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segunda-feira, janeiro 12, 2015

TANELLA BONI, ANNE HÉBERT, FREYTAG-LORINGHOVEN, MUSIL, ESOPO & BONHOEFFER

 

ELSA BARONESA - O pai cruel, a mãe religiosa, motivos para fugir do jugo do pai até Berlim com um trabalho num cabaré entre boêmios. Era um teatro e foi corista, dançarina, acumulava amantes num casamento aberto. Separou-se e casou de novo para ser abandonada. Passeou pela Itália, Suíça e França, para depois ancorar exilada em New York, chamando atenção por seu estilo pouco convencional de vida. Casou-se com um falso barão alemão, um dândi que desapareceu no Canadá: este, o terceiro se suicidara para deixar-lhe apenas o nome. Passou a viver entre a miséria e o dandismo, tornando-se modelo provocativa de fotógrafos e artistas no despudorado Body Sweats: The Uncensored Writings of Elsa von Freytag-Loringhoven. Provocadora na libertação da linguagem e sexualidade livre, atuava em meio a profiláticos, brinquedos sexuais e orgasmos femininos. Era sempre presa pela polícia por roubo ou por vestir-se como os homens. Declarou guerra aos burgueses, causava escândalo com sua maquiagem brilhante, penteado raspado e tingido, trajes extravagantes e influentemente radicais. Ela se vestia com desenhos próprios, reunindo trapos e objetivos colhidos do lixo. Logo viu-se: a Baronesa era bizarra, cleptomaníaca, promíscua, precursora transcendental da vanguarda, causava perplexidade e fúria com suas performances e poemas: uma expoente Dada até a alma, a excêntrica pioneira performática de toda vanguarda. Possuía um pseudônimo: R. Mutt, um certo Richard, proprietário do vaso sanitário, um dos tantos codinomes dela à beira da loucura. Foi dela a ideia da The Fountain de Duchamp. Ela já usava despojos e objetos escatológicos. God se mostrou – um tubo de drenagem que é montado sobre uma serra de esquadria de madeira, o falo ligando a peça diretamente à deidade, o criador de um mundo androcêntrico, uma blasfêmia de canos retorcidos e enferrujados - e era a luz na fonte para ela. Dela o Hardened Ornament, seu ready-made, um pedaço de ferro encontrado tornou-se o Símbolo de Vênus invertido: o cachimbo é o pênis dominando a Terra, o patriarcado opressor. O enfeite tilintante Limbwish que ela usava acompanhando o ritmo da sua cintura, o apito do membro. Era ela dominatrix e inventou Dada, a heroína de muitas fantasias esbanjadoras, o sufrágio feminino e a decadência religiosa nos happenings e performances, invadindo o Gabinete Secreto do Museu Arqueológico de Nápoles, quebrando normas sexistas e os papéis de gênero, desfilando entre objetos fálicos e afrescos eróticos. A poeta experimental foi protagonista de Man Ray & Duchamp, raspou os pelos pubianos nua numa intervenção artística, fez versos sexuais com sons e críticas religiosas - Uma dúzia de coquetéis – por favor, exaltava a felação com seu paladar lascivo pelos versos optofonéticos nos pirulitos de solteirona: Correntes de ar serpentinas \ – – – \ hhhhphssssssss! \ A própria palavra \ penetra! \ ('correntes de ar serpentinas \ – – –  \ hhhhhphsssssss! \ A própria palavra \ penetra! Em Aritmética Cósmica ela se lança contra a religião cristã: onde a mulher na santíssima trindade? E quem diria dela o urinol de Duchamp, hem? Ela sabia da falsidade. O seu corpo reinventou a crítica artística vigente, latas de tomate cobrindo-lhe os seios, uma gaiola por colar, frutas e legumes roubados nos adereços vestimentais: era uma colecionadora de tudo, a sua arte viva – chutava o balde da arte convencional e o seu mercado. A sua voz de muitos nomes com seu corpo nu onde menos se esperava. A sua marca: EvFL. O desejo pelo orgasmo e os materiais perecíveis, os restos e suas assemblages, o retorno da deserdada à terra natal com os estragos da estúpida guerra, o retorno à Paris para ser mais uma vez incompreendida. Rompeu com as fronteiras entre a arte e a vida, e fez de si sua própria arte: Woman Art House, a transgressora por excelência suicidou-se asfixiada por um vazamento de gás em sua própria casa. Viva a deusa-musa Elsa Hildegard, a Elsa von Freytag-Loringhoven (1874-1927).


 

A VOZ DE ELSE, A ELSA BARONESA - Todos que me querem gostariam de me devorar, mas sou muito expansiva e estou aberta a todos os lados, desejo isso aqui e aquilo ali. Eu implantei sexologia e usei. Todo artista é louco pela vida cotidiana. Eu tinha avançado para um sexo espiritual: a arte - que ninguém protege tão prontamente quanto um encantador corpo amoroso de carne. Éramos pessoas de um círculo de conduta de vida supostamente altamente cultivada pela moralidade intelectual – superior à sociedade em suas malhas hipócritas. Tudo o que é emocional na América torna-se um mero espetáculo e faz de conta. Os estadunidenses são treinados para investir dinheiro, dizem que correm riscos desesperados nisso, mas nunca investem em beleza nem correm riscos desesperados nisso. Com dinheiro tentam comprar a beleza – depois que ela morreu – famintos – com caretas. A beleza está sempre morta na América. Pensamento da poeta e artista polonesa Elsa von Freytag-Loringhoven (1874-1927), autora dos poemas: A sedutora tenacidade do disco de borracha do amuleto do polvo \ - sugando \ suavemente - enérgico \ em \ sistemas móveis \ Malha \ Ceasar's \ Digging \ Point \ Beijo afiado \ Plenishing \ Estalando a sede Corte de \ broca \ Rimflush \ Desejo de sangue rubi \ Igual \ de \ qualidade verdadeiro - \ Jorrando - \ Ejaculando silenciosamente \ Alto \ para \ manchar brilhos perseguidos \ Temperado \ dolorido \ Namoradeira \ Carmesim de Ceasar Bainha Cardeal \ Suprema No feixe de Hedges Of Pride – Ponto de inflamação da lâmina corajosa – Aço do punhal Marte \ adormecido No Hearth Olympic. II - Almofadas de amor de polvo Capacidade \ de recuperação \ Discos de sucção agarram-se ao braço afiado dentro da elasticidade extática feminina. III - Aumenta! \ Vale do torneio – \ Colchão \ do Victor \ extremamente laureado\ Maturesmiled – \ Rosestrewn – \ Gaping – \ Openpetalled – \ Abandonflushed – \ Profundo – saciado – vermelho \ Por: O \ ousado brilho da virtude \ – Adornado. IV - Afrodite a Marte \ Lâmina intermitente – \ Punhal enterrado – Teia de ternura \ altamente flexível Abdominal de sistemas \ Aço igual em formato feminino\ A agudeza da lâmina enterrada de Aflirt \ Mars é agressiva no ajuste aristocrático receptivo de Keenness. V - Ouça!\ Garanhão \ Whinny está \ em \ matagais. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Pratique atos aleatórios de bondade e atos de beleza sem sentido... As bibliotecas o ajudarão em tempos sem dinheiro, melhor do que o dinheiro o ajudará em momentos sem bibliotecas... Pensamento da escritora canadense Anne Hébert (1916-2000), que na obra Le Temps Sauvage; Suivi De La Mercière Assassinée; Et Les Invités Au Procès (HMH, 1967), expressou: [...] Aqui me escondo quando quero. Posso me esconder por dias e dias, sem que ninguém saiba se existo ou não, e sem que eu mesmo saiba. Eu me tranco lá. Eu leio, durmo, sonho. Eu não me movo mais. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Um camelo atravessava um rio de rápida correnteza. Defecou, e viu então seu excremento passar por ele, levado pelas águas ligeiras. E disse: "o que vejo? O que estava atrás de mim ainda agora, eu vejo passando a minha frente! Pensamento do escritor grego Esopo (620 a.C. - 564 a.C.). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

