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sábado, agosto 01, 2026

NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

 

Imagem: Acervo ArtLAM.



 

Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para me esfarelar entre os pesadelos. E se ainda madrugava, não podia vacilar, relaxava só no somenos: o inopinado podia ser letal. E se me fiz o erro, nenhuma voz jamais ouvi, semblante algum de Ophelia a me deixar desgovernado pelos temores no socorro inútil. E não era ninguém, cada qual berrava suas convicções e as impunha sobre a vontade alheia, quem morreu foi a expectativa, esmagada pelos suplícios insones na passagem das horas e o horror de morrer todos os sonhos do mundo. Quase amanhecia me refazendo dos pedaços perdidos e se ainda fosse dia, catava: cadê a armadura? Não podia sair assim sem a carapaça da invulnerabilidade, à toda prova, vigilante: a ocasião fazia o golpe heteróclito. E nem sabia quando recuar, ou atacar em marcha, pisada firme, percepção ubíqua, porque meus olhos implacáveis se perdiam pelas margens movediças das viagens vicárias no peito aberto. O corpo desadormecia, hora de espertar a alma; pegava a máscara e ia à luta: a vida é guerra! Idioleto em dia às saudações do ermo, porque os da estima, tudo perdido alhures; o extraordinário não-acontecido. Tudo isso era muito pungente e entortou-me o emotivo, todo retorcido. Ora, ora. Havia apenas o presságio de outros eus afogados na ode marítima. Nada mais que um simples guardador de rebanhos e um poema em linha reta singrava os céus para que não mais tivesse os confins da terra, a sorte que me cabia e precisava suportar a dor Whitman. Depois da ascese o interlúdio da circumambulação, a paz efêmera no sorriso da iniciação. Quem me dera fosse só Fernando, um pastor amoroso apascentando meus demônios na cabalística solidão, solitude: liberdade é isolamento. Ah, não seria meu aniversário, muito menos ano novo e me comovia com o desassossego de Bernardo, que saiu apressado da tabacaria porque alguém falou de amor. Nenhuma notícia de Álvaro e Caieiro fugiu no inverno, nem o paradeiro de Reis, nem um só, cada e todos cúmplices e o que havia de belo subestimava o nonsense. O que é o amor senão viver plenamente de tudo que restou à mão espalmada, já que os sortilégios se foram porque havia uma esperança no horizonte escancarado. Sim, sou minha própria ilha povoada pelos tantos que em mim coabitavam. Até mais ver.


Primo Levi: É preciso que nos ouçam: para além da nossa experiência pessoal, testemunhamos coletivamente um evento fundamental e inesperado — fundamental justamente por ser inesperado, por não ter sido previsto por ninguém. Aconteceu; logo, pode acontecer novamente. Esse é o cerne do que temos a dizer. Pode acontecer, e pode acontecer em qualquer lugar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jenny Holzer: Como você se resigna diante daquilo que jamais se concretizará? Você deixa de querer justamente essa coisa. Você se torna insensível. Ou então, mata o agente do desejo... Com todos os buracos em você, não há razão para definir o ambiente externo como estranho... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Phoebe Waller-Bridge: Acho que há algo de engraçado em pessoas que riem na cara das convenções ou nos surpreendem moralmente... Estou constantemente à beira de explodir em lágrimas de alegria... Veja mais aqui & aqui.

 

A MÃO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Toma o ventre da terra \ e planta no pedaço que te cabe \ esta raiz enxertada de epitáfios. \ Não seja tua lágrima a maldição \ que sequestra o ímpeto do grão \ levanta do pó a nudez dos ossos, \ a estilhaçada mão \ e semeia \ girassóis ou sinos, não importa \ se agora uma gota anuncia \ o latente odor dos tomateiros \ a viva hora dos teus dedos.

Poema da poeta são-tomense Conceição Lima (Maria da Conceição de Deus Lima – 1961-2026).

