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segunda-feira, setembro 14, 2020

GLORIA ANZALDÚA, FRANK ZAPPA, VICTORIA BORISOVA, RICHARD SENNETT, RODOLFO LEDEL & LUIZ QUEIROGA

  DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... CATÁBASE... - Milhares de mortos nublaram o meu sorriso e a vida o meu país nas trevas, era Frank Zappa me dizendo: a estupidez é o elemento básico do universoNão havia como prever Fecamepa tão medonho e estou só como se fizesse a trilha de Lidenbrock dos manuscritos do alquimista Saknussem na viagem de Verne ao som de Wakeman, a descer pela cratera do vulcão islandês Sneffels para não sei onde. Na verdade, parece mais no aqui e agora, baixava ao inferno e não foi a minha primeira vez, nem a última, porque sou argonauta e, tal Orfeu solitário, mereço Eurídice. Lá que é aqui, a ninfa Estige era um rio do Hades e logo me veio o barqueiro Caronte carregado das almas que abandonavam seus sonhos, desejos e deveres no Aqueronte. Ele fez a vez do psicopompo e me revelou: o inferno não é onde estou, mas onde você está que era o paraíso Hy-Breazil. Não sabia e ainda estou vivo.


DUAS VEZES VIVO MUITO MAIS!  - (ao som da Symphony nº 1 – The Triumph of heaven, de Victoria Borisova Ollas – Imagem art by Rodolfo Ledel) - Tem horas que voo na vida. Noutras, ela me leva. À espera do Sol e da hora de ir para não mais voltar, penso e sou o homem de Jung na raça de Vasconcelos Calderón enquanto Gloria Anzaldúa me dizia o verso do Útero sem túmulo: Padeço de um mal: a vida, / enfermidade recorrente / que me purga da morte. E era ela, luz&ar, nua e linda do inopinado como se rufassem todos os tambores da paixão com uma orquestra atacando a overture da sinfonia dos seus encantos para me embriagar pela indelével dança do amor e me fizesse de uma vez por todas esquecer pretéritos e crástinos porque tudo era agora e não mais que isso valesse a pena viver eternamente. Sou duas vezes vivo nela e muito mais.


TRÊS MIL VEZES A VIDA! - (Imagem art by Rodolfo Ledel) - Com a colagem das três decepções em cima da bucha & a resiliência em dia, persigo a vida e persevero, mesmo que o potencialmente perigoso asteroide Apolo 2020 QL2 mude de rota, errante de rumo e faça a danação de vez numa colisão que seja para que se diga que era só o que faltava este ano, enquanto Richard Sennett ironizasse a invisível tragédia que vige ao nosso redor: Não há mais o medo de violência entre "tribos", o que acontece é mais sutil, é um recuo em relação ao outro, como se o outro simplesmente não existisse. Nem me dera conta, muito embora soubesse da indiferença de todos apagando toda capacidade de indignação e nos desumanizando. Acabei de crer: indubitavelmente o inferno é aqui, só pode ser mesmo. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

LUIZ QUEIROGA, O HUMILDE IMENSO
Eu num tenho bicicreta / num tenho jipe, nem carro, nem caminhão / mái, no meu jegue, nas estrada eu disparo / e até já me apelidaro, Fittipardi do sertão. / O meu jumento deixa muita gente zônza / eu já quis corrê em Monza / e ía fazê figura / mái, reparei que o bicho tem até buzina / mái num usa gasulina / e lá num tem capim gordura. / Prá passa marcha a gente aperta nas urêia / o jumento se aperrêia e voa feito um avião / cum uma isporada ele rônca na trasêra / deixa tudo na puêra, meu jumento é campião!
Fittipárdi do sertão, extraído da obra Luiz Queiroga, o humilde imenso – o criador do Coronel Ludugero (Autor, 2006), da cantora e pesquisadora Mêvinha Queiroga, reunindo a biografia e textos de Lula Queiroga, José Mário de Austragésilo e Lúcio Mauro, Luiz Maranhão Filho, além de depoimentos de Arnaud Rodrigues, Carlos Fernando, Maciel Melo, Brivaldo Franklin – Zé do Gato, José Teles, Luciano Jacinto, Detto Costa, Jorge de Altinho, Coroné Caruá, entre outros. Veja mais aqui.


quinta-feira, maio 14, 2015

WATTS, LESSING, MACHADO, EURÍDICE, MÁRIO DE ANDRADE, KILKERRY, COROT, GLUCK, VERA FISCHER E ANIVERSÁRIO DE MEIMEI CORRÊA.

Imagem: Eurydice Wounded (1868-70) do pintor realista francês Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875). Veja mais aqui.

EURÍDICE – (Imagem: Eurydice, do escultor austríaco Joseph Edgar Boehm - 1834-1890) - A ninfa Eurídice encantou o coração do músico Orfeu, filho de uma das nove musas Calíope e do deus Apolo, que por ela se apaixonou e se casaram. Contudo, a beleza da ninfa encantava outros homens e, entre eles, o apicultor que, ao receber a recusa dela, começou a persegui-la. Ela fugiu e na fuga foi picada por uma cobra, findando por falecer. Com a sua morte, Orfeu foi tromado por uma tristeza profunda, entoando tristes melodias que faziam os deuses chorar. Eles então apiedados com a sua lamúria, recomendaram que seguisse ao Hades e convecesse o Rei dos Mortos a devolvê-la. Orfeu partir até descer ao mundo inferior tocando sua maravilhosa Lira que logo conveceu Carante a encaminhá-lo pelo Estige, adormecendo o cão de três cabeças e guarda do submundo, Cérbero, e amansando os monstros que lhe vinham deter sua empreitada. Ao chegar ao Hades tocando a sua lira, o Senhor dos Mortos concedeu que resgatasse a amada, sob a condição de que não deveriam olhar para trás até que chegassem à superficie. Assim Orfeu conduziu-a ao som de melodias lindíssimas de felicidade, até que no meio do caminho Eurídice caiu e o chamou, virando-se para socorrê-la, percebeu um fiapo de fumaça que se esvaia junto com a última lamúria de amor da mulher. A partir de então, Orfeu recusou-se a casar-se com qualquer outra mulher, até ofender com sua recusa as Mênades que, por vingança, depois de muitas tentativas sem êxito, conseguiram mata-lo e esquarteja-lo, atirando a sua cabeça no Rio Hebro, que clamava: - Eurídice! Eurídice! As Musas enterraram-no no Monte Olimpo e ele pôde unir-se à sua amada nos Campos Elisios. Veja mais aqui, aquiaquiaqui, aqui e aqui.

Curtindo a ópera Orfeu e Eurídice (1762 - Verona Records), do compositor alemão Christoph Willibald Gluck (1714-1787), com Kathleen Ferrier e a Orchestra and Chorus of the Netherlands Opera, conducted by Charles Bruck.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – Estava eu cá comigo, as ideias conversando. O que tem que comemorar hoje? – perguntei a mim mesmo. O que? O que há para comemorar hoje? O aniversário da Meimei Corrêa. Ah, tá. Isso é bom, pois a vida é uma celebração cíclica de nascimentos e renascimentos. A cada instante se nasce, morre e renasce. A morte participa da vida e assim vamos até findar a experiência na Terra. Mas não tenho que falar nada disso, afinal hoje é aniversário de Meimei Corrêa. É disso que tenho que falar, não de outra coisa. Pois bem. Há alguns anos atrás, por meio da rede, conheci o trabalho da radialista e poeta Meimei Corrêa. Ela realizava o programa Domingo Romântico, um espaço radiofônico para lá de extraordinário. Virei fã. E tempos depois, pudemos dividir o palco num Sopa de Letras, do Clube Caiuby de Compositores, em São Paulo. Coroamos nossa amizade e daí nasceu a nossa parceria, a nossa deliciosa e promissora parceira. Nisso eu que fui e sou até hoje o premiado. Ela além da sua dedicação e competência no que faz, me presenteou por esses últimos anos com prêmios que me fez o homem mais realizado do universo: incluiu minhas músicas na sua programação, transformou em vídeo meus poemas e canções, fez painéis e baners para minhas coisas, ampliou meu universo de amizades, enfim, se sou alguma coisa de valia hoje devo ao trabalho, dedicação, carinho e afeto dessa mulher que merece toda a felicidade do universo. Sou o premiado. Hoje é aniversário dela e eu que sou todo dia e o dia todo premiado por sua existência. Por isso sou devedor inadimplente nesta encarnação e, acredito, que endividado até as minhas próximas, duas ou outras reencarnações. E ser devedor dessa forma é bastante aparazível, afinal ela merece todos os meus aplausos, toda minha gratidão e, como não tenho nada para presenteá-la nesta data, dou o meu coração. Feliz aniversário, queridamada Meimei Corrêa. Aproveitem e confira aqui e aqui.

