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sexta-feira, julho 27, 2018

JAMES JOYCE, PINA BAUSCH, ELIOT, BAUDRILLARD, JOAN BAEZ, CASSIRER & GENÉSIO CAVALCANTI


A SOLIDÃO DO PORTO E DAS VIDAS DE NINGUÉM – Já diz o ditado: o que é do homem, o bicho não come! Como o acaso não existe, por isso mesmo, outro: o que tiver de ser, será. E foi. Pois bem, este livro possui duas histórias! A primeira, a da feitura do próprio livro: seus escritos desceram nas águas da enchente para nunca mais, pelo menos era o que se pensava. Não fosse a presteza vigilante da guardiã-prima Fátima, às vassouradas quando as águas baixaram, ao se deparar com um calhamaço emporcalhado, tomando pra si de colocá-lo para secar ao sol, guardando-o depois como quem se esquece por dias, meses e anos. Fosse outra, restaria apenas lata de lixo, com certeza. Aí, um dia lá, de supetão, ela se lembra e recolhe o volume para entregá-lo ao autor: era o livro perdido, agora devidamente recuperado. Graças! A segunda, a comovente história de Florisberto, Domitila e seus três filhos: Rubiana, Juninho e Aninha – a Cabelo de Fogo -, moradores do Porto Solidão, suas vidas, degredo e derrocada: o retrato pungente daqueles que enfrentam a tragédia com ternura no coração, mesmo que deserdados do mundo pelo colapso da monocultura canavieira, com as transformações nefastas que arruinaram reputações e a vida brasileira: um país agrícola que só serve ao latifúndio e aos interesses escusos. Tolhidos pelo desânimo e angústia da decadência, eles viveram como quem tem onde cair morto e não podem nem isso, pois, estão insepultos, e teimam em plantar cana para vender à usina que faliu e não têm mais o que fazer: a terra, como sempre, maravilhosa e inútil; a vida, uma carestia. Valiam-se apenas dos amigos vizinhos e solidários, o Alcides e Maricota, Jamelão e Arlinda, enquanto heróis da miséria no desafio da sociedade, só a paz da alma, nenhuma razão de gente esquecida que não levam pedras às mãos e, apesar de juntos, uns aos outros, família reunida, sempre estavam todos sós, à deriva, pelo torvelinho das ilusões com revoltas por minguados resultados, por dúvidas existenciais marcantes e a austera solidão - o que se tinha em comum: a solidão apenas, nada mais. Trata-se de uma história de amor e ternura de uma família resignada na nobreza do sofrimento, das virtudes realçadas no emudecido grito de socorro desesperado diante da pungente realidade: a vida em plenitude no meio de uma dramática situação que envolveu seres perdidos em algum rincão da região canavieira. O autor com estilo simples, enxuto e despido de ornamentos, não menos expressivo, ativo e vibrante, faz uma síntese do seu tempo na argamassa ficcional, penetrando a moldura dos personagens e a complexidade social com o calor da sensibilidade, o sangue da invenção na articulação de episódios e fatos, a urdidura da história contada: a condição humana na trama da vida. Esta é uma narrativa que eu gostaria de ter escrito, confesso. O resto é o que está por vir nas páginas, saibam e verão, de antemão: uma história e tanto. E o melhor de tudo: chega dá vontade de ler e reler. Em verdade, posso asseverar categoricamente: nada melhor que lê-lo e tirem a prova dos nove. Boa viagem. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora e compositora estadunidense Joan Baez: Live in New York, Live in Paris, Live Woodstock & Festival des Vieilles Charrues & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Podem desempenhar as tarefas da vida quotidiana; alguns deles até desenvolvem uma considerável habilidade em todos os testes desse tipo. Mas ficam completamente perdidos quando a solução do problema exige alguma atividade teórica ou reflexiva específica. Não são capazes de pensar em conceitos ou categorias gerais. Tendo perdido o domínio dos universais, apegam-se aos fatos imediatos, às situações concretas. Tais pacientes são capazes de desempenhar qualquer tarefa que só possa ser executada por meio de uma compreensão do abstrato. Tudo isso é altamente significativo, pois mostra a que ponto o tipo de pensamento que Herder chamou de reflexivo é dependente do pensamento simbólico. Sem o simbolismo, a vida do homem seria como a dos prisioneiros na caverna do famoso símile de Platão. A vida do homem ficaria confinada aos limites de suas necessidades biológicas e seus interesses práticos; não teria acesso ao “mundo ideal” que lhe é aberto em diferentes aspectos pela religião, pela arte, pela filosofia e pela ciência. Trecho de Das reações animais às respostas humanas, extraído da obra Ensaio sobre o homem: uma introdução a uma filosofia da cultura humana (Martins Fontes, 1994), do filósofo alemão Ernst Cassirer (1874-1945). Veja mais aqui e aqui.

SEGREDO POLÍTICO - [...] o segredo do político: esta duplicidade estrutural no funcionamento das sociedades, que é bem diferente da duplicidade, psicológica, dos homens do poder. Duplicidade que, profundamente, faz do processo social um jogo em que a sociedade em boa parte frustra sua própria socialidade, e sobrevive graças a essa flexibilidade das aparências, graças a esse desinteresse e a essa estratégia imoral (coletiva sem, dúvida alguma, mas não-visível, não-concertada, e desconcertante por si mesma) com relação a seus próprios valores. [...] O problema é então reconciliar a sociedade com seu próprio projeto e “socializar” o que só pede para sê-lo. Aniquilar toda duplicidade, toda estratégia das aparências no nível dos valores - maximalização da relação social, densidade da responsabilidade coletiva (e certamente também do controle), visibilidade das estruturas e do funcionamento, apoteose da moral pública e da cultura. [...] Porque nenhum grupo jamais funcionou assim - mas sobretudo: que grupo não sonhou com isso? Felizmente é verossímil que algum projeto social digno desse nome jamais existiu, que nenhum grupo na verdade jamais se concebeu idealmente como social, em suma, jamais houve “a sombra” (salvo nas cabeças intelectuais) nem o embrião de um sujeito coletivo com responsabilidade limitada, nem a possibilidade mesma de um objetivo dessa ordem. As sociedades que devotam suas energias para isso, que se lançam nesse sonho moral de socialização, estão perdidas de antemão. Este é o contrassenso fundamental. Felizmente elas sempre fracassarão, escaparão a si mesmas, o social não se estabelecerá. Trecho da obra À sombra das maiorias silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas (Brasiliense, 1985), do sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007). Veja mais aqui.

