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terça-feira, fevereiro 20, 2024

NATALIE GOLDBERG, ANA MARÍA RODAS, HELEIETH SAFFIOTI, HOMENS & CARANGUEJOS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da Fantasia Sul América para violino solo (2022), do compositor Cláudio Santoro; do Canto dos Aroe (2021), do compositor Roberto Victorio; e Gestures – for solo violin (2022), de Arthur Kampela, todos na interpretação da premiada violinista e professora Mariana Isdebski Salles, autora dos livros Ciência na Arte - Arte na Ciência (Paka-Tatu, 2021) e Arcadas e golpes de arco (Thesaurus, 1998). Em parceria com a pianista Laís de Souza Brasil, lançou o cd Sonatas (ABM Digistal), do compositor Claudio Santoro; e, em parceria com o violoncelista Marcelo Salles, lançou o cd Mosaico (2005) e Mosaico II (2008), com peças para duo de violino e violoncelo de compositores brasileiros; e com o Deuxiéme Trio de Villa-Lobos, gravou o cd Fantasia para violino, violoncelo e piano de Franck Bridge e Trio de Michael Colina (2008). Veja mais aqui e aqui.

 

O BANQUETE & O PRECIPÍCIO (PISCAR DE OLHOS, A HESITAÇÃO E O ABISSAL)... - Quem não náufrago sobrevivente na roda-viva: apatetados metazoários, ruminantes do intelecto solitário, os Ocos de Eliot... Dá-se volta por cima até baixar a poeira porque nada se resolveu ou, se resolvido, nada deu fé. Só sortudo fora dessa! Pros do lado de cá a indagação de Lukáscs no pé do ouvido: Um estado de ânimo de permanente desespero com a situação mundial... quem nos salva da civilização ocidental?... Isso para quem nunca arregou da parada - mesmo que escorregasse pelo corredor público e desse num túnel sem saída como buraco sem fundo: tudo ruindo e o vexame diante do covil com toda contrafação no pé da venta – tem-se a impressão de que não passa de um impostor no buruçú do caos espaçado, valendo-se das sobras feito rufião aos gemidos na quase beatitude. É mesmo? Quem o faminto glutão engolindo tudo? Ah! É só deslembrar da morte esticando seus braços elásticos com as lâminas afiadas do tempo. É mesmo? Coisa besta, sai na urina. Ah, não, como escapar aos seus golpes letais, sem poder fazer nada, um gesto insólito, como dar de ombros, nada a ver, e tudo apodrecendo na chuvada da Ilha das Moscas de Golding. Sim, com Pampineia, Griselda de Vivaldi, Galeotto, meio mundo de gente, a discutir o que sobrou da Justiça, da Esperança, da Razão, levando lero da parábola dos anéis, os dedos que se foram, a ameaça da peste, da fome, dos monstros invisíveis e não sei lá o que mais, escorregando pelas dez jornadas de Boccaccio nas cenas de Pasolini. Danou-se! Leseira, sai nas coxas. Ah, tá! E do nada surgisse Anne Lamott: A esperança começa na escuridão, a teimosa esperança de que, se você simplesmente se levantar e tentar fazer a coisa certa, a manhã chegará. Você espera, observa e trabalha: você não desiste... E mais o patético escabroso das estranhas pelo intolerável soando nos tímpanos de forma ensurdecedora, inoculando o cinismo quase pueril. Como seria a morte? Ixe! Fogo pelando, água da muita, veneno cruel no que é fato e o que é valor, assim por diante - o desejável é seguir a lógica do xadrez dando conta do revogável. Vixe! Tem também o refutável e tudo o que foi violado, afora o protocolar considerado no acordo tácito, na ausência de domínio, tudo por conta de uma suposta isonomia. E é? Ousa-se, ataca-se até que um seja devidamente anulado com a última pá de cal. Aí, tá certo! E sacar Agneta Pleijel: Na batalha entre você e o mundo, fique do lado do mundo... Sacou? Dizem que o homem simples morreu na resiliência, chega dava gosto vê-lo romper a redoma e dormir com um olho só, avalie. Foi esfolado todo, quanta mofa. A desforra ficou nos galhos retorcidos da indiferença, intrusos fizeram a festa, quão leigos no ludíbrio das palavras e intenções, armadilhas sentimentais – será que vai nascer outro? A missão logo à tona, qual? Ah, o que mentem palavras, gestos e intenções, só equívocos. Nada, já dizia Péter Szondi: No seu lugar, uma época para a qual a originalidade é tudo reconhecer somente a cópia... Por pior que seja a súbita captura da esfinge há sempre a habituada potência da resposta estremecida, enganchada, exprimindo a miséria e a perigosa verdade para se salvar da tolice e ter o que bem possa merecer. É só uma primeira tábua em que possa se agarrar do insondável. Contudo, há de levar em consideração as armas em mãos inescrupulosas, a fome devorando, o monstro metendo medo, a desgraça irremediável, a sinceridade e a mentira alheia, quão falso e demasiado: o mundo saiu dos trilhos faz tempo. Mãos não se tocam, lábios não se beijam, braços não abraçam, pernas não se enroscam, pés não caminham, olhares não se veem, dengos não se procuram nem se satisfazem, corações não amam. Que raça é esta, hem? Nem sempre a união faz a força, às vezes rompe, opõe e dá num escambau cabeludo. Sobra o cuspe na cara: somos nossos próprios inimigos, uns aos outros, todos. Onde a obrigação de viver, a comida, a direção, só ódio e morte. Agora só na outra, meu. Viva! A vida é arte: vamos vidartear! Até mais ver.

