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terça-feira, setembro 10, 2019

FERREIRA GULLAR, EFLAND, ÉMILIE DU CHÂTELET, GILDA DE ABREU, NORMAN LINDSAY & AMIGO INVISÍVEL


O AMIGO INVISÍVEL - Jatobinha era amigo de Dedo, carne e unha. Vizinhos, desde meninos: nasceram quase na mesma hora, festa para compadres. Cresceram juntos: farinha do mesmo saco. Talho no dedo, pacto de sangue: O que é meu é seu e vice-versa. Mormente, um tirou o cabresto do outro, cavalo-mago mútuo. Abusaram de galinhas, cachorros, bezerros, potros, afora uma jumenta que pastava nas imediações, e outras coisas inimagináveis, como bichos, buracos, troncos de árvores, canos de escape, orifícios inacreditáveis. Até as piniqueiras, tudo dividido, useiros e vezeiros: impar ou par, só para ver quem comia pão-com-banha. Tudo acertado, satisfeitos. Um dia lá, Jatobinha se apaixona por Dodinha e a primeira quebra de contrato. Dedo nem quis saber: travou-se nela como sua posse – Ô bicha boa! Fungado, umbigada, empurrou até o talo, ais e uis. O flagra se deu numa tarde com as cores escuras do outono, prévia do inverno. Empurra-empurra, bofetes, safanões. Na hora da briga, um raio! O instante de desgraça: Dedo, além de fulminado pelo relâmpago, se esborracha todo numa coluna que desmorona sobre si. Um deus nos acuda! Maior corre-corre. O velório, a maior tristeza. O fedor, já estava em decomposição. Turvou o céu. Noite sem lua, nuvens ameaçadoras. Ao deitar-se para dormir, Jatobinha aguçou as ouças: alguém chamava por ele. A voz do defunto. Eis que Dedo reaparece cobrando o ajustado. A aparição, tamanha balbúrdia. Arquejante, estava transtornado pelo infortúnio: inimigo insidioso na teia do destino. Suspeitava de vingança. Agora era ele com um pé na cova, pensava. O fantasma exigia a nução. Jatobinha com o coração na mão, enquanto o abantesma cínico, debochado, conspirava: Vamos lá, tudo certo? Uma estranha criatura insólita, ele morria de medo. A conversa foi longa, demoradamente. Obstinado, o avejão dissuadia a manutenção da aliança, sempre persuasivo. Concordou soturno, derreado, pronto, tudo certo. Foi isso e Dedo dissipou-se. Ufa! Estava livre. No outro dia, um susto: o amigo deitado ao lado dele na cama. Vôte! Corra não, estamos acertados. E a conversa voltou. Aos poucos, foi se acostumando com aquela presença sórdida. Ao cabo de dias, deu confiança e aprendeu com o amigo fantasmagórico a usar da eloquência aos salamaleques, todo arrojado a expugnar fortalezas obstaculares, a lograr em jogos e apostas, auferir ganhos, engalobar os outros, livrando-se sempre da carestia, banditismos e penitências. Todos: O cara acertava tudo, meu! Enriqueceu, assim. Afortunados, já conversavam abertamente. Alguns achavam: Será que está pinel? Onde já se viu! Esse cara endoidou depois da morte do amigo. Era o preço exorbitante que pagava, ninguém via Dedo, só ele. Eis que, para embananar tudo, aparece Dodinha toda serelepe, os dois se estranharam como da vez anterior: É minha. Nada, é nossa. Aí, não. Aí, sim. Para lá! Nada disso! E se atracaram. Ela atônita, não sabia do invisível. Os presentes: Oxe! Como é que o cara luta sozinho, hem? Da pugna inenarrável, Jatobinha fenecia até evaporar de vez. Ela fugiu dali, baixou hospício. Diziam: Acho que o defunto veio buscá-lo. Será? Ninguém sabia, ninguém viu, só aconteceu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O esforço para reduzir a arte a uns poucos elementos e princípios aplicáveis a toda arte de qualquer lugar, é exemplo modernista tipicamente ocidental. [...]. Trecho extraído do estudo Cultura, sociedade, arte e educação num mundo pós-moderno (Perspectiva, 2008), do professor estradunidense Arthur Efland (1942-2009), que noutro estudo, A history of art education. intellectual and social currents in teaching visual arts (Teachers College Press, 1990), expressou que: [...] As maneiras pelas quais as artes visuais são ensinadas hoje foram condicionadas pelas crenças e valores relativos à arte mantidos por aqueles que defendiam seu ensino no passado. [...] Somente depois de estudarmos o ensino da arte em épocas anteriores, podemos entender seu papel na educação hoje. [...]. E em outro ensaio, Problems confronting visual culture (Art Education, 2005), arremata que: [...] O movimento em direção aos estudos culturais visuais é um passo na direção certa, identificando-o mais de perto com toda a vida social. Mas é também um movimento que corre o risco de ficar cego por uma espécie de miopia [...]. Veja mais aqui e aqui.

