Mostrando postagens com marcador Fernando Pessoa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fernando Pessoa. Mostrar todas as postagens

sábado, agosto 01, 2026

NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

 

Imagem: Acervo ArtLAM.



 

Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para me esfarelar entre os pesadelos. E se ainda madrugava, não podia vacilar, relaxava só no somenos: o inopinado podia ser letal. E se me fiz o erro, nenhuma voz jamais ouvi, semblante algum de Ophelia a me deixar desgovernado pelos temores no socorro inútil. E não era ninguém, cada qual berrava suas convicções e as impunha sobre a vontade alheia, quem morreu foi a expectativa, esmagada pelos suplícios insones na passagem das horas e o horror de morrer todos os sonhos do mundo. Quase amanhecia me refazendo dos pedaços perdidos e se ainda fosse dia, catava: cadê a armadura? Não podia sair assim sem a carapaça da invulnerabilidade, à toda prova, vigilante: a ocasião fazia o golpe heteróclito. E nem sabia quando recuar, ou atacar em marcha, pisada firme, percepção ubíqua, porque meus olhos implacáveis se perdiam pelas margens movediças das viagens vicárias no peito aberto. O corpo desadormecia, hora de espertar a alma; pegava a máscara e ia à luta: a vida é guerra! Idioleto em dia às saudações do ermo, porque os da estima, tudo perdido alhures; o extraordinário não-acontecido. Tudo isso era muito pungente e entortou-me o emotivo, todo retorcido. Ora, ora. Havia apenas o presságio de outros eus afogados na ode marítima. Nada mais que um simples guardador de rebanhos e um poema em linha reta singrava os céus para que não mais tivesse os confins da terra, a sorte que me cabia e precisava suportar a dor Whitman. Depois da ascese o interlúdio da circumambulação, a paz efêmera no sorriso da iniciação. Quem me dera fosse só Fernando, um pastor amoroso apascentando meus demônios na cabalística solidão, solitude: liberdade é isolamento. Ah, não seria meu aniversário, muito menos ano novo e me comovia com o desassossego de Bernardo, que saiu apressado da tabacaria porque alguém falou de amor. Nenhuma notícia de Álvaro e Caieiro fugiu no inverno, nem o paradeiro de Reis, nem um só, cada e todos cúmplices e o que havia de belo subestimava o nonsense. O que é o amor senão viver plenamente de tudo que restou à mão espalmada, já que os sortilégios se foram porque havia uma esperança no horizonte escancarado. Sim, sou minha própria ilha povoada pelos tantos que em mim coabitavam. Até mais ver.


Primo Levi: É preciso que nos ouçam: para além da nossa experiência pessoal, testemunhamos coletivamente um evento fundamental e inesperado — fundamental justamente por ser inesperado, por não ter sido previsto por ninguém. Aconteceu; logo, pode acontecer novamente. Esse é o cerne do que temos a dizer. Pode acontecer, e pode acontecer em qualquer lugar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jenny Holzer: Como você se resigna diante daquilo que jamais se concretizará? Você deixa de querer justamente essa coisa. Você se torna insensível. Ou então, mata o agente do desejo... Com todos os buracos em você, não há razão para definir o ambiente externo como estranho... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Phoebe Waller-Bridge: Acho que há algo de engraçado em pessoas que riem na cara das convenções ou nos surpreendem moralmente... Estou constantemente à beira de explodir em lágrimas de alegria... Veja mais aqui & aqui.

 

A MÃO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Toma o ventre da terra \ e planta no pedaço que te cabe \ esta raiz enxertada de epitáfios. \ Não seja tua lágrima a maldição \ que sequestra o ímpeto do grão \ levanta do pó a nudez dos ossos, \ a estilhaçada mão \ e semeia \ girassóis ou sinos, não importa \ se agora uma gota anuncia \ o latente odor dos tomateiros \ a viva hora dos teus dedos.

Poema da poeta são-tomense Conceição Lima (Maria da Conceição de Deus Lima – 1961-2026).

