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sábado, agosto 08, 2026

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Fábula hodierna... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascínio por Pandora que se assanhava toda por Epimeteu que paquerava Io que sonhava com o primeiro. O vértice do quarteto oscilava circulante, quem o alvo virava e o outro alheio girava a roda viva vagava e demorou pra dar certo a dança do amor. Não foi bem assim, mais ou menos, o resumo da ópera. Os irmãos eram ferreiros empregados na oficina do poderoso tirano Barão. E pelo façanhoso labor, eles conquistaram tanto a estima do déspota, como da população sempre agraciada por ações levadas e tidas por heroicas. As irmãs órfãs de mães diferentes carregavam o materno luto de terem sido ceifadas misteriosamente, suspeitando-se remoção de óbices diante das ameaças que representavam para o próprio desumano Barão. Nem se conheciam direito: uma fugiu quando a outra ainda crescia. Por conta da situação de abandono das meninas, elas foram providentemente apadrinhadas pelo influente, deixando-as no convívio da distinta Baronesa Puxencolhe, um álibi, afastava qualquer suspeita. Até aí, tudo bem. A mais velha, Io, ao debutar ganhou uma festa dionisíaca, Beltane – um carnaval fora de época e sem data fixa em Alagoinhanduba, realizada conforme a veneta do autocrata, no qual premiava homenageados, anunciava decisões e benfeitorias, condenava desafetos (quem caísse na antipatia de suas raivosas psicoses era introduzido num manequim de vime, o famoso crematório e saudava queimadas), às brasas escaldantes, aos ruídos atroadores do corifeu aeropagita dos horríveis rituais dos Bitus com todos os Sibitos, Rebitos & outros Priquitos animando a função estrambólica, entoando solfejos regados a urros, espasmos, tosses, esturros, estaladas de língua, peidos, arrotos, sovacadas, toc toc, marcação de pés nas pisadas e fricção dos instrumentos inusitados e fumegantes: Vamos tocar fogo! Foda-se! O evento infernal era colorido com a dança das parcas, das fúrias, das ninfas e das harpias. As erínias atiçavam os esponsais levados pelas eumênides, as moiras conduziam a maratona das lampadofórias, as górgonas abriam as narrativas de Hesíodo, os espetáculos de Ésquilo encenando a titanomaquia e o confronto olímpico, os louvores do centauro Quirão, os plangentes e denunciadores ditirambos de Frínico, e o povo ouriçado com as atrações de suas ordálias, Panem et circenses, tudo presidido pelo convidado juiz, o eminente famigerado doutor Teje-preso, gestor das pendengas. Era o maior regabofe e os dois acoloiados combinavam: Qual o crime deste? Não fui com a cara. Sacrifiquem! Em polvorosa, a multidão embriagava-se com o festival de horrores. Posso sacrificar todos? Deve! E enquanto o juiz sentenciava, o Barão dava uma escapulida, livrando-se da vigilância ciumenta da consorte e, às escondidas, encontrava Io na penumbra, prometendo-lhe presente desejado, pelo qual ela se viu ultrajada, maculada pelo asqueroso abuso, condenada a ser perseguida e tão marcada de jamais esquecer em toda sua vida de fugitiva eterna. A mais nova, Pandora, também de mãe apedrejada por suposta ordem do próprio Barão, tornara-se a queridinha da madrinha. Ao debutar, os olhos do usurpador caíram sobre sua graça, malogrando a cada investida. E ao flagrá-la receptiva com um sujeito desconhecido, logo interviu: Ah, minha afilhada preferida! Ô padrinho. Quem é esse? Sou, Epimeteu, seu servil, majestade. Ah, tenho que lhe premiar pelos bons serviços; por isso, você terá a mão dessa minha protegida e a cerimônia será amanhã na abertura dos festejos de Beltane, meus presentes de núpcias! Epimeteu não cabia em si e logo correu para dar as boas novas ao irmão, Prometeu: Cuidado, nunca aceite presentes do Barão, são de grego, todos. Está com ciúmes, você tem uma caidinha pela Pandora! Não é isso. Quase se estranharam às ofensas, mas deixaram pra lá, porque logo amanheceria e era o dia da festa. Feliz Epimeteu dava tudo que tinha até ficar de mãos vazias, o coração inchado de amor. No final da tarde, ele lá, os esponsais foram convocados ao tablado nobre, o juiz os declarou marido e mulher por força da sua lei, e o Barão os presenteou: para ele, uma salamandra de fogo – Que coisa mais bonitinha! E, pra ela: um jarro hermético para sacralizar o matrimônio eterno e que nunca deveria ser aberto. Quando os dois felicitaram os presentes aos beijos, o Barão cobrou: A jus primae noctis. Hum? Desconsolados, depois dessa noite o casal perdeu paz. Foi durante o cerimonial que o Barão já refeito de sua arrogância flagrou a aproximação de Prometeu e Io e partiu para desavença. Estava furioso porque Prometeu desconfiava do seu fatum e tinha caído nas graças de todos dando com a língua nos dentes, a ponto de ser mais bem quisto que o próprio absolutista, o que seria um desagravo funesto, e, ainda por cima, Io era desertora: Aquela vaca me paga! E veio o traiçoeiro golpe: Hefesto aprisionou Prometeu no rochedo do Cáucaso, lá no monte Etna na inóspita Cítia, estraçalhando aos poucos seu fígado de herói decaído, enquanto Argos Panoptes vigiava com seus 100 olhos, e assumia a paternidade da prisioneira sacerdotisa Io, martirizando-a num cativeiro com o ataque de insetos picantes. Foi preciso a intervenção de Heracles na agonia dos vitimados e fuga dos casais pelo Bósforo, Ilíria, Trácia, Micenas, Eubeia, Síria afora até sumirem para lugar incerto e não sabido e serem esquecidos pela fúria do ditador. Anos se passaram e no apogeu doutra festa, fez-se escuridão: Pandora abriu o jarro. Curiosa: será o fim do mundo? O diabo veio cobrar a conta. A praga e a revolta da pilombeta, a escuridão contaminava, atormentados pelo beijo homicida do amor letal. O tempo passa rápido e o esquecimento, a vida muda muito, as histórias ficam. Até mais ver.

