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segunda-feira, agosto 01, 2022

ANN BRASHARES, MALALA YOUSAFZAI, MEIR SHALEV & MIRÓ DA MURIBECA

 

 

TRÍPTICO DQP: De máscaras & personas... - Ao som do Concert Excerpts @International Guitar Festival Ferran Sor (2020), da violonista espanhola Anabel Montesinos. - O que vejo e sou: a máscara traz a persona que se mostra no palco do mundo e no cenário da vida. A aparência preferida almeja protagonizar entre os arquétipos de Jung e o senso diante da escolha entre os princípios de Freud: o prazer e a realidade. A lucidez é um detalhe e não precisa ser sisuda, como diria Nise da Silveira, seria uma chatura por esconder o real sob o ideal. E essa manipulação não seria lá tão saudável, ou quem capaz do Poema em linha reta ou da Tabacaria de Pessoa, enquanto visualizasse aquela que Carl Rogers colocou no centro da fenomenologia-existencial. Talvez seria melhor considerar o que dissera a escritora estadunidense Ann Brashares: Talvez haja mais verdade em como você se sente do que no que realmente acontece... Talvez a verdade seja que há um pouco de perdedor em todos nós. Ser feliz não é ter tudo em sua vida perfeito. Talvez seja sobre juntar todas as pequenas coisas... Ou atentar para o que escrevera o escritor israelense Meir Shalev: Se ao menos pudéssemos nos livrar de todas as coisas mortas dentro de nossos próprios corpos e almas!... Cada qual seu repertório de representações no ludo vital, sabendo-se de antemão que na cena, diz Stanislavski, deve-se expor o que vem de dentro para não ser um histrião no meio dos outros. É que por trás da máscara mil semblantes podem reverberar...

 


Dum lado a outro a vida se manifesta... – Imagem: arte da sulcoreana Stella Im Hultberg. - Um clique, o estalo, zás. Dentro: um som, tons. Daí sílabas e sonoridades: uma palavra, uma sinapse neuronal, zis significados – senão todos à mercê da percepção. Disso um dedo, o sinal e quantos sentidos (do caos, quantas expressões por descobrir). O simples ato apenas sugeriu e tudo, exatamente tudo pode acontecer: um fio puxa outro, teias. Não é só uma coisa ou outra, de um ponto: todas as ideias – rizomas, galhos dendríticos pulsantes escorrem pelo axônio: as terminações atraem umas às outras, as escolhas, imantações. Quanto poderia se dizer de um simples ato: vibrações ecoam, reverberam algures. E se uma emergiu aqui pode ser outra noutra percepção. Dita o poder de síntese de quem se expressa, a imaginação de quem perceber. Não só, cabe o mundo inteiro em uma só palavra, quanto mais em duas, três, seis. E se uma fonte expede sêxtuplas rajadas de gotas entre muitas outras que circundam e desembocam na emersão do universo à seletividade, níveis da compreensão. É só um triz, apenas, em meia dúzia de jatos com outros pingos condensados, aleatórios ou não, quantas emissões: em cada gota significados implícitos; e, se reunidas, múltiploutros. Ou como diz Cees Nooteboom: O mundo é uma referência cruzada sem fim... Cada período da história tem seus próprios castigos, e o nosso tem uma infinidade... Essa é a diferença entre deuses e homens. Os deuses podem mudar a si mesmos; humanos só podem ser mudados... Quem fala e quem ouve entre empatias e dissonâncias, transmissões e retransmissões: dum lado a outro a vida se manifesta.

 


D’agosto e lá se vai... - Imagem: arte da sulcoreana Stella Im Hultberg. - Era eu menino pelos quatro anos de idade e bateram no portão de quase derrubá-lo – era o início do tenebroso período ditatorial do golpe militar de sessenta e quatro. Começou no primeiro de abril e me assustou: botas expunham fuzis das fardas, vasculhando salas, quartos e quintal. Não sabia o que queriam, só sei que todos os dias marchavam bravos lá em casa e eu, toda vez, entre um dos braços de minha mãe grávida, agarrado à minha irmã. Lembro certa vez ela gritou que era agosto e eles nem consideraram: estava prestes a dar à luz. Lembrei-me porque li A história de mim de Graça Lins, como se lesse um poema de Miró da Muribeca (1960-2022): olhei para o passado / as folhas dos calendários / caindo / é preciso plantar cedo sua árvore / pra mais tarde ter uma sombra / que lhe agasalhe... Agora novamente agosto como o poema de Tchello d’Barros: O tempo desenha na face / O alto custo de um imposto / Pois lento nos dá outro susto / Chegamos a outro agosto / Posto que o destino é vasto / E visto o que está posto / Este viver tão sucinto / Nesta sina a contragosto / Dias semanas e meses / Somam em si um desgosto / No raso espaço do espelho / Os anos esculpem seu rosto... e eu sozinho conto de Emily Brontë: Deixe-me a sós, que preciso pensar; enquanto penso, não sofro… Do que passou e o presente, lembranças tão vivas como ecoassem agora. Até mais ver.