 

CONJUNÇÕES & DISJUNÇÕES - [...] A associação de signos, seja ela forte ou fraca, é o que nos distingue, enquanto humanos, dos outros animais. Mais do que isso, é o que nos torna seres complexos, problemáticos e imprevisíveis. [...] As culturas chamadas primitivas criaram um sistema de metáforas e de símbolos que, como mostrou Lévi-Strauss, constituem um código de símbolos, ao mesmo tempo sensíveis e intelectuais: uma linguagem. A função da linguagem é significar e comunicar os significados, mas nós, os homens modernos, reduzimos o signo à mera significação intelectual e a comunicação à transmissão da informação. Esquecemos que os signos são coisas sensíveis e que operam sobre os sentidos. O perfume transmite uma informação que é inseparável da sensação. O mesmo sucede com o sabor, o som e as outras expressões e impressões sensoriais. O rigor da ‘lógica sensível’ dos primitivos nos fascina por sua precisão intelectual; não é menos extraordinária a riqueza de percepções: onde um nariz moderno não distingue senão um cheiro vago, um selvagem percebe uma gama definida de aromas. O mais assombroso é o método, a maneira de associar todos esses signos até tecer com eles séries de objetos simbólicos: o mundo convertido numa linguagem sensível. Dupla maravilha: falar com o corpo e converter a linguagem num corpo [...]. Trechos extraídos da obra Conjunctions and Disjunctions (Arcade, 2015), do poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano Octavio Paz (Octavio Paz Lozano – 1914-1998), reunindo ensaios que examinam a dualidade entre o corpo e o não-corpo (mente, alma e espírito), comparando as visões de diferentes culturas do Oriente e do Ocidente, abordando temáticas como a relação corpo e alma, na indagação de como cada civilização define e une ou separa a matéria física e o espírito; o contraste entre tradições asiáticas religiosas, como o budismo e o taoísmo, com o cristianismo ocidental; e o erotismo e ascetismo, no tocante à aceitação ou negação do corpo nas práticas sociais e religiosas, discutindo questões acerca do signo social, medindo a temperatura espiritual e política dos sinais visíveis e costumes de uma sociedade; e analisando a modernidade, sob a perspectiva da perda das harmonias tradicionais entre o homem, a natureza e o cosmos. Este prolífico autor desenvolveu sua escritura pelos mais diversos gêneros literários, a ponto de ser contemplado com o Nobel de Literatura de 1990. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE NÉLIDA PIÑON - Aprendo a amar. Uma arte difícil, nenhuma norma me orienta... A memória é frágil. Consulto suas fontes no afã de defender meus haveres... Se a imaginação edifica enredos de amor, o corpo fatalmente sofre seus efeitos... Pensar é um dos atos mais eróticos da vida de uma pessoa... Só envelhece quem vive... Pensamento da escritora Nélida Piñon (Nélida Cuíñas Piñón – 1934-2022), a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (ABL) e aplaudida por desenvolver em suas obras uma linguagem poética e requintada, calcada na estrutura narrativa. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DIREITO AO SEXO – [...] O sexo, que concebemos como o mais privado dos atos, é, na realidade, algo público. Os papéis que desempenhamos, as emoções que sentimos, quem dá, quem recebe, quem exige, quem serve, quem deseja, quem é desejado, quem se beneficia, quem sofre: as regras para tudo isso foram estabelecidas muito antes de chegarmos ao mundo. [...] Fomos criados para temer o "sim" que habita em nós — nossos anseios mais profundos. No entanto, uma vez reconhecidos, aqueles que não favorecem o nosso futuro perdem o seu poder e podem ser transformados. O medo dos nossos desejos faz com que pareçam suspeitos e lhes confere um poder indiscriminado, pois reprimir qualquer verdade é dar-lhe uma força insuportável. O receio de não conseguirmos superar as distorções que possamos encontrar em nós mesmos mantém-nos dóceis, leais e obedientes, definidos por fatores externos. [...] De fato, o que chama a atenção na revolução sexual — e é por isso que ela foi tão determinante para a política de uma geração de feministas radicais — é o quanto permaneceu inalterado. Mulheres que dizem "não" continuam querendo dizer "sim", e mulheres que dizem "sim" continuam sendo vistas como vadias. Homens negros e pardos continuam sendo tachados de estupradores, e o estupro de mulheres negras e pardas continua não contando. As garotas continuam "pedindo por isso". Os garotos continuam tendo de aprender a "dar isso". [...] O feminismo não é uma filosofia, nem uma teoria, nem mesmo um ponto de vista. É um movimento político para transformar o mundo a ponto de torná-lo irreconhecível. Ele pergunta: como seria acabar com a subordinação política, social, sexual, econômica, psicológica e física das mulheres? E responde: não sabemos; vamos tentar e ver. [...] O feminismo não pode se permitir a fantasia de que os interesses sempre convergem, de que nossos planos não terão consequências inesperadas e indesejáveis, e de que a política é um lugar de conforto. [...] A ideia central da interseccionalidade é que qualquer movimento de libertação – o feminismo, o anti-racismo, o movimento laboral – que se concentre apenas naquilo que todos os membros do grupo relevante (mulheres, pessoas de cor, a classe trabalhadora) têm em comum é um movimento que servirá melhor os membros do grupo que são menos oprimidos.[...] Trechos extraídos da obra The Right to Sex: Feminism in the Twenty-First Century (Farrar, Straus and Giroux, 2021), da filósofa e escritora bareinita Amia Srinivasan, professora da Universidade de Oxford.