MONÓLOGO DE MOLLY BLOOM - [...] eu adoro flor eu ia adorar entupir a casa de rosa Deus do céu não tem nada igual à natureza as montanhas virgens e aí o mar e as ondas quebrando e aí o interior lindo com os campos de aveia e de trigo e tudo quanto é coisa e aquele gado bonito tudo andando de um lado pro outro isso faz um bem pra alma ver rio lago e flor tudo quanto é tipo de forma cheiro e cor saltando até das valas prímula e violeta é a natureza e por mais que eles digam que Deus não existe eu não dou dez merréis de mel coado por toda essa sabedoria deles por que que eles não me vão lá e criam alguma coisa eu sempre perguntava pra ele os ateus ou sei lá que nome que eles se dão vão lá tirar as cracas primeiro depois saem berrando atrás do padre e eles lé morrendo e por quê ora porque eles ficam com medo do inferno por causa da má consciência deles pois sim eu conheço bem os tipos quem foi a primeira pessoa no universo antes de existir alguém que fez isso tudo que ah isso eles não sabem e nem eu está vendo é que nem eles tentarem fazer o sol não nascer amanhã o sol brilha por você ele disse no dia que a gente estava deitado no meio dos rododendros no morro Howth com o terno cinza de tuíde e o chapéu de palha no dia que eu fiz ele me pedir em casamento sim primeiro eu dei pra ele um pouquinho do pão de gergelim que estava na minha boca e era ano bissexto que nem agora dezesseis anos atrás meu Deus depois daquele beijo comprido eu quase perdi o fôlego sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim e a gente é flor mesmo nós todas o corpo de uma mulher sim taí uma verdade que ele disse na vida e o sol brilha por você hoje sim foi por isso que eu gostei dele porque eu vi que ele entendia ou sentia o que uma mulher é eu sabia que sempre ia poder passar a perna nele e eu dei todo o prazer que eu pude dando corda até ele pedir pra eu dizer sim e primeiro eu não respondia e fiquei olhando pra longe pro mar e o céu eu estava pensando em tanta coisa que ele não sabia o Mulvey e o senhor Stanhope e a Hester e o papai e o velho capitão Groves e os marinheiros brincando de lenço atrás e simão mandou e tirando água do joelho que nem eles diziam lá no píer e o sentinela na frente da casa do governador com aquele treco em volta do capacete branco pobre diabo quase torrado e as espanholas rindo com aqueles xales e os pentes altos e os leilões de manhã os gregos e os judeus e os árabes e sabe Deus mais quem de tudo quanto é canto da Europa e a rua Duke e a feira de aves tudo cacarejando na frente da Larby Sharon e os burrinhos coitados escorregando meio dormindo e aqueles vultos de capa dormindo na sombra na escada e as rodas grandes dos carros de boi e o castelo de milhares de anos sim e aqueles mouros bonitos tudo de branco e com uns turbantes que nem reis pedindo pra gente sentar na lojinha minúscula deles e Ronda com as janelas velhas das posadas uns olhos de relance uma gelosia escondida pro amante dela beijar o ferro e as lojas de vinho metade abertas de noite e as castanholas e a noite que a gente perdeu o barco em Algeciras o vigia de um lado pro outro tranquilo com o lampião e ah terrível torrente profunda ah e o mar o mar carmim às vezes que nem fogo e aqueles poentes deslumbrantes e as figueiras nos jardins de Alameda sim e aquelas ruelas esquisitinhas todas e as casas rosas e azuis e amarelas e os roseirais e os jasmins e gerânios e cactos e Gibraltar eu menina onde eu fui uma Flor da montanha sim quando eu pus a rosa no cabelo que nem as andaluzas faziam ou será que hei de usar uma vermelha sim e como ele me beijou no pé do muro mourisco e eu pensei ora tanto faz ele quanto outro e aí pedi com os olhos pra ele pedir de novo sim e aí ele me perguntou se eu sim diria sim minha flor da montanha e primeiro eu passei os braços em volta dele sim e puxei ele pra baixo pra perto de mim pra ele poder sentir os meus peitos só perfume sim e o coração dele batia que nem louco e sim eu disse sim eu quero Sim. Trecho do Monólogo de Molly Bloom, extraído da obra Ulisses (Civilização Brasileira, 1966), escritor irlandês James Joyce (1882-1941). Veja mais aqui e aqui.

RAPSÓDIA SOBRE UMA NOITE DE VENTO - Meia-noite. / Uma síntese lunar captura / Todas as fases da rua, / Sussurrantes sortilégios lunares / Dissolvem os planos da memória / E todas as suas límpidas tramas, / Divisões e precisos mecanismos. / Cada lampião que ultrapasso / Pulsa como um tambor fatídico, / E através das lacunas do escuro / A meia-noite golpeia a memória / Como um louco brande um gerânio morto. / Uma e meia, / O lampião cuspia, / O lampião resmungava, / O lampião dizia: “Olha aquela mulher / Ao teu encontro hesitante à luz da porta / Que a recorta como um riso escarninho. / Repara-lhe a barra do vestido / Rasgada e suja de areia, / E o canto de seu olho que se arqueia / Como um grampo retorcido.” / A memória expele e disseca / Um turbilhão de coisas tortas; / Um ramo tortuoso sobre a praia / Polidamente carcomido e cinzelado / Como se o mundo erguesse à superfície / O segredo de seu esqueleto, / Rígido e alvadio. / A mola espatifada no pátio de uma fábrica, / A ferrugem que se aferra à forma / Que a força deixou tensa e enrodilhada / E pronta a abocanhar com uma dentada. / Duas e meia, / O lampião dizia: / “Observa o gato que na calha se adelgaça, / Espicha a sua língua e saboreia / Um naco rançoso de manteiga.” / Tal a mão do menino, automática, / Surripiou e embolsou um brinquedo / Que ao longo do cais deslizava. / Eu nada podia ver atrás dos olhos do menino. / Tenho visto pela rua olhos que tentam / Emergir por entre iluminadas persianas, / E certa tarde um caranguejo vi na lama, / Um velho caranguejo em sua carcaça calcária / A agarrar-se à ponta do graveto que eu sustinha. / Três e meia, / O lampião cuspia, / O lampião no escuro resmungava, / O lampião zumbia: / “Olha a lua, / La lune ne garde aucune rancune. / Pisca um olho tímido, / Sorri pelas esquinas. / Alisa os cabelos de gramínea. / A lua perdeu a memória. / Bexigas descoradas ulceram-lhe a face. / Suas mãos retorcem uma rosa de papel / Que recende a pó e água-de-colônia. / Ela está só, em companhia / De todos os antigos eflúvios noturnos / Que lhe cruzam e entrecruzam o cérebro.” / Aflora a reminiscência / De secos gerânios pálidos / E de poeira nas frinchas, / Aroma de castanhas pela rua, / E odor de fêmea nas alcovas clandestinas, / E de cigarros pelos corredores / E de coquetéis nos bares. / O lampião disse: / “Quatro horas, / Eis o número sobre a porta. / Memória! / Tens a chave, / A luminária alastra um círculo na escada. / Sobe. / A cama é franca; a escova de dentes na parede pende, / Põe teus sapatos junto à porta, dorme, para a vida te talha. / O último talho da navalha. Poema extraído da obra Poesia (Nova Fronteira, 1981), do poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da memorável coreografa, dançarina, pedagoga e diretora de balé alemã Pina Bausch (1940-2009). Veja mais aqui & aqui.

