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sábado, setembro 19, 2026

TATIANA DE ROSNAY, VERONIKA KIVISILLA, NIALL FERGUSON & MARIA LAURA LOPES

 

Imagem: Fluxo dos devires, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.



 

Fábula porcina na cabeça!... -  Piau ali, viola ao peito, alentava: Vou ser artista! E foi. Logo amealhou a simpatia da Tannakin Skinker, que estava louca pra casar - foi maior puxa-encolhe, óinc-óinc, teibei! Depois, os mimos da rubicunda e endeusada Varahi do Nepal. E disso, ora, foi um salto para a tietagem de farroupos, leitãozinhos, leitoazinhas, varrões, matrizes, cerdos, chanchos, perdigotos, marrãs, javalis, chacins, catetos e queixadas. Fez sucesso até como minipig entre os simpatizantes suínos e a Henwen pelas Tríades Galesas. Engrossou o grunhido da vara com os achegamentos da perfumada Marie Darrieussecq. Daí vieram mais com Ceridwin, quando foi ungido pela reencarnada Dorje Pakmo que era Sera Kandro, a gloriosa Durga, aos guinchos dos aplausos efusivos de Bola de Neve e do gordo Piggy de Golding. Foi tomado por Artemis, no meio do maior ronar espalhafatoso da suinaria. E foi eleito pelo Landrace como o maioral da porcada toda! O Large White levou-o para a oferenda de Ceres e o Pietrain além dos alfeires, para ser embalado pela Demeter nas Tesmoforias. Logo recebeu elogio do Marcial: Esse irá proporcionar uma grande Saturnália! Logo passou a ser cultuado pelos sino-vietnamitas, sagrado pelos de Creta e representante lídimo da ataraxia e aponia do rebanho de Epicuro. No meio do maior persigal, o Velho Major dava as ordens, organizando o teitei. Tornou-se o roliúde mesmo, quando o agalegado Duroc estrondou com veemência com seus abastados sifrões saindo dos bolsos: Você é meu e será o maior do mundo! Êêêêêê! Agora vai. Em confidência com o Moura, no meio do tumulto, Piau segredou: Nunca tinha visto mais gordo! É o manda-chuva, sempre esteve aqui! Mesmo? Ora, se. Foi quando descobriu o que era escorregar por ter levado rasteira numa passada de perna, cama-de-gato, enrolações, maracutais, falcatruas. O que virá pela frente, hem? Só Deus sabe... E lá vinha a puxada da corda-de-guaiamum, o enterro voltando. E aí, xará? Ficou para amanhã ou depois. Vixe! Que é que é isso? Ninguém é inocente! E escapou da piara pelo erudito Learned de Bisset: Precisamos fazer alguma coisa! Hem? Logo foi surpreendido com a companhia nababesca da imperatriz de Blandings de Wodehouse: foram sequestrados. Mas que porra é essa? A ameaça em riste, a emboscada. Nas paradas, o fã clube histérico - não faltava mais doido neste mundo! Oxe, tem mais estúpido esborrando por aí. O tempo foi passando no cativeiro e o Zhu Bajie chamou a todos pra jornada de Wu Cheng'em! Ora, vamos é pra cidade de Platão, aqui não tem segurança alguma! Sonhavam com Grizedale, Swilland, Swindon e Swineford. É uma fraude! Todos caíram na lábia do grulha Garganta e a mentira venceu. Era o golpe de Napoleão: a repressão e o terror, uma ditadura medonha. A coisa degringolou mesmo quando baixaram o 1º Ato Institucional antes doutros 5 e Jude tentou matar a criação de Thomas Hardy: Que brutalidade! E piorou com a punição de Twrch Trwyth e do guru sábio Brihaspati. Como é que pode! Tudo comunista! E o julgamento e a condenação do de Pont-de-l'Arche ao enforcamento. Lascou. Bola de Neve foi banido, o Sucio sequestrado e o trio Alexander, Pigling Bland e Pig-wig foram pegos. Ué, num foram só no mercado? Ora, foram trancafiados, subversivos! Eita! Robinson também, as tias de Beatrix às lamúrias. O demônio Hiranyaksha, com seus olhos verdes, foi jogado nas profundezas do mar, sob o pretexto de salvar o Mundo, o que não era, de fato era trapaça, na verdade. Ah! E as pocilgas ficaram abarrotadas por muitos canastras de Saint-Hilaire e os tantos que chegavam aos milhares de Etrúria - todos amaldiçoado pela Odisseia dos amantes da feiticeira Circe, a maga, no lodo dos fragmentos de Heráclito. E agora? Do lado de fora Nut amamentava sua prole, engolia os astros matutinos e os cuspia ao crepúsculo. A vida seguia com a esperança no espinho do dilema de Schopenhauer, o inventor do fogo dos kikuyus e dos poderes divinatórios dos ekois da Nigéria do Sul. Ouviram zunzunzum: Pigs on the Wing... Voam o céu de Clazomenae? Se voam é sinal de perigo às escondidas. Estamos no ponto cego? A oracular Hen Wen de Lloyd Alexander deu o tom da tragédia: Depois da engorda, cevados serão todos abatidos, a festa comensal do sacrifício: a matança! O mata-bicho da cabeça aos pés, tudo aproveitado: o sangue para morcelas, gordura para conservas, carnes para defumação; imobilizados, sangrarão e serão chamuscados para raspá-los e preparar a desmancha: as linguiças de Nuremberg, as tortas de Melton Mowbray, a mortadela de Bolonha e Modena, na acrasia do ceticismo pirrônico pelos bacons, presuntos, salsichas, salames, torresmos, pururucas. Que situação! Columela gritou: Se deixá-los beber água, a carne estraga! E serviram a Manannan, como se fossem Saehrimmir das Valquírias, que os tornava mágicos para serem ceifados todos em um só dia e, no dia seguinte, renasciam e estavam prontos de novo para serem abatidos e consumidos, com uma maçã na boca para a celebração do Yuletide e pros banquetes de Alexandre Grande, a fortuna dos Matarazzos e findarão apenas efígies de moedas da Gália antiga ou nos cofrinhos do Euricão ou de Java, da Cosa coreana, ou do Feng Shui. A lavagem entupia os chiqueiros abominados pelos quirquizes, a maior porcaria. Ficaram para trás. Vale a pena viver? Alguém reclamou: É tudo muito horrível, todos são detestáveis, como achar qualquer coisa ótima neste estado de coisas? Piau fez um muchocho e ouviu: Você é quase uma boa risada, mas, na verdade, você é de chorar, Pink Floyd! Que Elédè de Obaluaiê nos redima! Olha a hora do Bagá! A vida passa, a Terra em transe, pálin!... Até mais ver.

