sexta-feira, janeiro 02, 2015

GAIA, ASIMOV, TEREZA FILÓSOFA & CAETANO VELOSO


 Imagem: Gaia, Mãe Terra.

Ouvindo: Terra, de Caetano Veloso

[...]
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...
Eu estou apaixonado
Por uma menina terra
Signo de elemento terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza
Terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...


A MÃE TERRA DE ISAAC ASIMOV – O escritor e bioquímico americano nascido na Rússia,, Isaak Yudavich Azimov (1920-1992), assim se expressa sobre a Mãe Terra: [...] Em resumo, faltava-lhe a dignidade da autosuficiência, e como todas as coisas na Terra, era simplesmente parte de uma comunidade, uma unidade pendurada de um conjunto de apartamentos, uma porção de uma multidão. [...] É bastante difícil descrever qualquer um dos mundos Cósmicos a um terráqueo nativo, visto que não se trata tanto de uma descrição de um mundo, mas de um estado de espírito. Os Mundos Cósmicos - uns cinqüenta, primeiramente colônias, mais tarde domínios, mais tarde nações - são extremamente diferentes entre si num sentido físico. Mas o estado de espírito é praticamente o mesmo em todos eles. É algo que surge de um mundo originariamente incompatível com a espécie humana, todavia habitado pela nata das pessoas difíceis, diferentes e ousadas. Para se dizer numa única palavra, esta palavra é “individualidade.” Há o mundo de Aurora, por exemplo, a três parsecs da Terra. Foi o primeiro planeta colonizado fora do sistema solar, e representou a aurora das viagens interestelares.  Daí o seu nome. Possuía ar e água para o começo, talvez, mas pelos padrões da Terra era rochosa e infértil. A vida vegetal que realmente existia, formada por um pigmento amarelo esverdeado completamente diferente da clorofila e não tão eficiente quanto esta, dava às regiões comparativamente férteis um aspecto bilioso e desagradável aos olhos desacostumados. Não havia nenhuma vida animal mais alta do que a unicelular, bem como a equivalente à bactéria. Nada perigoso, naturalmente, visto que os dois sistemas biológicos, o da Terra e o de Aurora, não possuíam qualquer relação química. Aurora tornou-se, bem gradativamente, um canteiro. Sementes e árvores frutíferas foram as que chegaram primeiro; depois, arbustos, flores e grama. Em seguida, grandes quantidades de gado. E, como se fosse necessário impedir uma cópia demasiadamente fiel do planeta-mãe, vieram também robôs positrônicos para construírem as mansões, formarem as paisagens e instalarem as unidades de força. Em resumo, para fazerem o trabalho e tornarem o planeta verde e humano.  Havia o luxo de um mundo novo e reservas minerais ilimitadas. Ha: via o excesso esplêndido de energia atômica instalada em novas fundações com apenas milhares, ou, no máximo, milhões, e não bilhões, de pessoas para servir. Havia o imenso florescer da ciência física, em mundos onde havia espaço para ela. [...] Simplesmente havia uma falta indefinível da sociabilidade humana -ainda que azeda e escassa, às vezes - imposta com tanta força aos formigueiros da Terra. [...] - A Terra - disse - está, em essência desprotegida contra nós, se evitarmos aventuras militares imprevisíveis. A unidade econômica é realmente uma necessidade, se pretendermos evitar estas aventuras. Deixe a Terra perceber o quanto sua economia depende de nós, das coisas que só nós podemos lhe fornecer, e não haverá mais essa conversa de espaço vital. E se nos unirmos, a Terra jamais ousará nos atacar. Ela trocará suas aspirações estéreis por motores atômicos - ou não, como quiser. (Isaac Asimov, O futuro começou). 

