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sexta-feira, outubro 19, 2018

DIAS GOMES, MARIA RITA, JANNA SHULRUFER, I-POEMA & MAMÃO


O AMOR DA JUMENTA – Art by Janna Shulrufer - Aquele reles sujeito a quem todos tratavam pelo apelido chistoso de Mamão, era um sujeito sem índole, sem certidão de nascimento, sem família, sem nada, vivia apenas. Parece que caiu do céu ou fora a Lu-cegonha-preta quem recolheu o bicho dalgum lugar. Saber, nem ele sabia quem era quem, família, parentes, aderentes, nada. Data de nascimento? Não tem. Nome completo: onde? Feio que dói, olhos vesgos e pestanas emendadas, beiços salientes sob um nariz espragatado no meio da cara de prato, corpo disforme, pernas curtas, braços longos, manzorras, cabeça grande de pigmeu, pescoço encolhido no tronco, buchudo, tamborete de zona todo atarrachado, verdadeiro pau pendeu, um franchão, broco do cabelo ruim, pés de raiz de jacarandá, uma santa ignorância oriunda das brenhas onde havia sido criado nos cafundós de Judas e, de quebra, um certo desequilíbrio psíquico, descoordenando ainda mais o desconjuntado. Um quasímodo, horroroso mesmo. Será a mãe dele alguma Mary Shalley, que criara mais um Frankstein vivo? Nossa! Se esse bicho inventar de dormir no cemitério, alguém chegar a ver aquele busuntão ali, terror horripilante e, tenho certeza, do hediondo, todo mundo corre de medo. Vão dizer que ele veio do mundo dos mortos, do Hades, do inferno do centro da terra, do outro mundo, ou, sei lá, dalgum lugar dos extraterrestres mais feiosos. Era. Deve ser castigo tanta fealdade assim. E a mangação? Quando passava na rua, perguntavam logo: - Cadê a nave, Mamão? - e ele: vápápupariu! -, era a maior gaiatice. Nossa, abusavam mesmo do coitado. Tudo para ele ali era novidade, saído como saiu duma capoeira insólita onde o diabo perdeu as botas e, agora, desfrutando do progresso frenético de uma província em franca ascensão, pudera, tudo maravilha de bestão. Um monstrinho, deveras, no meio da civilização. Antes fugia dos automóveis, se escondia de ambulância, corria de caminhões, tratores - Isso é uma tuia de bicho feio, sô. Era um pavor. Um certo cidadão caridoso, Marquito Ladeira, mais conhecido pelo alcunha de Marquin Doideira, colheu o sujeito e resolveu documentá-lo. Foi ter num Cartório de Registro Civil com um certo amigo gaiato que era escrevente juramentado e combinou de dar-lhe vida assim do inventado. Nome? Chuta aí. Vôte! Idade? Da pedra. Filiação? Desconhecida. Assim num pode. Sei que foram para lá e para cá e se entenderam por nominar o ogro pelo nome de Manoel de Tal, nascido em dia ignorado, com filiação de Maria de Tal e Zé Qualquer, que mãe ele tinha de ter, ninguém que sabia. Seu Marquin testemunhou tudo, apossou-se do documento e falou: Agora tu é gente, Mamão! - ele quase chorou de alegria. Daí foram pro lambe-lambe, fizeram todo tipo de pose e fotografaram o beiçudo até plantando bananeira. Isso. Quanta munganga! Mamão adivinhava que não ia gostar das fotos, mas como num enxergava bem mesmo, passou batido. Meia hora depois estava no Cartório de Identificação ganhando um Registro Geral, melando os dedos das mãos numa almofada de carimbo: - Vou tocar piano com a mão melada, é? Daí a pouco, estava organizado com CIC, Título de Eleitor, Alistamento Militar, Carteira Profissional, tudo nos trinques. O monstrengo só tinha mesmo de lindo o CPF, documento este que seu Marquin Doideira vivia paquerando para pendurá-lo, como um morcego, numa valsa de um trambique em qualquer financeira. Mamão mesmo nem sabia o que era aquilo, pedisse mostrava logo todos os seus documentos mofados na carteira: RG com a foto borrada; certidão de nascimento ilegível pela exposição impensada a líquidos de chuva ou de rio; carteira de vacinação precisando atualizar; CPF se rasgando e impossibilitando a leitura do seu cadastramento; um galho de arruda e um dente de alho ressecados pelo tempo; uma flâmula do Flamengo; e três calendários com fotos de mulheres com a boceta arreganhada. É que ele quando via um riacho qualquer, timbungava, esquecia os documentos no bolso da bunda. Tudo molhado, maior seboseira. Mas Mamão vivia de soltar galhofas às meninas passantes, maneira própria de paquerar as beldades que nem sequer lhe davam bola. Mesmo assim, ao que parece dum relato colhido por Cassaco e que conhecia o feioso desde tenra idade, era um sujeito correto metido numas trapalhadas. Não fosse um dia seu Marquin Doideira levá-lo para assistir um circo na cidade, não saberia nem que aquilo existia. Ele se empolgou tanto com o espetáculo circense que queria construir um com suas tralhas e bichos do outro mundo, no quintal do seu protetor. Ficou com aquilo na cabeça por bom período de sua vida. Até que fora levado pelo protetor para uma pizzaria: Que droga de comer é esse? Fitou longo tempo e ingeriu uma pizza grande de uma só vez, sorvendo o refrigerante tão rápido de engasgar-se. Bateram tanto nas costas do coitado para desentalá-lo, que ficou com uma mancha grande e avermelhada à altura dos pulmões: Oxe, nunca levei tanto tabefe na vida! Propositalmente seu Marquim depois de enchê-lo até o tampo de comida, levou o destemido para dar uma corrida na montanha russa. Pra que isso, meu Deus? Mamão vomitou tudo, não sobrando vivalma que não fosse atingida pela gosma indesejável. Por isso ficou verde, mais parecia o incrível Hulk. Às pressas foi levado pro hospital: os olhos virando, a boca aberta, a baba escorrendo, nem piscava os cílios. Vai morrer! Nunca havia andado naquilo: - Aquilo é um invento do cão! Por causa do acontecido, seu Marquin teve pena do sáfaro e empregou-o na condição de carregador de mercadoria em seu estabelecimento comercial. O horroroso, coitado, não sabia nada, mas com o tempo foi assimilando suas obrigações, trabalhando com esmero e garantindo seu ganha-pão. Soube-se, então, contado por ele mesmo nas horas de sanidade que tivera por profissões as de caçador de carangueijo na maré de Roteirópolis; cobrador de cata-corno suburbano; cheleléu de perueiro; vigia de tartaruga; guardador de guenzo em casa de família; recadista de pousada do litoral; varredor de terreiro onde se criavam animais vários; lavador de gogo de isca; leva-e-traz de meretriz na zona do baixo meretrício de Coité do Nóia; e, por fim, gigolô da mulher do vereador Nezito Bico de Bule. De todos fora demitido por motivos diversos: de caçador de carangueijo porque a pata do guaiamum agarrava um de seus dedos, numa dor de virar caminhão, ele torava a peiticante, razão dos crustáceos chegarem aleijados, justo faltante a pata mais requerida pelos degustadores da iguaria que reclamavam a ausência da mais saborosa. Do outro emprego, arribou por não ter muita intimidade com dinheiro, sendo dispensado a chutes e pernadas do cata-corno porque quanto mais gente era transportada, menos sobrava dinheiro para cobrir os custos do transporte, ou seja, dava mais troco que recebia passagem. Qualquer um enrolava com valores ínfimos exigindo troco. Do seguinte, saiu por ser abestalhado demais, quando a kombi acabava de encher, não cabia nem ele, ficava toda vez ao deus dará: - Foi-se, eita porra! Dos seus desatinos, muitos restam como lorotas, como o fato de deixar fugir uma das tartarugas de estimação de dona Maria Cachacinha que, aborrecida, prestou uma queixa na delegacia, acusando-o de ladrão. Das investigações apuraram que o quelônio aquático havia realmente fugido. Doutra, os guenzos que ele cuidava com tanto carinho, ladravam muito de deixá-lo mouco dia após dia. O que fez, matou um, dos outros ficarem