 

T.S. Eliot: Somente aqueles que se arriscam a ir longe demais podem descobrir até onde se pode ir... Não cessaremos de explorar, e o objetivo final de toda a nossa exploração será chegar ao ponto de partida e conhecer o lugar pela primeira vez... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Cherríe Moraga: A passagem é através, não por cima, não ao lado, não em torno, mas através... Lembre-se de que você vive em uma comunidade. Você tem a responsabilidade de prestar contas à sua família, à sua comunidade e a si mesmo... A revolução começa em casa... Veja mais aqui.

William Faulkner: Nunca tenha medo de levantar a sua voz em defesa da honestidade, da verdade e da compaixão contra a injustiça, a mentira e a ganância. Se as pessoas em todo o mundo fizessem isso, o mundo mudaria... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

[ESTOU EM CASA À ESPERA DE UM DEUS]

Imagem: Acervo ArtLAM.

Estou em casa à espera de um deus \ à espera junto a uma janela aberta \ o meu próprio pequeno deus \ que deve estar chegando em casa agora mesmo \ os cômodos estão arejados \ uma refeição simples, feita de quase nada, solta fumaça sobre a mesa \ à nossa espera \ (é fim de mês e minha carteira \ também foi efetivamente arejada) \ mas sei que \ o vazio é muitas vezes uma bênção \ e o pouco é tudo \ e lá vem o meu deus pequenino \ com tudo esvoaçando ao seu redor \ em alegre despreocupação \ abas do casaco, cadarços do tênis, cachecol, mochila \ aberta e escancarada \ ele arrasta um graveto pelas estacas da cerca \ e elas cantam \ e só um deus pequenino \ sabe fazer tal música \ ele entra \ e vejam só: traz uma casquinha de sorvete \ enfeitada com agulhas tenras de pinheiro \ diz que é porque sabe: \ é bom quando algo não é apenas doce \ mas também um pouco azedo e amargo \ e então ele me conta \ sobre esquilos, gaios e tico-ticos \ e sobre como brinca de um jogo secreto \ que eu também brincava \ lá quando eu era uma deusa pequenina: \ se você vir um pica-pau \ será um bom dia \ contamos um ao outro exatamente as mesmas  histórias \ repetidas vezes \ e nunca nos cansamos delas \ "mamãe, conta de novo \ como foi segurar o dom-fafe \ quando ele bateu na janela da cozinha, aquela vez, \ e ficou caído no chão, inconsciente" \ Eu o observo e penso: \ meu deus cresceu \ jogou as meias num canto \ e, sozinho, tenta tirar com determinação \ lascas do dedão do pé usando uma pinça \ mas esse deus ainda não gosta de lavar os pés \ vejo isso à noite, quando ele dorme \ as solas arranhadas despontando debaixo do cobertor \ mas isso não me impede \ de me curvar e beijá-las \ meu deus encolhe os dedos dos pés por um instante quando faço isso \ e depois continua dormindo profundamente \ enquanto eu permaneço na beleza desse movimento divino \ por um longo \ longo \ longo tempo.

Poema da poeta, cantora, instrumentista e crítica literária estoniana Veronika Kivisilla, autora de obras como Kallis kalender (2011), Cantus Firmus (2015), Kuni armastus peale tuleb (2018) e Salutatio (2019).

 

FLORES DA SOMBRA - [...] De que são feitas as nossas vidas? De um mosaico de ternura, desejos, arrependimentos, momentos fugazes e os vestígios que este mundo deixa nas nossas emoções, na nossa intimidade, nos nossos sonhos. [...] A seus pés, um abismo colossal se abria, delimitado por prédios destruídos. As poucas paredes que ainda restavam estavam cobertas de pedaços de papel de parede, portas rangentes davam para o vazio e degraus levavam diretamente para lugar nenhum. Aquele imenso campo de ruínas a abalou profundamente. Da vizinhança pacífica que ela conhecia tão bem, dos amplos bulevares ladeados por tílias e castanheiros, restavam apenas entulho no fundo de um enorme fosso. Ao longe, os restos da Torre da Tortura pareciam se contorcer em agonia sob o céu chuvoso. [...] Toda a vida sentira esse desconforto, a sensação de não pertencer a uma pátria, de não poder reivindicar uma origem. Ela era dual. Tinha duas línguas maternas, dois mundos, dois países. [...] Pessoas de todas as idades, origens e nacionalidades postaram vídeos de seus suicídios. Era um desfile frenético, um reality show horripilante, incompreensível. A literatura não tinha mais lugar nesse bombardeio de transmissões ao vivo; a imagem reinava suprema, obscena e sempre insatisfatória. Quando escritores tentaram abordar os ataques, seus livros permaneceram praticamente inéditos. As pessoas podiam assistir a palestras ou apresentações, mas comprá-los era outra história. Ler não oferecia mais conforto. Ler não curava mais. [...] Ler livros levava tempo. E escrevê-los também. E agora ninguém parece ter tempo nem para ler nem para escrever. [...] A maioria das pessoas não lia mais. Ela já havia percebido isso há algum tempo. Estavam grudadas em seus celulares, em seus tablets. As livrarias estavam fechando uma após a outra. [...] As pessoas tiram fotos bonitas de livros e as postam nas redes sociais com as hashtags certas, mas ninguém os lê. Ou muito poucos leem. Os livros se tornaram objetos decorativos. [...]. Trechos da obra Les Fleurs de l'ombre (Pocket, 20021), da escritora francesa Tatiana de Rosnay, também autora de livros como Elle s'appelait Sarah (2007). Veja mais aqui.

 

RUÍNA: A POLÍTICA DA CATÁSTROFE - [...] Até o momento, cerca de 99,9% de todas as espécies que já habitaram a Terra foram extintas. [...] A realidade, como veremos, é que a história é um processo complexo demais para ser modelado, mesmo pelas formas informais defendidas por Turchin e Dalio. Além disso, quanto mais sistemática for a modelagem de fenômenos históricos — notadamente pandemias, mas também mudanças climáticas ou degradação ambiental — mais fácil se torna passar de uma previsão aproximada para uma previsão precisamente errada. [...] O advento da internet ampliou enormemente o potencial de disseminação de informações falsas e enganosas, a ponto de podermos falar de duas pragas gêmeas em 2020: uma causada por um vírus biológico, a outra por concepções errôneas e falsidades ainda mais contagiosas. Esse problema poderia ter sido menos grave em 2020 se reformas significativas nas leis e regulamentações que regem as grandes empresas de tecnologia tivessem sido implementadas. Apesar das amplas evidências, após 2016, de que o status quo era insustentável, quase nada foi feito. [...] Reconheça que você está em crise, seja você um indivíduo ou uma nação. Aceite sua responsabilidade pessoal/nacional de fazer algo a respeito da situação. Construa uma cerca [não necessariamente física] para delimitar os problemas individuais/nacionais que precisam ser resolvidos. Envolva-se nos aspectos materiais e emocionais. [...]. Trechos extraídos da obra Doom: The Politics of Catastrophe (Penguin, 2021), do historiador escocês Niall Ferguson (Niall Campbell Ferguson). Veja mais aqui.