CONSUMAÇÃO: O HOMEM, A MULHER E A NATUREZA – No livro O homem, a mulher a natureza (Record, 1958), do filósofo e escritor inglês Alan Wilson Watts (1915-1973), trata da relação homem e natureza, o urbanismo e o paganismo, a ciência e a natureza, o homem e a mulher, amor sagrado e profano, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho da parte Consumação: [...] Tudo isso é peculiarmente verdadeiro no que se refere ao amor e à comunhão sexual entre o homem e a mulher. É por isso que o amor, quando espontâneo, tem um caráter tão fortemente místico e espiritual e, quando forçado, é tão degradante e frustrativo. É por essa razão que o amor sexual é tão problemático nas culturas em que o ser humano é fortemente identificado com a entidade separada abstrata. A experiência não se comporta de acordo com as expectativas, tampouco satisfaz o relacionamento do homem e da mulher; é, ao mesmo tempo, fragmentariamente, bastante compensatória para ser desejada cada vez mais inexoravelmente pelo alivio que parece prometer. O sexo é, portanto, a religião virtual de uma numero considerável de pessoas, o fim a que dedicam mais devoção que a qualquer outro. Para a mente convencionalmente religiosa, esta veneração ao sexo é um substituto perigoso e positivamente condenável da veneração de Deus. Mas isso ocorre porque o sexo, como qualquer outro prazer, da forma normalmente desejada, jamais chega a ser verdadeiramente uma satisfação. E é exatamente por essa razão que ele não é Deus e não absolutamente por ser simplesmente físico. O conflito entre Deus e a natureza se desvanece quando sabemos como experimentar a natureza, pois aquilo que os mantem separados não é uma diferença de substância, mas sim uma divisão mental [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

AMAR, VERBO INTRANSITIVO – O romance Amar, Verbo Intransitivo (1927 – Vera Cruz, 1995), do escritor, critico literário, musicólogo e folclorista brasileiro, Mário de Andrade (1893-1945) conta a estória de Fraülein e Carlos, quando ela é contratada pelo pai dele, um rico burguês de origem portuguesa, para ensinar a arte do amor ao filho. As preocupações do pai dirigem-se à possibilidades do filho perder-se em encontros com prostitutas comuns ou mesmo ficar doente. Fraülein é introduzida na casa da família como governanta e procura manter uma postura discreta diante dos familiares, principalmente por causa das irmãs do rapaz. Segue suas atividades ensinando alemão e piano para as moças e para Carlos. Aos poucos vai se insinuando para o rapaz, que acaba sendo tomado de amores pela governanta. Dona Laura, mãe de Carlos, percebe o envolvimento do filho e conversa com Fraülein. Sousa Costa acaba contando para a mulher o trato feito e o motivo de suas preocupações com o filho. O casal decide pela permanência da governanta. Carlos e Fraülein vivem um idílio amoroso, mantido em segredo. O rapaz aproveita as horas de estudo sozinhos na biblioteca do pai para amar a governanta. Depois passa a encontra-la em seu próprio quarto. Com o flagrante do pai, manda a governanta embora e cada um segue o seu caminho. Da obra destaco o trecho: [...] É coisa que se ensine o amor? creio que não. pode ser que sim. Fräulein tinha um método bem dela. o deus paciente o construíra, talqual os prisioneiros fazem essas catitas cestinhas cheias de flores e de frutas coloridas. Tudo de miolo de pão, tão mimoso! o amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. a vida se aproxima. Repartem-na, pois quatro ombros podem mais que dois. a gente deve trabalhar... os quatro ombros trabalham igualmente. Deve-se ter filhos... os quatro ombros carregam os filhos, quantos a fecundidade quiser, assim cresce a Alemanha. de noite uma ópera de Wagner. Brahms. Brahms é grande. que profundeza, seriedade. Há concertos de órgão também. e a gente pode cantar em coro... os quatro ombros frequentam a sociedade coral. têm boa voz e cantam. Solistas? Só cantam em coro. Gesellschaft. Porém isso é para alemães, e prós outros? Sim: quase o mesmo... apenas um pouco mais de verdade prática e menos Wagner. E o serviço dela entende só da formação dos homens. O homem tem de ser apegado ao lar. Dirige o sossego do lar. Manda. Porém sem domínio. Prove. É certo que a mulher o ajudará. O ajudará muito, dando algumas lições de línguas, servindo de acompanhadora pra ensaios na panzschuele, fazendo a comida, preparando doces, regando as flores, pastoreando os gansos alvos no prado, enfeitando os lindos cabelos com margaridinhas... Fräulein engole quase um remorso porque se apanha a divagar. Queixumes do deus encarcerado. O homem-da-vida quer apagar tantas nuvens e afirma ríspido que não trata-se de nada disso: a profissão dela se resume a ensinar primeiros passos, a abrir olhos, de modo a prevenir os inexperientes da cilada das mãos rapaces. E evitar as doenças, que tanto infelicitam o casal futuro. Profilaxia. Aqui o homem-do-sonho corcoveia, se revolta contra a aspereza do bom senso e berra: profilaxia, não! mas porém deverá parolar, quando mais chegadinho o convívio, sobre essas "meretrizes"que chupam o sangue do corpo sadio. O sangue deve ser puro. vejam por exemplo a Alemanha, que-dê raça mais forte? Nenhuma. E justamente porque mais forte e indestrutível neles o conceito da família. Os filhos nascem robustos as mulheres são grandes e claras. são fecundas. O nobre destino do homem é se conservar sadio e procurar esposa prodigiosamente sadia. de raça superior, como ela, Fräulein. Os negros são de raça inferior. Os índios também. Os portugueses também. Mas esta última verdade Fräulein não fala aos alunos. Foi decreto lido a vez em que um trabalho de Reimer lhe passou pelas mãos: afirmava a inferioridade dos latinos. Legítima verdade, pois quem é reimer? Reimer é um grande sábio alemão. Os portugueses fazem parte duma raça inferior. e então os brasileiros misturados? Também isso Fräulein não podia falar. Por adaptação. só quando entre amigos de segredo, e alemães. Porém os índios, os negros quem negará sejam raças inferiores? Como é belo o destino do casal superior. sossego e trabalho. Os quatro ombros trabalham sossegadamente, ela no lar, o marido fora do lar. Pela boca da noite ele chega da cidade escura... vai botar os livros na escrivaninha. Depois vem lhe dar o beijo na testa... beijo calmo... beijo preceptivo... todo de preto, com o alfinete de ouro na gravata. nariz longo, quase diáfano bem raçado... todo ele é claro, transparente... tossiria, arranhando o óculos sem aro... tossia sempre... e a mancha irregular do sangue nas maçãs... jantariam quase sem dizer nada... como passara?... assim, e ele?... talvez mais três meses e termina o segundo volume de o apelo da natureza na poesia dos minnesänger... lhe davam o lugar na universidade... a janta acabava... ele atirava-se ao estudo... ela arranja de novo a toalha sobre a mesa... temos concerto da filarmônica amanhã. Diga o programa. abertura de spohr, a pastoral de Beethoven, Strauss, hino ao sol de Mascagni e Wagner. a pastoral? A pastoral. que bom. e de wagner? Siegfried-idill e götterdãmmerung. Siegfried-idill? Siegfried-idill. ah! Podiam dar a heróica... já ouvimos cinco vezes a pastoral, este ano... podiam levar a heróica... mas a heróica... Napoleão... em todo caso a gente não pode negar: napoleão foi um grande general... morreu preso em Santa Helena. aqui Fräulein repara que aos poucos o homem-do-sonho se substituíra de novo ao homem-da-vida. É porque este aparece unicamente quando trata-se de viver mover agir. o outro é interior, eu já falei. Ora,  pois o pensamento é interior, nem sequer é volição, que participa já do ato. O homem-da-vida age não pensa. Fräulein está pensando. Nem o homem-da-vida, propriamente, lhe disse que ela ensina apenas os primeiros passos do amor, dá a entender isso apenas, pela maneira com que obstinada e mudamente se comporta. Franqueza: o que pratica é isso e apenas isso. [...] Veja mais aqui.