 


Um livro, uma caneta, uma criança e um professor podem mudar o mundo. A diversidade garante que crianças possam sonhar, sem colocar fronteiras ou barreiras para o futuro e os sonhos delas. Vamos pegar nossos livros e canetas. Eles são nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo. A educação é a única solução. A educação é o poder das mulheres.

Pensamento da ativista paquistanesa Malala Yousafzai. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


quarta-feira, julho 14, 2021

GERTRUDE BELL, FLORENCE BASCOM, LILA ZALI & PABLO PORFIRIO

 

 

TRÍPTICO DQP – Reino dos sonhos... - Ao som de Pepperland (George Martin), na interpretação de Robertinho de Recife. - Onde eu estava, outro era o Reino dos Sonhos: não era Pepperland, nem o lago de George Gamow, nem a ilha de Samósata. De nada me valeu o tanto de estudos a respeito das interpretações de Freud. Se havia penetrado o universo de Jung, tive que indagar a mim mesmo: Será aquele do The other side - Die andere Seite (Rowohlt Taschenbuch, 2010), do Alfred Kubin? Só sei entre montanhas, uma Celestial. Tudo o mais é plano, algumas colinas, grandes florestas, um lago, um rio dividindo o território visível. Cruzei alguém: Onde estou? Perla, a terra de Patera. Quem? O extravagante ricaço que aqui chegou em busca de caçar o raríssimo tigre persa. Foi ferido pela fera e curado pelo chefe da tribo nativa, em um rito bizarro e indescritível. Curado, ele se apropriou destas terras, separou do mundo circundante com grande muralha e fortificações poderosas. Aqui é o refúgio para todos os insatisfeitos com a civilização e só uma porta que serve tanto para entrada como saída. É por ali. Se você está aqui, saiba: foi um golpe do destino - só os predestinados aqui chegam. Disse-me e saiu. Fiquei sem saber o que fazer. Foi, então, que dei de cara com a geóloga estadunidense Florence Bascom (1862-1945), que assim se reportou: O fascínio de qualquer busca pela verdade não está na obtenção, que na melhor das hipóteses é considerada muito relativa, mas na busca, onde todos os poderes da mente e do caráter são colocados em ação e absorvidos pela tarefa. Sente-se em contato com algo que é infinito e encontra uma alegria além da expressão em soar o abismo da ciência e os segredos da mente infinita. E lá estava eu outra vez, meu navio a sorte inventa.

 


A dança da morte... - Caminhei a esmo e me deparei com o fechamento de uma companhia de Ballet: a Pacifica. Foram cinquenta anos de atividades e muitos altos e baixos, soube. Havia uma tristeza no ar e esbarrei numa bela mulher. Ela olhou-me com seus olhos consternados. Não sabia, mas logo percebi que estava diante da fundadora e coreógrafa, a bailarina estadunidense Lila Zali (1918- 2003). Depois de um tempo com o olhar perdido nas imediações, virou-se e me falou: Você não pode pensar em fantasias como as pessoas estão fazendo e sobre as luzes e tudo mais e ainda ser capaz de dançar... como dançarina, você tem que ser egoísta; você tem que sempre se concentrar em si mesmo... Nós sobrevivemos perseverando e não cometendo o erro que a maioria das companhias de balé cometem ao começar muito grande... Começamos minúsculos e crescemos muito lentamente. Mas ficou... Senti sua voz embargada, seguiu em frente e o silêncio ficou no vazio de tudo, como se ela ecoasse aos meus ouvidos: Hoje não mais. Nenhum sobrevivente. Vi-me sozinho no meio de um momentâneo deserto, do qual emergia um Grand Guignol, como se enredado no meio do bailado de uma cena do Dracula: Pages from a Virgin's Diary (2002), do diretor canadense Guy Maddin. E a Lucy Westenra que fugia do vampiro cruel era a atriz canadense Tara Birtwhistle estirada no chão. Ao dar pela minha presença ergueu-se com um sedutor pedido de socorro. Eu me sentia o próprio Bram Stoker e logo surgiria Mira na pele da atriz Cindy Marie-Small armada com um crucifixo, desarmando-se ao constatar que eu era de paz. Lá estava eu entre as duas belas, até ser interrompido pela escritora britânica Gertrude Bell (1868-1926): A mais degradante das paixões humanas é o medo da morte... Na luta de mão desesperada para a vida, não há elemento de nobreza... Não tenha medo do trabalho duro. Nada que valha a pena vem facilmente. Não deixe que os outros o desencorajem ou digam que você não pode fazer isso. Na minha época, disseram-me que as mulheres não faziam química. Não vi razão para não podermos... Puxou-me pelo braço e me disse para dormir, era o melhor que eu podia fazer, sem mesmo saber como ou, sei lá. Ela acomodou-se em baixo de uma árvore frondosa e me chamou: Venha, vamos sonhar.