 

A ARTE DE NANÁ VASCONCELOS

[...] O berimbau é muito espiritual e virou uma missão pra mim. Como eu era baterista, comecei a pensar o berimbau como uma bateria. Eu fazia outros ritmos que não eram do berimbau. [...] O berimbau virou o carro-chefe do negócio, o maestro da coisa, o pai grande. O berimbau nunca foi utilizado como instrumento, porque era e é um elemento da capoeira. O centro da história é a dança. O berimbau está lá para acompanhar e nunca foi utilizado como instrumento solista. Mas essa coisa veio pra mim. [...] O berimbau que me fez pensar em sons, em música. Pra mim tudo é música. A cuíca não foi somente feita para o samba. Ela é um instrumento. [...] ele simplesmente mudou a minha concepção, a minha maneira de ouvir. Ele me levou ao silêncio. O berimbau é muito zen. [...] O primeiro instrumento é a voz e o melhor é o corpo [...].

Trechos extraídos de uma entrevista concedida à revista Trip (2006), pelo premiado e aplaudido músico percussionista Naná Vasconcelos (Juvenal de Holanda Vasconcelos – 1944-2016), que ainda expressa: Quando você aprende teoria musical por livros, precisa sempre consultar os textos. Quando você aprende com o corpo, é como andar de bicicleta. Seu corpo se lembra... Na sua discografia estão os álbuns Africadeus (1973), Amazonas (1973), Saudades - concerto de berimbau e orquestra (ECM, 1979), Zumbi (1983), Nanatronics (1985), Contando Estórias (1994), Storytelling (1995), Fragments: Modern Tradition (1997), Contaminação (1999), Saravah compilation (1999), Minha Lôa (2002), Chegada (2005), Trilhas (2006), Sinfonia & Batuques (2011), entre outros. Além disso deixou trilhas sonoras para os filmes Procura-se Susan Desesperadamente, de Susan Seidelman; Down By Law, de  Jim Jarmusch; Amazonas, de Mika Kaurismäki; Pindorama, de Arnaldo Jabor e O menino e o mundo. Outra de suas frases imortalizadas: Mesmo se eu morrer, não quero ninguém chorando, quero muito batuque, muito barulho, porque, se vocês fizerem silêncio, vou pensar que vocês estão dormindo e vou fazer como em casa, com minha esposa. Quando ela está dormindo, faço barulho para ela acordar. É a cigarra. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


ASCENSO FERREIRA – Tributo ao poeta Ascenso Ferreira (Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira – 1895-1965), reunindo seus poemas e considerações acerca de sua obra por personalidades como Manuel Bandeira, Ariano Suassuna, Raimundo Alves de Souza, Abel Fraga e da companheira dele, Lourdes Medeiros, bem como dos ditos, acontecimentos, pilhérias e situações jocosas em que se metera tanto em Palmares, como Paquevira, Recife e entre os familiares de Juscelino Kubitschek, entre outras. Confira aqui.

 


LITERATURA DE CORDEL – Os versos de cantadores, repentistas, violeiros e emboladores sempre estiveram presente na minha desde menino, uma vez que meu pai, o poeta Rubem de Lima Machado, era um dos aficionados que colecionava desde discos, fitas cassetes, livros, folhetos e publicações do gênero, promovendo sempre o encontro de cordelistas para o desafio dos motes na peleja das glosas. Neste texto narro o fascínio que me arrebatou desde menino, ao presenciar a arte dos nossos poetas populares e de ser contagiado por esta manifestação da poética nordestina. Confira aqui.

 


ANCESTRALIDADE NOS DEBATES CONTEMPORÂNEOS – Reunião de estudos e debates acerca da temática ancestralidade, com reflexões de Rigoberta Menchú, Kaka Werá Jecupé, Davi Kopenawa Yanomami, Nnedi Okorafor, Renato Noguera, Mariela Tulián, Sam Harris, Rosa Mechiço, Kate Kretz, Giva Silva, Silvia Rivera Cusicanqui, entre outros. Confira aqui.


