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domingo, outubro 25, 2020

MAYA ANGELOU, HENRY FLYNT, JUNG, DARCY RIBEIRO, MILTON NASCIMENTO, ALEXA MEADE & AGUINALDO BATISTA

 

TRÍPTICO DQC: PAIVRAS PALANÉIS - (ouvindo Yanamâmis e nós – Pacto de vida, de Milton Nascimento & Fernando Brant) - Depois de me desconstruir e às avessas de pisar e voar, doer errático pelos devires e pelos degraus da caosmose de Guattari, me vi só anti-édipo pelo rizoma & mil platôs. Foi maior a porrada: está muito difícil de respirar! Sim, porque não sou atleta do Estado e percebi o quão difícil é a convivência com o desgoverno do Fecamepa, a sindemia letal, a liquidez de Bauman, os delírios da hiperpolítica sacada por Sloterdijk – estamos todos no mesmo barco e parque dos horrores! - & o deserto do real denunciado por Zizek. Pelo que vejo e intuo, só a festa da morte nas platitudes dos cirurgiões magiares e mediocrização das campanhas políticas; no paroxismo delirante da gança e consumo na oferta e demanda; e na catatonia diante da lumeeira das desgraças. É tudo muito lúgubre, infelizmente, e na maior das ostentações, tagatés e celebrações. Vivo ou morto, tanto faz, apenas um dado estatístico para satisfazer o interesse daquele ou daquela irreconhecível. Ao abrir a porta o abismo e uma chuva de cinzas a cobrir o céu e a Terra. Ouvi Jung na sacada: Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro. Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta. Sequer havia um mínimo sinal de luz lá longe depois do fim do túnel. Nada. Não sei pronde vou, sei que voo.

 


SCHILDA, OUTRO NOME DO FECAMEPA – Curtindo You Are My Everlovin/Celestial Power (Recorded/LLC, 1986), do filósofo, músico, escritor, ativista e artista estadunidense Henry Flynt, associado à vanguarda de Nova York dos anos 1960 - À minha porta, um sujeito. Bate palma insistentemente. Cortez, atendo. Não conseguia entender o que solicitava, só gesto com mão pronunciando: Schilda! Schilda! Hospitaleiro como sempre fui, puxei pelo muque do estranho e o levei até a casa do poliglota erudito e autodenominado patafísico, doutor Zé Gulu. Socorra-me! Acho que é um caso parecido com aquele do javanês de Lima Barreto. Sim? E ouviu atentamente o cidadão que o apresentei. Ah, tá. Entendeu? Sim. Ele é schildbürger! Que droga é nove? Nascido em Schilda. Fodeu. Existe? Sim. Veja nesse livro aqui: Die Schildbürger (Dressler Verlag, 2000), do escritor, jornalista, cabaretista e roteirista alemão Erich Kästner (1899-1974), em que eles montaram um plano: estadistas e filósofos escolheram esse lugar para morar e, pouco a pouco, uma geração inteira de sábios reuniu-se. Sim, e? Reis e príncipes de outros países logo julgaram uma honra convidar um desses sábios para suas cortes, nomeando-o ministro e conselheiro pessoal. E daí? Quando restou apenas um homem adulto, as mulheres lançaram um ultimato: se seus maridos não voltassem, elas procurariam outros para substituí-los. Como é? A fim de servir a seus interesses sem ofender seus poderosos senhores, montaram um plano: começaram a se comportar de forma tão estúpida que os reis não os desejariam de volta. Lascou! Para ter uma ideia do problema, ouça, veja: A sala do conselho é o testemunho concreto do sucesso dessa política: um prédio longo e quadrado, sem a menor janela. Oxe! E como se reuniam? Na escuridão. Pronto, agora deu. Veja mais: Infelizmente, parece que a estupidez fingida dos pais se tornou efetiva em seus descendentes. Mesmo, como assim? Veja o que a principal autoridade da cidade fez: Encarcerou todos os habitantes do sexo masculino. Aí já é demais! Quando uma carta o acusou de liderar os republicanos, ele prendeu-se a si mesmo. Sem ninguém para fazer justiça, os schildbürher mofaram na prisão. Vôte! Pois é: Depois de algum tempo, no entanto, se deram conta do absurdo da situação, fugiram da prisão, anularam a antiga Constituição e proclamaram a república. Hoje é uma cidade-república com atmosfera de bonomia pequeno-burguesa, de semiconhecimento e bufonaria reinante. Ave! Nas escolas, somente pessoas ignorantes têm permissão para lecionar, na esperança de que aprenderão alguma coisa sobre as matérias que ensinam. Enquanto isso, inculca-se nos estudantes uma desconfiança total em todo o conhecimento, o que reforça a autoconfiança... Ora, isso é o Fecamepa! Aí ele olhou-me profundamente e citou Darcy Ribeiro: O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem um perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso. Mais vale errar se arrebentando do que poupar-se para nada. Ora, ora. Seremos sempre os últimos! Nesse caso, quem copia quem? Isto é Brasilsilsilsilsil!!!!