FALANDO DE ESTUPIDEZ & A ESTUPIDOLOGIA – [...] A estupidez é mais perigosa que a maldade. Contra o mal se pode protestar; o mal pode ser exposto, revelado; pode também ser evitado, se necessário, até pela força; o mal sempre carrega o germe da autodecomposição, deixando pelo menos um desconforto naquele que o pratica. Diversamente, não há como se defender da estupidez. Nada pode ser feito aqui com protestos ou com violência; razões não a convencem; simplesmente não se dá crédito a fatos que contradigam o próprio preconceito – em tais casos, o estúpido se torna ainda mais resistente – e se esses fatos são incontestáveis, podem com facilidade ser postos de lado como casos isolados e sem sentido. O estúpido, ao contrário da pessoa má, sente-se completamente satisfeito consigo mesmo; sim, ele até se torna perigoso, enfurecendo-se facilmente quando é refutado. Portanto, a relação com o estúpido exige muito mais cautela do que com a pessoa má. Nunca se há de convencer o estúpido pela razão – é inútil e perigoso. Para saber lidar com a estupidez, é preciso antes procurar entender sua natureza. Não se trata essencialmente de um defeito intelectual, mas algo que atinge a humanidade do sujeito. Tanto é assim que existem pessoas de inteligência extraordinariamente ágil que são estúpidas e pessoas intelectualmente pesadas que podem ser tudo, menos estúpidas. Para nossa surpresa, chegamos à seguinte conclusão: parece que a estupidez não é propriamente um defeito congênito, mas um processo em que as pessoas se tornam estúpidas sob certas circunstâncias, ou deixam-se fazer estúpidas de forma recíproca. Também observamos que a estupidez aparece mais em pessoas ou grupos propensos ou condenados a viver em comum do que em pessoas mais fechadas, reservadas e solitárias. Assim, parece que a estupidez é um problema mais sociológico do que psicológico. É uma forma especial de influência das circunstâncias históricas sobre o homem, isto é, uma consequência psicológica de certas circunstâncias externas. Em uma análise mais detalhada, verifica-se que toda forte expansão externa do poder, seja política ou religiosa, golpeia um grande número de pessoas com estupidez. Sim, parece que é uma lei psicológica e sociológica. O poder de alguém precisa da estupidez de outrem. O processo não é que, de repente, algumas faculdades – como a intelectual - definhem ou fracassem, mas sim que a independência interna da pessoa vai sendo roubada pela impressão esmagadora do desenvolvimento do poder, até que - mais ou menos inconscientemente – essa pessoa renuncia a encontrar seu próprio comportamento em relação às situações que a vida lhe apresenta. O fato de o estúpido ser muitas vezes teimoso não significa que ele seja independente. Conversando com ele, você quase pode sentir que seu discurso nem sequer tem a ver com ele mesmo, com aquilo que o constitui. Trata-se de frases de efeito, slogans e chavões que se apoderaram dele. Ele está enfeitiçado, cego, abusado e maltratado em sua própria natureza. Tornando-se assim um instrumento sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal e, ao mesmo tempo, incapaz de reconhecer-se mau ou de reconhecer maldade em seus atos. Aqui está o perigo de um abuso diabólico. Como resultado, as pessoas serão destruídas para sempre. Disso decorre que somente um ato de liberação – e não um ato de instrução – poderá superar a estupidez. Na grande maioria dos casos, para superar a estupidez, a pessoa terá de aceitar que uma genuína libertação interior só se tornará possível após a libertação externa; até então, sem essa condição, teremos que desistir de todas as tentativas de convencer os estúpidos. A propósito, nesse estado de coisas, fica bem claro que em tais circunstâncias é vão tentar saber o que "o povo" realmente pensa, mesmo porque, ao mesmo tempo - nessas dadas circunstâncias – qualquer resposta seria supérflua para o pensador e realizador responsável. A Palavra da Bíblia que diz que o temor de Deus é o começo da sabedoria (Salmos 111: 10); diz que a liberação interior dos humanos, para uma vida responsável diante de Deus, é a única verdadeira superação da estupidez. De resto, esses pensamentos sobre a estupidez são reconfortantes, pois não permitem tratar a maioria das pessoas como estúpidas a todo custo. Realmente, isso dependerá da tendência dos Poderes Instituídos, vale dizer, se querem tornar seu povo estúpido ou se buscam a independência interior e sabedoria de seus governados. Tornando-se assim um instrumento sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal e, ao mesmo tempo, incapaz de reconhecer-se mau ou de reconhecer maldade em seus atos. Aqui está o perigo de um abuso diabólico. Como resultado, as pessoas serão destruídas para sempre. [...]. Trechos extraídos da obra Widerstand und Ergebung. Briefe und Aufzeichnungen aus der Haft (Gütersloher Verlagshaus, 2005), do teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), que na sua obra Letters and Papers from Prison (Touchstone, 1997), expressa que: [...] Devemos aprender a considerar as pessoas menos à luz do que elas fazem ou deixam de fazer, e mais à luz do que elas sofrem [...] Julgar os outros nos torna cegos, enquanto o amor é iluminador. Ao julgar os outros, cegamo-nos para o nosso próprio mal e para a graça a que os outros têm tanto direito como nós. [...] Graça barata é a graça que concedemos a nós mesmos. A graça barata é a pregação do perdão sem exigir arrependimento, do batismo sem disciplina eclesiástica, da comunhão sem confissão... A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo, vivo e encarnado. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