SOB OS RAMOS, ISNABEL – O livro ReVisão de Kilkerry (Brasiliense, 1985), do poeta, tradutor e ensaísta Augusto de Campos, traz uma revisão da poesia e da cronologia das obras do jornalista, advogado e poeta simbolista brasileiro Pedro Kilkerry (1885-1917), os sonetos da Harpa Esquisita, recriações, poemas, sátiras, manuscritos, notas trêmulas e outras, prosa esparsa e apêndices com declarações de Jackson Figueiredo, Carlos Chicacchio, , subsídios biográficos, casos, entre outros. Do livro, inicialmente destaco o soneto Sob os ramos: É no Estio. A alma, aqui, vai-me sonora, / No meu cavalo — sob a loira poeira / Que chove o sol — e vai-me a vida inteira / No meu cavalo, pela estrada a fora. / Ai! desta em que te escrevo alta mangueira / Sob a copada verde a gente mora. / E em vindo a noite, acende-se a fogueira / Que se fez cinza de fogueira agora. / Passa-me a vida pelo campo... E a vida / Levo-a cantando, pássaros no seio, / Qual se os levasse a minha mocidade... / Cada ilusão floresce renascida; / Flora, renasces ao primeiro anseio / Do teu amor... nas asas da Saudade! Também merece destaque o seu Isnabel: Fosse este amor vergel desabrochando em sonhos, / da esperança ao luar, virgem de mágoa e dor, / onde o riso salmeasse em salmeios risonhos, / e este amor, Isnabel, bem que seria amor. / Mas se minh´alma é toda um pedaço de noite, / sem que pirimpeie uma estrela sequer, / onde brame o rancor e passa o ódio, em açoite, / como na tempestade os maus ventos, mulher... / maldize-o. conserva a candidez do arminho, / abrindo ao sol da vida, à vida rindo – flor. / Nunca merecerei, por ser mau, teu carinho / e este amor, Isnabel, não pode ser amor. / Maldize-o eternamente. E, eternamente, nega / do palácio do beijo a porta rosicler; / deve minh´alma ser eternamente cega, deves eternamente esplendecer, mulher. Veja mais aqui.

TU, SÓ TU, PURO AMORA comédia Tu, só tu, puro amor, do escritor Machado de Assis (1839-1908), trata sobre o desfecho dos amores palacianos de Camões e de D. Catarina de Ataíde. Da peça teatral destaco o acena VIII: [...] CAMÕES, D. CATARINA DE ATAÍDE - CAMÕES, com uma reverência. - Irei eu. Adeus, minha senhora D. Catarina de Ataíde! (D. Catarina dá um passo para ele.) Mantenha-vos Deus na sua santa guarda. D. CATARINA - Não... vinde cá... (Camões detém-se.) Enfadei-vos? Vinde um pouco mais perto. (Camões aproxima-se.) Que vos fiz eu? Duvidais de mim? CAMÕES - Cuido que me quereis ausente. D. CATARINA - Luís! (Inquieta.) Vede esta sala, estas paredes... falarmos a sós... Duvidais de mim? CAMÕES - Não duvido de vós; não duvido da vossa ternura: da vossa firmeza é que eu duvido. D. CATARINA - Receiais que fraqueie algum dia? CAMÕES - Receio; chorareis muitas lágrimas, muitas e amargas... mas, cuido que fraqueareis. D. CATARINA - Luís! juro-vos... CAMÕES - Perdoai, se vos ofende esta palavra. Ela é sincera: subiu-me do coração à boca. Não posso guardar a verdade; perder-me-ei algum dia por dizê-la sem rebuço. Assim me fez a natureza; assim irei à sepultura. D. CATARINA - Não, não fraquearei, juro-vos. Amo-vos muito, bem o sabeis. Posso chegar a afrontar tudo, até a cólera de meu pai. Vede lá, estamos a sós; se nos vira alguém... (Camões dá um passo para sair.) Não, vinde cá. Mas, se nos vira alguém, defronte um do outro, no meio de uma sala deserta, que pensaria? Não sei que pensaria; tinha medo há pouco, já não tenho medo... amor sim... O que eu tenho é amor, meu Luís. CAMÕES - Minha boa Catarina. D. CATARINA - Não me chameis boa, que eu não sei se o sou... Nem boa, nem má. CAMÕES - Divina sois D. CATARINA - Não me deis nomes que são sacrilégios. CAMÕES - Que outro vos cabe? D. CATARINA - Nenhum. CAMÕES - Nenhum? - Simplesmente a minha doce e formosa senhora D. Catarina de Ataíde, uma ninfa do paço, que se lembrou de amar um triste escudeiro, sem se lembrar que seu pai a guarda para algum solar opulento, algum grande cargo de camareira-mor. Tudo isso havereis, enquanto que o coitado de Camões irá morrer em África ou Ásia... D. CATARINA - Teimoso sois! Sempre essas idéias de África... CAMÕES - Ou Ásia. Que tem isso? Digo-vos que, às vezes, a dormir, imagino lá estar, longe dos galanteios da corte, armado em guerra, diante do gentio. Imaginai agora... D. CATARINA - Não imagino nada; vós sois meu, tão só meu, tão-somente meu. Que me importa o gentio, ou o Turco, ou que quer que é, que não sei, nem quero? Tinha que ver, se me deixáveis, para ir às vossas Áfricas... E os meus sonetos? Quem mos havia de fazer, meu rico poeta? CAMÕES - Não faltará quem vo-los faça, e da maior perfeição. D. CATARINA - Pode ser; mas eu quero-os ruins, como os vossos... como aquele da Circe, o meu retrato, dissestes vós. CAMÕES, recitando. Um mover de olhos, brando e piedoso. Sem ver de que; um riso brando e honesto, Quase forçado um doce e humilde gesto De qualquer alegria duvidoso... D. CATARINA - Não acabeis, que me obrigareis a fugir de vexada. CAMÕES - De vexada! Quando é que a rosa se vexou, por que o sol a beijou de longe? D. CATARINA - Bem respondido, meu claro sol. CAMÕES - Deixai-me repetir que sois divina. Natércia minha, pode a sorte separar-nos, ou a morte de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe ou perto, na morte ou na vida, no mais baixo estado, ou no cimo das grandezas humanas, não é assim? Deixai-me crê-lo, ao menos; deixai-me crer que há um vínculo secreto e forte, que nem os homens, nem a própria natureza poderia já destruir. Deixai-me crer... Não me ouvis? D. CATARINA - Ouço, ouço. CAMÕES - Crer que a última palavra de vossos lábios será o meu nome. Será? Tenha eu esta fé, e não se me dará da adversidade; sentir-me-ei afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que todos os demais homens. D. CATARINA - Acabai! CAMÕES - Que mais? D. CATARINA - Não sei; mas é tão doce ouvir-vos! Acabai, acabai, meu poeta! Ou antes, não, não acabeis; falai sempre, deixai-me ficar perpetuamente escutar-vos. CAMÕES - Ai de nós! A perpetuidade é um simples instante, um instante em que nos deixam sós nesta sala! (D. Catarina afasta-se rapidamente.) Olhai; só a idéia do perigo vos arredou de mim. D. CATARINA - Na verdade, se nos vissem... Se alguém aí, por esses reposteiros... Adeus... CAMÕES - Medrosa, eterna medrosa! D. CATARINA - Pode ser que sim; mas não está isso mesmo no meu retrato?  Um encolhido ousar, uma brandura, Um medo sem ter culpa; um ar sereno, Um longo e obediente sofrimento... CAMÕES -  Esta foi a celeste formosura Da minha Circe, e o mágico veneno Que pôde transformar meu pensamento. D. CATARINA, indo a ele. - Pois então? A vossa Circe manda-vos que não duvideis dela, que lhe perdoeis os medos, tão próprios do lugar e da condição; manda-vos crer e amar. Se ela às vezes foge, é porque a espreitam; se vos não responde, é porque outros ouvidos poderiam escutá-la. Entendeis? É o que vos manda dizer a vossa Circe, meu poeta... e agora... (Estende-lhe a mão.) Adeus! CAMÕES - Ides-vos? D. CATARINA - A rainha espera-me. Audazes fomos, Luís. Não desafiemos o paço... que esses reposteiros... CAMÕES - Deixa-me ir ver! D. CATARINA, detendo-o. - Não, não. Separemo-nos. CAMÕES - Adeus! (D. Catarina dirige-se para a porta da esquerda; Camões olha para a porta da direita.) D. CATARINA - Andai, andai! CAMÕES - Um instante ainda! D. CATARINA - Imprudente! Por quem sois, ide-vos meu Luís! CAMÕES - A rainha espera-vos? D. CATARINA - Espera. CAMÕES - Tão raro é ver-vos! D. CATARINA - Não afrontemos o céu... podem dar conosco... CAMÕES - Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu amor, e a que o faria respeitar! D. CATARINA, aflita pegando-lhe na mão. - Reparai, meu Luís, reparai onde estais, quem eu sou, o que são estas paredes... domai esse gênio arrebatado, peço-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim? CAMÕES - Viva a minha corça gentil, a minha tímida corça! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus! D. CATARINA - Adeus! CAMÕES, com a mão dela presa.  – Adeus D. CATARINA - Ide... deixai-me ir! CAMÕES - Hoje há luar; se virdes um embuçado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai que sou eu; e então, já não é o sol a beijar de longe uma rosa, é o goivo que pede calor a uma estrela. D. CATARINA - Cautela, não vos reconheçam. CAMÕES - Cautela haverei; mas, que me reconheçam, que tem isso? embargarei a palavra ao importuno. D. CATARINA - Sossegai. Adeus! CAMÕES - Adeus! (D. Catarina dirige-se para a porta da esquerda, e pára diante dela, à espera que Camões saia. Camões corteja-a com um gesto gracioso, e dirige-se para o fundo. - Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e aparece Caminha. - D. Catarina dá um pequeno grito, e sai precipitadamente. - Camões detém-se. Os dois homens olham-se por um instante.). Veja mais aqui e aqui.