 


O despertar do sonho... - Era manhã e acordei assustado, sozinho. Não me sentia lá muito bem, um pressentimento de que estava revivendo um momento que já passara há muito tempo. Sim, na minha infância, quando soldados armados entravam na minha casa e caçavam pelos quartos, sala, cozinha, quintal, a casa toda e eu não entendia nada na minha inocência de quatro anos de idade. Da primeira vez que investiram, lembro bem, até admirei as botas, as armas, a farda, a marcha... mas com a constância de suas invasões adquiri temor e antipatia: eram bastante hostis. Cresci olhando bem para todos os fardados que cruzavam minha caminhada. Foram mais de longos vinte e tantos anos de muito ódio e treva que deles emanavam. Quando me dei por gente não havia como nutrir mesmo nenhuma simpatia, tanto é que à época do alistamento, eu já havia contraído matrimônio e fui dispensado, graças! Seria o inferno, ou melhor: mais um. Mas por que estou sentindo tudo isso agora? Dei pela presença do historiador Pablo Porfirio que lia trechos do seu livro Medo, comunismo e revolução – Pernambuco 1959-1964 (EdUFPE, 2009): ... Foram localizados, sobretudo, os discursos e as práticas sociais que procuravam racionalizar o perigo e a ameaça do comunismo, identificados nas mobilizações dos trabalhadores rurais, tornando-os uma realidade latente para setores da população. Deste modo, a ideia de perigo, defendida e propagada pelos latifundiários, resultava de um conjunto de esforços coordenados que relacionavam vários aspectos da sociedade e faziam emergir uma real ameaça comunista, que colocaria em risco a família, a religião e a paz social. Sim, já havia me dado conta disso. E? ...Essas ações não resultavam de simples histeria ou mera imaginação. Eram estratégias coordenadas, que integravam a imprensa, as discussões políticas e o cotidiano. Criavam modos de pensar, os quais faziam a ideia de perigo e a ameaça comunista ser aceita como verdadeira por parcelas da sociedade... Um conluio para o horror, eu sei... E? ... desenhar um movimento que contribuiu no estabelecimento e validade da dinâmica de uma ditadura militar... foi instituída e socialmente aceita uma crescente rede social crédula na existência de uma perigosa realidade e no caráter salvador do golpe civil e militar de 1964. Agora entendi o meu pressentimento. O presente aos sobressaltos, tão caro para nossa liberdade, para nossa integridade, tudo por um fio: escândalos, ameaças... Já faz tempo, alguns anos, sei, há muito tempo que decifro essa narrativa golpista, um atrás do outro para roubar a nossa paz, a nossa vida. É preciso prestar bem atenção, estar bem atento, não é só a pandemia a me roubar o sono, o meu o país destroçado. Até mais ver.

 

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segunda-feira, setembro 14, 2020

GLORIA ANZALDÚA, FRANK ZAPPA, VICTORIA BORISOVA, RICHARD SENNETT, RODOLFO LEDEL & LUIZ QUEIROGA

  DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... CATÁBASE... - Milhares de mortos nublaram o meu sorriso e a vida o meu país nas trevas, era Frank Zappa me dizendo: a estupidez é o elemento básico do universoNão havia como prever Fecamepa tão medonho e estou só como se fizesse a trilha de Lidenbrock dos manuscritos do alquimista Saknussem na viagem de Verne ao som de Wakeman, a descer pela cratera do vulcão islandês Sneffels para não sei onde. Na verdade, parece mais no aqui e agora, baixava ao inferno e não foi a minha primeira vez, nem a última, porque sou argonauta e, tal Orfeu solitário, mereço Eurídice. Lá que é aqui, a ninfa Estige era um rio do Hades e logo me veio o barqueiro Caronte carregado das almas que abandonavam seus sonhos, desejos e deveres no Aqueronte. Ele fez a vez do psicopompo e me revelou: o inferno não é onde estou, mas onde você está que era o paraíso Hy-Breazil. Não sabia e ainda estou vivo.