calados. Resultado: botaram ele para correr porque compareceram uns ladrões no recinto e ele achava que eram visitas da casa. Da pousada, quando levava bilhete escrito, tudo bem; mas quando era para guardar na cachola, toda vez ou se esquecia ou, invariavelmente, trocava as bolas; era esporro de manhã, de tarde e de noite. No terreiro onde exercia a nobre função de varredor, possuía tanto bicho de tantas qualidades, alguns até que ele nunca nem tinha visto, que quando ele terminava de varrer, de um lado a outro, estava tudo sujo de novo das bostas que os animais cagavam de propósito; varria tudo de novo e quantas vezes fosse necessário até espantar os bichos e cair no maior sono de três dias encarreados, dormindo que só São João, se acordando com os gritos do dono afugentando o displicente dali. Quer outra? Ao lavar um dos gogos para prendê-los na vara de pescar, gostava de brincar com eles, achando-os bonitinhos se relando no chão. Ora, sumia tudo, ou, então, quando, na hora da fome, comia um deles, não sobrando um sequer, já viu? O de leva-e-traz de meretriz, ele próprio escapulira do vento ruim, visto que, certa feita, levando um recado da sua patroa, a Maria-cheba-de-ouro, para o amor dela, o inspetor da polícia, ficou preso por desconfiança de conduta e, de noite, durante o interrogatório sobre sua procedência, o inspetor queria comer seu cu, visando desmoralizá-lo. Ôxe, que é que é isso, meu? Mamão relutou, brigou tanto de deixar o inspetor molezinho na cela, fugindo para nunca mais dar sinal de sua graça pela redondeza. Anos depois, regressando por aquelas bandas na calada da noite, foi surpreendido pela aflição de dona Bineca, mulher do vereador Nezito-bico-de-bule. Deu um carreirão pensando ser com ele o problema. Depois percebeu que a aflição dela era por conta de um incêndio ocorrido no botijão de gás, a qual foi socorrida pela providente atuação do desajeitado, apagando o fogaréu e se arriscando de uma explosão das boas no meio das fuças. Agradecida, Bineca pediu para que ele ficasse por ali àquela noite por motivo dela se sentir insegura e amedrontada, perdendo a total confiança de ficar sozinha naquela casa, podendo o incêndio voltar à tona a qualquer momento. Mamão nem se fez de rogado, sentou praça na cozinha, esperando o papôco de qualquer fagulha. Durante a vigilância ela serviu-lhe janta – ora, há dias que ele nem via comida pela frente, somente insetos e folhas – o que deixou o cabra ancho de quase morder as orelhas numa risada. Era o prato chegando à mesa, ele amolando os dentes com vontade, devorando a comida e dando uma dentada no prato de arrancá-lo um taco - eita! – e quase arrombar um dente, ficando banguela. Depois ela mandou que ele se banhasse e, durante o asseio, levou um pijama do digníssimo marido para que ele se esquentasse – mas espia só! - quando, pela sombra impressa, revelada pelo box do banheiro, percebeu o seu membro extraordinariamente desenvolvido, dando o  tamanho da macaca do descomunal, ela tomou um susto mas não arredou o pé, ficou o tempo todo estatelada, acompanhando o esfregamento dele embaixo do chuveiro. Mesmo sendo uma figura esdrúxula, bizarra, desengonçada, mesmo assim Bineca, uma senhora jeitosa, de formas graciosas e rosto muito atraente, sentiu-se atraída pelo tamanho da chibata do rapaz. Daí, de forma propositalmente descuidada, arrastou a portinhola do box e sacou ao vivo e a cores, aquela altaneira e retumbante tromba arriada barriga abaixo. Era um desaforo. Assustou-se ela com um gritinho tímido, charminho para chamar atenção. Ele escondeu o instrumento entre as mãos. E cabia? Ficara assim mesmo à mostra: Que é isso, meu filho? Esconda não. Mostra para mamãe o seu piupiuzinho, mostra! – ele empulhado, de escuro ficou rosado. – Mostra neném que mamãe quer ver! E ele, entre cheio de pernas e envergonhado, encostou-se na parede do banheiro. – Mostra, neném, mostra! –, ela insistia em ver-lhe a graça, arrancou-lhe as mãos e presenciou, in loco, o patrimônio ajegado dele.  – Que coisa mais linda, meu Deus! Deixa mamãe pegar, deixa! –, sem saída, encurralado entre ela e a parede, ele assentiu que ela chegasse ao seu membro e, ao leve manusear, ficou enrijecido e se prolongando a cada tocada dela. Mais assustada que nunca com o desenrolar da mangueira dele, começou carinhosamente a alisá-lo com as duas mãos, ora revirando os olhos, ora entrecortando a respiração, arrepiando-se toda, agitando-se, lábios entreabertos, ofegante, até que teve uma vertigem e caiu de joelhos frente aquela volumosa glande a qual ela começou timidamente a beijar, a passar pelos lábios, pescoço, orelhas, bochechas, testa, seios, depois alisou aquela pomba enorme com sua língua macia, delirando, sugando-a, engulindo-a aos poucos visto quase rasgar sua boquinha delicada, esfomeada, lambia, chupava, engolia, friccionava, punhetando-o avidamente, ele escorregando pela parede, devagar, até sentar-se no piso frio do banheiro, quando ela, largou a sua pêia, levantou-se, removeu a saia, livrou-se da calcinha e, comedidamente, foi se acocorando lentamente sobre a espada rija que se encontrava pronta para rasgá-la toda. Ela se contorcia devagar, requebrando, rebolando, se ajeitando até que sua vagina foi engolindo, centímetro a centímetro, dilatando suas entranhas, rasgando seu ventre, dinamitando seu prazer. Quando conseguiu introduzi-la por inteiro, ela respirou fundo e começou um sobe e desce cadenciado, doloroso, prazeirozo, emergindo por inteiro fora da sua xanha e depois afogando com força novamente até o mínimo milímetro sobrar além dos testículos dele. Veio então o frenesí, foi adiantando mais, pulando em cima, uns gritinhos de sensações suicidas, ele zarolho, ela no êxtase, blasfemando, vilipendiando-se, gritando, adorando, pululando, se contorcendo, gozando, enfim, do néctar dos deuses. Como se estivesse retalhada em postas, cansada, exaurida, ela foi lentamente arriando e se jogando devagar ao chão, a chorar baixinho, um choro lavado, completo, grato. Ficou um longo tempo assim, a bunda à mostra, Mamão quieto, de pau duro, só olhando as curvas de sua montanha do Cáucaso, apalpando a micula ovalada até esfregar o indicador no cuzinho cor de rosa dela. Esfregou, então, os olhos para ver melhor e, com sua manzorra, se apossou das ancas acetinadas dela e puxou brutalmente a bunda linda até a altura dos olhos, viu-lhe o pinguelo, deu-lhe uma lambida, ela, de cu pra cima, deu uma arrepiada de sussurrar fundo, passou a língua pelos lábios da priquita dela entumescida, levou o sobejo até o osso do mucumbú, colocando a ponta de sua língua no cuzinho dela. Ah! Ela gemeu. Lambuzou o esfíncter anal e começou um ajeitado com o dedo entre as pregas do ânus dela, com a outra mão alisando o cacete para ficar mais duro ainda. Ela ajeitou-se, ele passou a rôla na cheba melada, ía e voltava, ora no cu, ora na boceta; nessa tapiação ela ronronou e mandou ele enfiar logo a pica dura no papeiro dela. Nem trastejou, arregaçou a pomba no caneco da madame. Tome. Um gemido com um misto de dor e prazer foi ouvido, ele botava e tirava ferozmente, ela gritava, não se sabia se pelo fato de ser esfolada cu a dentro ou se possuída da forma que aprouvera. Depois de tudo, Mamão ejaculou brutalmente uns três litros de gala nos fundilhos dela, esborrando tudo, se lambuzando todo, meleguento, desenfiando a jamanta e abrindo o chuveiro para banhar-se demoradamente. Do jeito que estava, ela ficou, estendida de bruços no meio do sangreiro. O ignorante enxugou-se, vestiu-se do pijama alheio e se dirigiu para o quarto que ela