 


DAS DORES, ELA NOITES & DIAS – Imagem: arte da artista estadunidense Alexa Meade - Ao regressar ela explorou os cantos como se repassasse texto de memória sobre o passeio por Paris e Berlim, cenas de Brecht e Molière narrando imagens da mitologia grega, a se ajoelhar como aprisionada às dores do pau de arara. Ergueu as mãos à cabeça como quem vitimada da coroa de cristo esmagando seus miolos. Sentou-se como quem expõe a hemorragia dos espancamentos na cadeira do dragão e três dias de choques elétricos na língua, seios e vagina na sessão torturante da Casa da Morte. Fitou-me severa e veio: Sou Heleny. Sim, sou Heleny Guariba (1941-1971), aquela que sucumbiu com Marilena, Helena, Labibe, Alceri, todas sou eu solidária na dor de morrer nos porões da História. Deu-me as costas e antes de sair olhou-me mais uma vez e recitou Maya Angelou: Você pode encontrar muitas derrotas, mas você não pode se deixar derrotar. Se não gosta de alguma coisa, mude-a. Se não puder mudá-la, mude a sua atitude. Não reclame. O sucesso é gostar de si mesmo, gostar do que faz e gostar de como fazê-lo. Mandou-me um beijo e se foi com um aceno triste. Guardei sua imagem de atriz e brinquei de imaginá-la comigo na viagem por palcos inenarráveis. Até mais ver.

  

AZARILDO & O XOTE ECOLÓGICO DE AGUINALDO BATISTA

Não posso respirar, não posso mais nadar. A terra está morrendo, não dá mais pra plantar. E se plantar não nasce, se nascer não dá. Até pinga da boa é difícil de encontrar. Cadê a flor que estava aqui? Poluição comeu. E o peixe, que é do mar? Poluição comeu. E o verde onde é que está? Poluição comeu. Nem o Chico Mendes sobreviveu.

Xote ecológico, música de Luiz Gonzaga em parceria com o compositor, radialista, humorista e ator Aguinaldo Batista (1930-1980), criador do afamado personagem Azarildo que atuou nas tevês Tupi, Excelsior e Record. Trabalhou na Rádio Tamandaré e Clube de Pernambuco, além de atuar nos filmes A compadecida (1969), A vingança dos 12 (1970), Terra sem Deus (1963) e A pele do bicho – amor e traição (1974). Veja mais aqui, aqui e aqui.


 

 


segunda-feira, março 16, 2020

SUSAN ANTHONY, SÉRGIO VIEIRA, OCTÁVIO ARAÚJO, BÁRBARA BIANECK & PERNAMBUCO


SEGUNDA FEIRA: ENTRE A VIDA & O COVID-19 - UMA: COMPROMISSO COM A TERRA & COPERNICANISMO AO CONTRÁRIO - A Amigos da Biblioteca realizou duas oficinas nas últimas semanas. A primeira sobre Neuroeducação & Livroterapia, tratou acerca do Sistema Nervoso e sua relação com a aprendizagem, as práticas pedagógicas adequadas e a promoção da leitura como instrumento saudável e terapêutico. A segunda versou sobre Pesquisa & Metodologia Científica, articulando o conhecimento da oficina anterior com os procedimentos metodológicos para realização de pesquisa científica, visando promover o compromisso com a Terra e a Revolução Copernicana ao Contrário, afora outros temas atinentes à Educação. Neste sentido, nada melhor que usar da lição do César Vallejo: O saber nos torna mais livre. DUAS: DIA DA POESIA – Um dia diferente na Biblioteca Fenelon Barreto nas comemorações do Dia da Poesia. Lá estiveram alunos do glorioso Ginásio Municipal para quem pude, ao lado das escritoramigas Eliete Carvalho, Rute Costa & VanessaFerreira, falar de poesia na Terra dos Poetas. Um momento inesquecível. O evento foi comandado pela professora Lisandra Alberto Souza, o que me levou a reafirmar que só a Poesia tornará a vida suportável. Que o diga o poeta António Botto: Já na minha alma se apagam / As alegrias que eu tive; / Só quem ama tem tristezas, / Mas quem não ama não vive. TRÊS: TODO DIA É DIA DA MULHER – Só o amor nos salvará! Mesmo com a certidão de Bauman de que as relações líquidas da contemporaneidade comprovem o fracasso da humanidade, legado deste tempo tão sem poesia. Ah, ainda resta a possível esperança, como o de poder ouvir O Recital de Haydn ou o The Spanish Soul. Melhor dizendo, como expressa acertadamente a sempre linda Teresa Berganza: O amor é o poder inicial da vida, a paixão permite sua permanência. Vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: Desconfio das pessoas que sabem muito bem o que Deus quer que elas façam, porque percebo que sempre coincide com os próprios desejos. Pensamento da ativista feminista, sufragista & abolicionista estadunidense, Susan Brownell Anthony (1820-1906).

O DIREITO DE VIVER – Um ser humano tem o direito de viver com dignidade, igualdade e segurança. Não pode haver segurança sem uma paz verdadeira, e a paz precisa ser construída sobre a base firme dos direitos humanos. A manutenção da paz e da segurança está indissociavelmente ligada à igualdade dos direitos entre homens e mulheres. Estou firmemente convencido de que uma estratégia para a segurança pode e deve ser guiada pela defesa do império da lei e o respeito aos direitos humanos. A globalização e a liberalização comercial trouxeram riquezas para muitos, mas a distância entre ricos e pobres - países ricos e pobres e pessoas ricas e pobres dentro dos países - está aumentando. O direito ao desenvolvimento diz que a ação internacional, inclusive por Estados mais ricos, para remediar as desigualdades é uma obrigação e não uma caridade. A construção de instituições democráticas, o respeito aos direitos humanos, uma mídia livre e democrática, o direito a uma informação objetiva. Isso é importante para criar um clima de debate político que venha substituir a violência física e armada. Desenvolvimento humano é o processo de alargamento das escolhas dos indivíduos proporcionando a cada um, a oportunidade de tirar o melhor partido das suas capacidades: viver uma vida longa e saudável, adquirir conhecimentos e aceder aos recursos necessários para um nível de vida decente. Pensamento do saudoso diplomata e funcionário da Organização das Nações Unidas, Sérgio Vieira de Mello (1948-2003), vítima do atentado a bomba contra a sede da ONU em Bagdá, assumido pela organização extremista Al Qaeda que o tinha como principal alvo do ataque.