 

Martha Nussbaum: Ao contarmos histórias sobre a vida de outros, aprendemos a imaginar o que outra criatura poderia sentir em resposta a diversos acontecimentos. Ao mesmo tempo, identificamo-nos com essa outra criatura e aprendemos algo sobre nós mesmos... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Charles Bukowski: Todos nós vamos morrer, todos nós — que circo! Só isso deveria nos fazer amar uns aos outros, mas não faz. Somos aterrorizados e esmagados por trivialidades; somos consumidos pelo nada... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Fernando Arrabal: À luz da questão chamei imagens/fantasmas - o que estava vendo e me senti apaixonado pelo resultado final... Turbulência mais uma vez me cercou tanto que eu poderia ter algumas utopias... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Se te pareço noturna e imperfeita \ Olha-me de novo. Porque esta noite \ Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. \ E era como se a água \ Desejasse \ Escapar de sua casa que é o rio \ E deslizando apenas, nem tocar a margem. \ Te olhei. E há tanto tempo \ Entendo que sou terra. Há tanto tempo \ Espero \ Que o teu corpo de água mais fraterno \ Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta \ Olha-me de novo. Com menos altivez. \ E mais atento.

Poema extraído da obra Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974), da escritora e dramaturga Hilda Hilst (Hilda de Almeida Prado Hilst – 1930-2004), destacando em sua lírica o amado e a amada, dos quais nasce o encontro e as expectativas direcionadas um ao outro. Veja mais aqui.

 

MOMENTO CERTO - […] A beleza da escrita é que você compete consigo mesmo, não com outra pessoa. [...] A inveja é algo muito feio e muito perigoso. Você precisa se proteger dela todos os dias. [...] Ele queria todos os prêmios e elogios para si, mas não queria trabalhar para conquistá-los. Ela se perguntava quantas pessoas como ele existiam no mundo, invejando os outros pelo que tinham e não podiam... […] A angústia é algo maravilhoso para os escritores e levará você a escrever seus melhores livros. Mas a felicidade o deixará preguiçoso e acomodado. Você se esquecerá de suas prioridades e ficará aí parado, sem fazer nada... [...]. Trechos extraídos da obra The Right Time (Palgrave Macmillan, 2017), da escritora estadunidense Danielle Steel (Danielle Fernandes Dominique Schuelein-Steel), autora de obras tais como: The Duchess (2017), Against All Odds (2017), Steel, Friends Forever (2012), Happy Birthday (2011), The Wedding (1997), The Gift (1994), No Greater Love (1991) e Wanderlust (1986), entre outros.

 

A CIÊNCIA DO TRABALHO COLETIVO - [...] Nossos cérebros produzem 20 watts de potência a qualquer momento. Em todo o mundo, isso representa mais de 155 bilhões de watts de capacidade humana para resolução de problemas, conexão e inovação. Imagine o que poderíamos alcançar se pudéssemos acessar esse poder coletivo? Imagine os projetos que poderíamos realizar, as criações que poderíamos conceber, os problemas que poderíamos resolver, como poderíamos transformar nossos mundos para melhor? Como espécie, nunca nos deparamos com problemas tão complexos ou difíceis quanto os que enfrentamos agora. Recorrendo à neurociência, podemos identificar estratégias que nos permitam reunir nossa capacidade cerebral e desenvolver soluções à altura desses desafios – juntos. [...]. Trecho do ensaio The Science of Collective Working - The interconnected working methods of the future and how we can harness the power of collective intelligence (Selfridges Group, 2023), da neurocientista, escritora, radialista e pesquisadora britânica Hannah Critchlow, que sobre inteligência coletiva e o pensamento de "nós" expressa: […] Quando fazemos a transição do pensamento centrado no 'eu' para o centrado no 'nós', nossa visão de mundo se transforma, nossa imaginação se liberta e cada um de nós é capaz de contribuir com sua perspectiva única para o acervo de inteligência da humanidade. [....] Estamos em um momento crucial de nossa evolução. A abrangência e a complexidade dos problemas que enfrentamos... exigem o engajamento de todas as mentes. Sobre o cérebro, o destino e o livre-arbítrio: As pessoas nascem com um cérebro que molda sua percepção e aquilo que estão biologicamente programadas para considerar gratificante... Nossos cérebros apresentam falhas que levam a suposições e erros... Sobre o cérebro no século XXI e a incerteza: É fundamental encararmos a incerteza e a ambiguidade com uma mentalidade voltada para as possibilidades — em vez de medo ou pessimismo — e enxergarmos oportunidades nessas situações... Embutido em nossos cérebros, existe um mecanismo extraordinário conhecido como plasticidade sináptica.... Ela é autora das obras Consciousness: A Ladybird Expert Book (2018) e The Science of Fate: The New Science of Who We Are - And How to Shape our Best Future (2019) e sua pesquisa acadêmica tem se concentrado em neurociência celular e molecular.

