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terça-feira, fevereiro 20, 2024

NATALIE GOLDBERG, ANA MARÍA RODAS, HELEIETH SAFFIOTI, HOMENS & CARANGUEJOS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da Fantasia Sul América para violino solo (2022), do compositor Cláudio Santoro; do Canto dos Aroe (2021), do compositor Roberto Victorio; e Gestures – for solo violin (2022), de Arthur Kampela, todos na interpretação da premiada violinista e professora Mariana Isdebski Salles, autora dos livros Ciência na Arte - Arte na Ciência (Paka-Tatu, 2021) e Arcadas e golpes de arco (Thesaurus, 1998). Em parceria com a pianista Laís de Souza Brasil, lançou o cd Sonatas (ABM Digistal), do compositor Claudio Santoro; e, em parceria com o violoncelista Marcelo Salles, lançou o cd Mosaico (2005) e Mosaico II (2008), com peças para duo de violino e violoncelo de compositores brasileiros; e com o Deuxiéme Trio de Villa-Lobos, gravou o cd Fantasia para violino, violoncelo e piano de Franck Bridge e Trio de Michael Colina (2008). Veja mais aqui e aqui.

 

O BANQUETE & O PRECIPÍCIO (PISCAR DE OLHOS, A HESITAÇÃO E O ABISSAL)... - Quem não náufrago sobrevivente na roda-viva: apatetados metazoários, ruminantes do intelecto solitário, os Ocos de Eliot... Dá-se volta por cima até baixar a poeira porque nada se resolveu ou, se resolvido, nada deu fé. Só sortudo fora dessa! Pros do lado de cá a indagação de Lukáscs no pé do ouvido: Um estado de ânimo de permanente desespero com a situação mundial... quem nos salva da civilização ocidental?... Isso para quem nunca arregou da parada - mesmo que escorregasse pelo corredor público e desse num túnel sem saída como buraco sem fundo: tudo ruindo e o vexame diante do covil com toda contrafação no pé da venta – tem-se a impressão de que não passa de um impostor no buruçú do caos espaçado, valendo-se das sobras feito rufião aos gemidos na quase beatitude. É mesmo? Quem o faminto glutão engolindo tudo? Ah! É só deslembrar da morte esticando seus braços elásticos com as lâminas afiadas do tempo. É mesmo? Coisa besta, sai na urina. Ah, não, como escapar aos seus golpes letais, sem poder fazer nada, um gesto insólito, como dar de ombros, nada a ver, e tudo apodrecendo na chuvada da Ilha das Moscas de Golding. Sim, com Pampineia, Griselda de Vivaldi, Galeotto, meio mundo de gente, a discutir o que sobrou da Justiça, da Esperança, da Razão, levando lero da parábola dos anéis, os dedos que se foram, a ameaça da peste, da fome, dos monstros invisíveis e não sei lá o que mais, escorregando pelas dez jornadas de Boccaccio nas cenas de Pasolini. Danou-se! Leseira, sai nas coxas. Ah, tá! E do nada surgisse Anne Lamott: A esperança começa na escuridão, a teimosa esperança de que, se você simplesmente se levantar e tentar fazer a coisa certa, a manhã chegará. Você espera, observa e trabalha: você não desiste... E mais o patético escabroso das estranhas pelo intolerável soando nos tímpanos de forma ensurdecedora, inoculando o cinismo quase pueril. Como seria a morte? Ixe! Fogo pelando, água da muita, veneno cruel no que é fato e o que é valor, assim por diante - o desejável é seguir a lógica do xadrez dando conta do revogável. Vixe! Tem também o refutável e tudo o que foi violado, afora o protocolar considerado no acordo tácito, na ausência de domínio, tudo por conta de uma suposta isonomia. E é? Ousa-se, ataca-se até que um seja devidamente anulado com a última pá de cal. Aí, tá certo! E sacar Agneta Pleijel: Na batalha entre você e o mundo, fique do lado do mundo... Sacou? Dizem que o homem simples morreu na resiliência, chega dava gosto vê-lo romper a redoma e dormir com um olho só, avalie. Foi esfolado todo, quanta mofa. A desforra ficou nos galhos retorcidos da indiferença, intrusos fizeram a festa, quão leigos no ludíbrio das palavras e intenções, armadilhas sentimentais – será que vai nascer outro? A missão logo à tona, qual? Ah, o que mentem palavras, gestos e intenções, só equívocos. Nada, já dizia Péter Szondi: No seu lugar, uma época para a qual a originalidade é tudo reconhecer somente a cópia... Por pior que seja a súbita captura da esfinge há sempre a habituada potência da resposta estremecida, enganchada, exprimindo a miséria e a perigosa verdade para se salvar da tolice e ter o que bem possa merecer. É só uma primeira tábua em que possa se agarrar do insondável. Contudo, há de levar em consideração as armas em mãos inescrupulosas, a fome devorando, o monstro metendo medo, a desgraça irremediável, a sinceridade e a mentira alheia, quão falso e demasiado: o mundo saiu dos trilhos faz tempo. Mãos não se tocam, lábios não se beijam, braços não abraçam, pernas não se enroscam, pés não caminham, olhares não se veem, dengos não se procuram nem se satisfazem, corações não amam. Que raça é esta, hem? Nem sempre a união faz a força, às vezes rompe, opõe e dá num escambau cabeludo. Sobra o cuspe na cara: somos nossos próprios inimigos, uns aos outros, todos. Onde a obrigação de viver, a comida, a direção, só ódio e morte. Agora só na outra, meu. Viva! A vida é arte: vamos vidartear! Até mais ver.