 

CONJUNÇÕES & DISJUNÇÕES - [...] A associação de signos, seja ela forte ou fraca, é o que nos distingue, enquanto humanos, dos outros animais. Mais do que isso, é o que nos torna seres complexos, problemáticos e imprevisíveis. [...] As culturas chamadas primitivas criaram um sistema de metáforas e de símbolos que, como mostrou Lévi-Strauss, constituem um código de símbolos, ao mesmo tempo sensíveis e intelectuais: uma linguagem. A função da linguagem é significar e comunicar os significados, mas nós, os homens modernos, reduzimos o signo à mera significação intelectual e a comunicação à transmissão da informação. Esquecemos que os signos são coisas sensíveis e que operam sobre os sentidos. O perfume transmite uma informação que é inseparável da sensação. O mesmo sucede com o sabor, o som e as outras expressões e impressões sensoriais. O rigor da ‘lógica sensível’ dos primitivos nos fascina por sua precisão intelectual; não é menos extraordinária a riqueza de percepções: onde um nariz moderno não distingue senão um cheiro vago, um selvagem percebe uma gama definida de aromas. O mais assombroso é o método, a maneira de associar todos esses signos até tecer com eles séries de objetos simbólicos: o mundo convertido numa linguagem sensível. Dupla maravilha: falar com o corpo e converter a linguagem num corpo [...]. Trechos extraídos da obra Conjunctions and Disjunctions (Arcade, 2015), do poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano Octavio Paz (Octavio Paz Lozano – 1914-1998), reunindo ensaios que examinam a dualidade entre o corpo e o não-corpo (mente, alma e espírito), comparando as visões de diferentes culturas do Oriente e do Ocidente, abordando temáticas como a relação corpo e alma, na indagação de como cada civilização define e une ou separa a matéria física e o espírito; o contraste entre tradições asiáticas religiosas, como o budismo e o taoísmo, com o cristianismo ocidental; e o erotismo e ascetismo, no tocante à aceitação ou negação do corpo nas práticas sociais e religiosas, discutindo questões acerca do signo social, medindo a temperatura espiritual e política dos sinais visíveis e costumes de uma sociedade; e analisando a modernidade, sob a perspectiva da perda das harmonias tradicionais entre o homem, a natureza e o cosmos. Este prolífico autor desenvolveu sua escritura pelos mais diversos gêneros literários, a ponto de ser contemplado com o Nobel de Literatura de 1990. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE NÉLIDA PIÑON - Aprendo a amar. Uma arte difícil, nenhuma norma me orienta... A memória é frágil. Consulto suas fontes no afã de defender meus haveres... Se a imaginação edifica enredos de amor, o corpo fatalmente sofre seus efeitos... Pensar é um dos atos mais eróticos da vida de uma pessoa... Só envelhece quem vive... Pensamento da escritora Nélida Piñon (Nélida Cuíñas Piñón – 1934-2022), a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (ABL) e aplaudida por desenvolver em suas obras uma linguagem poética e requintada, calcada na estrutura narrativa. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DIREITO AO SEXO – [...] O sexo, que concebemos como o mais privado dos atos, é, na realidade, algo público. Os papéis que desempenhamos, as emoções que sentimos, quem dá, quem recebe, quem exige, quem serve, quem deseja, quem é desejado, quem se beneficia, quem sofre: as regras para tudo isso foram estabelecidas muito antes de chegarmos ao mundo. [...] Fomos criados para temer o "sim" que habita em nós — nossos anseios mais profundos. No entanto, uma vez reconhecidos, aqueles que não favorecem o nosso futuro perdem o seu poder e podem ser transformados. O medo dos nossos desejos faz com que pareçam suspeitos e lhes confere um poder indiscriminado, pois reprimir qualquer verdade é dar-lhe uma força insuportável. O receio de não conseguirmos superar as distorções que possamos encontrar em nós mesmos mantém-nos dóceis, leais e obedientes, definidos por fatores externos. [...] De fato, o que chama a atenção na revolução sexual — e é por isso que ela foi tão determinante para a política de uma geração de feministas radicais — é o quanto permaneceu inalterado. Mulheres que dizem "não" continuam querendo dizer "sim", e mulheres que dizem "sim" continuam sendo vistas como vadias. Homens negros e pardos continuam sendo tachados de estupradores, e o estupro de mulheres negras e pardas continua não contando. As garotas continuam "pedindo por isso". Os garotos continuam tendo de aprender a "dar isso". [...] O feminismo não é uma filosofia, nem uma teoria, nem mesmo um ponto de vista. É um movimento político para transformar o mundo a ponto de torná-lo irreconhecível. Ele pergunta: como seria acabar com a subordinação política, social, sexual, econômica, psicológica e física das mulheres? E responde: não sabemos; vamos tentar e ver. [...] O feminismo não pode se permitir a fantasia de que os interesses sempre convergem, de que nossos planos não terão consequências inesperadas e indesejáveis, e de que a política é um lugar de conforto. [...] A ideia central da interseccionalidade é que qualquer movimento de libertação – o feminismo, o anti-racismo, o movimento laboral – que se concentre apenas naquilo que todos os membros do grupo relevante (mulheres, pessoas de cor, a classe trabalhadora) têm em comum é um movimento que servirá melhor os membros do grupo que são menos oprimidos.[...] Trechos extraídos da obra The Right to Sex: Feminism in the Twenty-First Century (Farrar, Straus and Giroux, 2021), da filósofa e escritora bareinita Amia Srinivasan, professora da Universidade de Oxford.