 

TRÊS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

POETA - O antigo rito me possui \ Várias noites sem dormir \ depois que o rio de sangue cai \ Eu me afogo nele e renasço \ novo como uma moeda redonda \ como um sonho \ perfeito em minha dor \ lembrando apenas o suficiente do passado \ para construir a \ teia de aranha \ com a qual cubro minha cama de solteira.

EI - Novo amante: \ Quero te explicar bem que entre os seus olhos \ e os meus olhos \ só existe desejo. \Que sua pele branca às vezes escurece \ porque quem me marcou ainda está aqui. \ Gostaria de dizer seu nome e não posso \ porque quando abro a boca lembro de \ uma cama diferente, \ outros lábios bebendo meus seios. \ E quando eu choro \ e te agarro com tanta força \ eu não fico feliz, amor. \ É uma chama. II - Ok, \ estou preso, ciumento, inconstante \ e cheio de tesão \ O que você esperava? \ Que ele tinha olhos, \ glândulas, \ cérebro, trinta e três anos \ e agia \ como um cipreste no cemitério? III - Disseram que um poema \ deveria ser menos pessoal; \ Que falar de você ou de mim \ é coisa de mulher. \ O que não é sério. \ Felizmente ou infelizmente \ ainda faço o que quero. \ Talvez um dia eu use outros métodos \ e fale de forma abstrata. \ Agora só sei que se algo for dito \ deve ser sobre um assunto conhecido. \ Só sou honesto - e isso basta - \ quando falo das minhas próprias misérias e alegrias \ posso dizer que gosto de morangos, \ por exemplo, \ e que \ não gosto de algumas pessoas porque são hipócritas, cruéis \ ou simplesmente porque são estúpidas. \ Que não pedi para viver \ e que morrer não é algo que me atrai \ exceto quando estou deprimido. \ Que sou feito \ acima de tudo \ de palavras. \ Que para me expressar \ uso tinta e papel à minha maneira. \ Eu não posso evitar. \ Não importa o quanto eu tente, \ não escreverei um ensaio \ sobre a teoria dos conjuntos. \ Talvez mais tarde \ eu encontre outras formas de me expressar. \ Mas isso não importa para mim agora; \ Hoje vivo aqui e neste momento \ e sou eu \ e atuo como tal. \ De resto, lamento não ter agradado a todos. \ Acho que basta olhar para mim \ e tentar me aceitar \ com ossos, músculos, \ desejos e tristezas. \ E olhar pela porta e ver o mundo passar \ e dizer bom dia. Aqui estou eu. \ Mesmo que eles não gostem. \ Ver.