DUAS VEZES VIVO MUITO MAIS!  - (ao som da Symphony nº 1 – The Triumph of heaven, de Victoria Borisova Ollas – Imagem art by Rodolfo Ledel) - Tem horas que voo na vida. Noutras, ela me leva. À espera do Sol e da hora de ir para não mais voltar, penso e sou o homem de Jung na raça de Vasconcelos Calderón enquanto Gloria Anzaldúa me dizia o verso do Útero sem túmulo: Padeço de um mal: a vida, / enfermidade recorrente / que me purga da morte. E era ela, luz&ar, nua e linda do inopinado como se rufassem todos os tambores da paixão com uma orquestra atacando a overture da sinfonia dos seus encantos para me embriagar pela indelével dança do amor e me fizesse de uma vez por todas esquecer pretéritos e crástinos porque tudo era agora e não mais que isso valesse a pena viver eternamente. Sou duas vezes vivo nela e muito mais.


TRÊS MIL VEZES A VIDA! - (Imagem art by Rodolfo Ledel) - Com a colagem das três decepções em cima da bucha & a resiliência em dia, persigo a vida e persevero, mesmo que o potencialmente perigoso asteroide Apolo 2020 QL2 mude de rota, errante de rumo e faça a danação de vez numa colisão que seja para que se diga que era só o que faltava este ano, enquanto Richard Sennett ironizasse a invisível tragédia que vige ao nosso redor: Não há mais o medo de violência entre "tribos", o que acontece é mais sutil, é um recuo em relação ao outro, como se o outro simplesmente não existisse. Nem me dera conta, muito embora soubesse da indiferença de todos apagando toda capacidade de indignação e nos desumanizando. Acabei de crer: indubitavelmente o inferno é aqui, só pode ser mesmo. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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LUIZ QUEIROGA, O HUMILDE IMENSO
Eu num tenho bicicreta / num tenho jipe, nem carro, nem caminhão / mái, no meu jegue, nas estrada eu disparo / e até já me apelidaro, Fittipardi do sertão. / O meu jumento deixa muita gente zônza / eu já quis corrê em Monza / e ía fazê figura / mái, reparei que o bicho tem até buzina / mái num usa gasulina / e lá num tem capim gordura. / Prá passa marcha a gente aperta nas urêia / o jumento se aperrêia e voa feito um avião / cum uma isporada ele rônca na trasêra / deixa tudo na puêra, meu jumento é campião!
Fittipárdi do sertão, extraído da obra Luiz Queiroga, o humilde imenso – o criador do Coronel Ludugero (Autor, 2006), da cantora e pesquisadora Mêvinha Queiroga, reunindo a biografia e textos de Lula Queiroga, José Mário de Austragésilo e Lúcio Mauro, Luiz Maranhão Filho, além de depoimentos de Arnaud Rodrigues, Carlos Fernando, Maciel Melo, Brivaldo Franklin – Zé do Gato, José Teles, Luciano Jacinto, Detto Costa, Jorge de Altinho, Coroné Caruá, entre outros. Veja mais aqui.


segunda-feira, julho 27, 2020

ANDREA ROSE FRASER, JANET CARDIFF, MARTHA ROSLER, GIANA VISCARD & MARTHA BATALHA



DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: LUGAR, LUGARES - Vou, tempespaço & simulacros, piso em falso & ilusões de ótica: um lugar é qualquer, lugares se misturam na diluição das paisagens, um caleidoscópio. Onde estou e para vou dá no mesmo, com se fosse e voltasse o mesmo movimento, nos versos de Antonio Machado: Caminhante, não há caminho; faz-se caminho ao andar. Todo ignorante confunde valor e preço. Passos no encalço da liberdade, a culatrear: o meu país se esfacela, nação destruída como uma dor do peito.

DUAS: UM ANO & 7 MESES - Quase 2 anos de estultices, bate-cabeça e bumba-fuá, ódio e desmonte, incompetência e malvadeza. Não bastando o despreparo, a pandemia vira genocídio entre subnotificações, má vontade política no combate e aparelhamento para a blindagem das manipulações, a derrocada da democracia, degeneração das instituições. Lembra o vaticínio de Jean Baudrillard: O pior num ser humano é mesmo saber demais e ser inferior ao que sabe. Se a coesão da nossa sociedade era mantida outrora pelo imaginário de progresso, ela o é hoje pelo imaginário da catástrofe. Sobre milhares de cadáveres, Coisonário moteja: Não sou coveiro, mas vou enricar com funerária! Esse o porvir crepuscular de um país, o epílogo do Fecamepa!