A ARTE DE ONILDO ALMEIDA

[...] Eu costumo dizer que toda cidade tem feira e toda feira é igual. Mas, na verdade, não é. A de Caruaru, quando você procura uma coisa no comércio que não encontra, vai para a feira. É uma feira que tem tudo [...].

Trecho da matéria entrevista da jornalista Cibelle Tenório, Conheça Onildo Almeida, o homem que levou a Feira de Caruaru ao mundo (Agência Brasil, 2025), com o compositor, poeta, músico e radialista Onildo Almeida, que lançou os álbuns A feira de Caruaru nº 2 (1957), Casamento antigo (1957) e Zé Dantas e Vaquejada (1962), autor de mais de 530 canções escritas e gravadas por diversos artistas, com gêneros que vão desde o forró, xaxado e xote, interpretadas por Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros. Veja mais aqui.


 

TUNGA, TUNGANDO A VIDA – Destaque da trajetória do premiado O escultor, desenhista e artista performático Tunga (Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão – 1952-2016), um dos artistas mais emblemáticos e representativos da arte contemporânea. Trata-se de uma síntese de sua vida, principais obras, prêmios nacionais e internacionais, exposições no Brasil e no mundo. Confira aqui.


O PLANETA & A QUESTÃO AMBIENTAL – Os debates atinentes à temática do planeta e a questão ambiental na contemporaneidade transitam entre as reflexões que incidem sobre crescimento econômico e a sustentabilidade socioambiental, a governança global, as mudanças climáticas e a transição energética, justiça socioambiental e a conservação, a biodiversidade e o desenvolvimento sustentável, notadamente a respeito da sobrevivência humana, o equilíbrio ambiental e as projeções escatológicas de extinção diante ação predatória humana. Nesta postagem reflexões de Lorraine Daston, Alexandria Villaseñor, Tim Marshall, Carlo Rovelli, Caroline Dean, Carolyn Porco, Sophia Kianni, Jamie Margolin, Xiye Bastida, Kaka Werá, entre outros. Veja aqui.


NITOLINO NO VALUNA - Uma historieta infanto-juvenil que marca o início das aventuras do Nitolino, na companhia de Pai Lula & toda trupe Falange, Falanginha, Falangeta, pelo Valuna. O objetivo da turma é chegar na Serra do Quati, local indicado como a nascente do Rio Una. Acompanhe aqui.



 

CONSTISTÓRIA, POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS (Imagem: Acervo ArtLAM) – Da série Colam, uma reunião do meu trabalho autoral, unindo arte visual e musical, por meio de poemagens & versagens construídas com as obras O Livro das Janelas e da Crônica de Amor, com o tema musical Nênia de Abril. Verifique aqui.


AS TRELAS DO DORO (Imagem: arte de Rollandry Silvério) – Reunião das principais presepadas do arteiro Doro, dando conta de suas iniciativas mais extraordinárias, situações mais periclitantes e propósitos malabaristas, ocorridos desde a sua participação no Big Shit Bôbras, no Fecamepa com sua candidatura a presidente e do seu exótico cotidiano na cidade de Alagoinhanduba. Observe aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui & aqui.



 



sábado, maio 28, 2022

ROSA MONTERO, MARYANNE WOLF, GUILLERMO CABREIRA INFANTE, ORIDES FONTELA & BARTYRA SOARES

 

 

TRÍPTICO DQP: Era uma vez outras mais tantas vezes, pálin... – Ao som da Sonata for cello and piano (op. 65), de Chopin, na interpretação da violoncelista israelense Danielle Akta e da pianista Revital Hachamoff. - De profundis: o Sinal de Paulinho no Retorno de Nietzsche. As palavras povoam o mundo, rumores em cascata. Não é possível ter sorte, há quem diga mesmo: nascer aqui já diz tudo. Antes assim, se não era a hora, ficou para depois, não agora, não foi pra isso que nasci e viver a narrar do nada travesseiro entre jaboticabeiras, pinheiros e eucaliptos. Na curva da vida nunca precisei reter a respiração, mesmo que a turbulência deixasse claro o que era de venturoso e infortúnio, de lisonjas e rejeições – todos estamos sujeito ao logro, aos vícios do amor. Não há como não topar com parvos e esnobes, epítetos, rótulos ou assombros, dá tudo no mesmo: fisionomias desertoras que rilham os dentes e imprecam com os pés fincados no chão remoendo inquietações e de sobreaviso com os truques, sabe-se lá do quê, as hostilidades avassaladoras dos olhos que me viram e sei já estão mortos desde antes. Eis que da flor da aurora inventada alguém me diz Orides Fontela: só porque erro encontro o que não se procura. Depois, um silêncio tumular... Após alguns momentos complementa a Memória dela: A cicatriz, talvez / não indelével / o sangue / agora / estigma. / Nunca amar / o que não / vibra / nunca crer / no que não / canta. / O espelho dissolve / o tempo / o espelho aprofunda / o enigma / o espelho devora / a face. Não dá para identificar direito o vulto daquela que soa agradável aos ouvidos, mesmo que insista amanhecer no meio da noite. De mim nada mais que uma dúzia vezes mil de erros e nenhum acerto, como se fosse caronista disperso – cada qual seu papel de louco na dança de roda ou numa jornada cujo mapa construído apenas a partir de cada passo, sobrevivente de abismos pelos trunfos sucedidos aos fracassos e confundidos com as funduras das muitas profundezas. Não há nem onde começou de tão inútil, ninguém precisa saber: a loucura salva.