 

TRÊS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

POETA - O antigo rito me possui \ Várias noites sem dormir \ depois que o rio de sangue cai \ Eu me afogo nele e renasço \ novo como uma moeda redonda \ como um sonho \ perfeito em minha dor \ lembrando apenas o suficiente do passado \ para construir a \ teia de aranha \ com a qual cubro minha cama de solteira.

EI - Novo amante: \ Quero te explicar bem que entre os seus olhos \ e os meus olhos \ só existe desejo. \Que sua pele branca às vezes escurece \ porque quem me marcou ainda está aqui. \ Gostaria de dizer seu nome e não posso \ porque quando abro a boca lembro de \ uma cama diferente, \ outros lábios bebendo meus seios. \ E quando eu choro \ e te agarro com tanta força \ eu não fico feliz, amor. \ É uma chama. II - Ok, \ estou preso, ciumento, inconstante \ e cheio de tesão \ O que você esperava? \ Que ele tinha olhos, \ glândulas, \ cérebro, trinta e três anos \ e agia \ como um cipreste no cemitério? III - Disseram que um poema \ deveria ser menos pessoal; \ Que falar de você ou de mim \ é coisa de mulher. \ O que não é sério. \ Felizmente ou infelizmente \ ainda faço o que quero. \ Talvez um dia eu use outros métodos \ e fale de forma abstrata. \ Agora só sei que se algo for dito \ deve ser sobre um assunto conhecido. \ Só sou honesto - e isso basta - \ quando falo das minhas próprias misérias e alegrias \ posso dizer que gosto de morangos, \ por exemplo, \ e que \ não gosto de algumas pessoas porque são hipócritas, cruéis \ ou simplesmente porque são estúpidas. \ Que não pedi para viver \ e que morrer não é algo que me atrai \ exceto quando estou deprimido. \ Que sou feito \ acima de tudo \ de palavras. \ Que para me expressar \ uso tinta e papel à minha maneira. \ Eu não posso evitar. \ Não importa o quanto eu tente, \ não escreverei um ensaio \ sobre a teoria dos conjuntos. \ Talvez mais tarde \ eu encontre outras formas de me expressar. \ Mas isso não importa para mim agora; \ Hoje vivo aqui e neste momento \ e sou eu \ e atuo como tal. \ De resto, lamento não ter agradado a todos. \ Acho que basta olhar para mim \ e tentar me aceitar \ com ossos, músculos, \ desejos e tristezas. \ E olhar pela porta e ver o mundo passar \ e dizer bom dia. Aqui estou eu. \ Mesmo que eles não gostem. \ Ver.

VAMOS VIVER VALÉRIA - Esqueçamos as coisas que dizem \ até aqueles que chegaram de barco \ do Adriático \ das Cíclades \ de Rodes. \Suas línguas viperinas \ , que poderiam muito bem ser melhor utilizadas em casos amorosos, \sibilaram o mal do cume do Citoro. \ Não, eles não ousam dizer seu nome, \ apenas sussurraram o meu \Sentem medo, \ são hipócritas, \ mentem com putinhas magrinhas, \ vão embora sem pagar o que é justo, que não é muito. \ Vamos viver Valéria, \ depois de milhares de anos \ haverá um poeta diferente \ que nos ensinará o nosso amor \ e criará outra Carmem \ que sonhará cheia de paixão \ Iremos longe \ Valéria \ nossa cama \ serão as estrelas.

Poemas da premiada escritora e jornalista guatemalteca Ana María Rodas. Veja mais aqui.

 

ESCREVER COM A ALMA – [...] Escreva o que te perturba, o que você teme, o que você não tem vontade de falar. Esteja disposto a ser dividido. [...] Somos importantes e nossas vidas são importantes, magníficas mesmo, e seus detalhes merecem ser registrados. É assim que os escritores devem pensar, é assim que devemos sentar-nos com a caneta na mão. Nós estávamos aqui; somos seres humanos; é assim que vivíamos. Que fique claro, a terra passou diante de nós. Nossos detalhes são importantes. Caso contrário, se não estiverem, podemos lançar uma bomba e isso não importa... Registrar os detalhes de nossas vidas é uma postura contra as bombas com sua capacidade de matar em massa, contra o excesso de velocidade e eficiência. Um escritor deve dizer sim à vida, a tudo na vida: aos copos de água, ao Kemp's meio a meio, ao ketchup no balcão. Não é tarefa do escritor dizer: “É estúpido viver numa cidade pequena ou comer num café quando se pode comer macrobióticos em casa”. A nossa tarefa é dizer um santo sim às coisas reais da nossa vida tal como elas existem – a verdade real de quem somos: vários quilos acima do peso, a rua cinzenta e fria lá fora, o enfeite de Natal na vitrine, o escritor judeu no cabine laranja em frente à amiga loira que tem filhos negros. Devemos nos tornar escritores que aceitam as coisas como elas são, passam a amar os detalhes e avançam com um sim nos lábios para que não haja mais nãos no mundo, nãos que invalidem a vida e impeçam que esses detalhes continuem. [...] Se você não tem medo das vozes dentro de você, não terá medo das críticas externas. [...] Escrevo porque estou sozinho e ando sozinho pelo mundo. Ninguém vai saber o que passou por mim... Escrevo porque há histórias que as pessoas esqueceram de contar, porque sou uma mulher tentando se destacar na minha vida... Escrevo por mágoa e como fazer magoar OK; como me fortalecer e voltar para casa, e esse pode ser o único lar verdadeiro que terei. [...] Brinque. Mergulhe no absurdo e escreva. Arrisque-se. Você terá sucesso se não tiver medo do fracasso. [...]. Trechos da obra Writing Down the Bones: Freeing the Writer Within (Shambhala, 2005), da escritora e pintora estadunidense Natalie Goldberg. Veja mais aqui.