ALGUÉM FALOU: [...] Nada temos a fazer no mundo a não ser nos proporcionar sensações e sentimentos agradáveis. [...] Creio que, para ser feliz, é preciso desfazer-se dos preconceitos, ser virtuoso, ter gostos e paixões, gozar de boa saúde e ser suscetível de ilusões, pois devemos a maioria de nossos prazeres à ilusão, e infeliz de quem a perde. Acredito também, para sermos felizes, temos que nos contentar com a nossa situação, preocupando-nos mais com torná-la feliz do que com mudá-la. Um dos segredos da felicidade é moderar os desejos e amar as coisas que se possui. [...]. Trechos extraídos da obra Discurso sobre a felicidade (Martins, 2002), da física, filósofa e matemática francesa Émilie du Châtelet (1706-1749). Veja mais aqui.

O CINEMA DE GILDA DE ABREU
GILDA DE ABREU – A cineasta, atriz, cantora, escritora e radialista Gilda de Abreu (1904-1979), formou-se em canto lítico pelo Instituto Nacional de Música, em 1927, no Rio de Janeiro. Estreou na opereta A canção brasileira, em 1933, protagonizando, em seguida, várias obras de Viriato Corrêa. Casou-se com Vicente Celestino, estreando no cinema em 1936, com Bonequinha de Seda, dirigido por Oduvaldo Vianna. Durante os anos 1930, atuou no teatro, com Mizú, de Oduvaldo Vianna, passando a escrever o texto Olhos de veludo, em parceria com Luiz Iglesias e musicada por Vicente Celestino. A partir dos anos 1940, ela participa de radionovelas, escrevendo várias delas, como Mestiça, Aleluia, A cigana, Pinguinho de gente, entre outras. Dirigiu O ébrio (1946), seguindo-se Coração Materno (1951) e Pinguinho de gente (1949). Escreveu diversas peças teatrais, como O anfitrião ou Júpiter e Alemena (1947), Mestiça (1944), A patativa (1950) e a infantil A bonequinha de piche. Escreveu vários livros, entre eles Mestiça (Minerva, 1966), Minha vida com Vicente Celestino (2003), Coração Materno (Cupolo), Arca de Noé (Cupolo, 2006), entre outros. Lançou o curta metragem Canção de amor, homenagem ao marido falecido, em 1977; e fundou o Centro Cultural Artístico Nícia Silva, em homenagem a sua mãe. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor, escritor, gravador, artista, tradutor e cartunista australiano Norman Lindsay (1879-1969). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A OBRA DE FERREIRA GULLAR
A arte existe porque a vida não basta.
A obra do premiado e aplaudidíssimo poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta maranhense Ferreira Gullar (1930 – 2016) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