 


Nada & fumaça... – Imagem do artista estadunidense Bruce Neuman. – Basta um estalo, ou piscar de olhos, o triz: e nada mais. Agora mesmo não sei mais por onde anda o Doro e só me lembrei dele porque folheei Fumaça pura (Bertrand Brasil, 2003), do escritor cubano Guillermo Cabreira Infante, e logo dei de cara: Viver também faz mal a saúde. É que entre os membros da tripulação de Colombo, também chegava ao Novo Mundo, o desafortunado Rodrigo de Xerez, espantadíssimo com os homens-chaminé: os indígenas fumavam, era a descoberta do tabaco. De volta à Espanha, encheu-se de empáfia numa demonstração pública, não se dando conta de quem ausente às línguas ferinas pelas costas reputações retorcidas e findam na sina patibular, vez que a audiência, vendo-o exalar fumaça por todos os orifícios, julgava ser ele afinado com o diabo, enquanto sua própria esposa deitava denúncia ao Santo Ofício que o condenou a vinte anos de cárcere. Ufa! Por pouco não virou fumaça nas fogueias católicas. Essa não foi a sorte do Doro ao manipular a Teibei: bastava uma golada no fumegante aperitivo e logo envultava por uns três ou quatro dias desaparecido desta dimensão, pelo menos. Desta vez não, parece que abusou da dose, pelo que soube, depois de encher o tampo e virar mais de litros da tirana: faz tempo que ele não dá as caras, significa que ainda não desenvultou. É o que dizem e não estou aqui para discordar. Deixá-lo para lá, melhor...

 


O motor das reviravoltas... Imagem: a arte da fotógrafa e atriz estadunidense Elizabteh Lee Miller (1907-1977) - Era outro de muitos sonhos e Perséfone com a magia do olhar de quem chega, desfilava a beldade dos seus quarenta e não sei quantos anos de tanto rir, deixando à mostra o espalhafato das ancas arredondadas de seu pódice majestoso em baixo do curto roupão. De lá para cá, curvava-se para me virar as faces e deixar-me o busto ilustre de proeminentes seios soltos sob a veste amarrada na cintura, a me dar a sensação daquela frescura de frutas colhidas no quintal. Era como vê-la sair dos banhos sulfurosos pelas fontes, alheia às intrigas criadas com suas carnes de mil olhos curiosos e indecentes. Mostrou-me uma planta rara e carnívora do Camboja - uma planta-jarro – e me aparecia como quem saísse da clausura dos dias para me provocar na composição de recônditos setígonos jamais revelados aos viventes. Era tudo muito envolvente e despertei na agonia da volúpia. Para meu espanto lá adiante reluzia a estátua de Cocteau a me dizer: Havia muitas coisas comoventes, pungentes ou estranhas que eu queria... Então me aproximei e fui conferir de perto, evitou-me o olhar: Eu sou uma abetarda, a mim ninguém me apanha... É melhor partir sem pesar desta terra que rola e esmaga os que desejam dominá-la. Sim, ela encerrava a aventura da alma humana e do seu olhar distante uma ave fabulosa desprezava o caçador de quem sempre escapava e logo se tornava nas cinzas espalhadas ao redor do leito fúnebre: a alma que libertava para o voo. Algo me dizia que ela não se afastava da terra, nem era capaz de alçar altos voos. Insisti do seu lado e logo ela ergueu os braços sobre a cabeça e me contou desapontada sobre a gonorreia no estupro aos 7 anos, a foto dos absorventes menstruais, o corte no pescoço pela agressão de Man Ray, as enfermas crianças de Viena, a miséria dos camponeses da Hungria, o banho na banheira do Führer... Baixou as vistas e me falou Rosa Montero: Os homens costumam chamar destino àquilo que lhes acontece quando perdem as forças para lutar... Aí me insinuei, beijei-lhe a face fria e senti a sua carne viva crescer na minha pele sussurrando Bartyra Soares: Um dia deixei a cidade... ousei ultrapassar seus limites, fui mais longe, descobri o realismo fantástico e, assim, mergulhei noutros mistérios e labirintos, segredos e sonhos, sempre à cata de histórias que, até hoje, embora esporadicamente, nunca mais deixei de contar. Ali, abraçando-a afetuosamente, ouvi seus relatos mais íntimos e nela me revelei completamente perdido, como se nada mais soubesse, afinal, ou a coisa toda não regulava sempre lá muito bem hoje em dia ou só sou eu alvo de insuportáveis aborrecimentos: a vida toda só foi passar vergonha. Nela eu podia mais que viver e vivi. Até mais ver.

 

Normalmente, quando você lê, tem mais tempo para pensar. A leitura oferece um botão de pausa único para a compreensão e a percepção. A leitura é uma ponte para o pensamento. A leitura muda nossas vidas e nossas vidas mudam nossa leitura.