SOBRE A ESTUPIDEZ - [...] Em geral, os sistemas educativos são estúpidos, baseiam-se na repetição, memorização e seu conseqüente esquecimento. Em geral, porque eu não deveria ou não iria manchar a memória de alguns professores que nem sequer tentaram dominar para domar seus alunos; professores que negam a sua profissão e que Provavelmente não são professores, pois não professam nada, ou seja, não exercem nem eles não ensinam ciência, nem cultivam sentimentos ou crenças de qualquer espécie, nem declaram sua adesão a algum princípio ou doutrina. Professores guardiões que, em vez de ouvem-se falar, milagrosamente fazem com que a turma leia um livro. Claro, que alegria tipologia são uma minoria. Para superar os obstáculos criados pela estupidez do sistema educacional, o aluno desenvolve um tipo de estupidez, digamos, autocomplacente, representado pelo estereótipo do aluno modelo, ou, marginal, que é o do aluno que fica à margem, porque é feito deliberadamente o estúpido, e aquele que acaba marginalizado, pois tudo o que se pretende ensinar é de grande inutilidade. [...] O terreno fértil para a expressão estúpida, definida como expressão cristalizada por uso cotidiano e atualidade, um lugar comum, um ditado sem rima nem razão, nem pensamento, é sem dúvida no campo da paixão. Existe alguma diferença entre o ridículo e o idiota? Sem dúvida, o ridículo pode ser original, provocativo, engenhoso, transgressor, Por outro lado, a estupidez, coitado, é como aquela imagem de Machadon do burro dando gira em torno de um moinho. Se a estupidez é, em parte, falta de jeito para compreender coisas, o que você pode pedir de um amante, que perdeu até mesmo o capacidade de falar? E o que pode ser ajudado senão nas frases usadas, o frases surradas, que provavelmente meia dúzia de milhões de pessoas estão usando ao mesmo tempo? Mais uma vez, você tem que se proteger da estupidez como manobra de resgate, quase se poderia dizer neste momento que a expressão estúpida É o recurso do estupefato [...] Não há nada de estúpido no desejo, se o desejo for cego, muito menos. Faz tempo pensei que o comportamento do professor Inmanuel Rath, em The Blue Angel, de Josef von von Sternberg foi estúpido por ter se submetido aos caprichos de Lola-Lola, uma estrela sem escrúpulos, até que se viu denegrido diante de seus alunos, vestido com palhaço. Eu me absolvo do que pensei. Não há nada de estúpido no desejo, e se for cego menos ainda, será numa área onde não há inteligência, nem ingenuidade, nem maléfico, nem o beatífico, nem o econômico, nem o errôneo, é um excesso e, como tal, não pertence ao raciocínio. Que Bouvard e Pécuchet de Flaubert desejem saber, e que acabam apenas com uma massa de dados inúteis, como o seu próprio jardim deteriorado, isso não os torna estúpidos, mas sim fracassados, como todos os outros que busca o estado perpétuo de desejo e, por ser de natureza efêmera, deve desaparecer renovador, em detrimento do conhecimento das coisas, que exigem mais tempo e dedicação, valores que não lhes podem ser atribuídos porque sem vontade pararam têm interesse e, portanto, não valem mais tempo e esforço, e por isso, Eles não podem mais ser conhecidos, tornaram-se opacos, então é melhor ir em busca de outro objeto novo e inexplorado, pois não importa conhecer, mas sim manter o desejo até a sua extinção, fim e origem da aventura de Bouvard e Pécuchet, convertida no Don Juan do diletantismo. [...]. Trechos extraídos da obra Sobre la estupidez (Tusquets, 1974), do romancista e dramaturgo austríaco Robert Musil (1880-1942). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

DEZ POEMAS - LÁ ONDE ESTÁ TÃO BRILHANTE EM MIM - Eu quero fazer parte deste mundo \ Eu quero dormir profundamente\ Eu quero continuar vivendo\ Alma tranquila coração sereno\ O verme está na fruta\ Desde o início dos tempos\ A verdade da humanidade está em outro lugar\ Aqui talvez\ Escrito na pele\ Como se a vida preferisse\ Apenas uma única cor\ Em um mundo tão diverso\ A pigmentação da pele\ Requer uma compreensão\ Isso continuamente escapa\ Acontece na sua cabeça\ A ameaça\ Como uma árvore em chamas\ Florescendo na sombra da mente. NOVE POEMAS – I - Sonho o poema de um mar sem fronteiras \ danço na pele uma música acolhedora \ primeiro chão para qualquer lar \ enquanto as mãos da abundância as almas corpulentas \ tecem seu arame farpado \ Não sei se vivemos juntos \ numa encruzilhada de distribuição igualitária\ aqui esqueça a alquimia dos sonhos \ o sentido de uma mistura essencial. II - Olhe para os matizes e contornos desta terra para você que parte, \ o nome de cada peregrino que se move \ para o duro vale da vida \ não está mais gravado no topo da montanha\ quem gosta de quebrar a pedra \ sempre se reuniu de madrugada \ no rodeio dos feiticeiros \ que mergulham a mão no fogo \ porque ninguém remodela \ mil vezes os mesmos princípios \ sem sacrificar o melhor da alma \ num cesto de interesses provisórios \ distribuídos por aqueles \ que prometem manter o vento sob controle. III - E o vento sobe e o tempo esculpe \ um redemoinho que revela que sobe \ e desce os degraus do templo de areia \ como se os doze trabalhos de Hércules \ outrora um fato \ fossem apenas uma história de ninar para as pessoas \ depois de um árduo dia de esperança. IV - Mas devo-te toda a história \ desde a primeira sílaba da madrugada \ até ao centro desta espiral violenta \ que nos chama\ a história havia se lançado em sua \ corrida louca \ e, como acontece com uma brincadeira de criança, \ o bem e o mal estavam colegas de escola \ brincando de esconde-esconde, brincando de amarelinha, \ praticando com as palavras e armas dos fortes \ em um celeiro tranquilo \ onde o riso era desencorajado. V - Ontem foi um gato preto\ hoje um cavaleiro branco\ depois uma Mercedes preta com aquela primeira pedra O mal inaugura\ seu reino subterrâneo \ entre o branco e o preto \ só o solo onde o homem caça o homem \ exala o cheiro do tapete vermelho. VI - Há cabeças grossas \ adormecidas nos corredores do poder \ assinando uma edição da história \ que traça seu círculo \ em torno do mesmo umbigo, \ como se ninguém \ exceto os inquilinos do Palácio, \ pudesse nascer sob o olhar do sol. VII - Eles contaram histórias de pessoas \ inocentes em todos os sentidos \ que, à primeira luz do dia, teriam permissão \ para sustentar as folhas das palmeiras sobre a esperança.\ aqui a preguiça assume-se como a lei \ descansando nas redes dos escritórios \ esparramados nas salas de espera \ lá onde o trabalho outrora inspirou a Lei. VIII - Meu Deus, livra-nos das hienas \ das cabeças morenas desses vândalos dos sonhos \ porque a educação não é uma armadilha \ inventada por peregrinos que chegam \ para quebrar os alicerces \ tenho certeza agora que ela trança \ a grandeza da alma à auréola da sinceridade \ o acoplamento fundacional que nos une \ em torno da fonte da Bondade. IX - Como posso lhe dizer que o dia \ cai \ sob a chuva de lágrimas \ porque o mandado emitido \ dos picos do poder \ carece de termos de reconciliação? \ amanhã o futuro tem encontro marcado com a madrugada \ e não sei que enfant terrível \ assustado com a claridade da aurora \ aproveitará para atirar a primeira pedra \ no fosso que circunscreve o poder. Poemas da escritora, ensaísta e filósofa marfinense Tanella Boni.