VAMOS VIVER VALÉRIA - Esqueçamos as coisas que dizem \ até aqueles que chegaram de barco \ do Adriático \ das Cíclades \ de Rodes. \Suas línguas viperinas \ , que poderiam muito bem ser melhor utilizadas em casos amorosos, \sibilaram o mal do cume do Citoro. \ Não, eles não ousam dizer seu nome, \ apenas sussurraram o meu \Sentem medo, \ são hipócritas, \ mentem com putinhas magrinhas, \ vão embora sem pagar o que é justo, que não é muito. \ Vamos viver Valéria, \ depois de milhares de anos \ haverá um poeta diferente \ que nos ensinará o nosso amor \ e criará outra Carmem \ que sonhará cheia de paixão \ Iremos longe \ Valéria \ nossa cama \ serão as estrelas.

Poemas da premiada escritora e jornalista guatemalteca Ana María Rodas. Veja mais aqui.

 

ESCREVER COM A ALMA – [...] Escreva o que te perturba, o que você teme, o que você não tem vontade de falar. Esteja disposto a ser dividido. [...] Somos importantes e nossas vidas são importantes, magníficas mesmo, e seus detalhes merecem ser registrados. É assim que os escritores devem pensar, é assim que devemos sentar-nos com a caneta na mão. Nós estávamos aqui; somos seres humanos; é assim que vivíamos. Que fique claro, a terra passou diante de nós. Nossos detalhes são importantes. Caso contrário, se não estiverem, podemos lançar uma bomba e isso não importa... Registrar os detalhes de nossas vidas é uma postura contra as bombas com sua capacidade de matar em massa, contra o excesso de velocidade e eficiência. Um escritor deve dizer sim à vida, a tudo na vida: aos copos de água, ao Kemp's meio a meio, ao ketchup no balcão. Não é tarefa do escritor dizer: “É estúpido viver numa cidade pequena ou comer num café quando se pode comer macrobióticos em casa”. A nossa tarefa é dizer um santo sim às coisas reais da nossa vida tal como elas existem – a verdade real de quem somos: vários quilos acima do peso, a rua cinzenta e fria lá fora, o enfeite de Natal na vitrine, o escritor judeu no cabine laranja em frente à amiga loira que tem filhos negros. Devemos nos tornar escritores que aceitam as coisas como elas são, passam a amar os detalhes e avançam com um sim nos lábios para que não haja mais nãos no mundo, nãos que invalidem a vida e impeçam que esses detalhes continuem. [...] Se você não tem medo das vozes dentro de você, não terá medo das críticas externas. [...] Escrevo porque estou sozinho e ando sozinho pelo mundo. Ninguém vai saber o que passou por mim... Escrevo porque há histórias que as pessoas esqueceram de contar, porque sou uma mulher tentando se destacar na minha vida... Escrevo por mágoa e como fazer magoar OK; como me fortalecer e voltar para casa, e esse pode ser o único lar verdadeiro que terei. [...] Brinque. Mergulhe no absurdo e escreva. Arrisque-se. Você terá sucesso se não tiver medo do fracasso. [...]. Trechos da obra Writing Down the Bones: Freeing the Writer Within (Shambhala, 2005), da escritora e pintora estadunidense Natalie Goldberg. Veja mais aqui.

 

