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terça-feira, dezembro 22, 2015

GUIMARÃES ROSA, MARINETTI, RACINE, REXROTH, IAMAMOTO, BARDOT, ABEL, ÍSIS NEFELIBATA & MUITO MAIS!!!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? QUANDO ENTÃO, É NATAL... - É Natal, a festa da cristandade e da satisfação – como um maçarico doido com os fogos de artifício do consumo – do capitalismo. É tudo lindo nas vitrines, luzes, sinos tocando, promoções e presentes a mancheia. Os olhos chegam enchem d’água com a trilha sonora dos corais de jingle bell e afins. É a hora da felicidade, fartura, do esbanjamento das emoções mais íntimas de prazer e gozo, de chega dá um nó na garganta poder torrar o décimo terceiro naquilo que foi sempre a necessidade de realização e de afirmação. Comprar e ter aquela última novidade que será daqui mais um mês totalmente obsoleta pela barbárie eletrônica; e ter a última edição do mais estrondoso vídeo game pras horas de lazer; e fazer listas de compras para a ceia e de presentes pros mais achegados; e receitas de bolos e pratos sofisticados; e as confraternizações nos bares e hotéis; e um professor de Bioética compra uma metralhadora de brinquedo pro filho; e Papai Noel tira uma dedada numa bunduda que não consegue segurar seu filho capetinha que quer porque quer, todo pirracento, dar um murro no bucho do bom velhinho; e tudo não passa de passatempo nas voláteis e volúveis relações que depois do ano novo volta em pé de guerra para a concorrência e sobrevivência. Mas é Natal, ora. O Brasil para e só volta a funcionar depois do carnaval. Sempre foi assim – e enquanto todo mundo festeja, os sabidos grandões armam nesse período suas estratégias e colocam em prática as suas mais nefastas táticas. E isso me dá a impressão de que verdadeiramente não existe crise – ou não?! -, ou ninguém está nem aí pra quem pintou a zebra. Desde que nasci que ouço falar em crise, sempre a sua presença no dia a dia. Será que essa crise existe realmente ou é um artifício pra dar uma movimentada mais no mercado quando ele sente falta de demanda? É como se o vuque vuque do quero agora fazer feliz meu coração, fosse comparável a uma anestesia inoculando as broncas e óbices do cotidiano: uma panaceia. E isso porque é Natal, hora de fazer bem, se reconciliar, apagar os infortúnios e apostar que, a partir de agora, tudo será diferente e melhor. Em última instância, o culto do descartável, do inócuo ou do inútil reinstaurando escrúpulos anacrônicos na reprise anual, como um remédio eficaz praquilo que se possa chamar de preenchimento do vazio e da solidão de todos os meses anteriores. É Natal, ora. E em último caso, a dissolução das relações e todas as suas implicações, no fazer o bem e a fraternidade agora para resolver todas as pendências que ficaram marcadas nas culpas e decepções. É Natal e todos embriagados de felicidade – afinal, todo mundo merece ser feliz! Ou não? Ora, ora. Então, vamos nessa aprumando a conversa aqui.

PICADINHO
 Imagem: Nu, do artista plástico inglês William Etty (1787-1849), Veja mais aqui.

 Curtindo Allegro in D Minor WKO 208, do compositor alemão Carl Friedrich Abel (1723-1787), com a viola da gamba de Shirley Edith Hunt.

EPÍGRAFE – No livro Grande serão: veredas (José Olympio, 1982), do escritor, médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967): No real da vida as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso. Veja mais aqui e aqui

UM ALERTA PRA AGORA – No livro Serviço Social em tempo de capital e fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social (Cortez, 2008), da socióloga e assistente social de renome, Marilda Villela Imamoto, encontro o trecho seguinte: [...] É, hoje, fundamental contribuir para a análise das classes na história brasileira, densa de determinações étnico-raciais, regionais e cultural, rurais e urbanas, que resguarde a efetiva reciprocidade entre o conhecimento científico e as configurações da vida social ao longo dessa era de extremos, nos termos de Hobsbawm. Em outros termos, somos desafiados a integrar pensamento teórico e as condições de existência social captadas a partir da diversidade das posições que os homens ocupam nos quadros da estrutura social, o que implica o reconhecimento das diferentes visões de mundo daí derivadas, às quais não é imune o pensamento científico. Isso envolve a afirmação das condições de totalidade e do devir histórico que norteie tanto os estudos monográficos quanto as interpretações globalizadoras, inter-relacionados e complementares. Em outras palavras, impulsionar o “ato científico como um ato de imaginação criadora”, cuja decadência encontra-se na raiz da crise do conhecimento científico com as invasões positivistas e empiristas, a-históricas, que estimulam a expansão irracional das especializações. Estas se desdobram na transformação do cientista em técnico, adstrito às tarefas que lhe são impostas com alvos não-científicos, em que os procedimentos e a teoria são reduzidos a instrumento de ações, orientadas segundo os interesses daqueles que financiam o seu labor. [...] Veja mais aqui e aqui.

MANIFESTO FUTURISTA – Oportuno trazer aqui o Manifesto futurista (Le Figaro, 1909), do escritor, editor, ideólogo, jornalista e ativista político italiano Filippo Marinetti (1876-1944), estabelecendo que: 1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito à energia e à temeridade. 2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia. 3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro. 4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado de grossos tubos semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia. 5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua própria órbita. 6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e munificência, a fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais. 7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem. 8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade omnipresente. 9. Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo da mulher. 10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária. 11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas: as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o voo deslizante dos aviões, cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta. Veja mais aqui e aqui.

DOIS POEMAS – Os poemas de amor de Marichiko inseridos na obra Selected poems (1967), do poeta, tradutor e ensaísta crítico estadunidense Kenneth Rexroth (1905-1982), destaco dois traduzidos por Adrian’dos Delima: XVI - Calcinada pelo amor, a cigarra / Grita em surto. Em silêncio como o vaga-lume, / Minha carne toda incendeia do amor. LVII - Noite sem fim. Solidão. / O vento traz uma folha de bordo / Contra a porta de papel translúcido. / Eu espero, como nos velhos dias, / No nosso lugar secreto, sob a lua cheia. / Os últimos grilos-de-sininhos cantam. / Eu achei tuas antigas cartas de amor, / Repletas de poemas que nunca tornaste públicos. / E importaria a alguém? / Eles foram somente para mim. Veja mais aqui.

OS PERSONAGENS TRÁGICOS – No prefácio de peça teatral Berenice (1670), o poeta trágico, dramaturgo, matemático e historiador francês Jean Racine (1639-1699), assim se expressa: [...] A regra principal é agradar e comover; todas as outras foram feitas para servir esta. [...] Os personagens trágicos devem ser vistos noutro ângulo, diferente daquele no qual vemos, regra geral, as personagens que vemos mais próximas. Pode-se dizer que o respeito que se tem pelos heróis aumenta à medida que se afastam de nós: major e longínquo reverentia. O afastamento dos locais repara, de certa forma, a demasiada proximidade dos tempos: porque o povo não encontra diferenças entre o que está, se assim posso falar, a mil anos de distancia dele, e o que está a mil léguas. É isto que faz com que, por exemplo, os personagens turcos, por mais modernos que sejam, tenham dignidade no nosso teatro. olham-nos como se fossem antigos. Veja mais aqui e aqui.

