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terça-feira, fevereiro 20, 2024

NATALIE GOLDBERG, ANA MARÍA RODAS, HELEIETH SAFFIOTI, HOMENS & CARANGUEJOS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da Fantasia Sul América para violino solo (2022), do compositor Cláudio Santoro; do Canto dos Aroe (2021), do compositor Roberto Victorio; e Gestures – for solo violin (2022), de Arthur Kampela, todos na interpretação da premiada violinista e professora Mariana Isdebski Salles, autora dos livros Ciência na Arte - Arte na Ciência (Paka-Tatu, 2021) e Arcadas e golpes de arco (Thesaurus, 1998). Em parceria com a pianista Laís de Souza Brasil, lançou o cd Sonatas (ABM Digistal), do compositor Claudio Santoro; e, em parceria com o violoncelista Marcelo Salles, lançou o cd Mosaico (2005) e Mosaico II (2008), com peças para duo de violino e violoncelo de compositores brasileiros; e com o Deuxiéme Trio de Villa-Lobos, gravou o cd Fantasia para violino, violoncelo e piano de Franck Bridge e Trio de Michael Colina (2008). Veja mais aqui e aqui.

 

O BANQUETE & O PRECIPÍCIO (PISCAR DE OLHOS, A HESITAÇÃO E O ABISSAL)... - Quem não náufrago sobrevivente na roda-viva: apatetados metazoários, ruminantes do intelecto solitário, os Ocos de Eliot... Dá-se volta por cima até baixar a poeira porque nada se resolveu ou, se resolvido, nada deu fé. Só sortudo fora dessa! Pros do lado de cá a indagação de Lukáscs no pé do ouvido: Um estado de ânimo de permanente desespero com a situação mundial... quem nos salva da civilização ocidental?... Isso para quem nunca arregou da parada - mesmo que escorregasse pelo corredor público e desse num túnel sem saída como buraco sem fundo: tudo ruindo e o vexame diante do covil com toda contrafação no pé da venta – tem-se a impressão de que não passa de um impostor no buruçú do caos espaçado, valendo-se das sobras feito rufião aos gemidos na quase beatitude. É mesmo? Quem o faminto glutão engolindo tudo? Ah! É só deslembrar da morte esticando seus braços elásticos com as lâminas afiadas do tempo. É mesmo? Coisa besta, sai na urina. Ah, não, como escapar aos seus golpes letais, sem poder fazer nada, um gesto insólito, como dar de ombros, nada a ver, e tudo apodrecendo na chuvada da Ilha das Moscas de Golding. Sim, com Pampineia, Griselda de Vivaldi, Galeotto, meio mundo de gente, a discutir o que sobrou da Justiça, da Esperança, da Razão, levando lero da parábola dos anéis, os dedos que se foram, a ameaça da peste, da fome, dos monstros invisíveis e não sei lá o que mais, escorregando pelas dez jornadas de Boccaccio nas cenas de Pasolini. Danou-se! Leseira, sai nas coxas. Ah, tá! E do nada surgisse Anne Lamott: A esperança começa na escuridão, a teimosa esperança de que, se você simplesmente se levantar e tentar fazer a coisa certa, a manhã chegará. Você espera, observa e trabalha: você não desiste... E mais o patético escabroso das estranhas pelo intolerável soando nos tímpanos de forma ensurdecedora, inoculando o cinismo quase pueril. Como seria a morte? Ixe! Fogo pelando, água da muita, veneno cruel no que é fato e o que é valor, assim por diante - o desejável é seguir a lógica do xadrez dando conta do revogável. Vixe! Tem também o refutável e tudo o que foi violado, afora o protocolar considerado no acordo tácito, na ausência de domínio, tudo por conta de uma suposta isonomia. E é? Ousa-se, ataca-se até que um seja devidamente anulado com a última pá de cal. Aí, tá certo! E sacar Agneta Pleijel: Na batalha entre você e o mundo, fique do lado do mundo... Sacou? Dizem que o homem simples morreu na resiliência, chega dava gosto vê-lo romper a redoma e dormir com um olho só, avalie. Foi esfolado todo, quanta mofa. A desforra ficou nos galhos retorcidos da indiferença, intrusos fizeram a festa, quão leigos no ludíbrio das palavras e intenções, armadilhas sentimentais – será que vai nascer outro? A missão logo à tona, qual? Ah, o que mentem palavras, gestos e intenções, só equívocos. Nada, já dizia Péter Szondi: No seu lugar, uma época para a qual a originalidade é tudo reconhecer somente a cópia... Por pior que seja a súbita captura da esfinge há sempre a habituada potência da resposta estremecida, enganchada, exprimindo a miséria e a perigosa verdade para se salvar da tolice e ter o que bem possa merecer. É só uma primeira tábua em que possa se agarrar do insondável. Contudo, há de levar em consideração as armas em mãos inescrupulosas, a fome devorando, o monstro metendo medo, a desgraça irremediável, a sinceridade e a mentira alheia, quão falso e demasiado: o mundo saiu dos trilhos faz tempo. Mãos não se tocam, lábios não se beijam, braços não abraçam, pernas não se enroscam, pés não caminham, olhares não se veem, dengos não se procuram nem se satisfazem, corações não amam. Que raça é esta, hem? Nem sempre a união faz a força, às vezes rompe, opõe e dá num escambau cabeludo. Sobra o cuspe na cara: somos nossos próprios inimigos, uns aos outros, todos. Onde a obrigação de viver, a comida, a direção, só ódio e morte. Agora só na outra, meu. Viva! A vida é arte: vamos vidartear! Até mais ver.