 

A MULHER, ENFRENTANDO A VIOLÊNCIA - [...] Como isolar o conceito de gênero? Não se deve isolá-lo de seu contexto econômico, social e político. Aliás, eu utilizo cada vez menos esse conceito, porque gênero é um conceito a-político, a-histórico e bastante palatável. Tão palatável, que o Banco Mundial só financia projetos com recorte de gênero. Se fizermos referência à “ordem patriarcal de gênero”, os projetos, certamente, não serão contemplados com as verbas solicitadas. Mas o patriarcado está aí, presente em todas as relações humanas. Chegamos ao paradoxo de os homens sustentarem a existência do patriarcado e a maioria das feministas mulheres a negarem. [...] É óbvio que não existe ninguém que consiga ficar neutro diante de uma contenda. Tenho minha posição, pública e notória, mas não tenho filiação, porque não quero perder minha liberdade de pensamento. [...] Estamos entupidos de cristianismo e isso representa uma face do fundamentalismo. Odeio fundamentalismos. [...] Não há sequer uma totalidade social; mas tão somente caos. Não gosto do pensamento pós-moderno, porque é fragmentário e projeta essa fragmentação na realidade, quando, para mim, a sociedade é uma totalidade, e a crença nisso me fez progredir teoricamente. No Brasil, sou considerada a teórica feminista, o que não significa que não sei pensar em políticas públicas, nem tampouco que não existam outras estudiosas do tema, criando teorias. Estudo o tema violência com a finalidade de lançar políticas públicas para as mulheres, oferecendo-as aos governantes, cujos meios para sua implementação estão ao seu alcance. [...] Logo, não sou apenas teórica, gosto também de pensar nas práticas, embora não me vincule a nenhum movimento, mantendo muito boas relações com todos eles. Não me agrada nada, nada, esta divisão: feminismo acadêmico versus feminismo militante. No Brasil, a academia abriu, sem resistência digna de nota, suas portas à temática de gênero e, ademais, há um trânsito fácil entre acadêmicas e militantes, sem contar o fato de que muitas militantes são também acadêmicas ou, pelo menos, leem e discutem suas leituras, não sendo, por conseguinte, apenas militantes. [...] É claro que o espaço doméstico é eminentemente feminino, mas não é o espaço da privacidade. É o espaço do trabalho não reconhecido, do trabalho não pago, do trabalho doméstico. E por que razão não é o espaço da privacidade? Porque vige um regime social, político e econômico androcêntrico ou patriarcal ou viriarcal. Em outros termos, vivemos sob o patriarcado. [...] O homem cuidava da chácara, era caseiro, e a mulher era empregada doméstica. Quando ela se referia a relações sexuais com seu marido, sua linguagem relativa a seu marido era a seguinte: “quando ele quer me usar...”. Era essa a linguagem utilizada, nunca me esqueci; e já ouvi essa expressão sendo utilizada por muitas mulheres do Nordeste, que moram aqui, em São Paulo, de paulistas e de mulheres de outros recantos do país. Ou seja, elas se consideram objetos para o uso e o abuso do seu amo e senhor. [...] Hoje, já existe uma jurisprudência de cerca de mil e quinhentos casos. É, sem dúvida, importantíssima esta terceira permissiva penal para o aborto. Há muitas pessoas lutando para a aprovação da súmula vinculante, não apenas para poupar trabalho. O juiz de primeira instância é aquele que vai para o interior e não vê mais nada, não tem universidade na cidade onde atua, ele não dá aula, não estuda. Se há um conflito entre um artigo de qualquer código comercial, tributário, penal, civil, ou qualquer outra lei isolada, de uma parte, e, de outra parte, a Constituição, é obvio que prevalece a Constituição, pois é a Lei Magna do país. Mas os juízes não estudam mais, então não percebem que estamos em outro mundo, que a Constituição acabou por derrubar vários artigos do Código Civil e eles não podem atuar segundo aqueles artigos. [...] Nós não temos como estar apenas fora do gênero, nem nós mulheres, nem os homens. Como ficar fora do gênero? Isso é impossível. O que nós podemos é lidar com todas as matrizes que nós conhecemos, simultaneamente. Então, a minha maneira de criar, porque eu não sou nenhum gênio, é: eu leio um livro, absorvo aquilo que me parece interessante, e tento avançar. Tento avançar um pouco – a ciência avança milimetricamente. Uma grande descoberta é fruto do acaso, porque ninguém é tão inteligente para ter uma ideia brilhante por semana. Então, vou fazendo o que eu posso, que é caminhar assim na criação, milimetricamente. [...]. Trechos da entrevista concedida pela socióloga Heleieth Saffioti (1934-2010), extraída da publicação Heleieth Saffioti, uma pioneira dos estudos feministas no Brasil (Estudos Feministas - UFSC, 2011) de Luzinete Simões Minella. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

HOMENS & CARANGUEJOS, DE JOSUÉ DE CASTRO

[...] Da evasão daquela paisagem humana parada e monótona. Desejo imperioso de sair de tudo. De sair de dentro de si mesmo. De sair do círculo fechado da família. Do ciclo do caranguejo. Da cidade do Recife. Um desejo desesperado de arrebentar com todas as amarras que o ligam à lama pegajosa do vale do Capibaribe e às folhas viscosas do mangue. Sair vagando pelo mundo afora com os navios que passam ao largo da costa, soltando com indiferença um arrogante penacho de fumo por suas longas e grossas chaminés [...].