AMOR, DE NOVO – O romance Amor, de novo (Companhia das Letras, 2003) da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013), conta a história de um amor impossível, envolvendo a paixão da sexagenária Sarah Durhan pelo jovem ator Bill e o sisudo diretor de teatro, Henry: loucuras e incertezas com o primeiro, pacificidade com o segundo. Da obra destaco o trecho a seguir: [...] Fácil pensar que aquilo era um quarto de despejo, silencio - so e abafado numa cálida penumbra, mas uma sombra se moveu, alguém veio à tona para afastar as cortinas e abrir as janelas. Era uma mulher, que em passos rápidos saiu por uma porta, que deixou aberta. Assim revelado, o quarto estava sem dúvida cheio demais. Junto a uma parede, todas as evidências de evolução técnica — um aparelho de fax, uma copiadora, um computador, telefones —, quanto ao resto, porém, aquele lugar podia facilmente ser tomado por um depósito de teatro, com o busto dourado de uma mulher romana, muito maior que o natural, máscaras, uma cortina de veludo carmesim, pôsteres e pilhas de partituras, ou melhor, cópias que reproduziam fielmente originais amarelecidos e desbeiçados. Na parede acima do computador, uma grande reprodução do Mardi Gras, de Cézanne, também desgastada: rasgada ao meio e remendada com fita colante. A mulher na sala ao lado se dedicava com energia a alguma coisa: objetos eram deslocados. Então ressurgiu e ficou olhando a sala. Não era jovem, como seria fácil imaginar pelo vigor de seus movimentos quando ainda entrevista nas sombras. Uma mulher de certa idade, como diriam os franceses, ou mesmo um tanto mais velha, e pouco apresentável no momento, vestindo calça velha e camisa. Era uma mulher alerta, cheia de energia, mas não parecia contente com o que via. Mesmo assim, afastou esse pensamento e foi para o computador, sentou-se, estendeu a mão e pôs uma fita para tocar. Instantaneamente a sala se encheu com a voz da Condessa Dié, vinda de oito séculos antes (ou pelo menos uma voz capaz de convencer o ouvinte de que era a Condessa), cantando os seus eternos lamentos: Devo cantar, queira ou não: Quanta mágoa por aquele de quem me fiz amiga, Pois o amo mais que tudo neste mundo... A mulher, sentada, mãos prontas para atacar as teclas, tinha consciência de sentir-se superior a essa irmã antiga, para não dizer que a condenava. Não gostava disso em si mesma. Estaria ficando intolerante? [...]. Veja mais aqui.
  
AMOR ESTRANHO AMOR – O polêmico filme Amor estranho amor (1982) do cineasta Walter Hugo Khouri, traz o cenário do momento político às vésperas do golpe militar, contando a história de um homem da meia idade relembrando a situação de como foi quando garoto, deixado por sua avó diante de um palacete de luxo, onde se encontrava sua mãe Anna, uma prostituta, que vivia com um poderoso político paulista. Nesse ambiente ele passa a conviver com garotas de programa, enquanto é iniciado por uma delas, a Tamara. Por esse filme a atriz Vera Fischer ganhou dois prêmios: Melhor Atriz no Festival de Cinema de Brasilia e no Prêmio Air France de Cinema, ambos em 1982. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Foto: Eurydice, de Patrick Nicholas
  

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Entre topadas e sonhos, A poesia completa de Ledo Ivo, Esferas de Peter Sloterdijk, Linguagem poética de Jean Cohen, a música de Miguel Álvarez-Fernández, a coreografia de Pina Bausch & a pintura de María Blanchard aqui.

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Todo dia é dia da mulher, a literatura de Mário Quintana, Os contos tradicionais de Luís da Câmara Cascudo, o pensamento de Voltaire, A comunicação de Juan Diaz Bordenave, o teatro de Sérgio Roveri & Tuna Dwek, o cinema de François Truffaut & Jeanne Moreau, a música de Daniela Spielmann, a poesia de Gerusa Leal, a pintura de Anita Malfatti & Hans Temple aqui.
A mulher na antiguidade, Berenice de Edgar Allan Poe, O fio da navalha de Louise Glück, A quântica de Max Planc, O diário de Adão & Eva de Mark Twain, Foco & sucesso de Daniel Goleman, a música de Shirley Horn, o cinema de Alain Berliner & Demi Moore, a arte de Alessandra Cavagna, a pintura de Edouard Manet & a gravura de Johann Theodor de Bry aqui.
Leolinda Daltro & Todo dia é dia da mulher aqui.
A mulher nos primórdios da humanidade, A mulher grega de Friedrich Engels, A época da inocência de Edith Wharton, Sou a flor de Maria Polydouri, Virginia Woolf & Paula Picarelli, a música de Sainkho Namtchylak, o pensamento de Horácio & Jean de La Fontaine, o cinema de Michael Haneke & Juliette Binoche, A instrução dos amantes de Inês Pedrosa, a pintura de Jean-Léon Gérôme & a arte de Hanna Cantora aqui.
Derluza & a saúde na Justiça, Jardim morto de Federico García Lorca, Filosofia na alcova de Marquês de Sade, a poesia de Robert Burns, O sexo na História de Reay Tannahill, a música de Radamés Gnatalli & Fernanda Chaves Canaud, o pensamento de Virgílio, o cinema de Jean-Luc Godard, a pintura de Sebastian Llobet Ribas, a arte de Jules Ralph Feiffer & Chilica Contadora de Histórias aqui.
A mulher na Roma Antiga, Uma rosa para Emily de William Faulkner, A mulher e o patriarcado Helena Iara Bongiovani Saffioti, a música de Jacqueline Du Pre, o pensamento de Victor Hugo, Elizabeth Short & Mia Kirshner, a arte de Carmen Tyrrel, a escultura de Jean-Baptiste Pigalle, Lenita Estrela de Sá & Lia Helena Giannechini aqui.
As duas mortes de Dona Zezé, Violência contra a mulher de Maria Amélia de Almeida Teles e Monica Melo, a música de Jane Birkin, o pensamento de Jacques-Antoine-Hyppolyte, a pintura de Rafael Hidalgo de Caviedes, a poesia de Diva Cunha, o teatro de João Caetano dos Santos, o cinema de Joel Coen & Frances McDormand, a arte de Frank Miller & Maria de Medeiros, Fernando Fiorese, Regina Souza Vieira & Deize Messias aqui.