 

A ARTE DE EVANDRO NICOLAU – Destaque para a arte do artista, professor e pesquisador Evandro Carlos Nicolau, que se apresentando usando suas próprias palavras: é artista das linguagens e das artes todas, em busca de colaborar para um mundo livre, saudável e são! Ele é autor do livro A Filosofia pelo Desenho, criador da plataforma UBQUB e editor dos blogs Projeto Ócios do Ofício, Eros para livres e Desenho Manifesto, nos quais reúne toda sua diversidade criadora, que vão desde suas composições musicais autorais à performances visuais. Confira aqui.

 


DIÁRIO DOS ZÉS - Reunião de causos, hestórias, contos e loas sobre o cotidiano exótico dos hilariantes notáveis Zés, habitantes de um excêntrico local denominado Alagoinhanduba, o lugar onde o mundo todo se revela e tudo pode acontecer. Confira aqui e veja mais aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui.


 


segunda-feira, março 20, 2023

ALICIA KOZAMEH, ANDREE CHEDID, PRUDHOMME, HEYSE & O BICHO DO VAU

 


Ao som dos álbuns Vinha da Ida (2017) e Apneia (2022), da instrumentista, cantautora, circense e bacharel em sociologia, Livia Mattos.

 

TRÍPTICO DQP: Das lâminas e labaredas de Érebo... - O poeta sentiu a lâmina do tempo no corte profundo: a cicatriz guardava o sangue perdido e o fez singrar qual Odisseu pela névoa funesta de pesadas nuvens. Sabia desde Homero: A noite é terrível sobre os mortais infelizes. Não era o seu caso e nem se intimidou: enfrentou as labaredas de Érebo que emergia do caos e do esquecimento, saído das profundezas do Aqueronte com o coro das moiras e horas, fugindo do cárcere no Tártaro. Visível o seu ressentimento pela emboscada urdida por Nix, havia se libertado sozinho e era a primeira vez depois da Titanomaquia. Com ele as trevas da primeva escuridão nos ventos das belas tranças de Circe. Era então o vulcão da Ilha de Ross prestes a explodir sua erupção na Antártida, se agigantando como a cratera de Marte a mostrar o rio da morte e a fronteira entre dois mundos. Trouxe mulheres e homens despidos de seus legados, regurgitando a memória e lamuriando o luto dos vivos. Falsamente gentil ofereceu a imortalidade dos deuses por ser o universo, senhor dos cosmos e dos buracos negros. Não havia como escapar, todos haviam de passar por ele, como afirmara Hesíodo e os ditos das órficas e rapsódicas. Viu-se então Sully Prudhomme: Na minha alma trava-se um combate sem vencedor entre a fé sem prova e a razão sem encanto... Mais dissera Paul Heyse: Se a cabeça e o coração se contradizem, o coração acabaria por dizer: a pobre cabeça cede sempre, porque é a mais prudente... Um descuido do deus e subiu ao Monte como se recitasse o Poema em Linha Reta de Pessoa. E no topo cerziu seus poemas com a queimadura: transformava a dor em grandiosa mudança. Era como se salvasse aos primeiros raios da manhã. Sabia-se ainda vivo e voou nos versos de itinerância: até que tudo se esvaia na navalha do tempo...

 


Apocalipse lírico... - O que nunca tive não faz falta nenhuma, nem mesmo do que perdi ou ignorei. O que sei de mesmo: tudo pra ser revirado e refeito. Sim e refaço todas as horas de todos os dias. Em cada amanhecer já sou outro, tudo ficando para trás consumindo-se nos instantes e já era. Guardo comigo as palavras de Alicia Kozameh: Pego na mão o que sinto como beleza e, então, posso incluir a música que me é indispensável e o jogo de palavras... É sim o que me basta, os tons das cores musicais em cada uma das minhas vértebras. Aos poucos esqueço até de mim mesmo, só recomeço nos versos do Poema final de Andree Chedid: Onde estão as palavras, \ O fogo eterno, \ O poema final? \ A fonte da vida?... Esteja sabe-se lá onde, jamais serei o mesmo e até nem precise existir depois da desconstrução por que sou apocalipse lírico...