Filarmônica de Alagoas & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte de Genésio Cavalcanti aqui, aqui, aqui e aqui.
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Nitolino no reino encantado de todas as coisas, a poesia de Ingeborg Bachmann, O sistema dos objetivos de Jean Baudrillard, a arte de Dorothy Iannone, a música de Carl Orff, Chloë Hanslip, Nelson Freire e Mitsuko Uchida aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


terça-feira, maio 24, 2016

SLOTERDIJK, ÁLVAREZ-FERNÁNDEZ, PINA BAUSCH, MARÍA BLANCHARD, JEAN COHEN & LEDO IVO

ENTRE TOPADAS E SONHOS – Confesso: o primeiro, não sei; o segyndo, não lembro; o terceiro, lascou. Do que fui pro que sou, entre sonhos e topadas, quase nada sobrou. Da infância: travessuras no quintal, mimos de vô e vó, o olho nas fechaduras, o segredo das saias, a beira do rio. Não fosse o chão, eu seria o super-heroi do pé de goiaba. Não fosse a tarde, não saberia dos bichos e sonsos que reinam na noite, o medo do coração aceso de Jesus na viga da sala, os castigos do bicho-papão, o acalanto do boi da cara preta que faz a gente dormir e sonhar. Não fosse o bigodinho ralo em cima dos beiços, eu não teria dado um pulo da catinga do mijo pro enxerimento com as meninas do ginasial. Foi quando tive as primeiras aperturas do coração: as damas da coreia, o escurinho do cinema, os gibis e o catecismo de Zéfiro, as primeiras lapadas de meiotas, tragos e goias nas bitucas de índio, cavalo de aço, boca de sino, paz e amor, cabeça de vento. Não fosse precoce, não pisaria tanto na bola, não olvidava de tudo, nem teria recaídas sentimentais, muito menos erraria tanto e demais. Não fosse a sorte de sempre, peito estufado de perna de pau, o rumo das ventas, correrias tontas, chamegos nos sarros diários, estudos com música, presepadas teatrais, olhos grudados nos livros e nos decotes, errancias além da conta, não fosse aprendendo às quedas, não saberia jogar xadrez, dar voltas no mundo, safar de cruzetas, levar tudo na prosa e na ponta dos dedos, a saber que a valia de agora é instante e já era, a corrida do dia entre chuva e Sol, sem saber das estrelas nas noites viradas, o nada pro triz, não dando fé das decepções nem vergonha na cara com tudo acontecendo embaixo do nariz. Não fossem alguns versos tirados em cima da bucha, não teria de noite a valia do dia, nem saber que vivia no mundo da lua, entre choros insones e dupla talagada, os passos corridos e broncas safadas, o tempo perdido com conversa fiada, os temores vencidos na pá virada, os sonhos preteridos na vida agitada, e o que era sentido, enfim, era nada. Não fosse um dia, já bem homem feito, quase passando do ponto, dormir bem menino e acordar madurado, desaprendendo depressa todo caminho trilhado, refazendo o que foi feito e tudo traçado, aprendendo direito e esquecendo o passado, dar de cara em parapeito e sinal fechado, corrigindo defeitos de ser malcriado, saber que tem jeito um futuro aprumado, pois sou um sujeito, quase pau torto, tudo endireitar ou por tudo a perder, ou ficar sempre de sobreaviso nas circunstancias, perdendo o bonde, a banda e tudo passar. Claro que não, em mim quem manda sou eu. Posso não estar certo, nem ser o dono da razão, nem quero, mas sei que posso recomeçar. Afinal, hoje quase já nem sei o que é sonho ou real. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Imagem: arte da pintora espanhola María Blanchard (1881-1932). Veja mais aqui.

Curtindo a vídeo-instalação Baccus, do compositor, cineasta e radialista espanhol Miguel Álvarez-Fernández, baseada na condutividade elétrica do vinho e apresentada no Festival Vinfonies (Vilafranca del Penedès, Barcelona, 2011), e o documentário em longa-metragem No escribiré arte con mayúscula, do compositor com Luis Deltell, em homenagem ao pioneiro da conceptual arte espanhola Isidoro Valcárcel Medina. O compositor ainda apresenta o programa semanal Ars Sonora, desde 1985 na Rádio Nacional de España, dedicado à arte sonora e música experimental.

PESQUISA
Estrutura da linguagem poética (Cultrix, 1978), do ensaísta francês Jean Cohen (1919-1994), efetuando uma análise acerca dos níveis fônicos e semânticos na estrutura dos procedimentos característicos da linguagem poética. Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
Poesia completa (1940- 2004, Tooopbooks, 2004), do premiadíssimo escritor e ensaísta alagoano Ledo Ivo (1924-2012). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
As culturas do ressentimento são possíveis, e prosperam como nunca, porque pelo encontro da frustração e tempo livre existe muita atenção concentrada em guardar rancor pelas humilhações; os cuidados sempre em vigília dos intelectuais produzem inquisições incessantes mudam contra as ofensas do êxito. Resta a dúvida de que essas formas de luxo redundam em proveito da cultura total, seja lá isso o que for. Desde o ponto de vista otimista, pode observar-se como o ressentimento estimula o metabolismo da agressão mediante fantasias de humilhação ricas em material maduro.
Extraído da obra Esferas (Siruela, 2003/2009), do filósofo alemão Peter Sloterdijk. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA 
Tanztheater Wuppertal (2001/2016), da memorável coreógrafa, dançarina, pedagoga e diretora de balé alemã Pina Bausch (1940-2009). Veja mais aqui.