A MULHER, ENFRENTANDO A VIOLÊNCIA - [...] Como isolar o conceito de gênero? Não se deve isolá-lo de seu contexto econômico, social e político. Aliás, eu utilizo cada vez menos esse conceito, porque gênero é um conceito a-político, a-histórico e bastante palatável. Tão palatável, que o Banco Mundial só financia projetos com recorte de gênero. Se fizermos referência à “ordem patriarcal de gênero”, os projetos, certamente, não serão contemplados com as verbas solicitadas. Mas o patriarcado está aí, presente em todas as relações humanas. Chegamos ao paradoxo de os homens sustentarem a existência do patriarcado e a maioria das feministas mulheres a negarem. [...] É óbvio que não existe ninguém que consiga ficar neutro diante de uma contenda. Tenho minha posição, pública e notória, mas não tenho filiação, porque não quero perder minha liberdade de pensamento. [...] Estamos entupidos de cristianismo e isso representa uma face do fundamentalismo. Odeio fundamentalismos. [...] Não há sequer uma totalidade social; mas tão somente caos. Não gosto do pensamento pós-moderno, porque é fragmentário e projeta essa fragmentação na realidade, quando, para mim, a sociedade é uma totalidade, e a crença nisso me fez progredir teoricamente. No Brasil, sou considerada a teórica feminista, o que não significa que não sei pensar em políticas públicas, nem tampouco que não existam outras estudiosas do tema, criando teorias. Estudo o tema violência com a finalidade de lançar políticas públicas para as mulheres, oferecendo-as aos governantes, cujos meios para sua implementação estão ao seu alcance. [...] Logo, não sou apenas teórica, gosto também de pensar nas práticas, embora não me vincule a nenhum movimento, mantendo muito boas relações com todos eles. Não me agrada nada, nada, esta divisão: feminismo acadêmico versus feminismo militante. No Brasil, a academia abriu, sem resistência digna de nota, suas portas à temática de gênero e, ademais, há um trânsito fácil entre acadêmicas e militantes, sem contar o fato de que muitas militantes são também acadêmicas ou, pelo menos, leem e discutem suas leituras, não sendo, por conseguinte, apenas militantes. [...] É claro que o espaço doméstico é eminentemente feminino, mas não é o espaço da privacidade. É o espaço do trabalho não reconhecido, do trabalho não pago, do trabalho doméstico. E por que razão não é o espaço da privacidade? Porque vige um regime social, político e econômico androcêntrico ou patriarcal ou viriarcal. Em outros termos, vivemos sob o patriarcado. [...] O homem cuidava da chácara, era caseiro, e a mulher era empregada doméstica. Quando ela se referia a relações sexuais com seu marido, sua linguagem relativa a seu marido era a seguinte: “quando ele quer me usar...”. Era essa a linguagem utilizada, nunca me esqueci; e já ouvi essa expressão sendo utilizada por muitas mulheres do Nordeste, que moram aqui, em São Paulo, de paulistas e de mulheres de outros recantos do país. Ou seja, elas se consideram objetos para o uso e o abuso do seu amo e senhor. [...] Hoje, já existe uma jurisprudência de cerca de mil e quinhentos casos. É, sem dúvida, importantíssima esta terceira permissiva penal para o aborto. Há muitas pessoas lutando para a aprovação da súmula vinculante, não apenas para poupar trabalho. O juiz de primeira instância é aquele que vai para o interior e não vê mais nada, não tem universidade na cidade onde atua, ele não dá aula, não estuda. Se há um conflito entre um artigo de qualquer código comercial, tributário, penal, civil, ou qualquer outra lei isolada, de uma parte, e, de outra parte, a Constituição, é obvio que prevalece a Constituição, pois é a Lei Magna do país. Mas os juízes não estudam mais, então não percebem que estamos em outro mundo, que a Constituição acabou por derrubar vários artigos do Código Civil e eles não podem atuar segundo aqueles artigos. [...] Nós não temos como estar apenas fora do gênero, nem nós mulheres, nem os homens. Como ficar fora do gênero? Isso é impossível. O que nós podemos é lidar com todas as matrizes que nós conhecemos, simultaneamente. Então, a minha maneira de criar, porque eu não sou nenhum gênio, é: eu leio um livro, absorvo aquilo que me parece interessante, e tento avançar. Tento avançar um pouco – a ciência avança milimetricamente. Uma grande descoberta é fruto do acaso, porque ninguém é tão inteligente para ter uma ideia brilhante por semana. Então, vou fazendo o que eu posso, que é caminhar assim na criação, milimetricamente. [...]. Trechos da entrevista concedida pela socióloga Heleieth Saffioti (1934-2010), extraída da publicação Heleieth Saffioti, uma pioneira dos estudos feministas no Brasil (Estudos Feministas - UFSC, 2011) de Luzinete Simões Minella. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

HOMENS & CARANGUEJOS, DE JOSUÉ DE CASTRO

[...] Da evasão daquela paisagem humana parada e monótona. Desejo imperioso de sair de tudo. De sair de dentro de si mesmo. De sair do círculo fechado da família. Do ciclo do caranguejo. Da cidade do Recife. Um desejo desesperado de arrebentar com todas as amarras que o ligam à lama pegajosa do vale do Capibaribe e às folhas viscosas do mangue. Sair vagando pelo mundo afora com os navios que passam ao largo da costa, soltando com indiferença um arrogante penacho de fumo por suas longas e grossas chaminés [...].