TRÊS: VOLUNTÁRIA QUARENTENA - Ao longe, o que antes mata ínvia, agora canavial queimando matagal morro acima, terra abaixo. Meus olhos na fumaça do futuro, lacrimeja agora. Carl Jung alertava há tempos: É ilusório imaginar que o homem possa dominar e controlar a natureza, se ele não foi ainda capaz de controlar e enxergar a sua própria natureza. Sua visão se tornará clara somente quando você pode olhar para o seu próprio coração. Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta. Conto nos dedos os instantes circundantes, tudo é muito trágico apesar do radiante Sol da manhã aquecendo a Terra tumular e as dormentes cabeças suicidas. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: Eu não sou uma pessoa hoje. Eu sou um objeto em uma obra de arte. Eu poderia ter dado um pouco mais de tempo. É divertido vender grandes obras de arte - e é lucrativo. No final, um bom artista é um artista rico. A maior parte do trabalho que colecionamos é sobre sexo ou excremento. Gostamos de pensar em nós mesmos como conhecedores da subcultura da arte. É preciso muita coragem para fazer o que ela faz. Ela vai muito além de onde a maioria dos artistas tem inteligência ou audácia para operar. Expressão da artista performática e escritora estadunidense Andrea Rose Fraser, durante a exposição performática Official Welcome, uma peça de 30 minutos. Ela desenvolveu ao longo dos anos as performances Museum Highlights (1989), Kunst muss hängen ("Art Must Hang") (Galerie Christian Nagel/Cologne, 2001), Official Welcome (2001), Untitled (2003), Little Frank and His Carp (2001) e Projection (2008). Ela atualmente é chefe de departamento e professor de estúdio interdisciplinar da Escola de Artes e Arquitetura da UCLA na Universidade da Califórnia, Los Angeles.