 

O bicho do Vau... - Um choro de menino e perscruto à toa. Logo uma das lavadeiras do lajedo: Não vá! Demorei a entender, até que ela, pálpebras baixas, olhar no vazio: Eu já tinha nascido quando a Sinhá nos trouxe para serviçais na casa grande. O coronel marido dela nunca gostou de mim: era como se eu fosse uma afronta e desconfiava do segredo da minha mãe, seria ele meu pai. Confesso: também não gostava dele e cresci assim, até tomar corpo e ele abusar de mim na volta do Vau. Fui mandada pra longe, escondida à sete chaves e tomaram-me o recém-nascido jogado na enchente do rio Jacuípe. Quantos não se afogaram investigando os gemidos pungentes. Hoje meu filho ainda chora nas profundezas do açude. É a maldição que atormenta todos aqueles que querem encontrá-lo. Silenciou... Fitou-me com insistência e me disse KateBornstein: Acho que há pouca compaixão no mundo agora, então precisamos desenvolver a nossa própria para compensar isso... Pude sentir sua dor e dela apenas o sumiço e as fatídicas notícias. Até mais ver.


Veja mais aqui.

 


segunda-feira, agosto 01, 2022

ANN BRASHARES, MALALA YOUSAFZAI, MEIR SHALEV & MIRÓ DA MURIBECA

 

 

TRÍPTICO DQP: De máscaras & personas... - Ao som do Concert Excerpts @International Guitar Festival Ferran Sor (2020), da violonista espanhola Anabel Montesinos. - O que vejo e sou: a máscara traz a persona que se mostra no palco do mundo e no cenário da vida. A aparência preferida almeja protagonizar entre os arquétipos de Jung e o senso diante da escolha entre os princípios de Freud: o prazer e a realidade. A lucidez é um detalhe e não precisa ser sisuda, como diria Nise da Silveira, seria uma chatura por esconder o real sob o ideal. E essa manipulação não seria lá tão saudável, ou quem capaz do Poema em linha reta ou da Tabacaria de Pessoa, enquanto visualizasse aquela que Carl Rogers colocou no centro da fenomenologia-existencial. Talvez seria melhor considerar o que dissera a escritora estadunidense Ann Brashares: Talvez haja mais verdade em como você se sente do que no que realmente acontece... Talvez a verdade seja que há um pouco de perdedor em todos nós. Ser feliz não é ter tudo em sua vida perfeito. Talvez seja sobre juntar todas as pequenas coisas... Ou atentar para o que escrevera o escritor israelense Meir Shalev: Se ao menos pudéssemos nos livrar de todas as coisas mortas dentro de nossos próprios corpos e almas!... Cada qual seu repertório de representações no ludo vital, sabendo-se de antemão que na cena, diz Stanislavski, deve-se expor o que vem de dentro para não ser um histrião no meio dos outros. É que por trás da máscara mil semblantes podem reverberar...

 


Dum lado a outro a vida se manifesta... – Imagem: arte da sulcoreana Stella Im Hultberg. - Um clique, o estalo, zás. Dentro: um som, tons. Daí sílabas e sonoridades: uma palavra, uma sinapse neuronal, zis significados – senão todos à mercê da percepção. Disso um dedo, o sinal e quantos sentidos (do caos, quantas expressões por descobrir). O simples ato apenas sugeriu e tudo, exatamente tudo pode acontecer: um fio puxa outro, teias. Não é só uma coisa ou outra, de um ponto: todas as ideias – rizomas, galhos dendríticos pulsantes escorrem pelo axônio: as terminações atraem umas às outras, as escolhas, imantações. Quanto poderia se dizer de um simples ato: vibrações ecoam, reverberam algures. E se uma emergiu aqui pode ser outra noutra percepção. Dita o poder de síntese de quem se expressa, a imaginação de quem perceber. Não só, cabe o mundo inteiro em uma só palavra, quanto mais em duas, três, seis. E se uma fonte expede sêxtuplas rajadas de gotas entre muitas outras que circundam e desembocam na emersão do universo à seletividade, níveis da compreensão. É só um triz, apenas, em meia dúzia de jatos com outros pingos condensados, aleatórios ou não, quantas emissões: em cada gota significados implícitos; e, se reunidas, múltiploutros. Ou como diz Cees Nooteboom: O mundo é uma referência cruzada sem fim... Cada período da história tem seus próprios castigos, e o nosso tem uma infinidade... Essa é a diferença entre deuses e homens. Os deuses podem mudar a si mesmos; humanos só podem ser mudados... Quem fala e quem ouve entre empatias e dissonâncias, transmissões e retransmissões: dum lado a outro a vida se manifesta.