COMPOSITORES PERNAMBUCANOS
Você tem / Quase tudo dela / O mesmo perfume, / A mesma cor, / A mesma rosa amarela, / Só não tem o meu amor. / Mas nesses dias de carnaval, / Para mim você vai ser ela, / O mesmo perfume a mesma cor, / A mesma rosa amarela, / Mas não sei o que será, / Quando chegar a lembrança dela, / E de você apenas restar, / A mesma rosa amarela.
(A mesma rosa amarela, música de Capiba & Carlos Pena Filho).
COMPOSITORES PERNAMBUCANOS - A obra Compositores pernambucanos – Coletânea bio-músico-fonográfica 1920-1995 (Massangana, 1997), organizada pelo ator, diretor teatral, radialista, pesquisador, compositor e escritor Renato Phaelante da Câmara, reúne personagens do cenário musical, tais como Luiz Gonzaga, Felinho, Dominguinhos, Antonio Maria, Geraldo Azevedo, Capiba, Nando Cordel, Anastácia, Nelson Ferreira, Guedes Peixoto, Rildo Hora, Alceu Valença, Duda, Heraldo do Monte, J. Michilles, Paulo Diniz, Maciel Melo, entre outros.
&
BACABI, PUNKAKE & ROCKIDS
A cantante e saltitante Bárbara Carneiro Bianeck é integrante da banda Punkake e do Rockids. A Punkake é formada por Bacabí, Ingrid Richter, Lívia Calil e Carol Steiner, atua com um repertório inovador de rock & a Rockids com músicas estruturadas e adaptadas para o universo lúdico da criança. Veja mais aqui.

ARTISTAS PERNAMBUCANOS
A obra Artistas de Pernambuco (Recife, 1982), organizada por José Claudio da Silva, reúne artistas como Abelardo da Hora, Guita Sharifker, Samico, Wellington Virgolino, Tereza Costa Rego, Olimpio Bonald, La Greca, João Câmara, Cícero Dias, Bajado, Brennand, Vicente do Rego Monteiro, Silvia Pontual, Paulo Bruscky, Diva Gloria, Corbiniano, Darel Valença Lins, Ezilda Goiana, Maia Tomaselli, Solange Magalhães, entre outros. Veja mais aqui e aqui.
&
A ARTE DE OCTÁVIO ARAÚJO
A arte do gravador, pintor, desenhista, ilustrador e artista gráfico Octávio Araújo (1926-2015). Veja mais aqui.

PERNAMBUCO ART&CULTURAS
HISTÓRIA DA VITÓRIA DE SANTO ANTÃO
História da Vitória de Santo Antão (Biblioteca Pernambucana de História Municipal, 3 volumes - FIAM,1983), do professor José Aragão Bezerra Cavalcanti, conta a história da cidade de Braga – Diogo Braga, a expansão do povoamento, Guerra dos Mascates, criação da freguesia, os problemas da comunidade, a organização municipal portuguesa, a vila de Santo Antão, o período de agitação da revolução de 1817, o movimento de 1821, a cidade de Vitória de Santo Antão, entre outros assuntos. Veja mais aqui.
Bando de Mônadas de Vital Corrêa de Araújo aqui & aqui.
A música de Antônio Madureira aqui.
O cinema de Carol Correia aqui & aqui.
A cantoria de Nicandro Nunes Costa aqui.
A poes&arte de Cyane Pacheco aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Alma caeté aqui & aqui
&
OFICINAS ABI
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


