quinta-feira, janeiro 21, 2010

A CHUPÓLOGA PAPA-JERIMUM



A CHUPÓLOGA PAPA-JERIMUM

Luiz Alberto Machado

Vinham-me duma só vez a noite e a solidão.
Enquanto descia a calçada da praia com o vento incendiando o irrevelável no sopro dos cabelos aureolados, vinham as imagens mais inimagináveis e desconexas, soltas e desconcertando o juízo que se alojara no mindinho do pé ou se arvorara a passear solfejando à toa pela paisagem convidativa.
De repente, quando, ao longe, com o barulho das águas do mar luzidio e os reflexos da lua em noite cheia, e a minha noite solitária seguia o olhar palpitante daquela que se parecia ao longe uma coisa que se vê quando vai e não volta nunca mais, tomando da lua a luz das estrelas e a emoção alvoroçada que saculejava minhas veias adentro, até sentir-lhe de longe o mormaço etéreo do seu ser sobre a minha cobiça desenfreada.
Ah, que a noite era mais longínqua que a sensação de tê-la bem pertinho e provar do seu oxigênio restaurando minha vitalidade de quase morto perdido nas sequelas e adversidades calejadas de quem sabe o mundo ao alcance da mão e lá léguas muitas depois.
Ah, como ela era bela com a sua face de lua impune e sedutora, uma princesinha chocha que enamorava a minha afeição para quem a vida alentava e salvava do escanteio compulsório de sempre na esgoelada e lúbrica arranhada da voz sob o tormento que me açodava a possibilidade de apertar-lhe as mãos doces monóicas pela força de poder no jeito de agasalhar a minha hora de fragilidade, temperamentalmente fêmea e reluzente, decididamente determinada a alcançar o seu querer, enquanto eu timidamente apenas acendia o meu querer-lhe a qualquer custo.
Ah, como ela era terminantemente do tamanho que toda minha querência podia ser premiada enquanto ela, do outro lado da rua, não largava o meu olhar, nem eu ao dela, sabia, conhecíamo-nos naquela hora, aliás, nem nos conhecíamos, ainda, apenas descobríamos o momento que flagrávamos ali na captura e nenhum gesto fora necessário para que ela atravessasse com firmeza de caçadora sagaz, a rua que distava entre o meu desejo e o dela, quando se acercava da minha inércia, divisando-me rente ao seu cheiro de terra florida a dar-me paz no meu desconcerto intranquilo, de perceber o nosso tremor de desejo na carne adente.
Ah, como seu lábio rubro e pronunciado com todos os tentáculos feminis de absorver minha sanha louca e de abarcar minha sede num beijo transcendente com o gosto da paçoca do pilão de Pirangi do Norte; da tapioca com ginga na Redinha; da guaiamunzada na Barra do Rio; do grude de Extremóz; e voávamos sobre as dunas de Genipabu enquanto a rua repleta de frinfras & garbosos & petulantes & de nada & de mentirinha de ontem e de hoje & testemunhavam nossa loucura obscena e radiante rasgando nossas vestes & carcaças & intimidades descobertas naquela iniciação, com as minhas mãos buliçosas manuseando suas margens, seus contornos, seu território, sua reentrância, sua curvilínea geografia.
Ah, era bom demais de íntimo para ser público na calçada da praia, eu levado, ela conduzindo meu faro de cão sedento e desvalido, até a alcova dos sonhos que eu não sabia existir jamais para que minhas mãos pudesse tocá-la mais na areia fininha da clarividente água do seu corpo, e eu pudesse beijar suas coxas em brasa e sentir-me a volúpia de sua alma e seu agridoce ventre e o incenso de sua carne ardendo suas chamas que carbonizavam o meu querer, a seguir-lhe as pegadas, tonto, cego, entregue e sorvendo a totalidade do seu ser desnudado na rota do sol, eu me enfiando pelo seu Morro do Careca de Pontanegra, servindo-me do seu circo de Búzios, dominando seu jeito de golfinho de Pipa, degustando da suntuosidade de seu Cotovelo, mergulhando na profundidade de sua ilha de Galinhos, até saber-me impregnado por seu olhar maravilhoso de por do sol do Potengi com sua balsa na Igapó lá no fundo levando toda a minha consciência para nada mais saber de nada de nada de nada & nada; usurpando a sua barreira do inferno que é o céu e o purgatório e todas as celestiais camadas da eternidade mais finita das infinitudes que estonteiam a cosmogonia de semi-deuses, pseudo-deus feito eu, até provar do orgasmo no cajueiro de Pirangi do Norte.
Ah, eu me deleitava e não mais sabia de nada, a vida era ela, meu sopro vital e mais nada e mais nada me interessaria a esta altura, quando tudo era lindo e celestial no ápice da minha crença oculta.
Ah e onde estávamos não sabíamos, nem seu nome nem de mim nem da nossa comunhão de tudo e nada, eu jogado como um navio errante de Rocas e ela a água imensa do Atlântico levando-me pelo oceano adentro até Pacíficos & Índicos & mais até onde nem mais sabia além de céu e mar, apenas; enquanto eu me sentia submerso em seu segredo porque ela roçou-me com sua língua reptante os meus músculos toráxicos, o umbigo e o declive das intimidades sondadas com seu faro e seu toque palatar no encontro da coxa e do ventre acercando-se do meu cordão sacralizado e lambendo-me a superfície da minha pontiaguda efervescência e abarcando-me a glande e engulindo-me rijo na felação de sua caverna até a abóbada palatina mais estrelada com o cometa da língua solta a lambuzar-me de seu sobejo mágico babando abundantemente até acender-me a vida.
E tudo era tão mágico quanto exótico de prazer ao chupar-me levando de mim todas as posses que reconditamente ainda poderia possuir todas as latências, toda existência e apropriando-se da totalidade de mim que a partir de agora era levado pelo seu ansioso poderio de mulher insaciável.
Ah, como fizera de mim reduzido a ser apenas o macho que transferia toda sua vitalidade para a sua vampiresca necessidade de se apoderar de toda conformação de menino homem feito que nunca ficou adulto de envelhecer como uma criança que não sabe o tempo que passou e que passará e já nem se dará conta que o sisifismo se faz imanente até o labirinto do átimo paradoxal.
Ah, era ao mesmo tempo a minha fortaleza restituída, a minha inutilidade restaurada para algo maior que minhas próprias proporções, do que me levava e exauria, resultando a minha segunda pele hercúlea, poderosa, remoçada e viril duplamente satisfeito nas mais íntimas necessidades.
Era o espetáculo da entrega onde a posse era despossuída e a servidão era a completa interação entre a deificação da carne e a dessacralização da alma.


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