Pensamento da professora estadunidense Maryanne Wolf. Veja mais aqui e aqui.

 



domingo, outubro 17, 2021

DONNA HARAWAY, CHUCK PALAHNIUK, SAMUEL BARBER & JACI BEZERRA

 

 

TRÍPTICO DQP – O desloucamento na perseguição dos rastros... - Ao som Adagio for Strings, Op. 11 (Sony Music, 1997), do compositor estadunidense Samuel Barber (1910-1981), na interpretação de Leonard Bernstein & The New York Philharmonic – Não sei se vou já ou quando; não é de hoje testemunhar o desassossego geral. O que fazer? Ouvi alguém motejar no escuro e, no esforço de identificá-lo, era o filósofo inglês Alfred Whitehead (1861-1947): A inocente pergunta é a primeira aproximação de um desenvolvimento totalmente novo. Só o reconheci após demorada investigação, pouco o havia visto e até me confundi: era como se fosse Robbe-Grillet debulhando: O tempo de nossas paixões, de nossa vida. Posição nada confortável a minha, era como se estivesse rente ao intangível e entrelugares, o sinuoso e o indistinto. Mas, se valia a pena, não sei, apenas acreditei que sim, apesar de tudo embutido por sete chaves e o descontrole da visceral hostilidade. Eu sei. E mesmo assim, nem deu tempo de me sentir rejeitado por quem quer que fosse, sei que são complacentes além dos meus méritos. Mantenho buliçoso pelos palimpsestos, é líquido e certo: uma vez tupiniquim e nunca mais. Conecto a vida e reconfiguro o quanto posso: tudo é muito débil e indecidivelmente tão frequente quanto impositivo, por isso mesmo o existexperimental, ou experexistencial, tanto faz, porque a gargalhada de Derrida traduzia as aporias e, por conta disso, tomei a decisão perturbadora de encarar o Corpo sem órgãos de Artaud: Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno. Inquieto, também me empenho pela verdadeira e imortal liberdade, e a me reinventar, apesar de atolado nos meus pântanos insuportáveis. Resisto e, diante da América cruel, sou meu próprio laboratório, um atleta afetivo de Grotowski. Ao descentrar sem nenhuma margem, expus minha carne e todas as minhas entranhas, porque o rito peyote dos Tarahuramas me ensinou que só há sentido na Natureza. Perseguir o desloucamento era o mesmo que ter de repisar rastros entre o temor e a imprudência, só assim a promessa da despossessão do juízo. Foi exatamente o que me trouxe, de chofre, o exercício de experimentação insólita expressa por Deleuze & Guattari: Tudo está sobre este corpo incriado, como piolhos na juba do leão. Assim, diante das interrogações do Anti-Édipo e dos Mil Platôs, a risada do escritor estadunidense Chuck Palahniuk quebrou a monotonia: As coisas que você possui acabam por possui-lo. Só depois de perder tudo é que você é livre para fazer qualquer coisa. Você não entende nada e, depois, simplesmente morre. Tenha suas aventuras, cometa seus erros e escolha mal seus amigos - tudo isso cria ótimas histórias. Liberdade é perder toda a esperança… Você olha para uma estrela e desaparece dentro dela. Aos seus olhos tudo me parecia como se o aventado catapultasse o que sabia até então. Não me dei ao vazio, pelo contrário: ainda resta viver. Melhor contar outra história.

 


Corpo que vibra... - Imagem Adansônia III (1977-78), da artista visual, fotógrafa e professora Mara Alvares. - Salomé era bonitona do seu jeito e quando queria, só. Quando não estava escondida e abatumada com suas agruras existenciais, desfilava altiva sua alegria pujante, como se fosse aquela fascinante filósofa Lou ou qualquer atriz do palco de Oscar Wilde. Os de casa, claro, tratavam-na por duas caras; os de fora cobiçavam os seus giros esvoaçantes da atriz Aída Gomez nas cenas de Saura, enchendo as ruas e calçadas com suas pernas de Rita Hayworth, tão bela como nunca da sensualidade daquela retratada por Pierre Bonnaud, ou acendendo a imaginação dos atrevidos ao cantarolar no banho com sua nudez encantadora da soprano alemã Nicola Beller Carbone ou de Karita Mattila nos tons operísticos de Richard Straus. As más línguas nomeavam-na de moicheia e se vangloriaram vingativas ao sabê-la tomada por um tal Índio que nem era nem parecia, só apelidado e que lhe deixou seviciada aos prantos. Diante de sua fraqueza, o Doro, aquele mesmo colecionador de tampas de todos os tipos de garrafas e garrafões, o mesmo que é PhD em porra nenhuma, ao vê-la sucumbir à depressão, adiantou-se: Por essa eu perco a cabeça. E foi. Procurou maliciosamente agasalhá-la. Não sem jeito, tentou de tudo e, depois de tanto pelejar, quase desistindo, resolveu dar uma de Diderot, o que foi um santo remédio: curou-a com a leitura de livros pornográficos. Lá estava ela radiante às voltas com lalarilarás, só se abatendo diante da notícia de emboscada do seu algoz que foi encontrado crivado de balas, enfiado de cabeça pra baixo num buraco fundo do matagal e completamente desfigurado. Não que ela escondesse paixão ou quisesse vingança, não; era dela doer assim nela a dor dos outros, a ponto de deitar a cabeça aos ombros do amigo recém-encontrado. No começo, uma belezura; com o passar do tempo, verdadeiro tormento, dele cantar para si como o sapo desastrado: Léu, léu, léu, se eu desta escapar, nunca mais festa no céu! Quem passava por eles logo dizia: Tome, bem empregado!