sexta-feira, julho 20, 2018

CERNUDA, BAUMAN, AHMED SEFRIOUI, SANTANA, ACKERMAN, DAVID GISTA & BIBLIOTECA


OS FANTASMAS DA BIBLIOTECA – Imagem: Him Again, do pintor francês David Gista. - Ao regressar para minha terra, resolvi fazer uma residência voluntária na Biblioteca Pública: unia, assim, o útil ao agradável. Sempre fui refém dos livros, desde menino. Ficava maravilhado com as estantes abarrotadas do meu pai e adorava, às escondidas, surrupiá-los, folheá-los, lê-los e descobrir narrativas, como as de Borges, Bachelard, Nejar, Eco, Canetti, Alberto Manguel, Carlos Dominguez, Bonnet, o mundo de Midlin, a autobiografia de Andrea Kerbaker, outros muitos. Nunca fui bibliômano, esses são os que compram livros e livros e não lêem nem deixam ninguém sequer abrí-los, servindo só para enfeite e vaidade. Curioso de gente que compra livros e os mantém intactos, ou abrindo-os com todo cuidado, um ritual de não deixar uma página sequer machucada nem com rugas a lombada. Sempre fui desajeitado, gosto de dobrá-los, riscá-los, relê-los, assíduo visitante de sebos, livrarias e bibliotecas. Reúno alguns poucos volumes em algumas estantes. Quando me convidam para uma visita, a primeira coisa que me chama atenção em qualquer lugar são os livros. Os curiosos que me chegam, perguntam logo: já leu isso tudo? Quem lê muito fica doido. Sou doido de nascença mesmo, advirto, e até os meus livros possuem um pacto entre eles de nunca me deixar achar aquilo que procuro, afora os que dão cria, de um só volume viram muitos exemplares, como o esfíngico Assim falou Teles Júnior. Também já dei de cara com maníacos outros, como o intelectual de sovaco: só os compra para acomodá-los às axilas e se passar por contumaz leitor, sem nunca ter lido além da capa e orelhas, quando muito, mais nada. Voltando ao papo da Biblioteca, pois bem: lá estava eu no habitat mais aprazível para mim, o paraíso. Ao cabo de alguns meses, como eu era o primeiro a chegar e o último a sair de lá, o diretor me confiou as chaves. Ao acordar por volta das cinco da manhã, eu ia pra lá. Chegando mais cedo que de hábito, ao abrir a porta tomei um susto: fui recepcionado pelo patrono. Como pode? Pode entrar, disse-me. Um carrancudo dramaturgo que matava todo mundo nas cenas, exceto o ponto porque fugia antes do final. Convidou-me e fui arrepiando dos pés à cabeça. Parecia haver uma reunião: vi de cara Ascenso que se aproximou e me puxou pelo braço falando das ladainhas do invisível que influenciam o sangue e o mau tempo, dizia: Todos os fantasmas moram no Rio Una. É de lá que eles saem todas as noites para os festejos daqui, do Clube Literário. Logo se aproximou o comediógrafo Lelé Correa que me chamava atenção com piadas que conjuravam desgraças, apontando para o Jayme Griz a recitar uma poesia com a participação de Eliseu Pereira que solfejava uma ópera, ao som do piano do Dery, regidos pelo maestro Zé da Justa. Ao lado, João Costa balbuciava frases sobre as trevas da noite e os seus mistérios, virando um copo de bebida, acompanhado de Abel e Raymundo que soltavam lorotas para Elita, Stella e Julia Leite. Sentado mais adiante estava Artur Griz obstinadamente fechado folheando sua enciclopédia, enquanto Calazans largava trovas para Amaro Matias. Dei por conta a chegada de Hermilo com uma estatueta cheia de escoriações, a me dizer que verei tudo que terei de ver, e me conduziu a um copioso repasto às maiores abluções, nas quais proclamavam ser aquela a verdadeira realidade, enquanto nós, os que se dizem vivos, todos vivíamos no embuste dos sentidos. Levou-me por um tapete bonina que mais parecia uma passarela para desfiles. Todos estavam ali, vi. Não os temia mais, até colaborava com as façanhas deles. A imaginação ditava as regras: contavam de um beiçudo caeté que vivia no fundo do sétimo mar que vez em quando aparecia para nos ensinar a vida; ou de um insurreto oculto na solidão do deserto, e dos personagens que saltavam dos livros para conversarem conosco. Cochichou-me Hermilo dos livros que encontrei escondidos entre uma estante e outra. Sim, isso ocorria com frequência, não sabia que era iniciativa deles, para me perturbar. Isso dissipava meus temores já achegado ao circulo habitual. Passei a entender o pacto dos livros em me tapiar: procurava ao máximo colocá-los nos lugares devidos e, no dia seguinte, deparava com prateleiras desorganizadas, assuntos misturados, tudo fora de ordem. Eram eles que faziam a confusão. Hermilo então me confidenciou sobre a assiduidade de determinados visitantes diários, também fantasmas enlouquecidos e ocultos em formas humanas: o que furtava livros todos os dias, sem saber a causa, disse-me: Ele fugiu de uma história e se perdeu. Por isso todo dia rouba um livro para voltar, mas a maldição não permite. Falou-me daquele mitômano que senta todo santo dia como entretido na leitura que não faz, passa a manhã todinha e no início da tarde sai na sua loucura de misturar ideias à realidade. Entre outros haviam os obcecados que chegavam ali para encontrar suas próprias doidices nas leituras de terror, ou crimes hediondos, psicopatologias e os mais diversos horrores da humanidade. Alguns apareciam na veneta, carregados de remorsos a espremer seus íntimos e soltar suas enfermidades em conversas longas e demoradas comigo, relatando coisas como se fossem de outras pessoas quando, na verdade, eram seus próprios desatinos. Todos eram fantasmas que vagavam pelos dias, esses os condenados à vida que, a exemplo de Bonnet, me apresentavam curiosidades estranhíssimas recolhidas de suas próprias vidas como se recolhidas das epopeias, como a da morte do compositor Charles Alkan, esmagado pelos livros da sua própria biblioteca; o poeta Gilbert Lély que só reunia cem volumes, ou aqueles que apareciam com cortes de vítimas de bordeline ou Síndrome de Lesch-Nyhan, utilizando-se das páginas de livros para autogolpes; aqueles que utilizaram de grossíssimos volumes para abater seus alvos humanos; aqueles que foram atacados pelos personagens revoltosos que emergiram das histórias lidas, ou os que misturaram suas vidas entre os relatos ficcionais, os que assumiram a personalidade de seus heróis históricos, os que enlouqueceram com o volume de informação de suas leituras, os que mergulharam nos cenários narrativos para nunca mais voltar, os que viraram verbetes de dicionários e enciclopédias, enfim, não sabia que vivos e mortos pagavam suas contas à revelia. Era adorável, pois, durante oito meses convivi antes e depois do horário de funcionamento com os fantasmas do Una, benfeitores que apenas gozavam da outra vida deles; era doloroso, durante o expediente, encontrar outros tantos disfarçados de gente que me exaltavam qualidades e virtudes que nunca tivera, teimando ambíguos em transitar entre a minha atenção e os logradouros, com pinoias e lamentações inaceitáveis, os menores que seu próprio tamanho. Oito meses inesquecíveis nos labirintos da biblioteca. E a minha história acabou. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor e multi-instrumentista mexicano Carlos Santana: Concert Live, Shaman, Supernatural & Abraxas & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Os perigos dos quais se tem medo (e também os medos derivados que estimulam) podem ser de três tipos. Alguns ameaçam o corpo e as propriedades. Outros são de natureza mais geral, ameaçando a durabilidade da ordem social e a confiabilidade nela, da qual depende a segurança do sustento (renda, emprego) ou mesmo da sobrevivência, em caso de invalidez ou velhice. Depois, vêm os perigos que ameaçam o lugar da pessoa no mundo – a posição na hierarquia social, a identidade (de classe, de gênero, étnica, religiosa) e, de modo mais geral, a imunidade à degradação e à exclusão social. [...] E, como você deve ter adivinhado, não há como revogar totalmente as expulsões. A questão não é se, mas quem e quando. As pessoas não são eliminadas por serem más, mas porque faz parte da regra do jogo que alguém deve ser eliminado e porque outras pessoas se mostraram mais habilidosas na arte de se descartar de outras como elas; ou seja, eliminar outros jogadores do jogo que todos jogam, os que expulsam e também os que são expulsos. Não é que as pessoas sejam expelidas por terem sido identificadas como indignas de permanecerem. É exatamente o contrário: as pessoas são declaradas indignas de permanecerem porque há uma cota de eliminações que deve ser cumprida. [...] Trechos da obra Medo líquido (Zahar, 2008), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017). Veja mais aqui e aqui.