 

MARIA LAURA LOPES

[...] A vida não é só ciência, o que vale mais é a realização como ser humano. E isso, felizmente, eu consegui. [...] Eu errava muito nas contas, ficava até com dor de cabeça [...] as meninas falavam francês desde o primário e tinham aulas de latim. E eu, coitadinha? Onde é que eu podia me salientar? [...] Vocês pensam que a Matemática é aquela coisa imutável? Não é não! A história da matemática é muito cheia de conquistas e diferenças, há uma evolução muito grande [...] E hoje, o que temos? Computador que levamos no bolso. Mas e o ensino? Será que evoluiu na mesma escala? [...] Mas se por um lado houve esse movimento a favor da pesquisa, por outro lado houve uma desvalorização muito grande do ensino de graduação e, em particular, das licenciaturas [...] Porque se o professor não é competente, não adianta. E não há varinha de condão: é um processo longo e dinâmico. [...] ‘A alma do aluno não é um vaso que se deve encher, mas uma lareira que se deve acender [...] Aceitem os desafios, porque só a partir deles é que vocês poderão realmente ser grandes pessoas [...].

Trechos do depoimento (Notícias do Academia Brasileira de Ciências – ABC, ‘2011), concedido pela matemática e professora Maria Laura Lopes (Maria Laura Moura Mouzinho Leite Lopes ou Maria Laura Mouzinho Leite Lopes – 1917-2013), a primeira doutora em matemática do Brasil, especializada em Educação Matemática. Ela combateu a ditadura e articulou a criação de instituições de pesquisa, fazendo parte da articulação e fundação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM). Em 1969 foi aposentada compulsoriamente pela ditadura militar, o que a forçou ao exílio. No exterior, ela passou por universidades nos Estados Unidos e na França, onde redirecionou seu foco de pesquisa de matemática pura para a educação matemática. Retornando ao Brasil, dedicou-se à formação de professores e fundou o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Matemática (GEPEM), além do inovador Projeto Fundão na UFRJ, revolucionando o ensino básico de matemática através da união entre a universidade e a escola pública no estado do Rio de Janeiro. Vários estudos dão conta da relevância da professora, a exemplo do Ditadura, repressão e resistência: o caso de Maria Laura Mouzinho Leite Lopes: 1919-2013, (Revista de Ciências Humanas, 2024) e Ditadura militar e educação: a trajetória de Maria Laura Lopes (Nexo Acadêmico, 2025), ambo de Lucas Barroso Rego. Também Um elo perfeito: Maria Laura Mouzinho Leite Lopes e a educação matemática Vida y obra (Revista Científica, Bogotá, 2015), de Pedro Carlos Pereira; e A organização do arquivo pessoal de Maria Laura Mouzinho Leite Lopes: desafios e perspectivas (OFFICINA: Revista da Associação de Arquivistas de São Paulo, 2022), de Lorena dos Santos Silva. Veja mais aqui.



O QUE É CAOSMOSE? – (Imagem: Pulsações do efêmero, da série Caosmose & o poema nasce do visinvisível, acervo ArtLAM). – Trata-se de um conceito que foi popularizado a publicação da obra Caosmose: Um Novo Paradigma Estético (Ed. 34, 1992), do filósofo e psicanalista francês Félix Guattari, obra esta que se tornou um marco fundamental para se repensar os processos de produção de subjetividade, em um mundo cada vez mais marcado por fluxos de informação, mutações tecnológicas e rearranjos políticos. Trata-se de um chamado para o engajamento com o caos criativo do mundo, utilizando-se dessa energia para criar novas formas de vida, novas subjetividades e novas maneiras de nos relacionar com o planeta. Veja detalhes aqui.


 

A ARTE DE SILVIO TENDLER – Trajetória do premiado e aclamado cineasta, documentarista, historiador e professor Silvio Tendler (1950-2025), que ficou conhecido como "o cineasta dos vencidos" ou "o cineasta dos sonhos interrompidos", relacionando os seus longas, médias e curta-metragens, que tanto registraram a vida do Brasil e do povo brasileiro, relativos a personagens e personalidades de relevo dos períodos históricos entre as décadas de 1950 e 2010. Confira aqui.




WYNA & GABRIELE SAPIO – Entrevista com o escritor, advogado e professor italiano radicado no Brasil, Gabriele Sapio, autor do livro de ficção científica, Wyna, daqui a três estrelas (Dialética, 2023), no qual explora as fronteiras entre o conhecimento científico e a espiritualidade, com uma escrita que privilegia a sensibilidade e a profundidade dos sentimentos humanos frente ao desconhecido. Na entrevista ele fala sobre o processo de criação e a motivação que levou à publicação da obra. Confira aqui.



TERRA DA AMIZADE – Este é o 5º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna. Desta feita, a meninada, guiada por Pai Lula, vão conhecer a Terra da Amizade e, ao mesmo tempo, o lugar da abelha zangada, em que a vaca amarela pulou a janela pra ir pro rastapé da quadrilha na praça, comendo queijo com leite. Mas que lugar é este? Confira aqui.



POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS – Reunião CoLAM (colagens), sob a temática de Poemagens & outras versagens, com o tema musical autoral Quando te vi. Veja aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO

A arte do pintor, escultor, entalhador, compositor e músico Pedro Índio. Veja mais aqui.

 

GENTAMIGA EXPOSIÇÃO & LANÇAMENTO

Veja detalhes aqui.