 

SACADOUTRAS

 

HANNAH ARENDT - A filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975), em seu livro A condição humana, destaca que: [...] Vistos como parte do mundo, os produtos da obra – e não os produtos do trabalho – garantem a permanência e a durabilidade sem as quais o mundo simplesmente não seria possível. É dentro desse mundo de coisas duráveis que encontramos os bens de consumo com os quais a vida assegura os meios de sua sobrevivência. Exigidas por nosso corpo e produzidas pelo trabalho deste último, mas sem estabilidade própria, essas coisas destinadas ao consumo incessante surgem e desaparecem num ambiente de coisas que não são consumidas, mas usadas, e às quais, à medida em que as usamos, nos habituamos e acostumamos. Como tais, elas geram a familiaridade do mundo, seus costumes e hábitos de intercâmbio entre os homens e as coisas, bem como entre homens e homens. O que os bens de consumo são para a vida humana, os objetos de uso são para o mundo do homem. É destes que os bens de consumo derivam o seu caráter de objeto; e a linguagem, que não permite que a atividade do trabalho produza algo tão sólido e não-verbal como um substantivo, sugere a forte probabilidade de que nem mesmo saberíamos o que uma coisa é se não tivéssemos diante de nós 'o trabalho de nossas mãos'. [...] É esta durabilidade que empresta às coisas do mundo sua relativa independência dos homens que as produziram e as utilizam, a 'objetividade' que as faz resistir, 'obstar' e suportar, pelo menos durante algum tempo, as vorazes necessidades de seus fabricantes e usuários. [...] Em outras palavras, contra a subjetividade dos homens ergue-se a objetividade do mundo feito pelo homem, e não a sublime indiferença de um a natureza intacta, cuja devastadora força elementar os forçaria a percorrer inexoravelmente o círculo do seu próprio movimento biológico, em harmonia com o movimento cíclico maior do reino da natureza. Somente nós, que erigimos a objetividade de um mundo que nos é próprio a partir do que a natureza nos oferece, que o construímos dentro do ambiente natural para nos proteger contra ele, podemos ver a natureza como algo 'objetivo'. Veja mais aqui, aquiaqui

 Imagem: Academia, da pintora e desenhista brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973). Veja mais aqui e aqui.

Ouvindo: Concerto para Piano e Orquestra em Lá Menor, Op. 16, do compositor norueguês Edvard Hagerup Grieg (1843-1907), com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA), Regência de Marcelo Lehninger e piano de Lígia Moreno. Veja mais aqui

OS PROFESSORES DE GRÁMATICA E CONCURSOS PÚBLICOS – O jornalista e escritor modernista brasileiro, Rubem Braga (1913-1990) desabafou em sua crônica Nascer no Cairo ser fêmea de cupim, do seu ótimo livro Ai de ti, Copacabana (1960), contra o purismo dos professores de gramática e as esdrúxulas alternativas apresentadas em provas de concurso público: Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo? O leitor que responder "não sei" a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Alias, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão. Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua. Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma "página de bom vernáculo, exemplar". Tive vontade de responder: "Mera coincidência" — mas não o fiz para não entristecer o homem. Espero que uma velhice tranquila - no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios — me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado contra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu poderia me queixar se o seu marido me descesse a mão?). Alguém já me escreveu também — que eu sou um escoteiro ao contrário. "Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação — contra a língua". Mas acho que isso é exagero. Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinquenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo — e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive essa intenção. Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a bondade de não me cumprimentar. Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? Por que fazer do estudo da língua portuguesa unia série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para "pegar" as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri — e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da "Última Hora" ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de "O Globo?". No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, ruas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros. Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo do póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente — de Cachoeiro de Itapemirim! Veja mais aqui, aqui e aqui. 

OBSTINAÇÃO DE MULHER  - A psicóloga e professora norte-americana, Eleanor Jack Gibson (1910-2002), na década de 1930, ao se candidatar ao programa de pós-graduação na Yale University, recebeu a informação de que o diretor do laboratório de primatas não permitia a presença de mulheres em suas instalações. Ela também foi impedida de participar de seminários sobre a psicologia freudiana, tendo em vista que as mulheres eram proibidas de usar a biblioteca dos estudantes e a lanchonete porque era de uso exclusivo dos homens. Só depois de 1932, quando se casou com o também psicólogo James J. Gibson que ela se doutorou em Psicologia pela Universidade de Yale e passou a lecionar no Smith College e na Universidade de Cornell. Os seus estudos envolveram investigações sobre a aprendizagem humana e animal, analisando o desenvolvimento das capacidades de leitura e o desenvolvimento perceptual em crianças e adolescentes, desenvolvendo o processo de diferenciação. A partir da década de 1970, ela passou a se dedicar à causa ambiental desenvolvimento estudos na área de Psicologia Ambiental, passando a ser membro da Sociedade Internacional para a Psicologia Ecológica. Veja mais aquiaqui.


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sexta-feira, abril 18, 2008

KHAYYAM, ORFEU & EURÍDICE, GLUCK, PINA BAUSCH, LÍNGUA PORTUGUESA, GERT WIEGELT & LÍRIA PORTO

 
Curtindo o álbum (2 CDs) da ópera Orfeo ed Euridice (Grammophon, 1998), do compositor alemão Cristoph Willibald Gluck (1714-1787), com a Münchner Bach-Orchester, regida por Karl Richter. Veja mais aqui e aqui.

DANÇA NUA NO MEU CORAÇÃO – Imagem: arte do fotógrafo alemão Gert Wiegelt. – Dança, Eurídice, dança ninfa nua e linda para se certificar do amor do filho de Calíope por tua formosa cupidez de serva do prazer. Vem líquida como o rio Hebrus onde nasci, porque sou mortal navegante desposado por teus encantos de mar. Vem inteira me hospedar como a Trácia porque quero me servir no teu banquete dionisíaco. Ah, me acode encantada Eurídice com a fome sensual de tua boca voraz felatriz, com o ósculo dos teus lábios acetinados no meu sexo argonauta retesado pela magia de tua dança resvaladiça, e me leve aos teus recantos na gula da garganta, para que eu possa corrompê-la com minhas carícias apaixonadas no nosso covil. Vem bailarina tentadora e côncava com seus glúteos salientes no saracoteado enfeitiçador, que a minha clava é a serpente que se enrosca ao teu tornozelo flutuante para usufruir de tuas prendas e matá-la de gozos. Vem requerente e convexa na dança extravagante desnuda a se achegar rendida, ombros inclinados, pele eriçada e toda suspirosa carne ardente e contagiante, exibida esvoaçante entre meus braços abertos, para que minhas mãos possam na roda-viva dos seus passos, delinear as curvas de tua cintura e quadris a me desvendar o segredo do universo. Vem me ensinar o espírito livre de tua natureza selvagem, que eu vou com firmeza de predador invadir tuas florestas e cavernas, destemido e às arremetidas para conquistar tua vulva contraída, aos arrancos na indomável na ginga do teu corpo que não rechaça minhas investidas ao teu submundo. Vem aos regalos me entreter se esfolando no meu tronco com tuas coxas trêmulas a deslizar macia tua fruta madurinha, cheia, úmida, puta esguia tantalizada no meu sexo vigoroso, para que te salve evanescida do Hades com orgasmos exaltados, noiva nua, toda minha. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA - Ninguém pode compreender o que é misterioso. Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências. As nossas moradas são provisórias, exceto a última: a terra. Beba muito vinho, amiga. Basta de palavras supérfluas. Pensamento do poeta, matemático e astrônomo persa Omar Khayyam (1048-1131). Veja mais aqui.