sexta-feira, janeiro 18, 2019

FERREIRA GULLAR, CLAIRE STREETART, CLÓVIS DE BARROS FILHO, AVANI AZEVEDO & O PAPA-FIGO DE ALAGOINHANDUBA


O PAPA-FIGO DE ALAGOINHANDUBA - De primeira apareceu numa certa manhã ensolarada, no meio de um matagal denso nos arredores da cidade, duas crianças mortas. E com um detalhe: parecia que haviam chupado o sangue e arrancado o fígado delas. Quem seria capaz de tal malvadeza? Quem os pais? Ninguém sabia. Que coisa! Será de gente daqui mesmo ou doutro canto? O doutor Teje-Preso logo anunciou em cima da bucha da sua ruindade: Quem quer que seja, vai feder nas barras da justiça. E ao anoitecer, lá estava ele com uma cambada de jagunço até de um olho so, tudo armado até os dentes para caçar o responsável daquele crime. Uma semana de vigilância e nenhum rastro do criminoso. Um mês depois, já quase esquecido o incidente, novamente duas crianças foram encontradas nas mesmas condições, só que agora no meio de um canavial. E só pega de duas é? Esse negócio está cheirando mal. Passou a ter vigilância por tempo indeterminado até se pegar o salafrário. Um mês certinho depois, a cidade amanhecia com uma nova bomba: desta vez, três crianças encontradas nas pedrarias do rio, memo modus operandi. Isso vai feder! Ah, se vai! Todo mundo já sabia que a fúria de Teje-Preso estava nas alturas, cagando raio a torto e a direito. Formou batalhão diário para caçar seja por onde fosse, brenhas, chãs, vielas, rodagens, veredas, em todo o território municipal. Agora a gente pega esse tarzinho. O primeiro suspeito foi um padre estrangeiro que era peludo da cabeça aos pés: tinha pelos no pau da venta, pela testa, uma tufa enorme na caixa dos peitos, até pelas mãos e pés. É ele. Esse padre havia se oferecido como voluntário para a Igreja Bidiônica e lá prestava os seus serviços. Um dia lá, andando de madrugada pelas ruas, foi atocaiado e preso em flagrante. Enquadraram o homem embaixo da maior pisa, dele ficar molinho na cela por dias. Não tivesse ficado sob a máxima vigilância cada segundo dos dias e das noites, estaria lascado. Ainda estava desacordado da sova, quando receberam a notícia de quatro crianças encontradas mortas numa moita atrás dum morro distante. E da mesma forma dos anteriores. Foi ele não, o bicho ainda está solto. Tiraram o vitimado às pressas pra emergência, trataram dele com tudo do bom e do melhor e arregaçaram as mangas e as catracas do juízo. A investigação cresceu, corria solta a boataria de tráfico de crianças e aquelas deveria ser o refugo. É não, meu! Ora se não é! E saíram caçando pedófilos, padrinhos e achegados. Na tuia, todo mundo era suspeito. Depois de muita discussão, tiraram a primeira conclusão: o celerado só atuava em noite de lua cheia. Mas num é mesmo? Rapaz, será lobisomem? Vampiro? Esse bicho vai pagar caro. Deve ser um papa-figo! A gente tem que pegar esse fidapeste! E se danaram a ficar de prontidão toda noite de lua cheia. Lá longe um uivado de arrepiar a coragem, frio na barriga e os cabelos em pé. É ele. Quem vai? Cadê coragem! Mesmo assim, saíram cavoucando tudo. Só de manhãzinha lá estava: duas criancinhas. Desse jeito o bicho vai comer os anjinhos todos da cidade. Entrava mês, saía semestre e o monstro escapulindo. Foi bem dois anos ou mais de caça, contam. Mas malassombro também vacila e cercaram um que estava cheirando cinza no mato. Pegamos o desgraçado! É hoje ou nunca! Quando atalharam que seguraram o monstro, arriaram a lenha, dele impar quase mortinho da silva. Foi aí o engano: ouviu-se uma barulhada dentro do mato de passar por eles na maior carreira. Quem tem boa pontaria? Oxe, só se ouviu o pipoco. A coisa caiu, mas levantou-se ligeiro. Dois, três, muitos disparos, a criatura já era. Arrodearam no escuro e meteram bala na besta. Arrastaram-no mato afora até chegar numa rodagem quase iluminada. Num dá pra ver direito! Bota luz! Era mesmo um papa-figo crivado de balas. Vamos levar pra delegacia pro juiz ver que pegamos esse desgraçado. Foram avisá-lo do feito. Em casa, nem sinal dele. Lá pras tantas, viram aquilo se mexendo, se modificando. Lá estava ele peludo, inchado, unhas enormes, orelhas e dentes de vampiro. Era ele. Quando deram fé, ninguém acreditou: era o juiz Teje-Preso. Como é? Isso mesmo. Não acredito! Verdade. Num brinca! Só vendo. E foi. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Da agenda privada todos falam. A forma das intervenções varia, mas os temas que dizem respeito à vida privada de cada um são tratados em circuitos de relações mais ou menos abrangentes. Por isso a questão a que nos referimos diz respeito a temas da agenda pública. Essa limitação temática torna os meios de comunicação fator decisivo na construção e imposição da opinião dominante. Se, como vimos, são os meios que oferecem o menu temático comum, são também os que têm a prerrogativa de indicar qual o enfoque a ser dado a cada um desses temas. No entanto, mesmo na discussão de assuntos políticos, por exemplo, outros fatores, além da opinião da mídia, influenciam uma eventual manifestação pública. A competência específica para abordar o tem é um deles. [...] Para o senso comum e alguns comunicólogos mediáticos, a mídia socializa o conhecimento. O fato de a recepção, sobretudo televisiva, se dar de forma intensa em todos os niveis sociais serve de argumento para que se acredite na tese homogeneizadora da veiculação informativa. No entanto, as pesquisas realizadas sobre os efeitos da recepção informativa mostram o contrário. Os grupos de maior capital cultural, que ocupam os niveis mais altos na escala socioeconomica, apresentam uma absorção da informação sempre superior aos grupos de nivel de instrução inferior. A distância de conhecimento entre esses grupos, em vez de diminuir, aumenta. Os meios de comunicação servem como instrumento de reprodução das desigualdades culturais. [...]. Trecho de Competência específica, extraída da obra Ética na comunicação: da informação ao receptor (Moderna, 1995), do professor e jornalista Clóvis de Barros Filho, com a colaboração de Pedro Lozano Bartolozzi. Veja mais aqui.