Trecho extraído da obra Homens e caranguejos (Bertrand Brasil, 2003), do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 PS: Esta postagem é em homenagem a dois Joões coincidentemente de Araújo: o primeiro é professor e ESO em Língua Inglesa UFRPE, João Paulo Araújo e, o segundo, bibliotecário e parceiramigo da Biblioteca Fenelon Barreto, também, João Paulo Araújo.  Procês, zis abrações.

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sexta-feira, maio 01, 2020

MIKE DAVIS, GEORGIA O'KEEFFE, ROA BASTOS, FERNANDA FATURETO, HELENA ROCIO JANEIRO & FERNANDA LIMÃO


A VIDA É LINDA, MESMO COM OS QUE QUEREM TORNÁ-LA DOLOROSA PARATODOS – UMA: DIÁRIO DE QUARENTENA – Não estou no topo do monte, Caetano, linda canção na inesquecível voz de Nina e Bethânia. Estou no pico da pandemia e choro o mundo de Pasolini. A dor é grande, a corrupção é maior, desgraça o meu país com seus tentáculos planetários, por farsantes lava que não passam de vaza-jatos de indignação, enquanto o energúmeno debocha dos mortos, enfermos e desvalidos do meu coração Brasil. A esta altura, Delacroix dá o tom da miséria: O homem é um animal sociável que detesta os seus semelhantes. Desaprendo da vida e da arte, como se não houvesse quase alternativa além do choro e consternação, quando ele pondera: Primeiro aprenda a ser um artesão. Isso não impedirá você de ser um gênio. O segredo para não ter tédio, pelo menos para mim, é ter ideias. A adversidade restitui aos homens todas as virtudes que a prosperidade lhes tira. E quase não há outra forma de viver, a não ser entoando a lacrimejante Nênia de abril. DUAS: E DAÍ? – Prestes aos sessenta, eu tinha que viver para ver a ascensão de um aloprado Coiso indiferente a um flagelo planetário sem precedentes, promovendo a massificação da morte. E o pior: ver muitos que apoiam o traste inepto e outros tantos hesitantes – tirando o cu da reta e empurrando pro outro num toma lá que não sou o culpado, como se fosse uma batata quente no colo da covardia dos medrosos – e ninguém dá um basta nisso, todos coniventes em todos os Poderes da República, lenientes, intimidados. Estou indignado, envergonhado, decepcionado, recitando uns versos de Jorge de Lima: ...há as naus que não chegam mesmo sem ter naufragado: não porque nunca tivessem quem as guiasse no mar ou não tivessem velame ou leme ou âncora ou vento ou porque se embebedassem ou rotas se despregassem, mas simplesmente porque já estavam podres no tronco da árvore de que as tiraram. É revoltante, parece mais que o que falta aos brasileiros é humanidade! TRÊS: VENTOS DE MAIO - Não sei o que vai ser de todos nós amanhã, a esperança é uma tênue asa perdida ao sabor dos ventos, o olhar absorto, a vida por um triz. Quem sabe, não sei, tudo chegue a bom termo num futuro ainda imprevisível, restarão a saudade dos que sucumbiram nos estardalhaços do horror. A mim resta cantarolar com Milton Nascimento: Sol, girassol, e meus olhos ardendo de tanto cigarro. Quase que eu esqueci que o tempo não para, nem vai esperar. Vento de maio, rainha dos raios de Sol, vai no teu pique, estrela cadente, até nunca mais. Não te maltrates, nem tentes voltar ao que não tem mais vez. Não lembro teu nome, nem sei, estrela qualquer lá no fundo do mar... e a saliva é o sangue com o coração na mão saindo pela boca, como se fosse pela última vez. Não sei. Vou ali tomar uma carburando a dor de todos e até segunda-feira. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Há uma explicação alternativa da medicina social para entender a propagação das pragas: os determinantes socioeconômicos das epidemias são a pobreza, a aglomeração, a falta de saneamento e de medicamentos. Agora, toda a infraestrutura internacional de detecção de doenças e a resposta internacional coordenada caiu por terra. A OMS praticamente desmoronou. Hoje, tem um papel absolutamente marginal. Nunca foi financiada adequadamente. Grandes países como os Estados Unidos jamais cumpriram com as contribuições que disseram que fariam. A OMS precisou recorrer aos filantropos e grupos de pressão dos países mais poderosos. Em conjunto, estes setores proporcionam cerca de 80% de seu orçamento. A instituição se viu obrigada a suplicar aos Estados Unidos, China e a certos filantropos que não sabem o que fazer com o seu dinheiro. Isto se tornou evidente nos últimos três ou quatro meses. [...] Os principais países capitalistas acreditam que podem proteger o comércio mundial, com vacinas e alguma nova forma de organização internacional da saúde. Mas não demonstram nenhum interesse em solucionar o grande tema que preocupa a medicina social: a miséria e a pobreza em escala mundial. Estarão as vacinas disponíveis para as populações da África e o sul da Ásia? É muito difícil que o capitalismo, com o seu DNA que é apenas lucro, faça chegar com rapidez a vacina (se conseguir desenvolvê-la) aos pobres e condenados da terra. [...] De fato, o que o capitalismo global fará é aprofundar ainda mais o abismo entre as duas humanidades. É claro, isso também é certo dentro de muitos países capitalistas do “primeiro mundo”, onde a doença ataca de preferência as vítimas do racismo e pobreza. [...] Neste momento, ao menos nos Estados Unidos, existe uma oportunidade extraordinária para avançar em um programa progressista, que parte da atenção à saúde como um direito humano e uma cobertura universal. Também chegou o momento de lutar por demandas essencialmente socialistas, como a nacionalização das grandes farmacêuticas e de outros serviços básicos para a sobrevivência. [...]. Trechos do artigo O capitalismo em uma era de pragas e catástrofes (Observatório de la crisis/Revista IHU, 28/04/2020), do historiador e sociólogo estadunidense Mike Davis. Veja mais aqui e aqui.