 


domingo, outubro 17, 2021

DONNA HARAWAY, CHUCK PALAHNIUK, SAMUEL BARBER & JACI BEZERRA

 

 

TRÍPTICO DQP – O desloucamento na perseguição dos rastros... - Ao som Adagio for Strings, Op. 11 (Sony Music, 1997), do compositor estadunidense Samuel Barber (1910-1981), na interpretação de Leonard Bernstein & The New York Philharmonic – Não sei se vou já ou quando; não é de hoje testemunhar o desassossego geral. O que fazer? Ouvi alguém motejar no escuro e, no esforço de identificá-lo, era o filósofo inglês Alfred Whitehead (1861-1947): A inocente pergunta é a primeira aproximação de um desenvolvimento totalmente novo. Só o reconheci após demorada investigação, pouco o havia visto e até me confundi: era como se fosse Robbe-Grillet debulhando: O tempo de nossas paixões, de nossa vida. Posição nada confortável a minha, era como se estivesse rente ao intangível e entrelugares, o sinuoso e o indistinto. Mas, se valia a pena, não sei, apenas acreditei que sim, apesar de tudo embutido por sete chaves e o descontrole da visceral hostilidade. Eu sei. E mesmo assim, nem deu tempo de me sentir rejeitado por quem quer que fosse, sei que são complacentes além dos meus méritos. Mantenho buliçoso pelos palimpsestos, é líquido e certo: uma vez tupiniquim e nunca mais. Conecto a vida e reconfiguro o quanto posso: tudo é muito débil e indecidivelmente tão frequente quanto impositivo, por isso mesmo o existexperimental, ou experexistencial, tanto faz, porque a gargalhada de Derrida traduzia as aporias e, por conta disso, tomei a decisão perturbadora de encarar o Corpo sem órgãos de Artaud: Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno. Inquieto, também me empenho pela verdadeira e imortal liberdade, e a me reinventar, apesar de atolado nos meus pântanos insuportáveis. Resisto e, diante da América cruel, sou meu próprio laboratório, um atleta afetivo de Grotowski. Ao descentrar sem nenhuma margem, expus minha carne e todas as minhas entranhas, porque o rito peyote dos Tarahuramas me ensinou que só há sentido na Natureza. Perseguir o desloucamento era o mesmo que ter de repisar rastros entre o temor e a imprudência, só assim a promessa da despossessão do juízo. Foi exatamente o que me trouxe, de chofre, o exercício de experimentação insólita expressa por Deleuze & Guattari: Tudo está sobre este corpo incriado, como piolhos na juba do leão. Assim, diante das interrogações do Anti-Édipo e dos Mil Platôs, a risada do escritor estadunidense Chuck Palahniuk quebrou a monotonia: As coisas que você possui acabam por possui-lo. Só depois de perder tudo é que você é livre para fazer qualquer coisa. Você não entende nada e, depois, simplesmente morre. Tenha suas aventuras, cometa seus erros e escolha mal seus amigos - tudo isso cria ótimas histórias. Liberdade é perder toda a esperança… Você olha para uma estrela e desaparece dentro dela. Aos seus olhos tudo me parecia como se o aventado catapultasse o que sabia até então. Não me dei ao vazio, pelo contrário: ainda resta viver. Melhor contar outra história.

 


Corpo que vibra... - Imagem Adansônia III (1977-78), da artista visual, fotógrafa e professora Mara Alvares. - Salomé era bonitona do seu jeito e quando queria, só. Quando não estava escondida e abatumada com suas agruras existenciais, desfilava altiva sua alegria pujante, como se fosse aquela fascinante filósofa Lou ou qualquer atriz do palco de Oscar Wilde. Os de casa, claro, tratavam-na por duas caras; os de fora cobiçavam os seus giros esvoaçantes da atriz Aída Gomez nas cenas de Saura, enchendo as ruas e calçadas com suas pernas de Rita Hayworth, tão bela como nunca da sensualidade daquela retratada por Pierre Bonnaud, ou acendendo a imaginação dos atrevidos ao cantarolar no banho com sua nudez encantadora da soprano alemã Nicola Beller Carbone ou de Karita Mattila nos tons operísticos de Richard Straus. As más línguas nomeavam-na de moicheia e se vangloriaram vingativas ao sabê-la tomada por um tal Índio que nem era nem parecia, só apelidado e que lhe deixou seviciada aos prantos. Diante de sua fraqueza, o Doro, aquele mesmo colecionador de tampas de todos os tipos de garrafas e garrafões, o mesmo que é PhD em porra nenhuma, ao vê-la sucumbir à depressão, adiantou-se: Por essa eu perco a cabeça. E foi. Procurou maliciosamente agasalhá-la. Não sem jeito, tentou de tudo e, depois de tanto pelejar, quase desistindo, resolveu dar uma de Diderot, o que foi um santo remédio: curou-a com a leitura de livros pornográficos. Lá estava ela radiante às voltas com lalarilarás, só se abatendo diante da notícia de emboscada do seu algoz que foi encontrado crivado de balas, enfiado de cabeça pra baixo num buraco fundo do matagal e completamente desfigurado. Não que ela escondesse paixão ou quisesse vingança, não; era dela doer assim nela a dor dos outros, a ponto de deitar a cabeça aos ombros do amigo recém-encontrado. No começo, uma belezura; com o passar do tempo, verdadeiro tormento, dele cantar para si como o sapo desastrado: Léu, léu, léu, se eu desta escapar, nunca mais festa no céu! Quem passava por eles logo dizia: Tome, bem empregado!

 


Tropeços pelos paradoxos... - Imagem: Untitled (Mylar and hot glue, dimensions variable – 2011), da escultora estadunidense Tara Donovam. - As dores dela ecoou em mim, a ponto de sozinho, meu violão de nenhuma plateia, dedilhei sua soturnidade. Restei-me abatido. Sim, porque sempre me arrisquei entre o fértil e o estéril: o que há de incondicional no meio disso tudo, me levou constantemente a reformular tempespaço. Sei de mim coadjuvante apenas, embora protagonize o gesto da desconstrução a decompor dissimulações e dispersões outras dos trópicos: não sei se vale o quanto pesa as desdobradas. Ainda há pouco outro estampido seco e o sangue escorreu de alguém que se foi. Aqui fiquei onde era um poema do saudosamigo Jaci Bezerra, Tatuagem na água: No Recife me perco e me inauguro / pisando acácias e águas machucadas, / no bolso o sol ferido, um sol maduro / escorre, úmido, e acende a madrugada. / Uma árvore brota no meu peito impuro / acalentando a infância que, abismada, / brinca dentro de mim e dói no escuro / sempre por um menino acompanhada. / Nunca a essa cidade fui perjuro / nem nunca a reneguei, talvez por isso / ela me planta e aninha entre os seus muros, / e eu carrego em mim, arrebatado, / apodrecendo nos mangues dos seus vícios / e amando como se nunca houvesse amado. Foi aí que musiquei cantante A lavra da vida e aprendi o canto com a pedra de mó ouradarada para não dividir a vida e dá-la à pedra morta, enquanto ele rascunhava prefácio para A intromissão do meu verso púbere. Ao findar o canto, era a dor dela que ficara e levantei as vistas para presenciar a filósofa estadunidense Donna Haraway com sua acolhida: A vida é uma janela de vulnerabilidades. Ali me dei ao dia no que se fez noite. Ainda sorria mesmo me sentindo à beira do precipício. Sabia: não há felicidade possível neste momento. Só que ao lado dela, a bela Lucia Santaella solidária: Dilatada nessas extensões, é a própria sensibilidade do corpo humano que parece estar passando por uma mudança radical de escala, constituindo-se numa nova dimensão que extrapola a concepção e imagem que tínhamos de nós mesmos como humanos... E ao dito dela era como se eu voltasse ao ciclo do eterno retorno: a vida não para. Se eu me soubesse Fellini diria eu ser um grande mentiroso. Mas não, estava bem aconchegado entre elas, feliz nos livros que li, músicas que ouvi e me deixe levar, afinal: o provisório se eterniza e o compulsório vira pó. Até mais ver.