lhe havia dispensado, dizendo ancho: Ô raça boa prá botar gaia! –, zombou ele dando o último cochilo no meio da noite. Nezito quando chegou de manhãzinha ainda encontrou a mulher em decúbito dorsal, no piso do banheiro: O que houve? Será? Assustado, o marido cobriu-lhe as nádegas desnudas e tentou levantá-la ao que se acordou zonza, sem saber o que havia ocorrido: Eita, ela menstruou e num tá nem sabendo! Onde estou? – inquiriu ela, totalmente perdida. Você estava desmaiada no banheiro, o que houve? Eu? Sim, desmaiada, o que houve? Menstruou de novo? Sei lá, estou totalmente leve, quero dormir! Vou chamar um médico! Não precisa, estou me sentindo bem, apenas com sono. Nezito carregou seu corpo trôpego até o quarto e a estendeu sobre a cama. Procurou pela empregada, não encontrando-a, também ainda era cedo para que ela já tivesse chegado. Ficou preocupado, mesmo assim, saiu, então, para resolver umas coisas na cidade. Intrigado, ficou o resto da manhã meio desconfiado, passando pela Câmara de Vereadores, assinando uns papéis, alegando aos companheiros que não podia ficar para a discussão porque sua mulher não estava bem e precisava resolver umas coisas e retornar rápido para o lar. De lá foi até a agência bancária, sacou algum dinheiro e retornou, uma hora e meia depois, para casa. Mais surpreso ainda: ela cantarolava no meio da sala. O que houve? Você chegou? Eu lhe encontrei desmaiada e nua no banheiro! Foi ? Foi. Ah! Deve ter sido a aflição! De que? O botijão incendiou, estava para explodir e eu, por sorte, encontrei um rapaz que ia passando, apagou o fogo e salvou a situação. Quase morri de medo. Acho que pelo nervosismo devo ter ido ao banheiro e de lá não sei mais nada... O marido ficou atônito com a narrativa dela. Foi até a cozinha e verificou que ainda estava fedendo a coisa queimada. Inquiriu a empregada e ela certificou de que estava tudo em ordem, apenas o fedor da mangueira do botijão queimada que se encontrava num canto da cozinha jogada, mas que fora substituída por outra e tudo estava perfeitamente em ordem. Ao retornar para a esposa, inquiriu se ela se encontrava bem ou se necessitava de algum acompanhamento médico, o que ela negou alegando estar muito bem agora. Tranqüilizado, Nezito dirigiu-se ao banheiro, tomou um longo banho e matutou, ouvia desconfiado o cantarolar da mulher no meio da casa. Saindo do banheiro, levou a toalha até o coarador, quando ouviu um ronco profundo e ameaçador. Digitígrado, investigou, abriu devagar a porta da despensa e flagrou um bicho horroroso dormindo na cama. Deu uma carreira e foi até o quarto, abriu a gaveta da cômoda e sacou de um revólver, quando a mulher assustada com a arma, instou sobre o que era aquilo, o que se sucedia, e ele informou que tinha um ladrão dormindo no último quarto, ao que ela contornou e explicou ser aquele o sujeito horroroso que salvou ela da explosão e que, como estava sozinha, pediu por tudo para que ele dormisse ali, prevenindo qualquer novo incidente, uma vez que ela estava amedrontada e aflita. Suavizado com o relato, Nezito acalmou-se e foi almoçar. Passaram-se então tardes, noites, dias, semanas, meses, anos, e Mamão tomando conta da dona da casa, não antes tentar se ajeitar com a empregada, o que levou uns bregues e um corretivo no maluvido para deixar a secretária em paz. Ficava ali, coçando os ovos, comendo do bom e do melhor, fodendo a dona da casa, enrolando o marido dela e ainda por cima querendo um chamego com a empregada. A pinica era jeitosa e toda metida às pregas, ele lá horas e horas acompanhando os afazeres dela para, quando descuidada, passar a mão na sua intimidade. Levou tabefe até umas horas da piniqueira para deixar de ser folgado. A madame quando chegava ele ficava todo murcho, pelos cantos. A doméstica reclamava à madame os maus procedimentos dele, eita! Virou uma jararaca pra cima do incauto. Mas a patroa deixou passar não antes dar-lhe o maior rela por isso. Chamou-lhe na responsa e disse-lhe umas poucas e boas, ameaçando ele de perder a boquinha: Quer comparar, é ? – ameaçou ela. Certa vez Bineca teve de viajar e passar uns dias fora com o marido para composição da chapa majoritária do partido que ela pleiteava a reeleição. Passou uns dezoito dias fora na convenção. Mamão sozinho, Ternência impune, fez de tudo com ela para molhar o biscoito. Oito dias se passara e ela nada. Ele já estava com o juízo apertado. Ela relutava em não dar bola pra ele, até que arretou-se, certa feita, quando ele intrometeu-se a apertar os peitos avantajados dela, arribando dali, só retornando quando a dona da casa voltasse para lhe contar os mínimos detalhes do assédio dele. Caiu então numa bruta solidão. Choroso pelos cantos da casa, não percebia sentido nenhum em viver assim. Foi quando, numa olhada de soslaio, percebeu a cadela Rosemarie deglutindo sua ração no quintal. Ele mirou, cheios de artimanhas se aproximou, alisou a cadela dócil, ficou brincando com ela, mexeu nas partes pudendas com um dedo, puxou a cabeça da cadela que lambia tudo, botou a pica pra fora, fez com que a cadela passasse a língua na cabeça da rodia dele, ficou excitado, alisou o cuzinho da cachorra que aceitava as provocações dele e no meio desse alisado, enfiou a macaca e a bicha gostou: Venha, cachorrinha, venha, tome! Danada! Fodeu três dias encarreados deixando-a mortinha e toda rasgada. Enterrou-a no quintal. Já estava mesmo enjoando da foda quando resolveu punhetar-se com as fotos do álbum de fotografias da Bineca, em poses sensuais, maiô de praia, com calções íntimos, de robe, deitada em trajes sumários, fazendo ginástica, escalando dunas, bebendo uísque, chupando picolés e sorvetes, tudo enriquecia sua imaginação. Dezoito dias passados finalmente retornara: Como está a casa, Mamão? Tubem! Cadê Ternência? Foiprácadopaidela! Ternência tá muito folgada, deixou você com fome, foi fofinho? Bineca deu-lhe um cheiro, alisou seu cacete e seguiu direto para o banheiro. O marido entrou e mal apanhou uns papéis na cômoda e escafedeu-se azuretado com os compromissos. Mamão foi pro quintal e sem ter nada o que fazer, recolheu-se ao seu quarto. Daqui a pouco, chega Bineca, assanhada, doidinha para atualizar a foda diária e lavaram a égua. Lá pelas tantas Bineca saiu e só retornou com o marido e a empregada na boquinha da noite. Mais três dias depois Bineca sentiu umas coisas estranhas escorrendo boceta abaixo, ficou atordoada, marcou consulta com o ginecologista, desconfiando que o marido havia pulado a cerca e colocado alguma doença venérea nela. Uma bomba! O médico tascou o diagnóstico: blenorragia de cachorro! Ela armou-se com uma mão de pilão e deixou uns quarenta galos na cabeça do marido, fato bem explorado pelo pessoal da oposição que levou para os palanques políticos a quantidade de gaias que coloriam a cabeça dele: Bem empregado, todo castigo para corno é pouco! E não ficou por aí, ela também expulsou debaixo da maior esculhambação o seu amante Mamão, que agora ficara com uma mão na frente e outra atrás, levantando a confirmação das suspeitas dos opositores dela e, ainda por cima, acometido de doença braba. Depois de tudo passado, agora não, agora ele estava como carregador eficiente na loja do seu Marquim Doidera, a Maluquim Móveis, aprendendo diversos afazeres, meio atrapalhado e pisando na bola de vez em quando. Recado era melhor que não mandasse por ele, trocava tudo. Beócio, misturava as coisas. Apreciando melhor, a única serventia dele, era levar grito, mais nada. Valia irrisória para sujeito tão biltre. Quando tentava justificar qualquer erro, era