 


D’agosto e lá se vai... - Imagem: arte da sulcoreana Stella Im Hultberg. - Era eu menino pelos quatro anos de idade e bateram no portão de quase derrubá-lo – era o início do tenebroso período ditatorial do golpe militar de sessenta e quatro. Começou no primeiro de abril e me assustou: botas expunham fuzis das fardas, vasculhando salas, quartos e quintal. Não sabia o que queriam, só sei que todos os dias marchavam bravos lá em casa e eu, toda vez, entre um dos braços de minha mãe grávida, agarrado à minha irmã. Lembro certa vez ela gritou que era agosto e eles nem consideraram: estava prestes a dar à luz. Lembrei-me porque li A história de mim de Graça Lins, como se lesse um poema de Miró da Muribeca (1960-2022): olhei para o passado / as folhas dos calendários / caindo / é preciso plantar cedo sua árvore / pra mais tarde ter uma sombra / que lhe agasalhe... Agora novamente agosto como o poema de Tchello d’Barros: O tempo desenha na face / O alto custo de um imposto / Pois lento nos dá outro susto / Chegamos a outro agosto / Posto que o destino é vasto / E visto o que está posto / Este viver tão sucinto / Nesta sina a contragosto / Dias semanas e meses / Somam em si um desgosto / No raso espaço do espelho / Os anos esculpem seu rosto... e eu sozinho conto de Emily Brontë: Deixe-me a sós, que preciso pensar; enquanto penso, não sofro… Do que passou e o presente, lembranças tão vivas como ecoassem agora. Até mais ver.

 


Um livro, uma caneta, uma criança e um professor podem mudar o mundo. A diversidade garante que crianças possam sonhar, sem colocar fronteiras ou barreiras para o futuro e os sonhos delas. Vamos pegar nossos livros e canetas. Eles são nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo. A educação é a única solução. A educação é o poder das mulheres.

Pensamento da ativista paquistanesa Malala Yousafzai. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


sábado, dezembro 25, 2021

JOAN DIDION, LATIF PEDRAM, NÚRIA AÑÓ & WALTHER MOREIRA SANTOS

 

 

TRÍPTICO DQP – Labirinto Verbo... – Ao som do álbum Dance: Piano Collection (Chandos, 2008), da pianista britânica Kathryn Stott. – A vida era um salto no quintal, não mais, hoje será de mim no mapa da jornada pelas cartas de tarô: um louco de pedra na porta como se eu fosse o carro da desgraça ladeira abaixo, justiça alguma e a roda da fortuna nas garras do carcará com seu ataque para roubar o vigor dos fracos. Francamente era nada mais que o enforcado suspenso no tempo com o golpe na torre da destruição. Logo apareceu o poeta Virgilio para meu espanto a me mostrar sobre a porta da caverna da sibila de Cumas o desenho da mulher que logo se tornou viva e era a papisa que chegava com o cometa Leonard – ou melhor, como quem esculpida sobre as lajes da catedral para me levar no passo de Yu com a dança de Teseu pelas pedras brancas e azuis escuras da catedral de Amiens, enquanto me purificava para que eu tivesse acesso ao seu lar na The Lotus Eaters. Hem? Lá fez a revelação de tesouro incalculável oculto no seu ventre – o tosão de ouro de Cólquida, as maçãs de ouro do jardim das Hespérides, o machado de dois gumes, mais e mais. E não demorou muito para ser a puta com toda solenidade da cama na viagem iniciatória ao centro escondido de seu clitóris. Muito foi o prazer a percorrer de mãos dadas pelas espiras em degraus do zigurate, alegando me salvar do papa demoníaco, do anjo negro, do mago sobrecarregado de embuste, do imperador corrupto. Eu mais que gostando, como poderia, não sei, era nada mais que a imperatriz a me levar pro seu palco de Madonna sussurrando Celebration ao meu ouvido: I think you wanna' come over… and if it makes you feel good then I say do it, / I don't know what you're waiting for…Feel my temperature rising / There's too much heat I'm gonna' lose control / Do you want to go higher, get closer to the fire, / I don't know what you're waiting for… E deitou-se no chão frio e me fez tirar suas botas, para agarrar-me loucamente e depois me arrastar até ficar nua na cama do palácio cretense de Minos. Era ali Pasifae como se eu fosse o seu touro priápico indomável para todos os orgasmos. E nem bem o primeiro gozo emergiu e ela me deu o fio de Ariadne para enfrentar o minotauro que sou no meu próprio labirinto, a me fazer o enamorado tolo que ia pelos duzentos metros de Chatres, seguindo as suas pegadas que deram num templo de Khajuraho com o aviso de que eu devia encontrar o eremita cego em Angkor. Não era isso que eu queria e ela era uma vairocana no centro da mandala dupla, feito uma japonesa budista de Shingon para me dar o lótus de oito pétalas dos confins tibetanos e ao comê-las logo me apareceu a virgem lua que me deu da sua vagina linda o círculo mágico do labirinto de Leonardo da Vinci. Ao me dar nasceu uma estrela esperança pelas três dimensões de dédalo helicoidal, a me embriagar com a dança em círculos concêntricos do inextrincável segredo de Salomão e as doutrinas ascético-místicas e cabalísticas do ato. Quando olhei direito era ela a alquimista temperante a me oferecer a mandala escondida na caverna do seu sexo para eu poder encarar a morte no templo de Borobudur, onde o Homem de Java me esperava para que ela se tornasse a montanha de Hsinhsien, sim, aquela de Wuchang esperando sentada o seu marido que foi pra guerra e nunca mais voltou. Não deu para ver que o Sol raiava e o julgamento seguia célere na janela do mundo. Ao me ver sem saber o que fazer, ela me confidenciou como se fosse Joan Didion: Eu já perdi contato com algumas pessoas que eu costumava ser. Para libertar-nos das expectativas dos outros, devolver-nos a nós mesmos - aí está o grande e singular poder do respeito próprio. Você precisa escolher os lugares dos quais não irá se afastar. Era para eu saber que, na vida, o que se faz, apenas é cavar o próprio buraco.