EN EFFEUILLANT LA MARGUERITE – O filme En Effeuillant la Marguerite (Desfolhando a Margarida, 1956), do cineasta e roteirista francês Marc Allégret (1900-1973), conta a odisseia parisiense de uma jovem filha de um general que irritou o pai com a publicação do seu livro que empresta título ao filme, tudo se desenrolando com muito bom humor e destacando a graça e beleza da atriz, modelo, ativista e cantora francesa Brigitte Bardot. Veja mais  aqui.

AS PREVISÕES DO DORO PRO ANO TODO – As previsões pro ano todo do mestre Dorus está bombando na rede. Além de trazer as orientações de procedimentos quanto ao amor, saúde e dia a dia de cada signo, o cara-de-pau ainda dá de troco duas simpatias: a da virada do ano e a Tiro e Queda. Quer enriquecer da noite pro dia? Siga o mestre e aproveite para conferir e dar boas risadas aqui.

IMAGEM DO DIA
 A arte do acervo de Ísis Nefelibata. Veja aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à eterna musa do cinema Brigitte Bardot
Veja aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

terça-feira, novembro 24, 2015

ÍSIS NEFELIBATA, ESPINOZA, ARUNDHATI, VENEGAS, TOULOUSE, VERA PEDROSA CANOVA, CICERO MELO & TEATRO!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O OLHAR DE ÍSIS NEFELIBATA (Imagem: arte de Meimei Corrêa) – Foi olhar de Ísis que primeiro dela vi naquela tarde de dezembro, na tumultuada rodoviária de São Paulo. Um olhar de verdade, de amor e de ternura, tudo reunido num ser que me deu de si o presente de ser vivo. E aquele olhar me levou pra saber que a vida vale a pena. E a primeira coisa que fez foi tirar-me o mundo dos ombros, removendo culpas e lembranças, até me fazer relaxar de tudo e de toda carga que eu trazia pesando no meu penar a vida toda. E me despiu para deixar-me pronto pro seu ritual, ah que ritual de gueixa a ensinar-me da respiração e toda vitalidade para reanimar meu combalido sentido existencial, ao que me levava a uma excitação íntima e sexual. E se fez pomba-gira esvoaçante sobre meu corpo a levitar enquanto fazia uma profunda faxina no meu coração carregado de tantas coisas inúteis de vivências esdruxulas por anos. E removeu resíduos de todos os cantos e me cerziu todos os pedaços que restavam do que sobrou de mim. E soergueu meu ego em frangalhos e chamou-me rei de toda a sua mais inatingível reinação e me fez deus de toda sua deificação e me enbalou com os mais belos sonhos que um homem possa sonhar. E apontou-me os pontos cardeais para me localizar no mundo entre os trópicos dessa banda atlântica, e me dispôs os quadrantes de seu corpo para que não me perdesse à toa. E me fez proprietário de todas as suas posses e haveres, usufrutuário de todas as suas heranças, palco pras suas performances e me fez maior que eu mesmo, mais largo que todos os diâmetros, mais amplo que todas as dimensões. E me fez possuidor de todos os seus desejos, e me fez lavrador de sua alma, e me fez governador do seu destino e me acalmou nos temporais. E me ensinou do fogo de todas as paixões que movem o mundo, de acumulação e egoísmo e aquelas do coração, aquelas que ditam normas e governam os interesses, as que dominam os amantes e o que é amor. Ensinou-me os segredos das águas, rios e mares. E me levou no ar flutuando no voo do impossível infinito e me ensinou do fogo restaurando minha vida para me libertar do passado e me ensinou da terra, o amor de mãe colhendo os frutos e a missão. Mostrou-me o não visto, o invisível e a aura de todas as coisas e me deu o beijo revelador de todos os mistérios da humanidade com todos os desvarios, todas as guerras e dissensões. Em compensação, deu-me as nuvens para sonhar apagando todos os meus pesadelos, deu-me o gesto para que eu aprendesse que tudo começa pelas menores coisas, deu-me atenção para que eu soubesse ser o que sou e pudesse ser melhor do que já fui; deu-me a profundeza dos mares e abismos para que me tornasse o maior revolucionário de todas vitórias do planeta, e deu-me o horizonte para mostrar que a vida vai além das percepções, deu-me o dia para que tivesse tudo louvando para mim, deu-me a noite com todas as lições de céu e terra, deu-me o sorriso para que eu saiba que a vida vale mesmo a pena e me deu a luz para me tirar da escuridão, deu-me a paz para todos os tormentos; deu-me tudo e eu, simples macho, apenas... dei-lhe um beijo de gratidão, apenas. Dela sou cônscio de que um homem sem mulher não gira bem da cabeça, não tem capacidade nem discernimento para enfrentar as agruras do mundo e da vida, eterno dependente sou e desde que nasci. E ela que removeu tudo de sofrido e imprestável dentro de mim, ocupa hoje e eternamente todo meu interior por ser o meu perpétuo amor, reinando nua e soberana para sempre no meu coração. Veja mais aquiaqui e aqui

 Imagem Reclining Nude, do pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901). Veja mais aqui.


Curtindo o cd/dvd Julieta Venegas MTV Unplugger (Sony/BMG, 2008), da cantora e compositora mexicana Julieta Venegas.

SERVIDÃO HUMANA – A obra Ética demonstrada à maneira dos geômetras (1677 - Martin Claret, 2002), do filósofo racionalista holandês Baruch Espinoza (1632-1677), trata sobre Deus, a natureza e a origem da mente, a origem da natureza dos afetos e sobre a potência do intelecto, liberdade humana, destacando, porém, a Parte IV – Sobre a servidão humana ou sobre a força dos afetos nos trechos seguintes: Chamo de servidão a impotência humana em moderar ou limitar os afetos, pois o homem que está submetido aos afetos não depende de si, mas está sob o poder da fortuna, a ponto de frequentemente ser coagido a fazer o pior para si, mesmo vendo o melhor. [...] Quem decidiu fazer algo e agiu até que a coisa estivesse feita por inteiro (perfecit), diz que a coisa está perfeita (perfectam) e diz o mesmo quem sabe, ou acredita saber, o que o Autor tinha em mente e qual o objetivo da obra. Por exemplo, se alguém vê uma obra (que suponho não estar completa) e sabe que o objetivo do autor era construir uma casa, dirá que a casa está imperfeita. Ao contrário, dirá que ela está perfeita se vê que a obra alcançou o fim que o autor tinha decidido. Mas se alguém vê uma obra sem nunca antes ter visto outra semelhante e se ignora o que o artífice tinha em mente, não pode saber se a obra está perfeita ou imperfeita. Esta parece ter sido a significação primeira de tais vocábulos. Porém, depois que os homens começaram a formar ideias universais de casas, edifícios, torres, etc., e começaram a preferir alguns modelos a outros, eles passaram a chamar de perfeito o que veem convir com a ideia universal que formaram da coisa. Ao contrário, passaram a chamar de imperfeito aquilo que veem convir menos com o como seu modelo, ainda que, segundo a concepção do artífice, estivesse perfeitamente acabado. E não se vê outra razão para que as coisas naturais, que sem dúvida não foram feitas pela mão humana, sejam chamadas pelo vulgo de perfeitas ou imperfeitas. Pois os homens costumam formar ideias universais tanto das coisas naturais quanto das artificiais e as têm como modelos para as coisas. E eles creem que a natureza (que eles estimam agir somente com vistas a um fim) os vê e os propõe a si mesma modelos. Quando veem algo na natureza que convém menos com o conceito modelo que têm de uma coisa, creem que a natureza falhou ou pecou e que ela deixou imperfeita a coisa. Vemos assim que os homens se habituaram a chamar as coisas naturais de perfeitas ou imperfeitas mais por preconceito do que por verdadeiro conhecimento. [...] Veja mais aqui e aqui.