uma língua enrolada de ninguém entender patavina e, ainda, respondia com raiva, dono da razão dele. Mas estava quieto, havia pulado não sei quantas fogueiras, quase tudo lhe queimando o rabo. Relembrava, quando podia, toda sacanagem contada aos borbotões na maior mangação dos ouvintes que duvidavam de tudo, até de sua sanidade. Isso aguçava seus quereres. Dera-lhe, outro dia, portanto, uma agonia de querer foder. Meses assim, endoidava. Com quem? Era preterido por todas, quem se agarraria com ocrídio daqueles? Era o asco das meninas, não tomava banho, nem escovava os dentes, não penteava o tuim, asseio algum, um fedor insuportável, um bafo de lixo podre, uns grudes por todas as partes do corpo, remela olho abaixo, ele não era preto mas bem que se mostrava escuro. Seu Marquim, uma certa tarde, deu-lhe um banho de chorar três dias seguidos. Teve de usar até espátula para remover o grude infincado na pele do catingoso. Eita, descascaram o rapaz. Viu-se, então, que era moreno; jogou-lhe uns pingos de perfume, ardendo sua pele, uma coceira braba da cabeça aos pés, denunciando unheira, biqueira, perebas, chulé brabo, piolho, chato, lêndias, enfermidades a quatro, meu, aquilo não era gente, era a verdadeira boceta de Pandora! O patrão conseguiu depois de muita conversa no pé do toitiço que uma aleijadinha caolha e banguela, aceitasse dar uma trepada com o hediondo. Tudo acertado, o seu protetor mandou que ele fosse até o terreno atrás da paróquia, buscar lenha para a fogueira de São João. Lá foi catando os gravetos quando deu pela presença da aleijadinha, encostada ao pé do cajueiro, com a saia levantada mostrando a cheba prá ele. Agoniou-se e partiu com mais de mil, agarrou-se com ela e enfiou a manjuba priquito adentro. Ela deu um grito e saiu correndo de esquecer as moletas. Era uma vez, para nunca mais. Oxe, não botei nem o chapéu do vaqueiro e já saiu gritando a infeliz! Quando ele percebeu as moletas, ajuntou com a lenha e levou para queimar na fogueira. Estava triste e desconsolado. Risadagens deixaram-no mais chateado ainda. Sem ter o que fazer, rumou para o quartinho do depósito da empresa e no meio do caminho, seus olhos se abriram ao encontrar a presença de uma gaga que ele paquerava há tempos e deitou conversação mole pra cima dela. Era um ronronron dum lado, um quiquiqui, do outro; cacacacá, nenhum dos dois se entendiam. Ele perdeu a paciência, pegou a moça a pulso, agarrou pelos cabelos, ajoelhando-a e empurrando o caralho na boca da coitada. Era um humhumhum agoniante, um impado desastroso, ele segurando-a com força para que não escapulisse, em defesa ela deu-lhe uma dentada no pênis dele ver estrelas, ela deslizando, ele segurando com mais força ainda, deu-lhe uma rasteira, a bunda pra cima, arrancou-lhe a caçola e deu-lhe uma picada na perseguida dela da bicha gritar feito louca. Do rebuliço foi juntando gente, de terminar na maior carreira mata afora. A gaga foi hospitalizada, com fratura exposta do osso do mucumbú, rasgada de um lado a outro, ou seja, quando mijava, saía pelo cu; quando cagava, saía pela boceta; era um buraco só. Depois de trezentos e cinqüenta e dois pontos para colocar tudo no lugar, a danada deu de falar direito, toda gasguita, se elegendo, dez anos depois, na vereadora mais atuante dali. Foi o milagre da bimba fonoaudióloga do Mamão. Virou lenda no lugar. E foi mais ainda pela sua descomunal anomalia sexual, se já não tinha pela feiura, agora fêmea alguma ousava namorar, flertar, paquerar ou mesmo conversar com ele. Aí que começou o seu verdadeiro dilema. Enjeitado por todas, ficou sem alternativa, nem prostituta barata e mais afolosada que fosse, nem com salário dele todo, juntado meses e meses, ninguém se aventurava. Estava sempre em fuga, dos empregos, dos patrões, de tudo. Situação difícil mesmo, estava amargurado, não conseguia mais trabalhar, já variando, meio-dia em ponto, com uma fome das brutas, via galinha cocoricando, lôu! Visse porca ronronando, passou! Tinha até uma jumenta jeitosa que ficava no leirão dos Mendonatos, gente braba que possuía bichos de primeira, tudo de raça pura, e a jumenta era jeitosa, toda espadaúda, trucada. De tanto amorcegar as galinhas sequer notara que pela truculência do estupro matava as penosas, era uma mortandade no galinheiro de polícia e pistoleiro sair catando o responsável. A porca de seu Anastácio deu o maior rolo, a ponto de passar de raspão uns tiros de doze no toitiço, quase pega, tirando fino. Ôxe! Cochilasse ele papava: pata, gansa, coelha, cabrita e até gia, só surpreendido por intervenção de populares. Estava, então, vagando no meio do mormaço de mexer com seu juízo, quando viu no parapeito da janela, uma mulher de vida airosa, a formosura da mulher de Zé Corninho, com os seios expostos no decote da blusa. Aquilo revirou seus nervos, logo ele que estava com a morrinha, então, escondeu-se numa moita e ficou ali espreitando, quando ela, gaieira conhecidíssima, de vida dissoluta, perdida por rola, tinha mais hora de foda que urubu de voo, enrolou-se numa toalha felpuda, um batom encarnado nos beiços, uma franja deitada sobre os olhos, um rebolado frouxo, se encaminhou ao riacho Vertente, para tomar banho. Ele perseguiu a sestrosa, atravessou o mata-burro e se escondeu atrás do umbuzeiro. Lá entocado viu quando ela arriou a toalha, nuazinha em pelo, agitando os cabelos no meio das lufadas de vento que lhe cobriam, caminhando rumo ao riacho para um mergulho ruidoso naquelas águas. Mamão já de pau duro, pegou de uma folha de bananeira e encobriu o membro rijo. Na beira do riacho ele abriu conversa com Sandrosa: Ôi, Mamão, onde tu andava home? Trabaiando, trabaiando. É mermo home? Qué qui tu tais fazendo agora? Organizando as idéias, somente. É mermo home? Vem tomá banho comigo, vem, a água tá tão gostosa! Tô pensano nisso. Avia-te, home, vem-t’imbora, vem logo, a água tá tão boa! Vem ver? Tô pensano, ainda! Vem logo, abestalhado, deixa eu ver o que tu tem debaixo do calção, mostra! É mermo, Sandrosa? Bora, home, quero ver essa coisinha miudinha aí. Mamão abufelou-se, jogou pra lá a folha de bananeira e deixou à mostra a jibóia viva fazendo volume embaixo do calção. Vôte! Parece mai uma cobra gigante assim dibaixo do calção!! Vem-te, home, vem que eu quero ver de perto. Nem pestanejou, pulou dentro da água e foi logo se agarrando nela. Quando ela segurou forte o cacete dele, deu um gritinho de satisfação, se ajeitando toda, esfregando a cheba na mangueira de bomba de gasolina dele, se arrastando até a beirada e lá se arreganhando toda dele ficar impando que só bicho no cio: Vou enfiá o petrope devagarinho! Bota tudo, home frouxo, tais pensano o que? Atendendo seus pedidos, ele a colocou de quatro e arregaçou funda a manjuba no chibiu da manceba, uma chibatada que só o gogó deu uns dois litros e meios de viscosidade. No orgasmo dela, foi tanto ai ui ai uiuiuiuiui que ela liberou uns dez bilhões de milivolts, se acendendo toda que nem florescente no meio do vuque-vuque. Sem misericórdia empurrou tudo no furico dela. Depois arfantes, descansaram. Agora, gostoso, que você cumeu meu cu, vai tê de gozar na minha chiranha, tumbém, viu? Apenas com estas palavras ele já estava pronto para nova investida, enfiando até o topo, rasgando ela toda, da rôla bater na garganta, de quase engasgá-la. Ai que trepada boa! Ai que trepada boa! Um desmantelo era a fudelança deles, ela insaciável, ele a perigo, imaginem só. No meio do ato, eis que tudo leva ao desespero: Zé Corninho flagra os dois na safadeza. O corno que vira sua santa mulher amufanhada