A ARTE DO SOM DE JANET CARDIFF
Meu principal interesse no som é como ele nos rodeia e nos influencia. É invisível, entra em nosso corpo, mas nos atinge de uma maneira muito tridimensional. Se você olhar para a partitura, é fascinante. Existem oito coros diferentes, e dentro de cada coro há um baixo, barítono, alto, tenor e soprano. Você pode ver a partitura movendo-se da esquerda para a direita na página de um coro para outro, para outro, e então eles se agrupam. Quando vi isso, pensei que seria realmente incrível mostrar como o compositor estava pensando sobre isso. Quando você entra no espaço, está cercado por esse movimento da música de um coro para outro, e então ele pula pela sala para outro coro. Em alguns pontos, vem em ondas e ondula, quase como as ondulações de um rio. Era como se o compositor fosse um escultor, e eu queria mostrar como a peça musical era escultural.
JANET CARDIFF – A arte da artista belga-canadense Janet Cardiff que trabalha principalmente com instalações sonoras na perspectiva de que o som pode trazer uma infinidade de lugares e tempos juntos e tem um enorme potencial para tocar, envolver as pessoas. Em suas obras ela explora a emoção, a memória, e através de efeitos ela cria espaços virtuais ancorados na realidade, o que leva seus visitantes para o cruzamento entre ficção e realidade, espaços ilusórios em que a percepção acústica, bem como a estrutural, desempenha um papel importante onde se reúnem em intensidade hipnótica e emocional. Entre seus trabalhos estão The Murder of Crows (2008), Dark Pool (1995), The Paradise Institute (2001) e The Killing Machine (2007), entre outros. Ela desenvolve uma parceria com o alemão George Bures Miller, com quem realizou O Poço Negro (1995), Paraíso Institute (2001), entre outros.
&
A MÚSICA DE GIANA VISCARD
Muito tempo se passou, mas o caminho aventureiro de criar arte, música com o frescor do risco, do inusitado, ainda está comigo.
GIANA VISCARD - A arte musical da cantora e compositora Giana Viscard, que estudou no Centro Livre de Aprendizagem Musical (CLAM/SP) e na Berklee College of Music, em Boston, participou do Coral da USP e frequentou o Groove, Curso Livre de Música, em São Paulo. Ela já lançou os álbuns Tinge (2003), 4321 (2005) e Orum (2013) e fez turnês internacionais. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Honestamente, comecei como pintora, e essas outras coisas eram uma maneira de expressar algo que não era abstrato, porque fui treinado como pintor expressionista abstrato. Gosto de trazer questões que são relativamente abstratas até o nível pessoal. Eu sempre me interessei em abordar pessoas, principalmente mulheres, mas não apenas mulheres, com a ideia de que você me reconhece por outros seres humanos. Mesmo no nível das roupas, pensando no meu trabalho anti-guerra, eu estava muito interessada em que as pessoas com quem lutávamos não se parecessem conosco e era muito fácil demonizá-las. Portanto, usando roupas como substituto da humanidade, em nosso mundo, fiz uma instalação em que coloquei o nome, data de nascimento e número de prisioneiras de algumas mulheres políticas presas pelo governo do Vietnã do Sul com roupas estadunidenses.
MARTHA ROSLER - A arte da artista conceitual estadunidense Martha Rosler, que trabalha com fotografia e texto fotográfico, vídeo, instalação, escultura e performance, além de escrever sobre arte e cultura, centrada na vida cotidiana e na esfera pública, muitas vezes de olho na experiência das mulheres. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
O humor é uma resposta aos absurdos da existência. Sempre quis ser escritora, mas precisava pagar as contas. Por isso escolhi profissões que me mantiveram próxima do mundo da escrita enquanto não tomava a decisão. Durante os anos de repórter, aprendi a escrever com foco, rápido e sob pressão; rodei o Rio de Janeiro e o Brasil, conheci pessoas, dramas, lugares. Depois, com a editora, aprendi sobre todas as etapas do processo de edição. Quando eu me mudei para Nova York, fiz um mestrado e tinha um bom emprego numa editora em Manhattan, mas faltava algo, ou, sendo sincera, faltava tudo. Se eu sempre quis ser escritora, então, o que é que estava fazendo ali, aos trinta e tantos anos, ajudando a editar os livros das outras pessoas? Então comecei a escrever, sem me preocupar muito com o resultado. Era mais um acerto de contas comigo mesma, uma decisão que me deixaria em paz com as escolhas de vida.
A arte da jornalista e escritora Martha Batalha, autora das obras A vida invisível de Eurídice Gusmão (2016) e Nunca houve um castelo (2018).
&
A poesia Ascenso Ferreira (1895-1965) aqui, aqui & aqui.
A literatura do escritor, radialista e compositor Antonio Maria (1921-1964) aqui.
Feito d’versos, do poeta popular José Maria Sales Pica-Pau aqui.
Eita, Zé Bestão aqui.
A música de Alceu Valença aqui.
&
O município de Tamandaré aqui & aqui.