Trecho extraído da obra Homens e caranguejos (Bertrand Brasil, 2003), do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 PS: Esta postagem é em homenagem a dois Joões coincidentemente de Araújo: o primeiro é professor e ESO em Língua Inglesa UFRPE, João Paulo Araújo e, o segundo, bibliotecário e parceiramigo da Biblioteca Fenelon Barreto, também, João Paulo Araújo.  Procês, zis abrações.

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sexta-feira, junho 22, 2018

GOLDING, BALMONT, STEINER, NORBERT ELIAS, MILTON NASCIMENTO, KIAROSTAMI & FRANÇOISE GILOT


TRÊS & UMA VIDA SÓ – Imagem: A Gordiuszi csomó III (2005), da pintora francesa Françoise Gilot. - Numa bela manhã de 1552, nascia Erik no meio de um parto complicado com a morte materna. Cresceu ouvindo as histórias dos Vikings. de Odin, Thor, Gladius e a batalha de Lena, Nokken, Tallemaja, Draug, Näcks, de muito fazer uso disso na sua formação adulta. Na busca pelo pai desconhecido, soube do excêntrico imperador Rodolfo de Habsburgo, colecionador de anões e gigantes em um regimento do seu exército. Não entendia nada de política e muito menos da Contrarreforma e do calendário gregoriano, das andanças por Praga, o fascínio por jogos e códigos, astrologia, alquimia e ciências ocultas. Achava muito estranho o que diziam de um certo pintor Arcimboldo, em meio as conversas das revoltas austríacas e húngaras, as questões dos otomanos na Áustria, Morávia e Hungria, as passagens por Boêmia e a Silésia. Tal como a majestade, ele também sofria de constantes ataques de melancolia e insanidade, principalmente quando pôde ver uma vez de longe o livro gigante do Codex Gigas, a deslumbrante oitava maravilha do mundo, escrita por um monge copista do mosteiro de Podlazice, dado por destruído durante as guerras religiosas do século anterior e seu autor condenado a ser emparedado vivo por crime grave e que, para salvar-se, pediu ajuda ao demo. Aos boticões, jamais esqueceu a decoração das tintas vermelhas, azuis, amarelas e douradas do volume, coisa que não lhe saía da cabeça, ambicionando roubá-lo e passando a sonhos constantes, aguçados por sua curiosidade em saber das fórmulas mágicas contidas naquela publicação imensa. Depois disso, pesadelos assustadores acometiam suas noites dias afora. Tantos tormentos entre trogloditas, dinossauros e guerreiros que povoavam suas desventuras oníricas, com perseguições, quedas dos precipícios, ataques de animais, crucificações, monstros mitológicos, guerras de caveiras e terrores diversos. As perseguições tanto ocorriam nos seus adormecimentos noturnos, como nos devaneios em dia claro, ouvindo vozes do além, ameaças de íncubos e súcubos ao derredor, bruxarias e premonições malsinadas, amedrontando seu pobre ser amargurado, identificando qualquer aproximação de alguém, como presença de terrível algoz para destruí-lo. Por conta disso, viveu pelas sombras da existência. Além do mais, outra paixão angustiava o peito entre ataques de sobrevivência e aluamentos: a filha bastarda do rei, Carlota, marquesa da Áustria, a ponto de arquitetar estratagemas para capturá-la e aprisioná-la para si. Essa paixão platônica o fez armar ardis engenhosos, rondando todos os locais onde supunha ela pudesse estar presente, isso até o dia que ela se casou com o príncipe de Cantecroix, deixando-o aos desastres da existência, ora resgatando furioso e completamente embriagado a exaltar a memória de Gustavo Vasa e assumindo o luteranismo evangélico, ora não menos ébrio se bandeando pela defesa da igreja romana católica. Quis estupra-la e nisso se determinou, dela não escapar, em pleno golpe, enlouqueceu na investida até sucumbir maldito em 1612, vítima de um ataque desconhecido no meio dos seus tantos pesadelos. Eis que numa tarde mormaçada de 1756, nascia uma criança entre os Palawah, nas inóspitas regiões australianas. Cresceu entre os aborígenes e os dingos, cangurus, emas, bumerangues, lanças, bastões, o cultivo da terra, caça, pesca e dialetos. Era silencioso e prestava atenção em tudo. Estava adolescente quando ouviu das sucessivas histórias contadas sobre os migrantes indianos e das ameaças dos portugueses que zanzaram pelas terras da Australis Incógnita, do navegador holandês Willem Janszoon e da Nova Holanda, das andanças de James Cook pela Nova Gales do Sul e a colônia penal, de Abel Tasman na Tasmânia, e da invasão britânica de 1788. Sabia apenas da noite e do dia, da fome e da caça, das coisas de sua tribo, matava pra não morrer, savanas, o Tempo dos Sonhos, o didgeridoo, a Mãe Serpente, os massacres dos colonos e a catequese, alijauaras, arandas, mundbaras, gurindjis, pitjantjaras, pintubis, ualparis, uarramungas, ualpiris, mardus, o