com sujeito tão torpe, tão desqualificado, ficou puto, coçou a testa, franziu o cenho, sentiu a gaia florindo no seu futuro, sacou de sua arma e largou uns tiros na pistola bala U, expulsando Mamão dali, na maior bronca, e ele não vacilou e logrou uma saída furtiva livrando-se da frege braba. De novo! O povo em peso já tava com pena do desgraçado, nada dava certo, mas todos mudavam de opinião, quando Cassaco lembrava de suas raízes, quando ele fora criado por uma mãe, que ninguém sabia mas que era adotiva, e que devido as escapulidas do marido dela, expulsou-lo de casa, ficando só com Mamão que por fim amasiou-se com ela, alegando, ainda, que matou-la no meio de uma foda. Amaldiçoado por todos, conseguia cobrir de indignação quem quisesse ajudá-lo. Mas da fuga do Zé Corninho, ficou ele escondido no mato, nu, esperando a noite chegar, sem dignidade e sem brio. Lá para as tantas, acocorado, sentiu uma cobra passar pelo rego da sua bunda: Êpa, qui é isso, qué me enrabar, é, condenada? Atrepou-se numa árvore mode não ser bolinado por bicho algum, nu daquele jeito. Depois de horas, vagou infeliz pela noite, sabia que estava nas proximidades do arruado da Usina Tosadinho, sem muxiba no moquém. Ali atrepado, ouviu o assobiu de alguém que vinha vindo. Escondeu-se mais, porém a pessoa notou a sua presença: Num adianta se escondê, tô lhe tirando faz tempo! Mamão olhou e era o professor Etelminiando, arre! Todo efeminado que desfilava faceiramente a procura dele depois que ouvira o barulho de sua mijada: Num adianta mermo, eu já vi! Tá precisando de alguma coisa, vamo lá em casa que eu te dou! Mais surpreso que temeroso, Mamão abaixou os olhos e não quis dirigir palavra alguma ao pirôbo. Mas o professor provocou Mamão dizendo do que possuía, comida, cama, roupa lavada, dinheiro quanto quisesse, casa para morar, tudo! Rejeitando a proposta, Mamão encolerizou-se: Qué qui eu bote esta rola no seu cú, é? Etelminiando admirou-se do volume que Mamão segurou e ficou gazela saltitante para que ele descesse, prometendo mundos e fundos, a lâmpada maravilhosa e um gênio bicha para realizar todos os seus desejos; festas e risos; luas e estrelas; imaginem, todos os seus sonhos para seguir o pederasta. Ele não tinha o que perder, estava na última lona, fodido e mal pago, de que adiantaria relutar? Orgulho? Ora se jamais possuíra vaidade alguma? Se a vida jamais prometera situação assim? Tentara, por fim, arranjar-se, esta era uma chance luminosa. Estava, portanto, de pança cheia, o ar refrigerado abanando os pentelhos do cu, de perna pra cima, todo pabo, liso que só, pediu dinheiro, dinheiro tinha; pediu mais, cédulas e mais cédulas; daí mandou o fresco ficar de quatro e rasgou o anel da veada com sua protuberância animalesca. A roseta da gazela levou um bocado de ponto para colocar as pregas no lugar, numa ruidosa risadagem estourada por todas as brenhas da região. “São Paulo é terra boa corre prata pelo chão, o professor tá enganchado na pomba do Mamão!” Endinheirado e só, Mamão aboletou-se na cadeira do papai e nem deu bola para a cantoria inventada pelos argutos enredeiros. Ficou a ruminar ideia alguma, tentando ligar pro telesexo com o fito de conseguir alguma garota de programa, mas não acertava girar o disco devido seus dedos roliços. Aporrinhando-se jogou o telefone que espatifou-se no chão. Foi até o frigobar ingeriu uma cerveja, duas, tres, quatro, variou, tomou mais, todas, cambaleou e ficou jogando prosa para as transeuntes que divisavam o portão da casa. Atravessasse quem fosse ele jogava uma lorota, resultado: tres cascudos, onze bofetes, treze mãozadas, oito murros, seis porretadas, dezenove esporros indignados, setenta impropérios na venta, nove foras, cinquenta e cinco xingamentos, vinte e nove vai tomar banho, sessenta e uma procura o teu lugar, dezoito vai te catar, cento e cinco não amola, cinco vai plantar bananeira, doze vai pra porra, catorze beliscadas, vinte e oito vôte e uma cadeirada de deixá-lo em nocaute por mais de hora. Zonzinho saiu catando uma corajosa que deixasse ele afogar o ganso até que, por fim, deparou-se com uma jumenta cobiçada, solitária no meio das brenhas. Conferiu e pensou capenga, flertou o animal, deu uma piscadela, ensaiou malabarismos sexuais, arrudiou-la num verdadeiro walkaround, passou a língua nos beiços e se ajeitou na garupa dela, levantando o rabo e metendo a língua ardorosamente. Da chupada a jumenta deu uma carreira, trotando doida, de ficar atrepada num pé de coco chamando por ele: Maaaaaaaaaaaaamão! Maaaaaaaaaaaaaaaamão! Então ele escalou a árvore, chegou no galho onde estava a abufelada, a bicha rinchou demorado, ajeitou-se para ser possuída, sacou do pepino gigante e meteu-lo na regada dela, realizando verdadeiras acrobacias sexuais. Foi um zoadeiro de acordar todo mundo. Lá para as tantas ele satisfeito desceu e foi dormir. No outro dia, ainda grogue das biritas, tomou outras tantas, mais lavado que no dia anterior, seviciou a jega de novo. E assim se foi, ao cabo de dois meses, já estava viciado, todo dia se atrelando na garupa da jumenta, na mesma hora, no mesmo local. Restabelecido do problema que fora acometido, o professor retornara ao lar e engalanara o rapaz de sua adoração. Aí chegou o dia de um casamento dum parente dele, mais precisamente um sobrinho do Etelminiando, numa cerimônia de parentes, amigos, aderentes, simpatizantes, escancha-parentes, padrinhos, coiteiros, alcoviteiras, beatas, merepeiros, presepeiros, fiéis, justos e fariseus, entupida de cabo a rabo. Mamão estava todo alinhado com um terno metido e costurado segundo as proporções do abestalhado, estava impecável, encaminhando-se para a igreja acompanhado do patriarcal professor. No meio da cerimônia, justo na hora do sim dos nubentes, que fale agora ou se cale para sempre, a jumenta invadira as dependências sagradas, com um violento vexame, afastara todo mundo, engolira cinco quilos de hóstias no maior berreiro, a platéia atônita fugindo pelo ladrão, em polvorosa, a revoltada saiu dando uns coices até chegar em Mamão, arreando a garupa num requebro estranho, como se sentando no ventre dele, rinchando que nem louca para ser possuída pelo amado que esquecera sua obrigação consuetudinária naquela noite. Foi um deus nos acuda. Hehém. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
O Direito das Primícias, ou Direito de Pernada, ou Direito da Primeira Noite, (jus primae noctis) foi uma instituição que vigorou na Idade Média e que, em alguns países, como a França, chegou até à Revolução de 89 (Beaumarchais, O Casamento de Fígaro), havendo notícia de que tenha persistido na Itália (Sicília) até meados do século passado. Era o direito do senhor feudal de desvirginar as noivas na noite de sua boda. No Brasil colonial, como lei não escrita, semelhante direito foi largamente usado pelos senhores de engenho e pelos grandes senhores de terra de um modo geral, ainda que de maneira menos ostensiva, mais hipócrita, o que, entretanto, não lhe tirava o seu caráter de violentação da integridade da criatura humana. Aqui, quase sempre, o senhor não esperava pela boda, servindo esta apenas para acobertar a violência já cometida. Embora a humanidade tenha evoluído a ponto de tornar inadmissível hoje a prática legal de tal costume, sabemos que outras formas do direito de violentar (quer seja essa violentação física, moral ou política) continuam em vigor em certos regimes ditos autoritários, servindo o Direito de Primícias de apropriada ilustração a uma legenda que pode falar de acontecimentos do nosso cotidiano. [...].
