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sexta-feira, junho 04, 2021

LORCA, TERRA, THOMAS MANN, NAZARÉ PACHECO, DAVID SOLÍS & JAMES CANTARELLI

 

 

TRIPTICO DQP – Uma: Longa jornada do espelho... - Lá vou eu e qual não foi minha surpresa: não apareci. Ué, ou virei vampiro ou fiquei invisível. Podia ser pior: dar de cara com o Dorian Gray do Oscar Wilde, ou com O retrato profético de Giovanni Papini. Tá. Sei que entre os muitos e tantos eus, a maioria é uma patetada inconsequente que, vez em quando, bato uma real. Ou algumas sábias mulheres, na verdade, filhas da dor. Dessa vez não, nem Narciso nem outro duplo qualquer. Fiquei com meus botões. E já ia saindo, vôte! Apareceu um mandão estúpido cheio de ordem: Venha cá, seu comunistinha safado! Hem? Sou candidato a presidente e muito macho, quer você vote em mim ou não, seu porra! Pronto, agora deu! Não basta o tresloucado Coisonário, agora mais este! E arriou o maior blábláblá de homofobia, intolerância e logística. Danou-se! E quanto mais ele exacerbava na macheza, mais desmunhecava: Sai do armário, ou melhor, sai do meu espelho, infeliz das costas ocas. Não adiantou, horas alugando minha paciência, deixei falando sozinho. Cada uma que me aparece. Mas, fui pesquisar: era o General Babu, filho de militar, alistou-se no exército, atravessou as patentes e logrou êxito, casou-se e teve uma única filha: Estou fraco! Pegou jeito copiando as manias da repressão golpista de 1964 e isso mais de 20 anos depois da redemocratização. Vivia caçando esquerdista onde lhe desse na telha, haja neurose. Certa feita ele foi convocado pra caçar uns guerrilheiros rebeldes (hum!?!) que haviam furado o cerco e badernavam na maior desmoralização, isso em pleno século 21, pode? Como não conseguia dar cabo dos infratores, rapou fogo e a fuzilada cantou de deixar tudo mais furado que tabuleiro de pirulito. Foi lá conferir: entre os metralhados, Deus do céu, estava sua filha, estudante de Medicina, 19 anos de idade. Vai ver.

 


Duas: As paixões e o segredo de viver... – Arte da artista visual Nazaré Pacheco – A cena: ela debutou há dois anos, só queria amar, ser mãe, sair do jugo do pai e viver feliz livre. Ele, magrelo de vintanos, cheio de amor para dar, jurava a paixão pra vida eterna. Beijos e arrochados sarros até as vias de fato, dela emprenhar três meses depois: Vou ser mão, estou grávida, u-hu! Ele passou sebo nas canelas, deu uma pinotada de nunca mais dar o ar da graça. Depois de umas mãozadas e outras tantas cinturãozadas, foi botada de casa pra fora por ter perdido a virgindade. Pronto, desgraça feita. Ir pra onde? Deu pra esconder o bucho por um bom tempo, depois não teve mais jeito: pariu entre indigentes. Quase morria ela e a filha de inanição. Ficou meio lá, meio cá. Nem sabia em que parte do mundo estava. Foi recolhida, parece, por uma beneficência dessa religiosa, na maior corda bamba. Quando tomou pé na vida, estava sem a filha e desacordada num matagal. Gosto de sangue na boca, calombo sangrando na cabeça, estropiada pela violência, as pernas bambas, o corp0 moído do abuso, o que fazer na vida? Seguiu pela estrada atrás da filha.

 


Três: A vida é sagrada... – Ao som de Earth, instrumental do pianista mexicano David Solís - Estava com a boca cheia d’água de tão maravilhado com A diva de Juliana Notari, quando ouvi o escarcéu dos que não leram Plantas da nossa terra: um olhar sobre a flora pernambucana (Autor, 2010), do engenheiro agrônomo e mestre em Botânica, James Cantarelli, de logo ficar estarrecido. Um bando de falocratas pervertidos que professam a sua fé enquanto tocam fogo nas matas e cultuam o deus açucarocrata, hipócritas que envenenaram tudo com o seu autoenvenenamento. Sou da Terra Alma Caeté e não sei onde vamos parar com a fúria consumista. O que sei é que não perdi a esperança, porque sei reiteradamente de Lorca: O mais terrível dos sentimentos é o sentimento de ter a esperança perdida. Mas também sei que Thomas Mann me avisou: Uma das situações da vida mais cheia de esperanças é aquela em que estamos tão mal que já não poderíamos estar pior. Enfim, sou da Terra e a ela me dou. Até mais ver.