Uluru. No meio disso teve o primeiro sonho estranho, em que vivia num mundo distante do seu, como se fosse um dos invasores em terras estrangeiras. Eram sonhos monstruosos que o perseguiram terrivelmente por toda vida, até sucumbir em 1816, vítima do genocídio contra os aborígenes no processo de colonização britânica. Foi então que na madrugada chuvosa de maio de 1960, nascia no nordeste brasileiro uma criança de pais pobres, vítimas das secas sertanejas. Brincava do muito no terreiro tórrido e ouvia histórias da Cumade Fulôsinha, Saci Pererê, bois e cavalos dumas matas perdidas na imaginação. Cresceu com o Sol de janeiro a janeiro, em plena ditadura militar, maria-vai-com-as-outras, a desconhecer da censura e repressão. Aos dez anos teve um sonho estarrecedor: que era um menino órfão galego no frio, perseguido por monstros e maldições. Ao amanhecer estava amedrontado com tudo embaixo da cama. Chamou aos pais, nada encontraram, e ele insistia tudo aquilo sonhado lá embaixo. No outro dia acordou com o pesadelo de ser uma criança de cor perseguida por invasores brancos barbudos que matavam os da sua tribo. Contou pros pais que disseram estar ele ouvindo muita Estória de Trancoso. Não era, noite após noite, e precipícios, feras, bruxarias, uma princesa linda que o levava para a morte, ataques de invasores, tiros, mortandade, terrores. Estava adolescente púbere e no seu mundo de devaneios macabros, para ele tanto faziam falar de Papai Noel, AI-5, a Mula sem cabeça, a Burrinha do Padre, Iêiê, O meu pé de laranja lima, Moral e Cívica, Brasília e FMI, Milagres, guerrilhas, Arena e MDB, tudo como se fosse Monteiro Lobato contando coisas pros jovens que podiam ser tratados por homens feitos. Misturava Araguaia com Homem Aranha, USTop com MR-8, Hippies e cristãos, Cuba com as calças Lee, TFP com a tricampeonato de futebol, desemprego com subversão, Guerra Fria com ligas camponesas, corrupção com levar vantagem em tudo, promulgação da Constituição Federal com papo de ETs, AIDS com a economia canavieira, dívida externa com papo furado, impeachment com a novela da Globo, Plano Real com a vinda de Jesus e por aí vai. Aos trinta e quatro anos era ufano tetracampeão, falando de Emerson, Piquet e Senna como se fossem os únicos heróis nacionais depois dos jogadores. Odiava coisas de estudo ou escola, terminara o segundo grau a pulso na escolinha do arruado e ali ficara como se fora o maior sabichão do planeta. Misturava lucro com apurado, metia o pau nos comunistas e votava de acordo com a amizade nas eleições. A partir dos trinta e cinco anos, os pesadelos horríveis passaram a ser recorrentes, sem poder distinguir o que era a vida e o que era sonhado, misturando-se por infernos dantescos e buscas de felicidade jamais alcançada, até o dia em que teve a nítida experiência de que era Erick e não sabia que a sua vida era assim porque tinha sido ele e reconhecera ser ele mesmo, ao passo que tudo se transformava em si e já o inominável australiano a fugir e guerrear contra os invasores intrépidos, e tudo inexplicável sem entender como podia ser quem era nisso tudo, um nordestino brasileiro, enquanto um branco escandinavo e um aborígene australiano eram nele uma coisa só e não sabia mais nada porque mergulhando na trindade esqueceu existir para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor e compositor Milton Nascimento: Planeta blue na terra do sol, Ângelus, Uma Travessia 50 Anos ao vivo & Pietá ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Três coisas condicionam o rumo de vida de um ser humano entre o nascimento e a morte; e com isto ele é triplicemente dependente de fatores situados aquém do nascimento e além da morte. O corpo está sujeito às leis da hereditariedade. A alma está sujeita ao destino criado pelo próprio ser humano; esse destino criado pelo homem é denominado com a antiga palavra carma. E o espírito obedece às leis da reencarnação, das repetidas vidas na Terra. Sendo assim, a relação entre corpo, alma e espírito pode ser expressa da seguinte maneira: o imperecível é o espírito; o nascimento e a morte imperam na corporalidade segundo as leis do mundo físico; a vida anímica, sujeita ao destino, serve para unir o espírito e a corporalidade durante uma vida terrena. Todos os demais conhecimentos sobre a natureza do homem pressupõem o conhecimento dos ‘três mundos’ a que ele pertence. [...]. Trecho extraído da obra Teosofia: introdução ao conhecimento supra-sensível do mundo e do destino humano (Antroposófica, 2002), do filósofo e educador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925). Veja mais aqui.