A POESIA DE AUGUSTO ROA BASTOS
DA MESMA CARNE - Deixei ao poente / a franja tutela da cigarra; / um povo como uma árvore ardente / madeira / que em minha caixa óssea e de memória / constrói sua guitarra / dolente / no mais vivo de minha escória. / O peito perfurado / deixa ver o pulsar / tateando as paredes / do lado mais acordado e desvalido. / (Resista, se podes) / O tronco empajezado /cresce todas as noites no vale; / geme e se desespera / quando pressente meus passos / sobre o distante asfalto da rua / em que vivo. / Obstinadamente / treme em voz alta em todos os meus pedaços. / Contendo a respiração / escuto-o entre o rumor das machadadas. / (Nenhuma pausa sequer) / Sua queixa é tão forte / que me ilumina a face / e me escurece o pensamento; / tão fino o tremor que nos separa / e esta parede silvestre tão ligeira, / que um pulsar sangrento / põe de pé minha vida a cada golpe / que destrói, longe, sua madeira.
PARA VOCÊ, FECUNDA ... – Eu / Eu feri sua estrela na água, / e um verão me domina nos seus mamilos, / suas coxas e filhos / flor e flor, estrondo de sua saia, / isso enigmas meu sangue com músicas. II - Você, minha água do verão, / você se afunda com raiva, enlouquecido, / vespa branca querida / de ancas como jacinto... Oh rio / que você já cheira a despedida! III - Longa estria, dói. / Cárie cheia de canudos e sons / meu coração dói. / Cárie de tempo. E você, que já me cheira / uma noite densa quando os ninhos amadurecem... IV - Seu verão se foi / com seus rebanhos densos. Na tarde / meu orgulho se deita / gasto e puro no frio puro / que sua beleza concebida queima...
AUGUSTO ROA BASTOS - Poemas do premiado escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005), conhecido também por seus ensaios, roteiros e romances. Veja mais aqui.
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QUATRO POEMAS DE FERNANDA FATURETO
CASA - Ela, / sobreviver à casa - / era seu nome. / A casa vazia, / retornar aos irmãos que morreram. / Comunicar-se com eles - / todos em diferentes ângulos, / na casa. / Seres anônimos no mundo, / de onde vem e vão. / O esquecimento torna-se geografia / E os seres dos rios se confundem com barro, / cultivando o lugar do nascimento. / Lá brotariam dos arrozais / à espera / de um nome. / Cultivando o lugar do nascimento, / o lugar da terra: / ali podem ser.
RECITAL - Um dia em que não haverá a palavra exata. / O momento chega, em silêncio / Com a noite fresca de inverno / No interior / Da paisagem. / O dia em que a escuridão brilha. / Com feixes de luz / E solicita ao silêncio - uma trégua. / O riso à mesa, / o acaso como traço de um momento / Presente. / Mesmo ato em que, por léguas, / O encontro se fez. / Do Russo, entendo a culpa e o castigo. / Talvez faísca que se entrega / No olhar que se fixa. / Encontro e despedida: entre o instante, / a duração do presente / Como música.
SENHORAS OBSCENAS - Macondo existia só no papel / Seus leitores visitavam a região / Acordados. / Amparados pela fantasia ao dobrar mais uma página, / A ilha destinada aos solitários. / Cada palavra esquecida soletrada renasce – / O poeta já disse que o verbo delira. / Reordena-se o mundo: / Um local seco e árido habitado por sonhadores.
SEM TÍTULO - Escrever é sempre parte de um movimento maior, à deriva de imagens e palavras que nos acompanham como amuleto e espera – partida para um lugar remoto do inconsciente onde reina o sonho e a metáfora (local sagrado e indecifrável) que só pode ser lido em seu contexto do poema quando este deixa o imaginário de quem escreve para a página. Cada escritor tem sua partitura particular, transcrever esse local – materializa-lo – é tarefa de cada um que escreve. Como num ensaio de queda e redenção. O poema como resistência de quem o pensa e sente.
FERNANDA FATURETO - Poemas da escritora e jornalista Fernanda Fatureto, autora das obras Ensaios para a queda (Penalux, 2017) e Intimidade inconfessável (Patuá, 2014), com trabalhos publicados em diversas revistas brasileiras, portuguesas, espanholas e mexicanas, afora participar de diversas publicações, como do Caderno de Prosa e Poesia Subversa 2 (2019); das antologias Damas entre Verdes (2018); 29 de Abril: o verso da violência (2015); Senhoras Obscenas (2016) e Subversa 2 (2016). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A visão de outra pessoa nunca será tão boa quanto a sua própria visão de si mesmo. Viva e morra com isso, porque no final é tudo que você tem. Perca e você se perderá e tudo mais. Eu deveria ter me escutado.
GEORGIA O'KEEFFE - A arte da artista estadunidense Georgia O'Keeffe (1887-1986). Veja mais aqui & aqui. E mais aqui.
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A ARTE DE HELENA ROCIO JANEIRO
Gosto muito da ideia de imaginar que o meu trabalho possa ter alguma coisa de poético, no sentido da poesia mais vasto, e realmente quando eu digo… Eu acho que o mundo seria muito melhor se houvesse mais poesia. E a poesia também é toda visual. São coisas bonitas. São coisas que chamam, de certa forma, a atenção à tua sensibilidade. É um bocadinho a minha maneira de ver a poesia. Uma forma imaginária de fazer com que a realidade possa ser um bocadinho mais forte. Também há coisas poéticas que são extremamente tristes, deprimentes, mas, de qualquer forma, é sempre uma exaltação do sentido, de um sentimento.
HELENA ROCIO JANEIRO - Trecho da entrevista concedida pela artista portuguesa Helena Rocio Janeiro, extraída da dissertação de mestrado Paredes do Porto: Um estudo taxonômico sobre as frases de Porto Alegre e do Porto (Porto, 2019), de Rafael Druzian de Castro. Ela cursou Artes Plásticas na ESAP e edita o blog Coração o Ditador. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Sou uma mulher incompleta / Por onde passo fica um pedaço meu / Em cada abraço, em cada passo, eu!
A arte da poeta, professora e produtora cultural, Fernanda Limão, que trabalha com intervenções literárias em diversos formatos, utilizando várias formas e espaços para disseminar sua poesia já publicada em diversas antologias brasileiras.
Pedagogia do oprimido (Paz e Terra, 1983), do sociólogo e pedagogo Paulo Freire (1921-1997) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
A música de Claudionor Germano aqui.
Lampião, Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938) aqui, aqui & aqui.
Cartilha do Cantador, de Aleixo Leite Filho aqui & aqui.
&
História Tataritaritatá aqui.