POEMA OBSCENO DE FERREIRA GULLAR
façam festa / cantem dancem / que eu faço o poema duro / o poema-murro / sujo / como a miséria brasileira / Não se detenham: / façam a festa / Bethânia Martinho / Clementina / Estação Primeira de Mangueira / Salgueiro / gente de Vila Isabel e Madureira / todos / façam / a nossa festa / enquanto eu soco este pilão / este surdo / poema / que não toca no rádio / que o povo não cantará / (mas que nasce dele) / Não se prestará a análises estruturalistas / não entrará nas antologias oficiais / Obsceno / como o salário de um trabalhador aposentado / o poema / terá o destino dos que habitam o lado escuro do país / - e espreitam.
Poema obsceno, extraído de Toda poesia - 1950-1980 (Civilização Brasileira, 1981), do premiado e aplaudidíssimo poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta maranhense Ferreira Gullar (1930 – 2016). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE RUA DE CLAIRE STREETART
A arte de rua da artista francesa Claire Streetart. Veja mais aqui.

PINDORAMA DE AVANI AZEVEDO
Os ventos vão e voltam provocando ondas, / no mar de poesias dos canaviais / onde a essência dos poetas, ali, adormecida, / que para tantas gerações 'inda desconhecida / relembrando páginas que não voltarão: JAMAIS! / Palmares - é UNA e PIRANGY / PALMARES - é TROMBETAS na sua hisrtória / PALMARES -é CONCEIÇÃO DOS MONTES / PALMARES - é Arte e Cultura a todo instante / PALMARES - é PINDORAMA de viva memória! Do Campanário de tua bela Catedral / Os sinos dobravam anunciandop as Missas / teus filhos viveram para te defender / o Brasil ainda vai te conhecer / esta terra dos Poetas e dos Artistas! / A passarada canta a letra de teu hino / este teu povo é feliz igual criança / porque tua arte tem a grande realeza / porque és terra de cultura e de grandeza / porque és terra que promove a Esperança! / PALMARES - és UNA e PIRANGY escrevendo mais um verso, / és TROMBETA onde a poesia de declama / na proteção do Manto Azul de Nossa Senhora dos Montes / onde os ventos balançam as palmeiras e suas fontes / onde os pássaros gorjeiam por ti, oh, PINDORAMA!
Poema extraído da obra Pindorama (2018), do poeta, professor graduado em Letras e pós-graduado em Literatura pela Famasul, Avani Azevedo. O autor teve artigos publicados na Revista A Região, entre os anos 1985/86; participou da antologia Poetas da Famasu (2006) e autor do estudo Contribuição Sociológica de Ascenso Ferreira (2015), em parceria com a escritora Socorro Duran. O livro reune o histórico da cidade dos Palmares (PE), da Academia Palmarense de Letras (APLE), do Colégio Diocesano dos Palmares - 25 anos de Fundação, traz o Hino da EREM Palmares, datas importantes, cronológico, jornalistas, jornais que contaram a história da imprensa local, autores palmarenses, ilustres palmarenses não nascidos no Município, poetas que declamam sua terra e referências bibliotecárias. Veja mais aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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segunda-feira, maio 29, 2017

CORPO A CORPO DE GULLAR, MANICÔMIO DE MCGRATH, A ARTE DE MAX DUPAIN & JR, COISAS DA VIDA DE RIR & CHORAR.