Veja mais sobre Brincarte do Nitolino, Jan Christiaan Smuts, Joseph Brodsky, Bob Dylan, Gianfracesco Guarnieri, Leon Hirszman, Helena Ranaldi & Jacopo Pontormo aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

sexta-feira, abril 18, 2008

KHAYYAM, ORFEU & EURÍDICE, GLUCK, PINA BAUSCH, LÍNGUA PORTUGUESA, GERT WIEGELT & LÍRIA PORTO

 
Curtindo o álbum (2 CDs) da ópera Orfeo ed Euridice (Grammophon, 1998), do compositor alemão Cristoph Willibald Gluck (1714-1787), com a Münchner Bach-Orchester, regida por Karl Richter. Veja mais aqui e aqui.

DANÇA NUA NO MEU CORAÇÃO – Imagem: arte do fotógrafo alemão Gert Wiegelt. – Dança, Eurídice, dança ninfa nua e linda para se certificar do amor do filho de Calíope por tua formosa cupidez de serva do prazer. Vem líquida como o rio Hebrus onde nasci, porque sou mortal navegante desposado por teus encantos de mar. Vem inteira me hospedar como a Trácia porque quero me servir no teu banquete dionisíaco. Ah, me acode encantada Eurídice com a fome sensual de tua boca voraz felatriz, com o ósculo dos teus lábios acetinados no meu sexo argonauta retesado pela magia de tua dança resvaladiça, e me leve aos teus recantos na gula da garganta, para que eu possa corrompê-la com minhas carícias apaixonadas no nosso covil. Vem bailarina tentadora e côncava com seus glúteos salientes no saracoteado enfeitiçador, que a minha clava é a serpente que se enrosca ao teu tornozelo flutuante para usufruir de tuas prendas e matá-la de gozos. Vem requerente e convexa na dança extravagante desnuda a se achegar rendida, ombros inclinados, pele eriçada e toda suspirosa carne ardente e contagiante, exibida esvoaçante entre meus braços abertos, para que minhas mãos possam na roda-viva dos seus passos, delinear as curvas de tua cintura e quadris a me desvendar o segredo do universo. Vem me ensinar o espírito livre de tua natureza selvagem, que eu vou com firmeza de predador invadir tuas florestas e cavernas, destemido e às arremetidas para conquistar tua vulva contraída, aos arrancos na indomável na ginga do teu corpo que não rechaça minhas investidas ao teu submundo. Vem aos regalos me entreter se esfolando no meu tronco com tuas coxas trêmulas a deslizar macia tua fruta madurinha, cheia, úmida, puta esguia tantalizada no meu sexo vigoroso, para que te salve evanescida do Hades com orgasmos exaltados, noiva nua, toda minha. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA - Ninguém pode compreender o que é misterioso. Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências. As nossas moradas são provisórias, exceto a última: a terra. Beba muito vinho, amiga. Basta de palavras supérfluas. Pensamento do poeta, matemático e astrônomo persa Omar Khayyam (1048-1131). Veja mais aqui.