 


Tropeços pelos paradoxos... - Imagem: Untitled (Mylar and hot glue, dimensions variable 2011), da escultora estadunidense Tara Donovam. - As dores dela ecoou em mim, a ponto de sozinho, meu violão de nenhuma plateia, dedilhei sua soturnidade. Restei-me abatido. Sim, porque sempre me arrisquei entre o fértil e o estéril: o que há de incondicional no meio disso tudo, me levou constantemente a reformular tempespaço. Sei de mim coadjuvante apenas, embora protagonize o gesto da desconstrução a decompor dissimulações e dispersões outras dos trópicos: não sei se vale o quanto pesa as desdobradas. Ainda há pouco outro estampido seco e o sangue escorreu de alguém que se foi. Aqui fiquei onde era um poema do saudosamigo Jaci Bezerra, Tatuagem na água: No Recife me perco e me inauguro / pisando acácias e águas machucadas, / no bolso o sol ferido, um sol maduro / escorre, úmido, e acende a madrugada. / Uma árvore brota no meu peito impuro / acalentando a infância que, abismada, / brinca dentro de mim e dói no escuro / sempre por um menino acompanhada. / Nunca a essa cidade fui perjuro / nem nunca a reneguei, talvez por isso / ela me planta e aninha entre os seus muros, / e eu carrego em mim, arrebatado, / apodrecendo nos mangues dos seus vícios / e amando como se nunca houvesse amado. Foi aí que musiquei cantante A lavra da vida e aprendi o canto com a pedra de mó ouradarada para não dividir a vida e dá-la à pedra morta, enquanto ele rascunhava prefácio para A intromissão do meu verso púbere. Ao findar o canto, era a dor dela que ficara e levantei as vistas para presenciar a filósofa estadunidense Donna Haraway com sua acolhida: A vida é uma janela de vulnerabilidades. Ali me dei ao dia no que se fez noite. Ainda sorria mesmo me sentindo à beira do precipício. Sabia: não há felicidade possível neste momento. Só que ao lado dela, a bela Lucia Santaella solidária: Dilatada nessas extensões, é a própria sensibilidade do corpo humano que parece estar passando por uma mudança radical de escala, constituindo-se numa nova dimensão que extrapola a concepção e imagem que tínhamos de nós mesmos como humanos... E ao dito dela era como se eu voltasse ao ciclo do eterno retorno: a vida não para. Se eu me soubesse Fellini diria eu ser um grande mentiroso. Mas não, estava bem aconchegado entre elas, feliz nos livros que li, músicas que ouvi e me deixe levar, afinal: o provisório se eterniza e o compulsório vira pó. Até mais ver.

 

E mais:

CANTARAU & OUTRAS POETADAS

POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

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segunda-feira, maio 31, 2021

LECHIN, INÊS PEDROSA, LAFERRIÈRE, ANNA VINNITSKAYA & RECIFE

 

 

TRÍPTICO DQP – Uma, renascente a cada dia – Ao som Klavierkonzert in G-Dur zum, de Maurice Ravel, com a pianista russa Anna Vinnitskaya em Abschluss der Asien-Tournee des NDR Elbphilharmonie Orchesters. Es dirigiert der designierte Chefdirigent Alan Gilbert. - O dia amanheceu e é maravilhoso viver! Não sou mais o mesmo, outro sorriso, outras caminhadas: um malabarista na corda bamba e no jazz. Sei que é outro dia, nova data, mas se me parece ontem ou anteontem. E o sorriso da Inês Pedrosa reafirmava que estávamos no século XXI: ...espero que seja o século do desaparecimento do gênero, ou seja, o século da invenção da paridade entre homens e mulheres. Quase que esqueci com o seu sorriso que tem gente que vive noutros séculos passados, enquanto eu retornava à estaca zero, recomeçava sempre, todos os dias. E Dany Laferrière me dizia: Nenhum retorno é temporário... Como a gente não sabe a data de nossa morte, não temos como saber o que é de fato temporário.... população viva em uma diáspora. Sigo adiante, teimosia minha e a vida como êxodo: de cara pro caos, viver em areias movediças. Renascente a toda hora, em todos os momentos, a cada dia todos os dias.

 