O DEUS DAS PEQUENAS COISAS – O romance O deus das pequenas coisas (Companhia das Letras, 1998), da escritora e ativista indiana Arundhati Roy, trata da uma história de dois gêmeos que se encontram retidos numa manifestação de trabalhadores que envolve cristianismo, hinduísmo, islamismo e marxismo, inventando uma infância à sombra da ruína de família. Da obra destaco o trecho: [...] Os dois quase nasceram num ônibus, Estha e Rahel. O carro em que Baba, pai deles, estava levando Ammu, a mãe deles, para o parto no hospital em Shillong quebrou na estrada sinuosa das fazendas de chá em Assam. Eles abandonaram o carro e deram sinal para um ônibus lotado do Transporte Público. Com aquela estranha compaixão que têm os muito pobres com os que são, comparativamente, ricos, ou talvez simplesmente por terem visto como Ammu estava gigantescamente grávida, os passageiros sentados abriram espaço para o casal e durante o resto da viagem o pai de Estha e Rahel teve de segurar a barriga da mãe deles (com os dois dentro) para que não balançasse. Isso foi antes de se divorciarem e Ammu voltar a viver em Kerala. Segundo Estha, se eles tivessem nascido no ônibus, teriam direito a viajar de ônibus de graça pelo resto da vida. Não dava para saber de onde ele tinha tirado essa informação ou como descobria essas coisas, mas durante anos os gêmeos guardaram um vago ressentimento contra os pais por terem sido privados de uma vida inteira de viagens de ônibus gratuitas. Eles acreditavam também que se fossem mortos em cima das listas brancas de um cruzamento o governo teria de pagar por seus funerais. Tinham a nítida impressão de que os cruzamentos listados serviam para isso. Funerais grátis. Claro que não havia cruzamento com listas em Ayemenem, e nem mesmo em Kottayam, que era a cidade mais próxima, mas tinham visto alguns pela janela do carro quando foram para Cochin, que ficava a duas horas de carro. O governo nunca pagou pelo funeral de Sophie Mol, porque ela não foi morta nas listas de um cruzamento. O funeral dela foi na igreja velha de pintura nova em Ayemenem. Era prima de Estha e Rahel, filha do tio Chacko. Estava de visita, vinda da Inglaterra. Estha e Rahel tinham sete anos quando ela morreu. Sophie Mol tinha quase nove. Ganhou um caixão especial, tamanho infantil. Forrado de cetim. Com alças de latão brilhantes. Ali, deitada, com a calça boca-de-sino amarela de Crimplene, com uma fita no cabelo e a bolsa go-go Made in England que adorava. O rosto pálido e mais enrugado que um dedão de dhobi por ter ficado muito tempo dentro da água. Os fiéis reuniram-se em volta do caixão, e a igreja amarela inchou como uma garganta com o som de cantos tristes. Os padres de barbas crespas balançaram frascos de incenso dependurados de correntes e não sorriram para os bebês como sempre sorriam aos domingos. As velas grandes do altar estavam tortas. As pequenas não estavam. Uma velha fingindo ser uma parente distante (que ninguém conhecia), mas que surgia sempre ao lado dos corpos em funerais (uma viciada em funerais? uma necrófila latente?), pôs água-de-colônia num chumaço de algodão e, com um suave ar de desafio, esfregou a testa de Sophie Mol. Sophie Mol cheirava a água-de-colônia e madeira de caixão. Margaret Kochamma, a mãe inglesa de Sophie Mol, não deixou Chacko, o pai biológico de Sophie Mol, pôr o braço em volta dos seus ombros para consolá-la. A família ficou agrupada. Margaret Kochamma, Chacko, Baby Kochamma e, ao lado dela, sua cunhada, Mammachi, avó de Estha e Rahel (e de Sophie Mol). Mammachi era quase cega e usava sempre óculos escuros quando saía de casa. As lágrimas corriam por trás dos óculos e tremulavam em seu queixo como gotas de chuva na beirada de um telhado. Ela parecia pequena e doente em seu sári branco-cru engomado. Chacko era o único filho de Mammachi. A dor dela própria a entristecia. A dele a devastava. Embora permitissem que Ammu, Estha e Rahel comparecessem ao funeral, fizeram com que ficassem separados, não junto com o resto da família. Ninguém olhava para eles. Estava quente na igreja, e as bordas brancas dos copos-de-leite secavam e enrolavam. Uma abelha morreu numa flor do caixão. As mãos de Ammu tremiam e o livro de hinos tremia junto. Sua pele estava fria. Estha ficou a seu lado, quase dormindo, os olhos doloridos brilhando como vidro, o rosto fervendo contra a pele nua do trêmulo braço de Ammu segurando o hinário. Rahel, por outro lado, estava bem acordada, ferozmente vigilante e alerta de exaustão, em sua batalha contra a Vida Real. Ela notou que Sophie Mol estava acordada para o próprio funeral. Ela mostrou Duas Coisas para Rahel. A Coisa Um era a alta abóbada recém-pintada da igreja amarela que Rahel nunca tinha visto por dentro. Estava pintada de azul como o céu, com nuvens flutuantes e minúsculos aviões a jato chiantes com rastros brancos que ziguezagueavam pelas nuvens. É verdade (e é preciso dizer) que era mais fácil notar essas coisas deitada num caixão de cara para cima do que de pé junto aos bancos, cercada de quadris tristes e hinários. Rahel imaginou alguém se dando ao trabalho de subir lá em cima com latas de tinta, branca para as nuvens, azul para o céu, prata para os jatos, e pincéis e solvente. Imaginou-o lá em cima, alguém como Velutha, de corpo nu e brilhante, sentado numa prancha, balançando do andaime na alta abóbada, pintando jatos prateados num céu azul de igreja. Imaginou o que aconteceria se a corda rebentasse. Imaginou-o caindo como uma estrela escura do céu que tinha feito. Ali, quebrado, no chão quente da igreja, sangue escuro escorrendo-lhe do crânio como um segredo. Já então Esthappen e Rahel tinham aprendido que o mundo tem outras formas de quebrar homens. Já conheciam o cheiro. Docenjoativo. Como rosas velhas numa brisa. A Coisa Dois que Sophie Mol mostrou a Rahel foi o bebê morcego. Durante a cerimônia funerária, Rahel viu um morceguinho preto subir, dependurado em suaves garras recurvadas, pelo sári caríssimo que Baby Kochamma usava em funerais. Quando ele chegou ao ponto entre o sári e a blusa, aquele rolo de tristeza da cintura nua, Baby Kochamma deu um grito e golpeou o ar com o hinário. O canto foi interrompido para um "Quefoisso? Oqueaconteceu?" e agitação e sári sacudindo. Os tristes padres espanaram as barbas crespas com dedos cheios de anéis, como se aranhas ocultas tivessem tecido súbitas teias dentro delas. O bebê morcego voou para o céu e transformou-se num avião a jato sem a trilha em ziguezague. Só Rahel percebeu o salto secreto que Sophie Mol deu em seu caixão. O canto triste recomeçou e cantaram duas vezes o mesmo verso triste. E mais uma vez a igreja amarela inchou como uma garganta com vozes. Quando baixaram o caixão para a terra, no pequeno cemitério atrás da igreja, Rahel sabia que Sophie Mol ainda não estava morta. Ela ouviu (em nome de Sophie Mol) os sons macios da lama vermelha e os sons duros da laterita laranja que estragavam o verniz brilhante. Ouviu os sons surdos através da madeira polida, através do forro de cetim. As vozes dos padres tristes abafadas por lama e madeira. A ti confiamos, Pai misericordioso, A alma desta nossa filha que se foi, E devolvemos seu corpo à terra. Das cinzas às cinzas, do pó ao pó. Debaixo da terra, Sophie Mol gritava e rasgava o cetim com os dentes. Mas não se podem ouvir gritos através de terra e pedra. Sophie Mol morreu porque não podia respirar. O funeral a matou. Do pó ao pó ao pó ao pó ao pó. Em seu túmulo se lia Um Raio de Sol Que Brilhou Entre Nós Mui Brevemente. Ammu explicou depois que Mui Brevemente queria dizer Por Muito Pouco Tempo. Depois do funeral, Ammu levou os gêmeos de volta à delegacia de polícia de Kottayam. Eles conheciam aquele lugar. Tinham passado ali boa parte do dia anterior. Prevendo o fedor duro e exalante de urina velha que permeava as paredes e os móveis, apertaram bem as narinas com os dedos antes de o cheiro começar. Ammu pediu para ver o Delegado e, quando entrou em sua sala, disse que tinha havido um erro terrível e que queria fazer uma declaração. Pediu para ver Velutha. O bigode do inspetor Thomas Mathew tremia igual ao do simpático Marajá da Air India, mas seus olhos eram dissimulados e vorazes. "É um pouco tarde para tudo isso, não acha?", ele disse. Falava o áspero dialeto malayalam de Kottayam. Olhava fixamente os seios de Ammu enquanto falava. Disse que a polícia já sabia tudo o que tinha de saber e que a Polícia de Kottayam não aceitava depoimentos de veshyas nem de seus filhos ilegítimos. Ammu disse que ia cuidar desse assunto. O inspetor ThomasMathew deu a volta na mesa e aproximou-se de Ammu com seu cassetete. "Se eu fosse você", disse, "voltava para casa quietinha." E tocou os seios dela com o cassetete. Delicadamente. Tap, tap. Como se estivesse escolhendo mangas numa cesta. Apontando as que queria que fossem embrulhadas e entregues. O inspetor Thomas Mathew parecia saber quem podia destratar e quem não podia. Policiais têm esse instinto. Atrás dele uma placa vermelha e azul dizia: Polidez Obediência Lealdade Inteligência Cortesia Eficiência Quando saíram da delegacia, Ammu estava chorando, por isso Estha e Rahel não lhe perguntaram o que queria dizer veshya. Nem tampouco ilegítimo. Era a primeira vez que viam a mãe chorar. Ela não soluçava. Seu rosto estava duro como pedra, mas as lágrimas brotavam de seus olhos e escorriam pelas faces rígidas. O que deixou os gêmeos doentes de medo. As lágrimas de Ammu tornavam real tudo o que até agora parecera irreal. Voltaram de ônibus para Ayemenem. O cobrador, um homem esguio, vestido de cáqui, deslizou na direção deles pelos canos do ônibus. Equilibrou o quadril ossudo nas costas de um banco e clicou o picotador de bilhetes para Ammu. Para onde?, era o que o clique queria dizer. Rahel sentiu o cheiro da pilha de bilhetes e o cheiro acre dos canos de aço do ônibus nas mãos do cobrador. "Ele está morto", Ammu sussurrou para ele. "Eu matei." "Ayemenem", Estha disse depressa, antes que o cobrador perdesse a paciência. Ele tirou o dinheiro de dentro da bolsa de Ammu. O cobrador lhe deu os bilhetes. Estha dobrou-os cuidadosamente e guardou no bolso. Depois passou os bracinhos em torno da mãe rígida, que chorava. Duas semanas depois, Estha foi Devolvido. Ammu foi forçada a mandá-lo de volta para o pai deles, que já então tinha pedido demissão de seu emprego solitário na fazenda de chá em Assam e se mudado para Calcutá, para trabalhar numa companhia que fabricava pigmentos preto-de-carbono. Tinha casado de novo, parado de beber (mais ou menos) e sofria só recaídas ocasionais. Estha e Rahel não se viam desde então. [...]. Veja mais aqui.