ORFEU & EURÍDICE – Na mitologia grega, o poeta e cantor Orfeu, filho da musa Calíope e de Apolo, rei da Trácia, era argonauta muito talentoso ao tocar sua lira: os pássaros paravam de voar, os rios mudavam seu curso, os animais selvagens perdiam o medo e as árvores se curvavam para ouvir os sons aos ventos. Ele apaixonou-se pela bela ninfa Eurídice. Depois do casamento, ela foi vítima de assédios do apicultor Aristeu, ao recusá-lo, ela foi perseguida e, ao tentar escapar, tropeçou em uma serpente que a mordeu e a matou. Orfeu ficou transtornado de tristeza e, armado com sua lira a cantar e tocar, foi até o mundo inferior, o Hades, para tentar trazê-la de volta. A sua canção pungente e emocionada convenceu Caronte, o barqueiro do rio Estige. Em seguida, a canção da lira adormeceu Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões. Sua música aliviou os tormentos dos condenados e encantou os muitos monstros que surgiram na sua jornada. Ao chegar ao trono de Hades, o rei dos mortos ficou irritado ao ver que um vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua esposa, a deusa Persféfone, implorou-lhe que atendesse o pedido de Orfeu, e o atendeu. Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos, mas com uma única condição: que ele não olhasse para ela até que ela, outra vez, estivesse à luz do sol. Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele então quase no final do tenebroso túnel olhou para se certificar de que Eurídice o acompanhava e não a viu. Hades e Perséfone os seguiram e como ficou estabelecido que ele não poderia olhar para Eurídice até chegar ao fim do túnel, Hades a tomou novamente. Por um momento ele a viu, perto da saída do túnel escuro, perto da vida outra vez. Mas enquanto ele olhava, ela se tornou de novo um fino fantasma, seu grito final de amor e pena não mais do que um suspiro na brisa que saía do mundo dos mortos. Ele a havia perdido para sempre. Em desespero total, Orfeu se tornou amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo lembrar-se da perda de sua amada. Esse mito deu origem ao orfismo, uma espécie de serviço de aconselhamento; ele ajudava muito os outros com seus conselhos, mas não conseguia resolver seus próprios problemas, até que um dia, furiosas por terem sido desprezadas, um grupo de mulheres selvagens chamadas mênades, caíram sobre ele, frenéticas, atirando dardos. Os dardos de nada valiam contra a música do lirista, mas elas, abafando sua música com gritos, conseguiram atingi-lo e o mataram. Depois despedaçaram seu corpo e jogaram sua cabeça cortada no rio Hebro, e ela flutuou, ainda cantando, "Eurídice, Eurídice!". Com o choro dele, as nove musas reuniram seus pedaços e os enterraram no monte Olimpo. Quanto às mênades, que tão cruelmente mataram Orfeu, os deuses não lhes concederam a misericórdia da morte. Quando elas bateram os pés na terra, em triunfo, sentiram seus dedos se espicharem e entrarem no solo. Quanto mais tentavam tirá-los, mais profundamente eles se enraizavam. Suas pernas se tornaram madeira pesada, e também seus corpos, até que elas se transformaram em carvalhos silenciosos. E assim permaneceram pelos anos, batidas pelos ventos furiosos que antes se emocionavam ao som da lira de Orfeu, até que por fim seus troncos mortos e vazios caíram. Recolhida da obra Uma história natural do amor (Bertrand Brasil, 1997), da escritora e naturalista estadunidense Diane Ackerman. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM DA LÍNGUA PORTUGUESA- O presente artigo aborda a questão da dificuldade de aprendizagem da Língua Portuguesa, por ser esta dificuldade um dos problemas que mais incidem nas instituições educacionais. A dificuldade de aprendizagem é um tema que tem apresentado preocupações constantes por incorporar no sistema de ensino e a todos os níveis, novos métodos, com objetivo de desenvolver o próprio sistema.
A APRENDIZAGEM DA LÍNGUA PORTUGUESA: Partindo do entendimento de que a aprendizagem, nas expressões de Nunes et al (2000), Fonseca (1999), Sena e Gomes (2002), Cezar et al (2010), Guerra (1998), Castilho (1998), é um processo pelo qual objetiva a prática pedagógica na produção do conhecimento, participando, portanto, da formação do indivíduo e sua relação com a interpretação e discernimento na vida. O processo de aprendizagem, conforme Calsa (2002), passa pela reorganização do conhecimento anterior do sujeito por meio do estabelecimento de novas relações e inferências desse saber com os objetos de conhecimento que estão em processo assimilação e acomodação. Assim sendo, a aprendizagem, segundo Lores (2010, p. 6), “[...] é um processo de aquisição e assimilação mais ou menos consciente, de novos padrões e novas formas de perceber, ser, pensar e agir”. Já para Freitas (2010, p. 1), a aprendizagem: “[...] é a construção do conhecimento, são processos naturais e espontâneos na nossa espécie”. Há que se entender que, conforme Pozo (1998, p. 32), “[…] embora novas aprendizagens impliquem a reorganização de esquemas conceituais prévios, esses esquemas nem sempre facilitam novas apropriações, pois têm como uma de suas características mais importantes a resistência à mudança”. É nesse aspecto que surgem alguns problemas de aprendizagem que são detectados no processo de ensino. Estes problemas, para Carvalho (2010), são considerados patológicos sob óticas que determinam quatro fatores para os problemas da aprendizagem: os orgânicos, os psicógenos, os específicos e os ambientais. Ou seja, os fatores orgânicos, são aqueles que tratam o indivíduo como um todo e não partes que trabalham isoladas, com integração entre anatomia, bom funcionamento de todos os órgãos, bem como do sistema nervoso central. Os fatores psicógenos são aqueles que são subsidiados pela teoria psicanalítica, que levam em consideração as disposições ambientais e orgânicas do sujeito. Já os fatores específicos, são aqueles que são identificados como desordens específicas ligadas a determinadas áreas também específicas, as quais perpassam questões cognitivas e motoras. Por fim, os fatores ambientais são aqueles que levam em consideração as questões de moradia, bairro, escola e oportunidades de lazer, sendo, pois, mais gerador de problemas escolares como a evasão. Já para Santos et al (2010) e Santos e Marturano (2010), os problemas de aprendizagem não se encontram restritos às causas físicas, psicológicas e sociais. São entendidos como fracassos articulados com fatores de ordem diversa, como de natureza orgânica, cognitiva, afetiva, pedagógica e social, e que são percebidos dentro das interações sociais. É exatamente esta a base do conceito de dificuldades de aprendizagem abrangendo e incluindo problemas decorrentes tanto das características individuais, como das influências ambientais e do sistema educacional. Em vista disso, entende-se que a dificuldade de aprendizagem é vista como a condição que o indivíduo passa pelo desequilíbrio cognitivo a partir do enfrentamento de situações-problemas que são apresentados pela escola. Há também a observação de que a dificuldade de aprendizagem (DA), segundo Nascimento et al (2010), seja uma genérica designação para heterogêneas dedordens identificadas como disfunções do sistema nervoso central, manifestadas na aquisição ou utilização dos recursos auditivos, da fala, da escrita, da leitura e do raciocínio matemático. Assim, a incidência dessas dificuldades de aprendizagem varia de acordo com determinados parâmetros e definição nem sempre concordantes. Essas dificuldades podem ser identificadas a partir de dificuldades emocionais que envolvem desde problemas de integração de natureza auditiva e visual, desinteresse, despedagogia, negativismo, avaliações sub-valorativas, hiperatividade, reforços negativos, programas inadequados, atitudes negligentes, entre outras causas tidas como multinacionais. Encontra-se na literatura que são diversas as causas dessa