 

TRÊS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

POETA - O antigo rito me possui \ Várias noites sem dormir \ depois que o rio de sangue cai \ Eu me afogo nele e renasço \ novo como uma moeda redonda \ como um sonho \ perfeito em minha dor \ lembrando apenas o suficiente do passado \ para construir a \ teia de aranha \ com a qual cubro minha cama de solteira.

EI - Novo amante: \ Quero te explicar bem que entre os seus olhos \ e os meus olhos \ só existe desejo. \Que sua pele branca às vezes escurece \ porque quem me marcou ainda está aqui. \ Gostaria de dizer seu nome e não posso \ porque quando abro a boca lembro de \ uma cama diferente, \ outros lábios bebendo meus seios. \ E quando eu choro \ e te agarro com tanta força \ eu não fico feliz, amor. \ É uma chama. II - Ok, \ estou preso, ciumento, inconstante \ e cheio de tesão \ O que você esperava? \ Que ele tinha olhos, \ glândulas, \ cérebro, trinta e três anos \ e agia \ como um cipreste no cemitério? III - Disseram que um poema \ deveria ser menos pessoal; \ Que falar de você ou de mim \ é coisa de mulher. \ O que não é sério. \ Felizmente ou infelizmente \ ainda faço o que quero. \ Talvez um dia eu use outros métodos \ e fale de forma abstrata. \ Agora só sei que se algo for dito \ deve ser sobre um assunto conhecido. \ Só sou honesto - e isso basta - \ quando falo das minhas próprias misérias e alegrias \ posso dizer que gosto de morangos, \ por exemplo, \ e que \ não gosto de algumas pessoas porque são hipócritas, cruéis \ ou simplesmente porque são estúpidas. \ Que não pedi para viver \ e que morrer não é algo que me atrai \ exceto quando estou deprimido. \ Que sou feito \ acima de tudo \ de palavras. \ Que para me expressar \ uso tinta e papel à minha maneira. \ Eu não posso evitar. \ Não importa o quanto eu tente, \ não escreverei um ensaio \ sobre a teoria dos conjuntos. \ Talvez mais tarde \ eu encontre outras formas de me expressar. \ Mas isso não importa para mim agora; \ Hoje vivo aqui e neste momento \ e sou eu \ e atuo como tal. \ De resto, lamento não ter agradado a todos. \ Acho que basta olhar para mim \ e tentar me aceitar \ com ossos, músculos, \ desejos e tristezas. \ E olhar pela porta e ver o mundo passar \ e dizer bom dia. Aqui estou eu. \ Mesmo que eles não gostem. \ Ver.

VAMOS VIVER VALÉRIA - Esqueçamos as coisas que dizem \ até aqueles que chegaram de barco \ do Adriático \ das Cíclades \ de Rodes. \Suas línguas viperinas \ , que poderiam muito bem ser melhor utilizadas em casos amorosos, \sibilaram o mal do cume do Citoro. \ Não, eles não ousam dizer seu nome, \ apenas sussurraram o meu \Sentem medo, \ são hipócritas, \ mentem com putinhas magrinhas, \ vão embora sem pagar o que é justo, que não é muito. \ Vamos viver Valéria, \ depois de milhares de anos \ haverá um poeta diferente \ que nos ensinará o nosso amor \ e criará outra Carmem \ que sonhará cheia de paixão \ Iremos longe \ Valéria \ nossa cama \ serão as estrelas.

Poemas da premiada escritora e jornalista guatemalteca Ana María Rodas. Veja mais aqui.

 

ESCREVER COM A ALMA – [...] Escreva o que te perturba, o que você teme, o que você não tem vontade de falar. Esteja disposto a ser dividido. [...] Somos importantes e nossas vidas são importantes, magníficas mesmo, e seus detalhes merecem ser registrados. É assim que os escritores devem pensar, é assim que devemos sentar-nos com a caneta na mão. Nós estávamos aqui; somos seres humanos; é assim que vivíamos. Que fique claro, a terra passou diante de nós. Nossos detalhes são importantes. Caso contrário, se não estiverem, podemos lançar uma bomba e isso não importa... Registrar os detalhes de nossas vidas é uma postura contra as bombas com sua capacidade de matar em massa, contra o excesso de velocidade e eficiência. Um escritor deve dizer sim à vida, a tudo na vida: aos copos de água, ao Kemp's meio a meio, ao ketchup no balcão. Não é tarefa do escritor dizer: “É estúpido viver numa cidade pequena ou comer num café quando se pode comer macrobióticos em casa”. A nossa tarefa é dizer um santo sim às coisas reais da nossa vida tal como elas existem – a verdade real de quem somos: vários quilos acima do peso, a rua cinzenta e fria lá fora, o enfeite de Natal na vitrine, o escritor judeu no cabine laranja em frente à amiga loira que tem filhos negros. Devemos nos tornar escritores que aceitam as coisas como elas são, passam a amar os detalhes e avançam com um sim nos lábios para que não haja mais nãos no mundo, nãos que invalidem a vida e impeçam que esses detalhes continuem. [...] Se você não tem medo das vozes dentro de você, não terá medo das críticas externas. [...] Escrevo porque estou sozinho e ando sozinho pelo mundo. Ninguém vai saber o que passou por mim... Escrevo porque há histórias que as pessoas esqueceram de contar, porque sou uma mulher tentando se destacar na minha vida... Escrevo por mágoa e como fazer magoar OK; como me fortalecer e voltar para casa, e esse pode ser o único lar verdadeiro que terei. [...] Brinque. Mergulhe no absurdo e escreva. Arrisque-se. Você terá sucesso se não tiver medo do fracasso. [...]. Trechos da obra Writing Down the Bones: Freeing the Writer Within (Shambhala, 2005), da escritora e pintora estadunidense Natalie Goldberg. Veja mais aqui.