 

A ARTE DE NANÁ VASCONCELOS

[...] O berimbau é muito espiritual e virou uma missão pra mim. Como eu era baterista, comecei a pensar o berimbau como uma bateria. Eu fazia outros ritmos que não eram do berimbau. [...] O berimbau virou o carro-chefe do negócio, o maestro da coisa, o pai grande. O berimbau nunca foi utilizado como instrumento, porque era e é um elemento da capoeira. O centro da história é a dança. O berimbau está lá para acompanhar e nunca foi utilizado como instrumento solista. Mas essa coisa veio pra mim. [...] O berimbau que me fez pensar em sons, em música. Pra mim tudo é música. A cuíca não foi somente feita para o samba. Ela é um instrumento. [...] ele simplesmente mudou a minha concepção, a minha maneira de ouvir. Ele me levou ao silêncio. O berimbau é muito zen. [...] O primeiro instrumento é a voz e o melhor é o corpo [...].

Trechos extraídos de uma entrevista concedida à revista Trip (2006), pelo premiado e aplaudido músico percussionista Naná Vasconcelos (Juvenal de Holanda Vasconcelos – 1944-2016), que ainda expressa: Quando você aprende teoria musical por livros, precisa sempre consultar os textos. Quando você aprende com o corpo, é como andar de bicicleta. Seu corpo se lembra... Na sua discografia estão os álbuns Africadeus (1973), Amazonas (1973), Saudades - concerto de berimbau e orquestra (ECM, 1979), Zumbi (1983), Nanatronics (1985), Contando Estórias (1994), Storytelling (1995), Fragments: Modern Tradition (1997), Contaminação (1999), Saravah compilation (1999), Minha Lôa (2002), Chegada (2005), Trilhas (2006), Sinfonia & Batuques (2011), entre outros. Além disso deixou trilhas sonoras para os filmes Procura-se Susan Desesperadamente, de Susan Seidelman; Down By Law, de  Jim Jarmusch; Amazonas, de Mika Kaurismäki; Pindorama, de Arnaldo Jabor e O menino e o mundo. Outra de suas frases imortalizadas: Mesmo se eu morrer, não quero ninguém chorando, quero muito batuque, muito barulho, porque, se vocês fizerem silêncio, vou pensar que vocês estão dormindo e vou fazer como em casa, com minha esposa. Quando ela está dormindo, faço barulho para ela acordar. É a cigarra. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


ASCENSO FERREIRA – Tributo ao poeta Ascenso Ferreira (Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira – 1895-1965), reunindo seus poemas e considerações acerca de sua obra por personalidades como Manuel Bandeira, Ariano Suassuna, Raimundo Alves de Souza, Abel Fraga e da companheira dele, Lourdes Medeiros, bem como dos ditos, acontecimentos, pilhérias e situações jocosas em que se metera tanto em Palmares, como Paquevira, Recife e entre os familiares de Juscelino Kubitschek, entre outras. Confira aqui.