FARS & SONHO DO VESTIDO VIOLETA – Na antologia 26 poetas hoje (Aeroplano, 2007), organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, destaco as poesias da poeta, filósofa e diplomata Vera Pedrosa. Inicialmente o seu poema Fars: Foi há tanto tempo e entre amores / decisivos / cataclismas / criações confinamentos jaulas / aeronaves / trens. / Foi antes das exposições de motivos. / Houve uma época / tão descansada em que / desde que se tivesse / uma janela em movimento / ele era imagem / deslizando ante folhas. / Se estendia embaixo de árvores / entrava em corredores / saía de portas. / Na areia ele era / as manhãs do desejo mais difuso. / Quando havia cinza no mar / era ele que estava  (de sueter) / na antepenumbra molhada. / Quando era noite / ele era quase raiva, na espera. / Doce e nu, sentado no banquete / numa horta de alfaces / sonhei com ele esta noite. Também o seu poema Sonho do vestido violeta:  “Le reveur de la nuit ne peut énoncer un cogito” / Descobri o cadáver muito mais tarde / no meio de uma viagem. / Passava por regiões / de passado futuro / o trem atacado por índios atarefados / ruínas negras de megalópolis de concreto / E tendo achado o cadáver / soube que me haviam enterrado / com meu vestido de seda violeta / um vestido precioso anunciador /da precognição da morte. / Então determinei / que desencarnassem o cadáver / e enterrassem a ossada límpida, polida / numa cova de terra úmida / enquanto a multidão de índios / sem real perigo / cercava o cemitério / mas depois se dedicava à tarefa muito mais séria / de destroçar as vigas que sustentavam nosso teto. Por fim o poema Cortejo: Tendo estado / toda uma tarde / ouvindo / um tempo branco / sentindo dedos de água / descidos da noite. / Figuras / surgem paralelas / como saídas agora / da cal da parede. / Ali onde a sombra joga / na brisa de outra água. / De perto, / a superfície do muro / pára: / distração. Veja mais aqui.