ORFEU & EURÍDICE – Na mitologia grega, o poeta e cantor Orfeu, filho da musa Calíope e de Apolo, rei da Trácia, era argonauta muito talentoso ao tocar sua lira: os pássaros paravam de voar, os rios mudavam seu curso, os animais selvagens perdiam o medo e as árvores se curvavam para ouvir os sons aos ventos. Ele apaixonou-se pela bela ninfa Eurídice. Depois do casamento, ela foi vítima de assédios do apicultor Aristeu, ao recusá-lo, ela foi perseguida e, ao tentar escapar, tropeçou em uma serpente que a mordeu e a matou. Orfeu ficou transtornado de tristeza e, armado com sua lira a cantar e tocar, foi até o mundo inferior, o Hades, para tentar trazê-la de volta. A sua canção pungente e emocionada convenceu Caronte, o barqueiro do rio Estige. Em seguida, a canção da lira adormeceu Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões. Sua música aliviou os tormentos dos condenados e encantou os muitos monstros que surgiram na sua jornada. Ao chegar ao trono de Hades, o rei dos mortos ficou irritado ao ver que um vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua esposa, a deusa Persféfone, implorou-lhe que atendesse o pedido de Orfeu, e o atendeu. Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos, mas com uma única condição: que ele não olhasse para ela até que ela, outra vez, estivesse à luz do sol. Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele então quase no final do tenebroso túnel olhou para se certificar de que Eurídice o acompanhava e não a viu. Hades e Perséfone os seguiram e como ficou estabelecido que ele não poderia olhar para Eurídice até chegar ao fim do túnel, Hades a tomou novamente. Por um momento ele a viu, perto da saída do túnel escuro, perto da vida outra vez. Mas enquanto ele olhava, ela se tornou de novo um fino fantasma, seu grito final de amor e pena não mais do que um suspiro na brisa que saía do mundo dos mortos. Ele a havia perdido para sempre. Em desespero total, Orfeu se tornou amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo lembrar-se da perda de sua amada. Esse mito deu origem ao orfismo, uma espécie de serviço de aconselhamento; ele ajudava muito os outros com seus conselhos, mas não conseguia resolver seus próprios problemas, até que um dia, furiosas por terem sido desprezadas, um grupo de mulheres selvagens chamadas mênades, caíram sobre ele, frenéticas, atirando dardos. Os dardos de nada valiam contra a música do lirista, mas elas, abafando sua música com gritos, conseguiram atingi-lo e o mataram. Depois despedaçaram seu corpo e jogaram sua cabeça cortada no rio Hebro, e ela flutuou, ainda cantando, "Eurídice, Eurídice!". Com o choro dele, as nove musas reuniram seus pedaços e os enterraram no monte Olimpo. Quanto às mênades, que tão cruelmente mataram Orfeu, os deuses não lhes concederam a misericórdia da morte. Quando elas bateram os pés na terra, em triunfo, sentiram seus dedos se espicharem e entrarem no solo. Quanto mais tentavam tirá-los, mais profundamente eles se enraizavam. Suas pernas se tornaram madeira pesada, e também seus corpos, até que elas se transformaram em carvalhos silenciosos. E assim permaneceram pelos anos, batidas pelos ventos furiosos que antes se emocionavam ao som da lira de Orfeu, até que por fim seus troncos mortos e vazios caíram. Recolhida da obra Uma história natural do amor (Bertrand Brasil, 1997), da escritora e naturalista estadunidense Diane Ackerman. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.


DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM DA LÍNGUA PORTUGUESA- O presente artigo aborda a questão da dificuldade de aprendizagem da Língua Portuguesa, por ser esta dificuldade um dos problemas que mais incidem nas instituições educacionais. A dificuldade de aprendizagem é um tema que tem apresentado preocupações constantes por incorporar no sistema de ensino e a todos os níveis, novos métodos, com objetivo de desenvolver o próprio sistema.
A APRENDIZAGEM DA LÍNGUA PORTUGUESA: Partindo do entendimento de que a aprendizagem, nas expressões de Nunes et al (2000), Fonseca (1999), Sena e Gomes (2002), Cezar et al (2010), Guerra (1998), Castilho (1998), é um processo pelo qual objetiva a prática pedagógica na produção do conhecimento, participando, portanto, da formação do indivíduo e sua relação com a interpretação e discernimento na vida. O processo de aprendizagem, conforme Calsa (2002), passa pela reorganização do conhecimento anterior do sujeito por meio do estabelecimento de novas relações e inferências desse saber com os objetos de conhecimento que estão em processo assimilação e acomodação. Assim sendo, a aprendizagem, segundo Lores (2010, p. 6), “[...] é um processo de aquisição e assimilação mais ou menos consciente, de novos padrões e novas formas de perceber, ser, pensar e agir”. Já para Freitas (2010, p. 1), a aprendizagem: “[...] é a construção do conhecimento, são processos naturais e espontâneos na nossa espécie”. Há que se entender que, conforme Pozo (1998, p. 32), “[…] embora novas aprendizagens impliquem a reorganização de esquemas conceituais prévios, esses esquemas nem sempre facilitam novas apropriações, pois têm como uma de suas características mais importantes a resistência à mudança”. É nesse aspecto que surgem alguns problemas de aprendizagem que são detectados no processo de ensino. Estes problemas, para Carvalho (2010), são considerados patológicos sob óticas que determinam quatro fatores para os problemas da aprendizagem: os orgânicos, os psicógenos, os específicos e os ambientais. Ou seja, os fatores orgânicos, são aqueles que tratam o indivíduo como um todo e não partes que trabalham isoladas, com integração entre anatomia, bom funcionamento de todos os órgãos, bem como do sistema nervoso central. Os fatores psicógenos são aqueles que são subsidiados pela teoria psicanalítica, que levam em consideração as disposições ambientais e orgânicas do sujeito. Já os fatores específicos, são aqueles que são identificados como desordens específicas ligadas a determinadas áreas também específicas, as quais perpassam questões cognitivas e motoras. Por fim, os fatores ambientais são aqueles que levam em consideração as questões de moradia, bairro, escola e oportunidades de lazer, sendo, pois, mais gerador de problemas escolares como a evasão. Já para Santos et al (2010) e Santos e Marturano (2010), os problemas de aprendizagem não se encontram restritos às causas físicas, psicológicas e sociais. São entendidos como fracassos articulados com fatores de ordem diversa, como de natureza orgânica, cognitiva, afetiva, pedagógica e social, e que são percebidos dentro das interações sociais. É exatamente esta a base do conceito de dificuldades de aprendizagem abrangendo e incluindo problemas decorrentes tanto das características individuais, como das influências ambientais e do sistema educacional. Em vista disso, entende-se que a dificuldade de aprendizagem é vista como a condição que o indivíduo passa pelo desequilíbrio cognitivo a partir do enfrentamento de situações-problemas que são apresentados pela escola. Há também a observação de que a dificuldade de aprendizagem (DA), segundo Nascimento et al (2010), seja uma genérica designação para heterogêneas dedordens identificadas como disfunções do sistema nervoso central, manifestadas na aquisição ou utilização dos recursos auditivos, da fala, da escrita, da leitura e do raciocínio matemático. Assim, a incidência dessas dificuldades de aprendizagem varia de acordo com determinados parâmetros e definição nem sempre concordantes. Essas dificuldades podem ser identificadas a partir de dificuldades emocionais que envolvem desde problemas de integração de natureza auditiva e visual, desinteresse, despedagogia, negativismo, avaliações sub-valorativas, hiperatividade, reforços negativos, programas inadequados, atitudes negligentes, entre outras causas tidas como multinacionais. Encontra-se na literatura que são diversas as causas dessa dificuldade, observando-se que estas são oriundas de explorações psicodinâmicas nas funções cerebrais, bem como causas encontradas nas circunstancias socioeconômicas, de fatores sanitários, complexas privações socioculturais, múltiplos índices, hábitos alimentares e culturais, inclusive, assinalando-se ser a DA o resultado de muitos conflitos e tragédias familiares.Nessas causas, Polity (2010) inclui problemas oriundos de fatores orgânicos, como saúde física deficiente, falta de integridade neurológica, alimentação inadequada; fatores psicológicos, como inibição, ansiedade, angústia; e fatores ambientais, tais como ambientais: educação familiar, grau de estimulação, influência dos meios. Alem disso, elenca os problemas de aprendizagens condicionadas pela situação familiar e pela educação. As primeiras ocorrem pelos distúrbios de aprendizagem condicionados por características da personalidade. As segundas são pelo desempenho escolar e são representadas pelas dificuldades de indivíduos com inteligência normal ou acima da média, apresentadas em reter ou expressar informações recebidas. São divididas em verbais e não-verbais. As verbais são relacionadas às dificuldades para adquirir processos simbólicos de leitura, escrita e matemática, além das dificuldades de aprendizagem escrita, disgrafia e disortografia e a discalculia (matemática). Já as não-verbais são aquelas que apresentam para o autoperceber-se, perceber seu mundo e relacionar-se com outras pessoas, embora tenham inteligência normal ou superior à média e não apresentam nenhum transtorno emocional. Já Lores (2010) amplia esse universo de causas da DA, como a privação psicossocial e a expansão da democratização do ensino que não signifique democratização sociocultural, identificando na etiologia da DA, dois níveis: o endógeno e o exógeno. Nos aspectos endógenos estão os fatores hereditários e a sua influência em termos de desenvolvimento. Já nos níveis exógenos estão as influências das oportunidades e das experiências multi-sensoriais, para além das necessidades de segurança, afeto, interação lúdica e lingüística, responsabilidade e independência pessoal. Fica definido que a etiologia das DA carece de uma observação com tratamento baseado nos fatores patogênicos do envolvimento, requerendo, com isso, partir de um estudo interdisciplinar para a execução de um estudo interdisciplinar integrado. Em razão disso, evidencia-se que só é possível identificar as dificuldades de aprendizagem, quando no contexto não interferirem os fatores socioeconômicos, uma vez que são os fatores de disfunção psico-neurológica do processamento de informação que incidem sobre o problema. Mediante isso, chama-se atenção para a distinção entre dificuldades de aprendizagem que surgem oriundas das razões de desvantagens culturais, do envolvimento socioeconômico e da inadequada aprendizagem, bem como daqueles que são identificados pela deficiência diagnosticada cientificamente ou por inadequada integração pedagógica. Razão esta, pela qual, assinala Lores (2010), passar o problema da DA pela má nutrição, pela privação de estímulos e informação, desencorajamento e desconfiança de reforço, subcultura, hierarquização e diferenciação no critério de homogeneidade cultural incompatível com o social, entre outros. Pelo exposto, entende que a DA tem se tornado amplamente encontrada entre os estudantes e em qualquer indivíduo de nível econômico diverso, e que se sinta ameaçado, confuso ou inseguro diante das exigências escolares. Isso porque, segundo o autor mencionado, é no ambiente escolar que se revelam os problemas emocionais secundários, oriundos de acumulações de ansiedades, depressões, frustrações, agressores e de insucesso dentro de uma cadeia de inadaptações que ocorrem naquele meio. Entretanto, é preciso sempre buscar as causas dos problemas de aprendizagens, tratando-a por meio de uma intervenção especializada e num combate constante e contínuo pela área de atuação da Psicopedagogia. No que concerne ao ensino de Língua Portuguesa, Cezar et al (2010) assinala que resultados publicados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC), têm evidenciando a apresentação de resultados insatisfatórios, sinalizando a indicação de que o desempenho dos estudantes nessa disciplina vem se agravando a cada pesquisa. Além do mais, o fato se agrava pela dicotomia existente pelo formato oral e a língua escrita nas aprendizagens, bem como pela ineficácia das metodologias de ensino dessa disciplina, notadamente no campo de referência entre a língua falada e as regras gramaticais. No entendimento de Travaglia (1996), o problema para se compreender e assimilar os conteúdos ministrados em Língua Portuguesa, se deve ao fato da não cessão por parte do professor do espaço importante da atividade de reflexão do estudante, enfatizando uma abordagem metodológica baseada na predominância da abordagem tradicional da regra pela regra. Esta é uma metodologia reducionista e empobrecida que pela repetição fragmentada e ausência da compreensão adequada dos conceitos, funções e relações existentes, dificulta a aprendizagem no ensino da língua. Também Macedo e Pinto (2010) adotam o posicionamento de que: Um dos grandes obstáculos ao processo de aprendizagem é o encaminhamento metodológico usado pelo professor. As complexas relações entre som/grafia, na retenção, na integralização dessas experiências, na compreensão e na interpretação da leitura e da escrita precisam ser bem asseguradas, pois, para que o domínio da linguagem pela criança aconteça, o professor precisa intervir no momento certo, fazendo o aluno elaborar suas hipóteses para que mais tarde possa reelaborar