A mulher no Cristianismo, O caso das camas de Fernando Sabino, A responsabilidade dos relacionamentos afetivos de Ana Cecília Parodi, a música de Francisco Mignone & Lilian Barreto, a poesia de Germana Zanettini, o teatro de Adrienne Lecouvreur, o cinema de Júlio Bressane & Bel Garcia, Teodora & Marózia, a arte de Rodrigo Luff & Manoela Afonso aqui.
As sombras de Gilvanícila, O barão de Itararé de Fernando de Brinkerhoff Torelly, a música de The Dresden Dolls, o pensamento de Juvenal & Voltaire, Heloisa de Paráclito, a poesia de Claudia Pastore, o teatro de Mademoiselle Clairon, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Rosel Zech, a pintura de Ângelo Cantú, a arte de Demócrito Borges & Isabela Morais aqui.
A mulher da Idade Média, A cidade de Ulisses de Teolinda Gersão, Mulher & gênero de Cecília Toledo, Ser humana de Marcia Moraes, a música de Johann Joachim Quantz & Verena Fischer, a literatura de Naoki Higashida, o teatro de Marie Dumesnil, o cinema de Fritz Lang & Anne Baxter, a pintura de Georges Rouault & Siron Franco, Benita Prieto & Maisa Vibancos aqui.
Mulher & Solidariedade, A mulher medieval de Andreé Michel, o teatro de Mademoiselle Mars, a música de Joyce, o pensamento de Sêneca, O florista de Nilza Amaral, O Tristão de Dilercy Adler, o cinema de Neil Jordan & Ruth Negga, a pintura de Paulo Paede, a arte de Julia Crystal & Claudinha Cabral aqui.
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sexta-feira, abril 18, 2008

KHAYYAM, ORFEU & EURÍDICE, GLUCK, PINA BAUSCH, LÍNGUA PORTUGUESA, GERT WIEGELT & LÍRIA PORTO

 
Curtindo o álbum (2 CDs) da ópera Orfeo ed Euridice (Grammophon, 1998), do compositor alemão Cristoph Willibald Gluck (1714-1787), com a Münchner Bach-Orchester, regida por Karl Richter. Veja mais aqui e aqui.

DANÇA NUA NO MEU CORAÇÃO – Imagem: arte do fotógrafo alemão Gert Wiegelt. – Dança, Eurídice, dança ninfa nua e linda para se certificar do amor do filho de Calíope por tua formosa cupidez de serva do prazer. Vem líquida como o rio Hebrus onde nasci, porque sou mortal navegante desposado por teus encantos de mar. Vem inteira me hospedar como a Trácia porque quero me servir no teu banquete dionisíaco. Ah, me acode encantada Eurídice com a fome sensual de tua boca voraz felatriz, com o ósculo dos teus lábios acetinados no meu sexo argonauta retesado pela magia de tua dança resvaladiça, e me leve aos teus recantos na gula da garganta, para que eu possa corrompê-la com minhas carícias apaixonadas no nosso covil. Vem bailarina tentadora e côncava com seus glúteos salientes no saracoteado enfeitiçador, que a minha clava é a serpente que se enrosca ao teu tornozelo flutuante para usufruir de tuas prendas e matá-la de gozos. Vem requerente e convexa na dança extravagante desnuda a se achegar rendida, ombros inclinados, pele eriçada e toda suspirosa carne ardente e contagiante, exibida esvoaçante entre meus braços abertos, para que minhas mãos possam na roda-viva dos seus passos, delinear as curvas de tua cintura e quadris a me desvendar o segredo do universo. Vem me ensinar o espírito livre de tua natureza selvagem, que eu vou com firmeza de predador invadir tuas florestas e cavernas, destemido e às arremetidas para conquistar tua vulva contraída, aos arrancos na indomável na ginga do teu corpo que não rechaça minhas investidas ao teu submundo. Vem aos regalos me entreter se esfolando no meu tronco com tuas coxas trêmulas a deslizar macia tua fruta madurinha, cheia, úmida, puta esguia tantalizada no meu sexo vigoroso, para que te salve evanescida do Hades com orgasmos exaltados, noiva nua, toda minha. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA - Ninguém pode compreender o que é misterioso. Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências. As nossas moradas são provisórias, exceto a última: a terra. Beba muito vinho, amiga. Basta de palavras supérfluas. Pensamento do poeta, matemático e astrônomo persa Omar Khayyam (1048-1131). Veja mais aqui.

ORFEU & EURÍDICE – Na mitologia grega, o poeta e cantor Orfeu, filho da musa Calíope e de Apolo, rei da Trácia, era argonauta muito talentoso ao tocar sua lira: os pássaros paravam de voar, os rios mudavam seu curso, os animais selvagens perdiam o medo e as árvores se curvavam para ouvir os sons aos ventos. Ele apaixonou-se pela bela ninfa Eurídice. Depois do casamento, ela foi vítima de assédios do apicultor Aristeu, ao recusá-lo, ela foi perseguida e, ao tentar escapar, tropeçou em uma serpente que a mordeu e a matou. Orfeu ficou transtornado de tristeza e, armado com sua lira a cantar e tocar, foi até o mundo inferior, o Hades, para tentar trazê-la de volta. A sua canção pungente e emocionada convenceu Caronte, o barqueiro do rio Estige. Em seguida, a canção da lira adormeceu Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões. Sua música aliviou os tormentos dos condenados e encantou os muitos monstros que surgiram na sua jornada. Ao chegar ao trono de Hades, o rei dos mortos ficou irritado ao ver que um vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua esposa, a deusa Persféfone, implorou-lhe que atendesse o pedido de Orfeu, e o atendeu. Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos, mas com uma única condição: que ele não olhasse para ela até que ela, outra vez, estivesse à luz do sol. Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele então quase no final do tenebroso túnel olhou para se certificar de que Eurídice o acompanhava e não a viu. Hades e Perséfone os seguiram e como ficou estabelecido que ele não poderia olhar para Eurídice até chegar ao fim do túnel, Hades a tomou novamente. Por um momento ele a viu, perto da saída do túnel escuro, perto da vida outra vez. Mas enquanto ele olhava, ela se tornou de novo um fino fantasma, seu grito final de amor e pena não mais do que um suspiro na brisa que saía do mundo dos mortos. Ele a havia perdido para sempre. Em desespero total, Orfeu se tornou amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo lembrar-se da perda de sua amada. Esse mito deu origem ao orfismo, uma espécie de serviço de aconselhamento; ele ajudava muito os outros com seus conselhos, mas não conseguia resolver seus próprios problemas, até que um dia, furiosas por terem sido desprezadas, um grupo de mulheres selvagens chamadas mênades, caíram sobre ele, frenéticas, atirando dardos. Os dardos de nada valiam contra a música do lirista, mas elas, abafando sua música com gritos, conseguiram atingi-lo e o mataram. Depois despedaçaram seu corpo e jogaram sua cabeça cortada no rio Hebro, e ela flutuou, ainda cantando, "Eurídice, Eurídice!". Com o choro dele, as nove musas reuniram seus pedaços e os enterraram no monte Olimpo. Quanto às mênades, que tão cruelmente mataram Orfeu, os deuses não lhes concederam a misericórdia da morte. Quando elas bateram os pés na terra, em triunfo, sentiram seus dedos se espicharem e entrarem no solo. Quanto mais tentavam tirá-los, mais profundamente eles se enraizavam. Suas pernas se tornaram madeira pesada, e também seus corpos, até que elas se transformaram em carvalhos silenciosos. E assim permaneceram pelos anos, batidas pelos ventos furiosos que antes se emocionavam ao som da lira de Orfeu, até que por fim seus troncos mortos e vazios caíram. Recolhida da obra Uma história natural do amor (Bertrand Brasil, 1997), da escritora e naturalista estadunidense Diane Ackerman. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.


DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM DA LÍNGUA PORTUGUESA- O presente artigo aborda a questão da dificuldade de aprendizagem da Língua Portuguesa, por ser esta dificuldade um dos problemas que mais incidem nas instituições educacionais. A dificuldade de aprendizagem é um tema que tem apresentado preocupações constantes por incorporar no sistema de ensino e a todos os níveis, novos métodos, com objetivo de desenvolver o próprio sistema.
A APRENDIZAGEM DA LÍNGUA PORTUGUESA: Partindo do entendimento de que a aprendizagem, nas expressões de Nunes et al (2000), Fonseca (1999), Sena e Gomes (2002), Cezar et al (2010), Guerra (1998), Castilho (1998), é um processo pelo qual objetiva a prática pedagógica na produção do conhecimento, participando, portanto, da formação do indivíduo e sua relação com a interpretação e discernimento na vida. O processo de aprendizagem, conforme Calsa (2002), passa pela reorganização do conhecimento anterior do sujeito por meio do estabelecimento de novas relações e inferências desse saber com os objetos de conhecimento que estão em processo assimilação e acomodação. Assim sendo, a aprendizagem, segundo Lores (2010, p. 6), “[...] é um processo de aquisição e assimilação mais ou menos consciente, de novos padrões e novas formas de perceber, ser, pensar e agir”. Já para Freitas (2010, p. 1), a aprendizagem: “[...] é a construção do conhecimento, são processos naturais e espontâneos na nossa espécie”. Há que se entender que, conforme Pozo (1998, p. 32), “[…] embora novas aprendizagens impliquem a reorganização de esquemas conceituais prévios, esses esquemas nem sempre facilitam novas apropriações, pois têm como uma de suas características mais importantes a resistência à mudança”. É nesse aspecto que surgem alguns problemas de aprendizagem que são detectados no processo de ensino. Estes problemas, para Carvalho (2010), são considerados patológicos sob óticas que determinam quatro fatores para os problemas da aprendizagem: os orgânicos, os psicógenos, os específicos e os ambientais. Ou seja, os fatores orgânicos, são aqueles que tratam o indivíduo como um todo e não partes que trabalham isoladas, com integração entre anatomia, bom funcionamento de todos os órgãos, bem como do sistema nervoso central. Os fatores psicógenos são aqueles que são subsidiados pela teoria psicanalítica, que levam em consideração as disposições ambientais e orgânicas do sujeito. Já os fatores específicos, são aqueles que são identificados como desordens específicas ligadas a determinadas áreas também específicas, as quais perpassam questões cognitivas e motoras. Por fim, os fatores ambientais são aqueles que levam em consideração as questões de moradia, bairro, escola e oportunidades de lazer, sendo, pois, mais gerador de problemas escolares como a evasão. Já para Santos et al (2010) e Santos e Marturano (2010), os problemas de aprendizagem não se encontram restritos às causas físicas, psicológicas e sociais. São entendidos como fracassos articulados com fatores de ordem diversa, como de natureza orgânica, cognitiva, afetiva, pedagógica e social, e que são percebidos dentro das interações sociais. É exatamente esta a base do conceito de dificuldades de aprendizagem abrangendo e incluindo problemas decorrentes tanto das características individuais, como das influências ambientais e do sistema educacional. Em vista disso, entende-se que a dificuldade de aprendizagem é vista como a condição que o indivíduo passa pelo desequilíbrio cognitivo a partir do enfrentamento de situações-problemas que são apresentados pela escola. Há também a observação de que a dificuldade de aprendizagem (DA), segundo Nascimento et al (2010), seja uma genérica designação para heterogêneas dedordens identificadas como disfunções do sistema nervoso central, manifestadas na aquisição ou utilização dos recursos auditivos, da fala, da escrita, da leitura e do raciocínio matemático. Assim, a incidência dessas dificuldades de aprendizagem varia de acordo com determinados parâmetros e definição nem sempre concordantes. Essas dificuldades podem ser identificadas a partir de dificuldades emocionais que envolvem desde problemas de integração de natureza auditiva e visual, desinteresse, despedagogia, negativismo, avaliações sub-valorativas, hiperatividade, reforços negativos, programas inadequados, atitudes negligentes, entre outras causas tidas como multinacionais. Encontra-se na literatura que são diversas as causas dessa dificuldade, observando-se que estas são oriundas de explorações psicodinâmicas nas funções cerebrais, bem como causas encontradas nas circunstancias socioeconômicas, de fatores sanitários, complexas privações socioculturais, múltiplos índices, hábitos alimentares e culturais, inclusive, assinalando-se ser a DA o resultado de muitos conflitos e tragédias familiares.Nessas causas, Polity (2010) inclui problemas oriundos de fatores orgânicos, como saúde física deficiente, falta de integridade neurológica, alimentação inadequada; fatores psicológicos, como inibição, ansiedade, angústia; e fatores ambientais, tais como ambientais: educação familiar, grau de estimulação, influência dos meios. Alem disso, elenca os problemas de aprendizagens condicionadas pela situação familiar e pela educação. As primeiras ocorrem pelos distúrbios de aprendizagem condicionados por características da personalidade. As segundas são pelo desempenho escolar e são representadas pelas dificuldades de indivíduos com inteligência normal ou acima da média, apresentadas em reter ou expressar informações recebidas. São divididas em verbais e não-verbais. As verbais são relacionadas às dificuldades para adquirir processos simbólicos de leitura, escrita e matemática, além das dificuldades de aprendizagem escrita, disgrafia e disortografia e a discalculia (matemática). Já as não-verbais são aquelas que apresentam para o autoperceber-se, perceber seu mundo e relacionar-se com outras pessoas, embora tenham inteligência normal ou superior à média e não apresentam nenhum transtorno emocional. Já Lores (2010) amplia esse universo de causas da DA, como a privação psicossocial e a expansão da democratização do ensino que não signifique democratização sociocultural, identificando na etiologia da DA, dois níveis: o endógeno e o exógeno. Nos aspectos endógenos estão os fatores hereditários e a sua influência em termos de desenvolvimento. Já nos níveis exógenos estão as influências das oportunidades e das experiências multi-sensoriais, para além das necessidades de segurança, afeto, interação lúdica e lingüística, responsabilidade e independência pessoal. Fica definido que a etiologia das DA carece de uma observação com tratamento baseado nos fatores patogênicos do envolvimento, requerendo, com isso, partir de um estudo interdisciplinar para a execução de um estudo interdisciplinar integrado. Em razão disso, evidencia-se que só é possível identificar as dificuldades de aprendizagem, quando no contexto não interferirem os fatores socioeconômicos, uma vez que são os fatores de disfunção psico-neurológica do processamento de informação que incidem sobre o problema. Mediante isso, chama-se atenção para a distinção entre dificuldades de aprendizagem que surgem oriundas das razões de desvantagens culturais, do envolvimento socioeconômico e da inadequada aprendizagem, bem como daqueles que são identificados pela deficiência diagnosticada cientificamente ou por inadequada integração pedagógica. Razão esta, pela qual, assinala Lores (2010), passar o problema da DA pela má nutrição, pela privação de estímulos e informação, desencorajamento e desconfiança de reforço, subcultura, hierarquização e diferenciação no critério de homogeneidade cultural incompatível com o social, entre outros. Pelo exposto, entende que a DA tem se tornado amplamente encontrada entre os estudantes e em qualquer indivíduo de nível econômico diverso, e que se sinta ameaçado, confuso ou inseguro diante das exigências escolares. Isso porque, segundo o autor mencionado, é no ambiente escolar que se revelam os problemas emocionais secundários, oriundos de acumulações de ansiedades, depressões, frustrações, agressores e de insucesso dentro de uma cadeia de inadaptações que ocorrem naquele meio. Entretanto, é preciso sempre buscar as causas dos problemas de aprendizagens, tratando-a por meio de uma intervenção especializada e num combate constante e contínuo pela área de atuação da Psicopedagogia. No que concerne ao ensino de Língua Portuguesa, Cezar et al (2010) assinala que resultados publicados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC), têm evidenciando a apresentação de resultados insatisfatórios, sinalizando a indicação de que o desempenho dos estudantes nessa disciplina vem se agravando a cada pesquisa. Além do mais, o fato se agrava pela dicotomia existente pelo formato oral e a língua escrita nas aprendizagens, bem como pela ineficácia das metodologias de ensino dessa disciplina, notadamente no campo de referência entre a língua falada e as regras gramaticais. No entendimento de Travaglia (1996), o problema para se compreender e assimilar os conteúdos ministrados em Língua Portuguesa, se deve ao fato da não cessão por parte do professor do espaço importante da atividade de reflexão do estudante, enfatizando uma abordagem metodológica baseada na predominância da abordagem tradicional da regra pela regra. Esta é uma metodologia reducionista e empobrecida que pela repetição fragmentada e ausência da compreensão adequada dos conceitos, funções e relações existentes, dificulta a aprendizagem no ensino da língua. Também Macedo e Pinto (2010) adotam o posicionamento de que: Um dos grandes obstáculos ao processo de aprendizagem é o encaminhamento metodológico usado pelo professor. As complexas relações entre som/grafia, na retenção, na integralização dessas experiências, na compreensão e na interpretação da leitura e da escrita precisam ser bem asseguradas, pois, para que o domínio da linguagem pela criança aconteça, o professor precisa intervir no momento certo, fazendo o aluno elaborar suas hipóteses para que mais tarde possa reelaborar