: Como é mesmo seu nome? Aí ela desanimou: Ele não era
louro nem tinha os olhos verdes, do contrário, era pardo e com uns olhos
amarelados e fundos; só podia: o destino quer mesmo me pregar uma peça,
contraste cômico. Deu-lhe logo um fastio e, a cada pinoia dele, se assustava.
Claro, teria muito do que se queixar, a espera na fila, a fadiga, o horror às
baratas e muriçocas, indagaria, com certeza: Por que tanta coisa ruim, tanto
bicho feio na face da Terra? Ele, mouco. Deus existe mesmo? Olvidava. Aí ele
ficou destreinado, todo sem jeito, cheio de pernas, com remorso pelo que
pudesse ter feito ali. Mais de 4 horas se passaram. E, de repente, a ficha
deles: que coincidência! Graças, cada qual num guichê, falsos sorrisos mútuos pra
todo lado. O atendimento de ambos, mesmo em guichês separados, foi concluído. Na
saída, emparelharam-se. Primeiro, as damas. Não, pode ir. Não tenho pressa. Também
não. Deu certo? Não, terei que voltar depois com outros documentos. E você?
Esperar mais até não sei quando para retornar. Curioso: saíam igualmente,
titubearam aos balbucios. O senhor vai ou não? Pode ir. Pronde a senhora vai?
Morrer! E danou-se porta afora deixando-o com cara de alesado que perdeu a
condução. Ele teve um choque com o que ela disse e, no apavoro, engasgado com
tudo pela goela, viu-se desenganchar dentro de si: Não vou fazer nada? Cadê-la?
Ela sumira mais que apressada para nunca mais... Até mais ver.
Arthur Rimbaud: Transformei silêncios e noites em palavras. O que era indizível, eu escrevi. Fiz o mundo giratório parar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Elif Shafak: Tente
não resistir às mudanças que surgem em seu caminho. Em vez disso, deixe a vida
viver através de você. E não se preocupe se a sua cabeça der uma volta de
ponta-cabeça. Como você sabe que o lado a que você está acostumado é melhor do
que o que está por vir?... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Alaa Murabit: Eu
sempre serei a garota que acreditava que podia chegar à lua, em um mundo que
ainda debate se as garotas devem ter educação e se as mulheres devem ter
direitos reprodutivos... Veja mais aqui.
BREVE PALESTRA SOBRE O HOMO SAPIENS
Com pequenos cortes, o homem de
Cro-Magnon registrava \ as fases da lua nos cabos de suas \ ferramentas,
pensando nela enquanto trabalhava. \ Animais. Horizonte. Rosto em uma panela
d'água. \ Em toda história que conto, chega \ um ponto em que não consigo
enxergar mais nada. \ Odeio esse ponto. É por isso que \ chamam os contadores
de histórias de cegos — uma provocação.
Poema da premiada
escritora canadense Anne Carson. Veja mais aqui, aqui & aqui.
A ESPOSA
DA STARTUP - […] Todas as grandes histórias de amor
são sobre duas pessoas que unem a história de seus passados e a história de
seus presentes em um poema épico entrelaçado — e é isso
que querem dizer quando falam que o raio cai. [...] Os professores são as
pessoas com quem convivemos mais intimamente durante uma fase da vida, mas a
relação é voltada para nós; eles se deixam em segundo plano para servir de
canal para o nosso crescimento. [...] A tecnologia nos permite deixar de
fazer coisas que não queremos mais fazer. Como chamar um táxi na rua ou enviar
faxes. Ninguém quer encarar a morte. E agora não precisamos mais. [...] Não
posso deixar de sentir que cada pequeno sucesso é um pequeno foda-se para todas
as pessoas que olharam feio para minha mãe em seu sári no Walmart, ou
pronunciaram meu nome incorretamente, embora tivesse apenas quatro letras, ou
disseram algo casualmente racista e depois disseram: “Mas não me refiro a você”.
[...] Ele espiona você. Ele extrai seus dados. Ele arranca sua alma e depois
a revende para você. Ele foi projetado para fazer você gastar dinheiro, de modo
que fique ocupado demais comprando para perceber que o mundo está pegando fogo.
[…] Será que eu lamentava o fato de Cyrus ser branco? Para dizer a verdade, às
vezes sim. Se Cyrus fosse bengali, eu não precisaria explicar por que roer a
ponta de uma coxa de frango era talvez a melhor parte da refeição, ou por que
existiam roupas de sair, roupas de ficar em casa e aquelas roupas
intermediárias que a gente vestia ao chegar, sem estar pronta para ir para a
cama. Eu não teria de explicar todas as regras complicadas sobre onde se pode
ou não colocar os pés, nem que ele até podia me beijar na frente dos meus pais,
mas não na boca e, certamente, jamais com língua. Mas o que eu achava
infinitamente pior era tentar avaliar se um homem tinha a dose certa de
"marrom" em si. Ele precisava entender de coxas de frango e de
sapatos e não odiar a si mesmo, mas também não podia ser apaixonado demais pela
mãe, nem imaginar que eu trocaria mais fraldas do que ele, ou jamais — em
hipótese alguma — se sentir atraído pela ideia de me ver de hijab. Ele tinha de
ser três partes Tagore, uma parte Drake e uma parte e. e. cummings — isso sem
nem entrar no mérito de eu sentir um arrepio só de sentir o cheiro do rosto
dele. Então, não: eu não queria ficar pensando na brancura de Cyrus; eu só
queria aproveitar o cheiro dele, o pau dele de tamanho perfeito e o fato de
que, entre todas as pessoas que conheci na vida, ele era quem mais me passava a
sensação de estar em casa. [...]. Trechos extraídos da obra The
Startup Wife (Scribner, 2022), da escritora e jornalista de Bangladesh, Tahmima
Anam, autora de livros como The Bones of Grace (2016), The Good
Muslim (2011) e A Golden Age (2008).