 


A tertúlia no Deserto Feliz... - Imagem da cenógrafa, ilustradora, performer e artista multimídia Dora Longo Bahia. - Dali a minha cidade era a mesma tal e qual aquele Deserto feliz (2007) do Paulo Caldas: mesmices, vidas bestas, tráfico de animais e de vidas, exploração sexual e o marasmo das doentias pensagens dos que acham que vivem. Estava só e segui meu caminho. Ao dobrar a esquina apareceu-me Jéssica como tantas outras, a me oferecer seu corpo púbere. Estava faminta, dei-lhe um prato de comida e me contou de sua fuga de estupro do padrasto, em busca de um alemão Mark em Berlim. Quando menos esperei, ela não estava mais ali de não mais sabê-la por meses e anos. Apareceu-me, então, Bernardo Soares à procura dela. Não era alemão, pelo sotaque lusitano... Apresentou-se e insistiu para saber onde ela estava, eu não sabia e perguntei por Fernando e ele me disse que o ortônimo estava em tertúlia ébria com seus muitos heterônimos, da qual ele se vira excluído e reduzido à leitura apenas do seu desassossego, mais nada. Não sabia ele que eu sabia dos mares de Admmauro. Quando mencionei, puxou-me pelo braço e no bar mais próximo pediu uma bebida. Ingeriu e pediu outra e mais outra como se aprontasse para um pugilato. Logo se sentou numa mesa armado de copo e garrafa para lamentar o seu desespero – a paixão por ela. Disse-me ser um trivial ajudante de guarda-livros, simples empregado, solitário alfacinha e autor de um único livro inútil e que, para ele, nada valia por ser uma autobiografia sem fatos de quem nunca existiu, tediosa, trágica e indiferente à estética, próprio dos visitantes das casas de pasto. Se um jogo de máscaras, logo entendi, pareceu ter entrado num paroxismo inquisidor: Você conheceu o poeta sul-africano Alexender Search? Soube do filósofo neopagão António Mora que morreu doido num hospício de Caiscais? Já leu o Tratado da Negação e os Princípios da Metafísica Esotérica de Raphael Baldaia? E falou sem parar sobre uns tais Charles, o James Search e o Anon, um certo Jean Seul, o Pacheco, o Pêro Botelho, o Thomas Crosse, nomes e outros nomes que sequer antes ouvira, tão loquazes quanto a sua eloquência. Quase nem entendia direito o que questionava e contava deste ou daquele, ora. Por fim, o olissiponense, quase adernando com sofreguidão de enrolar a língua baça da Baixa pro Tejo, me disse: Se um homem escreve bem só quando está bêbado, dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser que seu fígado sofre com isso, respondo: o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto... Abruptamente saiu gritando: fogo!