 


LITERATURA DE CORDEL – Os versos de cantadores, repentistas, violeiros e emboladores sempre estiveram presente na minha desde menino, uma vez que meu pai, o poeta Rubem de Lima Machado, era um dos aficionados que colecionava desde discos, fitas cassetes, livros, folhetos e publicações do gênero, promovendo sempre o encontro de cordelistas para o desafio dos motes na peleja das glosas. Neste texto narro o fascínio que me arrebatou desde menino, ao presenciar a arte dos nossos poetas populares e de ser contagiado por esta manifestação da poética nordestina. Confira aqui.

 


ANCESTRALIDADE NOS DEBATES CONTEMPORÂNEOS – Reunião de estudos e debates acerca da temática ancestralidade, com reflexões de Rigoberta Menchú, Kaka Werá Jecupé, Davi Kopenawa Yanomami, Nnedi Okorafor, Renato Noguera, Mariela Tulián, Sam Harris, Rosa Mechiço, Kate Kretz, Giva Silva, Silvia Rivera Cusicanqui, entre outros. Confira aqui.


 

A ARTE DE EVANDRO NICOLAU – Destaque para a arte do artista, professor e pesquisador Evandro Carlos Nicolau, que se apresentando usando suas próprias palavras: é artista das linguagens e das artes todas, em busca de colaborar para um mundo livre, saudável e são! Ele é autor do livro A Filosofia pelo Desenho, criador da plataforma UBQUB e editor dos blogs Projeto Ócios do Ofício, Eros para livres e Desenho Manifesto, nos quais reúne toda sua diversidade criadora, que vão desde suas composições musicais autorais à performances visuais. Confira aqui.

 


DIÁRIO DOS ZÉS - Reunião de causos, hestórias, contos e loas sobre o cotidiano exótico dos hilariantes notáveis Zés, habitantes de um excêntrico local denominado Alagoinhanduba, o lugar onde o mundo todo se revela e tudo pode acontecer. Confira aqui e veja mais aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui.


 


quinta-feira, março 29, 2018

THIAGO DE MELLO, THOMAS MANN, HOTTOIS, PASOLINI, JENNY HOLZER, VANGELIS & ASTRUD GILBERTO, HOLÍSTICA & EDUCAÇÃO, NALAH & ADERBAL

Imagem: Rua Corona, da artista neo-conceitual estadunidense Jenny Holzer.