O AMOR – [...] Ao contrário daquilo que filósofos, moralistas, teóricos, afins e psicólogos sempre afirmaram, o amor não é um escolha. É um imperativo biológico. E assim como a evolução favoreceu seres humanos capazes de fincar de pé, ela favoreceu os seres humanos que sentiam amor, porque o amor possui um grande valor de sobrevivência. Aqueles que sentiam amor asseguravam a sobrevivência de sua prole, essa prole herdou a capacidade de amar e viveu mais tempo e teve mais filhos seus. Com o decorrer do tempo, a tendência ao amor tornou-se parte de nossos dotes genéticos, por fim tornou-se mais profundamente inata do que uma simples tendência, aptidão ou legado, e sua riqueza passou a subsidiar todas as iniciativas de nossa vida. Os seres humanos tornaram-se capitalistas aventureiros emocionais. [...] Quando amamos com todo nosso coração, com toda nossa alma, com toda nossa vontade, trata-se de uma paixão elétrica. O amor desenvolve-se nos neurônios do cérebro, e sua maneira de crescer depende de como esses neurônios foram treinados quando éramos crianças. [...] Nossa maneira de amar é uma questão de experiência. [...]. Trechos extraídos da obra Uma história natural do amor (Bertrand Brasil, 1997), da escritora e naturalista estadunidense Diane Ackerman. Veja mais aqui e aqui.

A PORTA ILUMINADA – [...] Aqui não se deve morrer. [...] No rês-do-chão habita um sujeito chamado El Alami; homem de cinquenta anos, sempre de mau humor que aterroriza sua jovem mulher, ameaçando-a todos os dias de repúdio. Mas eu amo esta pobre Aicha que se ouve chorar com soluços de criança e fungos de menina ranhenta. Eu a amo porque ela é sempre limpa e canta com gorjeios de andorinha: Amor! Amor! / Abriste meu coração / para aí te alojares. / Nem médico nem fqih / podem nada contra ti. Minha não compartilha da minha simpatia para com a jovem. [...] Aicha! Sonho para ti uma existência melhor, saturada de perfumes e flores, acalentada de cantos de pássaros. Com gorjeios de andorinha cantarás todo o dia atrás das árvores do jardim [...] Aicha reina neste palácio e canta sobre as romanzeiras em flor [...] Esta canção me vem aos lábios; não compreendo o seu sentido, mas há necessidade de que uma canção tenha sentido? [...] Aicha, não chores mais com teu soluço de criança, teus fungos de menina nervosa. Os escravos preparam caçoilas de perfume; estendem tapetes da Pérsia para receber-nos. Vem, vem, para nós nenhuma porta ousará permanecer fechada. Todos os dias, através dos maciços jasmins, cantaremos com gorjeios de andorinha [...]. Trecho de conto do escritor marroquino Ahmed Sefrioui (1915-2004).