Duas, escapando do genocídio – A notícia era o zunzum de cochichos: cheio dos quequeos, meteu-se em bravata, vingou-se esfaqueando a amásia e, num acesso de raiva extrema, enfiou o dedo no cu, assoprou forte e entrou em combustão! Como é que é? Isso mesmo. Nem deu tempo dos milicos pegar o tal corcunda glutão, prendê-lo e atirá-lo num camburão. Restou um tolotinho de nada dele. Ela estava só pele e osso, botou os bofes pela boca, sugada pelo astuto. Morreu? Evidentemente. E o réu? O cara era tão pirangueiro, que nem deu para transportar sua desgraça pro calvário. Dizia não ter tempo nem para respirar, quanto mais pruma diversão, só atos repulsivos. Que história é essa? Foi, já deu. É peta! Estão falando. Mas, ô Doro, como é que você está escapando da pandemia? Oxe, eu tomo os cachetes da cloroquina e daquele outro pra lombriga, dia sim, dia não. Mas não protege nada! Ah, tem vacina por acaso? Está faltando. Pois tá, o Coisonaro falou, tá dito, ele é o mito! Das costas ocas? Nada, você já viu ele tossir, tá cheio de gogo nos broncos lá dele, meu! Vixe! É cada uma que dá dez! Dou onze, só não dou mais porque a madama me botou de casa pra fora! Por qual motivo? Ela mandou eu lavar os penicos do cagador no banheiro, não fui. Oxe! E aí? Já viu homem limpar merda? Já. Onde, só se for esgotando fossa. Não, ajudar nos serviços domésticos não tira a homência de ninguém! A-rá, isso é papo de oposição, comunista da porra! Vôte! Fazia coro ao Belfagor do Maquiavel, só sendo misógino! Mais falava como se saísse daquele clube secreto de A gula do beija-flor (Bertrand Brasil, 2006), do escritor boliviano Juan Claudio Lechin: ...historicamente apenas a presença da mulher fez o homem gaguejar, desviar o olhar e estremecer... É verdade, meu! Nada. Concordo com aquela de que violá-las dou o caminho da liberdade... Só se for o caminho da casa da peste, seu folgado! Eu mesmo me aproveito delas: Um doente sempre comove as mulheres. Cada uma delas tem uma enfermeira do por dentro. Para ele, isso é amar as mulheres, fodendo beldades na solidão da punheta! E você acha isso justo? Ah, meu, qual é a sua, de qual lado você está? E saiu mais puto que antes.

 


Três, o Recife: “...entre as palmas dos coqueiros, meu amor, eu me lembro”... (ao som de Coqueiros, Geraldo Azevedo). – É noite no Recife, mesmo de dia – como na pintura de Dani Acioli: De pecado o céu tá cheio! E aqui em baixo está tudo muito pior. Antes, havia o cheiro de sargaço e o que beirava os olhos dela era festa na pracinha do Diário. Hoje não mais, as trevas da barbárie. Não sei quando parti descalço, nem como foi que cheguei pela Imbiribeira e foi por ela que saí pro sul, choro da chuva solfejando a canção enquanto sangrava pelos quatro cantos. Sonhava cabelos soltos à espera de um disco-voador qualquer, outras paragens para quem restou qualquer sorte, expiando todas as culpas e penas infligidas. Sempre pus tudo a perder e quase nem havia tempo de piscar o olho, iminente encruzilhada, cada esquina ocupada sem ter nem como escapar. Era outro tempo e agora a polícia militar ainda solta cães, jatos de pimenta e tiros de borracha como se quisesse tapar a boca da multidão, abafar os gritos, esconder o genocídio. Alguém disse e é mesmo: sujeitos dessa têmpora padecem de problemas diversos, repressão, obscurantismo, estupidez. Não há como conter, o mundo era... o Recife.

 


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sexta-feira, janeiro 15, 2021

GAINES, TREFOSSA, NECHVATAL, TUNGA, NICOLELIS, PASSO TORTO & KATALIN KARIKÓ

 

 

TRÍPTICO DQC: BATENDO UMA REAL – EU & OUTROS EUS - Ao som do Concert Recorded Live Music Vault Fort Laudedale (2000), da soprano e atriz inglesa Sarah Brightman. - Às ruas vivalma alguma acena nem olá: sou paisagem desbotada - embora haja gente demais para lá e para cá, demais da conta. Recolho-me na ausência, nenhuma interlocução possível. Mesmo assim, na solidão ainda sonho muito, roncando ao sono ou olhos bem abertos. Ao despertar dou de cara: Doro, Zé Corninho, Magaiver, doutô Zé Gulu, Tolinho & Bestinha, Biritoaldo, enfim, a patota toda ali. Como é que pode? Digo pra eles: Ué, qual a de vocês aqui? Em uníssimo: Comemorar o Ano Novo, ora. Comemorar? Claro! Vocês não ouviram o Miguel Nicolelis: É uma Guerra! Que parte desta frase ainda não foi entendida pelos arautos do corporativismo de plantão que votaram no Pandemônio e não mexem um dedo para atuar no combate à Pandemia? Vocês não se solidarizam com a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado: A gente não está seguro. Não tem mais condições para artista, intelectual, professor, quem puder vai sair, porque a gente não está seguro na rua mais, não conseguimos exercer mais a profissão. Mais do que isso, as condições de minha permanência se tornaram arriscadas. Nem se deram conta do que disse a bioquímica húngara: Katalin Karikó: Nos últimos 40 anos, não tive nenhuma recompensa pelo meu trabalho, nem mesmo um tapinha nas costas. Não preciso disso. Sei o que faço. Sei que é importante. E estou muito velha para mudar. Isso não me subiu à cabeça. Não uso joias e tenho o mesmo carro velho de sempre. Num é essa a da vacina? Sim, ela mesma. Eita! Vocês não se deram conta ainda das centenas de milhares de mortos pela sindemia e pelo desgoverno do Fecamepa na estupidez coisonária ainda não, foi? Não há o que comemorar! Hora de ouvir o escritor estadunidense Ernest Gaines (1933-2019): Não tenho mais nada a dizer, exceto isto: devemos viver com nossa própria consciência. E vamos aprumar a conversa!