 

E mais:

CANTARAU & OUTRAS POETADAS

POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

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quarta-feira, janeiro 20, 2021

ERNESTO CARDENAL, QURRATULAIN HYDER, JACQUES MONOD, KARINE SAPORTA, KAMILLE CARVALHO & AS FILHAS DA DOR

 

 

TRÍPTICO DQC: O SEGREDO DO ENCONTRO - Ao som de Stravinsky: Petrouchka (Universal/Decca, 2019), com a pianista e compositora francesa Yvonne Loriod (1924-2010) & Orchestre Des Cento Soli, Rudolf Albert. - Seja bem-vinda, pode entrar sem bater. Eis-me aqui, em carne, ossos e fracassos. Sou porta ao escancaro e não repare a bagunça, a anárquica arrumação e o lastimável desamparo. Não sou bem assim, levo a vida e nem sei direito, sinto além do que consigo suportar. Celebro meus defeitos, não posso negá-los, nem ser diferente do que sou: vou muito além do que posso. Sou um homem comum e qualquer, não guardo mágoas nem rancor; asseguro de antemão: não tenho a menor coerência. Não desafio a sabedoria das ruas, ando sempre apressado e de sorriso aberto, muito embora ninguém tenha me avisado como foi que dormiu a noite anterior. Saúdo os vivos e os mortos, que os tenha em bom lugar. Carrego a culpa de sonhar demais e, invariavelmente, quebrar a cara: sou mais onírico que real; quando não, patético. Sei que o que é ruim inevitavelmente tende a piorar como se não tivesse mais jeito, mas sou refratário a resmungos - para ter o que tenho tive que levar na marra, sangue e suor à beça e desconfio que se escapar com vida farei tudo que penso e desejo. A vida, como soube de Deleuze & Guattari: A vida está sempre em aberto: seu impulso não é alcançar um fim, mas continuar seguindo em frente. A planta, o músico ou o pintor, ao seguirem em frente, arriscam uma improvisação. Assim voo, como a jornalista indiana Qurratulain Hyder (1926-2007), com: Estudos em uma cultura agonizante. Minha preocupação com os valores da civilização sobre os quais continuo escrevendo pode parecer ingênua, confusa e simplista. Mas então, talvez, eu seja como aquele passarinho que estupidamente levanta suas garras, esperando que isso impeça o céu de cair. Sim, satisfeito ninguém está, nem dou crédito ao que se fala por aí, pro gasto exilado lá estou por aí, até lá.

 


DOIS: ARDISTÃO & A CIDADE DOS MORTOS – Ao som de Inori, adorations for one or two solists and orchestra (1973/1974), de Karlheinz Stockhausen, com Elizabeth Clarke e Alain Louafi, solisti Suzanne Stephens, Japanese rin Maria Bergmann, pianoforte The Symphony Orchestra of the Southwest German Radio. – Despertava no meio da noite, um lugar estranho: que lugar é este, não sei. Olhei em volta e ao longe uma cidade aos pés de um morro, parece, não dá pra ver direto. Observei intrigado. Ao tentar me levantar do chão, toquei a mão em dois volumes do Ardistan und Dschinnistan (1909 - IGEL Verlag Literatur & Wissenschaft, Hamburg, 2013), do escritor alemão Karl May (1842-1912). Hem? Ao folhear um dos volumes, um mapa escapuliu ao vento. Fui pegá-lo e era a reprodução de um outro que se encontrava impresso no livro. Comparei os dois, a mesma dimensão. No do livro, apenas indicava o nome Ardistan e tudo o mais em branco; enquanto no mapa avulso, Takistan, com nomeação de outras partes. Mais adiante encontrei uma foto tirada da mesma posição onde eu estava. Intrigado, comecei a ler: Quando o rio Suhl secou, a cidade ficou deserta e uma nova foi construída. Durante séculos, a velha capital ficou vazia, tendo apenas um ou dois prédios usados como prisão. Poucas pessoas, além dos líderes religiosos, visitavam-na e ela nunca foi completamente descrita. Indaguei novamente: que lugar é este, ainda não sei. Nas páginas adiante: A cidade dos Mortos contém muitos segredos importantes, alguns dos quais conhecidos somente do alto clero de Ardistão. Passagens subterrâneas e antigos canais oferecem meios de acesso escondidos à cidadela. Caminhei até me deparar com um lago que, pelo mapa, deveria ser o Maha-Lama, cercado por paredões íngremes de pedra. Ah, isso mesmo, o que vi e a foto. Foi aí que constatei ali ser a Cidade dos Mortos mesmo: A área é temida e evitada pelas poucas pessoas que visitaram a cidade, talvez porque está ligada a antigas lendas demoníacas. Diz-se que o lago foi criado pelo diabo que teria dito a um antigo sumo sacerdote de Maha-Lama que ele viveria mais cem anos se afogasse no lago todos os que o insultassem. Embora fosse outrora amado por seu povo, o Maha-Lama tornou-se impopular. Centenas de pessoas foram afogadas no lago, que ficou tão entupido de cadáveres que o sacerdote não pôde mais cumprir sua promessa e foi finalmente levado pelo diabo. Fiquei estarrecido com a leitura do relato. Além do mais fui surpreendido com a presença inesperada do bioquímico francês Jacques Monod (1910-1976) que me disse com ar de intimidade: Neste momento não temos motivos legítimos para afirmar ou negar que a vida teve um único começo na terra, e que, como consequência, antes de aparecer, suas chances de ocorrer eram quase nulas. … O destino é escrito simultaneamente com o evento, não antes. O universo não estava grávido de vida, nem a biosfera do homem. Nosso número surgiu no jogo de Monte Carlo. É surpreendente que, como a pessoa que acabou de ganhar um milhão no cassino, nos sintamos estranhos e um pouco irreais? Sem saber o que dizer, dei de ombros e segui seus passos até vê-lo desaparecer diante dos paredões íngremes de pedra. O reinado da Lua confirmava que eu estava perdido, ainda restava muito para saber dali.