 

A MULHER, ENFRENTANDO A VIOLÊNCIA - [...] Como isolar o conceito de gênero? Não se deve isolá-lo de seu contexto econômico, social e político. Aliás, eu utilizo cada vez menos esse conceito, porque gênero é um conceito a-político, a-histórico e bastante palatável. Tão palatável, que o Banco Mundial só financia projetos com recorte de gênero. Se fizermos referência à “ordem patriarcal de gênero”, os projetos, certamente, não serão contemplados com as verbas solicitadas. Mas o patriarcado está aí, presente em todas as relações humanas. Chegamos ao paradoxo de os homens sustentarem a existência do patriarcado e a maioria das feministas mulheres a negarem. [...] É óbvio que não existe ninguém que consiga ficar neutro diante de uma contenda. Tenho minha posição, pública e notória, mas não tenho filiação, porque não quero perder minha liberdade de pensamento. [...] Estamos entupidos de cristianismo e isso representa uma face do fundamentalismo. Odeio fundamentalismos. [...] Não há sequer uma totalidade social; mas tão somente caos. Não gosto do pensamento pós-moderno, porque é fragmentário e projeta essa fragmentação na realidade, quando, para mim, a sociedade é uma totalidade, e a crença nisso me fez progredir teoricamente. No Brasil, sou considerada a teórica feminista, o que não significa que não sei pensar em políticas públicas, nem tampouco que não existam outras estudiosas do tema, criando teorias. Estudo o tema violência com a finalidade de lançar políticas públicas para as mulheres, oferecendo-as aos governantes, cujos meios para sua implementação estão ao seu alcance. [...] Logo, não sou apenas teórica, gosto também de pensar nas práticas, embora não me vincule a nenhum movimento, mantendo muito boas relações com todos eles. Não me agrada nada, nada, esta divisão: feminismo acadêmico versus feminismo militante. No Brasil, a academia abriu, sem resistência digna de nota, suas portas à temática de gênero e, ademais, há um trânsito fácil entre acadêmicas e militantes, sem contar o fato de que muitas militantes são também acadêmicas ou, pelo menos, leem e discutem suas leituras, não sendo, por conseguinte, apenas militantes. [...] É claro que o espaço doméstico é eminentemente feminino, mas não é o espaço da privacidade. É o espaço do trabalho não reconhecido, do trabalho não pago, do trabalho doméstico. E por que razão não é o espaço da privacidade? Porque vige um regime social, político e econômico androcêntrico ou patriarcal ou viriarcal. Em outros termos, vivemos sob o patriarcado. [...] O homem cuidava da chácara, era caseiro, e a mulher era empregada doméstica. Quando ela se referia a relações sexuais com seu marido, sua linguagem relativa a seu marido era a seguinte: “quando ele quer me usar...”. Era essa a linguagem utilizada, nunca me esqueci; e já ouvi essa expressão sendo utilizada por muitas mulheres do Nordeste, que moram aqui, em São Paulo, de paulistas e de mulheres de outros recantos do país. Ou seja, elas se consideram objetos para o uso e o abuso do seu amo e senhor. [...] Hoje, já existe uma jurisprudência de cerca de mil e quinhentos casos. É, sem dúvida, importantíssima esta terceira permissiva penal para o aborto. Há muitas pessoas lutando para a aprovação da súmula vinculante, não apenas para poupar trabalho. O juiz de primeira instância é aquele que vai para o interior e não vê mais nada, não tem universidade na cidade onde atua, ele não dá aula, não estuda. Se há um conflito entre um artigo de qualquer código comercial, tributário, penal, civil, ou qualquer outra lei isolada, de uma parte, e, de outra parte, a Constituição, é obvio que prevalece a Constituição, pois é a Lei Magna do país. Mas os juízes não estudam mais, então não percebem que estamos em outro mundo, que a Constituição acabou por derrubar vários artigos do Código Civil e eles não podem atuar segundo aqueles artigos. [...] Nós não temos como estar apenas fora do gênero, nem nós mulheres, nem os homens. Como ficar fora do gênero? Isso é impossível. O que nós podemos é lidar com todas as matrizes que nós conhecemos, simultaneamente. Então, a minha maneira de criar, porque eu não sou nenhum gênio, é: eu leio um livro, absorvo aquilo que me parece interessante, e tento avançar. Tento avançar um pouco – a ciência avança milimetricamente. Uma grande descoberta é fruto do acaso, porque ninguém é tão inteligente para ter uma ideia brilhante por semana. Então, vou fazendo o que eu posso, que é caminhar assim na criação, milimetricamente. [...]. Trechos da entrevista concedida pela socióloga Heleieth Saffioti (1934-2010), extraída da publicação Heleieth Saffioti, uma pioneira dos estudos feministas no Brasil (Estudos Feministas - UFSC, 2011) de Luzinete Simões Minella. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

HOMENS & CARANGUEJOS, DE JOSUÉ DE CASTRO

[...] Da evasão daquela paisagem humana parada e monótona. Desejo imperioso de sair de tudo. De sair de dentro de si mesmo. De sair do círculo fechado da família. Do ciclo do caranguejo. Da cidade do Recife. Um desejo desesperado de arrebentar com todas as amarras que o ligam à lama pegajosa do vale do Capibaribe e às folhas viscosas do mangue. Sair vagando pelo mundo afora com os navios que passam ao largo da costa, soltando com indiferença um arrogante penacho de fumo por suas longas e grossas chaminés [...].