dificuldade, observando-se que estas são oriundas de explorações psicodinâmicas nas funções cerebrais, bem como causas encontradas nas circunstancias socioeconômicas, de fatores sanitários, complexas privações socioculturais, múltiplos índices, hábitos alimentares e culturais, inclusive, assinalando-se ser a DA o resultado de muitos conflitos e tragédias familiares.Nessas causas, Polity (2010) inclui problemas oriundos de fatores orgânicos, como saúde física deficiente, falta de integridade neurológica, alimentação inadequada; fatores psicológicos, como inibição, ansiedade, angústia; e fatores ambientais, tais como ambientais: educação familiar, grau de estimulação, influência dos meios. Alem disso, elenca os problemas de aprendizagens condicionadas pela situação familiar e pela educação. As primeiras ocorrem pelos distúrbios de aprendizagem condicionados por características da personalidade. As segundas são pelo desempenho escolar e são representadas pelas dificuldades de indivíduos com inteligência normal ou acima da média, apresentadas em reter ou expressar informações recebidas. São divididas em verbais e não-verbais. As verbais são relacionadas às dificuldades para adquirir processos simbólicos de leitura, escrita e matemática, além das dificuldades de aprendizagem escrita, disgrafia e disortografia e a discalculia (matemática). Já as não-verbais são aquelas que apresentam para o autoperceber-se, perceber seu mundo e relacionar-se com outras pessoas, embora tenham inteligência normal ou superior à média e não apresentam nenhum transtorno emocional. Já Lores (2010) amplia esse universo de causas da DA, como a privação psicossocial e a expansão da democratização do ensino que não signifique democratização sociocultural, identificando na etiologia da DA, dois níveis: o endógeno e o exógeno. Nos aspectos endógenos estão os fatores hereditários e a sua influência em termos de desenvolvimento. Já nos níveis exógenos estão as influências das oportunidades e das experiências multi-sensoriais, para além das necessidades de segurança, afeto, interação lúdica e lingüística, responsabilidade e independência pessoal. Fica definido que a etiologia das DA carece de uma observação com tratamento baseado nos fatores patogênicos do envolvimento, requerendo, com isso, partir de um estudo interdisciplinar para a execução de um estudo interdisciplinar integrado. Em razão disso, evidencia-se que só é possível identificar as dificuldades de aprendizagem, quando no contexto não interferirem os fatores socioeconômicos, uma vez que são os fatores de disfunção psico-neurológica do processamento de informação que incidem sobre o problema. Mediante isso, chama-se atenção para a distinção entre dificuldades de aprendizagem que surgem oriundas das razões de desvantagens culturais, do envolvimento socioeconômico e da inadequada aprendizagem, bem como daqueles que são identificados pela deficiência diagnosticada cientificamente ou por inadequada integração pedagógica. Razão esta, pela qual, assinala Lores (2010), passar o problema da DA pela má nutrição, pela privação de estímulos e informação, desencorajamento e desconfiança de reforço, subcultura, hierarquização e diferenciação no critério de homogeneidade cultural incompatível com o social, entre outros. Pelo exposto, entende que a DA tem se tornado amplamente encontrada entre os estudantes e em qualquer indivíduo de nível econômico diverso, e que se sinta ameaçado, confuso ou inseguro diante das exigências escolares. Isso porque, segundo o autor mencionado, é no ambiente escolar que se revelam os problemas emocionais secundários, oriundos de acumulações de ansiedades, depressões, frustrações, agressores e de insucesso dentro de uma cadeia de inadaptações que ocorrem naquele meio. Entretanto, é preciso sempre buscar as causas dos problemas de aprendizagens, tratando-a por meio de uma intervenção especializada e num combate constante e contínuo pela área de atuação da Psicopedagogia. No que concerne ao ensino de Língua Portuguesa, Cezar et al (2010) assinala que resultados publicados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC), têm evidenciando a apresentação de resultados insatisfatórios, sinalizando a indicação de que o desempenho dos estudantes nessa disciplina vem se agravando a cada pesquisa. Além do mais, o fato se agrava pela dicotomia existente pelo formato oral e a língua escrita nas aprendizagens, bem como pela ineficácia das metodologias de ensino dessa disciplina, notadamente no campo de referência entre a língua falada e as regras gramaticais. No entendimento de Travaglia (1996), o problema para se compreender e assimilar os conteúdos ministrados em Língua Portuguesa, se deve ao fato da não cessão por parte do professor do espaço importante da atividade de reflexão do estudante, enfatizando uma abordagem metodológica baseada na predominância da abordagem tradicional da regra pela regra. Esta é uma metodologia reducionista e empobrecida que pela repetição fragmentada e ausência da compreensão adequada dos conceitos, funções e relações existentes, dificulta a aprendizagem no ensino da língua. Também Macedo e Pinto (2010) adotam o posicionamento de que: Um dos grandes obstáculos ao processo de aprendizagem é o encaminhamento metodológico usado pelo professor. As complexas relações entre som/grafia, na retenção, na integralização dessas experiências, na compreensão e na interpretação da leitura e da escrita precisam ser bem asseguradas, pois, para que o domínio da linguagem pela criança aconteça, o professor precisa intervir no momento certo, fazendo o aluno elaborar suas hipóteses para que mais tarde possa reelaborar sozinho suas hipóteses. É o que entende Dorziat e Figueiredo (2010) na distinção entre linguagem como expressão do pensamento, como instrumento de comunicação e como forma de interação. No primeiro caso, distinguem como expressão do pensamento se faz necessário o estudo da gramática normativa tradicional, a partir do estudo da morfologia e sintaxe. No segundo caso, observam que como instrumento de comunicação, ou seja, o código, a gramática fica formada de regras a serem memorizadas e seguidas, no sentido de relação entre a língua padrão e a praticada pela fala das classes sociais. No terceiro caso, entendem que a gramática é vista como um feixe de variações e recursos lingüísticos que deve ser usado em função do texto (oral e escrito) que se produz e de seu contexto. Com isso, entendem os autores que esse resultado mostra como a língua portuguesa foi veiculada na grande maioria das escolas: de uma maneira muito desvinculada das reais necessidades da língua e que profissionais estão nas escolas, reproduzindo um ensino também inadequado. O tema atinente à dificuldade de aprendizagem na língua portuguesa, segundo Lores (2010, p. 28) constitui um problema de atualidade mundial. E assinala que: “No respeitante à área em que os alunos têm as dificuldades e estabelecida a relação com a língua materna soube-se que, na leitura e na gramática, as dificuldades são maiores nos alunos de língua materna portuguesa”, detectando as maiores dificuldades nos casos de escrita, leitura e interpretação. Como remédio, a prática do exercício de leitura tem sido eficiente para a superação, seguindo-se um vigilante acompanhamento pedagógico. No entanto, a prática ortográfica tem sido abandonada, quando esta se revela importante e decisiva no tratamento da DA em língua portuguesa. Já entre as dificuldades elencadas por Dorziat e Figueiredo (2010) estão a produção de textos, a ortografia, as regras gramaticais e a interpretação de textos. Tem-se encontrado, ainda, que as DA em língua portuguesa estão elencadas a partir da condição do estudante, carga horária, falta de motivação, da falta de material didático, responsabilidades familiares, relacionamento entre professores e alunos, todas afetando a leitura, a escrita, a gramática