 


TRÊS: ELA BAILAVA ENTRE AS ESTRELAS - Imagem: a arte da coreógrafa, dançarina, fotógrafa e diretora de curtas-metragens francesa Karine Saporta, ao som do Brasil Guitar Duo, formado pelos violonistas João Luiz Rezende Lopes e Douglas Lora. – Olhava o céu naquela paragem insólita, quando a vi bailando entre as estrelas e levitava dançando por toda imensidão, até lindamente tocar o chão e se aproximar com seu olhar firme em mim: Sou Anatália, a potiguar Anatália de Souza Melo Alves (1945-1973). E o meu trabalho com os trabalhadores rurais da Zona da Mata de Pernambuco, me levou para Recife, Campina Grande, Palmeira dos Índios e Gravatá, até ser presa pela repressão. Disseram que ateei fogo ao corpo, me suicidando com uma tira de couro. Mentira. Naquele dia, descalça, trajava um estampado vestido de algodão vermelho e calças de jersey cor de rosa, que foram parcialmente queimados por eles mesmos. Fui vitima de violências sexuais quando me encontrava psicologicamente abalada pelas torturas e pelo clima de terror no cárcere, por isso queimaram-me a região pubiana para que meu corpo não denunciasse as sevícias sofridas e me enforcaram. Sou mais uma entre as filhas da dor. Ao término da encenação, suas lágrimas lavaram meu ombro enquanto o nosso abraço solidário era a expressão da paixão mais que vivida. Assim, um tanto desolada, recitou-me Ernesto Cardenal: Ao perder-te eu a ti / tu e eu teremos perdido. / Eu, porque tu eras / o que eu mais amava; / tu, porque era eu / que te amava mais. / Mas, de nós dois / tu perdes mais do que eu. / Porque eu poderei amar a outras / como amava a ti, / Mas a ti não te amarão mais / do que te amava eu! E foi ali na Cidade dos Mortos que celebramos a vida com o amor que nos fez unos em nós e com tudo e todas as coisas. Até mais ver.

 

A ARTE DE KAMILLE CARVALHO



A arte da bailarina, dançarina profissional, professora, coreógrafa, personal dancer e dancing coach, Kamille Carvalho. Veja mais aqui e aqui.


 


domingo, outubro 25, 2020

MAYA ANGELOU, HENRY FLYNT, JUNG, DARCY RIBEIRO, MILTON NASCIMENTO, ALEXA MEADE & AGUINALDO BATISTA

 

TRÍPTICO DQC: PAIVRAS PALANÉIS - (ouvindo Yanamâmis e nós – Pacto de vida, de Milton Nascimento & Fernando Brant) - Depois de me desconstruir e às avessas de pisar e voar, doer errático pelos devires e pelos degraus da caosmose de Guattari, me vi só anti-édipo pelo rizoma & mil platôs. Foi maior a porrada: está muito difícil de respirar! Sim, porque não sou atleta do Estado e percebi o quão difícil é a convivência com o desgoverno do Fecamepa, a sindemia letal, a liquidez de Bauman, os delírios da hiperpolítica sacada por Sloterdijk – estamos todos no mesmo barco e parque dos horrores! - & o deserto do real denunciado por Zizek. Pelo que vejo e intuo, só a festa da morte nas platitudes dos cirurgiões magiares e mediocrização das campanhas políticas; no paroxismo delirante da gança e consumo na oferta e demanda; e na catatonia diante da lumeeira das desgraças. É tudo muito lúgubre, infelizmente, e na maior das ostentações, tagatés e celebrações. Vivo ou morto, tanto faz, apenas um dado estatístico para satisfazer o interesse daquele ou daquela irreconhecível. Ao abrir a porta o abismo e uma chuva de cinzas a cobrir o céu e a Terra. Ouvi Jung na sacada: Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro. Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta. Sequer havia um mínimo sinal de luz lá longe depois do fim do túnel. Nada. Não sei pronde vou, sei que voo.

 


SCHILDA, OUTRO NOME DO FECAMEPA – Curtindo You Are My Everlovin/Celestial Power (Recorded/LLC, 1986), do filósofo, músico, escritor, ativista e artista estadunidense Henry Flynt, associado à vanguarda de Nova York dos anos 1960 - À minha porta, um sujeito. Bate palma insistentemente. Cortez, atendo. Não conseguia entender o que solicitava, só gesto com mão pronunciando: Schilda! Schilda! Hospitaleiro como sempre fui, puxei pelo muque do estranho e o levei até a casa do poliglota erudito e autodenominado patafísico, doutor Zé Gulu. Socorra-me! Acho que é um caso parecido com aquele do javanês de Lima Barreto. Sim? E ouviu atentamente o cidadão que o apresentei. Ah, tá. Entendeu? Sim. Ele é schildbürger! Que droga é nove? Nascido em Schilda. Fodeu. Existe? Sim. Veja nesse livro aqui: Die Schildbürger (Dressler Verlag, 2000), do escritor, jornalista, cabaretista e roteirista alemão Erich Kästner (1899-1974), em que eles montaram um plano: estadistas e filósofos escolheram esse lugar para morar e, pouco a pouco, uma geração inteira de sábios reuniu-se. Sim, e? Reis e príncipes de outros países logo julgaram uma honra convidar um desses sábios para suas cortes, nomeando-o ministro e conselheiro pessoal. E daí? Quando restou apenas um homem adulto, as mulheres lançaram um ultimato: se seus maridos não voltassem, elas procurariam outros para substituí-los. Como é? A fim de servir a seus interesses sem ofender seus poderosos senhores, montaram um plano: começaram a se comportar de forma tão estúpida que os reis não os desejariam de volta. Lascou! Para ter uma ideia do problema, ouça, veja: A sala do conselho é o testemunho concreto do sucesso dessa política: um prédio longo e quadrado, sem a menor janela. Oxe! E como se reuniam? Na escuridão. Pronto, agora deu. Veja mais: Infelizmente, parece que a estupidez fingida dos pais se tornou efetiva em seus descendentes. Mesmo, como assim? Veja o que a principal autoridade da cidade fez: Encarcerou todos os habitantes do sexo masculino. Aí já é demais! Quando uma carta o acusou de liderar os republicanos, ele prendeu-se a si mesmo. Sem ninguém para fazer justiça, os schildbürher mofaram na prisão. Vôte! Pois é: Depois de algum tempo, no entanto, se deram conta do absurdo da situação, fugiram da prisão, anularam a antiga Constituição e proclamaram a república. Hoje é uma cidade-república com atmosfera de bonomia pequeno-burguesa, de semiconhecimento e bufonaria reinante. Ave! Nas escolas, somente pessoas ignorantes têm permissão para lecionar, na esperança de que aprenderão alguma coisa sobre as matérias que ensinam. Enquanto isso, inculca-se nos estudantes uma desconfiança total em todo o conhecimento, o que reforça a autoconfiança... Ora, isso é o Fecamepa! Aí ele olhou-me profundamente e citou Darcy Ribeiro: O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem um perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso. Mais vale errar se arrebentando do que poupar-se para nada. Ora, ora. Seremos sempre os últimos! Nesse caso, quem copia quem? Isto é Brasilsilsilsilsil!!!!