Trecho extraído da obra Homens e caranguejos (Bertrand Brasil, 2003), do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 PS: Esta postagem é em homenagem a dois Joões coincidentemente de Araújo: o primeiro é professor e ESO em Língua Inglesa UFRPE, João Paulo Araújo e, o segundo, bibliotecário e parceiramigo da Biblioteca Fenelon Barreto, também, João Paulo Araújo.  Procês, zis abrações.

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terça-feira, junho 16, 2020

WILLY CORRÊA DE OLIVEIRA, WANGESHI MUTU, CINEMA DE EDUARDO COUTINHO & MARJORIE PERLOFF



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: XIS NA MÃO - Não há consternação maior que o testemunho ou a constatação de injustiça. Um corpo não é para ser usurpado, nunca! Já foi demais. Por milênios e a mulher ainda ter que usar um xis na mão, quanta indignação! O direito de amar e viver, a vida é sagrada, sem abuso, sem tortura nem ataque. A incolumidade da mulher e sua vida importam como vidas indígenas importam, como a dignidade de quem trabalha para sobreviver, como quem nasce ou envelhece, como quem quer que seja daqui, dali, dacolá, independente da cor da pele, da fé que professa, de condição ou diferença, ou mais que seja. Dói ouvir de Ariano Suassuna: É muito difícil você vencer a injustiça secular, que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos. Pois é, a gente bem que podia fazer este país muito melhor, de mesmo. Vambora.

DUAS: ASSIM COMO EM CIMA É EMBAIXO – Nenhuma distinção, foi de Hermes Trismegistus. Fui pela estrada e muitos caminhos: o que havia de ser respeitado, nunca o imposto. Há quem se valha do ter, das coisas e mundos: tudo é efêmero. Melhor Dante Milano: Sábio é aquele que já entendeu que o pouco é tudo, pois só se vive aos poucos, tanto a felicidade quanto as dores. Só sei viver e muito que aprender por aí, muito!

TRÊS: MAIS VALE VIVER QUE PENAR – Entre quedas e topadas, nada demais: aprendi. O melhor foi ter encontrado o meu lugar e missão. Não fossem os tropeços nem as mazelas, nunca saberia. Se bem que muito jovem ouvi Boccaccio: A pobreza não tira a nobreza a ninguém, a riqueza sim. Por isso sorrio e sigo adiante, muito mais para aprender. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.



DITOS & DESDITOS: [...] Toda forma de afirmação artistica tem algo de político. Acredito haver uma relação próxima entre arte e política, mas isso não significa que essa relação deva pautar a arte. O multiculturalismo exerceu um efeito terrivel sobre nossa poetica. Se não se pode criticar um poeta afro-americano ou latino, tampouco se pode criticar um poeta branco, e isso elimina a possibilidade de um debate consistente. A ideia de que se deve sempre ter um representante de cada extrato racial e/ou social – um latino, um índio (ou americano nativo), uma afro-americana, uma lésbica sino-americana – foi por demais destrutiva. Não que não haja excelentes poetas nessas minorias. Além disso, o multiculturalismo teve um efeito ruim sopbre o multinacionalismo – ou seja, nos Estados Unidos, o interesse pela poesia de outro país é muito reduzido. Não se falam outras lingyuas e o termo “poesia estrangeira” é algo dúbio. Espeero poder corrigir isso de alguma maneira. [...] A crítica prevê a morte da poesia há cem anos, mas ela nunca morre, apenas se altera. A poesia como arte da linguagem é fundamental, porque serve de instrumento para se avaliar a ordem social. A linguagem que ouvimos a nossa volta está adulterada, recheada de clichês. A poesia é necessária para podermos reavivar nossa capacidade de pensar e de produzir sentidos. E há muita coisa interessante acontecendo em poesia. [...]. Trechos da entrevista concedida pela estudiosa e crítica de poesia estadunidense, Marjorie Perloff, concedida ao jornalista Régis Bonvicino (Cult, dez 1998).