COISAS DA VIDA DE RIR & CHORAR – Imagem: Woodkid Les Bosquets, do fotógrafo e artista francês JR. - Nasci entre um rio e um riso de mulher. O rio, a extensão do quintal meu reinado, a lição pra trilhar os tortuosos caminhos da vida. O riso, o talismã, desiderato: seguir adiante, apesar de todos os pesares e percalços. Fui menino arteiro, precoce e feliz: monograma do pai super-herói no peito, os cuidados extremos da mãe e a brecha do portão entreaberto era a fuga pra liberdade do mundo no prematuro adolescer de quase homem feito avexado, que nem teve tempo pra fruir do que foi. Virava a página pro que viesse, amanhã é outro dia: lambia as feridas e ia adiante parindo sonhos e muitos, acordando com o talho do tombo na topada que dizia não ser aquilo que eu pensava, era outra coisa. Amanhã seria outro dia, ora, embora parecesse o mesmo, olvidei dos tropeços embarcando outros novos sonhos até teimar emperrado na areia, para adultecer de antemão como quem ainda menino não tivesse tirado a catinga do mijo nas fraldas arrancadas da infantilidade. A cabeça no infinito e os pés puxados pelas quedas entre pedras no chão, nunca olhei pra trás, nem sabia mais de anteontem. Ia pro alto, insistia debaixo ao cair na poeira, persistia e quedava pra perseverar, desabando de noite aos prantos pras refeitas manhãs sorridentes a desesperar no crepúsculo de sucumbir de novo e novamente sorrir na alvorada escorregando nas horas, derrapando a cada retomada, até vergar sem fôlego arrumando a casa entre batalhas perdidas e guerras declaradas. Juntava cacos e trapos, tateava e restabelecido teimava por reiteradas decisões irrefletidas e as inevitáveis reações com seus insultantes pretextos pra tomar outra direção, que nada, lá fui eu trocando as pernas a desatar nós, labéus, revertérios e vicissitudes pelas encruzilhadas repletas de enrascadas que deram o creu pra me deixar sem saída até hoje, quando ainda sou aquele menino de sempre entre o quintal, o riso e o rio que nem existem mais ou quase, mas tatuados na alma e doendo o pulso, o muque, a pleura, o bolso, calçar as meias e os cadarços do sapato, moedas no chão ou ficar de cócoras, doendo tudo, a chatura de entrevado com os espirros destrambelhados e o pigarro arranhando a goela, a incontinência e os perdigotos difusos com o ronco quebrando a madrugada. Dói achar que é dono da verdade pela experiência adquirida sem dizer nexo de coisas, desdizendo afirmações e negando o que redizera no meio de foi não foi por voltas que se esqueceu de ter ido, porque o que se diz não se escreve e o assinado não vale mais nada, pra perder a esperança com tudo sem mesmo saber o que do quê – como é que é? O que é mesmo? Dói não ouvir direito e entender o contrário, não vê quase nada e só enxergar lembranças perdidas sem pés nem cabeça que mais fazem virar ranzinza ou levar na pilhéria, até tomar vergonha na cara pra falar sério e logo perdê-la na primeira esquina no vão da lorota. Nesse trâmite, perdoar e pedir perdão, assumir o que fez e chorar e rir da leseira que foi o tempo da vida toda pra voltar atrás quando botou moral e passou vexame, olhando pros lados pra soltar um pum por escape e pedir licença pra desaforar o primeiro desplante que der na telha, mijando nas calças e nem aí porque esqueceu o perfume na inhaca da sovaqueira, chamar na grande e dá risadas por arriar a lenha em tudo e na droga de vida que teve quando acertava e dava errado, e ao dar errado ficava assim mesmo porque não tinha mais outra coisa pra fazer, até se perder entre ideias noutras tantas misturadas e sem saber nem o que estava falando, pois é, onde é que eu estava mesmo? Ah, se soubesse disso tudo não teria graça nenhuma ter vivido e viver, né não? Vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