 


DAS DORES, ELA NOITES & DIAS – Imagem: arte da artista estadunidense Alexa Meade - Ao regressar ela explorou os cantos como se repassasse texto de memória sobre o passeio por Paris e Berlim, cenas de Brecht e Molière narrando imagens da mitologia grega, a se ajoelhar como aprisionada às dores do pau de arara. Ergueu as mãos à cabeça como quem vitimada da coroa de cristo esmagando seus miolos. Sentou-se como quem expõe a hemorragia dos espancamentos na cadeira do dragão e três dias de choques elétricos na língua, seios e vagina na sessão torturante da Casa da Morte. Fitou-me severa e veio: Sou Heleny. Sim, sou Heleny Guariba (1941-1971), aquela que sucumbiu com Marilena, Helena, Labibe, Alceri, todas sou eu solidária na dor de morrer nos porões da História. Deu-me as costas e antes de sair olhou-me mais uma vez e recitou Maya Angelou: Você pode encontrar muitas derrotas, mas você não pode se deixar derrotar. Se não gosta de alguma coisa, mude-a. Se não puder mudá-la, mude a sua atitude. Não reclame. O sucesso é gostar de si mesmo, gostar do que faz e gostar de como fazê-lo. Mandou-me um beijo e se foi com um aceno triste. Guardei sua imagem de atriz e brinquei de imaginá-la comigo na viagem por palcos inenarráveis. Até mais ver.

  

AZARILDO & O XOTE ECOLÓGICO DE AGUINALDO BATISTA

Não posso respirar, não posso mais nadar. A terra está morrendo, não dá mais pra plantar. E se plantar não nasce, se nascer não dá. Até pinga da boa é difícil de encontrar. Cadê a flor que estava aqui? Poluição comeu. E o peixe, que é do mar? Poluição comeu. E o verde onde é que está? Poluição comeu. Nem o Chico Mendes sobreviveu.

Xote ecológico, música de Luiz Gonzaga em parceria com o compositor, radialista, humorista e ator Aguinaldo Batista (1930-1980), criador do afamado personagem Azarildo que atuou nas tevês Tupi, Excelsior e Record. Trabalhou na Rádio Tamandaré e Clube de Pernambuco, além de atuar nos filmes A compadecida (1969), A vingança dos 12 (1970), Terra sem Deus (1963) e A pele do bicho – amor e traição (1974). Veja mais aqui, aqui e aqui.


 

 