e a interpretação. Há observações como a de Olimpio (2010) e Guimarães (2010) que identificam as dificuldades de leitura, escrita e ortografia só serão superadas quando os professores, notadamente os de Língua Portuguesa, se dedicarem ao aprendizado ideal e verdadeiro do aluno, uma vez que a língua exerce um papel de suma importância do desenvolvimento desses alunos, exigindo por isso, o desenvolvimento de um método sólido e eficaz no seu ensino. E mais porque, segundo Silva (2002), a construção de um processo ensino-aprendizagem da língua materna passa necessariamente pela interação do aluno com o professor, com seu meio e com o mundo. Isso em consonância com Olimpio (2010) que se posiciona pela necessudade de condução do trabalho de leitura por meio da interação de diversos métodos, a exemplo das reflexões, compreensões e interpretações promotores de encontros literários, roda de leitura, jogos de adivinhações literárias, paráfrases, entre outras formas que incluam o lúdico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Ao se observar o problema da aprendizagem em Língua Portuguesa, constatou-se que este problema é flagrado como no contexto de uma situação real que perpassa todas as instituições escolares, carecendo de aprofundamento reflexivo dos profissionais de educação para a matéria. Isso porque essa dificuldade de aprendizagem tem propiciado o insucesso escolar que pode ser oriunda de uma série de fatores, desde problemas disléxicos ou de outras naturezas socioafetiva, orgânica ou psicológica, como também da má preparação do professor ao ministrar os conteúdos. Isso porque o desenvolvimento do estudante depende também das condutas e ações dos adultos e professores. No caso específico da dificuldade de aprendizagem da Língua Portuguesa, recomenda-se, com base na literatura estudada, que no ensino da disciplina não se priorize as questões de errado ou certo, visando, ao contrário disso, estimular a reflexão e a análise sobre a língua. Ao professor de Língua Portuguesa é sugerido que faça uma seleção criteriosa dos conteúdos gramaticais adequados e relevantes, direcionados aos interesses, compreensão e faixa etária dos estudantes, posicionando-se de forma atenta e vigilante para o funcionamento psicológico dos discentes e seu desenvolvimento intelectual. Além do mais, na sua prática diária o professor precisa interagir e conhecer os estudantes, promovendo um acompanhamento individual para ajudar, estimular e compreender o que se passa no resultado da sua prática. Para tanto, se faz necessário estar robustecido de sensibilidade que seja capaz de detectar as mudanças que ocorrem na sala de aula. Nessa condução, é de fundamental importância a interação, especialmente pela condução do professor em fomentar e proporcionar ao discente a promoção da construção do discurso próprio, por meio do destaque de suas próprias experiências vivenciadas culturalmente, na amplitude dialógica que seja capaz de refletir a dinâmica intra-interdiscusiva. Como prática eficiente para reverter esse quadro, há a necessidade de mudança na produção dos conhecimentos articulando-se com a vida cotidiana, propiciando uma identidade entre a realidade do estudante e o conteúdo ministrado na sala de aula. Neste sentido, essa identificação com a realidade dada proporciona o entendimento do aprendizado, evitando-se o aprendizado factual ou mnemônico que possibilita, tão somente, a fixação dos conteúdos para atividades direcionadas. Essa atitude pode facilitar a aprendizagem, dirimindo e propiciando uma identificação com os conhecimentos prévios adquiridos com o indivíduo e a nova propositura efetuada pelo processo de informação. Tal condução leva ao entendimento da necessidade de processos dialéticos na prática pedagógica da Língua Portuguesa, possibilitando uma interação que resulte num desempenho satisfatório pautado na experiência multi-sensorial capaz de desenvolver associações e integridades auditivo-verbais e viso-motoras. É preciso que a escola tome uma atitude preventiva com relação a DA, aparelhando-se de uma orientação psicológica, educacional e pedagógica, detectando o discente com dificuldade de aprendizagem. Também, à escola exige-se a constante orientação aos professores com relação à elaboração de métodos aplicados e a adequação do programa na prática diária, ofertando condições aos profissionais da educação a busca pela compreensão nas situações particulares de aprendizagem e na construção da inteligência. Mais ainda, a escola deve promover o desenvolvimento global de todos os discentes e a integração dos destes no desenvolvimento formativo, incluindo professores e pais na ação preventiva das dificuldades de aprendizagem. É evidente que a escola sozinha não será jamais capaz de superar todos os problemas de aprendizagem, carecendo da intervenção familiar que possui um papel imprescindível no processo formador do indivíduo em todos os níveis.
REFERÊNCIAS
CALSA, G. C. Intervenção psicopedagógica e problemas aritméticos no ensino fundamental. Campinas: Unicamp, 2002.
CARVALHO, Maria. O educador diante da complexidade do processo de ensino aprendizagem. Psicopedagogia, 2008.
CASTILHO, A. T. A língua falada e o ensino de português. São Paulo: Contexto, 1998.
CEZAR, Kelly; FRANÇA, Fabiane; CALSA, Geiva; ROMUALDO, Edson. Alunos com dificuldade de aprendizagem em escrita: um olhar psicopedagógico. Profala, 2008.
DORZIAT, Ana; FIGUEIREDO, Maria Julia. Problematizando o ensino de língua portuguesa na educação de surdos. Ines, 2005.
FONSECA, Victor. Uma introdução às dificuldades de aprendizagem. Lisboa: Editorial Notícias, 1999.
FREITAS, Aparecida. Princípios psicopedagógicos na educação transversal do trânsito: aspectos introdutórios. Psicopedagia, 2008.
GUERRA, Leila Boni. A criança com dificuldades de aprendizagem. São Paulo, 1998.
GUIMARÃES, Ernandes. As dificuldades do ensino da língua portuguesa no Ensino Fundamental da Escola Estadual Coronel Filomeno Ribeiro de Montes Claros – MG, 2008.
LORES, Manuel Frómeta. Dificuldade de aprendizagem em língua portuguesa. 2008.
MACEDO, Adriana; PINTO, Maria das Graças. Problemas de aprendizagem: um olhar psicopedagógico. Revista do Centro de Educação, 2003.
NASCIMENTO, Cláudia; NASCIMENTO, Cléa; SANTOS, Sheila; MORISSO, Matias. As etiologias biológicas dos problemas de aprendizagem: implicações no diagnóstico psicopedagógico. Profala, 2008.
NUNES, Terezinha; BUARQUE, Lair; BRYANT, Peter. Dificuldades na aprendizagem de leitura: teoria e prática. São Paulo, 2000.
OLIMPIO, Luciana. Como diminuir as dificuldades de aprendizagem e em sala de aula. Abec, 2008.
POLITY, Elizabeth. Dificuldade de aprendizagem e família: construindo novas narrativas. Pedago Brasil, 2008.
POZO, J.I. A aprendizagem e o ensino de fatos e conceitos. In: COLL, C. Os conteúdos na reforma: ensino e aprendizagem de conceitos, procedimentos e atitudes. São Paulo: Saraiva, 1998.
SANTOS, Luciana; MARTURANO, Edna. Crianças com dificuldade de aprendizagem: um estudo de seguimento. Portal Educação, 2008.
SANTOS, Carla; SILVA, Maria das Graças; VIRGENS, Maria Lucia; FERNANDES, Nice; SILVA, Valderice; OLIVEIRA, Vera Lucia. Dificuldades de aprendizagem em leitura e escrita nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Paidéi@, 2008.
SENA, Maria G. C.; GOMES, Maria F. C. Dificuldades de aprendizagem: na educação. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2002.
SILVA, Cristiane. O ensino de língua portuguesa em debate: problemas e perspectivas. Artigonal, 2008.
SILVA, Maria Cristina. Saberes e dizeres diferentes de crianças que "fracassam" na escola. In: SENA, Maria G. C.; GOMES, Maria F. C. Dificuldades de aprendizagem: na educação. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2002.p.55-67
TRAVAGLIA, L. C. Gramática e Interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º. e 2º. Graus. São Paulo: Cortez, 1996. Veja mais aqui, aqui e aqui.