CORPO A CORPO DE FERREIRA GULLAR
A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz.
Trecho extraído da obra Corpo a corpo com a linguagem (Museu/Arquivo da Poesia Manuscrita, 1999),
premiado e aplaudidíssimo poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta maranhense Ferreira Gullar (1930 – 2016). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Sujeito, indivíduo, quem?, Folhas da relva de Walt Whitman, Ecce Homo de Friedrich Nietzsche, Princípios fundamentais de filosofia de Politzer, Besse & Caveing, a música de Emmanuelle Haïm, a pintura de Lasar Segall & Carolyn Anderson, a arte de Emerson Pingarilho, Kate Wiloch, Sally Trace & Claudio Adrian Natoli aqui.

E mais:
Brincar para aprender aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Entrega & vamos aprumar a conversa, O indivíduo na sociedade de Emma Goldman, A metamorfose de Franz Kafka, a música de Isaac Albéniz, Auto da barca do inferno de Gil Vicente, o cinema de Sam Mendes & Annette Bening, a  pintura de Fritz von Uhde & a fotografia de Freddy Martins aqui.
Bolero, Gertrudes & Cláudio de John Updike, a música do Trio Images, Os degraus de Roberto Calasso, Engraçadinha de Nelson Rodrigues, a pintura de Norman Engel, o cinema de J. B. Tanko & Irma Álvarez, a poesia de Frederico Barbosa & Aecio Kauffmann aqui.
As trelas do Doro: o testamento de bocó aqui.
O xote no auto de natal, Conto de Natal de Rubem Braga, a música de Ernesto Nazareth & Maria Teresa Madeiram a pintura de Wilhelm Marstrand & Aprendendo a viver com a lição do natal aqui.
Pode até ser, mas se não for, nunca será, a música de Lina Cavalieri, a fotografia de Chris Maher & a pintura de Eloir Amaro Júnior aqui.
A desmedida correria para perder o bom da vida, Novum Organum de Francis Bacon, a pintura de Fúlvio Pennnacchi, a música de Heitor Villa Lobos & Quarteto Amazônia aqui.
O maravilhoso mistério da vida, A literatura de Rebecca West, a música de Ana Torroja, a pintura de Marie-Louise Garnavault, o cinema de Alan Bridges & Julie Christie aqui.
Quem quer diferente tem que fazer diferente, a pintura de Cândido Portinari, a música de Xiomara Fortuna, o ativismo de Marcus Garvey, a escultura de Emmanuel Villanis aqui.
O prazer de amar e de ser amado, o cinema de Bigas Luna & Aitana Sánchez-Gijón, a música de Joyce & Maurício Maestro & a arte de Luciah Lopez aqui.
Todo dia um novo ano feliz, a fotografia de John Poppleton, a música de Egberto Gismonti, Sy Miller & Jill Jackson aqui.
Fecamepa: quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
Cordel Tataritaritatá & livros infantis aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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O MANICÔMIO DE PATRICK MCGRATH
[...] O céu estava claro, a brisa, morna, e o mundo que se estendia abaixo de nós, os terraços, o Muro, a charneca, tudo estava quieto e esmaecido sob o luar. A voz de Stella chegou-nos claramente através do ar morno da noite. Ah, conheci muitas mulheres elegantes e adoráveis, mas nenhuma seria capaz de comparar-se a Stella naquela noite. Ela envergava um vestido preto decotado de seda canelada, um gorgorão primoroso que eu nunca tinha visto antes. O decote era quadrado e mostrava a curva dos seios. O vestido se agarrava ao corpo e se abria na cintura, abaulando-se sobre cada joelho como uma tulipa, com uma fenda intermediaria. Stella calçava sapatos de saltos muito altos e tinha uma echarpe jogada sobre os ombros. Ela estava perguntando a Jack sobre seu último par de dança, e eu, ao ter ouvido o nome de meu paciente, revi brevemente na memória os homens e mulheres que haviam se arrastado na pista de dança com suas roupas desajeitadas, e em todos havia algo ligeiramente distorcido – menos nele. [...] Jack gostava de Stella pelas mesmas razões que eu: sua vivacidade, sua compostura, sua aparência atraente. Sei que era considerada linda; havia muitos comentários sobre seus olhos, e tinha pele pálida, quase translúcida, e cabelos louros espessos, quase brancos, cortados bastante curtos e escovados para trás. Era uma mulher bastante carnuda, de seios grandes, mais alto do que a média, e naquela noite usava um colar de pérolas que realçava bem a brancura de seu pescoço, ombros e seios. Na época eu a considerava uma amiga e, com freqüência, especulava sobre sua vida inconsciente. Perguntava-me se haveria paz e ordem por debaixo daquele exterior contido, ou se ela simplesmente controlava suas neuroses melhor do que outras mulheres. [...] Nesse momento ela se voltou e me contemplou. Puxou a alça do vestido, que escorregara do ombro. “Caridosa?”, perguntou, e vi Max olhar em nossa direção, limpando distraidamente os óculos sem que suas feições tristonhas se alterassem nem um pouco. Ela também o notou e, voltando-se, murmurou: “E suponho que minha recompensa esteja no céu”. [...].
Trechos do romance Manicômio (Planeta De Agostini, 2004), do escritor britânico de ficção gótica Patrick McGrath, contando a história de um médico psiquiatra que trabalha no tratamento de um artista assassino da esposa e há cinco anos internado em hospital com diagnóstico de psicose paranóia e que se envolve com a atraente esposa do vice-superintendente da clínica, um caso de amor, obsessão e loucura.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