O CINEMA DE EDUARDO COUTINHO
Na vida, lido mal com tudo. Aliás, não falo da minha vida pessoal. Pra encerrar esse assunto, bota que sou casado com uma pernambucana, tenho dois filhos e uma neta. Põe minha neta, senão ela fica triste. Na vida lido com culpa, como a maioria das pessoas. Os filmes, filmo sem culpa. Filmo em lugares terríveis, mas evito tratar os personagens como coitadinhos. Ou como heróis. A distância justa é nem olhar de baixo pra cima, nem de cima pra baixo... Minha filmagem vive do acaso. Claro, faço escolhas e consulto minha equipe, sempre mais otimista que eu. Em geral, sou pessimista... Às vezes, na hora da filmagem a pessoa me conta uma história dez vezes melhor do que tinha contado antes, na pesquisa.
EDUARDO COUTINHO - A obra do premiado cineasta e jornalista Eduardo Coutinho (1933-2014) reúne uma série de obras cinematográficas, desde o aclamado documentário Cabra Marcado para Morrer (1984), como tantos outros, como O Fio da Memória (1991), Um dia na vida (2010), As canções (2011), A Lei e a Vida (1992), Seis Histórias (1995), Mulheres no Front (1996), Portinari, o menino de Brodósqui (1980), bem como O pistoleiro de Serra Talhada (1976), Seis dias em Ouricuri (1976), Teodorico, o imperador do sertão (1978) e Exu, uma tragédia sangrenta (1979), entre outros. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora e artista visual queniana Wangechi Mutu, considerada globalmente como uma das artistas africanas contemporâneas e afro-futurista mais importantes dos últimos anos, uma vez que suas obras são baseadas em uma ampla variedade de modos de expressão: pinturas, colagens, vídeos, instalações, entre outras. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A música do compositor Willy Corrêa de Oliveira, autor de tendências neofolclorista que frequentou laboratórios de música eletroacústica europeia e cursos alemães de música. Ele participou do grupo Música Nova e um dos signatários do manifesto Música Nova. Foi professor da Universidade de São Paulo e é autor de dois cadernos musicais: Caderno de Peças para Piano e Cadernos de Cançõesm um cd duplo com livro-encarte gravado por diversos pianistas, além de autor do livro Passagens (Luzes no Asfalto).
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A arte do artista plástico e professor pernambucano Murilo La Greca (1899-1985) aqui e aqui.
A poesia de Tereza Halliday aqui.
Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes aqui.
Um minuto para dizer que te amo, do Matraca Grupo de Teatro aqui.
A poesia popular de Chico Pedrosa aqui.
Memórias de um senhor de engenho, do jornalista Julio Belo (1873-1951) aqui.
Acauã aqui.
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Bezerros aqui & aqui.


sexta-feira, fevereiro 14, 2020

LUCILLE CLIFTON, LOU SALOMÉ, CATARINA EUFÉMIA, MILLIE BROWN & SANDRO AGRELLI


O BRASIL DE HOJE EM DIA TÃO SEM POESIA – UMA DA VEZ – As manchetes do noticiário de hoje em dia são tão iguais em tragédias espetacularizadas e sobrecarregadas da maior estultice, que nem dá mesmo para levar a sério ou coisa que valha! Ora, eu mesmo já desliguei dos veículos de comunicação de massa brasileiros faz tempo (um ou outro gato pingado que vale a pena conferir e isso nos canais alternativos, na tevê, rádio, jornais, tudo a mesma seboseira). No mais, coisa de baixíssimo nível. Afora o reino da estupidez instaurada pela trupe do energúmeno Coisonário com suas sandices & minions evangélicos & milicianos & outros da laia (e que já são manchetes majoritárias para o nosso mal-estar, apesar de tão risíveis, para não dizer tragicômicas), só aparece o de sempre: calamidades, violência, lengalenga, corrupção e o que der para tapar buraco de reportagem lida, escrita ou televisada. E tudo com letras garrafais bem coloridas. Mesmo assim, tudo acobertando as causas da coisa feita, só dando conta das consequências. Dá até a impressão que a vida perdeu completamente a poesia de viver, apesar dos poetas. Afinal, para quê serve mesmo a poesia, hem? Já dizia Cocteau: Tenho certeza de que a poesia é indispensável, mas não me pergunte por quê. Está dito. FALAR NISSO, DUAS: Outra coisa. O poeta Dante Alighieri (1265-1321) não era mesmo lá um cara de sorte. Narigudo feioso, achou, primeiro, de se apaixonar pela belíssima Beatrice Portinari (1266-1290), a Beatriz amada (a Bice, musa íntima só dele). Na verdade, uma paixão não correspondida que o tornou famoso por ter sido o mote glosado de sua imortal obra Divina Comédia. A sua Beatriz findou casando com o filho de um rico banqueiro e o deixou a ver navios, atravessando infernos e purgatórios. Ela morreu logo após contrair núpcias com o seu amado, fazendo com o que bardo vivesse, daí por diante, numa viuvez espiritual. Até que um dia, em sua profunda solidão, ele achou de desposar uma nobre, a Gemma Donatti (1265-1342), com quem teve quatro filhos. Ao que parece, ele aguentou calado o que seria uma reedição piorada do que foi Xantipa para Sócrates durante o matrimônio, pois não há, da parte dele, nada escrito a respeito de sua vida conjugal nem nada. Porém, críticas impiedosas contra ela foram desferidas por não menos que Boccaccio, tratando-a por megera desalmada. Danado, hem? Outros historiadores e biógrafos confirmam. Se assim é, coitado do Dante. Vamos pra outra! TRÊS, ESSA É PRA FECHAR – Pois é, fechando mesmo esse papo de tempo sem poesia, nada melhor que trazer uma sacada do Drummond em Dois no Corcovado, do seu 70 historinhas: Era pra valer. Amanhã ou depois serão recolhidos – sabemos nós, não eles. Tempo não se mede pelo relógio, mas pelo vácuo de comunicação, pela expectativa sem segurança. E nessa situação, insignificante para nós, ilimitada para eles, dois homens descobrem-se um ao outro. Taí. E vamos aprumar a conversa. Ponto final. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. Pois, nos seio mesmo da paixão, nunca se deve tratar de "conhecer perfeitamente o outro": por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro. É terrível de dizer, mas, no fundo, o amante não está querendo saber "quem é" em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível... os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério. Só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro. [...]. Pensamento da escritora russa Lou Andreas-Salomé (1861-1937). Veja mais aqui e aqui.