Curtindo o DVD com a ópera Orpheus und Eurídike (BelAir, 2009), do compositor alemão Cristoph Willibald Gluck (1714-1787), com coreografia da memorável coreógrafa, dançarina, pedagoga e diretora de balé alemã Pina Bausch (1940-2009) & Ballet de l’Opéra National de Paris. Veja mais aqui.

OS DELICIOSOS VERSOS SENSUAIS DE LÍRIA PORTO

PARELHA

aberta a janela
penetra-se nas trevas
estrelas se fazem
e nus nesse oásis
quedamo-nos

entre as frestas
o caldo da entrega
sal do amor

a morte
hora incerta
deu-nos a deus
corpos inocentes

roupas largadas
montanhas
pegadas
suor

LA BELLA DONNA

seus olhos são noites
seu cheiro manhãs
são tardes seu colo
seu sexo agoras
seus seios auroras
o tempo advoga
a seu favor

O SEMINARISTA

afunda no decote
margeia os mamilos
escorre pelas bordas
desvia pros quadris
desce até as coxas
retorna ao umbigo
enquanto a prima dorme
cheirosa igual canela
biquini cor-de-rosa
virgem por triz

(IN)DE.CISÃO

todos os dias
ao amanhecer
jogo-te ao vento
tomo a decisão
de te esquecer

depois eu me lembro
do teu riso do teu beijo
sinto um arrepio
e me arremesso

ARRASTÃO

teus olhos são rede
o mar é amor
eu - peixe

ÂNGELA

a moça de alma albina
quer ser puta não consegue
fica nua vai pra esquina
quando um homem se aproxima
lua não tem sexo

FLUIDOS

tornei-me assim liquefeita
quando daquela feita
despi-me de nãos e sins

de mim então me perdi
nesta vontade inconclusa
acumulada no rim

ficou a mágoa comigo
fincada dentro do umbigo
um imenso chafariz

minha tristeza de chuva
essa amargura profusa
tem olhos túmidos

sou tal e qual um dilúvio
derramo transbordo enxurro
sangro os pulsos

CÓCEGAS

tuas águas me embalançam
como o mar e o navio

rio

DELTA

entre os joelhos e a virilha
uma ilha de renda a esconder a gruta
de mato dentro

TESÃO

cheiro de arroz cor de leite
salpicado com canela
gosto de cravo pau de canela
um doce manjar dos deuses
para todos os prazeres
para dar água na boca
sentir vontade e voltar

arroz doce com canela
nesta vida passageira
esperarei por cem anos
mais que isso se preciso
retornarás bem cremoso
cheiro de arroz cor de leite
gosto de cravo pau de canela

AL DENTE

saia curtinha
blusinha verde
e o vegetariano
não desgruda os olhos
da sua carne tenra

OBLÍQUA

quando a cama fica imensa
atravesso-a de ponta a ponta
desassossegos pelo meio
insônias no viés

DESMILAGRE

eu te abismo
tu me abismas
e em queda livre
precipitamo-nos

o fundo
era previsível
a superfície
nem santo

DI_AMANTE

eu te quero sol de todo dia
e só vens na lua cheia

a bola de neve do meu medo
(não sou a amada sou o pouso o oásis)
te traz na primavera do ano bissexto

assusta-me à distância
o cometa halley

SEM PÉS NEM CABEÇA

ali
no ponto gê
a tomada elétrica
deixa guiomar
de pernas pro ar

MAGO

alguém que me queira como sou
que me pegue e me esfregue
até que eu veja o gênio
da lâmpada

DE TODAS AS FÓRMULAS

fazes-me falta

em todas as fases
faltas-me

LADAINHA

faço verso rastejante
igual cobra no papel

faço verso flutuante
passarinho lá no céu

faço verso comprimido
fechado dentro do frasco

faço verso assim ridículo
acostumado ao fiasco

faço verso bem florido
nascido em pleno setembro

faço verso esquecido
o jeito dele nem lembro

faço verso galopante
como visita de amante

faço verso des'tamanho
coração de minha mãe

faço verso
faço verso

faço verso

CUNHÃ

parece uma flor de palha
a moça que me atrapalha
sem cheiro e sem encantos
no entanto igual arraia
enreda em sua saia
o dono dos meus quebrantos

O CABAÇO

penso aqui com os borbotões
estou cheia de senões
se fossem abotoados
os pingolins dos meninos
ia ser um desatino
desarrolhar os coitados
acho mesmo houve engano
nas meninas muito pano
os rapazes sem cortina
triste é a nossa sina
um selo de validade
desde a mais tenra idade

LÍDER

peito para frente
bunda para trás
e o batalhão atrás

CONQUISTA

a pele da piscina
arrepia-se
com as tuas braçadas

DIABA

nem mais bonita rica ou inteligente
queria tão somente ser o seu tipo
a mulher que ele escolhesse sem titubeio
sem avaliar os prós os contras
a que tivesse a medida
o exato tanto
entre puta e santa

LIRIA PORTO – A poeta e professora mineira Liria Porto tem vários de seus excelentes poemas publicados em diversas páginas, revistas, sites e portais da web. Veja mais aqui.



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