A TRAGÉDIA GREGA – Na obra Teatro Vivo (Civita, 1976), organizada por Sábato Magaldi, encontro que na Atenas democrática do século V aC., os grandes autores trágicos usariam de maneira mais racional, embora carregados de emocionalismo, os elementos que Téspis desorganizadamente vislumbrava nas suas imitações. À túnica, à máscara, à luz das tochas e aos eventuais recursos de encenação improvisada incorporou-se a poesia como núcleo. Ao mesmo tempo, em substituição à pequena carroça de Téspis, implantou-se a grande plataforma fixa, um palco verdadeiro sobre o qual já se podia organizar um espetáculo, com atores, coro e arquibancadas, anualmente levantadas para um imenso público. Esse dimensionamento ganhou ainda maior proporção quando se escolheu um local para as representações: o terreno consagrado a Dioniso, na escola sudeste da Acrópole. Ali Ésquilo (525-456aC), Sófoles (496-406aC), e Eurípedes (480-406) tiveram encenadas quase todas as suas tragédias, sempre marcadas pelo mesmo tom ritualístico com que os clãs da Grécia arcaica celebravam Dioniso, a boa divindade da paixão e da embriaguez, capaz de transmitir a ilusão mágica de que os mortais comungam da natureza divina. No entanto, o théatron da Atenas clássica, embora respirasse ainda muitas das propriedades do ritual, era apenas lugar de onde se vê – uma plateia. Nesta, o vinho já não corria com a mesma facilidade e os cantos e as danças das solenes celebrações a Dioniso se achavam substituídos pelo respeitoso silêncio. Com os olhos nos proskénion – o palco onde os atores fingiam emoções e ações alheias -, os assistentes submetiam-se à catarse, fenômeno que, segundo o filósofo Aristóteles (384-322aC), purifica a alma das paixões sufocantes. De acordo com ele, ao inspirar, por meio da ficção, certas emoções penosas ou malsãs, especialmente a piedade e o terror, a catarse liberta dessas mesmas emoções. E veja mais aqui, aqui e aqui.

L’AFFAIRE FAREWELL – O drama de espionagem e suspense L’affaire farewell (O caso Farewell, 2009), dirigido por Christian Carion, cujo roteiro é baseado na história do alto funcionário soviético Vladimir Vetrox, contada no livro Bonjour Farewell: La vérité sur la taupe française du KGB (1997) de Serguei Kostine. A história se passa na década de 1980, quando um alto funcionário da KGB está desiludido com o regime soviético e decide repassar aos países do Ocidente informações e documentos secretos de espionagem, inclusive a lista de nome dos espiões de seu país no exterior. Ele faz contato com um mensageiro francês. A esposa do mensageiro não quer que o marido continue agindo como espião mas ele não lhe dá ouvidos. O destaque do filme vai para a bela atriz e modelo alemã Diane Krüger. Veja mais aqui.

OS VÍDEOS QUE ELA FEZ PRA MIM – Nos últimos quatro eu fui mais que premiado, pois fui agraciado pelo talento dessa maravilhosa mulher e superparceria amada do meu coração, Meimei Corrêa, ao realizar uma série de vídeos com meus poemas, músicas e realizações. Ela não só realizou clipes com minhas próprias interpretações, como, também, realizou algumas delas na própria voz dela, fato que me fez envaidecido e capaz de felicitar pela premiação tão bem recebida. Por isso mesmo, não me vejo ainda manifestando minha eterna gratidão que será sempre muito pouca perto do que este ser pra lá de fascinante e generosa realizou no meu trabalho. A ela devo tudo que alcancei até hoje. Obrigado, Meimei, obrigado, obrigado, obrigado. E convido vocês pra conferirem os vídeos aqui. E mais dela aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A ninphe, do escultor, pintor, desenhista e arquiteto italiano Antonio Canova (1757-1822), Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada ao poetamigo, ensaísta e crítico alagoano Cicero Melo & o blog Pequena Reunião Poética. Veja detalhes aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritará!!!
Veja mais aqui.


sábado, maio 09, 2015

MARY MELLOR, ANAÏS NIN, ASCENSO, REICH & A SANTA FREIRA

 


A SANTA FREIRA - Luisa era Maria e atendi o seu convite ao convento d'Ambrogio, uma instituição de reputação, exclusivamente feminino habitado por freiras franciscanas. Havia ela assumido o lugar da abadessa fundadora Mariagna, que havia sido acusada de envolvimentos espúrios, falsos milagres e rumorosos escândalos, sendo condenada por obscenidade e santidade fingida. Ela recepcionou-me com um longo vestido preto decotado que realçavam seus robustos seios, com saia com dois recortes que destacavam suas coxas abundantes e sensuais, preocupada com a mancha na imagem do Vaticano, adiantando-se por me explicar que se tratavam de atos espirituais, mas que um falso padre alcaguete denunciou equivocadamente por lascivos, corroborado pela princesa duas vezes viuva Katharina, tão pudica quanto fervorosa, a alardear ao inquisidor. Pura invencionice, um jogo de interesses, um estratagema sobrecarregado de blasfêmias inescapáveis, que envolviam clérigas e noviças. Estava ela um tanto nervosa, levou-me à alcova e segredou-me acusações de heresia e outros crimes, o que havia desestabilizado sua administração e deixando-a encurralada com tal situação. Não deixei de vê-la estonteantemente exuberante com o frescor dos seus 27 anos, venerada por todos que sabiam de seus poderes milagrosos, inclusive eu, seu fiel confidente. Líamos o evangelho de Madalena, discutíamos a liberdade e, também, sobre a necessidade de evolução humana: amar jamais fora pecado, os religiosos sectários que, por serem invejosos e infelizes, não aceitavam a felicidade dos que amava. Pouco importava seu passado sombrio, se ela desafiava os códigos morais, apenas era o amor e, por isso, fora acusada de envenenamentos, heresias e outros abusivos crimes dentro do convento. Tudo mentira, mas as consequências foram explosivas e levaram-na à irreversível queda. O conservadorismo vencia, aplacava tudo que fosse vida, como sempre. Tentei protegê-la o quanto pude, não era páreo para poderosos. Fiz o que pude, solidário. E ela desapareceu sobrecarregada pela incompreensão humana, deixou-me lembranças inesquecíveis: sabia eu todos os segredos daquela verdadeira santa viva e herege. Veja mais aquiaqui & aqui.



 

DITOS & DESDITOS - Os sonhos são necessários para a vida... Jogue seus sonhos no espaço como uma pipa, e você não sabe o que isso trará de volta, uma nova vida, um novo amigo, um novo amor, um novo país... A posse do conhecimento não mata o sentido de maravilha e mistério. Há sempre mais mistério... Nós não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos... Pensamento da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Nunca desperdice uma boa crise... Pensamento da acadêmica e ativista britânica, Mary Mellor, que no seu estudo Feminism & Ecology (New York Univerity Press, 1997), ela expressa que: [...] O ecofeminismo é um movimento que vê uma conexão entre a exploração e degradação do mundo natural e a subordinação e opressão das mulheres. Ele surgiu em meados da década de 1970, junto com o feminismo de segunda onda e o movimento verde. O ecofeminismo reúne elementos dos movimentos feminista e verde, ao mesmo tempo em que oferece um desafio a ambos. Ele tira do movimento verde uma preocupação sobre o impacto das atividades humanas no mundo não humano e do feminismo a visão da humanidade como generificada de maneiras que subordinam, exploram e oprimem as mulheres. [...]. Já no seu livro Debt or Democracy: Public Money for Sustainability and Social Justice (Pluto Press, 2015), ela expressa que: […] Existem dois circuitos monetários nas economias contemporâneas, um circuito de dinheiro público e um circuito de dinheiro comercial. Ambos criam e circulam a moeda pública. A diferença entre eles é que um é baseado em dívida, o outro não. [...] O Estado deixou de ser o principal criador de dinheiro público para se tornar uma "dona de casa" suplicante [...].