SE O HOMEM PUDESSE DIZER - Se o homem pudesse dizer o que ama, / Se o homem pudesse levantar seu amor pelo céu / Como uma nuvem na luz; / Se como muros que se derrubam, / Para saudar a verdade erguida no meio, / Pudesse derrubar seu corpo, deixando só a verdade de seu amor, / A verdade de si mesmo, / Que não se chama glória, fortuna ou ambição, / Mas amor ou desejo, / Eu seria aquele que imaginava; / Aquele que com sua língua, seus olhos e suas mãos / Proclama ante os homens a verdade ignorada, / A verdade de seu amor verdadeiro. / Liberdade não conheço senão a liberdade de estar preso em alguém / Cujo nome não posso ouvir sem arrepio; / Alguém por quem me esqueço desta existência mesquinha, / Por quem o dia e a noite são para mim o que quiser. / E meu corpo e espírito flutuam em seu corpo e espírito / Como troncos perdidos que o mar afoga ou levanta / Livremente, com a liberdade do amor, / A única liberdade que me exalta, / A única liberdade por que morro. / Tu justificas minha existência: / Se não te conhecer, não vivi; / Se morrer sem te conhecer, não morro, porque não vivi. Poema do poeta e critico literário espanhol Luis Cernuda (1902-1963). Veja mais aqui e aqui.

FANTASMAS NA BIBLIOTECA
[...] os livros eram onipresentes e formavam verdadeiras florestas com alamedas, avenidas, bosques, caminhos, nos quais se tropeçava nas pilhas e nos montes que transbordavam das prateleiras, abarrotavam as mesas, os móveis, os assoalhos... [...] Curiosamente, a fonte infinita de informações que constitui a internet não tem para mim o mesmo estatuto mágico que a minha biblioteca. Estou diante de meu computador, graças ao qual posso chegar a todas as informações imagináveis, ainda mais mestre do tempo e do espaço, e, no entanto, falta aí o "divino". Talvez se trate de uma questão corporal: faço isso com a ponta dos dedos, e tudo permanece exterior, passando por uma máquina e uma tela. Nada a ver com minhas paredes atapetadas de livros que eu conheço — quase — de cor. De um lado, tenho a impressão de estar no comando de um braço articulado capaz de todas as performances no vazio sideral exterior, de outro, num útero cujas paredes são atapetadas de prateleiras cujo arquétipo romanesco poderia ser o Nautilus. Como se vê, a questão não é apenas de racionalidade. [...].
Trechos extraídos da obra Fantasmas na biblioteca (Civilização Brasileira, 2013), do escritor francês Jacques Bonnet. Veja mais aqui e aqui.

Semana Hermilo & Bienal Internacional do Livro de São Paulo & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor francês David Gista.
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&
Amizade & dos amigos & amigas, a poesia de Carlos Drummond de Andrade, a literatura de Ana Maria Machado, a arte de László Moholy-Nagy, a música de Tom Jobim, Guiomar Novaes, Sebastião Tapajós & Teca Calazans aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


quarta-feira, dezembro 13, 2017

JUNG, BAUMAN, QUINTANA, GONZAGA, JOÃO CABRAL, DOROTHY IANNONE & ESCADA

UMA COISA DENTRO DA OUTRA – Imagem: Blue and wihte sunday morning, da artista estadunidense Dorothy Iannone. - Olá, gentamiga, um dia radiante de harmonia paratodos, salve, salve. As coisas parecem andar meio embaralhadas, de pernas pro ar, ou melhor, desgovernadas mesmo. É que entre uma coisa e outra, o que aparece é meio insólito, senão, paradoxal. Deveras, é só olhar direitinho que está duvidoso saber se o que é certo virou errado, ou se o direito e o justo são apenas acomodações negociadas. Tem muita bravata no ar. É que enquanto teimam em fazer da oportunidade do presente um passado não muito distante de infeliz condução, produzem um futuro no capricho dos interesses escusos. O noticiário quase não deixa qualquer entendimento que não seja a da discórdia, entender são outros quinhentos. O falso moralismo de plantão reinante imprmindo o retrocesso, e apenas para satisfação dos que pensam que sua condição egoísta, retrógrada e vaidosa é imperiosa e urgente, mostra, nada mais, nada menos, a mais cristalina das constatações de sectarismo raivoso de trogloditas da barbárie e cultores das trevas para a implementação do neofundamentalismo canceroso que alastra tenazmente entre nós. Esse despropósito confunde vida com conforto, arte com baboseira, artista com diletante, sinceridade com artifício, crença com intolerância. No entanto, apesar da insegurança impressa por estabanados arrumadinhos que se processas em todas as esferas da gestão governamental do nosso país, apesar da dubiedade de expressão entre cordados e conformados, e da escuridão no fim do túnel, a nós que nos foi concedido o poder de sermos seres pensantes, nos resta seguir, firme e serenamente, decodificando os acontecimentos e desfechos do momento atual. É preciso, antes de qualquer coisa, sabermos que não é apenas o umbigo o legítimo beneficiário das benesses existentes no mundo, muito menos o único detentor do poder de razão acima de quem quer que seja. O outro e os demais, senão todos, merecem também partilhar do direito de viver por serem legítimos ocupantes do planeta Terra. Vale dizer que nunca ouvi dizer que um cavalo, ou um cachorro, jacaré ou leão, ou o mais peçonhento dos seres ditos irracionais desse mundo, matasse ou vitimasse o outro da mesma espécie, só pra se apossar ou acumular aquilo que fosse o seu desejo sobre os demais. Isso nos leva a refletir acerca da evolução humana ao longo dos séculos e milênios, a avaliar o inventário da humanidade. A nós, de fato, nos resta entender que a humildade, gentileza e discernimento são atributos que nos distinguem como seres humanos, portanto, isso é o que nos faz distinguir no plano cósmico, qual a nossa missão e propósito na vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o rei do baião Luiz Gonzaga (1912-1989) ao vivo & o show Gonzagão & Gonzaguinha: a vida do viajante ao vivo. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – A força do livro reside em sua capacidade totalmente específica de ligar a biografia à história, o privado ao público, o individual ao social, os momentos vivenciados ao sentido da vida. Pensamento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925- 2017). Veja mais aqui e aqui.