 


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segunda-feira, maio 31, 2021

LECHIN, INÊS PEDROSA, LAFERRIÈRE, ANNA VINNITSKAYA & RECIFE

 

 

TRÍPTICO DQP – Uma, renascente a cada dia – Ao som Klavierkonzert in G-Dur zum, de Maurice Ravel, com a pianista russa Anna Vinnitskaya em Abschluss der Asien-Tournee des NDR Elbphilharmonie Orchesters. Es dirigiert der designierte Chefdirigent Alan Gilbert. - O dia amanheceu e é maravilhoso viver! Não sou mais o mesmo, outro sorriso, outras caminhadas: um malabarista na corda bamba e no jazz. Sei que é outro dia, nova data, mas se me parece ontem ou anteontem. E o sorriso da Inês Pedrosa reafirmava que estávamos no século XXI: ...espero que seja o século do desaparecimento do gênero, ou seja, o século da invenção da paridade entre homens e mulheres. Quase que esqueci com o seu sorriso que tem gente que vive noutros séculos passados, enquanto eu retornava à estaca zero, recomeçava sempre, todos os dias. E Dany Laferrière me dizia: Nenhum retorno é temporário... Como a gente não sabe a data de nossa morte, não temos como saber o que é de fato temporário.... população viva em uma diáspora. Sigo adiante, teimosia minha e a vida como êxodo: de cara pro caos, viver em areias movediças. Renascente a toda hora, em todos os momentos, a cada dia todos os dias.

 


Duas, escapando do genocídio – A notícia era o zunzum de cochichos: cheio dos quequeos, meteu-se em bravata, vingou-se esfaqueando a amásia e, num acesso de raiva extrema, enfiou o dedo no cu, assoprou forte e entrou em combustão! Como é que é? Isso mesmo. Nem deu tempo dos milicos pegar o tal corcunda glutão, prendê-lo e atirá-lo num camburão. Restou um tolotinho de nada dele. Ela estava só pele e osso, botou os bofes pela boca, sugada pelo astuto. Morreu? Evidentemente. E o réu? O cara era tão pirangueiro, que nem deu para transportar sua desgraça pro calvário. Dizia não ter tempo nem para respirar, quanto mais pruma diversão, só atos repulsivos. Que história é essa? Foi, já deu. É peta! Estão falando. Mas, ô Doro, como é que você está escapando da pandemia? Oxe, eu tomo os cachetes da cloroquina e daquele outro pra lombriga, dia sim, dia não. Mas não protege nada! Ah, tem vacina por acaso? Está faltando. Pois tá, o Coisonaro falou, tá dito, ele é o mito! Das costas ocas? Nada, você já viu ele tossir, tá cheio de gogo nos broncos lá dele, meu! Vixe! É cada uma que dá dez! Dou onze, só não dou mais porque a madama me botou de casa pra fora! Por qual motivo? Ela mandou eu lavar os penicos do cagador no banheiro, não fui. Oxe! E aí? Já viu homem limpar merda? Já. Onde, só se for esgotando fossa. Não, ajudar nos serviços domésticos não tira a homência de ninguém! A-rá, isso é papo de oposição, comunista da porra! Vôte! Fazia coro ao Belfagor do Maquiavel, só sendo misógino! Mais falava como se saísse daquele clube secreto de A gula do beija-flor (Bertrand Brasil, 2006), do escritor boliviano Juan Claudio Lechin: ...historicamente apenas a presença da mulher fez o homem gaguejar, desviar o olhar e estremecer... É verdade, meu! Nada. Concordo com aquela de que violá-las dou o caminho da liberdade... Só se for o caminho da casa da peste, seu folgado! Eu mesmo me aproveito delas: Um doente sempre comove as mulheres. Cada uma delas tem uma enfermeira do por dentro. Para ele, isso é amar as mulheres, fodendo beldades na solidão da punheta! E você acha isso justo? Ah, meu, qual é a sua, de qual lado você está? E saiu mais puto que antes.

 


Três, o Recife: “...entre as palmas dos coqueiros, meu amor, eu me lembro”... (ao som de Coqueiros, Geraldo Azevedo). – É noite no Recife, mesmo de dia – como na pintura de Dani Acioli: De pecado o céu tá cheio! E aqui em baixo está tudo muito pior. Antes, havia o cheiro de sargaço e o que beirava os olhos dela era festa na pracinha do Diário. Hoje não mais, as trevas da barbárie. Não sei quando parti descalço, nem como foi que cheguei pela Imbiribeira e foi por ela que saí pro sul, choro da chuva solfejando a canção enquanto sangrava pelos quatro cantos. Sonhava cabelos soltos à espera de um disco-voador qualquer, outras paragens para quem restou qualquer sorte, expiando todas as culpas e penas infligidas. Sempre pus tudo a perder e quase nem havia tempo de piscar o olho, iminente encruzilhada, cada esquina ocupada sem ter nem como escapar. Era outro tempo e agora a polícia militar ainda solta cães, jatos de pimenta e tiros de borracha como se quisesse tapar a boca da multidão, abafar os gritos, esconder o genocídio. Alguém disse e é mesmo: sujeitos dessa têmpora padecem de problemas diversos, repressão, obscurantismo, estupidez. Não há como conter, o mundo era... o Recife.

 


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GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.

    Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...