quarta-feira, janeiro 16, 2019

GUATTARI, MAYARA MAGRI, GILBERTO MENDONÇA TELES & CAMÕES CAMONGE


AS PRESEPADAS DE CAMÕES CAMONGE – Muitas me contaram desde menino das presepadas de Camões e Camonge que, no frigir, era um só. Lembro-me bem de algumas delas, outras nem tanto. Só sei que ria demais, quantas lorotas versejadas ou amiudadas jocosamente sobre mulheres perdidas e taradas, viúvas reboculosas e prinspas afogueadas; muitas pinoias sobre princesos destronados, cavalo-mago, pederastia, fodelança, vivacidade, acerto de contas, quiprocós e lá vai teibei, tudo levado no tom do risível para entretenimento das patotas mais libertinas. Aquela mesmo dele entrar num desafio com um sábio que expôs uma maçã e ele, em resposta, um pão. Depois um dedo, ele dois; três dedos e ele a mão fechada como enfiando, remexendo e, por fim, dando uma banana. O sábio reconheceu ser ele a maior sabedoria já encontrada. E não era, né? Quem sabe dessa vai achar arretada a anedota. Também a que ele aprontou com o padre: precisando de dinheiro, achou ele de cagar na frente da catedral da matriz. Excretando aquele tolotaço, colocou o chapéu por cima, escondendo o crime. Lá vinha o padre: Meu filho, aquele chapéu num é seu? É sim, senhor. Oxe, por que não o põe nesse sol quente? É que peguei um passarinho e quero achar uma gaiola. Um passarinho? Sim, uma sabiá que além de cantora é compositora, das boas. Ah, quer vender? Vendo. Pago 100. Se me der 200 tá fechado. Então vá pegar a gaiola na casa do sacristão. Só se o senhor me pagar logo e emprestar o cavalo para eu ir buscar lá. Então, tá. E lá foi ele atrás do sacristão. E demorou, nem voltou mais. O padre perdeu a paciência e quanto foi pegar o passarinho, melou as mãos na maior fedentina. Amaldiçoado! Fidapeste! Uma senhora ia passando: Padre, chamando nome feio? Ora, ora. Ah e as apostas dele com o rei, venceu todas. Findou numa trama de ser aprisionado num saco e levado por caboetas para ser jogado num poço fundo. No meio do caminho, pararam para descansar. Aproveitando-se disso, ele começou a gritar que não queria casar com a filha do rei. Um boiadeiro ia passando e ouviu aquilo: Como é que é, hem? Tô nesse saco porque não quero casar com a prinspa! Oxe, eu quero. E libertou Camões Camonge e ficou no lugar dele: Eu quero casar com a filha do rei! Eu quero! A trupe dos capangas quando viu aquilo, sacudiu-lo no poço e era uma vez. Por sua vez, Camões Camonge saiu com uma boiada bonita e foi mostrar ao rei: Como pode você estar aqui? Ah, Deus ajuda a quem só faz o bem. Como assim? Fui jogado num poço dentro de um saco e cada vez que eu dava uma timbungada pegava um boi e sou dono, agora, dessa boiada. Ah, eu quero, vá me bote num saco e me jogue nesse poço. Ora, o senhor já é rico, tem tudo! Quero mais, vá! Olhe lá, seu rei. Vá, tô mandando. Tudo bem. O rei mandou a cabroeira carregá-lo até o poço que jogaram o suposto Camões e, como líquido e certo, era uma vez um rei. E Camonge casou com a rainha. Aí veio a festa no céu. Seguinte: São Pedro estava recebendo muitas reclamações dos animais. Ele foi ter com o Todo-Poderoso que disse que ele resolvesse com os animais, que não mudaria nada da sua criação. São Pedro então resolveu convidar todos os animais, excetuando os macacos que são trelosos demais e os cachorros que na horagá do metiê fica enganchado na cadela. Aí Deus, justo como sempre, disse: Ou faz uma festa para todos ou para nenhum. Atrapalhou os planos de São Pedro. Aí lá vinha Camões Camonge recebendo reclamação dos cachorros e macacos, então sabendo da armação do santo: Ah, isso não pode. Vamos lá. E foi interceder em favor deles. Subiu pro céu e lá foi logo dizendo: Queéqueéisso, SumPedo? Ah, não se preocupe, eles já podem entrar, Deus liberou. Os cachorros mais que afoitos logo tentaram entrar, mas foram barrados! São Pedro advertiu: Só se deixarem o fiofó pendurado na entrada para não atrapalhar a festa. Aí cada cachorro foi, pendeurou o oiti-goroba lá no cabide certo e danou-se lá pra dentro, deixando Camões Camonge do lado de fora: Bando duns fi duma chola perdida. Aí, armando das suas, reuniu os macacos e cochichou: Quando vocês entrarem, troquem os frosquetes dos cachorros, uns dos outros; eles vão ver. Assim fizeram: trocaram os furicos dos cachorros e saíram aprontando das suas no meio da festa. Três dias depois, os cachorros saíram com o toba trocado, um cheirando o cu do outro para conferir até hoje. Camões Camonge só na risada! Ah, depois conto mais, tá? Vamos aprumar a conversa, fui! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Estamos diante de uma escolha ética crucial: ou se objetiva, se reifica, se “cientifica” à subjetividade ou, ao contrário, tenta-se apreendê-la em sua dimensão de criatividade processual. [...] A análise não é mais interpretação transferencial de sintomas em função de um conteúdo latente preexistente, mas invenção de novos focos catalíticos suscetíveis de fazer bifurcar a existência. Uma singularidade, uma ruptura de sentido, um corte, uma fragmentação, a separação de um conteúdo semiótico – por exemplo, à moda dadaista ou surrealista – podem originar focos imitantes de subjetivação. [...] Cabe à função poética recompor universos de subjetivação artificialmente rarefeitos e re-singularizados. [...] O capital esmaga sob sua bota todos os outros modos de valorização. O significante faz calar as virtualidades infinitas das línguas menores e das expressões parciais. O ser é como um aprisionamento que nos torna cegos e insensíveis à riqueza e à multivalência dos universos de valor que, entretanto, proliferam sob nossos olhos. [...] a máquina fala com a máquina antes de falar com o homem e os domínios ontológicos que ela revela e secreta são, em caso, singulares e precários. [...].
Trechos extraídos da obra Caosmose: um novo paradigma estético (34, 1992), do filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês Félix Guattari (1930-1992). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A premiadíssima jovem bailarina brasileira Mayara Magri é a primeira solista do The Royal Ballet. Nascida na comunidade carente de Maracaí, num morro do Rio de Janeiro, conseguiu iniciar seus estudos artísticos por meio do projeto social “Dançar a Vida”, que beneficia crianças e adolescentes moradores das comunidades carentes da Tijuca, no Rio de Janeiro, com dança e arte. Daí ela ganhou uma bolsa de estudos aos oito anos de idade, seguindo para a P'tetite Danse School, no seu estado. Depois ganhou o Senior Age Division do Youth America Grand Prix e o Prix de Lausanne Scholarship and Audience Prize em 2011. Em seguida foi para a The Royal Ballet School e se formou na Companhia em 2012. Ela foi promovida a First Artist em 2015, a Soloist em 2016 e a First Soloist em 2018. Hoje ela conta com 25 anos de idade e segue conquistando o mundo com a sua arte. 
Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

O MITO CAMONIANO DE GILBERTO MENDONÇA TELES
[...] A existência no folclore brasileiro de entidades de natureza pícara, como a de Pedro Malasarte, do "Menino Sabido", da raposa, do coelho, do jabuti (que vence pela astúcia), misturada com as personagens de natureza mítica, como o Saci, o Caipora, o Romãozinho e tantas outras, concorrem para a criação de uma figura móvel e generalizada que age como anti-herói, juntando astúcia e malandragem, inteligência e sensualidade e dando esse notável sincretismo mítico-lingüístico do Nordeste - o Camonge, mistura dos significantes e dos significados concernentes a Camões e a Bocage. Daí, se não um "ciclo", pelo menos uma "corrente" camoniana na literatura oral e de cordel do Nordeste brasileiro, onde se criam, talvez por compensações biográficas, alguns parentes (irmão, filho) de Camões. Vejamos então como através desses aspectos o nome e a obra de Camões se foram "da lei da morte libertando" e se tornando cada vez mais popular, embora, como o confessava Mário de Andrade, a obra mesmo nem sempre tenha sido convenientemente lida e estudada. [...] E se há realmente um episódio a que ele está preso, só pode ser o do Camões cuja vida foi cheia de contrastes: de gentil-homem e trinca-forte, de herói e mendigo, de soldado e náufrago. Esses elementos biográficos juntaram-se aos elementos antitéticos da epopéia (sobretudo os da luta de mouros e cristãos) e ganharam repercussão na alma coletiva [...] De qualquer forma, o termo é o mesmo - um Camonge cujo significante e significado provém da mistura mitológica de Camões e Bocage, os escritores portugueses que mais atuaram na cultura popular do Brasil. [...]
Trechos de O mito camoniano: a influência de Camões na cultura brasileira (Revista de Letras, 1980/81), do poeta, advogado e professor universitário de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira, Gilberto Mendonça Telles. Veja mais Lendas aqui e aqui. E mais do autor aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...