O ESTRANHO AMOR DE NALAH & ADERBAL – Imagem: foto da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez - Aderbal é um cururu pra lá de folgado. Todo embecado de fraque, bengala e gravata-borboleta, o que já namorou de jias, rãs e pererecas, afora duas jabutis, três lagartixas, uma calanga, três coelhas, duas ratazanas e uma cobra que não caiu no papo dele, tirante tudo isso, ele ainda apronta das suas e se embola às gaitadas de caçoar lorota com o compadre Asdrubal. Até então, nunca passou apertado, sempre se saindo ileso de todas as investidas de seu topete destemido. Agora não, o cabra entrou num imprensado de não ter mais jeito, do compadre Asdrúbal, ao encontrá-lo todo meio que mocorongo de farol baixo, gritar logo: Anda sumido, né compadre? Nada, compadre, é que a madame lá de casa é danada de braba. É mesmo? Não tem mais aprontado? Ela num deixa, colada em cima, qualquer trastejado meu, ela chega com bafo de anteontem. Como é que pode? Oxe, se é, nessa me lasquei. Lascou-se mesmo. É que a dita cuja é uma filha de pitbull red nose com cão labrador, imaginem a fera. Deu pra conferir: irmã de doze malsinados, tudo pedra ruim que nem ela, o que já empenaram na vida de gente e de bicho, não dá pra contar. O brinquedo dela é caçar o que passar vivo pela frente, buliu no mato, ela corre atrás e já aleijou uns tantos sabiás, João de Barro, cobra, lagarto, a peste! Um dia ela mordeu um ouriço e ficou com uma carreira pra mais de quarenta espinhos na boca, língua e focinho, metendo-se a querer beijar o Aderbal que fugia que nem doido corre da maldição. Pois bem, um dia lá, uma distinta senhora achou de acomodá-lo numa vasilha d’água num canto da sala, do amostrado ficar ancho lá, só soltando bolinhas. Ele nem sacou que do lado dele havia outra vasilha carregada de ração. Quando ele viu o bafo da monstra devorando a comida, ele ficou todo encolhido só soltando lorota: Uma dessa eu dou jeito. Ela olhou pra ele pelo canto do olho, ronronou de desprezo e manteve-se comendo. Ele arremedou: Uma dessa eu caso, domo e mando ver. Foi aí que ela foi tomar água na vasilha dele. Eita! Quando viu a lapa de língua da brabona, não teve dúvidas, ficou de papo pro ar, dizendo: Vá, assim eu gozo. Chupe, minha filha, chupe. Nalah invocou-se e deu-lhe uma focinhada dele ficar vendo estrelas. A-rá, gritou ele: gostei da felação, amanhã venha de novo, minha filha. Passou. No outro dia, ele lá: Se me der mole eu domino. Nalah nem aí. Ele insistia afinando a goela deitando árias, óperas e operetas pra cima dela, até o dia em que ela arretou-se, pegou-lo pelo rabo e arrastou-lo pendurado pra casinha dela. Agora que quero ver. É que ela havia arrumado um cantinho cheio de galhos e matos para deitá-lo lá, foi ver se o atrevido era de mesmo ou só de faro. Oxe, Aderbal tremia encostado e ela só na provocação. É macho mesmo ou só se faz? Ela danou-se a requebrar, esfregar o rabo nele, alisar as patas, ficar roçando o couro, a ponto dele gritar de quase morrer sufocado: Assim também é demais também, ora! E como é que você quer? Ah, se ajeite estirada e deixe que eu faço o serviço! Arrepara só. Ela pagou pra ver: deitou-se e ficou lá se fingindo de morta. Num é que o Aderbal criou coragem e saiu fuçando nas partes pudendas dela, maior ajeitado, cai mas num cai, se enrola todo, se estica, se enfia, escorrega e ela já impaciente: Como é que é, hem? Num se avexe que ainda nem botei a cabeça! Ela lá com ele no meio e no maior caqueado. Lá pras tantas, todo lambuzado, ele sai se limpando: E aí, moleza, gostou da minha performance? Ué, já terminou, foi? Já, queria mais é? Eu nem comecei a virar os olhos, quanto mais gostar disso que não senti nada. Eita! Ah, desse dia em diante, ela ficava: Vai, mostra aí que é macho mesmo, vai! E ele fazia de tudo e nada. Virou o brinquedinho dela. Ele já anda de olheiras, capengando quase sem voz, sem ânimo, cansado de dormir por horas nunca suficientes do dia todo, mas ali, comendo curto na rédea dela. Tome, sem-vergonho, agora quero ver você sair dessa. Bem empregado, vai se meter com o que não pode, acaba assim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico e compositor grego Vangelis: Mask, Love Song & com Jon Anderson; da cantora Astrud Gilberto: ZDF Jazz Club, 24 Canciones & I haven’t got anything beter to do; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Assim como a ciência teórica podia ser chamada de pura e inocente, a tecnociência, ao ser, essencialmente, atividade produtora e modificadora do mundo, não é nunca totalmente inocente. A práxis é eticamente problemática. As questões éticas se colocam, hoje, no nível da investigação chamada básica, devido ao que o projeto de saber é fazer e poder. [...] Pensamento extraído da obra El paradigma bioético: uma ética para la tecnociencia (Antropos, 1991), do filósofo belga Gilbert Hottois, autor de obras de filosofia contemporânea atinentes à ética, linguagem, ciência e técnica. A respeito da clonagem (Human Reproduction Update, 1998), o autor considera alguns aspectos fundamentais que envolvem a questão, como a autoidentidade e a alteridade, a instrumentralização, da determinação no que concerne à liberdade e a autonomia do ser.

