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domingo, novembro 20, 2022

EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

 

 Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel, com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina finlandesa Dalia Stasevska.

 

TRÍPTICO DQP: - A solidão do poema... - A lenha da palavra e a combustão da ideia: a fogueira da poesia. A cidade é uma penumbra asfixiante, mais parece a nuvem tóxica de Nova Delhi. Emma Lazarus surpreende a caminhada: Então a Natureza moldou o coração de um poeta - uma lira/ de cujos acordes a brisa mais leve que sopra / deu uma música trêmula... Olhos escondidos perseguem a minha clausura andeja. Confesso arrasado na rotina ordinária, renegado pela intolerância e mediocridade. Quantas aspirações, fingimento, privações. Era como se eu fosse o lenhador de fadas com a missão secreta d’O Golpe de Mestre do Fairy Feller de Richard Dadd: a imaginação cheia ao deitar por malograr no atentado ao papa e o parricida esfaqueando o demônio a mando de Osíris entre fadas e gramíneas, gnomos e flores, elfos e o machado pronto para o golpe na castanha; a libélula ao trombone para a rainha Mab com seus centauros, o menino e o monge anão com outros mágicos, uma aranha tecelã, o lavrador e o político dos patriotários, o dândi de fada por cima da ninfa, um pedagogo agachado, duas empregadas e um sátiro, um esfarrapado e o bisbilhoteiro, as crianças nas margaridas e uma nova carruagem para a realeza dos sonhos de Oberon e Titânia, nos sonhos de uma noite de verão de Shakespeare. Lá iam as investidas criminosas e a disrupção psicótica para enlouquecer com o Queen nas xilogravuras do Clique, as vozes instigantes e as gargantas cortadas, o non compos mentis como na narrativa do Perceval de Bateson e o fetiche por ovos e cerveja. Senti na pele o doloroso pesadelo, não era eu e só despertei com Marguerite Yourcenar: Creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se construir um destino... Também duvido da minha sanidade, talvez eu seja um perigo paratodos, resta a companhia de mim mesmo, não há saída: a vida reduzida ao poema e nada mais...

 

O grito rasga o dia... – Imagem: Arte do escultor, pintor, gravador e professor Rubem Valentim (1922-1991). - Tudo parece em ordem, mas não está. O que previsivel diante do inesperado? Não era apenas afeto ou asco, nem apenas heroi ou vilão no conflito entre pícaros – quem se aceita a si mesmo? Passado e presente embaralhados: o heroi sem carater, o golpista dissimulado e o céu de vermelho-alaranjado com o silêncio desesperador e seus fantasmas. Os amigos se foram e eu fiquei com o toque de melancolia, o grito de Munch: o fracasso do amor e a alienação dos outros. Assim a existência com suas perdas, a tristeza das doenças, a ansiedade e a morte, o socorro agozinante e a vida real na Noite da rua Karl Johan - eliciadores do medo e a revivescência, os nervos à flor da pele, ameaças e quantos pretextos para viver as muitas versões: A dança da vida em Åsgårdstrand e lá estava o friso da vida na Madonna nua e feita de Amor e dor - era Marina Abramović como Selma Lagerlöf: Ninguém pode livrar os homens da dor, mas será bendito aquele que fizer renascer neles a coragem para a suportar. A alegria é a dor que se dissimula - à face da Terra só existe a dor. Como reconciliar eu não sei, só se um OVNI viesse abduzir-me com a supressão da memória, mesmo que os erros batessem à porta e eu me esquecesse da paixão antiga pela tia – como se fosse antes da Revolução de Bertollucci, nem lembrasse de quantos amores se perderam e nada mais pudesse viver de benéfico nem de venturoso. Seguir pelas pedras e rieiras...

 


Não estava só na loucura... - Imagem: arte da artista visual Gio Simões, que se dedica ao desenho, à pintura e à fotografia. – Lá estava ela como se fosse a Dormeuse aux persiennes de Picasso: desligada de tudo, cansada e recolhida em si mesma. Olhou-me com surpresa e me disse Don DeLillo: A loucura é tão pessoal. É difícil saber quem compartilha nossos segredos... Logo abriu o jogo e fez-se tagarela inquieta, atormentada. Era como se sobrevivesse às lembranças da infância – o estupro de menina e o casamento falido dos pais, ela tragada como se protagonizasse If Only Alcyone Would Wake, de Joan Rodriguez. Insistia nua para lá e para cá: precisava acordar e assumir o controle de sua vida depois da depressão pós-parto – a lembrança dos seus dois lindos filhos, a sua infância com o conforto da arte na solidão e mais tamponava a dor na ideação suicida. Não poderia, jamais. Mais uma vez fitou-me severa e insistia em dizer que teve medo com a sua história despedaçada, precisava esquecer suas raízes, a escravidão disfarçada, fantasiar o presente sem que precisasse da aceitação ou recusa, e reiteradamente disse que nunca revelaria o seu segredo, pois, condenada a viver na escuridão. De repente se fez Nadine Gordimer: Eu sou a chama de uma vela que balança em correntes de ar que você não pode ver. Você precisa ser aquele que me firma para queimar. Eu falhei em muitas coisas, mas nunca tive medo. Todo mundo acaba caminhando sozinho em direção a si mesmo. Minha resposta é: Reconheça-se nos outros... Ah, não, era preciso cuidar dela, assim me fiz e nela do pesadelo à fantasia viva de amar. Era mesmo preciso, não estava só nas minhas andanças, uma vez mais e a vida. Até mais ver.