sozinho suas hipóteses. É o que entende Dorziat e Figueiredo (2010) na distinção entre linguagem como expressão do pensamento, como instrumento de comunicação e como forma de interação. No primeiro caso, distinguem como expressão do pensamento se faz necessário o estudo da gramática normativa tradicional, a partir do estudo da morfologia e sintaxe. No segundo caso, observam que como instrumento de comunicação, ou seja, o código, a gramática fica formada de regras a serem memorizadas e seguidas, no sentido de relação entre a língua padrão e a praticada pela fala das classes sociais. No terceiro caso, entendem que a gramática é vista como um feixe de variações e recursos lingüísticos que deve ser usado em função do texto (oral e escrito) que se produz e de seu contexto. Com isso, entendem os autores que esse resultado mostra como a língua portuguesa foi veiculada na grande maioria das escolas: de uma maneira muito desvinculada das reais necessidades da língua e que profissionais estão nas escolas, reproduzindo um ensino também inadequado. O tema atinente à dificuldade de aprendizagem na língua portuguesa, segundo Lores (2010, p. 28) constitui um problema de atualidade mundial. E assinala que: “No respeitante à área em que os alunos têm as dificuldades e estabelecida a relação com a língua materna soube-se que, na leitura e na gramática, as dificuldades são maiores nos alunos de língua materna portuguesa”, detectando as maiores dificuldades nos casos de escrita, leitura e interpretação. Como remédio, a prática do exercício de leitura tem sido eficiente para a superação, seguindo-se um vigilante acompanhamento pedagógico. No entanto, a prática ortográfica tem sido abandonada, quando esta se revela importante e decisiva no tratamento da DA em língua portuguesa. Já entre as dificuldades elencadas por Dorziat e Figueiredo (2010) estão a produção de textos, a ortografia, as regras gramaticais e a interpretação de textos. Tem-se encontrado, ainda, que as DA em língua portuguesa estão elencadas a partir da condição do estudante, carga horária, falta de motivação, da falta de material didático, responsabilidades familiares, relacionamento entre professores e alunos, todas afetando a leitura, a escrita, a gramática e a interpretação. Há observações como a de Olimpio (2010) e Guimarães (2010) que identificam as dificuldades de leitura, escrita e ortografia só serão superadas quando os professores, notadamente os de Língua Portuguesa, se dedicarem ao aprendizado ideal e verdadeiro do aluno, uma vez que a língua exerce um papel de suma importância do desenvolvimento desses alunos, exigindo por isso, o desenvolvimento de um método sólido e eficaz no seu ensino. E mais porque, segundo Silva (2002), a construção de um processo ensino-aprendizagem da língua materna passa necessariamente pela interação do aluno com o professor, com seu meio e com o mundo. Isso em consonância com Olimpio (2010) que se posiciona pela necessudade de condução do trabalho de leitura por meio da interação de diversos métodos, a exemplo das reflexões, compreensões e interpretações promotores de encontros literários, roda de leitura, jogos de adivinhações literárias, paráfrases, entre outras formas que incluam o lúdico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Ao se observar o problema da aprendizagem em Língua Portuguesa, constatou-se que este problema é flagrado como no contexto de uma situação real que perpassa todas as instituições escolares, carecendo de aprofundamento reflexivo dos profissionais de educação para a matéria. Isso porque essa dificuldade de aprendizagem tem propiciado o insucesso escolar que pode ser oriunda de uma série de fatores, desde problemas disléxicos ou de outras naturezas socioafetiva, orgânica ou psicológica, como também da má preparação do professor ao ministrar os conteúdos. Isso porque o desenvolvimento do estudante depende também das condutas e ações dos adultos e professores. No caso específico da dificuldade de aprendizagem da Língua Portuguesa, recomenda-se, com base na literatura estudada, que no ensino da disciplina não se priorize as questões de errado ou certo, visando, ao contrário disso, estimular a reflexão e a análise sobre a língua. Ao professor de Língua Portuguesa é sugerido que faça uma seleção criteriosa dos conteúdos gramaticais adequados e relevantes, direcionados aos interesses, compreensão e faixa etária dos estudantes, posicionando-se de forma atenta e vigilante para o funcionamento psicológico dos discentes e seu desenvolvimento intelectual. Além do mais, na sua prática diária o professor precisa interagir e conhecer os estudantes, promovendo um acompanhamento individual para ajudar, estimular e compreender o que se passa no resultado da sua prática. Para tanto, se faz necessário estar robustecido de sensibilidade que seja capaz de detectar as mudanças que ocorrem na sala de aula. Nessa condução, é de fundamental importância a interação, especialmente pela condução do professor em fomentar e proporcionar ao discente a promoção da construção do discurso próprio, por meio do destaque de suas próprias experiências vivenciadas culturalmente, na amplitude dialógica que seja capaz de refletir a dinâmica intra-interdiscusiva. Como prática eficiente para reverter esse quadro, há a necessidade de mudança na produção dos conhecimentos articulando-se com a vida cotidiana, propiciando uma identidade entre a realidade do estudante e o conteúdo ministrado na sala de aula. Neste sentido, essa identificação com a realidade dada proporciona o entendimento do aprendizado, evitando-se o aprendizado factual ou mnemônico que possibilita, tão somente, a fixação dos conteúdos para atividades direcionadas. Essa atitude pode facilitar a aprendizagem, dirimindo e propiciando uma identificação com os conhecimentos prévios adquiridos com o indivíduo e a nova propositura efetuada pelo processo de informação. Tal condução leva ao entendimento da necessidade de processos dialéticos na prática pedagógica da Língua Portuguesa, possibilitando uma interação que resulte num desempenho satisfatório pautado na experiência multi-sensorial capaz de desenvolver associações e integridades auditivo-verbais e viso-motoras. É preciso que a escola tome uma atitude preventiva com relação a DA, aparelhando-se de uma orientação psicológica, educacional e pedagógica, detectando o discente com dificuldade de aprendizagem. Também, à escola exige-se a constante orientação aos professores com relação à elaboração de métodos aplicados e a adequação do programa na prática diária, ofertando condições aos profissionais da educação a busca pela compreensão nas situações particulares de aprendizagem e na construção da inteligência. Mais ainda, a escola deve promover o desenvolvimento global de todos os discentes e a integração dos destes no desenvolvimento formativo, incluindo professores e pais na ação preventiva das dificuldades de aprendizagem. É evidente que a escola sozinha não será jamais capaz de superar todos os problemas de aprendizagem, carecendo da intervenção familiar que possui um papel imprescindível no processo formador do indivíduo em todos os níveis.
REFERÊNCIAS
CALSA, G. C. Intervenção psicopedagógica e problemas aritméticos no ensino fundamental. Campinas: Unicamp, 2002.
CARVALHO, Maria. O educador diante da complexidade do processo de ensino aprendizagem. Psicopedagogia, 2008.
CASTILHO, A. T. A língua falada e o ensino de português. São Paulo: Contexto, 1998.
CEZAR, Kelly; FRANÇA, Fabiane; CALSA, Geiva; ROMUALDO, Edson. Alunos com dificuldade de aprendizagem em escrita: um olhar psicopedagógico. Profala, 2008.
DORZIAT, Ana; FIGUEIREDO, Maria Julia. Problematizando o ensino de língua portuguesa na educação de surdos. Ines, 2005.
FONSECA, Victor. Uma introdução às dificuldades de aprendizagem. Lisboa: Editorial Notícias, 1999.
FREITAS, Aparecida. Princípios psicopedagógicos na educação transversal do trânsito: aspectos introdutórios. Psicopedagia, 2008.
GUERRA, Leila Boni. A criança com dificuldades de aprendizagem. São Paulo, 1998.
GUIMARÃES, Ernandes. As dificuldades do ensino da língua portuguesa no Ensino Fundamental da Escola Estadual Coronel Filomeno Ribeiro de Montes Claros – MG, 2008.
LORES, Manuel Frómeta. Dificuldade de aprendizagem em língua portuguesa. 2008.
MACEDO, Adriana; PINTO, Maria das Graças. Problemas de aprendizagem: um olhar psicopedagógico. Revista do Centro de Educação, 2003.
NASCIMENTO, Cláudia; NASCIMENTO, Cléa; SANTOS, Sheila; MORISSO, Matias. As etiologias biológicas dos problemas de aprendizagem: implicações no diagnóstico psicopedagógico. Profala, 2008.
NUNES, Terezinha; BUARQUE, Lair; BRYANT, Peter. Dificuldades na aprendizagem de leitura: teoria e prática. São Paulo, 2000.
OLIMPIO, Luciana. Como diminuir as dificuldades de aprendizagem e em sala de aula. Abec, 2008.
POLITY, Elizabeth. Dificuldade de aprendizagem e família: construindo novas narrativas. Pedago Brasil, 2008.
POZO, J.I. A aprendizagem e o ensino de fatos e conceitos. In: COLL, C. Os conteúdos na reforma: ensino e aprendizagem de conceitos, procedimentos e atitudes. São Paulo: Saraiva, 1998.
SANTOS, Luciana; MARTURANO, Edna. Crianças com dificuldade de aprendizagem: um estudo de seguimento. Portal Educação, 2008.
SANTOS, Carla; SILVA, Maria das Graças; VIRGENS, Maria Lucia; FERNANDES, Nice; SILVA, Valderice; OLIVEIRA, Vera Lucia. Dificuldades de aprendizagem em leitura e escrita nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Paidéi@, 2008.
SENA, Maria G. C.; GOMES, Maria F. C. Dificuldades de aprendizagem: na educação. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2002.
SILVA, Cristiane. O ensino de língua portuguesa em debate: problemas e perspectivas. Artigonal, 2008.
SILVA, Maria Cristina. Saberes e dizeres diferentes de crianças que "fracassam" na escola. In: SENA, Maria G. C.; GOMES, Maria F. C. Dificuldades de aprendizagem: na educação. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2002.p.55-67
TRAVAGLIA, L. C. Gramática e Interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º. e 2º. Graus. São Paulo: Cortez, 1996. Veja mais aqui, aqui e aqui.