O SER HUMANO - [...] a cultura humana, enquanto produto natural de diferenciação, é uma máquina; primeiro que tudo, uma máquina técnica que utiliza condições naturais para transformar a energia física e química, mas também uma máquina psíquica que utiliza condições naturais para transformar libido. Da mesma forma que o homem conseguiu inventar uma turbina e, conduzindo o curso d’água para ela, transformar a energia cinética nela contida em eletricidade, capaz de múltiplas aplicações, assim também conseguiu, com a ajuda de um mecanismo psíquico, converter os instintos naturais – que, de outra maneira seguiriam sua tendência natural – outras dinâmicas que tornam possível a produção de trabalho. [...]. Trechos extraídos da obra Energia psíquica (Vozes, 2002), do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). Veja mais aqui e aqui.

ESCADA -  O município de Escada teve seu povoamento povoamento iniciado a partir de uma aldeia de índios das tribos Potiguaras, Tabujarés e Mariquitos, fundado em época indeterminada, porém existentes em 1685, com a denominação de Aldeia de Nossa Senhora da Escada de Ipojuca. O nome "Escada" provém da capela erguida por missionários da Congregação do Oratório para catequese dos índios, que ficou conhecida como Nossa Senhora da Escada. O distrito foi criado pela Carta Régia de 27 de abril de 1786 e por Lei Municipal em 6 de março de 1893. A Lei Provincial nº 326, de 19 de abril de 1854, criou o município de Escada, com território desmembrado do município do Cabo de Santo Agostinho. A sede municipal foi elevada à cidade pela Lei Provincial nº 1.093, de 24 de maio de 1873. É formado pela Sede Administativa, distritos de Massuassu e Frexeiras. A rede hidrográfica da cidade tem o rio Sapucaji e em grande extensão na cidade o rio Ipojuca. Em Escada, o rio Ipojuca passa pela sua periferia, cruzando áreas próximas ao centro da cidade, onde se encontra a Ponte do Atalaia que faz e proporciona a ligação de bairros da cidade ao centro. Além da rica história e da beleza arquitetônica dos velhos engenhos, Escada tem atrativos naturais como Quedas d`água, nascentes de riachos, bicas, corredeiras e alguns resquícios da Mata Atlântica brasileira, isso sem contar com o artessanto local, a culinária típica e o movimentado calendário de festas populares da cidade que inclui as festas juninas. Veja mais aqui

NOSTALGIAS - Há tempos escrevi este decassílabo nostálgico: “Acabaram-se os bondes amarelos!” Tão nostálgico que até hoje ficou sozinho esperando o resto dos companheiros. Também, não faz muito, escrevi este outro decassílabo: “Acabaram-se as tias solteironas...” Talvez esses dois solitários se venham um dia a reunir num mesmo poema. Têm ambos o mesmo ritmo. Causam ambos o mesmo nó na garganta que me impede de os continuar. Talvez o poema já esteja pronto... e ninguém notou. Nem eu! Porque ele próprio se completou, cada verso chorando no ombro do outro... e sem mesmo notar que eram decassílabos. Texto extraído da obra Porta giratória (Globo, 1988), do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994). Veja mais aqui, aqui e aqui.

FÁBULA DE UM ARQUITETO - A arquitetura como construir portas, / de abrir; ou como construir o aberto;/ construir, não como ilhar e prender,/ nem construir como fechar secretos;/ construir portas abertas, em portas; / casas exclusivamente portas e tecto./ O arquiteto: o que abre para o homem/ (tudo se sanearia desde casas abertas) / portas por-onde, jamais portas-contra;/ por onde, livres: ar luz razão certa. / Até que, tantos livres o amedrontando, / renegou dar a viver no claro e aberto./ Onde vãos de abrir, ele foi amurando/ opacos de fechar; onde vidro, concreto;/ até fechar o homem: na capela útero,/ com confortos de matriz, outra vez feto. Poemas extraídos da obra Poesias completas (José Olympio, 1986), do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Veja mais aqui, aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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terça-feira, novembro 15, 2016

A REPÚBLICA NO REINO DO FECAMEPA – LIÇÕES DE ONTEM E DE HOJE PRO QUE NÃO É

[...] Sabes que há tantas espécies de caráter como formas de governo? Ou pensas que essas formas provêm dos carvalhos e da rocha, e não dos costumes dos cidadãos, que arrastam todo o resto para o lado para que pendem? [...] não convirá passar em revista os caracteres inferiores: em primeiro lugar, o que ama a vitória e a honra, baseado no exemplo do governo da Lacedemônia; em segundo o oligárquico, o democrático e o tirânico? Depois de reconhecermos qual o mais injusto, oporemos este ao mais justo e poderemos aí terminar o nosso exame e ver como a pura justiça e a pura injustiça agem, respectivamente, no que diz respeito à felicidade ou à infelicidade do indivíduo, para que siga o caminho da injustiça, se nos deixarmos convencer por Trasímaco, ou a da justiça, se cedermos às razões que se manifestam a seu favor [...] Deste modo, de amantes que eram da conquista e das honras, os cidadãos acabam por tornar-se avarentos e ambiciosos, louvando o rico, admirando-o e levando-o ao poder, e desprezando o pobre. [...].
Trechos recolhidos da obra A República (Edições de Ouro, 1980), do filósofo e matemático grego racionalista, realista, idealista e dualista Platão (428-347aC). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