HOLÍSTICA & EDUCAÇÃO – [...] os pensadores holísticos reconhecem que há uma parte misteriosa e imutável em toda pessoa, que transcende os sintomas físicos, psíquicos e o próprio condicionamento social. É a dimensão espiritual. Se somos parte integrante do Ser, algo permanece necessariamente após a temporalidade de nossa existência para se integrar na totalidade cósmica: fonte de todo o significado e inatingível intelectualmente. A espiritualidade nos orienta à compaixão universal no sentido de profunda solidariedade com toda a humanidade e à comunhão com todos os demais seres. Educar holisticamente, portanto, é estimular no aluno o desenvolvimento harmonioso das dimensões da totalidade pessoal: física, intelectual, emocional e espiritual. E esta, por sua vez, participa de outros planos de totalidade: o comunitário, o social, o planetário, o cósmico. Todos estes planos devem ser desenvolvidos concomitantemente no processo educacional. Não se entende o homem somente a partir de si mesmo, como centro e senhor da natureza, mas como parte de um todo. Questões como autoconhecimento, liberdade, realização, justiça e paz são enfocadas, levando sempre em conta o contexto da interdependência dos fenômenos, nos diversos planos sistêmicos dos quais o homem é parte. A vivência comunitária é fundamental no desenvolvimento do indivíduo. O sentido da vida comunitária está na mais intensa e genuína interação entre as pessoas. Ela, muito mais do que as normas e leis, é estimulada pelo sentimento de philia (amizade), de que falavam os gregos. A qualidade das relações comunitárias, seja na família e/ou mesmo em outros grupos sociais, deve proporcionar o equilíbrio entre os interesses individuais e os coletivos, garantindo assim a diversidade e a individualidade na interação do grupo. No plano social está nossa dimensão de ser histórico. Participamos da sociedade humana e, portanto, temos nossa parcela de responsabilidade na história por ela construída. A ação política do homem deve se pautar na solidariedade e na cooperação, visando um desenvolvimento sustentado que possinilite a sobrevivência das gerações atuais e futuras. A totalidade planetária nos traz a consciência de que não estamos simplesmente habitando a Terra, mas fazemos parte integrante dela assim como os outros animais, os vegetais e os minerais. Nosso planeta é um complexo harmonioso, um sistema vivo auto-regulável, um oásis de vida na vastidão do universo. Todos os seres da comunidade planetária são igualmente importantes para a vida de Gaia. [...]. Trechos extraídos da obra A canção da inteireza: visão holística da educação (Summus, 1995), do professor e pesquisador Clodoaldo Meneguello Cardoso. Veja mais aqui, aqui e aqui.