 


O fogaréu de Sheila... - Imagens: a arte da escultora, fotógrafa e artista visual Keila Alaver. - As labaredas eram reais naquela onírica situação. Era como se tudo ardesse com os ventos agourentos de Poi-i-Komri. E não era Gengis Khan pisoteando as páginas arrancadas dos livros da mesquita de Bukara, nem Augusto mantendo suas ideias políticas na Roma antiga contra as obras oraculares e proféticas, ou o cumprimento da ordem do sultão para os que eram contrários ao Alcorão. Não, não era. Também não era a biblioteca do Quixote benzida pelo escrutínio da fúria inexorável e incendiária do padre, do barbeiro e da sobrinha do autor, nem o final do Nome da Rosa de Umberto Eco com o incêndio da biblioteca do mosteiro e o bibliotecário cego Burgo se desesperando com as chamas da fogueira de livros. Não, não era. Muito menos estudantes levados por Goebbels depurando mais de 25 mil livros na limpeza do Ato contra o Espírito Não Germânico, nem aquela triste queima dos 55 mil livros do centro cultural Hakim Nasser Kosrow Balki. Não. Nem o incêndio da biblioteca de Alagoinhanduba, nem aquela diária da Fenelon Biblioteca. Logo ouvi para minha surpresa: Olheu! Era Sheila toda frochosa carregando o anátema dos seus enciumados oitocentos mil maridos. Era ela toda piromaníaca nas minhas ideias a me deixar a par da ocorrência: uma diretora Savonarola do colégio grifado, queria por que queria repetir o incêndio de Persépolis e conseguiu chamar atenção para se eleger prefeita da cidade. Queimou todos os livros da biblioteca e não foi a primeira vez naquela escola. Eu que me inquietava com seu útero imanizante e abrasado, subitamente fui surpreendido por um poetaguado intrometido que imediatamente recitou pra ela: Essa moça é cangaceira / bota o rifle na cintura / enfrenta a feroz criatura / na maior das desgraceiras / se brincar é cachaceira / de tomar o que vier / quem pensa que é mulher / logo vê que é bronqueira. / Essa moça é bandoleira / de endoidar qualquer um / bota amante no jejum / solta vai pela buraqueira / de deixar o cabra apaixonado / com os pneus tudo arriado / amalucado na maior leseira. Ela então fitou o impetuoso dos pés à cabeça, deu-lhe as costas e me entregou um saco contendo as obras do premiado escritor e ilustrador Walther Moreira Santos: O doce blues da salamandra (MXM, 2000), Um certo rumor de asas (Nova Prova, 2003), Helena Gold (Geração, 2003), Dentro da chuva amarela (Geração, 2006), O Ciclista (Autêntica, 2008), O metal de que somos feitos (Cepe, 2014), Todas as coisas sem nome (Cepe, 2017) e Arquiteturas de vento frio (cepe, 2017). Enquanto conferia atordoado pela presença dela, apareceu-me Latif Pedram que jamais conhecera e na hora pensei ser mais um dos apaixonados dela: Nós, os poetas e os escritores afegãos, somos cativos desta encarnação da estupidez que se abateu sobre nós como um manto de chumbo. Quem era? Aquele mesmo que foi o fundador e líder do Partido do Congresso Nacional do Afeganistão e do Conselho do Afeganistão do Tajiquistão! Até ele? Parecia mais mangando da desgraça do nosso genocídio Fecamepa do Coisonário. Ela que me disse quem era e aproveitou para me recitar um poema de Alex Polari: Nossa geração teve pouco tempo / começou pelo fim / mas foi bela a nossa procura / ah! Moça, como foi bela a nossa procura / mesmo com tanta ilusão perdida / quebrada, / mesmo com tanto caco de sonho / onde até hoje / a gente se corta. Era como se ouvisse os trechos do The Dead Writer (Babelcube, 2018), da escritora espanhola Núria Añó: Prefiro estar do lado dos perdedores, das pessoas incompreendidas ou solitárias, em vez de escrever sobre os fortes e poderosos. Uma espera sem fim que aceita como outra parte do que eles chamam de amor. Era ela e esta a minha cidade, Valuna, porque não há mais Bacuna, mulher amada. Até mais ver.

 

E mais:

CANTARAU & OUTRAS POETADAS

POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

FAÇA SEU TCC SEM TRAUMAS – CURSO & CONSULTAS


 
Vem aí o Programa Tataritaritatá. Enquanto isso, em 2022: 40 anos de ArtLAM & 20 anos do TTTTT. Veja mais aqui.

 


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...