quinta-feira, setembro 06, 2018

CAMILLERI, FRANCISCO ACUÑA, JANE ADDAMS, JUNG, MINO CARTA, BAGNO, HERVÉ SENNI & ANTÔNIO FLORES


UMOUTRA, BOTANDO FOGO NO CIRCO – Imagem: Multidão, arte do artista Antônio Flores. - O que me vem à cabeça é a baixa estação do estado de espírito: ofensa, depressão, hostilidade. É só esturro daqui pra lá, como falam mal, de lá pra cá passam recibo na lei do bumerangue. Tem gente que fala mal do governo, pudera! Não dá pra fazer outra coisa com tantos golpes descarados. Se pelo menos os governantes e gestores atuassem na eleição de consensuais prioridades com todos os governados, ainda ia, acho; mas não, enchem as funduras dos potes de seus próprios interesses e os eleitores que se danem! Além do mais, a força da grana e do umbigocentrismo é quem manda no pedaço, ditam tudo. De facínoras a Zé-Ruelas, todos se elegem no conluio, com compra de votos e discurseira inflamada, peidam em público a delirar e mentir que tudo é verdade. Tem quem acredite, coitados. E tem quem goste e lavam a jega, os sebosos. A estupidez não tem limites, avalie. Nada de se pensar um outro modo de se fazer política, só valendo toma-lá-dá-cá, politicagem e espórtula, uma mão lavando a outra e valha-nos Deus que coisa é essa! De outra, tem gente que acha que não tem nada a ver com isso, desconfiados, ególatras, hipócritas de plantão do individualismo possessivo potencializado, arruma o seu no conforto e o resto que se dane. Quando não falam mal de religião ou dos politeístas ou fanáticos cristãos e assemelhados fundamentalistas, metem o pau no que aparecer na frente. Essa é a gente que fala mal do que aparecer pela frente, donos da verdade de que tudo é culpa dos outros, não deles que tiraram o rabinho da reta, os certinhos engomados. Mas, também tem gente que não tem nem o que falar, os do complexo de lagartixa, sim senhor, está certo, tinindo, vamos nessa. Nem aí nem chegando. E o sal só se pisando. Haja moleira. Eu mesmo nem sei, transito em silêncio aos gritos inaudíveis e exasperos mudos, vou de rir e chorar quando posso, ao menos assisto a tudo e faço o que posso para não embarcar nesse naufrágio de gente, bichos e coisas. Houve um tempo em que não era nada de mais falar pelos cotovelos, debulhar sentimentos, jogar conversa fora; hoje nem tanto, pra evitar sopapos e cuspe na cara, usa-se telefone e redes sociais, quanto estresse, haja impaciência e mal-entendidos. Eu, hein? Por isso vou equilibrista tirando fino nas broncas e me livrando insultados. Vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor, instrumentista e arranjador francês Hervé Senni: Keep it simple, Lakshmin, Seven ride & Aloès d’Eden & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Plantou-se na vasta quadra o destino do País, enraizado na impossibilidade de confronto entre casa-grande e senzala, o capataz agita o chicote, o negro oferece as costas, o senhor deitado na rede fuma o seu charuto [...] Os oligarcas a postos em santa paz, os corruptos à vontade em santa impunidade [...] a mídia, por tradição instrumento de poder, passa a confundir-se com o próprio e a engodar a minoria privilegiada e beócia enquanto o povo estaciona na inconsciência da cidadania, miserável e inerte [...] O Brasil anda sozinho à revelia dos homens e ainda saberá aproveitar-se por completo dos dons recebidos da natureza [...]. Trechos extraídos da obra O Brasil (Record, 2013), do jornalista, escritor, editor e pintor ítalo-brasileiro Mino Carta.

AOS PROFESSORES - [...] a crítica da prática de utilizar as revistas do Chico Bento, os sambas do Adoniran Barbosa e os poemas de Patativa do Assaré como material de estudo da variação linguística, e propus que a gente recorra a material autêntico, gravações ou filmagens que sirvam para o estudo da diversidade linguística em bases mais sólidas e confiáveis. [...] E é sobre eles que a professora deve apoiar o trabalho de reeducação sociolinguística de seus alunos e alunas [...] Se você tiver a boa sorte de ouvir um “ingrês”, um “trabaio” ou um “nós qué” em sua sala de aula, espero que saiba aproveitar essa oportunidade para combater o riso debochado e preconceituoso e promover a autoestima linguística de seus alunos. Mostre a eles de onde vêm esses fenômenos, esclareça que não se trata de “erros”, mas de formas perfeitamente explicáveis com base num bom conhecimento da história da língua e de seu funcionamento. Chame a atenção deles para as consequências sociais do uso dessas regras variáveis e garanta a eles, também, o conhecimento das regras prestigiadas, para que eles possam, se quiserem, usá-las como instrumento em sua luta por uma vida melhor, mais digna e mais justa. Trechos extraídos da obra Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística (Parábola, 2007), do professor doutor em língua portuguesa pela USP, Marcos Bagno. Veja mais aqui.