[...] A liberdade, por exemplo, só pode existir verdadeiramente onde o povo exerce a soberania; não pode existir essa liberdade, que é de todos os bens o mais doce, quando não é igual para todos. [...] Pois bem: assim como o agricultor conhece a natureza do terreno e assim como um escritor sabe escrever, procurando ambos, na sua ciências, antes a utilidade do que o deleite, assim também o homem de Estado pode estudar o direito, conhecer as leis, beber nas suas próprias fontes, sob a condição de que as suas respostas, escritos e leituras o ajudem a administrar retamente a República. Certamente, deve conhecer o direito civil e natural, sem cujo conhecimento não pode ser justo. Mas deve ocupar-se com tais coisas como o piloto se ocupa com a astronomia, e o médico com as ciências naturais, referindo esses estudos à prática de sua profissão, aproveitando-se deles no que lhe possam ser úteis e sem se separar do verdadeiro caminho que empreendeu. [...].
Trechos extraídos da obra Da República (Escala, 2005), do filósofo, orador, escritor, advogado e político romano Marco Túlio Cícero (106 – 43aC).. Veja mais aqui, aqui e aqui.

[...] Porque em toda cidade se encontram estes dois humores diversos; e nasce disso
que o povo deseja não ser comandado nem oprimido pelos grandes, e os grandes
desejam comandar e oprimir o povo; e desses dois apetites diversos nascem nas cidades um dos três efeitos: ou principado ou liberdade ou licença. [...].
Trecho extraído da obra  O príncipe (Abril Cultural, 1979), do escritor, filósofo, historiador e dip0lomata italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

[...] Num Estado, isto é, numa sociedade onde há leis, a liberdade só pode consistir em poder fazer-se o que se deve querer e em não estar obrigado a fazer o que não se deve querer. [...] A desgraça de uma república advém quando não há mais conluios e isso acontece quando se corrompe o povo pelo dinheiro: ele torna-se indiferente e afeiçoa-se ao dinheiro, porém não mais se afeiçoa aos negócios: sem se preocupar com o governo e com o que nele se propõe, espera tranquilamente seu salário. [...].
Trechos extraídos da obra Do espírito das leis (Abril, 1979), do filósofo e escritor francês Montesquieu (1689-1755). Veja mais aqui, aqui e aqui.

[...] Eu chamo, pois, república todo Estado regido por leis, independente da forma de administração que possa ter; porque então somente o interesse público governa, e coisa pública algo representa. Todo governo legítimo é republicano. [...].
Trecho extraído da obra Do contrato social (Abril Cultural, 1978), do escritor, teórico político, um dos principais filósofos do Iluminismo e precursor do Romantismo francês, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

[...] A padronização formal da justiça, do estado, do funcionalismo público etc. significa objetivamente e factualmente uma redução comparável de todas as funções sociais aos seus elementos, uma busca comparável pelas leis racionais formais desses sistemas parciais cuidadosamente segregados [...].
Trecho extraído da obra História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista (WMF Martins Fontes, 2012), do filósofo, crítico literário e pensador marxista húngaro Georg Lukács (1885-1971). Veja mais aqui e aqui.

[...] Embora os seres humanos não sejam civilizados por natureza, possuem por natureza uma disposição que torna possível, sob determinadas condições, uma civilização, portanto uma autorregulação individual de impulsos do comportamento momentâneo, condicionado por afetos e pulsões, ou o desvio desses impulsos de seus fins primários fins secundários, e eventualmente também sua reconfiguração sublimada. [...] Dado que os seres humanos, diferentemente de muitos outros seres vivos sociais, não possuem uma regulação nativa dos afetos e pulsões, eles não podem prescindir da mobilização de sua disposição natural rumo à autorregulação mediante o aprendizado pessoal dos controles dos afetos e pulsões, no sentido de um modelo de civilização específico da sociedade, a fim de que possam conviver consigo mesmos e com os outros seres humanos. O processo universal de civilização individual pertence tanto às condições de individualização de ser humano singular com às condições da vida social em comum dos seres humanos. [...].
Trechos extraídos da obra: Escritos e ensaios I: Estado, processo, opinião pública (Zahar, 2002), do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

[...] No espaço social mapeado cognitivamente, o estranho é alguém do qual sabemos pouco e do qual desejamos saber ainda menos. No espaço moral, o estranho é alguém que nos importa pouco e nos sentimos tentados a que nos importe ainda menos. [... ].
Trecho extraído da obra Ética pós-moderna (XXI, 2004), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

[...] As classes dominantes usam o Estado exatamente para criar e manter uma dualidade intrínseca da ordem legal e política, graças à qual o que é oligarquia e opressão para a maioria submetida, é automaticamente democracia e liberdade para a minoria dominante [...] Essa forma de participação, por cooptação, contribui "para a corrupção intrínseca e inevitável do sistema de poder resultante. [...].
Trecho extraído da obra A revolução burguesa no Brasil (Zahar, 1976),


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