 

 LA REBELIÓN DE LAS MASAS – Este livro foi um presente do meu amigo espanhol radicado em Pernambuco, José Duran y Duran. Trata-se da obra La rebelión de las masas (A rebelião das massas – Espasa-Calpe, 1964), do filósofo e ativista político espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), autor da célebre frase: "Debaixo de toda vida contemporânea se encontra latente uma injustiça”. O livro trata de temas como o fato das aglomerações, a ascensão do nível histórico, a altura dos tempos, o crescimento da vida, um dado estatístico, começa a dissecação do homem-massa, vida nobre e vida vulgar ou esforço e inércia, porque as massas intervêm em tudo e porque só intervêm violentamente, primitivismo e técnica, primitivismo e história, a época do “mocinho satisfeito”, a barbárie do “especialismo”, o maior perigo: o Estado, quem manda no mundo: desemboca-se na verdadeira questão, quanto ao pacifismo, dinâmica do tempo, as vitrinas mandam, juventude, masculino e feminino, entre outros importantes assuntos. Da obra destaco o trecho: Há um fato que, para bem ou para mal, é o mais importante na vida pública européia da hora presente. Este fato é o advento das massas ao pleno poderio social. Como as massas, por definição, não devem nem podem dirigir sua própria existência, e menos reger a sociedade, quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos, nações, culturas, cabe padecer. Esta crise sobreveio mais de uma vez na história. Sua fisionomia e suas conseqüências são conhecidas. Também se conhece seu nome. Chama-se a rebelião das massas. Para a inteligência do formidável fato convém que se evite dar, desde já, às palavras “rebelião”, “massas”, “poderio social”, etc. um significado exclusivo ou primariamente político. A vida pública não é só política, mas, ao mesmo tempo e ainda antes, intelectual, moral, econômica, religiosa; compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de vestir e o modo de gozar. Talvez a melhor maneira de aproximar-se a este fenômeno histórico consista em referir-nos a uma experiência visual, sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da cara.  Simplicíssima de enunciar, ainda que não de analisar, eu a denomino o fato da aglomeração, do “cheio”. As cidades estão cheias de gente. As casas cheias de inquilinos. Os hotéis cheios de hóspedes. Os trens, cheios de viajantes. Os cafés, cheios de consumidores. Os passeios, cheios de transeuntes. As salas dos médicos famosos, cheias de enfermos. Os espetáculos, desde que não sejam muito extemporâneos, cheios de espectadores. As praias, cheias de banhistas. O que antes não era problema, começa a sê-lo quase de contínuo: encontrar lugar. Nada mais. Há fato mais simples, mais notório, mais constante, na vida atual? Vamos agora puncionar o corpo trivial desta observação, e nos surpreenderá ver como dele brota um repuxo inesperado, onde a branca luz do dia, deste dia, do presente, se decompõe em todo o seu rico cromatismo interior. Que é o que vemos e ao vê-lo nos surpreende tanto? Vemos a multidão, como tal, possuidora dos locais e utensílios criados pela civilização. Apenas refletimos um pouco, nos surpreendemos de nossa surpresa. Mas quê, não é o ideal? O teatro tem suas localidades para que se ocupem; portanto, para que a sala esteja cheia. E do mesmo modo os assentos o vagão ferroviário e seus quartos o hotel. Sim; não há dúvida. Mas o fato é que antes nenhum destes estabelecimentos e veículos costumavam estar cheios, e agora transbordam, fica fora gente afanosa de usufruí-los. Embora o fato seja lógico, natural, não se pode desconhecer que antes não acontecia e agora sim; portanto, que houve uma mudança, uma inovação, a qual justifica, pelo menos no primeiro momento, nossa surpresa. Surpreender-se, estranhar, é começar a entender. E o esporte e o luxo específico do intelectual. Por isso sua atitude gremial consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas. Isso, maravilhar-se, é a delícia vedada ao futebolista e que, ao contrário, leva o intelectual pelo mundo em perpétua embriaguez de visionário. Seu atributo são os olhos em pasmo. [...] A aglomeração, ou cheio, antes não era freqüente. Por que o é agora? Os componentes dessas multidões não surgiram do nada. Aproximadamente, o mesmo número de pessoas existia há quinze anos. Depois da guerra pareceria natural que esse número fosse menor. Aqui topamos, entretanto, com a primeira nota importante. Os indivíduos que integram estas multidões preexistiam, mas não como multidão. Repartidos pelo mundo em pequenos grupos, ou solitários, levavam uma vida, pelo visto, divergente, dissociada, distante. Cada qual – indivíduo ou pequeno grupo – ocupava o lugar, talvez o seu, no campo, na aldeia, na vila, no bairro da grande cidade. Agora, de repente, aparecem sob a espécie de aglomeração, e nossos olhos vêm por toda a parte multidões. Por toda a parte? Não, não; precisamente nos lugares melhores, criação realmente refinada da cultura humana, reservados antes a grupos menores, em definitiva, a minorias. A multidão, de repente, tornou-se visível, e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. Antes, se existia, passava inadvertida, ocupava o fundo do cenário social; agora adiantou-se até às gambiarras, ela é o personagem principal. Já não há protagonistas: só há coro. O conceito de multidão é quantitativo e visual. Traduzamo-lo, sem alterá-lo, à terminologia sociológica. Então achamos a idéia de massa social. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. Não se entenda, pois, por massas só nem principalmente “as massas operárias”. Massa é “o homem médio”. Deste modo se converte o que era meramente quantidade – a multidão – numa determinação qualitativa: é a qualidade comum, é o mostrengo social, é o homem enquanto não se diferencia de outros homens, mas que repete em si um tipo genérico. Que ganhamos com esta conversão da quantidade para a qualidade? Muito simples: por meio desta compreendemos a gênese daquela. E evidente, até acaciano, que a formação normal de uma multidão implica a coincidência de desejos, idéias, de modo de ser nos indivíduos que a integram. Dir-se-á que é o que acontece com todo grupo social, por seleto que pretenda ser. Com efeito; mas há uma diferença essencial. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Imagem: Orgasmo, do designer gráfico e ilustrador Renato Alarcão.

Ouvindo o poema sinfônico Le Poeme De L'Extase, Op. 54 (1905-1908, Deutsche Grammophon), do compositor e pianista russo Alexander Scriabin (1872-1915), com a Boston Symphony Orchestra sob a regência de do maestro Claudio Abbado. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

EU VOLTAREI AO SOL DA PRIMAVERA – O livro Eu voltarei ao sol da primavera (Fundação Hermilo Borba Filho/SE-PE/Depto. Cultura, 1985), do do poeta modernista Ascenso Ferreira (1895-1956), organizado por Jessiva Sabino de Oliveira, reúne sonetos e outros poemas do autor, entre os quais destaco Banquete de Beijos (I): Dos beijos ao banquete apaixonado / em sonhos o amor levou-me um dia. / Ah! Foi tão doce o gozo que eu fruia! / Ah! Foi tão doce e tão alcandorado, / que me julguei, por certo, transportado / nas asas do prazer e da alegria / às sublimes regiões onde apoesia / edificou seu fúlgido reinado. / Na taça do prazer e da ternura, / taça dos lábios cheios de doçura / de uma donzela, o símbolo do pejo / eu fruia do amor e da paixão / o néctar, que suaviza o coração / - Supremo néctar que oferece o beijo. (II): Tudo era puro, santo e sublimado, / em tudo se notava essa magia / tão suave, que ao meu ver só existia / no céu deista tão glorificado. / Muitos convivas via do meu lado / no meio da puraza desta orgia / também sorvendo o néctar que eu sorvia, / - Néctar do amor, nos beijos encarnado. / Sim, foi tão doce, tão divina e pura / deste meu sonho a mágica ventura / que de outra igual jamais eu tive ensejo. / Sim; foi tão doce a minha sensação, / que eu inda guardo a sã recordação / desse banquete mágico de beijos. Também o seu Estrelas é meritório de destaque: Em mil constelações, estrelas luminosas / espagerm-se no céu a brilhar, a brilhar... / Reflete-se em meu dorso o portentoso mar, / que na praia desfaz-se em ondas espumosas. / Sentindo o perpassar das brisas rumorosas / e as estrelas fitado, eu começo a exclamar: / “Quem m´as dera a prender! Quem m´as dera pegar! / Ao menos conseguir uma entre as mais formosas! / Ouvindo-me falar, diria alguém assim: / “P´ra que queres pegar uma estrela formosa? Não vês que elas de nós estão léguas sem fim?” / Mas eu responderia: “Eu quisera prendê-las / somente p´ra adornar a fronte luminosa / de uma Estrela terra, estrela entre as estrelas”. Veja mais  aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