quinta-feira, março 29, 2018

THIAGO DE MELLO, THOMAS MANN, HOTTOIS, PASOLINI, JENNY HOLZER, VANGELIS & ASTRUD GILBERTO, HOLÍSTICA & EDUCAÇÃO, NALAH & ADERBAL

Imagem: Rua Corona, da artista neo-conceitual estadunidense Jenny Holzer.

O ESTRANHO AMOR DE NALAH & ADERBAL – Imagem: foto da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez - Aderbal é um cururu pra lá de folgado. Todo embecado de fraque, bengala e gravata-borboleta, o que já namorou de jias, rãs e pererecas, afora duas jabutis, três lagartixas, uma calanga, três coelhas, duas ratazanas e uma cobra que não caiu no papo dele, tirante tudo isso, ele ainda apronta das suas e se embola às gaitadas de caçoar lorota com o compadre Asdrubal. Até então, nunca passou apertado, sempre se saindo ileso de todas as investidas de seu topete destemido. Agora não, o cabra entrou num imprensado de não ter mais jeito, do compadre Asdrúbal, ao encontrá-lo todo meio que mocorongo de farol baixo, gritar logo: Anda sumido, né compadre? Nada, compadre, é que a madame lá de casa é danada de braba. É mesmo? Não tem mais aprontado? Ela num deixa, colada em cima, qualquer trastejado meu, ela chega com bafo de anteontem. Como é que pode? Oxe, se é, nessa me lasquei. Lascou-se mesmo. É que a dita cuja é uma filha de pitbull red nose com cão labrador, imaginem a fera. Deu pra conferir: irmã de doze malsinados, tudo pedra ruim que nem ela, o que já empenaram na vida de gente e de bicho, não dá pra contar. O brinquedo dela é caçar o que passar vivo pela frente, buliu no mato, ela corre atrás e já aleijou uns tantos sabiás, João de Barro, cobra, lagarto, a peste! Um dia ela mordeu um ouriço e ficou com uma carreira pra mais de quarenta espinhos na boca, língua e focinho, metendo-se a querer beijar o Aderbal que fugia que nem doido corre da maldição. Pois bem, um dia lá, uma distinta senhora achou de acomodá-lo numa vasilha d’água num canto da sala, do amostrado ficar ancho lá, só soltando bolinhas. Ele nem sacou que do lado dele havia outra vasilha carregada de ração. Quando ele viu o bafo da monstra devorando a comida, ele ficou todo encolhido só soltando lorota: Uma dessa eu dou jeito. Ela olhou pra ele pelo canto do olho, ronronou de desprezo e manteve-se comendo. Ele arremedou: Uma dessa eu caso, domo e mando ver. Foi aí que ela foi tomar água na vasilha dele. Eita! Quando viu a lapa de língua da brabona, não teve dúvidas, ficou de papo pro ar, dizendo: Vá, assim eu gozo. Chupe, minha filha, chupe. Nalah invocou-se e deu-lhe uma focinhada dele ficar vendo estrelas. A-rá, gritou ele: gostei da felação, amanhã venha de novo, minha filha. Passou. No outro dia, ele lá: Se me der mole eu domino. Nalah nem aí. Ele insistia afinando a goela deitando árias, óperas e operetas pra cima dela, até o dia em que ela arretou-se, pegou-lo pelo rabo e arrastou-lo pendurado pra casinha dela. Agora que quero ver. É que ela havia arrumado um cantinho cheio de galhos e matos para deitá-lo lá, foi ver se o atrevido era de mesmo ou só de faro. Oxe, Aderbal tremia encostado e ela só na provocação. É macho mesmo ou só se faz? Ela danou-se a requebrar, esfregar o rabo nele, alisar as patas, ficar roçando o couro, a ponto dele gritar de quase morrer sufocado: Assim também é demais também, ora! E como é que você quer? Ah, se ajeite estirada e deixe que eu faço o serviço! Arrepara só. Ela pagou pra ver: deitou-se e ficou lá se fingindo de morta. Num é que o Aderbal criou coragem e saiu fuçando nas partes pudendas dela, maior ajeitado, cai mas num cai, se enrola todo, se estica, se enfia, escorrega e ela já impaciente: Como é que é, hem? Num se avexe que ainda nem botei a cabeça! Ela lá com ele no meio e no maior caqueado. Lá pras tantas, todo lambuzado, ele sai se limpando: E aí, moleza, gostou da minha performance? Ué, já terminou, foi? Já, queria mais é? Eu nem comecei a virar os olhos, quanto mais gostar disso que não senti nada. Eita! Ah, desse dia em diante, ela ficava: Vai, mostra aí que é macho mesmo, vai! E ele fazia de tudo e nada. Virou o brinquedinho dela. Ele já anda de