Trecho extraído da peça teatral As primícias: alegoria político-sexual em 7 quadros (Civilização Brasileira, 1978), do escritor e dramaturgo Dias Gomes (1922-1999), que também na peça teatral O santo inquérito (Civilização Brasileira, 1985), expressa na apresentação do texto: Parece fora de qualquer dúvida que Branca Dias, realmente, existiu e foi vítima da Inquisição. Segundo a lenda, bastante conhecida no nordeste, Branca foi queimada, como Joana d’Arc. [...] “era jovem de boniteza excepcional”, não terminou seus dias numa fogueira, bem poderia ter tido essa sorte, pois os autos-de-fé de meados do século XVIII, em Lisboa, registram a condenação de cerca de quarenta mulheres procedentes do Brasil, Aqui mesmo, na Bahia, em fins do século XVI, a octogenária Ana Roiz foi queimada simplesmente “por ter, doente, tresvariando, dito desatinos”. Alguém (um ancestral dos modernos dedos-duros) ouvira e denunciara. [...] A mim, como dramaturgo, o que interessa é que Branca existiu, foi perseguida e virou lenda. A verdade histórica, em si, no caso, é secundária; o que importa é a verdade humana e as ilações que dela possamos tirar. Se isto não aconteceu exatamente como aqui vai contado, podia ter acontecido, pois sucedeu com outras pessoas, nas mesmas circunstâncias, na mesma época e em outras épocas. E continua a acontecer. Muito embora a Santa Inquisição tenha hoje vários defensores, que procuram amenizar a imagem que dela fazemos e diminuir a responsabilidade da Igreja [...] a verdade é que as razões apresentadas em sua defesa são as mesmas de todos os opressores, quase sempre sinceramente convencidos de que seus fins justificam os meios. São as razões de Hitler, de Franco e de MacCarthy. [...]. Neste, prevalece o sentimento de salvar-se a qualquer preço. Mesmo ao preço da própria dignidade. É a voz que não se levanta diante de uma injustiça praticada contra outrem, que não protesta contra uma violência, se essa violência não o atinge diretamente, esquecido de que as violências contra a criatura humana geram, quase sempre, uma reação em cadeia que talvez não pare no nosso vizinho. Seu receio de comprometer-se leva-o a assistir à morte de Augusto sem um gesto ou uma palavra em sua defesa. Essa omissão o torna cúmplice, como cúmplices são todos aqueles que se omitem por egoísmo ou covardia, podendo fazer valer a sua voz. Quem cala, de fato, colabora. [...]. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista russa Janna Shulrufer. 
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AGENDA
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RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora, produtora musical e empresária Maria Rita: Samba meu, Segundo, O samba em mim & Ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.


segunda-feira, outubro 19, 2015

RUAS DE MACEIÓ, VINICIUS, VARGAS, MARSALIS, HAYWARD, CAMBIASO, LATOUR, A MULHER & FOLCLORE AFRICANO.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? PELAS RUAS DE MACEIÓ – Versos das ruas que andejo voo anseios oh, do que sou lua e sol no meio do meio dia. Os pés no dia, a boca na noite; e todos os teus açoites pra bordejar leniente versejando a emular teus entornos, instâncias, reentrâncias, entreabrires, gotejares, referências e findares. Versos nas ruas em flor das tuas curvas e veios exsudares, aia tumescente, ressoo lampejos até que fluas dos teus cotornos indecorosos até pousar na via que vai dar nas paragens do que sou. Quem me acompanha? Foi ontem, quase meia noite. Onde é que estou? Quanto presente e eu só passado. Onde é que o futuro está senão em mim? O fruto e a semente, sou tronco. Sou, por enquanto, tronco. À margem de mim, meu próprio eu. Um diálogo de mim pra mim mesmo, eu. Eu? Onde estou senão na possibilidade de estar? Estar, não estou; nem sou. Apenas voo. Quem vai? Eu voo. Onde estás, não vejo. Sinto. Quanto mais sou eu, sou todos: a mão na batuta, apenas um gesto de quem vive. Afinal, sou Deus. E não tenho nada. Ou tudo. À margem de tudo isso, apenas vivo. Em nome do meu nome, é só o que tenho. Um nome uma filiação. O nome das coisas não diz do que é a coisa, decepção enorme, prefiro o desdito, o não dizer. A minha loucura não tem parâmetro, como a dar valor ao inútil. Sou inútil na dimensão do ridículo. De resto, nada mais. Nem sei mais. Se há choros, gritos ou riso, sou apenas meus gritos, meus choros, meu riso. O meu nome é nada do que sou, sou inominável, além da fala do dito, do não-dito, do que podia dizer. Longe de mim tudo flagra; em mim tudo vinga. Foi ontem o dia do amanhã. Eu apenas passo, vivo. Quando fui na casa de mãe, eu dizia: - Maínha, é possível? – Tudo é possível, meu filho. E me beijou os olhos como quem faz do bezerro desmamado. De dia sou sombra que me segue e carrega alhures; de noite sou réstia perdida na sombra da escuridão. O que eu dizia de mim na boca dos outros. Eu voo no salto mortal, a nuca no golpe, o gogó na quina. E a gente vai abrir o cofre, quem tem coragem? Injustiça nunca mais! E não ter que pisar na barata pra se dizer humanista em detrimento do que não seja simpático no asco mais que indesejável. E não ter a morte como castigo mais que inexorável, quando nos toma dos olhos o poder de saber de tudo ao alcance da mão. E não ter que fazer nada em nome dos outros que não têm nada a ver com o que se sabe e nem quer saber quando tudo é vivo além da sensopercepção. A gente pode tratar as pessoas como quem cuida das plantas no jardim. A gente pode abraçar as pessoas como quem vive desfrutando o prazer das coisas de seu apartamento. A gente pode olhar pras pessoas como quem se emociona com a programação da tv. A gente pode dizer tudo que pensa sem que precise agradar ou dissimular qualquer afeto ou se esquivar do preconceito ou exprobrar a paranoia do umbigo carente que quer ser dono do mundo e de todas as coisas. A gente pode sorrir sem que precise da permissão do adeus pra nos fustigar a solidão. A gente pode chorar sem que tenha de abusar disso ou daquilo, nem que veja a justiça injusta dos homens a nos humilhar negando acesso a uma vida nova. A gente pode sentir que está por perto quando os pássaros voam e levam a sorte que nunca tivemos para algum lugar em que o longe está tão perto e dentro do coração. A gente pode gozar o prazer de ter todo dia a chama viva de encantar aquele ou aquela que nos inspira a alma no calor de todos os braços abertos pro abraço de todas as emoções e superando todos os limites que o tempo e o espaço nos impõem. A gente pode ser feliz apesar de tudo porque nosso é o poder de amar, mesmo que seja tardia a hora de ver que somos nós mesmos nossos carrascos e que nos tornamos vítimas de ontem por não ter que ver nenhum futuro. A gente pode ser melhor. A gente pode sonhar um mundo melhor que este! É preciso respeitar a vida! Não somos o obstáculo refém do primeiro peteleco que remove o óbice para seguirmos adiante porque ali está a vida e ela é plena em toda pulsação. É preciso dizer bem alto que a vida é tudo o que temos neste plano de compreensão. E nada é mais importante que o olhar fixo a nos mirar no mais ínfimo momento de nossa existência. Viva e seja feliz, é tudo o que podemos ser na clausura do momento, quer seja na privação da desgraça, quer seja no centro da guerra de todos os interesses egoísticos. A vida apenas, nada mais. E vamos aprumar a conversa aqui e aqui

 Imagem: Magdalena, do pintor italiano Luca Cambiaso (1527-1585)


Curtindo o álbum Hot House Flowers (Columbia, 1984), do trompetista e compositor norte-americano Wynton Marsalis.