O ORGASMO DE ESPERANTINA – Numa cidade da região Norte do Piauí, no Baixo Parnaíba, distante 180 quilômetros da capital, denominada Esperantina, que desde 1943 deixou de ser Boa Esperança, há uma comemoração para lá de ótima. A população esperantinense, segundo IBGE 2010, de 37.765 habitantes, comemora no dia de hoje o seu Dia do Orgasmo, depois que uma lei municipal decretou: Fome Zero, Orgasmo Dez”. Imagino como será a comemoração! U-hu! O Piauí já é quente, dá pra sentir o calor na bacorinha. O projeto do vereador proposto no início dos anos 2000, virou polêmica na cidade, ganhando as páginas dos principais jornais do Brasil. Instado pela imprensa nacional, o vereador informou que o propósito de tal comemoração é levar a educação sexual a todos os recantos da cidade. Como o poeta Manuel Bandeira queria ir pra Pasárgada, eu que sou um poeta menor tão ínfimo bem miúdo, quero é ir pra Esperantina! Veja mais aqui.

A FUNÇÃO DO ORGASMO – O livro A função do orgasmo: problemas econômico-sexuais da energia biológica (Brasiliense, 1975), do médico, psicanalista e cientista natural Wilhelm Reich (1897-1957), trata da descoberta do orgônio, a biologia e a sexologia antes de Freud, Peer Gynt, lacunas na psicologia e na teoria do sexo, o prazer e o instinto, sexualidade genital e não genital, fundação do seminário de técnica psicanalítica de Viena, dificuldades psiquiátricas e psicanalíticas na compreensão da enfermidade psíquica, o desenvolvimento da teoria do orgasmo, suplemente a ideia freudiana da neurose de angustica, potência orgástica, a extase sexual: fonte de energia das neuroses, análise do caráter, dificuldades e contradições, a economia sexual da angústica neurótica, a couraça do caráter e a estratificação dinâmica dos mecanismos de defesa, destruição, agressão, sadismo, o caráter genital e o caráter neurótico, o principio de auto-regulagem, revolução biológica abortada, a higiene mental e o problema da cultura, origem social da repressão, o irracionalismo fascista, a irrupção no campo biológico, a solução do problema do masoquismo, o funcionamento de uma bexiga viva, a antítese funcional de sexualidade e angustia, energia biopsiquica, a fórmula do orgasmo, a tensão, a carga, descarga, relaxação, prazer (expansão) e angustia (contração), antítese principal da vida vegetativa, o reflexo do orgasmo e a técnica da vegetoterapia de análise do caráter, a atitude muscular e a expressão corporal, a tensão abdominal, o reflexo do orgasmo, o estabelecimento da respiração natural, a mobilização da pélvis morta, enfermidades psicossomáticas típicas e resultados da simpaticotonia crônica, psicanalise e biogênese, a função bioelétrica do prazer e da angustia, solução teórica do conflito entre mecanismo e vitalismo, a energia biológica é energia do orgônio atmosférico (cósmico). Da obra destaco o seguinte trecho: [...] Até 1923, ano em que nasceu a teoria do orgasmo, apenas as potências ejaculativa e eretiva eram conhecidas da sexologia e dos psicanalistas. Sem a inclusão dos componentes funcionais, econômicos e experimentais, o conceito de potência sexual não teria existido. Potência eretiva e ejaculativa eram apenas pré-condições indispensáveis da potência orgástica. Potência orgástica é a capacidade de abandonar-se, livre de quaisquer inibições, ao fluxo de energia biológica; a capacidade de descarregar completamente a excitação sexual reprimida, por meio de involuntárias e agradáveis convulsões do corpo. 
Nem um único neurótico é orgasticamente 'potente, e as estruturas de caráter da esmagadora maioria dos homens e mulheres são neuróticas. No ato sexual livre de angústia, de desprazer e de fantasias, a intensidade de prazer no orgasmo depende da quantidade de tensão sexual concentrada nos genitais. Quanto maior e mais abrupta é a "queda" da excitação, tanto mais intenso é o prazer. A seguinte descrição do ato sexual orgasticamente satisfatório refere-se apenas ao desenvolvimento de algumas fases e modos de comportamento típicos e naturalmente determinados. Não levei em conta o prelúdio biológico, determinado pelas necessidades individuais, e que não apresenta um caráter universal. Além do mais devemos observar que os processos bioelétricos da função orgástica não foram explorados e, portanto, esta descrição é incompleta. Fase de controle voluntário da excitação 1. A ereção não é dolorosa como no caso do priapismo, espasmo da região pélvica ou do duto espermático6. É agradável. O pênis não está superexcitado, como após um período prolongado de abstinência ou em casos de ejaculação prematura. O genital feminino torna-se hiperêmico e úmido de forma específica, pela profusa secreção das glândulas genitais; isto é, no caso de funcionamento genital não perturbado, a secreção tem propriedades químicas e físicas que faltam quando a função genital está perturbada. Uma característica importante da potência orgástica masculina é o desejo de penetrar. Podem ocorrer ereções sem esse desejo, como em certos caracteres narcisistas eretivamente potentes, e na satiríase. 2. O homem e a mulher mostram-se ternos um para com o outro; não há impulsos contraditórios. São os seguintes os desvios patológicos desse comportamento: agressividade proveniente de impulsos sádicos, como em alguns neuróticos compulsivos eretivamente potentes, e inatividade do caráter passivo-feminino. A ternura também está ausente no "coito onanista" com um objeto não amado. Normalmente a atividade da mulher não difere de modo algum da do homem. A passividade da mulher, embora comum, é patológica e resulta habitualmente de fantasias masoquistas de violação. 3. A excitação agradável, que permaneceu mais ou menos no mesmo nível durante a atividade do anteprazer, aumenta subitamente em ambos, no homem e na mulher, com a penetração do pênis na vagina. O sentimento do homem de "estar sendo absorvido" é o corresponde do sentimento da mulher de "estar absorvendo" o pênis. 4. Aumenta o desejo do homem de penetrar mais profundamente, mas não assume a forma sádica de "querer transpassar" a mulher, como ocorre no caso dos caracteres neuróticos compulsivos. Pela fricção mútua, gradual, rítmica, espontânea e sem esforço, a excitação vai-se concentrando na superfície e na glande do pênis, e nas partes posteriores da membrana mucosa da vagina. A sensação característica que precede e acompanha a descarga do sêmen está ainda totalmente ausente (não nos casos de ejaculação prematura). O corpo ainda está menos excitado que o genital. A consciência está inteiramente dirigida para a assimilação das sensações ondulantes de gozo. O ego participa ativamente, na medida em que tenta explorar todas as possíveis fontes de prazer e atingir o mais alto grau de tensão antes do momento do orgasmo. Intenções conscientes obviamente não têm lugar aqui.  