“QUERO APENAS PÃO E TRABALHO. JÁ AGORA MATA-ME” – A ceifeira portuguesa, mãe de três filhos, Catarina Eufémia (Catarina Efigénia Sabino Eufémia - 1928-1954), em uma greve de assalariadas rurais, foi assassinada pelo tenente Carrajola da GNR em Baleizão, perto de Beja, no Alentejo, quando explicou que só queriam “pão e trabalho”. Catarina tinha ao colo o filho de oito meses quando foi baleada à queima-roupa. Quando as autoridades tentaram fazer o funeral às escondidas, os populares correram para o local protestando. Seguiu-se um espancamento violento, incluindo aos familiares da falecida, e o caixão foi levado à pressa para Quintos, terra do marido de Catarina. Nove camponeses foram acusados de desrespeito à autoridade e condenados a dois anos de prisão com pena suspensa. O tenente Carrajola foi transferido para Aljustrel e nunca foi a julgamento. Em uma decisão judicial, encontra-se que o militar assassino acabou por ter dado um pequeno toque com a mão na cara da camponesa e a arma disparou sozinha. Contudo, de acordo com a autópsia, Catarina foi atingida por “três balas, à queima-roupa, pelas costas, atuando da esquerda para a direita, de baixo para cima e ligeiramente de trás para a frente, com o cano da arma encostada ao corpo da vítima. O agressor deveria estar atrás e à esquerda em relação à vítima”. Depois, o tenente Carrajola foi transferido para Aljustrel, mas nunca veio a ser sequer julgado em tribunal, falecendo impunemente em 1964. Ela, por sua vez, transformou-se em símbolo da luta contra a exploração, a repressão e ao fascismo, a que estavam sujeitos os trabalhadores portugueses durante a ditadura fascista de António Salazar. Para ela, entre tantos poemas, este Laivos de Aquentejo, da professora Luísa Vilão Palma: O panal era branco em rendas de suor, como a cal que a Ti Liberta fervia no azado, ao fundo da rua do monte. O ervaçal no empedrado. O monte era o rumo dos dias nas tardes calmosas. Deixava a tarimba ao luzir do buraco, enquanto o cão ansiava a bôla de farelo, impaciente. A cauda do animal agitava-se na cadência dos passos da mulher. O patrão podia aparecer a qualquer hora. O cereal amassado a crescer. O forno em labaredas de coração apaixonado na metáfora do escritor. — Bom dia, Ti Liberta, já soube da desgraça? -Oh! home, o que dizes tu? O olhar da mulher fraquejou, começou a toldar-se, fundindo-se na sombra da azinheira solitária que o artista empresta à tela camponesa as tuas mãos em gesto ritmado no movimento da foice as paveias soam a queixume de quem implora o pão... hás de fazer do teu lenço vermelho a única bandeira viva sobre a terra... Sim, a desgraça, ti Liberta. Ela caiu. Ali mesmo. Entre a terra e o céu. Lá. Pelo Maio calmoso das aceifas escureceu o sol tardiamente, beijando-lhe a face pela última vez. Lá. Onde a imensidão. Vagueiam gestos ousados em lágrimas de sangue da mulher. O cereal amassado a crescer. O forno em labaredas de ódio no retrato da tirania. Ti Liberta, abra os olhos. Já faz tempo que a ceifeira, na voz de todas as ceifeiras, deixou rolar a foice entre o trigal, desesperada. Foi por mor do acrescento de uns tostões à jorna. Ficou tamanho eco no infinito da gente que lutou até à exaustão. A tua foice, Catarina. Alentejo, vestimos os teus panos. Tu matas-nos a sede. Veja também o poema da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Anderson (1919-2004) aqui.