sozinho suas hipóteses. É o que entende Dorziat e Figueiredo (2010) na distinção entre linguagem como expressão do pensamento, como instrumento de comunicação e como forma de interação. No primeiro caso, distinguem como expressão do pensamento se faz necessário o estudo da gramática normativa tradicional, a partir do estudo da morfologia e sintaxe. No segundo caso, observam que como instrumento de comunicação, ou seja, o código, a gramática fica formada de regras a serem memorizadas e seguidas, no sentido de relação entre a língua padrão e a praticada pela fala das classes sociais. No terceiro caso, entendem que a gramática é vista como um feixe de variações e recursos lingüísticos que deve ser usado em função do texto (oral e escrito) que se produz e de seu contexto. Com isso, entendem os autores que esse resultado mostra como a língua portuguesa foi veiculada na grande maioria das escolas: de uma maneira muito desvinculada das reais necessidades da língua e que profissionais estão nas escolas, reproduzindo um ensino também inadequado. O tema atinente à dificuldade de aprendizagem na língua portuguesa, segundo Lores (2010, p. 28) constitui um problema de atualidade mundial. E assinala que: “No respeitante à área em que os alunos têm as dificuldades e estabelecida a relação com a língua materna soube-se que, na leitura e na gramática, as dificuldades são maiores nos alunos de língua materna portuguesa”, detectando as maiores dificuldades nos casos de escrita, leitura e interpretação. Como remédio, a prática do exercício de leitura tem sido eficiente para a superação, seguindo-se um vigilante acompanhamento pedagógico. No entanto, a prática ortográfica tem sido abandonada, quando esta se revela importante e decisiva no tratamento da DA em língua portuguesa. Já entre as dificuldades elencadas por Dorziat e Figueiredo (2010) estão a produção de textos, a ortografia, as regras gramaticais e a interpretação de textos. Tem-se encontrado, ainda, que as DA em língua portuguesa estão elencadas a partir da condição do estudante, carga horária, falta de motivação, da falta de material didático, responsabilidades familiares, relacionamento entre professores e alunos, todas afetando a leitura, a escrita, a gramática e a interpretação. Há observações como a de Olimpio (2010) e Guimarães (2010) que identificam as dificuldades de leitura, escrita e ortografia só serão superadas quando os professores, notadamente os de Língua Portuguesa, se dedicarem ao aprendizado ideal e verdadeiro do aluno, uma vez que a língua exerce um papel de suma importância do desenvolvimento desses alunos, exigindo por isso, o desenvolvimento de um método sólido e eficaz no seu ensino. E mais porque, segundo Silva (2002), a construção de um processo ensino-aprendizagem da língua materna passa necessariamente pela interação do aluno com o professor, com seu meio e com o mundo. Isso em consonância com Olimpio (2010) que se posiciona pela necessudade de condução do trabalho de leitura por meio da interação de diversos métodos, a exemplo das reflexões, compreensões e interpretações promotores de encontros literários, roda de leitura, jogos de adivinhações literárias, paráfrases, entre outras formas que incluam o lúdico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Ao se observar o problema da aprendizagem em Língua Portuguesa, constatou-se que este problema é flagrado como no contexto de uma situação real que perpassa todas as instituições escolares, carecendo de aprofundamento reflexivo dos profissionais de educação para a matéria. Isso porque essa dificuldade de aprendizagem tem propiciado o insucesso escolar que pode ser oriunda de uma série de fatores, desde problemas disléxicos ou de outras naturezas socioafetiva, orgânica ou psicológica, como também da má preparação do professor ao ministrar os conteúdos. Isso porque o desenvolvimento do estudante depende também das condutas e ações dos adultos e professores. No caso específico da dificuldade de aprendizagem da Língua Portuguesa, recomenda-se, com base na literatura estudada, que no ensino da disciplina não se priorize as questões de errado ou certo, visando, ao contrário disso, estimular a reflexão e a análise sobre a língua. Ao professor de Língua Portuguesa é sugerido que faça uma seleção criteriosa dos conteúdos gramaticais adequados e relevantes, direcionados aos interesses, compreensão e faixa etária dos estudantes, posicionando-se de forma atenta e vigilante para o funcionamento psicológico dos discentes e seu desenvolvimento intelectual. Além do mais, na sua prática diária o professor precisa interagir e conhecer os estudantes, promovendo um acompanhamento individual para ajudar, estimular e compreender o que se passa no resultado da sua prática. Para tanto, se faz necessário estar robustecido de sensibilidade que seja capaz de detectar as mudanças que ocorrem na sala de aula. Nessa condução, é de fundamental importância a interação, especialmente pela condução do professor em fomentar e proporcionar ao discente a promoção da construção do discurso próprio, por meio do destaque de suas próprias experiências vivenciadas culturalmente, na amplitude dialógica que seja capaz de refletir a dinâmica intra-interdiscusiva. Como prática eficiente para reverter esse quadro, há a necessidade de mudança na produção dos conhecimentos articulando-se com a vida cotidiana, propiciando uma identidade entre a realidade do estudante e o conteúdo ministrado na sala de aula. Neste sentido, essa identificação com a realidade dada proporciona o entendimento do aprendizado, evitando-se o aprendizado factual ou mnemônico que possibilita, tão somente, a fixação dos conteúdos para atividades direcionadas. Essa atitude pode facilitar a aprendizagem, dirimindo e propiciando uma identificação com os conhecimentos prévios adquiridos com o indivíduo e a nova propositura efetuada pelo processo de informação. Tal condução leva ao entendimento da necessidade de processos dialéticos na prática pedagógica da Língua Portuguesa, possibilitando uma interação que resulte num desempenho satisfatório pautado na experiência multi-sensorial capaz de desenvolver associações e integridades auditivo-verbais e viso-motoras. É preciso que a escola tome uma atitude preventiva com relação a DA, aparelhando-se de uma orientação psicológica, educacional e pedagógica, detectando o discente com dificuldade de aprendizagem. Também, à escola exige-se a constante orientação aos professores com relação à elaboração de métodos aplicados e a adequação do programa na prática diária, ofertando condições aos profissionais da educação a busca pela compreensão nas situações particulares de aprendizagem e na construção da inteligência. Mais ainda, a escola deve promover o desenvolvimento global de todos os discentes e a integração dos destes no desenvolvimento formativo, incluindo professores e pais na ação preventiva das dificuldades de aprendizagem. É evidente que a escola sozinha não será jamais capaz de superar todos os problemas de aprendizagem, carecendo da intervenção familiar que possui um papel imprescindível no processo formador do indivíduo em todos os níveis.
REFERÊNCIAS
CALSA, G. C. Intervenção psicopedagógica e problemas aritméticos no ensino fundamental. Campinas: Unicamp, 2002.
CARVALHO, Maria. O educador diante da complexidade do processo de ensino aprendizagem. Psicopedagogia, 2008.
CASTILHO, A. T. A língua falada e o ensino de português. São Paulo: Contexto, 1998.
CEZAR, Kelly; FRANÇA, Fabiane; CALSA, Geiva; ROMUALDO, Edson. Alunos com dificuldade de aprendizagem em escrita: um olhar psicopedagógico. Profala, 2008.
DORZIAT, Ana; FIGUEIREDO, Maria Julia. Problematizando o ensino de língua portuguesa na educação de surdos. Ines, 2005.
FONSECA, Victor. Uma introdução às dificuldades de aprendizagem. Lisboa: Editorial Notícias, 1999.
FREITAS, Aparecida. Princípios psicopedagógicos na educação transversal do trânsito: aspectos introdutórios. Psicopedagia, 2008.
GUERRA, Leila Boni. A criança com dificuldades de aprendizagem. São Paulo, 1998.
GUIMARÃES, Ernandes. As dificuldades do ensino da língua portuguesa no Ensino Fundamental da Escola Estadual Coronel Filomeno Ribeiro de Montes Claros – MG, 2008.
LORES, Manuel Frómeta. Dificuldade de aprendizagem em língua portuguesa. 2008.
MACEDO, Adriana; PINTO, Maria das Graças. Problemas de aprendizagem: um olhar psicopedagógico. Revista do Centro de Educação, 2003.
NASCIMENTO, Cláudia; NASCIMENTO, Cléa; SANTOS, Sheila; MORISSO, Matias. As etiologias biológicas dos problemas de aprendizagem: implicações no diagnóstico psicopedagógico. Profala, 2008.
NUNES, Terezinha; BUARQUE, Lair; BRYANT, Peter. Dificuldades na aprendizagem de leitura: teoria e prática. São Paulo, 2000.
OLIMPIO, Luciana. Como diminuir as dificuldades de aprendizagem e em sala de aula. Abec, 2008.
POLITY, Elizabeth. Dificuldade de aprendizagem e família: construindo novas narrativas. Pedago Brasil, 2008.
POZO, J.I. A aprendizagem e o ensino de fatos e conceitos. In: COLL, C. Os conteúdos na reforma: ensino e aprendizagem de conceitos, procedimentos e atitudes. São Paulo: Saraiva, 1998.
SANTOS, Luciana; MARTURANO, Edna. Crianças com dificuldade de aprendizagem: um estudo de seguimento. Portal Educação, 2008.
SANTOS, Carla; SILVA, Maria das Graças; VIRGENS, Maria Lucia; FERNANDES, Nice; SILVA, Valderice; OLIVEIRA, Vera Lucia. Dificuldades de aprendizagem em leitura e escrita nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Paidéi@, 2008.
SENA, Maria G. C.; GOMES, Maria F. C. Dificuldades de aprendizagem: na educação. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2002.
SILVA, Cristiane. O ensino de língua portuguesa em debate: problemas e perspectivas. Artigonal, 2008.
SILVA, Maria Cristina. Saberes e dizeres diferentes de crianças que "fracassam" na escola. In: SENA, Maria G. C.; GOMES, Maria F. C. Dificuldades de aprendizagem: na educação. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2002.p.55-67
TRAVAGLIA, L. C. Gramática e Interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º. e 2º. Graus. São Paulo: Cortez, 1996. Veja mais aqui, aqui e aqui.