O LADRÃO DE MERENDAS - [...] Bom, minha senhora, eu lhe agradeço e... – principiou o comissário, erguendo-se. – Por que não fica pra jantar comigo? – Montalbano sentiu seu estômago empalidecer. Dona Clementina era uma boa pessoa, muito agradável e tudo, mas devia alimentar-se á base de semolina e batatas cozidas. – Realmente, eu tenho tanta coisas pra... – Pina, a empregada, é uma excelente cozinheira, pode acreditar. Hoje preparou massa à Norma, sabe qual? Aquela com berinjelas fritas e ricota salgada. – Jesus!  – fez Montalbano, voltando a sentar-se. – E, como segundo, um guisado. – Jesus! – repetiu Montalbano. – Por que esse espanto todo? – Não é uma comida um tantinho pesada para a senhora? – E por quê? Eu tenho um estômago que uma garota de vinte anos tem, daquelas que atravessam o dia inteiro com meia maçã e um suco de cenoura. Será que o senhor é da mesma opinião do meu filho Giulio? – Não tenho o prazer de conhecer essa opinião. – Ele diz que, na minha idade, não é decoroso comer essas coisas. E me considera um pouco desavergonhada. Acha que eu devia me aguentar à base de mingauzinhos. Então, o que o senhor resolve, fica? – Fico. – respondeu o comissário, decidido. [...] Montalbano abriu a geladeira: Adelina havia preparado um abundante ensopadinho de camarão, suficiente até para quatro. Adelina era mãe de dois delinquentes, o caçula dos dois tinha sido detido três anos antes pelo próprio Montalbano e ainda estava na prisão. [...] No último mês de julho, quando veio a Vigàta para passar duas semanas com ele, Lívia ficou apavorada ao ouvir aquela história. – Você é louco? Mis da, menos dia, essa daí resolve se vingar e envenena sua sopa! – Mas de que ela se vingaria? – Você prendeu o filho dela! – E daí, é culpa minha? Adelina sabe muitíssimo bem que não é culpa minha, mas do filho, que foi babaca de se deixar apanhar. Eu agi lealmente pra pender ele, não recorri a estratagemas nem armadilhas. Foi tudo normal. – Não quero nem saber desse jeito distorcido de vocês raciocinarem. Você tem que mandar ela embora. – Mas, se eu fizer isso, quem cuida da casa, lava e passa, faz comida pra mim? – Você arranja outra! – Aí você se engana: boa como Adelina não existe. [...] Como estava ficando tarde, Valente convidou o colega para jantar em sua casa. Montalbano, que já havia sofrido a experiência da terrificante culinária da mulher do subchefe, recusou, dizendo que precisava voltar imediatamente a Vigàta. [...] Adiantado para o encontro com Valente, resolveu estacionar à frente do restaurante onde já estivera da outra vez. Traçou um sauté di vongole com farinha de rosca, uma porção abundante de spaghetti in bianco conle vongole e um rodovalho ao forno, com orégano e limão caramelado. Completou com uma forminha de chocolate amargo ao molho de laranja. Por fim levantou-se, foi à cozinha e, comovido, apertou a mão do cozinheiro, sem dizer uma palavra. [...] Mais que uma nova receita para cozinhar polvo, a invenção da senhora Elisa, a mulher do chefe de polícia, pareceu ao palato de Montalbano uma verdadeira inspiração divina. Ele serviu-se de uma segunda e abundante porção e, quando viu que também esta chegava ao fim, reduziu o ritmo da mastigação, a fim de prolongar, por menos que fosse, o prazer de saborear o prato. [...] Júlia, a mulher do subchefe Valente, não só era da mesma idade que Lívia como, além disso, tinha nascido em Sestri. A simpatia entre as duas foi instantânea. O mesmo não aconteceu com Montalbano em relação à senhora Valente, em virtude da massa vergonhosamente cozida além do ponto [...]. Trechos extraídos da obra O ladrão de merendas (Record, 2000), do escritor e roteirista italiano Andrea Camilleri.

AUTORRETRATO - Era algo marrom, / com um rosto festivo, / de tamanho médio, / nem grande nem pequeno. / De nariz e boca / um pouco fornecido / e o cabelo liso / algo rarefeito. / Eles eram gentis / seus olhos e vivos, / às vezes loquaz, / e às vezes adormecido. / Seu rosto era feio / mas não é indesejável / mas inspirou / confiança e carinho. / Ele teve algumas vezes / defeitos e vícios, / mas sua alma era nobre / seu peito simples. / Uma toupeira tinha / com cabelo crescido, / fixo no meio / do carrillo direito. / Seu sotaque era suave / e asaz expressivo, / mais uma doença / deixou que ficasse pra sempre rouco. / Eu usei óculos de proteção / Tomei pó / e foi com as senhoras / atencioso e rendido. / Não foi seu personagem / sombrio ou indescritível / e assim foi de todos / amado e bem intencionado. / Eu contei mil histórias / com seus ribetillos, / deixando o exato / tão engraçado / Eu formei linhas / longo e pequeno / o que eles ansiavam / versos peregrinos. / Eu não estava invocando Apollo / por ser homem / e apenas às musas / Eu pedi sua ajuda. Poema do poeta uruguaio Francisco Acuña de Figueroa (1790-1862).

JANE ADDAMS
[...] Estamos todos envolvidos nesta corrupção política, e como membros da comunidade, indiciados. Esta é a pena de democracia - que somos obrigados a seguir em frente ou para trás, juntos. Nenhum de nós pode ficar de lado, os nossos pés estão atolados no mesmo solo, e nossos pulmões respiram o mesmo ar. [...].
Pensamento da escritora, assistente social, socióloga, filósofa e ativista estadunidense Jane Addams (1860-1935), a pioneira mãe do trabalho social, feminista e pacifista, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, em 1931. Veja mais aqui.

AGENDA
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Índia, arte do artista Antônio Flores.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...