A POESIA DE LUCILLE CLIFTON
DEIXE QUE HAJA UM NOVO FLORESCER: deixe que haja um novo florescer / nos campos deixe os campos / se tornarem maduros para os homens / deixe os homens se manter carinhosos / através do tempo deixe o tempo / ser arrancado à força da guerra / deixe a guerra ser vencida / deixe o amor acontecer / até o fim.
A LIÇÃO DAS FOLHAS CADENTES: as folhas acreditam que / tal desprendimento é amor / tal amor é a fé / tal fé é a graça / tal graça é deus. / eu concordo com as folhas.
POEMA EM LOUVOR À MENSTRUAÇÃO: se há um rio / mais formoso que este / brilhante como o sangue / borda vermelha da lua se / há um rio / mais fiel que este / voltando a cada mês / ao mesmo delta se há / um rio / mais bravo que este / vindo e vindo numa onda / de paixão, de dor se há / um rio / mais antigo que este / filho de eva / mãe de caim e de abel se há / no universo um rio semelhante se / há água em algum lado / mais poderosa que este selvagem / água / reza para ele também flua / em animais / formoso e fieis e antigo / e femininos e bravos.
AS MULHERES PERDIDAS: eu preciso saber os nomes delas / aquelas mulheres com quem eu podia ter andado / confiante do jeito que os homens andam em grupos / gingando os braços, e aqueles / outros incomodando as mulheres às quais teria me juntado / depois de uma longa rodada de conversa fiada / do que teríamos chamado umas às outras, gargalhando, / fazendo piadas tomando nossa cerveja? onde estão minhas galeras, / meus times, minhas irmãs deslocadas? / todas as mulheres que poderiam ter me conhecido, / em que lugar do mundo estão os nomes delas?
HOMENAGEM AOS MEUS QUADRIS: estes quadris são grandes quadris / eles precisam de espaço para / mover-se em volta. / eles não cabem em pequenos / lugares insignificantes. estes quadris / são quadris livres. / eles não gostam de ser retidos. / estes quadris nunca foram escravizados, / eles vão para onde querem ir / fazem o que eles querem. / estes quadris são quadris poderosos. / estes quadris são quadris mágicos. / eu os conheço / por colocar um feitiço no homem e / fazê-lo rodar como um pião!
LUCILLE CLIFTON - Poemas da escritora estadunidense Lucille Clifton (1936-2010), herdeira da tradição afro-americana com poemas feministas e com ênfae no corpo feminino.
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TRÊS POEMAS DE MARGENS DO MEU RIO, SANDRO AGRELLI
SOU MEU ESPELHO: Toda vez que me olho, sempre sou o mesmo. / Qual sol que se põe todo dia, qual a lua que brilha em sua luz. / Como as chuvas que caem sobre a terra, sou como Deus que não muda... / Quando me olho / sou as rochas agudas que apontam ao céu / sou sempre eterno sem passado / sou o que é meu / sou a única imagem de mim / sou mesmo o que sou / sem começo e sem fim.
O COITO DA VIAGEM: Como é bonito o infinito / quem é Poeta é quem vê / mais lindo o seu grito / ecoando de prazer. / Como é bonito seus olhos na luz da noite / no desejo dos seus lábios vaginais / quando se perde nas carícias do meu açoite / vibrando na emoção de quem quer mais... / Bonita é tua língua francesa / no rastro do meu Fênix / que me arde o sangue /no gozo do nosso fogo...
PÉ QUEBRADO – Uma vez dois Caminhos marcaram um encontro / e se encontraram. / Se olharam e se gostaram / e com tanta fome e sede pelo encontro / Um comeu Um / e o Outro comeu o Outro.
SANDRO AGRELLI - Poemas extraídos do livro Margens do meu rio: Poemas e poesias do filósofo Agrelli (Bagaço, 2019), do poeta, compositor e cantor Sandro Agrelli. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Queria usar meu corpo para criar arte. Queria criar algo que viesse de dentro, que fosse bonito, cru e ao mesmo tempo incontrolável.
MILLIE BROWN – A arte da pintora e artista performática britânica Millie Brown, que ganhou projeção mundial com a performance Suspended by Optimism, realizada em 2014, no Art Basel Miami Beach, quando ela ficou 4 horas pendurada por balões de gás hélio, refletindo sobre viagem astral e o espaço físico. Já na performance Wilting Point, realizada numa galeria no Refinery Hotel of New York, ela ficou deitada em meio a uma cama de flores por 7 dias, sem comida, apenas com água, enquanto as flores murchavam ao seu redor. Veja mais aquiaqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A poesia do poeta, folclorista, pintor, ator, teatrólogo, cineasta e militante Solano Trindade (1908—1974) aqui.
Evangelho na taba de Osman Lins (1924-1978) aqui.
A língua dos Três Pppês de Jomar Muniz de Brito aqui.
A lenda da Emparedada aqui.
A arte de Ayssa Bastos aqui.
A música de Fulô Rasteira aqui.
O município de Sirinhaém aqui, aqui & aqui.
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ABICINE – Oficina de Cineclube, inscrições abertas na Biblioteca Fenelon Barreto aqui & aqui.