 


[...] Avaliar é indispensável em toda atividade humana e, portanto, em qualquer proposta de educação [...] A avaliação é inerente e imprescindível, durante todo processo educativo que se realize em um constante trabalho de ação-reflexão-ação [...] Precisamos, então, fazer com que nossa prática educacional esteja conscientemente preocupada com a promoção da transformação social [...] avaliar não pode ser um ato mecânico nem mecanizante para que possamos contribuir para a construção de competência técnicas sócio-política-culturais. [...].

Trechos extraídos da obra Avaliação: novos tempos, novas práticas (Vozes, 1998), do professor e pesquisador Edmar Henrique Rabelo. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



segunda-feira, maio 31, 2021

LECHIN, INÊS PEDROSA, LAFERRIÈRE, ANNA VINNITSKAYA & RECIFE

 

 

TRÍPTICO DQP – Uma, renascente a cada dia – Ao som Klavierkonzert in G-Dur zum, de Maurice Ravel, com a pianista russa Anna Vinnitskaya em Abschluss der Asien-Tournee des NDR Elbphilharmonie Orchesters. Es dirigiert der designierte Chefdirigent Alan Gilbert. - O dia amanheceu e é maravilhoso viver! Não sou mais o mesmo, outro sorriso, outras caminhadas: um malabarista na corda bamba e no jazz. Sei que é outro dia, nova data, mas se me parece ontem ou anteontem. E o sorriso da Inês Pedrosa reafirmava que estávamos no século XXI: ...espero que seja o século do desaparecimento do gênero, ou seja, o século da invenção da paridade entre homens e mulheres. Quase que esqueci com o seu sorriso que tem gente que vive noutros séculos passados, enquanto eu retornava à estaca zero, recomeçava sempre, todos os dias. E Dany Laferrière me dizia: Nenhum retorno é temporário... Como a gente não sabe a data de nossa morte, não temos como saber o que é de fato temporário.... população viva em uma diáspora. Sigo adiante, teimosia minha e a vida como êxodo: de cara pro caos, viver em areias movediças. Renascente a toda hora, em todos os momentos, a cada dia todos os dias.

 


Duas, escapando do genocídio – A notícia era o zunzum de cochichos: cheio dos quequeos, meteu-se em bravata, vingou-se esfaqueando a amásia e, num acesso de raiva extrema, enfiou o dedo no cu, assoprou forte e entrou em combustão! Como é que é? Isso mesmo. Nem deu tempo dos milicos pegar o tal corcunda glutão, prendê-lo e atirá-lo num camburão. Restou um tolotinho de nada dele. Ela estava só pele e osso, botou os bofes pela boca, sugada pelo astuto. Morreu? Evidentemente. E o réu? O cara era tão pirangueiro, que nem deu para transportar sua desgraça pro calvário. Dizia não ter tempo nem para respirar, quanto mais pruma diversão, só atos repulsivos. Que história é essa? Foi, já deu. É peta! Estão falando. Mas, ô Doro, como é que você está escapando da pandemia? Oxe, eu tomo os cachetes da cloroquina e daquele outro pra lombriga, dia sim, dia não. Mas não protege nada! Ah, tem vacina por acaso? Está faltando. Pois tá, o Coisonaro falou, tá dito, ele é o mito! Das costas ocas? Nada, você já viu ele tossir, tá cheio de gogo nos broncos lá dele, meu! Vixe! É cada uma que dá dez! Dou onze, só não dou mais porque a madama me botou de casa pra fora! Por qual motivo? Ela mandou eu lavar os penicos do cagador no banheiro, não fui. Oxe! E aí? Já viu homem limpar merda? Já. Onde, só se for esgotando fossa. Não, ajudar nos serviços domésticos não tira a homência de ninguém! A-rá, isso é papo de oposição, comunista da porra! Vôte! Fazia coro ao Belfagor do Maquiavel, só sendo misógino! Mais falava como se saísse daquele clube secreto de A gula do beija-flor (Bertrand Brasil, 2006), do escritor boliviano Juan Claudio Lechin: ...historicamente apenas a presença da mulher fez o homem gaguejar, desviar o olhar e estremecer... É verdade, meu! Nada. Concordo com aquela de que violá-las dou o caminho da liberdade... Só se for o caminho da casa da peste, seu folgado! Eu mesmo me aproveito delas: Um doente sempre comove as mulheres. Cada uma delas tem uma enfermeira do por dentro. Para ele, isso é amar as mulheres, fodendo beldades na solidão da punheta! E você acha isso justo? Ah, meu, qual é a sua, de qual lado você está? E saiu mais puto que antes.

 


Três, o Recife: “...entre as palmas dos coqueiros, meu amor, eu me lembro”... (ao som de Coqueiros, Geraldo Azevedo). – É noite no Recife, mesmo de dia – como na pintura de Dani Acioli: De pecado o céu tá cheio! E aqui em baixo está tudo muito pior. Antes, havia o cheiro de sargaço e o que beirava os olhos dela era festa na pracinha do Diário. Hoje não mais, as trevas da barbárie. Não sei quando parti descalço, nem como foi que cheguei pela Imbiribeira e foi por ela que saí pro sul, choro da chuva solfejando a canção enquanto sangrava pelos quatro cantos. Sonhava cabelos soltos à espera de um disco-voador qualquer, outras paragens para quem restou qualquer sorte, expiando todas as culpas e penas infligidas. Sempre pus tudo a perder e quase nem havia tempo de piscar o olho, iminente encruzilhada, cada esquina ocupada sem ter nem como escapar. Era outro tempo e agora a polícia militar ainda solta cães, jatos de pimenta e tiros de borracha como se quisesse tapar a boca da multidão, abafar os gritos, esconder o genocídio. Alguém disse e é mesmo: sujeitos dessa têmpora padecem de problemas diversos, repressão, obscurantismo, estupidez. Não há como conter, o mundo era... o Recife.

 


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GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.

    Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...