A fotografia moderna deve fazer mais do que divertir, deve incitar o pensamento e por suas claras declarações de realidade, cultivar uma compreensão compreensiva de homens e mulheres e a vida que eles vivem e criam.
A arte do fotógrafo australiano Max Dupain.
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.

domingo, dezembro 04, 2016

CARLYLE, FERREIRA GULLAR, MARIA GADÚ, NADIR AFONSO, EDMUND SULLIVAN, EROTISMO & PORNOGRAFRIA

EROTISMO & PORNOGRAFRIA, O TAMANHO DA HIPOCRISIA - Imagem: arte do pintor, arquiteto e pensador português Nadir Afonso (1920-2013) - A gente nasce nu, os animais vivem nu e até o rei que se achava elegantemente trajado, na verdade, estava nu. Imagino, então, como seria a Terra vestida – aliás, a veste do planeta é a camada de Ozônio que, por sinal, é transparente, isso para desgosto de alguns pudibundos -, ou o Sol, o céu, as estrelas, a Lua, a infinitude cósmica do Universo, as árvores – e isso além da casca, dos galhos, das folhas e flores – e os bichos – além dos pelos e pele -, a cauda do piano e a proibição das curvas do violão, por aí. Mas tudo é reprimido pelo moralismo canhestra a requerer obediência e pudicícia, o que, para felicidade dos castos timoratos, a nudez é a transgressão que até hoje tratada inexoravelmente por censurável e gerando constrangimentos que vão desde os rubores inocentes até a violência dos prepotentes hipócritas. E me espanto porque tudo é somente pela falta de diálogo, pelo temor, dúvida e completo desconhecimento, muito menos saber encarar ou se relacionar com o próprio corpo que, de forma descabida, choca ou impacta até a si mesmo. que coisa!?! Ou seja, pra festa dos recatados, a secular manutenção do corpo como inimigo do espírito, aquilo que é obsceno, perigoso, degradante ou maléfico, a aberração que a moral vitoriana, os dogmas religiosos, a etiqueta ideológica e os tabus das convenções da hipocrisia humana, há milênios, promovem como a trágica saída da órbita do conforto, do regrado, do medido, do selecionado, Para mim, diga-se de passagem, é a simples incapacidade de fruição da diferença, do imaginário, do simbólico. Como se dos olhos, apenas a vergonha e o pecado. Fico cá comigo matutando como se tudo que se apresenta na vida e na Natureza precisasse de ordem e taxonomia – oh mania da gente de organizar o que não precisa -, como se a sexualidade que é natural e está vinculada à intimidade, à ternura e à afetividade nas relações corporais, psíquicas e sentimentais do ser humano, não fosse além de um mal entendido da metáfora de Eros & Afrodite, como se um não pudesse conviver com dois ou três ou mais, como se tivesse que escolher ou optar por aquele ou aqueloutro, colocando cada qual no seu devido lugar e dentro de uma ordem de excludência e preconceito. Tudo isso me faz refletir qual seria mesmo a ordem definida (pré ou pós) na convivência entre as árvores e umas às outras, entre os bichos e feras, entre o Sol e todo o Universo, como se não se pudesse naturalmente distinguir doce do azedo ou salgado, o verde do amarelo ou doutras cores, o fá do ré ou dos tons e semitons, isso ou aquilo daquilo, as diferenças que devem ser entendidas e, definitivamente, humanamente compreendidas. Pra mim, de resto, tudo está nu, como nos Cânticos de Salomão, n’O beijo de Rodin, no erotismo de Bataille, na Definição de Amor de Gregório Matos, nos Carmina Burana, na Origem da Vida de Courbet e, tal Drummond, oh! Sejamos pornográficos (docemente pornográficos). Viva a nudez da vida! © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.