segunda-feira, julho 15, 2019

BOCCACCIO, NADINE GORDIMER, JULIA FISHER, VICTORIA MONTESINOS, ART-MAIL ARGENTINA, DIA DO HOMEM & CARTA DE JULHO


CARTA DE JULHO - Estou de volta sem nunca ter ido. Essa a sensação das canções e versos imaginários: nunca tomei conhecimento das minhas limitações, um tolo ousado à toa. No máximo, privei apenas da companhia dos meus anônimos abantesmas que saltam do inopinado para peiticarem, uns aos outros, e comigo, no estrelato das minhas invencionices entre paredes, páginas e escuridades. Riem como se gozassem da eternidade da minha criação. Ignoram que sucumbi ao ostracismo, beijado por engano, saldo estornado, de parecer um ciclope sem nariz ou horroroso asco, afinal tudo é tão patético, falso decepcionante, para quem é sempre tarde demais e a verdade leva ao desespero. Grosso modo, abrir mão das minhas doidices, nunca. Nem poderia ter sonhado tanto entre tragédias pessoais e turbulências históricas. Sou tal o meu país: tudo para ser bem-aventurado, na horagá, reduzido a flatulências, eructações, coprólitos, conspurcações. Posso ter ficado tantã por amargar o fracasso ao ser mal recebido depois da aventura dos sonhos, como se condenado ao esquecimento ainda em vida. Nem esperaram que eu morresse de mesmo, uma lembrança sequer. Entre os meus detratores, tudo é recusa e nem revelei o que sinto e já me estranham: a suspeita das minhas insanidades, minhas exóticas preferências aos olhos dos outros, o caráter incomum, repugnante, sei lá. Nunca tive receita para nada, nem me enquadrei direito no molde dos ditos civilizados. Minhas obsessões, nem mesmo saberia. Fiquei de boca aberta com os que se celebrizaram em reunir posses e fortunas, como se queimassem dolosamente álbuns de recordações em que juraram eterno estreitamento, ah, isso foi que não sabia, porque cultuam até hoje a banalidade de arrancar uma árvore assim do nada, acabar com a vida do semelhante por vingança ou prazer, maldizer de tudo: os do contra e, às vezes, até os a favor pregam tantas peças, os reconheço malditos pregadores furiosos da fé, que se benzem aos mínimos sinais de agouros, com suas fiéis nos céus que abominam minorias étnicas e sexuais dos seus infernos. Ah, nada demais se só acumulei perdas, a travar conversas com mortos ou distantes de décadas, não tenho a quem confiar pouquíssimas alegrias ou abissais tristezas. A vida prossegue apesar de mim. Sei, pus tudo a perder por amar demais, querer demais, escolhas que fiz na vida - mesmo ao acertar o alvo, não era, findava fora de órbita completamente errado, como quem roda o mundo sem sair do lugar, à procura o Homem de Java, quem sabe me diga algo de primordial, mesmo que eu não saiba javanês, zeros e uns traduzem agora tudo, qualquer código, vai que cola, a bronca a gente deixa para depois. Talvez aprenda o riscado: para se dar bem não precisa ser o máximo tampa nisso ou naquilo, hoje fazer de conta já basta, empurrar com a barriga, levar nas coxas, é o suficiente. Sempre me disseram: saber demais endoida. Nunca soube nada, precisava aprender, uma sombra movente sobre a Terra e o meu sangue pisado por me ver responsável por certas coisas e tais, as quais nem sei se mesmo da minha alçada, perplexo diante do amor degradado. E alguém me diz que sou ancião, nem havia me dado conta disso. É. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Eles se apaixonaram no país dela. Encontraram-se lá. O táxi em que ele estava derrapou e bateu no carro dela. [...] Um bafafá por nada. – Disse isso como se fosse algo que ele e ela, em suas categorias de cliente de táxi e proprietária de carro, pudessem avaliar à vista do nível de indignação do paquistanês, ou qualquer que fosse a nacionalidade do motorista do táxi [...] Um estranho passo na vida, muito longe do que era esperado entre amigos e família. Entretanto, os poderosos países europeus estão acostumados a todo tipo de invasão, tanto beligerante quanto pacífica, e esse estrangeiro, que entrara legalmente, representava grandes negócios e era a prova individual de que o mundo aceitara o arrependimento alemão em relação ao passado [...] Sentia-se feliz de ver que estava entendendo tudo o que se dizia na língua dele, ainda que não pudesse usá-la com confiança suficiente para se fazer ouvir [...] Ao redor da esposa as referências vão e voltam, num jargão de grupo – toda roda tem isso, algo da experiência comum. Era a mesma coisa entre os amigos dela, em sua vida pregressa na Alemanha. Piadas que você não entende mesmo que conheça as palavras; que só entende se souber o que ou quem está na berlinda. Ela tampouco sabe as frases, as palavras afetuosas, condescendentes, que são o meio de expressão de gente que adapta e mistura línguas, exclamações, expressões idiomáticas numa espécie de inglês eu não é usado por gente instruída como eles [...] Eles usavam a palavra em várias formas diferentes; ela procurou no dicionário, mas á o significado era aquilo “que causa espanto, que causa medo, que assusta, que causa admiração por ser muito bom ou agradável” [...] Ela estava sozinha e riu – sem saber do quê. Continuava sentada ao lado da mulher e do marido abraçados, celebrando um ao outro, naquele jeito fácil dos que têm antigos laços de intimidade codificados em diálogos na língua materna, libertados pelo vinho e pelos bons momentos vividos por todos. Ela ria quando os outros riam. Depois sentava calada e ninguém reparava nela. É que ela não conhecia a língua [...].
Trechos da obra Beethoven era 1/16 negro e outros contos (Companhia das Letras, 2007), da escritora sul-africana e Prêmio Nobel de Literatura em 1991, Nadine Gordimer (1923-2014). Veja mais aqui.

A MÚSICA DE JULIA FISHER
Como violinista, tenho mais comunicação com a orquestra; afinal, tenho atrás de mim outros 20 colegas de arco e posso tocar os tutti sinfônicos com eles. Quando toco piano, penso de modo mais melódico do que os pianistas, por causa da minha formação como violinista. E quando toco violino, penso mais polifonicamente do que a maioria dos violinistas.
Curtindo os álbuns Poème (Deccca, 2011), Paganini (Decca, 2010) & Sarasate (Decca, 2014), da violinista e pianista alemã Julia Fisher, que é professora na Universidade de Música e Artes Cênicas de Munique, Alemanha. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Meu trabalho propõe um diálogo sobre uma mistura cultural baseada em experiências pessoais vividas e compartilhadas com pessoas e idiossincrasias diferentes. O objetivo é convidar o espectador a explorar e se comunicar com um universo de memórias e emoções onde, em todas as formas sensoriais e fusões de cores, há uma nova afirmação substancial.
A arte da artista visual mexicana Victoria Montesinos. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE BOCCACIO
Os ignorantes julgam a interioridade a partir da exterioridade.
A obra do poeta e critico literário italiano Giovanni Boccaccio (1313-1375) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
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ESTAMOS NA ARGENTINA
Participamos da Convocatória Internacional de Art-Mail que se encontra em exposição na secretária universitária da Universidad Nacional de San Martin (UNSAM), em Buenos Aires, Argentina. Veja mais aqui.
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O MELHOR DO DIA DO HOMEM É SABER QUE TODO DIA É DIA DA MULHER
Arte do artista visual indiano Afsar Chandroth
Confira aqui.


NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...