Curtindo o DVD com a ópera Orpheus und Eurídike (BelAir, 2009), do compositor alemão Cristoph Willibald Gluck (1714-1787), com coreografia da memorável coreógrafa, dançarina, pedagoga e diretora de balé alemã Pina Bausch (1940-2009) & Ballet de l’Opéra National de Paris. Veja mais aqui.

OS DELICIOSOS VERSOS SENSUAIS DE LÍRIA PORTO

PARELHA

aberta a janela
penetra-se nas trevas
estrelas se fazem
e nus nesse oásis
quedamo-nos

entre as frestas
o caldo da entrega
sal do amor

a morte
hora incerta
deu-nos a deus
corpos inocentes

roupas largadas
montanhas
pegadas
suor

LA BELLA DONNA

seus olhos são noites
seu cheiro manhãs
são tardes seu colo
seu sexo agoras
seus seios auroras
o tempo advoga
a seu favor

O SEMINARISTA

afunda no decote
margeia os mamilos
escorre pelas bordas
desvia pros quadris
desce até as coxas
retorna ao umbigo
enquanto a prima dorme
cheirosa igual canela
biquini cor-de-rosa
virgem por triz

(IN)DE.CISÃO

todos os dias
ao amanhecer
jogo-te ao vento
tomo a decisão
de te esquecer

depois eu me lembro
do teu riso do teu beijo
sinto um arrepio
e me arremesso

ARRASTÃO

teus olhos são rede
o mar é amor
eu - peixe

ÂNGELA

a moça de alma albina
quer ser puta não consegue
fica nua vai pra esquina
quando um homem se aproxima
lua não tem sexo

FLUIDOS

tornei-me assim liquefeita
quando daquela feita
despi-me de nãos e sins

de mim então me perdi
nesta vontade inconclusa
acumulada no rim

ficou a mágoa comigo
fincada dentro do umbigo
um imenso chafariz

minha tristeza de chuva
essa amargura profusa
tem olhos túmidos

sou tal e qual um dilúvio
derramo transbordo enxurro
sangro os pulsos

CÓCEGAS

tuas águas me embalançam
como o mar e o navio

rio

DELTA

entre os joelhos e a virilha
uma ilha de renda a esconder a gruta
de mato dentro

TESÃO

cheiro de arroz cor de leite
salpicado com canela
gosto de cravo pau de canela
um doce manjar dos deuses
para todos os prazeres
para dar água na boca
sentir vontade e voltar

arroz doce com canela
nesta vida passageira
esperarei por cem anos
mais que isso se preciso
retornarás bem cremoso
cheiro de arroz cor de leite
gosto de cravo pau de canela

AL DENTE

saia curtinha
blusinha verde
e o vegetariano
não desgruda os olhos
da sua carne tenra

OBLÍQUA

quando a cama fica imensa
atravesso-a de ponta a ponta
desassossegos pelo meio
insônias no viés

DESMILAGRE

eu te abismo
tu me abismas
e em queda livre
precipitamo-nos

o fundo
era previsível
a superfície
nem santo

DI_AMANTE

eu te quero sol de todo dia
e só vens na lua cheia

a bola de neve do meu medo
(não sou a amada sou o pouso o oásis)
te traz na primavera do ano bissexto

assusta-me à distância
o cometa halley

SEM PÉS NEM CABEÇA

ali
no ponto gê
a tomada elétrica
deixa guiomar
de pernas pro ar

MAGO

alguém que me queira como sou
que me pegue e me esfregue
até que eu veja o gênio
da lâmpada

DE TODAS AS FÓRMULAS

fazes-me falta

em todas as fases
faltas-me

LADAINHA

faço verso rastejante
igual cobra no papel

faço verso flutuante
passarinho lá no céu

faço verso comprimido
fechado dentro do frasco

faço verso assim ridículo
acostumado ao fiasco

faço verso bem florido
nascido em pleno setembro

faço verso esquecido
o jeito dele nem lembro

faço verso galopante
como visita de amante

faço verso des'tamanho
coração de minha mãe

faço verso
faço verso

faço verso

CUNHÃ

parece uma flor de palha
a moça que me atrapalha
sem cheiro e sem encantos
no entanto igual arraia
enreda em sua saia
o dono dos meus quebrantos

O CABAÇO

penso aqui com os borbotões
estou cheia de senões
se fossem abotoados
os pingolins dos meninos
ia ser um desatino
desarrolhar os coitados
acho mesmo houve engano
nas meninas muito pano
os rapazes sem cortina
triste é a nossa sina
um selo de validade
desde a mais tenra idade

LÍDER

peito para frente
bunda para trás
e o batalhão atrás

CONQUISTA

a pele da piscina
arrepia-se
com as tuas braçadas

DIABA

nem mais bonita rica ou inteligente
queria tão somente ser o seu tipo
a mulher que ele escolhesse sem titubeio
sem avaliar os prós os contras
a que tivesse a medida
o exato tanto
entre puta e santa

LIRIA PORTO – A poeta e professora mineira Liria Porto tem vários de seus excelentes poemas publicados em diversas páginas, revistas, sites e portais da web. Veja mais aqui.



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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

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