olheiras, capengando quase sem voz, sem ânimo, cansado de dormir por horas nunca suficientes do dia todo, mas ali, comendo curto na rédea dela. Tome, sem-vergonho, agora quero ver você sair dessa. Bem empregado, vai se meter com o que não pode, acaba assim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico e compositor grego Vangelis: Mask, Love Song & com Jon Anderson; da cantora Astrud Gilberto: ZDF Jazz Club, 24 Canciones & I haven’t got anything beter to do; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Assim como a ciência teórica podia ser chamada de pura e inocente, a tecnociência, ao ser, essencialmente, atividade produtora e modificadora do mundo, não é nunca totalmente inocente. A práxis é eticamente problemática. As questões éticas se colocam, hoje, no nível da investigação chamada básica, devido ao que o projeto de saber é fazer e poder. [...] Pensamento extraído da obra El paradigma bioético: uma ética para la tecnociencia (Antropos, 1991), do filósofo belga Gilbert Hottois, autor de obras de filosofia contemporânea atinentes à ética, linguagem, ciência e técnica. A respeito da clonagem (Human Reproduction Update, 1998), o autor considera alguns aspectos fundamentais que envolvem a questão, como a autoidentidade e a alteridade, a instrumentralização, da determinação no que concerne à liberdade e a autonomia do ser.

HOLÍSTICA & EDUCAÇÃO – [...] os pensadores holísticos reconhecem que há uma parte misteriosa e imutável em toda pessoa, que transcende os sintomas físicos, psíquicos e o próprio condicionamento social. É a dimensão espiritual. Se somos parte integrante do Ser, algo permanece necessariamente após a temporalidade de nossa existência para se integrar na totalidade cósmica: fonte de todo o significado e inatingível intelectualmente. A espiritualidade nos orienta à compaixão universal no sentido de profunda solidariedade com toda a humanidade e à comunhão com todos os demais seres. Educar holisticamente, portanto, é estimular no aluno o desenvolvimento harmonioso das dimensões da totalidade pessoal: física, intelectual, emocional e espiritual. E esta, por sua vez, participa de outros planos de totalidade: o comunitário, o social, o planetário, o cósmico. Todos estes planos devem ser desenvolvidos concomitantemente no processo educacional. Não se entende o homem somente a partir de si mesmo, como centro e senhor da natureza, mas como parte de um todo. Questões como autoconhecimento, liberdade, realização, justiça e paz são enfocadas, levando sempre em conta o contexto da interdependência dos fenômenos, nos diversos planos sistêmicos dos quais o homem é parte. A vivência comunitária é fundamental no desenvolvimento do indivíduo. O sentido da vida comunitária está na mais intensa e genuína interação entre as pessoas. Ela, muito mais do que as normas e leis, é estimulada pelo sentimento de philia (amizade), de que falavam os gregos. A qualidade das relações comunitárias, seja na família e/ou mesmo em outros grupos sociais, deve proporcionar o equilíbrio entre os interesses individuais e os coletivos, garantindo assim a diversidade e a individualidade na interação do grupo. No plano social está nossa dimensão de ser histórico. Participamos da sociedade humana e, portanto, temos nossa parcela de responsabilidade na história por ela construída. A ação política do homem deve se pautar na solidariedade e na cooperação, visando um desenvolvimento sustentado que possinilite a sobrevivência das gerações atuais e futuras. A totalidade planetária nos traz a consciência de que não estamos simplesmente habitando a Terra, mas fazemos parte integrante dela assim como os outros animais, os vegetais e os minerais. Nosso planeta é um complexo harmonioso, um sistema vivo auto-regulável, um oásis de vida na vastidão do universo. Todos os seres da comunidade planetária são igualmente importantes para a vida de Gaia. [...]. Trechos extraídos da obra A canção da inteireza: visão holística da educação (Summus, 1995), do professor e pesquisador Clodoaldo Meneguello Cardoso. Veja mais aqui, aqui e aqui.