Curtindo o álbum (CDs+DVD) Maria Gadú ao vivo (Multishow, 2010), da cantora Maria Gadú.

Veja mais sobre:
O partoril de ponta de rua, Rainer Maria Rilke, Giacomo Puccini, Leucipo de Mileto, Jean-Luc Godard, Maria Callas, Katiuscia Canoro, Anna Karina, Louis Jean Baptiste Igout, Paolo Eleuteri Serpieri & Julia Crystal aqui.

E mais:
Papai noel amolestado, Maceió, José Paulo Paes, Egberto Gismonti, Paulo Leminski, Gerd Bornheim, Ralph Burke Tyree, Marco Vicário, Laura Antonelli, Daryl Hannah, Neurociência & Educação aqui.
O prazer do amor na varada da noite aqui.
Bloomsday, Ulysses & James Joyce aqui.
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Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Traduzir-se, do poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta maranhense Ferreira Gullar (1930 – 2016). Veja mais aqui, aqui & aqui.

DESTAQUE: O SARTOR RESARTUS DE CARLYLE 
 [...] No Símbolo propriamente, no que podemos chamar de Símbolo, há sempre, mais ou menos distinta e direta, alguma encarnação e revelação do Infinito; o Infinito é feito para mesclar-se com o Finito, para ficar visível, e por assim dizer acessível, ali. Pelos Símbolos, por conseguinte, o homem é guiado e comandado, torna-se feliz, torna-se desgraçado. Em toda parte encontra-se rodeado de Símbolos, reconhecidos como tais ou não: o Universo não é senão um Vasto Símbolo de Deus; e mais, se aceitares isso, o que é o homem ele próprio senão um Símbolo de Deus; não é tudo o que faz simbólico; uma revelação para os Sentidos da Força mística dada por Deus que está nele; um ‘Evangelho de Liberdade’, que ele, o ‘Messias da Natureza’, prega, como pode, por atos e palavras? Ele não constrói uma Cabana que não seja a encarnação visível de um Pensamento; que não sustente um registro visível de coisas invisíveis; que não seja, no sentido transcendental, simbólico bem como real. [...] Mas, no todo, assim como o Tempo acrescenta muito ao teor sacro dos Símbolos, do mesmo modo em seu progresso ele afinal os desfigura, ou mesmo os desconsagra; e os Símbolos, como todas as Vestes terrestres, envelhecem. A Epopeia de Homero não cessou de ser verdadeira; todavia não é mais a nossa Epopeia, mas brilha à distância, cada vez mais clara, todavia também cada vez menor, como uma Estrela a afastar-se. Precisa de um telescópio científico, precisa ser reinterpretada e aproximada de nós artificialmente, antes que tenhamos condições de saber que fora um Sol. Do mesmo modo chega o dia em que o Thor Rúnico com seus Eddas deve retirar-se para a obscuridade; e muita Mandinga africana, e Pajé índio ser abolidos por completo. Pois todas as coisas, inclusive os Luminares Celestiais, quanto mais os meteoros atmosféricos, têm sua ascensão, seu clímax, seu declínio [...].
Trechos da obra Sartor Resartus: The Life and Opinions of Herr Teufelsdrockh – 1833-34, University of California Press, 2000), do escritor, historiador, ensaísta e professor escocês Thomas Carlyle (1795-1881), recolhido do artigo A tradução selvagem de Thomas Carlyle: Sartor Resartus, da autora e professora Ana Helena Souza.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagens: as gravuras e ilustrações precursor britânico da Art Nouveau, Edmund Joseph Sullivan (1869-1933).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...