Tudo acontece espontaneamente com base nas experiências de anteprazer individualmente diferentes, por uma mudança de posição, pela natureza da fricção, pelo ritmo, etc. Segundo a maior parte dos homens e mulheres potentes, quanto mais lentas e delicadas são as fricções, e mais estreitamente sincronizadas, mais intensas são as sensações de prazer. Isso pressupõe um alto grau da afinidade entre o homem e a mulher. Um correspondente patológico disso é o desejo de fazer fricções violentas, especialmente pronunciado nos caracteres sádicos compulsivos que sofrem de anestesia do pênis e da incapacidade de descarregar o sêmen. Outro exemplo é a pressa nervosa dos que sofrem de ejaculações prematuras. Os homens e mulheres orgasticamente potentes nunca riem ou falam durante o ato sexual exceto, possivelmente, para trocar palavras de carinho. Falar e rir indicam sérias perturbações da capacidade de entregar-se; entregar-se pressupõe completa concentração na ondulante sensação de prazer. Os homens que sentem o entregar-se como "feminino" são sempre orgasticamente perturbados. 5. Nesta fase, a interrupção da fricção é em si mesma agradável por causa das sensações especiais de prazer que acompanham essa pausa, e não exigem esforço psíquico. Dessa forma, prolonga-se o ato. A excitação diminui um pouco durante a pausa. Não desaparece inteiramente, entretanto, como nos casos patológicos. A interrupção do ato sexual pela retração do pênis não é desagradável na medida em que ocorra após uma pausa tranqüila. Ao continuar a fricção, a excitação aumenta firmemente além do nível anteriormente atingido. Toma gradualmente, mais e mais, posse do corpo inteiro, enquanto o próprio genital mantém um nível mais ou menos constante de excitação. Finalmente, como resultado de um novo aumento habitualmente repentino de excitação genital, inicia-se a fase de contração muscular involuntária. Fase de contrações musculares involuntárias 6. Nesta fase, o controle voluntário do desenvolvimento da excitação não é mais possível. Apresenta os seguintes traços característicos: a) O aumento da excitação não pode mais ser controlado; antes, a excitação domina a personalidade total e causa uma aceleração do pulso e uma exalação profunda. b) A excitação física torna-se cada vez mais concentrada no genital; ocorre uma suave sensação que se pode descrever melhor como um eflúvio de excitação do genital para outras partes do corpo. c) Em primeiro lugar, essa excitação causa contrações involuntárias de toda a musculatura das regiões genital e pélvica. Essas contrações se experimentam sob a forma de ondas: a elevação da onda coincide com a total penetração do pênis, enquanto a descida da onda coincide com a retração do pênis. Mas logo que a retração ultrapassa um certo limite, ocorrem imediatamente contrações espasmódicas, que aceleram a ejaculação. Na mulher é a musculatura lisa da vagina que se contrai. d) Neste estágio, a interrupção do ato é totalmente desagradável, tanto para o homem como para a mulher. Havendo interrupção, as contrações musculares que levam ao orgasmo na mulher e à ejaculação no homem são espasmódicas em vez de rítmicas. As sensações causadas são sumamente desagradáveis e, 'ocasionalmente, sentem-se dores nas regiões pélvica e sacra. Além do mais, como resultado do espasmo, a ejaculação ocorre mais cedo que no caso do ritmo imperturbado. A prolongação voluntária da primeira fase do ato sexual (1 a 5) não é dolorosa quando levada até um certo ponto, e tem um efeito intensificador do prazer. 
Por outro lado, a interrupção ou mudança voluntária do seguimento da excitação na segunda fase é dolorosa por causa da natureza involuntária dessa fase. 7. Por meio de nova intensificação e do aumento de freqüência das contrações musculares involuntárias, a excitação sobe rápida e intensamente em direção ao clímax (III a C no diagrama); isso coincide, normalmente, com as primeiras contrações musculares ejaculatórias no homem. 8. Neste ponto, a consciência se torna mais ou menos nublada; seguindo-se a uma pequena pausa no "auge" do clímax, as fricções aumentam espontaneamente e o desejo de penetrar "completamente" se torna mais intenso com cada contração muscular ejaculatória. As contrações musculares na mulher seguem o mesmo curso que seguem no homem; há apenas uma diferença psíquica, isto é, a mulher sã quer "receber completamente" durante, e logo após, o clímax. 9. A excitação orgástica toma conta do corpo inteiro e produz fortes convulsões da musculatura do corpo todo. Auto-observações de pessoas sãs de ambos os sexos, e também a análise de certas perturbações do orgasmo, provam que o que chamamos alívio da tensão e experimentamos como uma descarga motora (curva descendente do orgasmo) é, essencialmente, o resultado da reversão da excitação do genital ao corpo. Essa reversão é experimentada como uma súbita redução da tensão. Por isso, o clímax representa o ponto decisivo no seguimento da excitação; isto é, antes do clímax, a direção da excitação é para o genital; após o clímax, a excitação reflui do genital. Essa completa volta da excitação do genital para o corpo é que constitui a satisfação. Isso significa duas coisas: refluir da excitação para o corpo inteiro, e relaxação do aparelho genital. 10. Antes de ser alcançado o ponto neutro, a excitação desaparece em curva suave e é imediatamente substituída por uma agradável relaxação física e psíquica. Habitualmente há também grande vontade de dormir. As relações sensuais se abrandam, mas permanece em relação ao companheiro uma atitude "saciada" e terna, a que se junta o sentimento de gratidão. Ao contrário, a pessoa orgasticamente impotente experimenta um esgotamento plúmbeo, desgosto, repulsa, aborrecimento ou indiferença e, ocasionalmente, aversão ao companheiro. Nos casos de satiríase e ninfomania, a excitação sexual não desaparece. A insônia é uma das características essenciais da falta de satisfação. Não se pode, entretanto, concluir automaticamente que uma pessoa experimentou a satisfação quando cai no sono imediatamente após o ato sexual. Se reexaminarmos as duas fases do ato sexual, veremos que a primeira fase é essencialmente caracterizada pela experiência sensorial de prazer, enquanto a segunda fase é caracterizada pela experiência motora de prazer. [...] (Imagens: Orgasmic Soul nº 2, by Michael G Quain/Foto: La petit mort, by Santillo). Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

ORGAZMO – A comédia Orgazmo (1997), escrito e dirigido por Trey Park e produzido por Matt Stone que mais tarde vão criar a série animada South Park, conta a história de um missionário mórmon que encontra hostilidade para realizar seu trabalho religioso, até encontrar um diretor pornô desprezível, finda contratado para estrelar no papel principal de um super-herói pornográfico. Nessa hora entra em choque o milionário salário e a sua fé religiosa, enquanto se vê famoso com sucesso surpreendente. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem: Orgasmo y Una Mujer Que Disfruta, do artista plástico argentino Pablo Garat.


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