UMA LENDA HINDU - [...] Naquela época em que a memória se originava nas almas dos homens, assim como a taça do sacrifício lentamente se enche de sangue ou de inebriantes poções, quando o colo da austera piedade patriarcal se abria, a fim de receber a semente da era primeva, e a saudade pela Mãe cercava símbolos antigos de renovados tremores, fazendo com que aumentassem as procissões de peregrinos, que acorriam na primavera às moradas da grande Nutriz do Mundo — foi naquele tempo que dois jovens, pouco diferentes quanto à idade e à casta mas bem diversos com relação ao seu físico, travaram entre si íntima amizade. O mais jovem chamava-se Nanda, e o outro, pouco mais velho, Shridaman. Aquele contava dezoito anos, ao passo que este já completara vinte e um. Ambos, cada qual no seu dia, haviam sido cingidos com o cordão sagrado e acolhidos na comunidade dos que nasceram duas vezes. Eram naturais da mesma aldeia dotada de um santuário, a qual tinha o nome de Bem-Estar das Vacas. Por indicação dos deuses, fora instalada no seu lugar na terra de Kosala, em tempos remotos. [...] Tudo isso agradava a Shridaman, sempre que comparava o amigo com sua própria pessoa, que tinha no semblante e nos membros alguns matizes mais claros, além das diferenças de fisionomia. O cavalete de seu nariz era fininho, qual lâmina, e ele tinha olhos que revelavam meiguice nas pupilas e nas pálpebras, enquanto nas faces crescia, em leque, uma barba macia. Também eram macios os membros, absolutamente não enrijecidos pelos ofícios de ferreiro e pastor, e mais se assemelhavam aos de um brâmane ou de um comerciante, com o tronco estreito, levemente balofo, e um pouco de gordura na região da barriguinha. Mas, fora isso, não deixava de ser perfeito, de joelhos e pés delicados. Era um corpo que muito bem podia servir de complemento e acessório a uma cabeça nobre, inteligente, à qual, no conjunto, coubesse ser a parte mais importante, ao passo que, no caso de Nanda, o corpo constituía-se no essencial e a cabeça não passava de um acréscimo agradável. Somando tudo, os dois se pareciam com Siva, na sua dupla manifestação, quando, ora como barbudo asceta, fica prostrado, feito morto, aos pés da Deusa, ora ereto, encara-a de braços estendidos, qual efebo em plena flor da mocidade. No entanto, eles não formavam uma unidade, ao contrário de Siva, que é a vida e a morte, o mundo e a eternidade no seio da Mãe, senão representavam sobre a Terra dois seres diversos. Por isso, eram um para o outro semelhantes a ídolos. Em ambos, o sentimento do eu e do meu entediava-se de si próprio, e, embora soubessem que, na realidade, tudo é um composto de imperfeições, espiavam um no outro justamente aquilo que os tornava diferentes. [...]. Trechos da obra As cabeças trocadas: uma lenda indiana (Nova Fronteira, 1988) do escritor alemão e Prêmio Nobel de Literatura de 1929, Thomas Mann (1875-1955). Veja mais aqui.

OS DO AMORO nosso amor só se acaba / se for para começar. / Te perdes longe de mim, / para poder me encontrar. / Todo fim sabe a começo. / Na fundura do teu peito / dorme a clave do milagre / cujo segredo mereço. / Sozinho mais te proclamo / a pessoa preferida. / Asa de graça, pendão / no vento, estrela da vida. / Que te cante a paz no peito. / Não é benção para mim, / que perto estou já do fim. / Te quero tanto, que tanto / dentro de ti me perdi. / Só por sonhar que erga voo / de pássaro prisioneiro / a luz que lateja em ti. Poema Embalo de rede, extraído da obra Campo de milagres (Bertrand Brasil, 1998), do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui e aqui.

A ESFINGE DE HOJE
[...] Na luta contra a exclusão, mesmo antecipando a vitória do capitalismo, o desafio de decifrar o enigma da esfinge poderia representar o caminho da salvação dos povos oprimidos [...]. O monstro devorador deste mundo corrompido e implacável de hoje não é a esfinge de Tebas da antiguidade, mas o capitalismo selvagem, a desenfreada sociedade de consumo, a barbárie que marginalizou os povos, favelizando-os [...]. Na minha opinião, essa sociedade de consumo está anulando a identidade pluralista, a identidade regional, sem fundamento em parte alguma. É a destruição da alma e da esperança do homem mais puro. Essa a maior ameaça. E acontece em todas as sociedades [...]. Trechos da entrevista A última palavra de Pasolini, concedida pelo cineasta, escritor, jornalista e professor italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), extraído de Conversações (Cultura, 2008), de João Lins de Albuquerque, quatro dias antes de ser brutalmente assassinado no dia 02 de novembro de 1975, em circunstâncias que continuam gerando polêmica até hoje. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Congresso Entre Mares: a literatura, leitura do mundo & muito mais na Agenda aqui.
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É nela o festival de Ishtar, Lenda Bororo, a música de Astrud Gilberto, a escultura de Wayland Gregory, a arte de Amadeo de Souza-Cardoso & Maria de Lourdes Oliveira aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...