SOCIEDADE DOS INDIVÍDUOS – [...] O controle comportamental desta ou daquela espécie existe sem dúvida em todas as sociedades humanas. Mas aqui, em muitas sociedades ocidentais, há vários séculos que esse controle é particularmente intensivo, complexo e difundido; e o controle social está mais ligado do que nunca ao autocontrole do indivíduo. Nas crianças, os impulsos instintivos, emocionais e mentais, assim como os movimentos musculares e os comportamentos a que tudo isso as impele, ainda são completamente inseparáveis. Elas agem como sentem. Falam como pensam. À medida que vão crescendo, os impulsos elementares e espontâneos, de um lado, e a descarga motora – os atos e comportamentos decorrentes desses impulsos –, de outro, separam-se cada vez mais. Impulsos contrários, formados com base nas experiências individuais, interpõem-se entre eles. [...] Uma trama delicadamente tecida de controles, que abarca de modo bastante uniforme, não apenas algumas, mas todas as áreas da existência humana, é instalada nos jovens desta ou daquela forma, e às vezes de formas contrárias, como uma espécie de imunização, através do exemplo, das palavras e atos dos adultos. E o que era, a princípio, um ditame social acaba por tornar-se, principalmente por intermédio de pais e professores, uma segunda natureza do indivíduo, conforme suas experiências particulares. [...] Considerados como corpos, os indivíduos inseridos por toda vida em comunidades de parentesco estreitamente unidas foram e são tão separados entre si quanto os membros das sociedades nacionais complexas. O que emerge nestas últimas são o isolamento e a encapsulação dos indivíduos em suas relações uns com os outros [...] à medida que prossegue essa mudança social, as pessoas são mais e mais instadas a esconder umas das outras, ou até de si mesmas, as funções corporais ou as manifestações e desejos instintivos antes livremente expressos, ou que só eram refreados por medo das outras pessoas, de tal maneira que normalmente se tornam inconscientes deles [...]. Trechos extraídos da obra A sociedade dos indivíduos (Jorge Zahar, 1994), do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990). Veja mais aqui.