 


DOIS: FALA, ESCUTO; DIGA, OUÇO - Ao som de Passo torto, de Armando Lôbo, com o octeto da Orquestra Sinfônica Brasileira – Últimos dias, tantas coisas boas. Dei de lembrar: o primeiro contato com a música se deu ainda menino, ao me deparar com repentistas no meio da feira – coisa dos improvisos duma dupla na embolada e desafio. Quando soube disso, meu pai trouxe uma penca de livros, cordéis e discos de muitos cantadores, apresentou-me à obra de Luís Gonzaga e me iniciou na audição das dores de cotovelo dos boêmios e no Choro. Era ainda molecote de nem dez anos ainda, do outro lado dos parentes o ouvido pegava ligado em Bach e Mozart, sinfonias, óperas e quantos concertos. Seguia inquieto com a descoberta do jazz e do rock progressivo, não perdendo uma sequer da Bossa Nova e das músicas de protestos que saltavam dos festivais. De lá pra cá, muita coisa boa, gente! Surpreendido aqui e ali ouvia disso, adolescendo; curtia aquilo, amadurecendo; e mais daquiloutro dos vinte aos trintanos, Tom&Sons, temas e trilhas doutros acordes e notas, claves & timbres, do ouvido à pauta neo&póstudo dos oitenoventas para dois mil e lá vai teibei! O que ouvia, experimentava; e daí experienciava; cada uma melhor que a outra, vivenciava. Até que chegou o Neto – é assim que gosta de ser chamado – e me levou cabeça a mil, tortos passos & mãos inquietas num tríptico versicular, intitulado Por que não um rap/ente stravinskiano?: Quando fala, escuto; ao dizer, ouço. O preconceito não resiste ao plural. Somos um e muitos outros. Então, vamos, assim a vida, como na Gronamma/Mãe Terra, do surinamês poeta Henri Frans de Ziel (1916-1975), dito Trefossa: Eu não sou eu / enquanto meu sangue / não se misturar por ti / nas milhares de veias de meu corpo. / Eu não sou eu, / enquanto minhas raízes / não se fincarem, não se atirarem / ao seu coração, minha mãe terra. / Eu não sou eu, / enquanto eu não estiver pronto, / para esconder e para carregar, / sua efígie em minha alma. / Eu não sou eu, / enquanto você não gritar, / de prazer e dor / em minha voz. Afinal, somos um e muitos outros.

 


TRES: ESCURANOITECENDO E ELA... - Ao som da ViralSymphOny (2006/08) & imagem de Orlando et la tempête (2020), ambas do artista pós-conceitual, compositor, poeta, teórico e crítico de arte estadunidense, Joseph Nechvatal. - Qualquintal piso folhagalhos corachão. Eleraubíqua mesmo distanciainda, quem dera SoLueclipsada. E a solidão Orlando há tempos vista Woolf: Sinto que com certeza enlouquecerei novamente. Não há passos que foram ou vão e venham, o corpespera as mãos afagamantes, como se dela Edith Wharton me desse: Vivemos em nossas próprias almas como em uma região não mapeada, alguns acres dos quais limpamos para nossa habitação; enquanto da natureza daqueles que estão mais próximos de nós conhecemos, mas as fronteiras que marcam com as nossas... para que não me seja dito Osip Mandelstan: Nós vivemos, mas não sentimos a terra abaixo de nós. Dez passos de distância e nossas palavras não podem ser ouvidas. Por isso é preciso que chegue logo e bem perto, ah, quem me dera dela a noite inteira para amanhecer em mim todos os dias. Até mais ver.

 

A ARTE DE TUNGA: RIO DE JANEIRO OU PALMARES?

O primeiro pensamento que eu coloco é que precisamos acreditar em alguma coisa ou em alguém ou em um fato. O nascimento sempre tem uma testemunha escrita ou um relato. E eu devo acreditar nessas testemunhas, certo? E se eu tiver dois depoimentos contraditórios? Posso acreditar nos dois? Onde vou parar se seguir duas pistas diferentes? Estou levando esta questão a um grau bastante consequente. Quando digo que nasci em dois lugares diferentes, estou levando estas questões a um grau bastante consequente. É paradoxal, mas pode ser uma situação interessante para se investigar. O que representa nascer duas vezes? Podemos efetivamente nascer e renascer. E este renascer não necessariamente vai significar um nascer novo, mas um nascer somado a outro anterior, e vamos continuamente renascendo em versões diversas. É expandir as experiências e a veracidade delas. Eu acredito na vida.

A arte do premiado escultor, desenhista e artista performático Tunga - Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão (1952-2016), que foi o primeiro artista contemporâneo e o primeiro brasileiro a ter uma obra exposta no icônico Museu do Louvre, em Paris, além de obras em acervos permanentes de museus, como o Guggenheim, de Veneza. Seus trabalhos são resultados de investigações literárias, psicanalíticas, filosóficas, teatrais e científicas, carregadas de simbolismo. Realizou o vídeo Nervo de Prata, em parceria com Arthur Omar, e é autor de obras, a exemplo de Preliminares do palíndromo incesto, todas reunidas em vídeo no Tunga: 100 redes e tralhas (1997), de Roberto Moreira; no livro Tunga: Barroco de Lírios (Cosac & Naify, 1997), e na caixa Tunga (2007), reunindo sete volumes de diferentes formatos que documentam a trajetória do artista. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


 


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...