Curtindo o DVD com a ópera Orpheus und Eurídike (BelAir, 2009), do compositor alemão Cristoph Willibald Gluck (1714-1787), com coreografia da memorável coreógrafa, dançarina, pedagoga e diretora de balé alemã Pina Bausch (1940-2009) & Ballet de l’Opéra National de Paris. Veja mais aqui.

OS DELICIOSOS VERSOS SENSUAIS DE LÍRIA PORTO

PARELHA

aberta a janela
penetra-se nas trevas
estrelas se fazem
e nus nesse oásis
quedamo-nos

entre as frestas
o caldo da entrega
sal do amor

a morte
hora incerta
deu-nos a deus
corpos inocentes

roupas largadas
montanhas
pegadas
suor

LA BELLA DONNA

seus olhos são noites
seu cheiro manhãs
são tardes seu colo
seu sexo agoras
seus seios auroras
o tempo advoga
a seu favor

O SEMINARISTA

afunda no decote
margeia os mamilos
escorre pelas bordas
desvia pros quadris
desce até as coxas
retorna ao umbigo
enquanto a prima dorme
cheirosa igual canela
biquini cor-de-rosa
virgem por triz

(IN)DE.CISÃO

todos os dias
ao amanhecer
jogo-te ao vento
tomo a decisão
de te esquecer

depois eu me lembro
do teu riso do teu beijo
sinto um arrepio
e me arremesso

ARRASTÃO

teus olhos são rede
o mar é amor
eu - peixe

ÂNGELA

a moça de alma albina
quer ser puta não consegue
fica nua vai pra esquina
quando um homem se aproxima
lua não tem sexo

FLUIDOS

tornei-me assim liquefeita
quando daquela feita
despi-me de nãos e sins

de mim então me perdi
nesta vontade inconclusa
acumulada no rim

ficou a mágoa comigo
fincada dentro do umbigo
um imenso chafariz

minha tristeza de chuva
essa amargura profusa
tem olhos túmidos

sou tal e qual um dilúvio
derramo transbordo enxurro
sangro os pulsos

CÓCEGAS

tuas águas me embalançam
como o mar e o navio

rio

DELTA

entre os joelhos e a virilha
uma ilha de renda a esconder a gruta
de mato dentro

TESÃO

cheiro de arroz cor de leite
salpicado com canela
gosto de cravo pau de canela
um doce manjar dos deuses
para todos os prazeres
para dar água na boca
sentir vontade e voltar

arroz doce com canela
nesta vida passageira
esperarei por cem anos
mais que isso se preciso
retornarás bem cremoso
cheiro de arroz cor de leite
gosto de cravo pau de canela

AL DENTE

saia curtinha
blusinha verde
e o vegetariano
não desgruda os olhos
da sua carne tenra

OBLÍQUA

quando a cama fica imensa
atravesso-a de ponta a ponta
desassossegos pelo meio
insônias no viés

DESMILAGRE

eu te abismo
tu me abismas
e em queda livre
precipitamo-nos

o fundo
era previsível
a superfície
nem santo

DI_AMANTE

eu te quero sol de todo dia
e só vens na lua cheia

a bola de neve do meu medo
(não sou a amada sou o pouso o oásis)
te traz na primavera do ano bissexto

assusta-me à distância
o cometa halley

SEM PÉS NEM CABEÇA

ali
no ponto gê
a tomada elétrica
deixa guiomar
de pernas pro ar

MAGO

alguém que me queira como sou
que me pegue e me esfregue
até que eu veja o gênio
da lâmpada

DE TODAS AS FÓRMULAS

fazes-me falta

em todas as fases
faltas-me

LADAINHA

faço verso rastejante
igual cobra no papel

faço verso flutuante
passarinho lá no céu

faço verso comprimido
fechado dentro do frasco

faço verso assim ridículo
acostumado ao fiasco

faço verso bem florido
nascido em pleno setembro

faço verso esquecido
o jeito dele nem lembro

faço verso galopante
como visita de amante

faço verso des'tamanho
coração de minha mãe

faço verso
faço verso

faço verso

CUNHÃ

parece uma flor de palha
a moça que me atrapalha
sem cheiro e sem encantos
no entanto igual arraia
enreda em sua saia
o dono dos meus quebrantos

O CABAÇO

penso aqui com os borbotões
estou cheia de senões
se fossem abotoados
os pingolins dos meninos
ia ser um desatino
desarrolhar os coitados
acho mesmo houve engano
nas meninas muito pano
os rapazes sem cortina
triste é a nossa sina
um selo de validade
desde a mais tenra idade

LÍDER

peito para frente
bunda para trás
e o batalhão atrás

CONQUISTA

a pele da piscina
arrepia-se
com as tuas braçadas

DIABA

nem mais bonita rica ou inteligente
queria tão somente ser o seu tipo
a mulher que ele escolhesse sem titubeio
sem avaliar os prós os contras
a que tivesse a medida
o exato tanto
entre puta e santa

LIRIA PORTO – A poeta e professora mineira Liria Porto tem vários de seus excelentes poemas publicados em diversas páginas, revistas, sites e portais da web. Veja mais aqui.



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