A NATUREZA DE TERESA FILÓSOFA – Atribuído ao escritor e filósofo francês Jean Baptiste de Boyer, Marquês d´Argens (1704-1771), o anônimo romance Teresa Filósofa – clássico erótico do século XVIII -, traz a seguinte reflexão sobre a Natureza: “[...] – Sobre a Senhora Natureza? – retomou o Abade. – Palavra de honra, logo sabereis tanto quanto eu sobre ela. É um ser imaginário, é uma palavra vazia de sentido. Os primeiros chefes religiosos, os primeiros políticos, atrapalhados com a ideia que deviam dar ao público sobre o bem e o mal moral, imaginaram um ser entre Deus e nós, que transformaram no autor de nossas paixões, de nossas doenças, de nossos crimes. De fato, sem esse socorro, como teriam eles conciliado os seus sistemas com a bondade infinita de Deus? Donde teriam eles dito que nos vêm essas vontades de roubar, de caluniar, de assassinar? Por que tantas doenças, tantas enfermidades? O que fizera a Deus esse infeliz aleijado das pernas, nascido para rastejar na terra durante toda a sua vida? A isto, um teólogo nos responde: são os efeitos da natureza. Mas o que é essa natureza? Será um outro Deus que não conhecemos? Agirá ela por si mesma, independentemente da vontade de Deus? Não, diz ainda de forma seca o teólogo. Como Deus não pode ser o autor do mal, este somente pode existir por meio da natureza. Que absurdo! Será da vara que me bate que devo me queixar? Não será daquele que dirigiu o golpe? Não é ele o autor do mal que sinto? Por que não convir, de uma vez por todas, que a natureza é um ser imaginário, uma palavra vazia de sentido, que tudo é de Deus, que mal físico que prejudica a uns serve para a felicidade dos outros, que tudo é bem, que não há nada de mal no mundo considerando a Divindade, que tudo o que se chama bem ou mal moral somente tem relação com o interesse das sociedades estabelecidas entre os homens, mas tem relação com Deus pela vontade do qual agimos necessariamente segundo as primeiras leis, segundo os primeiros princípios do movimento que ele estabeleceu em tudo o que existe? Um homem rouba: ele faz bem em relação a ele, faz mal por sua infração à sociedade estabelecida, mas nada em relação a Deus. “Entretanto, estou de acordo que esse homem deva ser punido, embora tenha agido por necessidade, embora eu esteja convencido   de que ele não foi livre para cometer ou não cometer o seu crime. Mas ele deve sê-lo porque a punição de um homem que perturba a ordem estabelecida, mecanicamente, pela via dos sentidos, deixa impressões na alma, que impedem os maus de arriscarem o que poderia lhes fazer merecer a mesma punição e que a pena que esse infeliz sofre por sua infração deve contribuir para a felicidade geral que, em todos os casos, é preferível ao bem particular. Acrescento ainda que se pode mesmo cobrir de vergonha os pais, os amigos e todos aqueles que conviveram com um criminoso, para levar, por esta linha de política, todos os seres humanos a se inspirar mutuamente horror pelas ações e pelos crimes que podem perturbar a tranquilidade pública. Tranquilidade que nossa disposição natural, que nossas necessidades, nosso bem estar particular, incessantemente, nos levam a infringir. Disposição, enfim, que no homem somente pode ser absorvida pela educação, por meio das impressões que ele recebe na alma, por via dos outros homens que ele frequenta ou que vê habitualmente, seja pelo bom exemplo, seja pelo discurso; numa palavra, pelas sensações externas que, unidas às disposições interiores, dirigem todas as ações de nossa vida. Portanto, é preciso estimular, é preciso impor aos homens o exercício mútuo dessas sensações úteis à felicidade geral. “Agora, madame – acrescentou o Abade –, penso que sentis o que se deve entender pela palavra natureza [...]” (Jean Baptiste de Boyer, Teresa Filósofa), Veja mais aqui.


REFERÊNCIA
ASIMOV, Isaac. O futuro começou. São Paulo: Hemus, 1978.
BOYER, Jean Baptiste. Teresa filósofa. Porto Alegre: L&PM, 2000.


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