FEMINISMO
DECOLONIAL - [...] A missão do feminismo civilizacional é clara: as mulheres
europeias estão embarcando em uma cruzada contra a discriminação sexista e os
símbolos de subordinação que persistem em sociedades fora da Europa Ocidental;
elas se apresentam como um exército defendendo o continente de uma invasão de
ideias, práticas, mulheres e homens que ameaçam suas conquistas. Essa narrativa
é patentemente falsa. Ela serviu para despolitizar as lutas das mulheres da
década de 1970, para ofuscar as mulheres do Terceiro Mundo e para apagar as
conquistas do feminismo negro. A liberdade individual — eu me visto como quero
(mas não posso usar véu) — torna-se o símbolo das lutas da década de 1970; isso
é um claro insulto às lutas das mulheres trabalhadoras, imigrantes e refugiadas
políticas. A luta do feminismo civilizacional é elevada a uma batalha universal
entre o bem e o mal. [...] Para se tornar um
movimento consolidado e não uma ideologia marginal, para entrar nos corredores
do poder, para convencer o Estado e o capital de que existe um feminismo que
não só não representa uma ameaça para eles, como também pode se tornar sua arma
ideológica e política, o feminismo civilizacional teve que se transformar no
feminismo militante, substituindo seus oponentes da época (o patriarcado
branco, o Estado e o capital) pelo Islã. [...]. Trecho extraído
da obra Un féminisme decolonial (Fabrique, 2019), da cientista política e ativista francesa Françoise
Vergès. Veja mais aqui & aqui.
TEATRO & CINEMA: O PAGADOR DE
PROMESSAS - A peça teatral
O pagador de Promessas (Agir, 1961), do escritor, dramaturgo, autor de
telenovelas e membro da Academia Brasileira de Letras, Dias Gomes
(Alfredo de Freitas Dias Gomes – 1922-1999), foi escrita em 1959 e estreou nos
palcos brasileiros em 1960, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São
Paulo. Embasou o filme O pagador de Promessas (1962), escrito e dirigido
pelo ator, roteirista, escritor e cineasta, Anselmo Duarte (Anselmo
Duarte Bento – 1920-2009), tornando-se o primeiro sul-americano a vencer a
Palma de Ouro no Festival de Cannes (em 1962) e o primeiro indicado brasileiro
ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (em 1963), um marco para as artes cênicas
e o cinema brasileiro. Confira detalhes aqui.
ANCESTRALIDADE NOS TEMPOS ATUAIS – O tema da ancestralidade tem
permeado debates e discussões, trazendo reflexões por meio de depoimentos e
poemas de personalidades, tais como Wole Soyinka, Jones Manoel, Nelly Sachs, Conceição Lima, Sónia Sultuane, Marco Nicolini, Augusto Boal, Malika Mokeddem, Vanessa
Martínez Rivero, Sinéad Gleeson, Cindy Sheehan & Ruby Bridges.
Confira aqui.
CANTO
& SOU XEXÉU – O livro autoral Canto
& sou xexéu (CriArt, 2023) foi lançado com tiragem limitado e feito em
homenagem à memória de Gercino Gonçalves de Lima e à convivência de infância e
adolescência, durante a trajetória de passagem do distrito a Município,
articulando ancestralidade a partir do passarinho e sua convivência com
marimbondos e vespas durante período pandêmico, a trajetória de seu êxodo por
Macaco e Aurora, atravessando acontecimentos históricos que permearam as litas
pernambucanas durante a passagem dos séculos, até alcançar a sua transformação
em humano no século 20. Veja detalhes aqui.
JUPI – Este o 8º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna,
contemplando desta feita, Jupi e as Mulheres Fulni-ô, contando da
história triste de um beija-flor no olho d’água dos Ouricury - sigilo yaathe
e sagrado Fulni-ô -, da palmeira e o jardineiro, dos sítios Catonho, Miné, Pau-Ferro, Raposa e Xícurus, dos rios da
Chata e o do Retiro, dos riachos do Estreito e da Volta do Rio, desde o Peri-Peri, das missangas e das gentes de Areias,
Barro Vermelho, Lagoa da Pedra, Marmeleiro, Miné, Pau-Ferro, Rio da Chata,
Saco-dos-bois, Santa Rosa, Serrinha e Várzea da Raposa. Veja mais aqui.
PINTANDO NA PRAÇA & IBAVALEUNA – O projeto Pintando na Praça
é desenvolvido pelo Instituto de Belas Artes Vale do Una (IbaValeUna),
desde de 2010, comandado pelo poeta e artista visual, Paulo Profeta.
Nesta postagem registra-se as edições de 2017 a 2023, culminando com a
publicação do catálogo Pintando nas Praças de Pernambuco (Funcultura, 2025).
Confira aqui.
ISTO É PERNAMBUCO