O SENHOR DAS MOSCAS - [...] O fogo chegou nos coqueiros junto à praia e os devorou ruidosamente. Uma chama, aparentemente isolada, torceu-se como um acrobata e lambeu as frondes das palmeiras na plataforma. O céu estava negro. O oficial sorriu alegremente para Ralph. — Vimos sua fumaça. O que estavam fazendo? Uma guerra ou algo assim? Ralph assentiu. O oficial examinou o pequeno espantalho à sua frente. O menino precisava de um banho, de um corte de cabelo, de uma assoada de nariz e de uma boa quantidade de unguento. — Ninguém morreu, espero. Há algum cadáver? — Só dois. E sumiram. O oficial inclinou-se para baixo e olhou bem de perto para Ralph. — Dois? Assassinados? Ralph concordou com um gesto. Atrás dele, toda a ilha estremecia em chamas. O oficial sabia, por ofício, quando as pessoas falavam a verdade. [...] Por um instante, vislumbrou uma imagem fugaz do estranho encanto que outrora dominara as praias. Mas a ilha estava carbonizada como lenha usada... Simon morrera... e Jack havia... As lágrimas começaram a correr-lhe pelas faces e soluços sacudiram-no. Pela primeira vez, desde que chegara à ilha, entregou-se ao choro; grandes e convulsivos espasmos de tristeza pareciam torcer todo o seu corpo. Sua voz elevou-se sob a fumaça negra diante dos restos incendiados da ilha; contagiados por aquela emoção, os outros meninos começaram a tremer e a soluçar. No meio deles, com o corpo sujo, cabelo emaranhado e nariz escorrendo, Ralph chorou pelo fim da inocência, pela escuridão do coração humano e pela queda no ar do verdadeiro e sábio amigo chamado Porquinho. O oficial, cercado por todo esse ruído, ficou emocionado e um pouco embaraçado. Virou-se para dar tempo a que se recuperassem. Esperou, deixando os olhos fixos no garboso cruzador a distância. Trechos extraídos do romance O senhor das moscas (Nova Fronteira, 2011), do escritor e dramaturgo William Golding (1911-1993).

DOIS POEMASI - Pode-se com os olhos fechados viver, / Não desejando nem mesmo a sorte / E para sempre adeus ao céu dizer. / E entender, que ao redor há apenas morte. / Pode-se viver, em silêncio esfriando, / Não contando os minutos passados, / Como vive a floresta de outono, afinando, / Como vivem os sonhos apagados. / Pode-se todo o amor renunciar, / Pode-se tudo para sempre deixar de benquerer. / Mas não pode para o passado esfriar, / Mas não pode sobre o passado esquecer! – VENTO – A natureza é um templo onde vivos pilares / Deixam filtrar não raro insólitos enredos; / O homem o cruza em meio a um bosque de segredos / Que ali o espreitam com seus olhos familiares. / Como ecos longos que à distância se matizam / Numa vertiginosa e lúgubre unidade, / Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade, / Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam. / Há aromas frescos como a carne dos infantes, / Doces como o oboé, verdes como a campina, / E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes, / Com a fluidez daquilo que jamais termina, / Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente, / Que a glória exaltam dos sentidos e da mente. / Viver do presente eu não posso, / Amo o turbamento dos meus sonhos. Poemas do poeta russo Konstantin Balmont (1867-1942).

O GOSTO DA CEREJA
O premiado filme O gosto de cereja (Palma de Ouro de Cannes, 1997), do também do premiado cineasta, poeta, roteirista, produtor e fotógrafo iraniano Abbas Kiarostami, conta a história de um homem de classe média que habita em Teerã e planeja um suicídio. Procura alguém para ajudá-lo a cavar um túmulo nas montanhas, todos se recusam e, apenas um velho taxidermista turco concorda em ajudá-lo. Porém, o contratado tenta convencê-lo a desistir da ideia, alegando que o sabor da cereja havia impedido que ele próprio cometesse um suicídio. Recomendo. Veja mais aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora francesa Françoise Gilot. 
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A Previdência Social é superavitária!, O socialismo de Bernard Shaw, Casablanca de Umberto Eco, a música do Quarteto Camargo Guarnieri, a arte de Judy Burgarella & Eneida Paes Lima aqui.
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A quadrilha da paixão, A era do vazio de Gilles Lipovetsky, o cinema de Fernando Arrabal, Anouk Ferjac & Mariangela Melato; o teatro de Samir Yazbek, a fotografia de Nair Benedicto, a arte de Roland Topor & Luciah Lopez aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

LYGIA FAGUNDES TELLES, RIM BATTAL, MILTON HATOUM, BEATRIZ PAREDES RANGEL & ANASTÁCIA

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