A MULHER CAMPEÃ ERÓTICA – No livro Tantra: o culto da feminilidade – outra visão da vida e do sexo (Summus, 1994), do escritor e professor de yoga belga André Van Lysebeth (10 de outubro de 1919 - 28 de janeiro de 2004), destaco o trecho da parte denominada A mulher campeão erótica: [...] Qualquer mulher frígida é uma atleta sexual que se desconhece, geralmente sufocada pela moral patriarcal, tão repressiva quanto hipócrita. [...] Não há mulheres frígidas, mas apenas homens frigorificantes; os inábeis e, especialmente, os ejaculadores precoce. [...] a mulher pode ser sempre excitada. Fisicamente, ela pode fazer amor todos os dias, durante toda sua vida adulta, mesmo quando está grávida. Sua vida sexual recomeça poucos dias após o parto. Ela pode fazer amor com a frequência que quiser. É extraordinário. Nenhuma femea, de nenhuma espécie sexuada, copula nesse ritmo [...] O sexo lhe proporciona uma intensa voluptuosidade – bem mais do que ao homem -, pois a natureza proveu-a de um clitóris, feixe nervoso ultra-sensível, exclusivamente destinado a eros. Além disso, quatro ou cinco redes venosas muito densas convergem para os músculos genitais e, no amor, esses agregados sensíveis distinguem seu desempenho erótico do do homem. Quando a mulher está excitada, o sangue aflui para os órgãos genitais e para toda a bacia. Então, os feixes nervosos se abrem, os músculos que envolvem o clitóris, a entrada da vagina e o ânus intumescem sob o afluxo de sangue quente. O volume dos tecidos esponjosos que cercam a entrada da vagina triplica, o dos lábios da vulva dobra, e todos os músculos da região genital se enchem de sangue. [...] A princípio, é a parede do útero que palpita, seguida dos músculos da primeira terça parte da vagina, do esfíncter anal, do orifício vaginal e do clitóris. A cada meio segundo, uma nova contração leva sangue da região pélvica para o resto do corpo. O orgasmo é isso. [...] Que o sexo faça parte de nossa espécie não é, portanto, fornicação, depravação, nem luxúria, mas a marca do destino humano. Nossa espécie está destinada ao erotismo, jogo sutil em que o sexo, dissociado, liberto da pulsão procriativa animal, abre para o casal humano o acesso ao espiritual por meio da união total entre dois seres no extase amoroso. Entre os animais, a fêmea se apodera do esperma para ser fecundada, sem mais. Além do gozo imediato, ela não procura fusão alguma num outro plano, como, por exemplo, o da meditação a dois, que se abre para o cósmico entre os seres humanos. [...] toda mulher, por mais comum que seja, encarna a Deusa, é a Deusa, a Mulher absoluta, a Mãe cósmica [...]. Veja mais aqui e aqui.

EMME – No livro African folktales (Schockem, 1983), de Paul Radir, encontro a história de Emme: Emme era uma linda menina. Quando ainda era criança, um homem chamado Akpan quis casar-se com ela, ao chegar o tempo certo. Assim, ele trouxe diversos presentes para os pais de Emnme, como era o costume, e o casamento ficou acertado. Sete anos mais tarde, Emme ficou adulta, e a data do casamento foi marcada. O pai da jovem deu muitos presentes à filha, incluindo uma escrava da mesma idade que a noiva, que os próprios pais venderam como serva. Vestida com belos trajes para a cerimonia, Emme partiu rumo á aldeia do noive, acompanha por sua irmã mais nova e pela escrava. Fazia muito calor, o caminho era longo, empoeirado; por isso, quando chegou a uma fonte perto da aldeia de Akpan, Emme parou para descansar. A escrava sabia que naquela nascente morava um espirito que capturava qualquer pessoa que entrasse na água. Emme e a irmã não sabiam disso; então a escfrava teve uma ideia maldosa e disse: “Senhora, por que não entra na água para se banhar? A nascente é fria e assim poderá refrescar-se antes de chegar à casa de seu marido”. Emme tirou as roupas e entrou na fonte. De repente, a escrava epurrou-a para o fundo, onde o espírito da água agarrou-a. a irmã mais nova de Emme gritou aterrotizada, mas a escrava deu-lhe um tapa. “Silêncio! Daqui em diante eu serei a senhora. Casarei com Akpan em lugar de sua irmã e, se você disser uma palavra a alguém, eu a matarei!” A serva colocou as roupas de Emme, forçou a menininha a carrgar tudo, como se fosse escrava, e logo elas chegaram à aldeia de Akpan. Ele as aguardava com grande expectativa; no entanto, ao ver aquela mulher feia sentiu-se desapontado e intrigado. Emme fora linda quando garota, e ele estranhava agora sua aparência tão grosseira, contudo casou-se com ela como estava planejado. A escrava tonou-se a dona da casa e transformou a vida da irmã de Emme num inferno: mandava que a menina realizasse as piores tarefas, deixa-a passar muita fome, espancava e queimava. [...] Certo dia a falsa esposa mandou a menina buscar água na fonte em que Emme havia desaparecido. A irmã foi até lá, encheu o jarro com água, sentiu que estava pesado demais para carrega-lo e começou a chorar, temendo a surra que levaria [...] A superfície da água abriu-se, e Emme surgiu, vinda das profundezas. Abraçou a irmãzinha, que lhe disse ser surrada sistemanticamente pela escrava. A pobre menina implorou a fim de ir com Emme para o fundo das águas. “Tenha paciência”, disse Emme, “A justiça certamente será feita um dia. Por enquanto, porém, deixe-me ajuda-la com sua carga”. Emme levantou a vasilha de água, desaparecendo em seguida na nascente. [...] No entanto, certa manhã Emme não apareceu. Um caçador da aldeia estava escondido nas imediações, encurralando a caça, e o espíroto da água prevenira Emme para que não viesse à tona, com medo de que o caçador a visse. O choro da menininha tocou tão profundamente Emme, que o espirito da água permitiu-lhe vbir abraçar a irmã. Ao surgir da água para abraçar a irmã, o caçador viu e ficou atônito com a sua beleza. “Quem poderia ser?”, perguntava-se ele. “A garotinha chamou-a de Emme, mas esse é o nome da esposa de Akpan!”. O caçador apressou-se em regressar e contar tudo a Akpan. No dia seguinte, os dois homens esconderam-se perto do laguinho e esperaram. A menina chegou, encheu o jarro com a água e então chamou em voz alta: “Emme, estou aqui. Onde está você, minha querida irmã?”. Emme veio de dentro da água, e Akpan imediatamente a reconheceu. “Essa é a verdadeira Emme! A mulher com quem me casei é uma impostora! Emme deve ter sido capturada pelo espírito da água, sua escrava então roubou-lhe o lugar”. [...] Emme então disse à irmã que fosse ter com a falsa esposa, repreendesse-a e voltasse correndo para a casa da anciã, onde todos estariam esperando por ela. A menininha dirigiu-se até a falsa senhora e bradou: “Você não é Emme. Você é só a escrava de minha irmã! Você é má e será castigada!”. A mulher escrava pegou um pedaço de pau e seguiu a menina até a casa da velha. Quando irrompeu porta adentro, deparou com Emme e Akpan. Este e seu companheiro agarraram a impostora, despiaram-na de seus finos trajes e tornaram-na escrava outra vez. Dali em diante, Emme tratou a falsa patroa da mesma maneira como ela fizera com sua irmã. Emme obrigava a escrava a fazer todo o serviço pesado, espancava-a sem piedade e forçava-a a usar os dedos para acender o fogo. Finalmente, Emme amaroru a malvada a uma árvore até que morresse de fome. A aldeia toda celebrou o retornou de Emme com uma grande festa. Ela e Akpan casaram-se como planejado e viveram felizes pelo restos de seus dias. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

RECEITA DE MULHER & BALADA DAS DUAS MOCINHAS DE BOTAFOGO – Na Antologia poética (José Olympio, 1984), do poeta, compositor e diplomata Vinicius de Moraes (1913-1980), destaco inicialmente, a Balada das duas mocinhas de Botafogo: Eram duas menininhas / Filhas de boa família:/ Uma chamada Marina/ A outra chamada Marília. / Os dezoito da primeira / Eram brejeiros e finos / Os vinte da irmã cabiam / Numa mulher pequenina./ Sem terem nada de feias / Não chegavam a ser bonitas / Mas eram meninas-moças / De pele fresca e macia. / O nome ilustre que tinham / De um pai desaparecido / Nelas deixara a evidência / De tempos mais bem vividos. / A mãe pertencia à classe / Das largadas de marido / Seus oito lustros de vida / Davam a impressão de mais cinco. / Sofria muito de asma / E da desgraça das filhas / Que, posto boas meninas / Eram tão desprotegidas / E por total abandono / Davam mais do que galinhas. / Casa de porta e janela / Era a sua moradia / E dentro da casa aquela / Mãe pobre e melancolia. / Quando à noite as menininhas / Se aprontavam pra sair / A loba materna uivava / Suas torpes profecias. / De fato deve ser triste / Ter duas filhas assim / Que nada tendo a ofertar / Em troca de uma saída / Dão tudo o que têm aos homens: / A mão, o sexo, o ouvido / E até mesmo, quando instadas / Outras flores do organismo. / Foi assim que se espalhou / A fama das menininhas / Através do que esse disse / E do que aquele diria. / Quando a um grupo de rapazes / A noite não era madrinha / E a caça de mulher grátis / Resultava-lhes maninha / Um deles qualquer lembrava / De Marília e de Marina / E um telefone soava / De um constante toque cínico / No útero de uma mãe / E suas duas filhinhas. / Oh, vida torva e mesquinha / A de Marília e Marina / Vida de porta e janela / Sem amor e sem comida / Vida de arroz requentado / E média com pão dormido / Vida de sola furada / E cotovelo puído / Com seios moços no corpo / E na mente sonhos idos! / Marília perdera o seu / Nos dedos de um caixeirinho / Que o que dava em coca-cola / Cobrava em rude carinho. / Com quatorze apenas feitos / Marina não era mais virgem / Abrira os prados do ventre / A um treinador pervertido. / Embora as lutas do sexo / Não deixem marcas visíveis / Tirante as flores lilases / Do sadismo e da sevícia / Às vezes deixam no amplexo / Uma grande náusea íntima / E transformam o que é de gosto / Num desgosto incoercível. / E era esse bem o caso / De Marina e de Marília / Quando sozinhas em casa / Não tinham com quem sair. / Ficavam olhando paradas / As paredes carcomidas / Mascando bolas de chicles / Bebendo água de moringa. / Que abismos de desconsolo / Ante seus olhos se abriam / Ao ouvirem a asma materna / Silvar no quarto vizinho! / Os monstros da solidão / Uivavam no seu vazio / E elas então se abraçavam / Se beijavam e se mordiam / Imitando coisas vistas / Coisas vistas e vividas / Enchendo as frondes da noite / De pipilares tardios. / Ah, se o sêmem de um minuto / Fecundasse as menininhas / E nelas crescessem ventres / Mais do que a tristeza íntima! / Talvez de novo o mistério / Morasse em seus olhos findos / E nos seus lábios inconhos / Enflorescessem sorrisos. / Talvez a face dos homens / Se fizesse, de maligna / Na doce máscara pensa / Do seu sonho de meninas! / Mas tal não fosse o destino / De Marília e de Marina. / Um dia, que a noite trouxe / Coberto de cinzas frias / Como sempre acontecia / Quando achavam-se sozinhas / No velho sofá da sala / Brincaram-se as menininhas. / Depois se olharam nos olhos / Nos seus pobres olhos findos / Marina apagou a luz / Deram-se as mãos, foram indo / Pela rua transversal / Cheia de negros baldios. / Às vezes pela calçada / Brincavam de amarelinha / Como faziam no tempo / Da casa dos tempos idos. / Diante do cemitério / Já nada mais se diziam. / Vinha um bonde a nove-pontos... / Marina puxou Marília / E diante do semovente / Crescendo em luzes aflitas / Num desesperado abraço / Postaram-se as menininhas. / Foi só um grito e o ruído / Da freada sobre os trilhos / E por toda parte o sangue / De Marília e de Marina. Também, o poema Receita de Mulher: As muito feias que me perdoem / Mas beleza é fundamental. É preciso / Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture / Em tudo isso (ou então / Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República [Popular Chinesa). / Não há meio-termo possível. É preciso / Qu tudo isso seja belo. É preciso que súbito / Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto / Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da [aurora. / É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche / No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso / Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas / Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços / Alguma coisa além da carne: que se os toque / Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos / Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro / Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e / Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem / Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então / Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca / Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência. / É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos / Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas / No enlaçar de uma cintura semovente. / Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras / É como um rio sem pontes. Indispensável / Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida / A mulher se alteie em cálice, e que seus seios / Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca / E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas. / Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral / Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal! / Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas / E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem / No entanto, sensível à carícia em sentido contrário. / É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio / Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!) / Preferíveis sem dúvida os pescoços longos / De forma que a cabeça dê por vezes a impressão / De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre / Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos / Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face / Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior / A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras / Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes / E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e / Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão / Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta / Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros. / Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos / Ao abri-los ela não mais estará presente / Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá / E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber / O fel da dúvida. Oh, sobretudo / Que ele não perca nunca, não importa em que mundo / Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade / De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma / Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre / O impossível perfume; e destile sempre / O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto / Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina / Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição / Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável. Veja mais aqui, aqui e aqui.
 
VARGAS – Na peça teatral Vargas ou Dr. Getúlio: sua vida e sua glória (Civilização Brasileira, 1983) do escritor e dramaturgo Dias Gomes (1922-1999) e do poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta maranhense Ferreira Gullar, destaco o trecho inicial: A ação transcorre toda ela, na quadra de uma escola de samba. É um grande pátio, onde não há móveis, utensílios de espécie alguma. A quadra está cheia de gente. Fantasiados uns, outros não. São elementos da escola. Todos estão de costas para a plateia e assim entoam pela primeira vez o samba-eneredo, em boca chiusa. Simpatia volta-se e se dirige à plateia. É o presidente da escola. Um tipo sorridente, comunicativo, envolvente. Quando não está desfilando de Getúlio, é mais exuberante de gestos, mais largado no andar. Seu apelido define sua característica fundamental de sua personalidade: a simpatia algo malandra e irresistível. SIMPATIA – Boa noite, minha gente, desculpe se antes do samba venho deitar falação. Mas pra coisa ter sentido, ficar tudo esclarecido, faz falta uma explicação. É preciso esclarecer – para evitar confusão, pra ninguém dizer que viu o que não viu ou quis ver – que é apenas um ensaio o que aqui vamos fazer. Só um ensaio do enredo com que vamos desfilar no carnaval deste ano. Isso se Deus permitir e se a policia deixar, e a gente sair do cano em que acabamos de entrar. Só uma parte das alas foi chamada a ensaiar. É o pessoal responsável pelo desfile na pista. Isto é somente uma amostra pra convidado e turista. [...] E o enredo é esse mesmo – ninguém vai modificar o que já está na História – e pra quem ainda não sabe se chama: Dr. Getulio, sua vida e sua glória. O destaque do Getúlio – me perdoem a imodéstia – é feito aqui pelo degas. Sou presidente da escola, exigi a regalia: afinal, somos colegas... no cargo, na sorte não, pois ele, no fim, se mata, com um tiro no coração [...] Tem ainda o Bejo Vargas e o Gregório Fortunato que era o chefe da guarda pessoal do presidente, a filha deste, Alzirinha, que é o destaque principal, é coisa sem discussão: vai ser feita pela minha protegida, a Marlene, cque como atriz de teatro é uma revelação. Até Isabel Ribeiro perde dela de montão! E antes de terminar quero aqui apresentar o autor do nosso enredo. Ele mais a comissão estudaram, pesquisaram, leram livro de dar medo. (AUTOR cumprimenta a plateia). É o nosso dramaturgo, é o nosso Chakispir, e nisso não vai deboche, se não tem nome em letreiro tem mais público decerto que muito autor brasileiro. Eu você com ele que é quem vai comandar, e vou pro meuy lugar, a todos muito obrigado (SAI). Veja mais aqui, aqui e aqui.

BACK STREET – O filme Back Street (1961), dirigido por David Miller, é baseado no romance homônimo da escritora estadunidense Fannie Husrt (1889-1968), que teve duas versões anteriores, em 1932, dirigido por John M. Stal e, a segunda, de 1941, dirgida por Robert Stevenson. A obra conta a história de uma mulher que deseja se tornar uma figurinista famosa, até que um dia ela conhece um jovem que é dono de uma cadeia de lojas de departamentos, e os dois se apaixonam. Ela descobre que ele é casado e começam seus problemas, já que a esposa dele, não tem pretensão de lhe dar o divórcio. Ele decide se afastar dele, mas o casal volta a se encontrar quando ela parte em viagem e mesmo sabendo das dificuldades, ela resolve aceitar ser a amante dele. O destaque do filme vai para a sempre bela atriz estadunidense Susan Hayward (1917-1875). Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do pintor do Romantismo francês Henri Fantin-Latour (1836-1904)


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Crônica de Amor, a partir das 21 horas (horário de verão), com apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...