UMA LENDA HINDU - [...] Naquela época em que a memória se originava nas almas dos homens, assim como a taça do sacrifício lentamente se enche de sangue ou de inebriantes poções, quando o colo da austera piedade patriarcal se abria, a fim de receber a semente da era primeva, e a saudade pela Mãe cercava símbolos antigos de renovados tremores, fazendo com que aumentassem as procissões de peregrinos, que acorriam na primavera às moradas da grande Nutriz do Mundo — foi naquele tempo que dois jovens, pouco diferentes quanto à idade e à casta mas bem diversos com relação ao seu físico, travaram entre si íntima amizade. O mais jovem chamava-se Nanda, e o outro, pouco mais velho, Shridaman. Aquele contava dezoito anos, ao passo que este já completara vinte e um. Ambos, cada qual no seu dia, haviam sido cingidos com o cordão sagrado e acolhidos na comunidade dos que nasceram duas vezes. Eram naturais da mesma aldeia dotada de um santuário, a qual tinha o nome de Bem-Estar das Vacas. Por indicação dos deuses, fora instalada no seu lugar na terra de Kosala, em tempos remotos. [...] Tudo isso agradava a Shridaman, sempre que comparava o amigo com sua própria pessoa, que tinha no semblante e nos membros alguns matizes mais claros, além das diferenças de fisionomia. O cavalete de seu nariz era fininho, qual lâmina, e ele tinha olhos que revelavam meiguice nas pupilas e nas pálpebras, enquanto nas faces crescia, em leque, uma barba macia. Também eram macios os membros, absolutamente não enrijecidos pelos ofícios de ferreiro e pastor, e mais se assemelhavam aos de um brâmane ou de um comerciante, com o tronco estreito, levemente balofo, e um pouco de gordura na região da barriguinha. Mas, fora isso, não deixava de ser perfeito, de joelhos e pés delicados. Era um corpo que muito bem podia servir de complemento e acessório a uma cabeça nobre, inteligente, à qual, no conjunto, coubesse ser a parte mais importante, ao passo que, no caso de Nanda, o corpo constituía-se no essencial e a cabeça não passava de um acréscimo agradável. Somando tudo, os dois se pareciam com Siva, na sua dupla manifestação, quando, ora como barbudo asceta, fica prostrado, feito morto, aos pés da Deusa, ora ereto, encara-a de braços estendidos, qual efebo em plena flor da mocidade. No entanto, eles não formavam uma unidade, ao contrário de Siva, que é a vida e a morte, o mundo e a eternidade no seio da Mãe, senão representavam sobre a Terra dois seres diversos. Por isso, eram um para o outro semelhantes a ídolos. Em ambos, o sentimento do eu e do meu entediava-se de si próprio, e, embora soubessem que, na realidade, tudo é um composto de imperfeições, espiavam um no outro justamente aquilo que os tornava diferentes. [...]. Trechos da obra As cabeças trocadas: uma lenda indiana (Nova Fronteira, 1988) do escritor alemão e Prêmio Nobel de Literatura de 1929, Thomas Mann (1875-1955). Veja mais aqui.

OS DO AMORO nosso amor só se acaba / se for para começar. / Te perdes longe de mim, / para poder me encontrar. / Todo fim sabe a começo. / Na fundura do teu peito / dorme a clave do milagre / cujo segredo mereço. / Sozinho mais te proclamo / a pessoa preferida. / Asa de graça, pendão / no vento, estrela da vida. / Que te cante a paz no peito. / Não é benção para mim, / que perto estou já do fim. / Te quero tanto, que tanto / dentro de ti me perdi. / Só por sonhar que erga voo / de pássaro prisioneiro / a luz que lateja em ti. Poema Embalo de rede, extraído da obra Campo de milagres (Bertrand Brasil, 1998), do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui e aqui.

A ESFINGE DE HOJE
[...] Na luta contra a exclusão, mesmo antecipando a vitória do capitalismo, o desafio de decifrar o enigma da esfinge poderia representar o caminho da salvação dos povos oprimidos [...]. O monstro devorador deste mundo corrompido e implacável de hoje não é a esfinge de Tebas da antiguidade, mas o capitalismo selvagem, a desenfreada sociedade de consumo, a barbárie que marginalizou os povos, favelizando-os [...]. Na minha opinião, essa sociedade de consumo está anulando a identidade pluralista, a identidade regional, sem fundamento em parte alguma. É a destruição da alma e da esperança do homem mais puro. Essa a maior ameaça. E acontece em todas as sociedades [...]. Trechos da entrevista A última palavra de Pasolini, concedida pelo cineasta, escritor, jornalista e professor italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), extraído de Conversações (Cultura, 2008), de João Lins de Albuquerque, quatro dias antes de ser brutalmente assassinado no dia 02 de novembro de 1975, em circunstâncias que continuam gerando polêmica até hoje. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Congresso Entre Mares: a literatura, leitura do mundo & muito mais na Agenda aqui.
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É nela o festival de Ishtar, Lenda Bororo, a música de Astrud Gilberto, a escultura de Wayland Gregory, a arte de Amadeo de Souza-Cardoso & Maria de Lourdes Oliveira aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...